Por todos esses anos Portugal andara empenhado em descobrir as lendárias minas de ouro, prata e pedras preciosas, que supunha existir no interior da Colônia. Muitas expedições haviam fracassado, levando os portugueses a insistir com os paulistas, tão conhecedores dos sertões, para descobrirem as fortunas.
Em 1671, ano seguinte à morte de sua mãe octogenária, Fernão Dias recebe uma carta do governador geral, com elogios, promessas e a recomendação de descobrir esmeraldas. Em outubro de 1672, o bandeirante recebe uma nomeação oficial, com o pomposo título de "governador de toda a gente de guerra e outra e qualquer que tiver ido ao descobrimento das minas de prata e esmeraldas".

Bandeirante na selva, óleo de H. Bernadelli
E Fernão Dias, um ano depois, presta juramento diante do capitão-mor de São Vicente.
Duraram três anos os preparativos da expedição, que recebeu muitas promessas das autoridades portuguesas, mas acabou sendo financiada pelo próprio Fernão Dias.
Em 21 de julho de 1674, com 66 anos de idade, de barbas brancas e com a determinação de só voltar vitorioso, parte Fernão Dias à frente de 674 homens. Desses, apenas 40 eram brancos; os demais, índios e mamelucos. Já o esperavam no interior as tropas de Matias Cardoso de Almeida e Bartolomeu da Cunha Cago, que haviam partido antes dele.
Não se conhece a rota da expedição. Supõe-se que Fernão Dias rumou para as cabeceiras do rio das Velhas, vencendo a serra da Mantiqueira, cortando-a pela região de Atibaia e Camanducaia. Ao longo do caminho iam surgindo pousos e roças. Procurando fortuna, Fernão e seus homens iam plantando futuras cidades: Vituruna (Ibituruna, no rio das Mortes), Paraopeba, Sumidouro do Rio das Velhas, Roça Grande (sertão de Diamantina), Tucambira, Esmeraldas, Serro Frio.
Foram sete anos de sertão. Fracassada a busca de minas de prata na serra de Sabarabuçu, a bandeira entranha-se ainda mais no sertão. E nas marchas, da Mantiqueira à serra do Espinhaço e dali à chapada Diamantina, gastam-se os seus recursos em munição e alimentos, assim como se reduz o número de bandeirantes, brancos e índios, dizimados por ataques dos selvagens ou derrubados pela doença.
O desânimo que toma conta da tropa só é contido pela determinação de Fernão Dias. Emissários regressam a São Paulo em busca de recursos. Para atendê-los, Dona Maria Paes Betim, mulher de Fernão, vende todos os objetos de ouro e prata que possui, até mesmo as jóias das filhas. O Padre João Leite da Silva, irmão do bandeirante, providencia mantimentos, e Dona Maria faz um grande empréstimo de mais de três mil cruzados.
O orgulho dos paulistas os impedia de recorrer às autoridades da Colônia ou do Reino.
Fernão Dias espera auxílio acampado no arraial do Sumidouro. O descontentamento é grande entre os seus comandados. Certa noite, uma índia acorda o bandeirante e lhe dá o aviso: um grupo está reunido, tramando sua morte e a volta da bandeira a São Paulo. Silenciosamente, Fernão vai até o local da conversa e identifica os conspiradores.
Na manhã seguinte, prende-os e manda enforcar o líder da conspiração: era José Dias Pais, filho natural do velho bandeirante.

Morte de Fernão Dias, óleo de Rafael Falco, salão
nobre do Café Seleto
Outros problemas surgem em seguida: Matias Cardoso de Almeida, lugar-tenente de Fernão Dias Pais, volta a São Paulo com parte da tropa. E novas deserções continuam a acontecer. Até os capelães da bandeira regressam. Mas Fernão Dias não desiste, segue para Itamirindiba, lugar tido como o da descoberta de esmeraldas, no começo do século, por Marcos de Azevedo, que morrera sem confessar onde encontra as pedras preciosas. Os bandeirantes jogam suas redes na lagoa Vupabuçu: só lama e pedras. Porém, a vontade de ferro de Fernão Dias não os deixa desistir. Tudo em vão, apenas pedras. Súbito, gritos, correria: numa rede aberta, entre o cascalho, estão brilhando as verdes esmeraldas.
Nesse meio tempo, um velho temor dos paulistas transforma-se em realidade. Já em 1674, chegara à Bahia Dom Rodrigo de Castel Blanco, fidalgo espanhol nomeado comissário de minas pelo Rei Pedro II, de Portugal. Castel Blanco era perito em pedras e metais preciosos e, depois de percorrer diversas regiões, chegara à decepcionante conclusão: ou não existia ouro, prata, esmeraldas, ou era tão pouco que não valia a pena explorar.
Assim mesmo, o medo dos paulistas ante a ingerência das autoridades da Colônia e do Reino era fundamentado. Depois de passar por Itabaiana, Iguape, Cananéia, Paranaguá, Curitiba e Itu, Castel Blanco chega a São Paulo, em 1680, com um propósito: encontrar a bandeira de Fernão Dias Pais.
Na qualidade de enviado do rei, Dom Rodrigo parte ao encontro de Fernão, guiado por Matias Cardoso de Almeida, nomeado tenente-general para o descobrimento de prata no Sabarabuçu.

