As tempestades magnéticas que, de vez em quando, perturbam as telecomunicações, estavam chateando os dirigentes da Bell Telephone, nos Estados Unidos dos anos 20. Para obter maiores informações sobre esses desagradáveis fenômenos, eles contrataram o jovem físico Karl Jansky, com a missão de construir grandes antenas e estudar os sinais vindos do Sol.

No final de 1930, Jansky já tinha construido sua primeira antena e com ela começou a "escutar" as ondas de rádio que vinham do espaço exterior. Em 1933, ele já descobriu que a maior fonte de sinais era a nossa própria galáxia, a Via Láctea. Em torno da Terra existe uma camada, entre 50 e 500 km de altitude, chamada "ionosfera", onde o gás rarefeito da atmosfera terrestre é ionizado pela luz do Sol. Um átomo ionizado, como você sabe, é um átomo do qual são arrancados um ou mais elétrons. No caso, quem arranca esses elétrons é a radiação solar. Essa tal ionosfera reflete ondas de rádio, principalmente as chamadas "ondas curtas". É isso que possibilita a gente captar um emissora de rádio do Japão, mesmo sem usar satélites. Durante períodos de grande atividade solar, a radiação do Sol ioniza uma quantidade anormal de átomos e a ionosfera fica tão cheia de íons que se torna uma verdadeira barreira. Sinais de rádio vindo de fora não entram e sinais originados na própria Terra não saem. Nesses períodos os radioastrônomos ficam praticamente ilhados, impossibilitados de receber sinais de rádio do espaço exterior, principalmente durante o dia, quando a ionosfera fica ainda mais densa.

Foi aí que Jansky deu a maior sorte. Ele começou a observar os sinais da Via Láctea de 1932 a 1934, durante um mínimo de atividade solar. Se ele tivesse começado alguns anos antes ou depois, o início da radioastronomia teria sido adiado por algum tempo. Hoje, os radiotelescópios são bem mais sensíveis que a antena primitiva de Jansky. Além disso, satélites como o SOHO estão livres dessas limitações.

O1 aparecimento de manchas e outras manifestações de atividade no Sol segue um ciclo com período de 11 anos, cuja razão ainda não foi bem explicada pelos cientistas. Por convenção, os ciclos são numerados a partir do ano de 1755, quando Heinrich Schwabe divulgou sua descoberta.
No presente ano estamos vivendo o ciclo de número 23. Tem gente supersticiosa que acredita que esses períodos de grande atividade solar afetam a vida das pessoas aqui na Terra, enlouquecendo umas e prejudicando a saúde de outras. É claro que você não cai nessa, com sua mente racional de cientista. Mas, se estiver curioso, verifique, na figura abaixo, se nasceu em um ano de atividade ou em um ano de calma solar.
Já houve ocasiões em que o número de manchas se manteve extremamente baixo durantes muitos anos. Por exemplo, nos 70 anos anos entre 1645 e 1715, praticamente não apareceram manchas solares. Esse período foi estudado pelo astrônomo inglês E. W. Maunder, em 1922, através da observação de anéis de crescimento das cascas de árvores. Ao que parece, em anos de grande atividade, os anéis ficam mais finos. Eis um interessante exemplo de astronomia botânica!
Mais recentemente, John Eddy mediu a percentagem do isótopo carbono-14 nesses anéis. Verificou que a quantidade de carbono-14 nos anéis varia com a atividade solar. Quanto mais ativo estiver o Sol, mais carbono-14 nos anéis que se formam na época. Desse modo, ele achou doze épocas de baixa atividade, comparáveis ao período de Maunder, que ocorreram nos últimos 5000 anos.
Estamos passando por um período de intensa atividade solar, em um ciclo que se iniciou por volta do ano 2000. Como relataremos no próximo capítulo, essa atividade provoca vários efeitos reais aqui na Terra, uns belos e outros nocivos e potencialmente perigosos

Durante os períodos de atividade solar intensa, o Sol costuma lançar quantidades impressionantes de matéria no espaço. São fluxos de gases excitados que saem do Sol e podem atingir a Terra com velocidades superiores a 500 quilômetros por segundo. É o chamado "vento solar".
Além desse material, as erupções solares emitem raios-X e radiação ultravioleta que aquecem as camadas superiores da atmosfera terrestre. A interação entre o vento solar e o campo magnético da Terra ocasiona as chamadas "tempestades geomagnéticas". Quando isso acontece, a radiação afeta os equipamentos eletrônicos dos satélites, prejudicando as comunicações.
Os próprios satélites podem ser danificados ou perdidos. As camadas superiores da atmosfera se aquecem e se expandem e podem atingir a altura de um satélite. O atrito pode, então, desacelar o satélite e modificar sua órbita. Em caso de ventos solares muito intensos, astronautas em órbita correm risco de vida se forem expostos à radiação. Até passageiros de aviões sofrem algum risco.
Se o vento solar for muito intenso, eles podem receber uma dose de radiação equivalente a um raio-X médico. Atualmente (Outubro de 2003), estamos atravessando um período de atividade solar relativamente intensa. A fotografia abaixo mostra uma gigantesca erupção ocorrida no dia 28 de Outubro lançando grande quantidade de material que atingiu a Terra no dia seguinte.

Nem todos os efeitos da atividade solar são nocivos. Um deles, belo e espetacular, são as auroras boreais, luzes coloridas que surgem nos céus de regiões relativamente próximas do pólo norte. Normalmente, as auroras boreais são esverdeadas, pois os átomos de oxigênio das altas camadas atmosféricas emitem luz verde, ao serem excitados pelos elétrons de alta velocidade do vento solar.

Quando a tempestade é forte pra valer, camadas mais baixas da atmosfera são atingidas pelo vento solar e a aurora boreal pode ser vermelha, cor da luz emitida por átomos excitados de nitrogênio, outro constituinte de nossa atmosfera. Além disso, nesse caso, as auroras boreiais podem ser vistas mesmo em latitudes bem menores. As auroras provocadas por uma tempestade magnética que ocorreu em Abril de 2000 foram vistas até na Flórida!
A foto abaixo foi tirada nessa data pelo astrônomo tcheco Jan Safar, do Observatório de Brno. Ela mostra a aurora vista no céu do Observatório que fica a 48 graus de latitude norte.

Fonte: www.fisica.ufc.br