Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Fernão Dias Pais - Página 5  Voltar

Fernão Dias Pais

A NOVA MISSÃO É ENCONTRAR PRATA

Garcia Rodrigues Pais resolve decidir de uma vez por todas a situação de Borba Gato e procura o governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá e Meneses. O governador, que já conhecia amostras do ouro descoberto por Borba Gato, não perde tempo:

- Pelas notícias que tenho, nas paragens a que chamam Sabarabuçu, haverá mina de prata; a cujo serviço mando Borba Gato para que explore os morros e serras que houver naquelas partes...

Só a descoberta de novas riquezas perdoaria o crime do bandeirante. E Borba Gato volta ao sertão, com dois genros, Antônio Tavares e Francisco de Arruda, rumo à região que tão bem conhecia. Pouco tempo depois, pelo caminho de Taubaté, surge um emissário do governo, querendo notícias da expedição: Borba Gato manda dizer que encontrara a serra de Sabarabuçu e que lá não havia nem prata nem esmeraldas. Mas, acrescenta, na serra existe ouro, muito ouro, tão puro e tão rico como nenhum outro.

O governador, avisado, entra sertão adentro para ver de perto a grande descoberta, concedendo a Borba Gato, desde logo, uma carta de franquia para andar pela região sem ser molestado. Por outro lado, consta que o governador visitou as minas mais como particular que como funcionário do rei. Com isso, Artur de Sá e Meneses ficou rico, mas acabaria perdendo o posto.

Apesar da pressa com que se dirigiu para as minas, o governador já encontrou muita gente minerando ouro, inclusive no lugar em que se ergueria Vila Rica.

Provedor das minas (1700), óleo de Joaquim da Rocha Ferreira
Provedor das minas (1700), óleo de Joaquim da Rocha Ferreira

A descoberta de Borba Gato era apenas a primeira de muitas efetuadas por Antônio Rodrigues Arzão, Salvador Furtado de Mendonça, Antônio Dias de Oliveira e Garcia Rodrigues Paes, o filho de Fernão Dias Paes. De repente, começava a grande corrida ao outro. Ao ultrapassar a Mantiqueira e encontrar Borba Gato, o governador pode contemplar toda a riqueza de Sabarabuçu, além das novas minas no rio das Velhas, ribeirão do Inferno e gari. Artur de Sá e Meneses não tem dúvidas: concede o perdão a Borba Gato e ordena que daquele dia em diante não se fale mais na morte de Dom Rodrigo Castel Blanco.

DE FORAGIDO A GENERAL-DO-MATO

Em 1700, de perseguido pela Justiça, Manuel de Borba Gato passa a homem de confiança do Governo. É o próprio Governador Artur de Sá e Meneses quem o nomeia:

- Para o distrito do Rio das Velhas se necessita um guarda-mor; vendo eu que o tenente-general Manuel de Borba Gato, além dos grandes merecimentos que tem por sua pessoa, prudência e zelo do real serviço, é prático no dito sertão e, pela muita experiência e do que desta fica, dará inteiro cumprimento ao que lhe foi ordenado e ao regimento que mandei dar aos guardas-mores das minas, hei por bem de o nomear no cargo de guarda-mor do distrito do Rio das Velhas.

Com isso, Borba Gato se transforma em general-do-mato.

Logo o Governo tratou de organizar as minas administrativamente. Os postos principais ficaram com os paulistas: Borba Gato é promovido a superintendente, com jurisdição civil e criminal no distrito do Rio das Velhas; seu cunhado, Garcia Rodrigues Paes, é capitão-mor e administrador das entradas e descobertas de minas.

A remessa de ouro para Portugal cresce rapidamente: dos 725 quilos de 1699, sobe a 4350 quilos em 1703. Os pequenos arraiais passam de simples pousadas a povoados fixos. A zona das minas, praticamente desabitada, chega, já em 1710, a 30 mil habitantes e torna-se o centro econômico da Colônia. A Coroa estimula ao máximo a exploração do ouro e a região das minas, povoada e enriquecida, vai se transformando em importante mercado consumidor. A febre do ouro se alastra, os paulistas controlam com dificuldade a região.

