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Fernão Dias Pais

UM HOMEM DURO E DECIDIDO: UM BANDEIRANTE

Os caminhos que abriu e as cidades que plantou foram uma obra bem maior que o sonho frustrado das minas de esmeralda.

No início do século XVII, São Paulo era uma pequena vila com menos de dois mil habitantes. A economia do lugar era baseada numa agricultura de subsistência. Foi nessa vila, em 1608, que nasceu Fernão Dias Paes, filho de uma respeita família. Aos 18 anos de idade, Fernão é eleito pela Câmara Municipal para ocupar o cargo público de fiscal de mercadorias. Logo se destaca por seu trabalho enérgico e começa a fazer uma brilhante carreira de administrador. Cuidando de suas próprias terras, Fernão Dias acabou por fazer a maior fortuna de São Paulo daquele tempo. Toda essa riqueza Fernão dissiparia na busca de ouro e pedras preciosas.

A morte de Fernão Dias, óleo de Rafael Falco
A morte de Fernão Dias, óleo de Rafael Falco

Mas antes disso participara daquilo que até então era a principal "riqueza" de São Paulo: a venda de escravos índios capturados nas matas das terras sob controle dos paulistas. No ano de 1661 Fernão Dias arma uma bandeira de apresamento e marcha contra as tribos indígenas do Guairá, atual Estado do Paraná, de onde retorna, 3 anos e alguns meses depois, com mais de 4 mil índios. Mas uma grande decepção o aguardava à chegada. Não há mais mercado para os índios, que geralmente eram vendidos para trabalharem na agroindústria açucareira do Nordeste. Com o fim do bloqueio do tráfico de negros africanos, queda da produção açucareira e desgaste da economia da região, não havia mais interesse na mão escrava indígena. Os índios trazidos, segundo se diz, formaram uma aldeia às margens do rio Tietê, sob a administração do próprio Fernão Dias.

Naquele mesmo ano o administrador recebe uma carta do Rei de Portugal solicitando ajuda numa expedição que, sob o comando de Barbalho Bezerra, sairá à procura de ouro. Fernão Dias participa dessa missão, que marca o início de um novo ciclo. Em outubro de 1672 é nomeado "Governador de toda gente de guerra e outra qualquer que tiver ido ao descobrimento das minas de prata e esmeralda". Os preparativos para a expedição duraram três anos; apesar das promessas das autoridades portuguesas, tudo foi financiado pelo próprio Fernão Dias. A 21 de julho de 1674 de 674 homens. Supõe-se que a expedição tenha rumado para a cabeceira do rio das Velhas, pela serra da Mantiqueira, passando por Atibaia e Camanducaia. Ao longo do caminho iam surgindo pousos e roças. Eram embriões de futuras cidades: Vituruna, Paraopeba, Roça Grande, Sumidouro do Rio das Velhas. Depois de sete anos dentro do sertão, os bandeirantes estão virtualmente dizimados por ataques indígenas e pelas doenças tropicais. Muitos retornam para São Paulo. Já desanimados, os esgotados remanescentes jogam suas redes na lagoa Vupabuçu e, por fim, recolhem algumas pedras verdes. É o suficiente para se festejar. Finalmente inicia-se o retorno, mas Fernão Dias, corroído pela febre que já havia matado tantos de seu grupo, morre em pleno sertão, sem saber que havia encontrado turmalinas e não as sonhadas esmeraldas.

FERNÃO DIAS

Setenta e três anos de idade, olhos brilhando de febre, as mãos apertando um punhado de esmeraldas, o velho deixa a lagoa de Vupabuçu e retorna ao arraial do Sumidouro. Está há sete anos no sertão. Agora, o corpo cheio de tremores, o velho vai sendo consumido pela mesma febre que já destruíra muitos de seus homens. A seu lado, como sempre estiveram durante todos os anos da longa jornada, seu filho Garcia Rodrigues Paes e o genro e amigo Borba Gato.

Os homens voltaram a São Paulo, carregados de esmeraldas encontradas em Vupabuçu. No entanto, depois de toda a campanha que venceram unidos, ia o destino separá-los.


