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Como se Fazia um Deputado

Cena II

As mesmas e Limoeiro

Limoeiro Ora vivam. O doutro ainda não chegou?
Rosinha (Contrariada.) Ainda não.

Limoeiro Olhem só como ela disse aquele ainda não.

Rosinha Uê! Chentes!
Limoeiro Está se lendo mesmo naquela carinha rubicunda: - Tomara já que chegue o dia! Tomara já que chegue o dia!
Perpétua É natural. Quando se ama...

Limoeiro E creia, Dona Perpétua, não é por ser o rapaz meu sobrinho, sua filha fica muito bem servida.

Perpétua E se assim não pensasse, não consentiria em tal união.

Limoeiro Moço, rico, talentoso, deputado provincial aos vinte e quatro anos, futuro representante da nação aos vinte e cinco, futuro ministro aos vinte e seis, futuro chefe de partido aos trinta e futuro senador do império aos quarenta! Quando penso no futuro mais que perfeito que lhe está reservado, quase que enlouqueço de prazer! Olhe, se eu fosse pai, e tivesse seis filhas, dava-lhas todas.

Rosinha Credo!

Limoeiro (Tirando um jornal do bolso.) Vejam o que diz este jornal. (Lendo.) Parabéns aos nossos comprovincianos. Acaba de ser eleito deputado provincial pelo 3º distrito o Senhor Doutor Henrique da Costa Limoeiro, uma das mais esplêndidas esperanças da sua terra natal. A atitude nobre, sustentada por sua excelência, nas últimas eleições, defendendo o voto livre e as garantias constitucionais contra os botes da anarquia, foi felizmente recompensada pelos dignos eleitores, que souberam colocar-se na altura de tão nobre missão. Hein? o que dizem a isto?
Rosinha É por isso que ele está tão cheio de vento.

Limoeiro Como cheio de vento?
Rosinha Porque há dois dias que não nos aparece lá em casa.

Limoeiro Pois se o rapaz nem tempo tem para se coçar! Estes dias têm sido pouco para escrever cartas de agradecimento aos eleitores e aos amigos. O tenente-coronel ainda não veio?
Perpétua Está lá dentro. Menina, vai chamá-lo. (Rosinha sai.)

Cena III

Chico Bento, Dona Perpétua e Limoeiro

Limoeiro Dona Perpétua, foi um verdadeiro triunfo!
Perpétua Mas um triunfo que nos ia custando bem caro.

Limoeiro Não se apanham trutas a bragas enxutas.

Chico Bento Se valis bene, ego quid valis. Como vai esta bizarria?
Limoeiro Como vê: alegre e satisfeito. Temos que tratar de negócios de alta mont.

Chico Bento Senhora Dona Perpétua, oculos ruorum.

Perpétua Tu nunca tiveste segredos para comigo.

Limoeiro A seu tempo sabê-lo-á, minha senhora. (Perpétua sai.)

Cena IV

Limoeiro e Chico Bento

Limoeiro Tenente-coronel, as coisas têm marchado de modo tal que, quando penso nas dificuldades com que lutamos e nos resultados que obtivemos, digo a mim mesmo : Seu major, você é um homem da pele dos diabos.

Chico Bento Pois olhe, eu vi o negócio quase perdido.

Limoeiro Fez-se a duplicata, foi aprovada pelo poder competente, votou o Domingos, o seu compadre votou cinco vezes...

Chico Bento Pena foi que não votasse o carcamano.

Limoeiro Mas há de votar na próxima eleição. Instalei-o aqui e já está principiando a tomar língua. O nosso doutor obteve carga cerrada, foi o primeiro deputado da combinação, e talvez seja o presidente da salinha. Que carreira de rapaz, meu Deus!
Chico Bento E quanto à deputação geral?
Limoeiro Foi justamente para tratar deste negócio que vim procurar o meu amigo.

Chico Bento O major manda e não pede.

Limoeiro É preciso que combinemos a maneira de arredar qualquer dificuldade. Além do interesse que temos, lá diz o ditado que duas cabeças valem mais do que uma.