De toda parte, acorreram forasteiros que, na maior parte das vezes, contestavam a autoridade de Borba Gato. Era inevitável a formação de grupos rivais: de um lado, os paulistas, do outro, os recém-chegados. Os primeiros se unem sob a liderança de Borba Gato. Por sua vez, os forasteiros, apelidados emboabas - portugueses e brasileiros de outras regiões - também cerram fileiras, tendo como chefe Manuel Nunes Viana, português de origem humilde, que fizera fortuna contrabandeando ouro pelo vale do São Francisco.

As posições se radicalizam. A tensão aumenta. Pequenos incidentes se transformam em provocações. Em 1708, o conflito se agrava: um português, denunciado por roubar arma de fogo, pede a proteção de Nunes Viana; o acusador, um paulista, consegue o auxílio do bandeirante Jerônimo Pedroso de Barros. Viana desafia o paulista para um duelo, este se esquiva. Enquanto isso, os dois grupos se preparam para a luta.

A 12 de outubro de 1708, Borba Gato manda afixar na porta da igreja de Caeté, como era costume, um edital expulsando Nunes Viana do distrito, por perturbação da ordem pública e sonegação de impostos. Nunes Viana repele a ordem e a desacata. A guerra se aproxima.

MASSACRE NO CAPÃO DA TRAIÇÃO

Borba Gato, então com oitenta anos, já não tinha a energia que a situação requeria. Diante da reação de Nunes Viana, limitou-se a repetir a ordem de expulsão, com ameaças de confisco de bens e de prender quem ajudasse o emboaba. Enquanto isso, Nunes Viana continua se armando. Sempre tentando evitar a guerra, Borba Gato comete dois erros táticos: firma uma espécie de paz provisória com Nunes Viana, estabelecendo uma dupla autoridade nas minas, e, pior ainda, deixa o centro dos acontecimentos, voltando para sua fazenda no rio Paraopeba.

Com Borba Gato ausente, um português é assassinado. Em represália, os emboabas lincham José Prado, pai do criminoso. As lutas se generalizam. Os paulistas, inferiorizados em homens e armas, retiram-se do lugar, incendiando, de passagem, as plantações do inimigo. Os emboabas reagem pondo fogo nos campos dos paulistas, em Ribeirão do Carmo (hoje, cidade de Mariana). Com estes concentrados na região do rio das Mortes, os emboabas estabelecem um governo próprio para a região. Nunes Viana é escolhido chefe e, depois de alguma relutância, pois o desrespeito à Coroa era claro, acaba aceitando. Para o lugar de Borba Gato, Nunes Viana nomeia Mateus Moura, um homem que já havia assassinado a própria irmã. Para seus lugar-tenentes, Nunes Viana escolhe dois foragidos da Justiça: Bento do Amaral Coutinho e Francisco do Amaral Gurgel.

Borba Gato, senhor dos sertões, não mandava mais. E de nada valiam suas cartas ao governador do Rio de Janeiro, Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre, denunciando Nunes Viana como contrabandista e acusando os emboabas:

- São homens que entraram desaforando de toda a sorte. Cada vez que querem fazer um motim ou levantamento; para isso têm elegido cabos nesse distrito, e dado senhas, que não há mais que dá-la um, para todos estarem juntos.

Mas os emboabas ainda não estão satisfeitos: Bento do Amaral Coutinho ruma para o rio das Mortes. Sua missão é expulsar de vez os paulistas. Mesmo com menos gente, estes conseguem bater Bento do Amaral no arraial da Ponta do Morro. Mas sabendo da vinda de reforços para auxiliar o português, os paulistas recuam na direção de Parati e São Paulo.

Um grupo de cinqüenta bandeirantes, entretanto, não consegue escapar e é cercado pelos emboabas. Sob promessa de serem poupados, entregam suas armas e se rendem. Ao vê-los desarmados, Bento do Amaral Coutinho ordena o massacre. Nenhum paulista escapou. E o lugar do crime ganhou nome: Capão da Traição.

