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As doutoras

França Júnior

ATO QUARTO

Sala regularmente mobiliada. Ao lado um berço.

CENA I
LUÍSA e EULÁLIA

LUÍSA (Ninando ao colo uma criança, cantarolando.) - Tu, tu, ru, tu, tu, ru!.

EULÁLIA - Deixe-me carregá-lo um poucochinho, a senhora deve estar cansada!

LUÍSA - Não sei o que ele tem hoje, está tão impertinente!

EULÁLIA (Tirando a criança do colo de Luísa e carregando-a.) - Não é nada, patroa!.. . (Olhando-a.) Como é bonitinho! Olhe, isto daqui para cima é a mãe, sem tirar nem pôr. (Mostrando o nariz e a testa.) Daqui para baixo, é o pai, escarradinho, (Mostrando a boca e o queixo.) e as mãozinhas então, Jesus! Nunca vi nada tão parecido.

LUÍSA - De quem são as mãos?...

EULÁLIA - Do avô, patroa. Até tem as unhas fêmeas como as dele.

LUÍSA - Neste andar acabarás por achá-lo parecido até com o meu defunto bisavô que nunca viste. (Segurando no queixo da criança e fazendo-lhe festas.) Estão caçoando com você, não é, meu negrinho?

EULÁLIA - Olhe lá como ele ri!... Ai que gracinha!

CENA II
AS MESMAS e MARIA

MARIA - Dá cá, dá cá este ladrãozinho, que ainda não segurei nele hoje! (Tira-o do colo de Eulália e carrega-o.)

LUÍSA Não o acha um pouco abatido, minha mãe?

MARIA - Qual, menina! Está tão coradinho!

EULÁLIA - A patroa permite que eu meta o meu bedelho onde não sou chamada?

LUÍSA - O que é?

EULÁLIA - Eu acho que dão banhos demais nesta criança!

MARIA - Querias então que ele não se lavasse?

EULÁLIA - Não, ora, mas é que esses banhos de corpo esfregado, zás, zás, que te zás, com uma esponja tiram muito a sustância duma pobre criatura. O que convém é um banho de sopapos.

LUÍSA - Mas que história é essa de banhos de sopapos?

EULÁLIA - Pois a patroa não sabe? Deita-se o pequenino dentro da bacia e a gente de longe, com a mão aberta, vai-lhe jogando água em cima. (Imitando o barulho dágua.) Xoque! Xoque! Xoque!

LUÍSA - Tens cada lembrança.

EULÁLIA - Eu cá nunca tomei banhos senão de sopapos e olhe a senhora que tenho-me dado muito bem com eles!

CENA III
OS MESMOS e PRAXEDES

PRAXEDES (Entrando e querendo tirar a criança.) - Vem para o colo de vovô, meu bem!

MARIA - Deixa-o aqui. Ele está tão bem!

PRAXEDES - Mas há dois dias que não lhe faço uma festinha.

MARIA (Falando com a criança.) - Com quem você quer ir? Com o vovô ou com a vovó?

EULÁLIA - Está rindo outra vez! Olhe que gracinha!

PRAXEDES - Se está rindo é por que quer vir comigo. (Tira-o e carrega-o.)

MARIA - És muito desajeitado! Não é assim que se carrega uma criança!

PRAXEDES - Então como é?! Quem é que carregava aquela quando era pequenina? (Indica Luísa.)

EULÁLIA - Lá isso é verdade, senhora! O patrão sempre teve muito jeito para ninar a menina. Todas as vezes que a carregava ao colo ela principiava a berrar que era um Deus nos acuda!

PRAXEDES - O que é isto lá?

EULÁLIA - A verdade manda Deus que se diga, patrão. De uma feita ainda me lembro que até lhe arranhou o nariz!

PRAXEDES - Não é tal, tu é que foste sempre muito bruta!

LUÍSA - Oh! papai, cuidado que está quase a cair. Não o segure assim.

CENA IV
OS MESMOS e DOUTOR PEREIRA

DR. PEREIRA (Entrando.) - Venha cá, seu Luizinho... (Tira a criança dos braços de Praxedes.) Ainda não tomou hoje a bênção a seu papai. Como passou?

PRAXEDES - Não se pode estar aqui dois minutos com o menino.

MARIA - É verdade! Vem um puxa, vem outro pega, vem outra segura.

EULÁLIA - É a alegria desta casa, patroa!

DR. PEREIRA - O pior, é que ele já começa a ficar manhoso.

MARIA - Coitadinho.

DR. PEREIRA - E quem lhe está pondo as manhas é a senhora! (A Maria.) A senhora, sim! Por que é que ele quando está chorando no berço, cala a boca apenas o carregam ao colo? Por que é que quando está no colo chora e sossega logo que a pessoa que o está ninando começa a passear?

MARIA - Ora, isto é próprio de toda a criança!

DR. PEREIRA - Não é tal. E porque a senhora habituou-o a dormir no colo e passeando.

MARIA - São os avós que perdem sempre os netos.

LUÍSA - Neste ponto, minha mãe, o Pereira tem razão!

DR. PEREIRA - Hoje foi isto; amanhã há de ser outra coisa.

LUÍSA (Tomando a criança do colo de Pereira.) - Deixa-me levá-lo para o berço!

MARIA (Apontando para Luísa.) - Aquela que ali está foi educada por mim!

DR. PEREIRA - Aquela não era neta, era filha. É muito diferente.

MARIA - Quer dizer que agora sou sogra!

DR. PEREIRA - Não se zangue comigo, minha mamãezinha, mas creia que daria o mais solene cavaco se a senhora, carinhosa e desarrazoada, como são em geral todas as avós, começasse desde já a contrariar o programa da educação que imaginei para o meu rapaz.

PRAXEDES - Então tem um programa já feito?

DR. PEREIRA - Por que não?

PRAXEDES - Bravo! Bravo!... Muito bem! Eu também assim o entendo. De pequenino é que se torce o pepino. Olhe, se eu não me metesse, é verdade que já foi um pouco tarde, na educação de Luísa...

MARIA - Cala a boca, cala a boca, que é melhor!

EULÁLIA (Ao lado de Luísa, junto ao berço.) - Não acha que a cabecinha dele está um pouco alta? coitadito, é capaz de ficar com o pescoço torto. (Endireita o travesseiro.)

DR. PEREIRA - Enfim o meu programa é fazer deste rapaz um verdadeiro homem.

PRAXEDES - Foi o que eu fiz com a Luísa.

MARIA - Lá isso é verdade. Felizmente porém, a Divina Providência meteu-se no meio e ela hoje é uma mulher.

DR. PEREIRA - Veja se tenho ou não razão. A senhora começa a habituá-lo agora a dormir no calor do colo, mais tarde quando ele quiser saltar, pular, desenvolver-se, cumprir enfim as justas reclamações da natureza, há de dizer: - menino, fica quieto, menino, passa para aqui, há de amarrá-lo ao pé da mesa, prendê-lo na sala de costura. E não satisfeita com isto, incutir-lhe-á o medo do papão do quarto escuro, do pobre cego, do saci, do zumbi!... A criança educada nesta escola, onde, infelizmente, aliás, se tem formado muita gente, acabará por tomar-se um verdadeiro poltrão. Não quero isto. Meu filho há de ser um homem; mas um homem no rigor da palavra, preparado para as lutas físicas e morais da vida.

PRAXEDES - Sim, senhor!

EULÁLIA - Parece-me que ele quer mamar, senhora.

LUÍSA (Tirando-o do berço.) - Vamos dar um passeio. (Vai saindo com Eulália.)

DR. PEREIRA - Até logo.

LUÍSA - Vais sair já?

DR. PEREIRA - Tenho dois doentes na vizinhança!

LUÍSA (Falando para o menino.) - Dá um beijinho em papai!

DR. PEREIRA (Beijando-o.) - Adeus seu Luís, veja lá como se porta.

LUÍSA (Falando pelo menino.) - Deixe estar, papai, que eu hei de portar-me muito bem. Eu já sou um homem de juízo. (Pereira sai.)

EULÁLIA (Acompanhando Luísa, que vai a sair.) - Olhe como ele abre a boca! Está-se espreguiçando, coitadinho. (Saem.)

CENA V
MARIA e MANUEL PRAXEDES

PRAXEDES - Deves estar contente. Já és sogra!

MARIA - Contentíssima!

PRAXEDES - Mas vamos a saber de uma coisa, e isto para mim é o mais importante: Luísa deixou definitivamente a clínica?

MARIA - Ainda o duvidas?

PRAXEDES - Pois então por um mero capricho, por uma fantasia, por uma caraminhola que se encaixou na cabeça, ela atira sem mais nem menos pela janela fora o seu futuro?

MARIA - Que futuro?

PRAXEDES - Ora que futuro! O futuro dela. Está visto que não há de ser o teu nem o meu.

MARIA - Mas o futuro dela é o presente que estamos vendo.

PRAXEDES - Carregar o filho e dar-lhe de mamar?...

MARIA - Sim.

PRAXEDES - Mas, para amamentar uma criança não era preciso cursar seis anos uma Academia. Se eu a tivesse destinado para isso, tinha dado outra orientação à sua vida.

MARIA - Que queres? As leis da natureza são mais fortes que a vontade dos reformadores.

PRAXEDES - Não! Isto não pode continuar assim. A menina tinha uma carreira brilhante diante de si. O seu nome principiava a ser conhecido, a clínica aumentava de dia para dia, e com ela o interesse do casal...

MARIA - O que pretendes fazer?

PRAXEDES - O que pretendo fazer?

MARIA - Sim.

PRAXEDES - Vou ter uma conferência com Luísa.

MARIA - Para quê?

PRAXEDES - Para dizer-lhe que não seja tola, que mande recolocar a placa na porta da rua e continue a clinicar, porque este é o seu meio de vida.

MARIA - E quem dá de mamar ao filho, ao teu neto, pelo qual és um verdadeiro babão?

PRAXEDES - Ora, mulher, pois faltam por aí amas-de-leite para o netinho?

MARIA - E achas isso natural? Olha, meu amigo, se a galinocultura, com todos os seus galos vigilantes e procriadores não é bastante para satisfazer a tua atividade, trata de arranjar outra empresa. Há tanta coisa por aí. Um elevador para o Pão de Açúcar por exemplo, um túnel submarino para a Praia Grande, um restaurante no Bico do Papagaio, uma nova fábrica de papel, se quiseres... Mas pelo amor de Deus, deixa em paz a vida de Luísa.

PRAXEDES - Paz! Paz! A vida é a luta, senhora. E o que a senhora chama de paz, não é paz!

MARIA. - O que é então?

PRAXEDES - É pasmaceira. Não posso nem devo consentir que a Doutora Luísa Pereira, ou antes, que a Doutora Luísa Praxedes, como é conhecida, sacrifique a posição brilhante que já tinha conquistado.

MARIA - Aos deveres... de mãe!

PRAXEDES - Ai vem a senhora com a cantilena de todos os dias; os deveres de mãe... Pois ela não pode ser mãe e médica ao mesmo tempo? Não quer chamar uma ama, quer dar de mamar ao pequeno. .. Pois que dê a de mamar e clinique... uma coisa não impede a outra...

MARIA - Com esta lógica prática...

PRAXEDES - E além disso sendo a especialidade dela moléstias de crianças, nada mais natural do que ser chamada para a clínica daquelas enfermidades a médica que tem filhos. Pelo menos está mais experimentada.

MARIA - Queres então fazer reviver nesta casa as lutas de outrora! Há um ano, pouco mais ou menos, quando me disseste: - se eles tivessem um filho, não entrava em tua mente o sonho de felicidade que presenciamos? O que sonhavas então?