Chico Bento Todis capitis, todis sentencie.

Limoeiro Portanto, é preciso que o tenente-coronel por sua parte escreva aos seus amigos, que eu cá pela minha tratarei de fazer o mesmo. E creia que não tenho cochilado. Veja isto. (Mostra o jornal.)
Chico Bento (Lendo. ) Bravo.

Limoeiro Pois olhe, foi feito cá pelo degas e corrigido pelo Custódio, o nosso professor público. Se aquele diabo compreendesse tudo o que lê, ninguém podia com ele.

Chico Bento Legeris et non intelligeris est negligeris. Pois, meu major, fique sabendo, que não me leva as lampas, porque também mandei escrever o meu artiguito, que a esta hora já deve estar publicado na Voz da Verdade de que sou humilde assinante. Eis o rascunho.

Limoeiro Leia lá isso, tenente-coronel.

Chico Bento Tu Marcellus eris!
Limoeiro Marcelo, não. É Henrique.

Chico Bento Não, isto é cá o latinório. (Lendo.) Já não pertence à classe dos homens vulgares o Doutor Henrique da Costa Limoeiro! Sua família...

Limoeiro Homem, isto está com ares de discurso de defunto.

Chico Bento Pois olhe, foi escrito por um homem bem vivo e esperto; pelo nosso vigário! Ouça o resto. (Lendo.) Sua família, transbordando de alegria, por vê-lo no número dos eleitos da província, agradece a todos aqueles que o acompanharam em tão justa quão nobre pretensão. Fazemos votos para que tão pesado encargo lhe seja leve. Hein? Que tal?
Limoeiro O meu está muito melhor. Mas, deixemos o que está feito, e tratemos do que há a fazer. O rapaz é candidato à representação nacional. Segundo o trato que fizemos, ele tem de ser recomendado por ambos os partidos. O tenente-coronel apresenta-o pelo lado conservador...

Chico Bento E o major recomenda-o pelo lado liberal.

Limoeiro Justamente.

Chico Bento Mas, pensando bem, o meu amigo não julga que isto poderá comprometer o nosso candidato? Eu achava melhor que ele aceitasse, por ora, um partido o que está no poder, por exemplo, e que mais tarde, conforme o jeito que as coisas tomasse, ou ficasse naquele, ou fosse para o outro que tivesse probabilidade de subir.

Limoeiro Tá, tá, tá.

Chico Bento Na sua circular ele tem que apresentar um programa. Neste programa há de definir as suas idéias...

Limoeiro E o que tem as idéias com o programa , e o programa com as idéias? Não misture alhos com bugalhos, tenente-coronel, e parta deste princípio: o programa é um amontoado de palavras mais ou menos bem combinadas, que têm sempre por fim ocultar aquilo que se pretende fazer.

Chico Bento Porém cada partido tem a sua bandeira...

Limoeiro Aqui para nós, que ninguém nos ouve, tenente-coronel, qual é a bandeira do seu?
Chico Bento A bandeira do meu é... Quero dizer...

Limoeiro Ora eis aí! Está o tenente-coronel com um nó na garganta . Meu amigo, eu não conheço dois entes que mais se assemelhem que um liberal e um conservador. São ambos filhos da mesma mãe, a senhora Dona Conveniência, que tudo governa neste mundo. O que não pensar assim deixe a política, vá ser sapateiro.

Chico Bento O major fala como um pregador ex-cathedra!
Limoeiro O rapaz portanto, não se apresentando nem por uma lado, nem por outro, fica no meio. Do meio olha para a direita e para a esquerda, sonda as conveniências, e no primeiro partido que subir encaixa-se muito sorrateiramente, até que, ainda este, ele possa escorregar para o outro que for ao poder.

Chico Bento Sim, senhor.

Limoeiro Vai ver como as coisas se arranjam. (Assobiando.) Domingos? (Entra Domingos.) Depressa papel, pena e tinta. (Domingos sai.) Sente-se o tenente-coronel ali naquela mesa, e vá escrevendo o que eu for lhe ditando.