Fernão Dias, óleo de Manuel Victor

Fernão Dias nunca voltaria a São Paulo. Ali mesmo, a caminho do arraial do Sumidouro, a morte esperava por ele. Apenas seu corpo, conduzido pelo filho, é que voltaria à cidade natal.

Rodrigues Paes chegaria vivo a São Paulo. Fernão Dias regressava morto. Mas, para Manuel de Borba Gato, não haveria retorno tão cedo. A jornada de volta, que iniciaram todos juntos, será para ele interrompida, e vão-se passar dezoito anos antes que possa avistar novamente a aldeia de Piratininga. Setenta e três anos de idade, sete anos de sertão: Fernão Dias está morrendo longe da sua terra e da sua família. E morre em paz, as mãos se fechando sobre as pedras verdes que tanto ambicionara. Terminaram as aventuras de Fernão Dias. As de Borba Gato estavam apenas começando. Nas vidas de ambos, todo um ciclo de bandeirismo.

QUE ESTRANHO REI É ESTE QUE CORRE PELAS RUAS?

Nascido em 1608, Fernão Dias gozava do prestígio que lhe vinha da família, uma das mais antigas do planalto, anterior mesmo à fundação de São Paulo. Seu bisavô, João do Prado, chegou ao Brasil com Martim Afonso. Outros ancestrais dar-lhe-iam até mesmo parentesco com Pedro Álvares Cabral. Entre seus tios e primos, contavam-se alguns bandeirantes de destaque como Luís e Jerônimo Pedroso de Barros, Sebastião Pais de Barros e Fernão Dias Pais (chamado "o velho").

São Paulo desse tempo é um pequeno vilarejo, cuja vida gira em torno de 370 famílias, quase dois mil habitantes. E nele Fernão Dias consegue seu primeiro emprego público. Em 1626, com dezoito anos, a Câmara Municipal o elege almotacé, pelo prazo de dois meses. Sua missão era fiscalizar as mercadorias postas à venda.

Pães pesando menos que o fixado em lei, vinho misturado com água e fazendas com o preço alterado, esses eram alguns dos problemas que o almotacé tinha que resolver e o fazia, enérgico que era.

Filho de família respeitada, sobrinho e primo de desbravadores dos sertões, Fernão, o jovem fiscal, logo se impôs e fez carreira na administração, onde vários de seus parentes já se destacavam. Com o trabalho e bem cuidando de seus terras, Fernão Dias acabou por fazer fortuna, a maior de São Paulo. E toda essa riqueza ele iria usar até o fim na busca de ouro e pedras preciosas.

UM SEGREDO: OURO E PEDRAS PRECIOSAS

São Paulo de Fernão Dias era uma vila de poucas ruas, com choupanas de pau-a-pique e alguns casarões de taipa, que se estendiam entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú. Além dos rios, a bem pouca distância, estendiam-se fazendas e sítios, onde os paulistas passavam a maior parte do seu tempo, o que explica o abandono da vila, onde em geral só se ia para tratar de obrigações religiosas, de negócios ou de política.

A economia do lugar era pobre, sem nenhum grande produto de exportação, baseada numa agricultura de subsistência que incluía o trigo, o algodão, as vinhas, o marmelo e a cana-de-açúcar. A insipiência dessas culturas e o obstáculo da serra do Mar barravam o progresso.

Nesse tempo, a falta de dinheiro levava os paulistas ao primitivismo das trocas. O trigo e a marmelada de São Paulo eram os produtos mais aceitos. A pouca exportação e o isolamento natural reduziam a vila a um esquecido lugar onde o bem mais precioso era a autonomia dos que ali viviam, desligados da administração da metrópole. Os paulistas consideravam-se uma "república", governada por uma Câmara Municipal eleita.

Falava-se muito em ouro, prata e pedras preciosas. Mas, sobre a existência dessas riquezas, os paulistas faziam muito mistério, temendo que a descoberta de jazidas trouxesse os homens do rei e o fim de uma era de tranqüilidade.