PRAXEDES - Não sonhava coisa alguma; não tenho por hábito sonhar. Desejei-lhe um filho, porque sempre ouvi dizer que os filhos apertam mais os laços conjugais. Mas o que eu nunca podia prever, é que ele desse este resultado. Isto não está direito.

CENA VI
OS MESMOS e LUÍSA (Carregando o filho.)

PRAXEDES - Não largas esse menino?

LUÍSA - Estou muito aflita, papai. Coitadinho! Esteve lá dentro a chorar, tão inquieto. Veja se ele tem febre!

PRAXEDES - A mim é que tu o perguntas?

LUÍSA - Veja, mamãe: a Eulália disse-me que o pulso estava regular.

PRAXEDES - Pois também foste consultar a Eulália! Ora, louvado seja Deus!!!

CENA VII
OS MESMOS e EULÁLIA

EULÁLIA (Entrando com um pires na mão.) - Cá está, patroa, cá está. Isto não é nada: o que o pequeno tem é uma dor de barriga.

MARIA - O que é que trazes ai no pires?

EULÁLIA - Algodão queimado com óleo de amêndoas doces, senhora! É um santo remédio. Chimpa-se isto no umbigo da criança e não há dor de barriga que lhe resista.

LUÍSA - Vamos, Eulália, vamos!

EULÁLIA - O melhor é levá-lo para o berço! (Luísa leva a criança para o berço.)

MARIA (Baixo a Praxedes.) - Vai ali junto àquele berço e se és capaz convence a tua doutora de todas essas belas teorias que pregaste há pouco. Anda, vai, meu reformador!

PRAXEDES - Parece incrível!

LUÍSA - Dir-se-ia que está mais aliviadinho.

EULÁLIA (Aplicando o curativo.) Ora, ora! Daqui a pouco está a dormir que é um gosto. É santo remédio, senhora! Quisera de contos de réis às vezes que fomentei o umbigo da menina com isto. Uma ocasião ainda me lembro.

LUÍSA - Não faças barulho, ele está dormindo!

PRAXEDES (Consigo.) - Contado não se acredita!

LUÍSA - Psiu! Papai! Pode acordá-lo... (A Maria, dirigindo-se para a esquerda.) Não faça barulho, mamãe! (Maria sai nas pontas dos pés pela esquerda. Praxedes senta-se pensativo. Eulália e Luísa embalam o berço.)

CENA VIII
LUÍSA, EULÁLIA, PRAXEDES e DOUTOR PEREIRA

DR. PEREIRA - Acabo de estar neste instante com o Doutor Martins.

PRAXEDES - Ia com a senhora, a Carlota de Aguiar?

DR. PEREIRA - Com a senhora e uma ama toda cheia de fitas e carregando o primeiro bebê.

LUÍSA - Já tem um filho a Carlota?

DR. PEREIRA - Ora que admiração! Estão casados há um ano e tanto.

LUÍSA - E rapaz, ou menina?

DR. PEREIRA - Uma menina e muito bonitinha. Quando me lembro que tiveste ciúmes... (Luísa baixa a cabeça.) Confessa, vamos lá, que foste uma grande tolinha.

LUÍSA - Ainda está muito pedante?

DR. PEREIRA - A mesma coisa.

PRAXEDES - Era uma rapariga inteligente.

DR. PEREIRA - Viva...

PRAXEDES - E creio que abandonou o foro, porque há muito tempo não lhe tenho visto o nome nos jornais.

DR. PEREIRA - Vive para a sua Luisinha. Ah! a pequena chama-se Luísa, é tua xará.

LUÍSA - E o nosso, Luís.

DR. PEREIRA - É verdade, que coincidência!

PRAXEDES (Pensando.) - Então abandonou tudo?

DR. PEREIRA - Tudo. O marido foi nomeado Presidente para o Amazonas.