Chico Bento (Sentando-se à mesa.) Pronto. (Domingos extra e põe o papel, o tinteiro e a pena em cima da mesa e tira as xícaras.)
Limoeiro Ilustríssimo Senhor Esta tem por fim recomendar-lhe muito especialmente o Doutor Henrique da Costa Limoeiro. Vírgula... Que pretende uma cadeira no seio da representação nacional. Ponto.

Chico Bento Agora é preciso enumerar as virtudes do doutor, suas aptidões, seu talento brilhante...

Limoeiro Deixe o negócio por minha conta... (Continuando com ênfase.) Sim!... Não... quero dizer...

Chico Bento Em que ficamos? Sim ou não?
Limoeiro Risque este sim.

Chico Bento E deixo o não?
Limoeiro Não; risque ambos.

Chico Bento Mas eu ainda não escrevi ambos!
Limoeiro Ora... Risque tudo.

Chico Bento Desde o princípio?
Limoeiro Não; o sim e o não.

Chico Bento Ah! Já sei.

Limoeiro (Continuando com ênfase.) O Doutor Henrique da Costa Limoeiro é destas estrelas, luminosas que raiaram... que raiaram... (Mudando de tom.) Espere lá, deixe-me ver uma frase, dessas de estrondo. Ah! (Com ênfase.) Que raiaram no horizonte do Brasil para mudar a face dos nossos acontecimentos políticos. (Mudando de tom.) Bravo, seu Limoeiro. Já escreveu?
Chico Bento Ticos.

Limoeiro Ticos?!
Chico Bento Sim, políticos.

Limoeiro (Com ênfase.) Destinado a representar um papel brilhante entre os seus concidadãos, o Doutor Henrique Limoeiro promete... (Mudando de tom.) Vejamos agora o que ele há de prometer.

Chico Bento Ó copos hic labor esdis.

Limoeiro É preciso que ele prometa o que se pode prometer, sem comprometer-se. Vamos lá. (Com ênfase.) O Doutor Limoeiro promete...

Chico Bento Já está escrito.

Limoeiro (Com ênfase.) Retalhar a província...

Chico Bento Menos essa!
Limoeiro (Com ênfase.) Com uma grande rede de estradas de ferro, vírgula. Bondes... Bibliotecas...

Chico Bento Retalhar a província com bibliotecas?
Limoeiro Não, não é isso. (Com ênfase.) Bondes e estradas vicinais. (Mudando de tom.) Aí pode pôr um ponto de admiração. (Com ênfase.) Proteger a lavoura...Chico Bento E o elemento servil? Aí é que eu quero ver-lhe a habilidade.

Limoeiro Não, não se fala nisto. Deus nos livre. (Continuando.) Proteger a lavoura...

Chico Bento Já está escrito.

Limoeiro Animar as indústrias, o comércio...

Chico Bento Comércio tem vírgula ou dois pontos?
Limoeiro Arrume-lhe ponto e vírgula. (Continuando.) Acoroçar as artes e as letras...

Chico Bento A co có ro ró ri... Bonito, escrevi caroço.

Limoeiro E a instrução pública, criando escolas noturnas de duas em duas léguas. (Mudando de tom.) Isto deve ser grifado.

Chico Bento Isto deve ser grifado.

Limoeiro Não, não é isto; não escreva, grife.

Chico Bento Grife.

Limoeiro Grifo é isso. (Pega da pena e risca o papel.)
Chico Bento Então, por que não disse logo risque por baixo?
Limoeiro Onde é que tínhamos ficado?
Chico Bento Criando escolas noturnas de duas em duas léguas. (Em outro tom.) Mas para que tanta escola, se não temos gente?
Limoeiro É para acompanhar a moda. (Com ênfase.) As suas idéias políticas visam tão somente o progresso do Brasil, escudado na ordem e liberdade bem entendida. (Mudando de tom.) Vê isto? Progresso, ordem, liberdade... liberdade, ordem, progresso. Aí está o programa perfeitamente definido. Agora termine dizendo: o Doutor Limoeiro é deputado provincial pelo 3º distrito; espero que o amigo recomende-lo a todos os seus amigos e mande-me as suas ordens. Sou etc., etc. E passe-me para cá para mandar tirar umas cópias.

Chico Bento Que efeito isto não vai produzir entre os conservadores!
Limoeiro Muito maior efeito ainda produzirá no ânimo dos liberais!
Chico Bento Aqui tem. (Dá a Limoeiro.)
Limoeiro - Agora é não perder tempo.

Cena V

Os mesmos e Henrique

Henrique (Zangado, com um jornal na mão.) Bom dia, meu tio. Como tem passado, senhor tenente-coronel?
Limoeiro O que tens? Estás com a cara tão enfarruscada.

Henrique Veja isto. (Mostra o jornal a Chico Bento.)
Chico Bento (À parte.) O meu artigo.

Henrique Eu só desejava saber qual foi o burro que escreveu esta série de sandices.

Limoeiro (Vendo o jornal.) Foi o tenente-coronel.

Chico Bento Está enganado; não fui eu, foi o vigário.

Henrique Pois hei de dar-lhe os meus sinceros agradecimentos.

Limoeiro Asneira no caso; vais açular o homem contra ti, e perderás toda a votação do colégio.

Henrique E que me importa a mim a votação do colégio?
Limoeiro Verdade é que serás bem recomendado pelos outros...

Henrique Maldita seja a hora em que se lembraram de meter-me em semelhante comédia.

Limoeiro Ó rapaz, tu perdeste o juízo?
Henrique Acabo de sair dos bancos da academia, do meio de uma mocidade leal e generosa, cheio de crenças, sonhando a felicidade de minha pátria, e eis que de chofre matam-me as ilusões, atirando-me no meio da mais horrível das realidades deste país uma eleição, com todo o seu cortejo de infâmias e misérias.

Limoeiro E ainda em cima te revoltas, tu, que começaste por onde os outros acabam!
Henrique Não comecei, meu tio, acabei; porque o quadro que se desenrolou ante os meus olhos foi de tal natureza, que sufocou-me no peito as aspirações de moço e patriota.

Limoeiro E então, tenente-coronel, o que diz a isto?
Chico Bento Estou abismado.

Henrique Se queriam fazer de mim um político, por que desiludiram-me tão cedo? Por que não deram-me gota a gota o veneno?
Limoeiro Então, não pretendes ir à assembléia?
Henrique Não, senhor.

Limoeiro Mas, rapaz, como combinar esta série de disparates que estás dizendo agora, com o que fizeste nas eleições?!
Henrique Não me recorde esta página negra; foi uma loucura; passou.

Limoeiro Então?
Chico Bento Pois o senhor não tem a ambição de representar o seu país?
Henrique E o senhor chama isto representar o país? O que é que eu represento? Quais são as minhas idéias? A que partido estou filiado? Que solução posso dar a todos os grandes problemas sociais que se agitam presentemente?
Limoeiro Porém...

Henrique Formado apenas há dois meses, sem experiência de vida, sem a mais pequena noção dos negócios públicos, o que vou fazer na Câmara? O papel triste e ridículo de um filhote, apresentado por um tio liberal e um futuro sogro conservador. Que manancial fecundo para os folhetins dos jornais de oposição!
Limoeiro E os outros não começam por filhotes?

Cena VI

Limoeiro, Chico Bento, Henrique e Rosinha

Rosinha Bom dia, Senhor Henrique. Por onde tem andado? Há dois dias que não o vejo.

Henrique Não me crimine.

Limoeiro (A Henrique.) Ainda não foste falar com Dona Perpétua. Vai cumprimentá-la, anda.

Rosinha Eu vou chamá-la.

Henrique Com licença. (Sai.)
Limoeiro (Baixo a Chico Bento.) Vá também, tenente-coronel; deixe-me só com sua filha. (Chico Bento sai.)

Cena VII

Limoeiro e Rosinha


Limoeiro Fique, minha menina, preciso falar-lhe em particular.