Anhanguera, óleo de Theodoro Braga
Fernão aguarda o emissário do rei. Já haviam mesmo trocado algumas cartas e o bandeirante quer mostrar, cheio de orgulho, as suas esmeraldas.
Entretanto, roído pela febre, Fernão Dias não chega a conhecer Dom Rodrigo nem a saber qual a missão do espanhol. A mesma epidemia que matara muitos dos seus homens, também o levou, em 1681, aos 73 anos, em pleno sertão.
Fernão Dias Pais morre com todos os seus bens empenhados na expedição, deixando viúva Dona Maria Pais Betim, de apenas 39 anos, cinco filhas solteiras e cinco sobrinhas órfãs. Atendendo seu último pedido, o corpo do bandeirante foi embalsamado e, segundo parece, levado para São Paulo por seu filho, Garcia Rodrigues Pais, comandante do que sobrou da tropa. Ao atravessar o rio das Velhas, a canoa que transportava o corpo de Fernão Dias virou. Só alguns dias depois o cadáver reaparece, boiando. Conduzido finalmente até São Paulo, o corpo do bandeirante foi depositado na capela-mor do Mosteiro de São Bento, que ele ajudara a construir.
Cumprindo determinações expressas do pai, Garcia Rodrigues Pais colocou à disposição do enviado do rei as feitorias e os mantimentos que tinham deixado no arraial do Sumidouro, bem como os entrepostos estabelecidos no sertão. Além disso, entregou as esmeraldas.
De posse das pedras, o comissário do rei assumiu o comando da região percorrida pela bandeira. O Padre João Leite da Silva, irmão de Fernão, protestou junto à Câmara:
- Eu, o Padre João Leite da Silva, por mim e como irmão do defunto, o Capitão Fernão Dias Pais, descobridor das esmeraldas, e em nome da viúva, sua mulher, requeiro às suas mercês, uma e muitas vezes, da parte de Vossa Alteza que Deus guarde, que atalhem, pelos meios convenientes, a Dom Rodrigo de Castel Blanco, os intentos que tem de apoderar-se das minas de esmeraldas que o dito meu irmão descobriu... Mas o enviado do rei tem resposta:
- O Padre está muito enganado em fazer-me protesto do que eu tenho pela obrigação de fazer pela razão do meu posto.
Era a autoridade real que chegava ao planalto. Esperava-se uma reação de Garcia Rodrigues Pais, o sucessor de Fernão Dias. Mas Garcia preocupa-se apenas em seguir as ordens de seu pai, que não conhecera a tarefa de Dom Rodrigo.
No arraial do Sumidouro, entretanto, um genro de Fernão, que participava de toda a aventura da bandeira, defende a descoberta do sogro e de seus companheiros. Quando Castel Blanco chega, encontra a oposição de Manuel de Borba Gato.
Depois de se negar a fornecer alimentos e a submeter seus homens ao comando do espanhol, trava com ele uma feroz disputa. Em agosto de 1682, após violenta discussão, um dos homens de Borba Gato atira o comissário real do alto de um penhasco.
Da vida de Borba Gato, antes da morte de Dom Rodrigo, pouco se sabe. Teria uns 46 anos quando partiu na longa bandeira do sogro, onde logo se distinguiu e tornou-se um dos capitães de maior prestígio. Era casado com Maria Leite, filha de Fernão. E nada mais se conhece.
Após a morte do espanhol é que começam as atribulações de Borba Gato.

Paisagem de Sabará, óleo de Alberto da Veiga Guignard
Fugindo, embrenha-se logo para além da Mantiqueira, no sertão do São Francisco, acompanhado de alguns servidores. E ali se instala, respeitado como um cacique, convivendo com os índios. Seu paradeiro como homem procurado pela Coroa era desconhecido oficialmente, o que não o impedia de, através de emissários, manter correspondência com a família, em São Paulo. Estava, pois, a par das gestões que se faziam para absolvê-lo.
Os ourives portugueses haviam proclamado o pequeno valor das pedras verdes, desiludindo profundamente Garcia Rodrigues Pais e seu tio, o Padre João, que tinham ido a Portugal pedir recompensa ao rei. De regresso, Garcia vai ao encontro de Borba Gato, no sertão de Cataguases, para confirmar a notícia do triste engano: Fernão Dias Pais morrera agarrando-se a simples turmalinas, pedras de pouco valor na época.
O sonho de Fernão Dias Pais desfaz-se após sua morte. A fortuna que encontrara não existia. Mas a decepção dos paulistas ia se transformar em vitória. Borba Gato, foragido, encontrou o ouro.
A ninguém, nem a Garcia, Borba Gato revela o local da descoberta. Em troca do seu segredo, pretende o perdão da Coroa e autoridade sobre as jazidas. E, enquanto aguarda o atendimento do pedido, continua procurando, quer mais ouro. A fama do rio das Velhas se alastra. Mas só Borba Gato e seus homens sabiam onde estava o ouro. Anos depois, em 1693, Borba Gato e seus homens sabiam onde estava o ouro. Anos depois, em 1693, Borba Gato, Antônio Rodrigues Arzão e outros aparecem explorando os tabuleiros auríferos de Cataguases e Sabará.
Borba Gato, durante 25 anos, nada mais faz do que correr atrás da fortuna, das minas de ouro. Volta a São Paulo apenas em 1699, aos 71 anos