NO FIM DA VIDA, UM PACIFICADOR

Em março de 1709, um mês da tragédia do Capão da Traição, o Governador Fernando de Lencastre decide ir até as minas para por fim à guerra. Antes de partir, o governador informa ao rei:

- Meu propósito é conservar os paulistas nas minas, por serem estes os seus descobridores, e só eles capazes de prosseguirem e aumentarem, pois nos forasteiros se não acha o préstimo de talharem o sertão para novos descobrimentos.

Chegando ao arraial do rio das Mortes, Fernando de Lencastre faz uma conciliação precária entre os paulistas remanescentes e os emboabas.

Modo como se extrai o ouro no rio Das Velhas, Universidade de São Paulo
Modo como se extrai o ouro no rio Das Velhas, Universidade de São Paulo

Mas, em Congonhas do Campo, é impedido de continuar viagem por uma tropa comandada pelo próprio Nunes Viana. Constatando a inferioridade de suas forças, o governador retorna ao Rio, derrotado.

A esta altura, entretanto, São Paulo está transformada em praça de guerra. Um verdadeiro exército está sendo armado, sob o comando de Amador Bueno da Veiga. Prepara-se a desforra. Enquanto isso, o humilhado Fernando de Lencastre entrega o Governo de São Paulo e das minas de ouro a Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, que também prepara uma expedição. Destino: as minas de ouro.

Duas forças ameaçam os emboabas. Quem chega primeiro às minas é o novo governador, com uma anistia geral que exclui Nunes Viana e Bento do Amaral Coutinho.

O chefe rebelde é, então, intimado a se retirar da região, o que faz ao se ver abandonado por seus companheiros, que à luta preferem o ouro. O novo governador percorre as minas, sempre bem acolhido, reconduzindo o velho Borba Gato ao seu antigo posto.

Na sua volta ao Rio, na altura de Guaratinguetá, o governador encontra o exército dos paulistas, e tenta fazê-lo desistir da vingança. Em vão. Prevenidos, os emboabas se reagrupam e um novo choque, violento, se trava no arraial da Ponta do Morro, onde Amador Bueno da Veiga consegue difícil vitória. É ainda Borba Gato, ao lado do Governador Antônio de Albuquerque, quem faz a paz. Em carta ao rei, o governador fala de Borba Gato:

- Um dos mais fiéis vassalos que Vossa Majestade tem entre eles, o qual o tenho com toda a estimação.

O OURO ATRAI OS PIRATAS

Até então, formalmente, São Vicente era uma capitania hereditária cuja capital desde 1681 era São Paulo. A riqueza das minas levou o rei a adquirir a capitania, comprando-a de seu donatário, o Marquês de Cascais. E em novembro de 1709, Dom João V criou a capitania de São Paulo e Minas de Ouro, passando a nomear o governador. São Paulo, elevava à categoria de cidade em 1711, ainda gozava de relativa autonomia, pois as autoridades reais preferiam ficar em Vila do Carmo, mais perto do Rio de Janeiro.

O Rio é, nessa época, o grande centro de atração da Colônia. O ouro das minas não passa mais pelos antigos caminhos dos paulistas: Taubaté, Guaratinguetá e Parati. Mas segue direto pela estrada construída por Garcia Rodrigues Paes, a pedido do Governador Sá Meneses. E a riqueza do Rio, porto de embarque do ouro para Portugal, atrai os piratas.

Ciclo do ouro, óleo de Rodolfo Amadeo
Ciclo do ouro, óleo de Rodolfo Amadeo

Em, agosto de 1710, surgem diante do Rio cinco navios de guerra franceses, comandados por Jean François Duclerc. Rechaçados pela fortaleza de Santa Cruz, um mês depois desembarcam em Guaratiba e seguem a pé para o Rio, tomando o centro da cidade e atacando o palácio do Governo. Na defesa do palácio está o emboaba Bento do Amaral Coutinho, no comando de 48 estudantes. A reação popular surpreende os franceses: 280 são mortos e 650 se rendem. Duclerc é preso, com as honras devidas ao seu posto. Mas é morto, meses depois, por um grupo de mascarados que o acusa de " tentar seduzir mulheres honradas".