SEM REI POR UM DIA

Aclamação de Bueno Amador da Ribeira, óleo de Oscar Pereira da Silva
Aclamação de Bueno Amador da Ribeira, óleo de Oscar Pereira da Silva

Em 1640, após sessenta anos sob o jugo espanhol dos reis Filipes, Portugal se liberta e restaura a monarquia portuguesa, subindo ao trono, em Lisboa, Dom João IV. Em março do ano seguinte, quando a notícia chega a São Paulo, os paulistas temem que o novo rei venha a intervir na relativa liberdade de que gozavam. E num momento de audácia respondem aos emissários lusitanos:

- Se Portugal quis ser livre, porque nós não havemos de querer também a liberdade? Por que devemos sair do jugo de uma nação para nos submetermos a outra? A liberdade é tão boa que Portugal lutou para consegui-la. Façamos como Portugal. Busquemos a libertação. Que o Brasil se separe de Portugal e nós, paulistas, obedeçamos a um rei paulista.

É possível que Fernão Dias tenha assistido e até participado dessa rebelião, que culminou com a aclamação de um rei paulista, Amador Bueno da Ribeira , homem de "opulentas searas em dilatadas lavouras com centenas de índios".

Mas Amador Bueno, um homem de bom senso, não quis ser rei e aos que o aclamavam respondeu com vivas a Dom João IV, rei de Portugal.

NAS GARRAS DO TIGRE, O PRINCÍPIO DA GUERRA CIVIL

Com isso irritou o povo, que o perseguiu às carreiras até uma igreja, onde se refugiou. Com menos de 2 mil habitantes brancos, pobre e sem defesa, São Paulo teria sido um reino de vida muito curta. A aclamação de um rei paulista fora apenas um momento de entusiasmo pelos espanhóis que habitavam São Paulo.

Logo depois, verificaram que não havia nenhuma razão para se presumir que Dom João IV fosse dispensar ao planalto um tratamento diferente de seu predecessor. E, poucos dias mais tarde, quase todos os paulistas de renome, entre os quais o quase rei Amador Bueno e o rico e respeitado Fernão Dias,

assinam a ata de aclamação de "el-Rei Dom João, o quarto de Portugal".

Casa extremamente simples na época de Fernão Dias em SP
Casa extremamente simples na época de Fernão Dias em SP

O ano de 1640 marca também, para São Paulo, o início de tempos tumultuados, em que as disputas pelo poder local entre duas famílias rivais, os Pires e os Camargo, levam o planalto a uma intermitente guerra civil. Ao mesmo tempo acontecem os episódios, ligados à disputa, que culminaram com a expulsão dos jesuítas da vila. De acordo com determinações expressas da Coroa, os padres defendiam os índios e lutavam contra a escravatura. Conseguiram até um documento do Papa Urbano VIII excomungado os escravizadores de indígenas. Mas a escravidão era uma imposição econômica e nem o papa pôde ser atendido pela gente de São Paulo. Uma ata assinada por 226 paulistas importantes, entre os quais Fernão Dias, oficializa a expulsão dos jesuítas.

A luta contra os missionários da Companhia de Jesus foi liderada pelos Camargo. Os Pires, seus rivais, nem assinaram o documento, não se sabe se por discordarem da expulsão ou se para não se submeterem à liderança dos adversários. Ainda que ligado aos Pires, Fernão assinou o documento dos Camargo. Era homem independente, com fama de coragem comprovada

VINTE ANOS DE GUERRA ENTRE CLÃS

No início de 1641, Fernão de Camargo, o "Tigre", assassina Pedro Taques, líder dos Pires, na porta da matriz. É a guerra civil entre os dois clãs, que se estende, com breves intervalos, até 1660 e que envolve as figuras mais destacadas da vila.

Fernão Dias, apesar de cunhado de Pedro Taques, tem participação apenas discreta na primeira fase da luta. Entre 1644 e 46, a exemplo do que já fizera em 1638, quando chefiou uma bandeira na região do Tape, no Sul, parte em nova investida ao sertão. No ano de 1650, está empenhado em prestar ajuda na construção de um mosteiro para os monges beneditinos, o atual Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Já em 1651, pregando a pacificação da guerra das famílias, Fernão Dias é eleito juiz ordinário. No ano seguinte, novo assassínio reacende a luta entre as famílias inimigas, acirrada ainda mais pela atitude dos Camargo, que, dominando a Câmara. Prorrogam o mandato de seus membros.

