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A Lotação dos Bondes

França Júnior

Cena VI

Personagens: OS MESMOS, VITORINO, ERNESTO, GONZAGA, MAGALHÃES e CARNEIRO (Que vêm de dentro cantarolando.)

E viva o Zé Pereira
Pois que a ninguém faz mal,
Viva a bebedeira
No dia de Carnaval, etc.

CAMILO - Esconda-se, minha senhora.

CARNEIRO - Oh! Cá está o Camilo. (Vendo Elvira no momento em que esta entra para a esquerda baixa.) Olé, temos contrabando?

CAMILO - Por favor, deixem-me só.

GONZAGA (Rindo-se.) - O mitra tinha conquista; por isso é que não quis se incorporar à troça.

VITORINO (Para Camilo.) - És um tenente degenerado.

CARNEIRO - Meus senhores, eu sou o homem da justiça. Assim como há pouco tive a honra de vos propor que o Magalhães fosse promovido a capitão do diabo pelo muito que tem trabalhado em prol da barriga, proponho agora que demos baixa quanto antes no Camilo e que se mencione este acontecimento em ordem do dia.

Toros - Apoiado! Apoiado!

CAMILO - Pois sim, dêem-me baixa, reformem-me, tirem-me o título de barão de Kikiriqui com que me agraciaram, mas deixem-me só, pelo amor de Deus. (Entra para a direita.)

CARNEIRO (Gritando para a direita.) - Queremos ver esta conquista.

TODOS - Ah! Ah! Ah!

MAGALHÃES (Tirando uma nota do saco.) - Meus senhores, uma nota de dez mil réis arrancada com argumentos irresistíveis da carteira de um usurário!

Cena VII

Personagens: VITORINO, ERNESTO, GONZAGA, MAGALHÃES, CARNEIRO e RAMIRO

RAMIRO (Entrando com um queijo embrulhado e diversos embrulhos sobraçados.) - Boa tarde, meus senhores. Os senhores não viram por aqui uma menina de vestido branco, nariz aquilino, cabelos crespos, um pequeno sinal na face direita.

CARNEIRO - Baixota, gordota, bonitota? Não vimos, não, senhor.

RAMIRO - Deixem-se de caçoadas, que eu falo sério. Quem é o dono da casa?

CARNEIRO (Olhando para o queijo.) - Quer que lhe alivie deste peso?

RAMIRO - Mas com os diabos isto é para desesperar!

MAGALHÃES - Meu caro amigo, chegou a propósito.

RAMIRO - Acaso sabe onde ela está? Oh! Diga-me, senhor, pelo amor de Deus, onde está ela?

MAGALHÃES - Ela quem?

RAMIRO - Minha filha, que perdeu-se em um bonde e que a esta hora vaga pela cidade, sem uma bengala que a proteja. Eis aí em que deu a medida da polícia. Chuche, seu Ramiro! Não há nada como morar fora da cidade, dizem todos. Pois não, é ótimo! Vai um cidadão para casa, carregado como uma carroça de trastes, leva muitos trambolhões, pontapés e socos, para escalar um bonde; quando julga-se aboletado, empurram-no da plataforma, porque a lotação está completa e lá se vai um pai sem uma filha, uma família sem chefe... Isto é para fazer perder a cabeça!

MAGALHÃES (Mostrando o saco.) - Em todo o caso foi a Providência que aqui o trouxe para praticar uma boa ação.

RAMIRO - O que quer o senhor com este saco?

MAGALHÃES - Uma esmola para as vítimas da epidemia de Buenos Aires.

RAMIRO - Sim, senhor; dou a esmola; mas fique sabendo que no Rio de Janeiro há uma epidemia maior do que todas as que possam assolar o universo.

MAGALHÃES - Qual é, meu caro senhor?

RAMIRO - A epidemia da caridade. Há uma chuva de gafanhotos na China, o Brasil, que tem grandes interesses no Celeste Império, trata logo de minorar os sofrimentos dos sectários de Confúcio. Arvora-se uma comissão com o respectivo presidente, que sai pelas ruas a esmolar. Livre-se então quem puder. Amigos, conhecidos, desconhecidos, todos, ninguém escapa, todos hão de concorrer com o seu óbolo para o saco: em outro tempo dois vinténs era o óbolo do remediado; a praga dos cartões, porém, matou o cobre, e quando nos apresentam uma sacola, lá se vão de pancada dois tostões. A caridade, esse sentimento rei, que o Cristo depositou no santuário da nossa consciência, tornou-se uma virtude oficial. Esmolam arregimentados, com murças, insígnias, nas portas dos templos, dos teatros, do passeio, nas cancelas do Jóquei Clube, por toda a parte, enfim, onde a filantropia fique bem patente. O Evangelho diz que a mão direita não deve saber o que dá a esquerda. O que a mão direita dá, entre nós, não só o sabe a esquerda, como um terceiro, que se coloca entre o rico e o pobre como procurador deste. Um filantropo quer comemorar o nascimento de um filho ou o aniversário natalício da mulher, liberta o ventre de uma escrava de oitenta anos, e manda publicar logo em todas as folhas diárias: "Ato de filantropia. O Sr. Fulano dos Anzóis Carapuça, querendo solenizar o dia, etc., etc., libertou o ventre de sua escrava Quitéria." Atos como este não se comentam. Outros libertam ventres, que ainda podem dar frutos e vivem desconhecidos na sociedade.

