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Festa Junina

Três santos são efusiva e intensamente comemorados em junho, em todo o Brasil, desde o período colonial: Santo Antônio, São João e São Pedro. No nordeste brasileiro principalmente, estes santos são reverenciados e pode-se dizer que a importância destas festas, para as populações nortista e nordestina, ultrapassa a do Natal, principal festa cristã, e que elas são, historicamente, o evento festivo mais importante destas regiões, tanto cultural como politicamente.

Acredita-se que estas festas têm origens no século XII, na região da França, com a celebração dos solstícios de verão (dia mais longo do ano, 22 ou 23 de junho), vésperas do início das colheitas. No hemisfério sul, na mesma época, acontece o solstício de inverno (noite mais longa do ano). Como aconteceu com outras festas de origem pagã, estas também foram adquirindo um sentido religioso introduzido pelo cristianismo, trazido pela igreja católica ao Novo Mundo.A comemoração das festas juninas é certamente herança portuguesa no Brasil, acrescida ainda dos costumes franceses que a elas se mesclaram na Europa.

O ciclo das festas juninas gira em torno de três datas principais: 13 de junho, festa de Santo Antônio; 24 de junho, São João e 29 de junho, São Pedro. Durante este período, o país fica praticamente tomado por festas. De norte a sul do Brasil comemoram-se os santos juninos, com fogueiras e comidas típicas.

É interessante notar que não apenas o dia, propriamente dito, mas todo o mês, é considerado como tempo consagrado a estes santos na região e, principalmente, as vésperas , que é quando se realizam os sortilégios e simpatias, a parte mágica da festa típica do catolicismo popular. Inúmeras adivinhações a respeito dos amores e do futuro (com quem se vai casar, se se é amado ou amada, quantos filhos se vai ter, se se vai morrer jovem ou ganhar dinheiro etc.) são feitas nas vésperas do dia dos santos, em geral de madrugada.

A primeira das festas do ciclo junino é a de Santo Antônio. A véspera deste dia, significativamente, foi escolhida oficialmente como Dia dos Namorados, no Brasil.

Imgem de Santo Antonio vendida em Bom Jesus da Lapa, Bahia. Foto de Adenor Gondim, 2000O culto de Santo Antônio é, como o de São João, herança portuguesa. Sendo um santo português, nascido em Lisboa, era também um dos mais populares e cultuados tanto em Portugal quanto no Brasil-Colônia. Segundo os portugueses, a ação de Santo Antônio era fundamental na guerra e seu nome funcionava como arma contra perigos imbatíveis. No Brasil seu papel de militar foi importante, também, dadas as inúmeras guerras e revoltas durante as quais era invocado. E tanto fez ao lado das forças armadas brasileiras que recebeu patente e mesmo soldo em várias companhias do exército brasileiro. Recebeu ainda, por esta razão, o apoio dos militares, com dinheiro e prestígio, às suas igrejas, obras e festas. É incontável o número de homenagens a Santo Antônio, igrejas construídas em seu louvor, nomes de ruas, praças, pessoas etc., na história e geografia brasileiras.

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Atualmente Santo Antônio já não é mais cultuado como militar e sim como casamenteiro e deparador de coisas perdidas. Cascudo (1969) cita um trecho de um sermão do padre Antônio Vieira no Maranhão, em 1656, em que são relevados os maravilhosos poderes deste santo na resolução de vários problemas da vida humana:

“Se vos adoece o filho, Santo Antonio; se vos foge o escravo, Santo Antônio, se mandais a encomenda, Santo Antônio, se esperais o retorno, Santo Antonio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se aguardais a sentença, Santo Antônio, se perdeis a menor miudeza da vossa casa, Santo Antônio; e, talvez, se quereis os bens alheios, Santo Antônio.” (Padre Antonio Vieira, apud Cascudo, 1969: 128).

Segundo Gilberto Freire (1995) a escassez de portugueses na colônia sublinhou o valor do casamento ou mesmo da procriação (com ou sem o casamento), o que tornou populares os santos padroeiros do amor, da fertilidade, das uniões e instaurou uma grande tolerância para com toda espécie de reunião que resultasse no aumento da população no Brasil. Estes interesses abafaram não apenas os preconceitos morais como os escrúpulos católicos de ortodoxia.

Assim, os grandes santos nacionais tornaram-se, à época, aqueles aos quais a imaginação popular atribuía milagrosa intervenção capaz de aproximar os sexos, fecundar mulheres e proteger a maternidade, como Santo Antônio, São João, São Pedro, o Menino Jesus, N. Sra do Bom Parto etc.. A crença de que Santo Antônio se “devidamente” invocado, perturbado com pedidos de todo tipo e até mesmo “torturado”, arranja casamento mesmo para a mais sem graça das moças é muito difundida, e é esta a qualidade mais prezada do santo durante as festas juninas. São João também já teve estas funções e também São Gonçalo (que continua sendo invocado com esta finalidade através de danças, no interior do Brasil) como mostra Freire:

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“Uma das primeiras festas, meio populares, meio de igreja de que nos falam as crônicas coloniais do Brasil é a de São João já com fogueiras e danças. Pois as funções deste popularíssimo santo são afrodisíacas; e ao seu culto se ligam até praticas e cantigas sensuais. É o santo casamenteiro por excelência. [...] As sortes que se fazem na noite ou na madrugada de São João, festejado a foguetes, busca-pés e vivas, visam no Brasil, como em Portugal, a união dos sexos, o casamento, o amor que se deseja e não se encontrou ainda. No Brasil faz-se a sorte da clara de ovo dentro do copo de água; a da espiga de milho que se deixa debaixo do travesseiro, para ver em sonho quem vem comê-la; a da faca que de noite se enterra até o cabo na bananeira para de manhã cedo decifrar-se sofregamente a mancha ou a nódoa na lâmina; a da bacia de água, a das agulhas, a do bochecho. Outros interesses de amor encontram proteção em Santo Antônio. Por exemplo, as afeições perdidas. Os noivos, maridos ou amantes desaparecidos. Os amores frios ou mortos. É um dos santos que mais encontramos associados às práticas de feitiçaria afrodisíaca no Brasil. É a imagem desse santo que freqüentemente se pendura de cabeça para baixo dentro da cacimba ou do poço para que atenda às promessas o mais breve possível. Os mais impacientes colocam-na dentro de urinóis velhos. São Gonçalo do Amarante presta-se a sem cerimônias ainda maiores. Ao seu culto é que se acham ligadas as práticas mais livres e sensuais. Atribuem-lhe a especialidade de arrumar marido ou amante para as velhas, como São Pedro a de casar as viúvas. Mas quase todos os amorosos recorrem a São Gonçalo”. (Freire, 1995: 246).


As danças de São Gonçalo, conhecidas como “são gonçalinho”, visam propiciar o casamento, do mesmo modo que as simpatias com a imagem de Santo Antônio, que são até hoje populares no interior do nordeste brasileiro (Dantas, 1976a; Martins, 1954; Queiróz, 1958). A festa de São Gonçalo descrita por La Barbinais no XVIII e citada por Gilberto Freire, mostra características de orgias rituais e lembra mesmo os festivais pagãos. Uma festa de amor e fecundidade:


“Danças desenvolvidas ao redor da imagem do santo. Danças em que o viajante viu tomar parte o próprio vice-rei, homem já de idade, cercado de frades, fidalgos, negros. E de todas as marafonas da Bahia. Uma promiscuidade ainda hoje característica das nossas festas de igreja. Violas tocando. Gente cantando. Barracas. Muita comida. Exaltação sexual. Todo esse desadoro - por três dias e no meio da mata. De vez em quando, hinos sacros. Uma imagem do santo tirada do altar andou de mão em mão, jogada como uma peteca de um lado para o outro. Exatamente - notou La Barbinais - ‘o que outrora faziam os pagãos num sacrifício especial anualmente oferecido a Hércules, cerimônia na qual fustigavam e cobriam de injúrias a imagem do semideus’” (Freire, 1995: 248)

Para Freire, estes são sinais de uma festa já influenciada, na Bahia, por elementos orgiásticos africanos que teriam sido absorvidos no Brasil. Mas o “resíduo pagão” teria mesmo sido trazido pelos portugueses, com seus “cristianismo lírico”, suas festas de procissões alegres em que apareciam, como já vimos, tanto Nossa Senhora fugindo para o Egito, como Mercúrio, os Ventos, os Continentes (deuses gregos e romanos), o Menino Deus, ninfas, anjos, sátiros, patriarcas, reis, imperadores etc..

“Um catolicismo ascético, ortodoxo, entravando a liberdade aos sentidos e aos instintos de geração teria impedido Portugal de abarcar meio mundo com as pernas. As sobrevivências pagãs no cristianismo português desempenharam assim importante papel na política imperialista. As sobrevivências pagãs e as tendências para a poligamia desenvolvidos ao contato quente e voluptuoso com os mouros” (Freire, 1995:250).

Freire também observa, portanto, a capacidade das festas de estabelecerem, através do desregramento possível, ou da inserção nela de múltiplas regras, a mediação entre as culturas e movê-las em direção ao objetivo comum de construção da sociedade brasileira. E neste sentido, tanto a festa de São Gonçalo, como as juninas e outras parecem ter desempenhado papel preponderante. No nordeste, contudo, as festas juninas prevalecem como as mais atrativas e de maior investimento popular.

Atualmente comemora-se Santo Antônio do mesmo modo que se comemora São João e São Pedro embora as intenções das festas sejam diferentes. E apesar da religiosidade envolvida, a maior atração, que faz com que todos se reúnam (mesmo os não-católicos) para comemorar as festas juninas são, de fato, as fogueiras, batatas-doces assadas, canjica, quentão, milho verde assado, pipocas, quadrilhas, bumbas-meu-boi, simpatias, fogos de artifício, bombinhas e brincadeiras, enfim, toda a alegria que envolve estas festas. Talvez porque no Nordeste, ainda se mantêm rígidos padrões de comportamento, quebrados temporariamente durante as festas juninas quando, “salvo chuva e salvo engano, a satisfação é geral”.

O São João como fato social total

Quadrilha de São JoãoNo nordeste brasileiro, a perspectiva das festas juninas transforma as cidades e o espírito das pessoas, que parecem sentir uma irresistível atração e afinidade pela festa. Muitos nordestinos que se encontram fora de seus estados costumam economizar dinheiro, comprar presentes e voltar com eles para sua cidade natal na época das festas juninas, a fim de comemorar os santos. No sudeste é comum que nordestinos abandonem seus empregos, faltem por toda uma quinzena, peçam licença ou ofereçam-se para trocar o período do Natal por alguns dias de folga em junho, ou ainda negociem suas férias para gozá-las no meio do ano e poderem estar presentes às festas juninas, em sua terra. O mês de junho é um mês do refluxo migratório e as companhias de transporte rodoviário e aéreo atestam este fato. Os que não voltam para suas cidades a fim de participar da festa podem encontrar alternativas nas festas juninas realizadas nos grandes centros urbanos sob iniciativa das Secretarias de Cultura .

O “São João” (modo pelo qual se referem os nordestinos ao ciclo de festas do mês de junho), principalmente, adquire tal importância na vida social nordestina que não apenas é fonte de preocupação durante todo o ano (quando se poupa dinheiro a ser investido na participação na festa ou se organizam eventos a serem apresentados nela), como ainda move interesses políticos e econômicos que poucas vezes se imagina. De acordo com as informações dos jornais, televisões e rádios, de todo o Brasil, a festa de São João esvazia o Plenário do Congresso, em Brasília. Para se ter uma idéia da importância do São João nordestino, basta saber que em 1993 promessas de cargos e de não cortar algumas emendas de deputados durante a reprogramação orçamentária não foram suficientes para ajudar a aprovar o IPMF e o governo só conseguiu a participação geral no plenário no dia 22 de junho de 1993 porque prometeu a cada um dos deputados nordestinos que eles teriam reservas nos aviões para retornarem a seus Estados antes das festas de São João, que começariam no dia 23 de junho à noite. A deputada Roseana Sarney (PFL-MA) declarou:

“As pessoas do Sul do país podem não acreditar, mas as festas de São João são tão importantes para o político nordestino que poderiam impedir a votação do IPMF”. (Folha de São Paulo, 21/06/1993).

O deputado Gustavo Krause (PFL-PE), acrescenta:

“Eu sou um caso raro de político nordestino que não deverá passar o São João com suas bases, porque vou a São Paulo, mas por conta disso minha família está rompida comigo”.(Folha de São Paulo, 21/06/1993).