O assassínio do prisioneiro de guerra é pretexto para novo ataque. A 12 de setembro de 1711, aproveitando a cerração, 17 naus comandadas por René Duguay-Trouin forçam entrada na baía: 5300 franceses atacam o Rio.

Após conquistar algumas posições, Duguay-Trouin manda mensagem ao Governador Francisco de Castro Morais; quer lata indenização "pelas crueldades cometidas contra os prisioneiros" franceses no ano anterior, ou então a cidade ficará reduzida a cinzas.

Últimos momentos de um bandeirante, óleo de H. Bernadelli
Últimos momentos de um bandeirante, óleo de H. Bernadelli

O governador responde: as acusações dos franceses são injustas e ele defenderá a cidade até a última gota de sangue. Porém, diante dos violentos ataques franceses, o governador foi obrigado a retirar-se para fora da cidade e o povo debandou para as matas próximas.

Os franceses, então, saqueiam a cidade, e o governador, desmoralizado, é obrigado a vir tratar de resgatá-la. Não há dinheiro que chegue. Os franceses querem 610 mil cruzados. Para conseguir tal quantia é preciso juntar todo o dinheiro da população. Não há quem não maldiga o governador.

Nem os reforços que chegam da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, comandados pelo seu Governador Antônio de Albuquerque, resolvem a questão. Essas tropas pouco podem fazer, pois não têm munição. Os franceses são os senhores absolutos do Rio de Janeiro, onde ficam ainda cerca de mês e meio, chegando a fazer amizade com parte da população.

A grande vítima da invasão, o Governador Francisco de Castro Morais, é denunciado pela Câmara e condenado à prisão perpétua nas Índias, tendo seus bens seqüestrados.

Com a invasão francesa, Portugal decide melhorar as condições de defesa da Colônia. E ordena um aumento geral dos impostos. Em vários pontos do Brasil surgem protestos; ao mesmo tempo que aumentava as taxas, a Coroa recebia cada vez mais ouro das minas. A corte de Dom João V torna-se uma das mais ricas da Europa. Em 1720, a remessa de ouro atinge seu ponto máximo.

Nesse mesmo ano vieram transformações políticas: a Capitania de Minas separa-se da de São Paulo. Os paulistas perdem, de vez, o controle da região. Mas o velho espírito dos bandeirantes não morre. E os paulistas descobrem ouro na região de Cuiabá. Um novo ciclo de ouro se inicia. Alguns anos antes em 1718, aos noventa anos de idade, não se sabe se em sua fazenda de Paraopeba ou na vila de Sabará, por ele fundada, depois de tirar da terra mais de 750 quilos de ouro, rico e respeitado havia morrido Borba Gato.

Em 1722, mais uma grande expedição parte de São Paulo, desta vez rumo ao ouro do oeste. No comando, está Bartolomeu da Silva, filho de antigo bandeirante de mesmo nome que, em 1682, explorava os sertões goianos.

Como o pai, o filho também ficaria conhecido pelo apelido de Anhanguera, Diabo Velho. Depois de três anos, Bartolomeu Bueno da Silva, que já fizera fama de valoroso na guerra com os emboabas, retorna com novas conquistas para São Paulo; as minas de Goiás.

Contudo, o tempo dos bandeirantes estava passando. Logo a Corte estende seu domínio até o longínquo Goiás. Chegam os governadores, os fiscais, os funcionários onde antes só havia a mata fechada. A época das aventuras, das destemidas entradas, dos combates ferozes já vai passando. O ouro foi finalmente descoberto e agora só resta explorá-lo. Vai longe o tempo de Fernão Dias Paes. Vai longe o tempo de Manuel de Borba Gato.

Fonte: www.pick-upau.org.br

voltar 12345678avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal