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Por ele Mesmo

Fernando Pessoa

O DESEJADO

Sim, só há a esp'rança, como aquela
- E quem sabe se a mesma? - quando
Se foi de Aviz a última estrêla
No campo infando.

Nova Alcacer-Kibir na noite!
Novo castigo e mal do Fado!
Por que pecado novo o açoite
Assim é dado?
Só resta a fé, que a sua memória
Nos nossos corações gravou,
Que Deus não dá paga ilusória
A quem amou.

Flor alta do paul da grei,
Antemanhã da Redenção,
Nêle uma hora incarnou el-rei

Dom Sebastião.

O sôpro de ânsia que nos leva
A querer ser o que já fomos,
E em nós vem como em uma treva,
Em vãos assomos,
Bater à porta ao nosso gesto,
Fazer apêlo ao nosso braço,
Lembrar ao sangue nosso o doesto
E o vil cansaço.

Nêle um momento clareou,
A noite antiga se seguiu,
Mas que segrêdo é que ficou
No escuro frio?
Que memória, que luz passada
Projeta, sombra, no futuro,
Dá na alma? Que longínqua espada
Brilha no escuro?
Que nova luz virá raiar
Da noite em que jazemos vis?
Ó sombra amada, vem tornar
A ânsia feliz.

Quem quer que sejas, lá no abismo
Onde a morte a vida conduz,

Sê para nós um misticismo
A vaga luz.

Com que a noite êrma inda vazia
No frio alvor da antenhanhã
Sente, da esp'rança que há no dia,
Que não é vã.

E amanhã, quando houver a Hora,
Sendo Deus pago, Deus dirá
Nova palavra redentora
Ao mal que há,
E um verbo ocidental
Incarnado em heroísmo e glória,
Traga por seu broquel real
Tua memória!
Precursor do que não sabemos,
Passado de um futuro a abrir
No assombro de portais extremos
Por descobrir,
Sê estrada, gládio, fé, fanal,
Pendão de glória em glória erguido!
Tornas possível Portugal
Por teres sido!
Não era extinta a antiga chama

Se tu e o amor pudeream ser.

Entre clarins te a glória aclama,
Morto a vencer!
E, porque fôste confiando
Em QUEM SERÁ porque tu fôste,
Ergamos a alma, e com o infando
Sorrindo arroste,
Até que Deus o laço solte
Que prende à terra a asa que somos,
E a curva novamente volte
Ao que já fomos.

E no ar de bruma que estremece
(Clarim longínquo matinal!)
O DESEJADO enfim regresse
A Portugal!

TERCEIRO TEMA
A FALÊNCIA DO PRAZER E DO AMOR

(extractos)

I

Beber a vida num trago, e nesse trago
Tôdas as sensações que a vida dá
Em tôdas as suas formas [...]

Dantes eu queria

Embeber-me nas árvores, nas flôres,
Sonhar nas rochas, mares, solidões.

Hoje não, fujo dessa idéia louca:
Tudo o que me aproxima do mistério
Confrange-me de horror. Quero hoje apenas
Sensações, muitas, muitas sensações,
De tudo, de todos neste mundo - humanas,
Não outras de delírios panteístas
Mas sim perpétuos choques de prazer
Mudando sempre,
Guardando forte a personalidade
Para sintetizá-las num sentir.

Quero
Quero afogar em bulício, em luz, em vozes,
- Tumultuárias [cousas] usuais -
O sentimento da desolação
Que me enche e me avassala.

Folgaria

De encher num dia, [...] num trago,
A medida dos vícios, inda mesmo
Que fôsse condenado eternamente -
Loucura! - ao tal inferno,
A um inferno real.

II

Alegres camponeses, raparigas alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!

Nem em criança ser predestinado,
Alegre eu era assim; no meu brincar,
Nas minhas ilusões da infância, eu punha
O mal da minha predestinação.

Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei -
Eu, Fausto - aquêles que não sentem bem
Tôda a extensão da felicidade,
Gozá-la?

Ferve a revolta em mim

Contra a causa da vida que me fêz
Qual sou. E morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Só prazer e só gozo, só amor,
Só inconsciência em estéril pensamento
E desprêzo [...]
Mas eu como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.

III

Melodia vaga
Para ti se eleva
E, chorando, leva
O teu coração,
Já de dor exausto,
E sonhando o afaga.

Os teus olhos, Fausto,
Não mais chorarão.

IV

Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído,
Só sinto um vácuo imenso onde alma tive...

Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...

Pertenço à estúrdia e à crápula da noite
Sou só delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbedo, por cada
Tom da luz no amplo bôjo das botelhas.

Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.

E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo, em tôrno
Da minha alma, os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de perscrutar-me.

V

Perdido

No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dêle à realidade humana e clara
Cheia de luz [...]
Por isso não concebo alegremente
Mas com profunda pesadez em mim
Esta alegria, esta felicidade,

Que odeio e que me fere [...]

Sinto como um insulto esta alegria
- Tôda a alegria. Quase que sinto
Que rir, é rir - não de mim, mas, talvez,
Do meu ser.

XXI

- Amo como o amor ama.

Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.

Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?

Quando te falo, dõi-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.

Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fôra surda,
Te ouvisse todo com o coração.

Se te vejo não sei quem sou: eu amo.

Se me faltas [...]
...Mas tu fazes, amor, por me faltares

Mesmo estando comigo, pois perguntas -
Quando é amar que deves. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fôsse
Alguém pra te falar de quem tu amas.

Quando te vi amei-te já muito antes.

Tornei a achar-te quando te encontrei.