Já José Carlos Aleluia, (PFL-BA), era um dos casos dos muitos deputados que se jogam de cabeça nas festas de São João:

“Viajo nesta quarta feira pela manhã para a Bahia, passo o São João no carro, visito os arraiais e quadrilhas em cerca de dez municípios distribuídos por cerca de 2.000 km do interior [...] se eu não for, não me reelejo”. (Folha de São Paulo, 21/06/1993).

O deputado federal Tony Gel (PRN-PE) preferiu passar o São João em Caruaru (PE).

“Deveria estar em Brasília, mas o São João em Caruaru é o maior de todos os tempos este ano e é impossível ficar longe dele”.

Tony Gel disse ainda que votaria pela aprovação da regulamentação, mas:

“Não vejo a votação como importante. É sempre mais um imposto e acho que não é fundamental para o país” (Folha de São Paulo, 21/06/1993).

Para o deputado, a festa é mais importante. Ela é que é do interesse popular em junho e o distanciamento entre a política oficial (a do Estado) e a política “paralela” (local e da festa) se revela em seu comportamento, uma vez que ele percebe que o povo não o reelegerá se ele não participar da festa. Seu discurso sugere que seus eleitores não se importam tanto se sua ausência no plenário ajuda a aprovação de mais um imposto. Seu lugar, em junho, é na festa de São João, mais que no Plenário do Congresso. A política da festa local adquire assim, maior relevância que a nacional.

Com o desenvolvimento dos meios de comunicação e a descoberta das festas como produto turístico a partir dos carnavais carioca, baiano e pernambucano, as grandes festas populares brasileiras ganharam espaço na mídia e, a partir disso, recursos do Estado para sua implementação como evento oficial. O crescimento das festas juninas de Caruaru e Campina Grande é significativo das transformações pelas quais a festa tradicional vem passando e do modo como vem se inserindo na modernidade. Ela tem absorvido elementos novos sem abandonar suas principais características e mediando as relações entre tradição e modernidade, urbano e rural, entre muitas outras, de todas as festas.

O “Maior São João do Mundo”

Talvez o melhor exemplo do crescimento e importância que o São João vem adquirindo na região nordeste possa ser expresso pela festa de Caruaru, em Pernambuco, que compete pelo título de “Capital do Forró” com Campina Grande, na Paraíba. Caruaru retém, atualmente, o mais conhecido São João do Brasil, embora, se diga que em grandeza está ao lado do de Campina Grande. Os caruaruenses não concordam com isso:

‘Campina Grande é uma cidade ridícula a maior parte das ruas não é nem sequer calcimentadas [pavimentada]. Porém é uma cidade industrial e com isso o dinheiro lá entra mais fácil que em Caruaru que é comercial. Mas Caruaru tem mais estrutura para festa” (Eder, 29 anos, habitante de Caruaru).

Toda a infra-estrutura da festa em Caruaru denota que ela se prepara para ser uma nova fonte de renda da cidade, talvez a principal, logo depois das famosas feiras que durante a festa se incorporam a ela. Localizada às margens da BR 232 e distante 132 quilômetros da capital pernambucana, Caruaru é internacionalmente conhecida pela sua feira de artesanato, produtos típicos e, atualmente, pela sua festa de São João. Com pouco mais de 250 mil habitantes, um clima ameno, inesperado para a região, e uma população tida como bastante acolhedora, é a cidade líder na região e um dos mais importantes centros de atividade econômica e cultural do interior nordestino. Lá se encontra o que a UNESCO reconhece como “o maior centro de artes figurativas das Américas” - O Alto do Moura - uma comunidade com mais de mil artesãos que representam no barro o dia-a-dia do homem nordestino, divulgando até mesmo no exterior a arte iniciada há quase um século por Mestre Vitalino e vendida na feira de Caruaru e no próprio Alto do Moura.

Durante todo o mês de junho, noite ou dia, os acordes das sanfonas, dos triângulos e das zabumbas, arrastam milhares de pessoas de todo o país ao longo das ruas, nas palhoças e palhoções e por todo o pátio de eventos. São mais de duzentas ruas ornamentadas com bandeirinhas e balões para o forró e o passeio das quadrilhas.

Reunindo pequenas feiras, algumas delas de destaque nacional como a Feira do Gado, a rica Feira de Artesanato, a curiosa e famosa feira do Troca-Troca ou ainda a preciosa Feira de Antigüidades, Caruaru tem a fama de “maior reunião brasileira de folclore”. E há alguns anos, durante o mês de junho, Caruaru se torna um gigantesco arraial.