PRAXEDES - O Doutor Martins mandou-me participação de casamento. Eu e minha mulher não o fomos visitar... Também depois das cenas que se deram...

DR. PEREIRA - Comuniquei que estávamos morando juntos. Mostrou grande desejo de ver-nos. "Por que não vai até lá em casa" disse-lhe eu. "Ora, não sei!" balbuciou. Afinal, disse-lhe a mulher: "Vamos, mas há de ser hoje, porque partimos amanhã." Daqui a pouco, portanto, devem estar aí. Fiz bem ou mal?

LUÍSA - Fizeste bem.

DR. PEREIRA - És um anjo! (Tocam a campainha fora. A Eulália.) Vê quem toca.

LUÍSA (Mostrando o pequeno a Pereira.) - Olha como está gordinho... Vou pôr-lhe ao pescoço duas figas.

DR. PEREIRA (Rindo.) - Para livrá-lo do mau olhado?! Pois acreditas também nisso?!

LUÍSA - Não sei!

DR. PEREIRA (Rindo.) - Aposto que acreditas!

LUÍSA - Acredito. (Esconde o rosto no peito de Pereira.)

DR. PEREIRA - Tolinha. (Saem os dois.)

CENA IX
MANUEL e EULÁLIA

Manuel fica pensativo por instantes; depois levanta-se, vai ao berço e embala a criança.

EULÁLIA (Entrando.) - Um chamado para a patroa.

PRAXEDES (Levantando-se.) - Para Luísa?

EULÁLIA - Sim, senhor...

PRAXEDES - Vai já avisá-la.

EULÁLIA - Avisá-la? Nessa não caio eu!

PRAXEDES - Vai avisá-la, já te disse.

EULÁLIA - Quem eu vou chamar é o patrão, esse sim.

PRAXEDES - Mas o doente é para ela ou para ele?

EULÁLIA - Agora não há aqui mais para ela, nem para ele! E admira-me bastante que o patrão morando nesta casa ainda não saiba que a menina abandonou de uma vez todos os doentes.

PRAXEDES - De uma vez não. Ficou assentado, logo que ela se sentiu no seu estado interessante, que deixaria a clínica por algum tempo.

EULÁLIA - Pois deixou para sempre, senhor! O único doente que ela tem agora é estezinho. (Aponta para o berço.) E creia que este dá-lhe mais que fazer que todos os outros juntos.

CENA X
OS MESMOS e LUÍSA

PRAXEDES - Se o chamado é para Luísa, não tens o direito de pregar uma mentira.

EULÁLIA - Mas eu não minto, senhor, nunca menti. Menos essa!

LUÍSA (Que tem entrado e está junto ao berço.) - O que é isto, Eulália?

EULÁLIA - E o senhor que está aqui a dizer que eu minto. A senhora algum dia apanhou-me em mentira?

LUÍSA - Mas o que foi?

PRAXEDES - Nada mais, nada menos, que um chamado para ti.

LUÍSA - Para mim?

EULÁLIA - Sim, senhora!

LUÍSA - Então vai já avisar meu marido!

EULÁLIA - Era o que eu ia fazer. Mas o patrão pôs-se aqui com uma lenga-lenga muito grande, e sem mais nem menos, zás! chimpa-me na bochecha: - Você é uma mentirosa! Ora, senhora, isto dói, é preciso confessar que dói muito, sim, porque, no fim de contas por mais baixa que seja uma pobre criatura de Deus...

LUÍSA - Está bem, vai chamar meu marido.

EULÁLIA - Se eu já tivesse sido apanhada em mentira.

LUÍSA - Tens razão.

EULÁLIA - Eu sou uma mulher honrada.

LUÍSA - Sim, sim.

EULÁLIA - Fique a patroa sabendo que no Porto rejeitei propostas muito vantajosas e não era cá meia dúzia de melquatrefes. Eram viscondes e barões, sujeitos apatacados. Se quisesse escorregar, senhora, podia estar hoje muito bem!

LUÍSA - Já sei, já sei, Eulália.

EULÁLIA - As injustiças doem.

LUÍSA - Sim, sim, sim; mas vai chamar teu amo! (Eulália sai resmungando.)

CENA XI
LUÍSA e MANUEL PRAXEDES

LUÍSA - Coitada! É uma boa alma! E ultimamente tem sido tão carinhosa para meu filho!

PRAXEDES - Ora! Até dá-lhe remédios!

LUÍSA - É verdade!

PRAXEDES - O que me admira é que os aceites.

LUÍSA - E por que não?

PRAXEDES - Não valia a pena surrar durante 6 anos os bancos de uma Academia e encetar brilhantemente a clínica, afrontando estúpidos preconceitos sociais para chegar a este triste resultado!

LUÍSA - Triste resultado?

PRAXEDES - Sim. Queres nada de mais triste, para uma mulher em tuas condições! que papel representas hoje?

LUÍSA - O único, meu pai, que pode e deve representar uma mulher.

PRAXEDES - Então o juramento que prestaste no dia do teu grau de socorrer todos aqueles que te viessem bater à porta.

LUÍSA - Meu pai: dizem que o cérebro da mulher é fraco. Pois bem, por um sentimento de vaidade, que dizem também ser inato em nosso sexo, eu enchi esse cérebro de tudo quanto a ciência pode ter de mais grandioso e mais útil. Percorri com coragem inaudita toda a escala do saber humano na minha especialidade. Calquei ódios e vaidades dos colegas, ergui a cabeça, sem corar, acima desses preconceitos sociais de que falou há pouco e que eu também considerava estúpidos! Venci. Entrei na sociedade triunfante com o meu título. O prestígio que se formou em tomo do meu nome fez-me esquecer de que era uma mulher... A glória atordoava-me... Dentro de mim sentia, porém, qualquer coisa de vago, de estranho, que não sabia explicar! Eu que muitas vezes no anfiteatro havia apalpado o coração humano, que o tinha dissecado fibra por fibra, que pretendia conhecer-lhe a fundo a fisiologia! Desconhecia entretanto, o sentimento mais sublime que enche todo esse órgão. Tudo quanto aprendi nos livros, tudo quanto a ciência podia dar-me de conforto, não vale o poema sublime do amor que se encerra neste pequeno berço!

PRAXEDES - Então esta criança...

LUÍSA - É bastante, meu pai, para encher toda a minha alma.

PRAXEDES - Mas minha filha, já não te falo em glórias, no prestígio do teu nome, nos compromissos que tomaste para com a sociedade, olha um pouco para os teus interesses, que não podes desprezar, por amor mesmo deste que aqui está (Aponta o berço.) e diz-me com toda a franqueza: é justo que abandones por um falso ponto de vista, a missão sublime que tinhas no teu casal, cooperando honestamente para a formação e o aumento do pecúlio dele?

LUÍSA - O pecúlio do casal, pelas leis naturais, meu pai, compete ao marido.

PRAXEDES - Então abandonas todos os teus direitos, todas as tuas obrigações, todos os teus deveres?

LUÍSA - Tudo; exceto a felicidade de criar e educar meu filho.

CENA XII
OS MESMOS e o DOUTOR PEREIRA

DR. PEREIRA (Dirigindo-se ao berço.) - Este maganão ainda está dormindo?

LUÍSA - Ainda. Não o acordes. Recebeste um chamado?

DR. PEREIRA - Já vou. E para o Luís Maria, o dispéptico mais maçante que tenho na minha clínica!

CENA XIII
OS MESMOS e EULÁLIA

EULÁLIA - Oh! patroa, sabe quem está aí? Aposto que não adivinha.

LUÍSA - Quem é?

DR. PEREIRA - É o Martins com a mulher.

EULÁLIA - É verdade. A senhora não imagina como está engraçada a ama da menina. Tem uma touca deste tamanho, (Indica.) com duas fitas enormes que arrastam até o chão. Mando-os entrar para aqui mesmo?