A esta altura, Fernão Dias já é favorável à volta dos jesuítas e, em 1653, com a chegada a São Paulo do ouvidor geral, uma espécie de ministro da Justiça, ele promove uma reconciliação geral entre os Camargo e os Pires, e entre todos os paulistas e os jesuítas.

Pouso de monção à margem do rio Tietê, óleo de Zilda Pereira
Pouso de monção à margem do rio Tietê, óleo de Zilda Pereira

Quem vai buscar os padres no Rio é o próprio Fernão Dias. O acordo por ele firmado é simples e claro: os jesuítas se comprometem a não interferir na questão da escravidão dos indígenas e a não abrigar índio fugido.

A paz, porém, dura pouco. A luta pela maioria na Câmara logo põe novamente em pé de guerra os Pires e os Camargo. Parente de vereador não podia se eleger vereador. E essa lei leva a intermináveis debates sobre quem é ou seria parente de quem, as duas famílias querendo mandar na Câmara.

A política, somada às questões pessoais, volta a ensangüentar a vila. Recomeça a guerra civil, violenta, com a destruição de casas e incêndios de plantações. Mas, nesta segunda fase de lutas, os Pires têm novo comandante: Fernão Dias. E é ele quem, tempos depois, no dia 25 de janeiro de 1660, data de aniversário de fundação da vila assina a paz entre os Pires e os Camargo, uma paz mais do que necessária, pois a vila tinha chegado "ao mais miserável estado, desamparada quase inteiramente de seus moradores". A paz assinada entre Fernão Dias e José Ortiz Camargo incluía o compromisso de consertar o Caminho do Mar, estrada de ligação entre São Paulo e São Vicente. Fernão Dias demora em cumprir essa parte do tratado e, quando a Câmara o adverte, dá uma resposta em que transparece o caos econômico produzido pelo conflito:

- Ontem, que foi Domingo, recebi de Vossas Mercês o que me ordenam sobre o caminho, que está por fazer, coisa que bem longe daqui me dava cuidado. Mas achei esta casa sem milho, não tenho trigo que segar, como os mais; acabando a sega, já há mantimentos, para logo o irmos fazer, como há de ser e não por cumprimento.

CHEGA DE ÍNDIOS: AGORA, OURO!

Os índios ainda eram a principal riqueza dos habitantes da região e atrás deles Fernão Dias volta ao sertão no ano seguinte, 1661. A venda de escravos índios, principalmente para a rica agro-indústria açucareira do Nordeste, é o que dá aos paulistas condições de importar armas, munições, talheres, louça, tudo enfim de que precisam.

A vida em São Paulo, nesse tempo, era um constante ir e vir e trazer e vender índios. E as bandeiras de apresamento vão desbravando o sertão, destruindo as missões, onde os jesuítas abrigavam os índios, e ampliando as terras sob o controle dos paulistas, integrando ao Brasil vastas áreas do Oeste e Centro-Sul, reivindicadas pela Espanha segundo o Tratado de Tordesilhas.

A partida da monção, óleo de Almeida Jr.
A partida da monção, óleo de Almeida Jr.

Em 1661, pois, Fernão Dias marchava contra as tribos indígenas do Guairá, no atual Estado do Paraná, de onde retorna, três anos e alguns meses depois, com mais de 4 mil índios. Mas na volta encontra os tempos mudados: quase não há mais mercado para os índios.

Entre as razões do declínio do comércio de índios destacam-se o fim do bloqueio do tráfico de negros africanos, com a expulsão dos holandeses de Pernambuco (1654); a queda da produção açucareira do Nordeste, em função da concorrência do açúcar das Antilhas, e o desgaste da economia da região, resultante das próprias lutas contra os holandeses.

Os índios trazidos por Fernão Dias, segundo se diz, reunidos sem o uso da força, formaram uma aldeia às margens do Tietê, sob a administração do próprio Fernão Dias. No mesmo ano de seu regresso, 1665, recebe apelo de Afonso VI: o rei quer ouro. Um novo ciclo estava começando. E Fernão Dias ajuda a primeira expedição, comandada por Barbalho Bezerra, e as seguintes, chefiadas por Brás Arzão e Baião Parente.

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