Amor com Amor se Paga
França Júnior
Cena V
Eduardo, Miguel, Adelaide e Vicente
Vicente - A ceia está na mesa.
Eduardo - Passemos à sala imediata. Lá ergueremos um brinde a
esse amor casto e puro, que eu e a senhora consagramos a seu marido.
Miguel (À parte.) - E eu hei de dar o urras! Tratante. (Saem todos menos
Miguel.)
Cena VI
Miguel, só.
Miguel (Saindo debaixo da mesa.) - E esta! Escapo de Cila e venho cair em Caríbides.
Mas agora, não há mais considerações que me obriguem
a guardar conveniências. Este tratante há de pagar-me. Minha mulher
julga-me no clube, jogando o voltarete, e enquanto eu namoro a mulher do próximo,
ela procura idéias fora de casa. É bem feito, seu Miguel Carneiro.
Mas, em suma, quem é este homem que eu não conheço? Eu
tenho o direito de saber o seu nome; porque no fim de contas minha mulher tem
por ele uma paixão...platônica. Oh! este platonismo alivia-me de
um peso...É demais! Quero saber tudo. (Avança para a porta e é
detido por Vicente.)
Cena VII
O mesmo e Vicente
Vicente - O senhor ainda está aqui!
Miguel - Quem é esse homem que daqui saiu?
Vicente - Vá-se embora, senhor; não me faça perder a paciência.
Suma-se, suma-se.
Miguel - Eu quero saber o nome desse homem, e daqui não sairei, enquanto
não arrancar do seu poder aquela mulher.
Vicente - Mau, mau, o senhor está me fazendo perder as estribeiras. Não
me obrigue a lançar mão da grafia. (Faz partes de capoeira.)
Miguel - Estou disposto a arrostar um escândalo.
Vicente - Olhe que eu lhe mostro para quanto presta este mulatinho. Se duvida
muito, passo-lhe as bocas enquanto o diabo esfrega um olho. Vá-se embora,
moço, vá-se embora. Que moço de maçada!
Cena VIII
Os mesmos e Emília Coutinho
Emília (Entrando às pressas.) - Felizmente encontro-o são
e salvo!
Miguel - Senhora! O que veio aqui fazer?!
Vicente (À parte.) - Por esta casa anda hoje o diabo.
Emília - Que susto, meu Deus! Repare como estou tremendo. Quando o vi
perseguido pela polícia, como um ladrão, não pude conter-me:
saí também para a rua, afrontando as conseqüências
deste passo irrefletido e , depois de muito indagar, soube que tinha entrado
aqui. Estou comprometida até a raiz dos cabelos, apesar da inocência
dos nossos amores e agora não sei como sair deste apuro.
Miguel - Fuja quanto antes, minha senhora; a sua presença nesta casa
é a minha perdição.
Vicente (À parte.) - Isto acaba numa grande água suja. Eu vou
para dentro e cá não venho mais, haja o que houver. (Sai.)
Emília - Meu marido já está talvez em casa. Que fizeste,
Emília!
Miguel - Que noite, que noite, meu Deus!
Emília (Chorando) - O senhor foi o culpado.
Miguel - Não grite, senhora.
Emília (Chorando.) - Eu amava muito meu marido. Por que veio desinquietar-me?
Estou perdida por causa de um namoro de passatempo e amanhã serei apontada
por toda a cidade como uma réproba.
Miguel - Não grite, senhora, que eles estão ali.
Emília - Não poder aparecer mais diante de meus filhos. Que fizeste,
Emília?
Miguel - Mas com os diabos, quem lhe mandou vir aqui a estas horas? Queixe-se
de sua leviandade. Aí vêm eles: esconda-se. (Depois de correrem
atrapalhados pela Cena, escondem-se afinal os dois ao lado da mesa.)
Cena IX
Emília, Miguel, Eduardo e Vicente
Eduardo (A Vicente.) - Vai depressa buscar um carro.
Emília (À parte.) - É a voz de meu marido; segure-me que
estou desmaiando. (Cai nos braços de Miguel.)
Miguel (À parte.) - Seu marido!
Vicente - Ó Nhonhô, aquela mocinha parece-me meia gira. Eu creio
que ela sofre do fígado. (Apontando para a cabeça; saí.)
Eduardo - Decididamente não é uma mulher; é um romance
vivo. Sou para ela D. Juan, Gilbert, Dartagnan, tudo que tem saído da
cabeça dos poetas, menos o que sou. Já não posso aturá-la.
Miguel (À parte.) - Que noite, meu Deus!
Eduardo - Enquanto ela lê versos, reclinada nos coxins do divã,
vou respirar um pouco de ar à janela. (Sai.)
Cena X
Emília e Miguel
Miguel - Ó senhora, olhe que a ocasião não é própria
para faniquitos. Acabe com isto.
Emília - Ele já partiu?
Miguel - Ele quem?
Emília - Meu marido; eu ouvi a sua voz. Estou comprometida para sempre,
e no entretanto o senhor bem sabe que ainda não me esqueci dos meus deveres.
Miguel - Infelizmente sei: mas descanse que a senhora está salva e eu
também.
Emília - Salva?! O senhor não o conhece; é ciumento como
um Otelo e será capaz de estrangular-me aqui mesmo com este pano de mesa.
Miguel - Eu aposto a minha cabeça como ele não lhe dirá
a mais pequena palavra. Escute; eu vou ajoelhar-me a seus pés, segurar-lhe
na cetinosa mão. (Ajoelha-se e segura-lhe na mão. ) E a senhora
gritará, fingindo que forceja por sair de meus braços.