MAGALHÃES - Pois bem, meu amigo, proteste, mas pague.

RAMIRO - Já lhe disse que dou a esmola. O que desejo é que os senhores, mancebos em cujos peitos pulsam os mais generosos sentimentos, se convençam de que vão no meio em todo este negócio, como eu. As honras, as condecorações, os agradecimentos oficiais e as tetéias, são para os graúdos, ao passo que para os pequenos há a consolação de voltarem-se para o céu e exclamarem - Meu Deus, vós sois testemunha de que eu fiz o bem pelo bem. Aqui tem dez tostões.

MAGALHÃES - Obrigado. Falou como um Demóstenes.

RAMIRO (Canta.)

Nesta terra caridosa
Os pequenos e miúdos,
Servem todos, sem exceção,
De degrau para os graúdos.

Muito tolo é quem trabalha
Para os grandes elevar,
Que no dia da ascensão
Pontapés há de tomar.

Eles são grandes gigantes,
Nós pequenos pigmeus;
Eles sábios e ilustrados,
Nós camelos e sandeus.

Nesta terra caridosa
Os pequenos e miúdos,
Servem todos, sem exceção,
De degrau para os graúdos.

Mas onde estará minha filha? Elvira, anjo de candura, onde paras? Olá de dentro?

CARNEIRO (Olhando para o fundo.) - Lá está um grande grupo. A ele, rapaziada! (Saem todos correndo.)

Cena VIII

Personagens: RAMIRO e depois JOAQUIM PIMENTA

RAMIRO - O sangue sobe-me à cabeça, eu vou ter um ataque.

PIMENTA (Entrando a toda pressa pelo fundo.) - O senhor não viu por aqui uma moça de vestido branco?...

RAMIRO - Diga, fale, senhor, onde é que a viu? Nariz aquilino, cabelos crespos...

PIMENTA - Não, senhor; nariz chato, cabelo corrido e acode pelo nome de Josefa.

RAMIRO - Ora bolas! Então não é ela.

PIMENTA - De quem é que o senhor fala então?

RAMIRO - De minha filha, que perdeu-se em um bonde, desgraçado!

PIMENTA - E eu falo de minha mulher, que sumiu-se também em um carro que veio para o Jardim Botânico. Que dia, meu prezado senhor! Minha mulher perdida e eu com este furioso galo na testa. E quer saber por que foi tudo isto? Por causa da lotação.

RAMIRO - E não sabe também o senhor que, por causa da lotação, acho-me agora aqui, com estes embrulhos, e este queijo londrino, que devia figurar a esta hora no banquete dos anos de minha mulher, que todos os convidados lá estão à minha espera e que minha filha anda por aí exposta às chufas do primeiro valdevinos?

PIMENTA - E minha mulher? Uma criatura inocente e angélica, nascida na freguesia da Meia Pataca, uma tontinha que nunca veio à corte e que será capaz de aceitar o braço do primeiro bigorrilhas que lhe queira ir mostrar o peixe-boi do Fialho. Eu vinha para as Laranjeiras e ela veio parar para estes lados.

RAMIRO - Justamente como eu.

PIMENTA - Quando investi para o carro e procurei ganhar o estribo um malvado arruma-me tamanho soco que caí sobre as pedras, fazendo este galo na testa.

RAMIRO - Não é exato. Conte o caso como o caso foi. O senhor, ao subir para o estribo, escorregou; neste escorregão segurou-se à aba da sobrecasaca de um indivíduo, procurando arrastá-lo também na queda.

PIMENTA - Como sabe o senhor isto?

RAMIRO - Porque foi este seu criado quem teve a honra de dar-lhe o soco.

PIMENTA - E o senhor diz-me em face semelhante coisa?

RAMIRO - Ora, vamos lá; quer brigar?

PIMENTA - Há de dar-me uma satisfação em público.