Rosinha O que quer?
Limoeiro Promete-me que é capaz de fazer uma coisa que lhe vou pedir?
Rosinha Uê chentes! Se eu não seio que é como posso prometer?
Limoeiro Trata-se da felicidade da menina, de Henrique, de sua mãe, de seu pai, de mim, de todos nós, enfim.

Rosinha Sendo assim, prometo.

Limoeiro Henrique está com os miolos virados e quer, a todo o transe, abandonar a carreira que tão brilhantemente começa agora.

Rosinha Por quê?
Limoeiro Eu sei lá! Porque está com a cabeça cheia de poesia, e entende que este mundo deve ser governado a seu jeito. Compete agora à menina, que soube prendê-lo pelos dotes do coração, dissuadi-lo destas tolices e mostrar-lhe o bom caminho.

Rosinha Se estiver nas minhas mãos...

Limoeiro Está, está. E a menina tem também o maior interesse nisto. Irá para a corte, terá ricos vestidos, bonitas jóias, aparecerá nos grandes bailes, freqüentará todos os teatros, divertir-se-á, enfim, como uma verdadeira princesa.

Rosinha Ora! Eu ouço dizer que lá na Corte há tanta impostúria...

Limoeiro Isto dizem, da boca para fora, aqueles que lá vão sem dinheiro e que não podem gozar de todos os encantos de uma grande capital.

Rosinha Mas há mesmo muitos bailes?
Limoeiro A menina faz lá idéia! São cinco e seis por dia!
Rosinha Muitos teatros?
Limoeiro Não tem conta.

Rosinha Há cavalinhos também?
Limoeiro Há tudo, tudo; não falta nada, além disso, andará de carruagem, puxada por lindos cavalos...

Rosinha Chii!!! Deve ser muito bom! Se a gente no carro-de-boi vai tão ao seu gosto, quanto mais numa carruagem!
Limoeiro E que carruagem! Toda envernizada, com quatro rodas, estofadas de seda...

Rosinha Que belo!
Limoeiro E a rua do Ouvidor?
Rosinha A prima Maricota disse-me que era uma coisa de pôr a gente de queixo caído.

Limoeiro É um céu aberto! De noite, nem falemos. É clara como o dia e tem mais gente que o arraial no dia de festa de Santo Antônio. A menina só de braço com seu marido, para baixo e para cima, a comprar uma jóia aqui, ali um vestido, acolá um chapéu, e todos a perguntarem: quem é aquela moça? Que peixão! Pois não conheces? É a mulher do Deputado Limoeiro. Há nada que pague isto?
Rosinha Eu quero ir para a Corte, eu quero ir para a Corte! Nunca ninguém falou-me deste modo.

Limoeiro É porque nunca disseram-lhe a verdade.

Rosinha Vou já falar com Henrique, e não sossego enquanto ele não prometer que há de ir para o Rio de Janeiro.

Limoeiro Como deputado, está visto.

Rosinha Aí vem ele..

Limoeiro Aperte- o . (Sai.)

Cena VIII

Rosinha e Henrique


Henrique Esperava-a lá dentro ; não sei por que não veio ver-me.

Rosinha - Conversava com seu tio.

Henrique E o que lhe disse ele?
Rosinha Falava do senhor, como sempre.

Henrique Por que tratas-me por senhor, quando nossas almas terão de unir-se dentro em pouco, na mais completa intimidade?
Rosinha É porque a gente tem vergonha.

Henrique Se tu soubesses como me cativas de dia em dia com esta singeleza!
Rosinha É que eu sou uma pobre moça da roça, não tenho educação...

Henrique E que importa a educação, quando Deus mimoseou-te com todos os predicados de um anjo!
Rosinha Ora está; eu sinto o mesmo que o senhor sente; mas infelizmente não posso dizer tanta coisa bonita.

Henrique Mas tu falas com o cração, e eu sinto-lhe o perfume na candura de tuas expressões.

