Os Mesmos e Dorotéia
Dorotéia Ora viva, Senhor Ernesto, como tem passado?
Ernesto Estávamos aqui a conversar sobre o Clube Jácome.
Dorotéia Pois também o senhor está com a mesma mania? Senhor Ernesto, Senhor Ernesto, não me faça perder-lhe a fé que tenho.
Chiquinha Ao contrário, mamãe, o Senhor Ernesto estava me dizendo que nunca montou a cavalo.
Dorotéia Faz muito bem, Senhor Ernesto, ao menos mostra que tem mais juízo do que muitos velhos que conheço. Olhe, Senhor Ernesto, eu perdoaria antes a meu marido se ele fosse ao Alcazar do que vê-lo por aí de chibatinha e luvas, a cavalo. Pois aquele homem é mais para essas coisas? Com aquela barriga, já pesado, a querer por força ser ágil! Está doido, Senhor Ernesto, está doido! O senhor quer ver? Olhe: veja estas paredes, quadros de corridas de cavalos; olhe estas chinelas, (mostrando o bordado) cavalos! Tem lá dentro um chambre com cavalos pintados e até comprou chita para colchas de cama toda estampada com cavalos! Foi no outro dia à exposição comigo e não tive tempo de ver coisa alguma. O homem levou três horas adiante das estrebarias: que anca! Que lombo curto! Que prumos! Que cabeça! Discutia, gesticulava, eu já estava vexada.
Ernesto Agora mesmo, minha senhora, acabei de falar à senhora sua filha sobre o pedido que já lhe tinha feito.
Dorotéia E então?
Ernesto Então...vejo que é quase um impossível.
Dorotéia Pelo quê?!
Ernesto Porque entre mim e sua filha, vejo surgir, dia por dia, hora por hora, um fantasma que diviso ali, (Todos recuam espavoridos) um cavalo!
Dorotéia (Rindo-se) Pensei que fosse algum rival.
Ernesto Pois afianço-lhe, minha senhora, que é pior do que um rival.
Chiquinha Eu já disse ao Senhor Ernesto, mamãe, que o único meio de que ele pode dispor para cair nas boas graças de papai é entrar para o Clube Jácome.
Dorotéia Deus nos livre! Pois se um já é bastante para trazer a casa numa corrida, quanto mais dois! Eram capazes de me converter aqui a sala em campo de São Cristóvão.
Ernesto Não se assuste, Dona Dorotéia, nessa não caio eu.
Chiquinha Há de entrar.
Dorotéia Não entra.
Ernesto Vejam em que ficam.
Os Mesmos e Julião
Julião (Entrando e falando para dentro) Vá lavar os pés do cavalo, dê-lhe água e passe-lhe a escova. Não se pode, não se pode ter animais. É um trabalho insano, Senhor Ernesto. Já viu o meu Mouro?
Ernesto Que mouro?
Chiquinha (Puxando-lhe a roupa diz-lhe baixo) Diga que já viu, é o cavalo dele. Fale-lhe já naquilo.
Ernesto Senhor Julião, desejava-lhe dar-lhe uma palavra a sós.
Julião (À parte) Já sei, quer entra para o Clube. (Alto) Menina, vá para dentro. Senhora Dorotéia. (Faz menção de quem a despede).
Julião e Ernesto
Ernesto Senhor Julião, desejava...
Julião Já sei; o senhor não é sócio-fundador, tem de pagar portanto trinta mil réis de jóia, a mensalidade é de dois mil réis paga em trimestre.
Ernesto Não é isso...desejava...o senhor, creio que já deve saber...
Julião Ande, não empaque.
Ernesto É que ...nas minhas circunstâncias...
Julião Está o senhor só a refugar.
Ernesto Pois eu me explico. Há seguramente três meses...
Julião É justamente o tempo que possuo o Mouro. Ainda se me não saiu da cabeça a tal rodada! Continue.
Ernesto Há seguramente três meses que desejo possuir um objeto, que é o seu desvelo, o seu carinho, e para quem Sua Senhoria ambiciona todas as felicidades da vida.
Julião (À parte) Já sei, quer me comprar o Mouro; está se ninando.
Ernesto Para encurtar-lhe razões, Senhor Julião, peço-lhe a mão da senhora sua filha.
Julião Cáspite! Folgo muito de saber disso.
Ernesto Sou guarda-livros de uma das mais importantes casas comerciais da Corte, tenho trinta apólices, duas moradas de casas...
Julião Basta, basta meu caro. O senhor sabe montar?
Ernesto (À parte) Estou em apuros. Eis o meu fantasma.
Julião Responda, que tenho muito que fazer.
Ernesto (À parte) É preciso lisonjear-lhe a mania (Indeciso) Monto...já montei e creio mesmo até que montei num burro!
Julião Num burro! Senhor Ernesto, não me prostitua a arte hípica. O senhor está-se traindo, não minta; diga antes: Senhor Julião, eu quero ver a verdadeira luz, quero entrar para o Clube Jácome. E as portas do templo se abrirão de par em par para recebê-lo. Diga-me: qual é o melhor sistema de montar? Qual o melhor sistema de ferrar? Como é que conhece quando um cavalo está rengo? Ande, responda sem titubear. Não sabe, não sabe nada, é um ignorante, não lhe dou a mão de minha filha.
Ernesto Ah! Senhor Julião, o senhor não sabe, não pode avaliar o entusiasmo que de mim se apodera quando vejo uma corrida, todo eu fico num tremor; os olhos saltam-me das órbitas. (Julião acompanha também o entusiasmo). Os cabelos arrepiam-se-me, um suor frio sobe-me dos pés à cabeça: não sabe, Senhor Julião, não pode avaliar: eu seria capaz de passar até por cima de baionetas caladas para ver o seu Mouro correr.
Julião Bravo, bravo. (Abraçando-o). O senhor nasceu com a predestinação do cavaleiro. Viu aquela última corrida? Como saiu o Mouro fino! Por um triz que o Russo não me ganha. Hei de lhe dar algumas lições; vou lhas dar já.
Ernesto (À parte) Buli numa casa de marimbondos.
Julião Sabe qual é o sistema Jácome? Primeira regra: o cavaleiro deve formar com o cavalo uma só peça, deve se confundir completamente com o cavalo. O tronco desempenado, perpendicular ao selim, descansa sobre as pernas que devem se apoiar nos estribos, de maneira que se possa tirar uma linha reta da cabeça aos pés. (Tomando duas cadeiras e dando uma a Ernesto). Monte. (Montando na outra). Assim. (Imita).
Ernesto (Montando na cadeira) O que diria o meu patrão se me visse nesta posição!
Julião A cabeça deve estar firme nos ombros. Não mexa com a cabeça, Senhor Ernesto. O tronco ainda mais firme. Rédeas nesta posição. O lugar onde a espinha dorsal muda de nome deve ficar colado ao selim: esta é uma das regras gerais; sofre exceção no trote inglês que deve acompanhar o movimento do cavalo neste sentido. (Imita o trote). Cuidado, não perca os estribos, a barriga da perna colada à barriga do cavalo. Não é assim que se segura nas rédeas: a mão deve estar firme e na altura do estômago. Para ladear para a direita não tem mais do que fazer unhas acima e pôr a perna esquerda na virilha do cavalo; para a esquerda, unhas abaixo e a perna direita toma a posição da perna esquerda.
Ernesto (Á parte) Tomo um tombo com toda a certeza.
Julião Equilibre-se, Senhor Ernesto, o senhor está provando que nunca trotou sem estribos. Agora prepare-se para a corrida.
Ernesto Misericórdia!
Julião Ao grito do juiz, chegam-se as pernas à barriga do cavalo, faz-se a mão leve e cai-se-lhe com duas rimpadas na anca. (Cai para a frente e indica a posição). Up, up, up. (Sai a correr com a cadeira, Ernesto acompanho-o) Não se importe, Senhor Ernesto, com o povo que está na raia. Fora da raia! Firme, sempre, olhe que o cavalo desgarra. Eh lá Mourinho de uma figa.
O Comendador Anastácio e os Mesmos
Anastácio (Pára na porta) Está doido! Já me tinham dito e eu não queria acreditar. (Ernesto esbarra-se com Julião e vão ambos no chão)
Ernesto (Levantando-se) O Comendador! Que escândalo!
Julião Ei, Comendador, que tal? Assistiu à corrida? Qual era o seu palpite?
Anastácio Que o senhor estava doido. Ora, Senhor Julião, pois o senhor não satisfeito de dar desfrutes no campo de São Cristóvão, ainda vem fazer criançadas em casa? Onde está a sua família?
Julião Lá está na estrebaria. Vá vê-lo, que elegância! Como está fino! Está um perfeito cavalo de corrida.
Anastácio Não lhe perguntei pelo cavalo, perguntei-lhe pela família.
Julião Venha ver, venha ver.
Anastácio Bem me disse a Dona Dorotéia.
Ernesto Então, Senhor Julião, o que decide depois de todo esse exercício?
Julião Que não lhe dou a mão de minha filha, sem vê-lo no Clube Jácome. Vá já falar com o homem, ele é um moço muito amável, há de recebê-lo de braços abertos. Vá já, não perca tempo. Vá, vá, e venha receber o meu consentimento. (Empurra a Ernesto pela porta fora)
Anastácio e Julião
Julião Que corrida! (Sentando-se cansado)
Anastácio O senhor não perde mais esta mania.
Julião Mania?! O senhor ousa chamar o progresso de mania? É melhor sem dúvida andar montado num burro de marcha, como anda o senhor lá pela fazenda, ou nalgum cavalo de guinilha?
Anastácio E há nada que pague uma boa besta? Nem o senhor nem o seu Mouro fundidos valem o meu João-pequeno: aquilo é meter-se-lhe as esporas e sai o burrinho que é uma rede.
Julião Comendador, não esteja aí a falar sem ver o animal, venha ver o bicho.
Anastácio Ora, qual, são uns cavalos cansados que é só vista e nada mais.
Julião E os seus são só pêlo e lombo e nada mais. É por essas e outras que a raça cavalar está em abandono no país, que o governo não olha seriamente para o importante ramo da zootecnia.
Anastácio Aí vem o senhor com os seus palavreados. Eu calo-lhe a boca, mostrando-lhe os burros da minha fazenda. Agora digo-lhe também: vá ver os bichos.
Julião Pois eu vou mostrar-lhe o que é um animal.
Anastácio Se já o vi, Senhor Julião...
Julião Espere, espere (Sai a correr e esbarra com Dorotéia que entra)
Os Mesmos e Dorotéia
Dorotéia Cruz, te arrenego, criatura! Senhor Comendador, desculpe-me, há três meses que meu marido não está em si. São vexames, sobre vexames por que passo.
Anastácio Parece-me mesmo, Dona Dorotéia, que o Senhor Julião não anda lá muito bom da cabeça. Quando eu entrei, estava ele aqui com um outro moço, cada um montado em sua cadeira, como dois esbaforidos a correrem pela casa.
Dorotéia O senhor ainda não viu nada! O criado anda num sarilho para dentro e para fora com arreios, selins, cavalos. Estou vendo que acabo também por ficar maluca.
Os Mesmos e Chiquinha
Chiquinha (Entrando a toda pressa) Mamãe, aí vem papai com o cavalo pelo corredor.
Dorotéia O que estás dizendo, menina?!
Anastácio É verdade, parece-me que ele foi buscar o cavalo. (Ouve-se dentro barulho de patas de cavalo).
Os Mesmos e Julião
Julião (De dentro) Deixem o animal; não o espantem. (Fazendo com a boca o som de quem chama um cavalo)
Anastácio Não estou aqui em segurança. (Trepa em cima do sofá). Deixe-me pôr em guarda.
Dorotéia Seu Julião, tenha juízo. (Ouve-se barulho da queda de trastes). Lá se vai tudo, lá caiu o guarda-louça. Francisca, sai de detrás desse cavalo, Senhor Comendador, vá ver aquilo. Lá pisou a criança. Lá caiu o papagaio assustado.
Julião Lá vai ele, Comendador.
Dorotéia Não entre aqui com o cavalo, Senhor Julião, nós brigamos seriamente.
Julião Pois levo-o para a estrebaria.
Dorotéia Por causa daquele cavalo ainda há aqui em casa uma catástrofe!
Anastácio Eu ainda estou tremendo; querer introduzir um cavalo parelheiro numa sala.
Julião e os Mesmos
Julião (Entrando) Eu queria mostrar-lhe o que é uma estampa.
Anastácio Faço idéia, faço idéia. (À parte) Parece-me que o homem vai ter um acesso. (Alto) Com licença. (Quer retirar-se)
Julião Espere, Comendador, quero ler-lhe uma obra que estou escrevendo sobre o sistema moderno.
Os Mesmos, Ernesto e Membros do Clube Jácome
Ernesto (Entra correndo) Cá está o meu diploma. Entrei, entrei para o Clube Jácome.
Membros do Clube Viva o Clube Jácome!
Anastácio (Á parte) Outros?! Isto é um Hospício de Pedro II. Este é tal da cadeira. Decididamente vou-me embora.
Julião (Abraçando Ernesto) Meu filho, meu filho.
Chiquinha Meu pai.
Julião Toma, Chiquinha; é teu faze-o feliz e que seja bom cavaleiro. Que seja quanto antes, para irmos todos à corrida e me verem lá no Mouro. (Segurando em Anastácio e pulando com ele) Up, up, up... (Entra o criado com uma bota enfiada no braço e põe-se também a pular). Up, up, up.
Membros do Clube Up, up, up.
Anastácio Ponham-lhe duchas! Ponham-lhe duchas!
Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante
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