RAMIRO - Dou-lhas todas que quiser; pago-lhe até o curativo do galo; mas lembre-se que estamos empenhados em uma causa comum, para a qual devem convergir presentemente todos os nossos esforços.

PIMENTA - Sim, um soco em um cidadão! Não é nada. É sabido que sou influência na Meia Pataca...

RAMIRO - Diga antes - influência de meia-pataca, como são todas as de aldeia.

PIMENTA - Não me falte ao respeito, senhor.

RAMIRO - Perdão, não me fiz bem compreender; eu queria dizer influência apatacada, que é a verdadeira influência.

PIMENTA - Aceito a explicação. Ora, sendo eu conhecido na freguesia pelo meu apego a todos os governos, necessariamente a Reforma há de aproveitar este incidente para um boato.

RAMIRO - Deixemo-nos de questões ociosas. Quer ou não achar sua mulher?

PIMENTA - E para que fim vim eu cá?

RAMIRO - Então vamos para o jardim; o senhor procura por um lado e eu por outro. Os sinais de minha filha são os seguintes:

vestido branco, nariz aquilino, cabelos crespos e pretos. E clara.

PIMENTA - Aí vão os da minha mulher: cara larga, nariz chato, falta de um queixal, está um pouco indefluxada e traz uma liga verde.

RAMIRO - Muito bem; vamos embora. (Canta.)

Ao Jardim sem mais demora,
Vamos ambos procurar,
O senhor a cara esposa,
Eu a vida do meu lar.

PIMENTA -

Oxalá que as encontremos,
No que não tenho esperança,
Procuremos as tontinhas
Que a noite já se avança

RAMIRO -

Ao Jardim sem mais demora,
Vamos, etc., etc.,


PIMENTA -

Oxalá que as encontremos,
No que, etc., etc.

PIMENTA - Vamos! (Sai sem chapéu, com Ramiro, pelo fundo.)

Cena IX

Personagens: CAMILO, JOSEFA e depois PIMENTA

JOSEFA - O senhor disse que nos levava para casa, logo que acabássemos de jantar.

CAMILO (À parte.) - Que sarna! (Alto.) Éverdade, mas eu não sei onde a senhora mora.

JOSEFA - É na rua... (Procurando lembrar-se.) Uma rua muito suja.

CAMILO - No Rio de Janeiro não há rua que seja limpa. Já vê que estamos na mesma.

JOSEFA - Rua de...

PIMENTA (Entrando para procurar o chapéu; à parte.) - Olá! Minha mulher com um sujeito! Ui! Que picada no galo!

JOSEFA - Rua de...

PIMENTA (A parte.) - Está lhe ensinando a casa.

JOSEFA - Eu vou perguntar à mocinha; ela há de saber. (Entra pela direita.)

Cena X

Personagens: CAMILO e PIMENTA

(Pimenta dirige-se a Camilo e contempla-o com raiva, abanando a cabeça, pequena pausa.)

CAMILO (À parte.) - O que quererá este sujeito?

PIMENTA - Conhece-me? Sabe quem eu sou?

CAMILO - Não tenho essa honra.

PIMENTA - Ponha o seu chapéu e vamos à polícia.

CAMILO - À polícia?!

PIMENTA - Ande, senhor.

CAMILO - Ora, vá pentear macacos.

PIMENTA - Ah! Miserável, pensavas que poderias abusar impunemente da posição de uma moça que é surpreendida em um bonde, sozinha, inerme, sem defesa...

CAMILO (À parte.) - Com os diabos! É o pai de Elvira!

PIMENTA - Vai já me pagar.

CAMILO - Estou pronto a reparar tudo, senhor.

PIMENTA - A reparar tudo! Então ela cometeu uma falta?! Ai! Meu Deus! Quero ar! Quero ar!

CAMILO - Sossegue, senhor.

PIMENTA - Estou com a vista escura! Segure-me. (Desmaia nos braços de Camilo.)

CAMILO (Gritando.) - Garçom? Garçom? (Aparece o criado.) Leva este senhor para dentro. (O criado leva Pimenta para a esquerda.) Estou perdido!

Cena XI

Personagens: CAMILO e JOSEFA

JOSEFA - Já sei: é na rua de São Diogo.

CAMILO (Passeando apressado.) - Está bom, minha senhora; faça-lhe bom proveito.

JOSEFA - Vamos já, antes que anoiteça.

CAMILO - Pode ir sozinha, eu não a acompanho.

JOSEFA - Não me acompanha?! (Chorando.) Ai! Meu Deus! O que será de mim?

CAMILO - Grita para ai.