Rosinha O senhor ama-me muito?
Henrique Ainda o duvidas?
Rosinha É capaz de fazer uma coisa que lhe vou pedir?
Henrique O que pedirás tu que eu não deva fazer?
Rosinha Veja bem; promete?
Henrique Prometo e até juro.

Rosinha Eu queria ir para a Corte.

Henrique E que dúvida há nisto? Pensas porventura que desejo enterrar a tua e a minha mocidade nestas brenhas? Passaremos aqui a nossa lua-de-mel; partiremos depois para o Rio de Janeiro, e mais tarde iremos ver o velho mundo, que é o objeto constante dos meus sonhos.

Rosinha Há, porém, uma condição em tudo isso.

Henrique Qual é?
Rosinha É que desejo ir como a mulher do senhor Deputado Limoeiro.

Henrique Por que me falas de política quando falo-te de amor?
Rosinha Porque a política dar-te-á a posição, e eu quero ver-te um grande homem.

Henrique -Compreendo. Meu tio, depois de haver tentado plantar em meu peito a ambição, procura agora arraigar no teu a vaidade! Se o não estimasse como um verdadeiro pai, e se não visse que tudo quanto ele tem feito é com as melhores intenções, diria que a serpente procura Eva para tentar Adão.

Cena IX

Os mesmos e Limoeiro , que deve estar ouvindo ao fundo.

Rosinha Lembre-se, porém, que prometeu...

Henrique E a minha palavra não volta atrás. Partirei como deputado, e envidarei todos os esforços para bem cumprir os meus deveres.

Limoeiro (Ao fundo.) Bravo!
Henrique Levo, porém, desde já a convicção de que a descrença, mais tarde ou mais cedo, far-me-á tragar a taça dos dissabores. E então para onde apelar?
Rosinha Para este coração que te adora.

Henrique (Abraçando-a .) Rosinha, és um anjo!
Limoeiro Vitória! Vitória!

Cena X

Chico Bento, Perpétua, Limoeiro, Henrique e Rosinha


Chico Bento Que alegria é esta, major?!
Limoeiro Veja aquele quadro; o rapaz está ali, está deputado.

Chico Bento Peço a palavra, pela ordem.

Henrique (Rindo.) Tem a palavra o Tenente-Coronel Chico Bento.

Chico Bento Senhor presidente, pedi a palavra para dizer...

Limoeiro Apoiado! (Ouve-se dentro o som de uma banda de música.)
Perpétua Que música é esta?
Limoeiro Uma manifestação ao nosso deputado.

Cena XI

Os mesmos, Custódio, Flávio Marinho, Arranca-Queixo, Rasteira-Certa, Pascoal Basilicata, Pascoal Basilicata, 1º Votante, 2º Votante e mais pessoas do povo, precedidas de uma banda de música e foguetes.

Custódio Viva o Doutor Limoeiro!
Todos Viva!
Flávio Viva o legítimo deputado!
Todos Viva!
Custódio Meus senhores, este dia assinala uma época gloriosa nos fastos...

Flávio (Baixo, lendo um papel, por detrás de Custódio .) Nos fastos da nossa história.

Custódio Nos fatos da nossa história. Sois vós o nosso legítimo representante, a nossa glória, o nosso porvir. Avante, cidadão prestimoso...

Flávio (Baixo.) Não; não é isto. Ah! é, é.

Custódio E que as bênçãos da pátria caiam sobre vós. Viva o Doutor Limoeiro!
Todos Viva!

Cena XII

Os mesmos e Domingos

Domingos Meu sinhô; se vosmecê nos dá licença, nós vem saudar também sinhozinho com a nossa festa.

Limoeiro Chegaste a propósito. (Com ar solene.) Domingos, de hoje em diante serás um cidadão livre. Aqui tens a tua carta, e na minha fazenda encontrarás o pão e o trabalho que nobilita.

Domingos (Ajoelhando-se a abraçando as pernas de Limoeiro.) Meu senhor!
Limoeiro Levanta-te. (Levanta-o e dá-lhe um abraço.) Venha agora a festa. (Entram os negros e negras e dançam o batuque.)

FIM

Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante

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