Emília - Deixe-me, senhor; deixe-me, ele pode chegar e a minha vida corre
perigo.
Miguel - bravo, bravo, muito bem; é isto mesmo o que eu quero.
Emília - Não abuse da minha situação e considere
que sou uma mãe de família.
Miguel - Eu te amo, te idolatro, és a estrela polar do meu firmamento.
Ande, grite mais.
Emília - Senhor.
Cena XI
Os mesmos e Adelaide
Adelaide (À parte.) - O que vejo? De joelhos aos pés de outra
mulher, e já em mangas de camisa! (Alto.) Senhor, o seu comportamento
é inqualificável! (Emília grita. Miguel levanta-se e volta-se.)
Meu marido! (Desmaia.)
Emília - Não me explicará o que significa tudo isto, senhor?
Miguel - Oculte-se aqui; não devemos perder um só minuto. Vai
saber em breve a decifração de tudo. (Leva-a para uma das portas
da direita e fecha a porta; para Adelaide.) Levante-se, minha senhora, os desmaios
estão já muito explorados pelos romances modernos.
Adelaide (Ajoelhando-se.) - Perdão, Miguel.
Miguel - Esta posição é ridícula demais para uma
heroína.
Adelaide (Erguendo-se com altivez.) - Tens razão; eu não sou tão
criminosa como te parece, e assiste-me, por conseguinte, o direito de perguntar-te
o que fazias nesta sala com aquela mulher.
Miguel - É o mesmo direito que me assiste. O que veio a senhora fazer
nesta casa?
Adelaide - Miguel, eu te juro pela minha vida que estou inocente.
Miguel - Quem é esse homem que aqui mora?
Cena XII
Eduardo, Miguel e Adelaide
Eduardo - Que faz o senhor aqui?
Miguel - Não tenho que dar-lhe satisfações.
Eduardo (Para Adelaide.) - Quem é este homem?
Adelaide (À parte.) - Estou perdida.
Miguel (Sentando-se no sofá.) - Minha senhora, tenha a bondade de dizer
aqui ao senhor quem eu sou. (Pausa.) Já que é tão curioso,
vou satisfazê-lo. Chamo-me Miguel Carneiro, e apesar de estar intimamente
convencido de que o senhor não passa de um ideal para esta mulher romanesca,
da qual sou marido, eu ainda assim o desafiaria para um duelo, como fazem os
homens de brio, se não aprouvesse à fatalidade trazer-me a esta
casa, como que expressamente para dizer-lhe - que nada devemos um ao outro.
Eduardo - Senhor Miguel Carneiro, creia que...
Miguel - Sei tudo. O senhor amou minha mulher.
Eduardo - Mas...
Miguel - Puro platonismo; estou disto intimamente convencido. Ora, na minha
qualidade de marido, devo ser grato aos obséquios que fazem à
minha mulher.
Adelaide (À parte.) - O que quererá ele fazer, meu Deus!
Miguel - Eu gosto de pagar os benefícios à boca do cofre.
Adelaide (Ajoelhando-se entre os dois.) - Se sinistras são as tuas intenções,
oh! Miguel, antes de consumá-las, terás de passar por cima do
meu cadáver.
Miguel - Tranqüilize-se, senhora; eu não lhe darei o gosto de mais
uma emoção romanesca. (Adelaide levanta-se; para Eduardo.) Devo-lhe
em matéria de amor uma reparação; vou satisfazer-lhe já
a minha dívida. (Indo à porta onde se acha Emília.) Pode
sais, minha senhora. (Emília sai.)
Cena XIII
Os mesmos e Emília
Eduardo - Emília!!!
Emília - Não me condenes. Sobre tua cabeça pesa um crime
talvez, eu apenas cometi uma leviandade.
Miguel - Fique descansada; sobre nossas cabeças não pesa absolutamente
coisa alguma. Pode abraçar sua mulher, eu abraçarei a minha.
Eduardo - E por que artes veio o senhor ter a esta casa?
Miguel - Enquanto o senhor fazia a corte à minha metade, eu constipava-me
no seu galinheiro à espera da sua. Mas já lhe disse que pode ficar
tranqüilo; o divino Platão velava por nós. Sua mulher explicar-lhe-á
o que aqui me trouxe.
Eduardo (Abraçando Emília.) - Emília!
Adelaide (Abraçando Miguel.) - Miguel!
Miguel (Para Eduardo.) - Amor com amor se paga. Já vê que nada
devemos um ao outro; dou-lhe o troco na mesma moeda.
Cena XIV
Eduardo, Adelaide, Emília, Miguel e Vicente
Vicente - O carro está ai. (À parte.) Olé!
Miguel - Há de permitir-me que o aproveite. Não posso ir a pé
para a casa nestes trajes.
Eduardo - Com muito prazer.
Miguel (Despedindo-se.) - É verdade, a sua graça?
Eduardo - Eduardo Coutinho, seu humilde criado.
Miguel - Pois, Senhor Eduardo, lá estou às suas ordens. Creio
que já sabe onde moro.
Eduardo - Da mesma forma. Para que não tenha mais o incômodo de
entrar pelo quintal, a porta da minha casa dá para a Rua da Ajuda.
Vicente (À parte.) - Os diabos me carreguem, se compreendo esta embrulhada.
Todos (Menos Vicente.) - Ó Platão, bendito sejas.
Foste o nosso protetor;
Viva a bela teoria
Do teu casto e puro amor.
É sublime, edificante,
A lição que tu nos dás,
Onde plantas teu domínio,
Reina a ordem, impera a paz.
(Cai o pano.)
FIM
Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante