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Por ele Mesmo

Fernando Pessoa

Cancioneiro

Natal... Na província neva.

Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

(10-8-1929)

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sôbre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do ocaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gôzo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som branco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

(5-9-1933)

Momento imperceptível,
Que coisa fôste, que há
Já em mim qualquer coisa
Que nunca passará?
Sei que, passados anos,
O que isto é lembrarei,
Sem saber já o que era,
Que até já o não sei.

Mas, nada só que fôsse,
Fica dêle um ficar
Que será suave ainda
Quando eu o não lembrar.

(18-9-1933)

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

(19-9-1933)

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei

Que coisas eu sonhei.

Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.

Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.

(20-9-1933)
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente
Por a alma não ter raízes
De viver de ver sòmente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.

Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem
O resto é só terra e céu.

Tenho dó das estrêlas
Luzindo há tanto tempo,
Que coisas eu sonhei.

Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.

Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.

(20-9-1933)

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente
Por a alma não ter raízes
De viver de ver sòmente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.

Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem
O resto é só terra e céu.

Tenho dó das estrêlas
Luzindo há tanto tempo,

Há tanto tempo...

Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço
Das coisas
De tôdas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?
De um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir...

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão -
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

XI

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.

Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.

Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...

Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...

O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

E, abrindo as asas sôbre Renovar,
A êrma sombra do vôo começado
Pestaneja no campo abandonado...

O Menino da Sua Mãe
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!

(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome o mantivera:
"O menino de sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.

Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.

Êle é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece,
O menino da sua mãe.

TOMAMOS A VILA DEPOIS DE UM INTENSO BOMBARDEAMENTO

A criança loura
Jaz no meio da rua.

Tem as tripas de fora
E por uma corda suaUm comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.

Luz um pequeno peixe
- Dos que bóiam nas banheiras -
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.

Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?

DISPERSAS

Além-Deus

(1913?)

I

ABISMO

Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece estar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando -
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.

Tudo de repente é ôco -
Mesmo o meu estar a pensar.

Tudo - eu e o mundo em redor -
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.

Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...

E súbito encontro Deus.

II

PASSOU

Passou, fora de Quando,
De Porquê, e de Passando...,
Turbilhão de Ignorado,
Sem ser turbilhonado...,
Vasto por fora do Vasto
Sem ser, que a si se assombra...

O universo é o seu rasto...

Deus é a sua sombra...

III

A VOZ DE DEUS

Brilha uma voz na noute...

De dentro de Fora ouvi-a..

Ó Universo, eu sou-te...

Oh, o horror da alegria
Dêste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de idéia e de nome
Em mim, e a voz: Ó mundo,
Sermente em ti eu sou-me...

Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.

IV

A QUEDA

Da minha idéia do mundo
Caí...

Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser...

Escada absoluta sem degraus...

Visão que se não pode ver...

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...

Clarão de Desconhecido...

Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...

V

BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO

Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de fôlhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando - o pombal
Está-ljes sempre à direita, ou é real?
Deus é um grande Intervalo,
Mas entre que e quê?
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?

Erro-me... E o pombal elevado
Está em tôrno na pomba, ou de lado?

À Memória do Presidente-Rei Sidônio Pais

(27-2-1920)

Longe da Fama e das espadas,
Alheio às turbas êle dorme.

Em tôrno há claustros ou arcadas?
Só a noite enorme.

Porque para êle, já virado
Para o lado onde está só Deus,
São mais que Sombra e que Passado
A terra e os céus.

Ali o gesto, a astúcia, a lida,
São já para êle, sem as ver,
Vácuo de ação, sombra perdida,
Sôpro sem ser.

Só com sua alma e com a treva,
A alma gentil que nos amou
Inda êsse amor e ardor conserva?
Tudo acabou?
No mistério onde a Morte some
Aquilo a que a alma chama a vida,

Que resta dêle a nós - só o nome
E a fé perdida?
Se Deus o havia de levar,
Para que foi que no-lo trouxe -
Cavaleiro leal, do olhar
Altivo e doce?
Soldado-rei que oculta sorte
Como em braços da Pátria ergueu,
E passou como o vento norte
Sob o êrmo céu.

Mas a alam acesa não aceita
Essa morte absoluta, o nada
De quem foi Pátria, e fé eleita,
E ungida espada.