Nasci pra ti antes de haver o mundo.

Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fôsse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.

E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma 'strada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é tôda humana.

Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe...

Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
-Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo dêste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?

XXII

Pra que te falar? Ninguém me irmana
Os pensamentos na compreensão.

Sou só por ser supremo, e tudo em mim
É maior.

XXIII

Reza por mim! A mais não me enterneço.

Só por mim mesmo sei enternecer-me,
Sob a ilusão de amar e de sentir
Em que forçadamente me detive.

Reza por mim, por mim! Eis a que chega
A minha tentativa [em] querer amar.

Inéditas

SÁ CARNEIRO

1934

Nesse número do Orpheu que há de ser feito com rosas e estrêlas em um mundo novo.

Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...

Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei certa e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como fôr, segue a viagem.

Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.

Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão

Por cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.

Há almas pares, as que conheceram
Onde os sêres são almas.

Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.

Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.

É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí embaixo, no Café Arcada -
Quase no extremo dêste [...]
Aí onde escreveste aquêles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes do Orpheu.

Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.

[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,

Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.

Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de têrmos companhia -
O amigo como êsse que a falar amamos.

(14-10-1930)

Se tudo o que há é mentira
É mentira tudo o que há.

De nada nada se tira
A nada nada se dá.

Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou nao com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se nao é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito
Fana a rosa nao colhida
Como a rosa posta ao peito.

Mais vale é o mais valer,
Que o resto urtigas o cobrem

E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.

O Peso de Haver o Mundo

(19-5-1932)

Passa no sôpro da aragem
Que um momento o levantou
Um vago anseio de viagem
Que o coraçao me toldou.

Será que em seu movimento
A brisa lembre a partida,
Ou que a largueza do vento
Lembre o ar livre da ida?
Nao sei, mas subitamente
Sinto a tristeza de estar
O sonho triste que há rente
Entre sonhar e sonhar.

(14-6-1932)

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.

Meu coraçao faz sorrir
Meu coraçao a chorar.

Depois de parar e andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é nao conseguir.

(17-6-1932)

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.

Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

Sao coisas no alto que sao
Enquanto a vista as conhece,
Depois sao sombras que vao
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coraçao ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?

(28-3-1930)

Quem vende a verdade, e a que esquina?
Quem dá a hortela com que temperá-la?
Quem traz para casa a menina

E arruma as jarras da sala?
Quem interroga os baluartes
E conhece o nome dos navios?
Dividi o meu estudo inteiro em partes
E os títulos dos capítulos sao vazios...

Meu pobre conhecimento ligeiro,
Andas buscando o estandarte eloquente
Da filarmônica de um Barreiro
Para que nao há barco nem gente.

Tapeçarias de parte nenhuma
Quadros virados contra a parede...

Ninguém conhece, ninguém arruma
Ninguém dá nem pede.

Ó coraçao epitélico e macio,
Colcha de croché do anseio morto,
Grande prolixidade do navio
Que existe só para nunca chegar ao pôrto.

Livro do Desassossego

Carta a Mário de Sá-Carneiro

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo.

Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo
de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um
muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e
é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas
nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca. Tudo isto aconteceu
há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo,
que sou a crianca triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve
brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje,
dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janela caladas do meu sequestro, atiraram com todos os
baloucos para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem
a ideia de mim fugido pode, na minha imaginacão, ter baloucos para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como
à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida
aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num
livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que
as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você
sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena
- chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste
momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.

Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a, me demore a
copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas
isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com
que a sinto.

As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já
antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma
caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um
gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abracos do seu, sempre muito seu,

FERNANDO PESSOA

P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de sipróprio que dele são tao características...

Você acha-me razão, não é verdade?

(em 14 de Marco de 1916)

Carta a João Gaspar Simões

(...) Estou começando - lentamente, porque não é coisa que possa fazer-se com rapidez - a classificar e rever os meus papéis; isto com o fim de publicar, para fins do ano em que estamos, um ou dois livros. Serão provavelmente ambos em verso, pois não conto poder preparar qualquer outro tão depressa, entendendo-se preparar de modo a ficar como eu quero.

Primitivamente, era minha intencão começar as minhas publicações por três livros, na ordem seguinte: (1) Portugal, que é um livro pequeno de poemas (tem 41 ao todo), de que o Mar Português (Contemporânea 4) é a segunda parte; (2) Livro do Desassosego (Bernardo Soares, mas subsidiariamente, pois que o B. S. não é um heterónimo, mas uma personalidade literária); (3) Poemas Completos de Alberto Caeiro (com o prefácio de Ricardo Reis, e, em posfácio, as Notas para a Recordacão do Álvaro de Campos). Mais tarde, no outro ano, seguiria, só ou com qualquer livro, Cancioneiro (ou outro título igualmente inexpressivo), onde reuniria (em Livros I a III ou I a V) vários dos muitos poemas soltos que tenho, e que são por natureza inclassificáveis salvo de essa maneira inexpressiva.

Sucede, porém, que o Livro do Desassossego tem muita coisa que equilibrar e rever, não podendo eu calcular, decentemente, que me leve menos de um ano a fazê-lo. E, quanto ao Caeiro, estou indeciso. (...)

(em 28 de Julho de 1932)

Carta a Adolfo Casais Monteiro

(...) Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiracão, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberacão abstracta que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. O meu semi-heterónimo Bernardo Soares que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibicão; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilacão dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de "ténue" à minha, é iqual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer "eu próprio" em vez de "eu mesmo", etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. (...)

(em 13 de Janeiro de 1935)

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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