Toda uma cidade cenográfica foi criada, visando trazer para o centro de Caruaru o “clima da roça”. Toda a cidade cenográfica é enfeitada para receber os turistas que começam a chegar nos lotados “trens do forró”, vindos de Recife para dançar quadrilha e participar da festa que não pára durante todo o mês de junho.

O Trem do Forró é uma das maiores atrações da festa. Ele parte de Recife, percorrendo diversas cidades onde novas pessoas vão entrando e se integrando à festa dentro do trem. No interior do Trem o forró não para de ser tocado, dançado e cantado e todos os vagões são animados por bandas. A partir da entrada do município, no distrito de Gonçalves Ferreira, até a parada final, as pessoas que ficam próximas à linha férrea, formam um verdadeiro cordão humano acenando para os passageiros do Trem durante os 130 quilômetros que separam Recife de Caruaru.

Todo começo de tarde de sábado e domingo de junho, centenas de pessoas esperam pelos turistas do Trem na estação da RFFSA em Caruaru. A cada viagem mais de 600 turistas chegam a Caruaru e a festa fora do Trem, que começa na estação ferroviária, parte para o “Pátio de Eventos Luiz Gonzaga”. Enquanto o Trem do Forró faz a festa para os caruaruenses, estes recepcionam os turistas que chegam, comparecendo em massa e proporcionando animação e calor humano característicos da terra. Ao todo chegam em Caruaru, em junho, dez Trens do Forró, ou seja, seis mil pessoas apenas por via ferroviária.

O próximo momento da festa, depois da chegada do Trem, é o forró dançado no Pátio de Eventos, constituído de uma grande área para shows e da Vila do Forró, a cidade cenográfica. A área dos shows possui um grande palco de 800 m2, que possibilita ao público assistir às atrações musicais de qualquer ponto do Pátio. Durante todo o tempo em que acontecem os eventos, um locutor explica, em inglês, francês e português, os acontecimentos da festa, orientando também os turistas.

Na Vila do Forró tenta-se reproduzir, para que os visitantes possam conhecer e vivenciar, o clima e cultura material de uma “verdadeira cidade do interior” em tempo de festa na menor das cidades. A Vila é uma réplica de um arruado, com casas simples e coloridas, posto bancário, posto dos Correios, delegacia, sub-prefeitura, mercearia, igrejinha, forrós pé-de-serra e restaurantes. Entre as casas, há a casa da rainha do milho, da rezadeira, da parteira, da rendeira, de apresentação de mamulengos e outras personagens do interior. São 1.500 m2 de área cenográfica construída para oferecer, durante o ano todo, um pouco do São João de Caruaru aos turistas, embora a festa mesmo só aconteça em junho. Para a construção da Vila do Forró foram pesquisados nos povoados da zona rural da região os traços arquitetônicos e as cores utilizadas pelos pedreiros, “sem orientação acadêmica” conforme os organizadores afirmam. Algumas casas da Vila , por esta razão, não possuem reboco. (Site, 1997).

A Vila do Forró tem, inclusive, “habitantes”. Atores encenam, de forma bem humorada, o cotidiano de personagens típicos da região como o padre, as beatas, a parteira, o soldado de polícia, o poeta, o prefeito e a primeira-dama, entre outros. O Coronel Ludugero e sua amada Filomena são personagens de destaque na Vila. Estes personagens passeiam pela Vila do Forró e pelo Pátio de Eventos como se fossem reais. Os turistas que vão à Vila do Forró participam, portanto, de uma especial encenação teatral interativa que é mais uma das diferenciadas atrações do São João da “Capital do Forró”.

Outra atração muito popular do São João de Caruaru é a “Caminhada do Forró”, que sai do Pátio de Eventos no dia 9 de junho e é um dos grandes momentos dos festejos juninos de Caruaru. Verdadeira procissão dançante, cantante, de alegria, a caminhada tem como destino final o Alto do Moura, local onde viveu Mestre Vitalino.

O objetivo final da caminhada de quinze quilômetros é a degustação, ao final do percurso, do “Maior Cuscuz do Mundo”, oferecido gratuitamente aos brincantes. O cuscuz, prato típico do nordeste, é servido com leite de cabra e guisado de bode. Depois de servido o cuscuz, dança-se forró pé-de-serra na palhoça permanente do Alto do Moura. O “Maior Cuscuz do Mundo” é cozinhado em uma cuscuzeira gigante, que tem capacidade para 700 quilos de massa e mede 3,3 metros dealtura e 1,5 metros de diâmetro. O cuscuz consome 300 quilos de massa de flocos de milho, 20 quilos de farinha de mandioca, 5 quilos de sal e 10 quilos de margarina. A edição de 1997 do Guiness Book, cita o “Maior Cuscuz do Mundo” que em 1995 teve 600 quilos.

Outro dos momentos esperados da festa, que confirma o modelo processional do carnaval alcançando uma festa que até há pouco tempo estava excluída dele, é o Desfile Junino, que acontece na noite de Véspera de São João em Caruaru. São dez mil figurantes na rua promovendo uma mostra de todos os personagens folclóricos que fazem do Ciclo Junino uma das maiores festas regionais do país. Seguindo o consagrado modelo processional, presente também em quase todas as festas brasileiras, mais de vinte carros alegóricos reproduzem cenas do cotidiano do homem nordestino, retratando a riqueza da cultura popular da região. Em cada carro a história e os valores do interior pernambucano enriquecem a noite de São João. Os carros são considerados a “versão matuta” das alegorias carnavalescas.

BacamarteirosAlém dos carros alegóricos, há carroças ornamentadas, casamentos matutos, quadrilhas tradicionais e estilizadas, grupos folclóricos, Bacamarteiros, bandas de pífaro, artistas e figurantes e um grande espetáculo pirotécnico. Participam do desfile entidades de classes, alunos da rede escolar, instituições públicas, grupos de comerciantes e a população em geral (Site). O Desfile Junino começa às 20 horas do dia 23 de junho e percorre os três quilômetros da Av. Agamenon Magalhães seguindo em direção ao Pátio de Eventos, acompanhado por uma multidão.

Os Bacamarteiros são outra atração dos festejos juninos. Com os seus “poderosos” bacamartes eles atiram para festejar o Santo Antônio casamenteiro, o nascimento de São João Batista e São Pedro. Por ter em suas origens raízes militaristas, os Bacamarteiros se apresentam divididos em "batalhões", sob as ordens de um "comandante", e vestidos com roupas iguais de “azuarte” (espécie de brim, azul índigo, parecido com jeans). O harmônico de oito baixos, o triângulo, a zabumba de couro curtido e os pífaros animam as apresentações dos batalhões de Bacamarteiros (Carneiro, 1974; Souto Maior & Valente, 1988 e outros). A tradição dos Bacamarteiros é centenária e passa de pai para filho. É tão importante e tão levada a sério que, quando o pai morre e não há filhos homens na família, é a filha ou esposa quem toma seu lugar no batalhão, mantendo o costume. Os bacamartes são, em sua maior parte copiados de modelos de antigas granadeiras usadas pelas tropas sertanejas que lutaram na Guerra do Paraguai. Com a arma na mão, homens simples, como vaqueiros, agricultores e artesãos, transformam-se em milícias de senhores do trovão, senhores dos sons. Para os Bacamarteiros os bacamartes não são armas. São vistos como seres de estimação, nomeados como se fossem pessoas. São os próprios Bacamarteiros que fazem a pólvora seca que provoca o "espetáculo ribombo fumacento". É em Caruaru que se concentra o maior número de Bacamarteiros de toda a região. Dizem alguns que foi neste município que a tradição começou (Bastos, 1977; Prado, 1977; Barreto, 1990 e outros). O grande desfile dos Batalhões de Bacamarteiros costuma acontecer no dia 24 de junho e vai até o Pátio de Eventos, onde há demonstrações de tiros e o Forró do Bacamarteiro. (Jornal do Commércio, 30/10/1997).

Já se repete há alguns anos, nas noites de junho em Caruaru, a queima daquela que é considerada a “Maior Fogueira do Mundo”, de mais de dezessete metros de altura e que é acesa no Pátio do Convento dos Capuchinhos. São necessárias pelo menos 48 horas para a queima da fogueira. Enquanto ela queima, forrozeiros caruaruenses e turistas animam o arraial do Convento. Ao mesmo tempo, os foguetes e balões fazem festa no céu. Campina Grande também proclama ter a "maior fogueira do mundo", é claro.

Fonte: www.aguaforte.com

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