Se o amor crê que a Morte mente
Quando a quem quer leva de novo,
Quão mais crê o Rei ainda existente
O amor de um povo!
Quem êle foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei.

A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!
Não é com fé que nós não cremos

Que êle não morra inteiramente.

Ah, sobrevive! Inda o teremos
Em nossa frente.

No oculto para o nosso olhar,
No visível à nossa alma,
Inda sorri com o antigo ar
De fôrça calma.

Ainda de longe nos anima,
Inda na alma nos conduz -
Gládio de fé erguido acima
Da nossa cruz!
Nada sabemos do que oculta
O véu igual de noite e dia.

Mesmo ante a Morte a Fé exulta:
Chora e confia.

Apraz ao que em nós quer que seja
Qual Deus quis nosso querer tôsco,
Crer que êle vela, benfazeja
Sombra conosco.

Não sai da nossa alma a fé
De que, alhures que o mundo e o fado,
êle inda pensa em nós e é
O bem-amado.

Tenhamos fé, porque êle foi.

Deus não quer mal a quem o deu.

Não passa como o vento o herói
Sob o êrmo céu.

E amanhã, quando queira a Sorte,
Quando findar a expiação,
Ressurrecto da falsa morte,
Êle já não.

Mas a ânsia nossa que incarnara,
A alma de nós de que foi braço,
Tornará, nova forma clara,
Ao tempo e ao espaço.

Tornará feito qualquer outro,
Qualquer cousa de nós com êle;
Porque o nome do herói moprto
Inda compele;
Inda comanda, e a armada ida
Para os campos da Redenção,
Às vezes leva à frente, erguida
'Sprada, a Ilusão.

E um raio só do ardente amor,
Que emana só do nome seu,
Dê sangue a um braço vingador,

Se esmoreceu.

Com mais armas que com Verdade
Combate a alma por quem ama.

É lenha só a Realidade:
A fé é a chama.

Mas ai, que a fé já não tem forma
Na matéria e na côr da Vida,
E, pensada, em dor se transforma
E fé perdida!
Pra que deu Deus a confiança
A quem não ia dar o bem?
Morgado da nossa esperança,
A Morte o tem!
Mas basta o nome e basta a glória
Para êle estar conosco, e ser
Carnal presença de memória
A amanhecer;
Spectro real feito de nós,
Da nossa saudade e ânsia,
Que fala com oculta voz
Na alma, a distãncia;
E a nossa própria dor se torna
Uma vaga ânsia, um 'sperar vago,

Como a êrma brisa que transtorna
Um êrmo lago.

Não mente a alma no coração.

Se Deus o deu, Deus nos amou.

Porque êle pôde ser, Deus não
Nos desprezou.

Rei-nato, a sua realeza,
Por não podê-la herdar dos seus
Avós, com mística inteireza
A herdou de Deus;
E, por direta consonância
Com a divina intervenção,
Uma hora ergueu-nos alta e ânsia
De salvação.

Toldou-o a Sorte que o trouxera
Outra vez com noturno véu.

Deus p'ra que no-lo deu, se era
P'ra o tornar seu?
Ah, tenhamos mais fé que a esp'rança!
Mais vivo que nós somos, fita
Do Abismo onde não há mudança
A terra aflita.

E se assim é; se, desde o Assombro

Aonde a Morte as vidas leva,
Vê esta pátria, escombro a escombro,
Cair na treva;
Se algum poder do que tivera
Sua alma, que não vemos, tem,
De longe ou perto - por que espera?
Por que não vem?
Em mova forma ou novo alento,
Que alheio pulso ou alma tome,
Regresse como um pensamento,
Alma de um nome!
Regresse sem que a gente o veja,
Regresse só que a gente o sinta -
Impulso, luz, visão que reja
E a alma pressinta!
E qualquer gládio adormecido,
Servo do oculto impulso, acorde,
E um novo herói se sinta erguido
Porque o recorde!
Governa o servo e o jogral.

O que íamos a ser morreu.

Não teve aurora a matinal
'Strêla do céu.

Vivemos só de recordar.

Na nossa alma entristecida
Há um som de reza a invocar
A morta vida;
E um místico vislumbre chama
O que, no plaino trespassado,
Vive ainda em nós, longínquq chama -

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