JOSEFA (Chorando.) - O senhor é um homem sem entranhas.

CAMILO - Melhor.

JOSEFA (Chorando.) - Não se condói da posição de uma pobre desgraçada... Pois bem, eu ficarei aqui, e meu marido há de achar-me. (Entra para a direita.)

Cena XII

Personagens: CAMILO e depois ELVIRA

CAMILO - Que os diabos te carreguem. E então o que me dizem a uma entaladela destas?

ELVIRA - Vamos embora, senhor.

CAMILO - Elvira, está tudo perdido!

ELVIRA - Tudo perdido?! Não o compreendo!

CAMILO - Não podemos sair daqui sem um grande escândalo!

ELVIRA - E é o senhor que me falava ainda há pouco por aquele modo, que me vem agora dizer...

CAMILO - É por isso mesmo.

ELVIRA - Compreendo finalmente os seus planos. Tenho em meu poder uma donzela fraca e indefesa, disse com os seus botões, uma tolinha que teve a ingenuidade de declarar-me que me amava. Pois bem, vou abusar da posição que me deu a minha boa estrela e divertir-me à custa da infeliz.

CAMILO - Mas, Elvira...

ELVIRA - Deixe-me, vou partir já, em companhia daquela senhora. Os nossos amores estão acabados.

Cena XIII

Personagens: OS MESMOS, RAMIRO e depois PIMENTA

RAMIRO (Entrando pelo fundo, à parte.) - Onde se meteria aquele palerma? (Deparando com Elvira.) Ah! Elvira! Elvira! Minha filha!

CAMILO (À parte.) - Sua filha?!

RAMIRO - Deixa-me abraçar-te; segura neste queijo. (Dá o queijo, deparando com Camilo.) Quem é este homem?

PIMENTA (Entrando.) - Ah! Ainda está aí! Vamos para a polícia, senhor.

RAMIRO - Para a polícia?! Por quê?

PIMENTA - Vêem este libertino?! É o sedutor de minha mulher.

ELVIRA (Indo abraçar-se com Ramiro.) - Meu pai, defenda-me.

CAMILO - Mas que diabo de mulher foi que eu seduzi? Eu pensava que o senhor fosse o pai desta menina.

RAMIRO - Então o negócio é com minha filha?

CAMILO (À parte.) - Que embrulhada, meu Deus!

Cena XIV

Personagens: OS MESMOS e JOSEFA

JOSEFA - Estou pronta. (Deparando com Pimenta.) Pimenta! Foi o céu quem te trouxe aqui!

CAMILO - Ah! Esta é que é a sua mulher? Ah! Ah! Ah!

PIMENTA - E o senhor ainda ri-se?

CAMILO - Pois não quer que me ria? Ah! Ah! Ah!

PIMENTA - Que desaforo!

CAMILO - Não precisa ter o incômodo de me levar à polícia. Dona Elvira explicar-lhe-á tudo.

PIMENTA - Como sabe o senhor o nome de minha filha?

ELVIRA - Papai, é o Senhor Camilo, aquele moço de quem lhe tenho falado por diversas vezes e que passa todas as tardes lá por casa.

RAMIRO - E vieste parar sozinha no Jardim Botânico com um namorado?!

CAMILO - É verdade; porém um namorado respeitador e das melhores intenções, que aguardava solícito uma ocasião para pedir-lhe este anjo em casamento.

RAMIRO - Mas isto não é um sonho?

ELVIRA - E eu quero, papai.

RAMIRO (Com alegria.) - E eu também, minha filha!

PIMENTA (Para Josefa.) - Não hás de embarcar mais em bondes.

RAMIRO - Pois minhas filhas hão de andar doravante somente em bondes e oxalá que todas se percam como esta. Bendita lotação! Vou dar um abraço na polícia.

Cena XV

Personagens: OS MESMOS, VITORINO, GONZAGA, CARNEIRO, MAGALHÃES e ERNESTO

TODOS (Os tenentes.) - Vivam os Tenentes do Diabo!

CARNEIRO (Vendo Pimenta.) - Lá está um que ainda não deu nada.

RAMIRO (Com alegria.) - Cheguem para cá todas as bolsas, estou radiante de felicidade. (Dá dinheiro em todas as bolsas)

Levem também este queijo e façam-no figurar em um tombola. (Dá-o a Carneiro.)

(A orquestra preludia o canto final, Ramiro dispõe-se a cantar.)

Cena XVI

Personagens: OS MESMOS e o CRIADO

CRIADO - Chegou um bonde da cidade. (Saem todos correndo, com atropelo, pelo fundo.)

(Cai o pano.)

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