DR. PEREIRA - Sim. (Eulália sai.)

LUÍSA (Para Pereira.) - Aposto em como a filhinha dele não é mais bonita que o nosso Luís.

DR. PEREIRA - Vaidosa!

CENA XIV
OS MESMOS, MARTINS, CARLOTA e a ama. (Com uma criança.)

MARTINS (Apertando a mão de Pereira.) - Já vês que cumpri-mos a nossa palavra!

DR. PEREIRA - E que eu os recebo como amigos antigos, sem a menor cerimônia nesta sala onde Luísa passa os dias a namorar o seu bebê.

CARLOTA - Quero vê-lo! Quero vê-lo! (Luísa leva-a ao berço.)

LUÍSA - Está acordado, felizmente. (Tira-o do berço e entrega-o a Carlota.)

CARLOTA (Com a criança ao colo.) - E um querubim rafaelesco! Como está gordo e anafado! Dir-se-ia uma rósea aurora de maio!

DR. PEREIRA - Gosta muito de crianças?

CARLOTA - Adoro-as! (Mostra a Martins.) Olha, meu Lacinho.

PRAXEDES - Seu Lacinho?

MARTINS - E o poético diminutivo por que sou hoje conhecido em casa.

LUÍSA - Deixe-me ver agora a sua. Já sei que é uma menina.

CARLOTA - É verdade.

LUÍSA (Tirando a criança do colo da ama.) - Oh! É muito bonitinha!

MARTINS - Sai ao pai!

CARLOTA - Tem paciência, meu Lacinho, mas todos dizem que ela é sem tirar nem pôr a minha efígie.

LUÍSA (Mostrando a Pereira.) - Olha!

DR. PEREIRA - É muito galante!...

LUÍSA (A Carlota.) - E a senhora que a está amamentando?

CARLOTA - Sim, e a senhora também cria o seu?

LUÍSA - Também!

CARLOTA - Coitadinha! A minha veio chorando tanto no bonde. Creio que tem fome. Se me permitisse...

LUÍSA - Que lhe dê de mamar? Pois não! Vou fazer o mesmo ao meu. (Trocam as crianças: Luísa senta-se de um lado e dá de mamar ao filho; Carlota faz o mesmo do outro lado.)

PRAXEDES (A Carlota.) - Então o foro, a candidatura, a Deputação Geral pela corte, os projetos grandiosos da reforma da nossa legislação...

CARLOTA - Chi!... Está toda molhada! (Para a ama.) Vê aí um cueiro. (A ama tira um cueiro que deve trazer dentro de uma cesta e entrega-o a Carlota que vai pô-lo na criança, entregando o molhado à ama.)

MARTINS (A Praxedes.) - Quer resposta mais eloqüente? O senhor pergunta-lhe pelos sonhos de ontem, ela responde-lhe com o cueiro da sua Luisinha.

PRAXEDES - Afinal tudo isto acabou em cueiros!

CENA XV
OS MESMOS, MARIA e EULÁLIA

MARIA - Bravo! Bravo! As duas doutoras amamentando os filhinhos! (Para Carlota que quer levantar-se para falar-lhe.) Não se incomode. (A Martins.) Dê-me um abraço. (Martins abraça-a.) É, na realidade, feliz!

EULÁLIA (Entrando.) - Ele não quer mamar, senhora! Eu o carrego! (Toma do colo de Luísa a criança.)

MARIA (A Praxedes.) - Olha, meu amigo, em que deu o teu programa filosófico, político, moral e social, a tua evolução do futuro.

PRAXEDES - Sim, mas não perdi de todo o meu latim. (Tomando a criança e mostrando-a a todos.) Aqui está um médico de raça! (Dá-lhe muitos beijos.)

EULÁLIA - De raça! Ai que reinação! Ah! Ah! Ah!

(Cai o pano.)

FIM

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