Guimarães, Miranda e Hermenegilda
Miranda (Apresentando Hermenegilda) Aqui está o anjo de que lhe falei. (Baixo a Hermenegilda) Trata-o com toda a amabilidade e vê se o seguras; olha...(Faz sinal de dinheiro) Eu a entrego, Senhor Guimarães.
Guimarães Minha senhora...
Hermenegilda Eu já o conhecia tradicionalmente.
Guimarães (À parte) Isto é aguardente de outra pipa.
Hermenegilda O seu ar nobre, as suas maneiras distintas, cativaram-me o peito em arroubos divinais.
Guimarães Ora, minha senhora, quem sou eu? Um pobre diabo carregado de esteiras velhas...
Hermenegilda Mas que tem um coração magnânimo e generoso, como um poeta. Não gosta de versos?
Guimarães Hum...Assim, assim.
Hermenegilda Certamente ama mais a música?
Guimarães Já fiz parte da Sociedade Recreio da Harmonia, estive aprendendo a tocar clarineta, mas tenho uma péssima embocadura. Nunca cheguei a sair incorporado à banda.
Hermenegilda A música é a minha paixão predilética. Naquelas notas místicas, como diz Eugene Sue nos Ciúmes do Bardo, a alma esvai-se e perfumes ignotos. Conhece Meyerbeer?
Guimarães Muito. Não conheço eu outro.
Hermenegilda Que alma!
Guimarães É verdade, mas deu com os burros n’água.
Hermenegilda Com os burros n’água?!
Guimarães Sim, senhora. Pois o Meyerbeer não é aquele mocinho estrangeiro que tinha uma loja de drogas na rua Direita? Quebrou e está hoje sem nada.
Hermenegilda Não, eu falo de Meyerbeer, o cantor da Africana, de Julieta e Romeu, e da Traviata.
Guimarães Com esse nunca tive relações. (À parte) Decididamente, isto é gênero de primeira qualidade.
Hermenegilda Não gosta de dança?
Guimarães Lá isto sim, é o meu fraco; morro por dançar, como macaco por banana.
Hermenegilda Já tem par para a primeira polca?
Guimarães Não, senhora.
Hermenegilda Poderei eu merecer a honra de voltigear com o senhor nesses mundos aéreos, até onde não ousa subir a acanhada concepção dos espíritos tacanhos e positivos?
Guimarães O que é que a senhora quer? Eu não compreendi bem.
Hermenegilda Quer dançar esta polca comigo?
Guimarães Essa é boa, pois não. (À parte) Esta mulher está me provocando, e eu ataco-lhe já uma declaração nas bochechas.
Guimarães, Vilasboas, Hermenegilda e Laurindinha
Laurindinha (Rindo-se às gargalhadas) Ah! Ah! Ah! Você já viu, primo, que súcia de feiosas, todas caiadas e a fazerem umas cortesias muito fora de propósito! (Arremedando)
Vilasboas E que lingüinhas! Uma delas que dançou perto de mim, estava falando do seu balão.
Laurindinha O que é que ela podia dizer do meu balão?
Vilasboas Eu lá sei; disse que você estava estufada, como uma pipoca.
Laurindinha Ah! Ah! Ah! E elas são umas escorridas; parecem uns chapéus de sol fechados!
Os Mesmos e Cocota
Cocota (Entrando pelo fundo zangada) Vamos ver a capa, eu vou-me
embora.
Laurindinha O que foi?
Cocota Estou furiosa! Vamos embora.
Vilasboas (Para Laurindinha) Não caia nessa, prima. Já que veio cá, espere pela mamata, que não há de tardar.
Laurindinha Mas o que foi que te aconteceu?
Cocota Um diabo de um mono assim que encontrei na sala tirou-me para uma quadrilha e entendeu que devia tomar-me para seu palito. Depois de me ter dito uma porção de asneiras, perguntou-me se eu não era da Cascadura, e acabou por pedir-me o molde do meu penteado.
Laurindinha Ah! Ah! Ah! E tu encavacaste com isto?
Cocota Ora, falem com franqueza, vocês acham alguma coisa neste penteado? Pois o mono saiu às gargalhadas dizendo aos companheiros: Olhem o chique com que está aquela flor espetada no cabelo; parece uma lanterna de tílburi! Eu, que não aturo desaforos, mandei-o plantar abóboras e dei-lhe as costas.
Guimarães A menina fez muito bem. Uma ocasião, no baile das Nove Musas, estive às duas por três por lascar uma bolacha numa sujeita que me dirigiu uma graçola pesada. (Para Vilasboas) O senhor quer ouvir o que ela me disse? Olhe, escute (Diz-lhe um segredo ao ouvido)
Vilasboas Safa!
Raimunda, Cocota, Laurindinha, Vilasboas, Guimarães, Hermenegilda, Dois criados, um com uma bandeja de doces e outro com a do chá, uma negra, com um pão-de-ló em uma salva, os meninos e a menina, Basílio e depois Damião
(Os três meninos pulam para alcançar as bandejas que devem ser levantadas pelos criados)
Raimunda (Para Laurindinha) Já tens par para todas as quadrilhas? (Cocota e Laurindinha sentam-se no sofá)
Basílio (Com uma xícara de chá, seguindo atrás das bandejas) Deixa ver isto. (Os criados, atropelados pelas crianças, levantam as bandejas, sem atenderem a Basílio. Guimarães tira uma xícara que oferece a Hermenegilda, Vilasboas tira outra que vai oferecer a Cocota no momento em que as meninas esbarram-se com ele, obrigando-o a despejar a xícara em cima do vestido de Cocota)
Cocota Ah! Estou com a pele da barriga toda assada! Que diabo de desastrado!
Laurindinha Ah! Ah! Ah!
Vilasboas Não foi por querer, prima.
Damião (Entrando pelo fundo e deparando com a negra que traz o pão-de-ló, baixo, zangado, a Raimunda) A senhora mande esta negra para dentro. Pois eu alugo para o serviço criados do Carceler e a senhora quer me envergonhar?! (Para a negra, baixo) Passa para dentro, tição. (À parte) Põem-me a cabeça tonta! (Olha para os lados como quem procura alguma coisa e sai pelos fundos. A negra sai)
Vilasboas Não haverá por aí pão com manteiga?
Guimarães O senhor é dos meus, para chá, pão com manteiga. Não entendo cá essas histórias de biscoitinhos e doces. (Laurindinha e Basílio enchem os lenços de doces)
Raimunda (Tirando doces da bandeja, para Basílio) Leve este para Chiquinha. (Para Laurindinha) Dê este docinho à filha do Barnabé do Tesouro; diga-lhe que não me esqueci dela.
Vilasboas (Para o criado) Deixa-me ver outra xícara. (Tira a xícara, para Guimarães) Não vai a outra?
Guimarães Reservo-me para logo mais.
Vilasboas Faz bem; é preciso deixar algum lugar para o sólido, mas, por causa das dúvidas, vou sempre me prevenindo. (A orquestra toca dentro sinal para uma polca, os criados saem seguidos pelos meninos e a menina)
Guimarães (Para Hermenegilda) Esta é a nossa. (Saem. Entram dois convidados e tomam o braço de Cocota e Laurindinha, saindo todos pelo fundo)
Raimunda Dão sinal para uma polca, primo Vilasboas.
Vilasboas E eu que não tenho par. Ora, hei de encontrar alguma desgarrada. (Sai juntamente com Raimunda e Basílio)
Aurélio e Marianinha
Marianinha Por que está tão triste hoje?
Aurélio A tristeza tem-me sido companheira fiel desde o berço e há de guiar-me talvez até o túmulo. (A orquestra dentro toca a polca) No horizonte negro que se estendia diante dos meus olhos vi luzir uma estrela de bonança. Quando seus raios principiaram aquecer-me, o astro empalideceu e disse ao coração do pobre órfão: - Louco, que ousaste sonhar a felicidade, volta ao martírio e segue teu destino.
Marianinha O teu destino é o meu; expele de teu rosto as nuvens
sombrias da tristeza e pensa nesse amor que será a nossa ventura.
Aurélio Esse amor é impossível, Marianinha. Sem nome, sem família e sem fortuna, vejo-me repelido por teu pai e a consciência diz-me, nas horas em que a esperança vem acalentar-me, que devo fugir quanto antes desta casa.
Marianinha Mas minha mãe te adora, Aurélio.
Aurélio O coração de uma mãe é sempre generoso!
Marianinha Eu te juro que serei tua.
Aurélio Não jures; entre a opulência que te espera, embora amargurada, e a pobreza feliz, teu pai escolherá aquela e os teus votos serão impotentes diante de tão funesta ambição.
Marianinha Tu não me conheces.
Aurélio Conheço-te. És um anjo! Se a sorte te ligar a esse homem não te criminarei por isso. Curvar-me-ei submisso ante o meu destino e seguirei meu caminho.
Os Mesmos e Damião
Damião (Entrando às pressas pelos fundos, baixo a Marianinha) Lá está a deslambida da Hermenegilda a dançar com o Guimarães e tu aqui. Anda, vem para a sala. Com licença, Senhor Aurélio. (Sai com Marianinha)
Vilasboas e a Menina, Aurélio e depois Hermenegilda e Guimarães
Vilasboas (Para a menina) Afinal sempre achei um par! Vamos dançar aqui, Isabelinha, que está mais folgado. (Dançam, e Aurélio senta-se pensativo) Faça o passo largo, levante mais o braço, não envergue tanto o pescoço; bravo! Assim.
Guimarães (Com Hermenegilda) Aqui não há tanto aperto. (Dança a varsoviana ao passo que Hermenegilda dança a polca)
Hermenegilda Nós laboramos em engano. O que é que o senhor está dançando?
Guimarães Pois não é assim?
Hermenegilda A orquestra executa uma polca e o senhor está dançando a varsoviana!
Guimarães Pois isto que estão tocando não é a valsa-viana? Minha senhora, eu aprendi com o Guedes e sei onde tenho o nariz. Vamos lá, havemos de acertar. (Dançam outra vez desencontrados; Vilasboas esbarra-se com Guimarães e atira-o ao chão)
Vilasboas (Continuando a dançar muito entusiasmado) Desculpe-me; quando encontro um bom par, perco a cabeça. (A orquestra pára)
Hermenegilda (Para Guimarães) Machucou-se? Venha beber um copo de água. (Saem todos menos Aurélio)
Basílio e Aurélio
Basílio Não dança, Senhor Aurélio?
Aurélio Já dancei a primeira quadrilha.
Basílio Devia ter dançado a segunda que é a dos namorados. Maganão!
Aurélio (À parte) Que maçante!
Basílio Eu também já não danço. O meu maior prazer nestas reuniões é a boa conversa. (Tirando a caixa de rapé e oferecendo uma pitada a Aurélio) Não gosta? (Aurélio agradece) Ora, diga-me uma coisa; o senhor não é filho de São Paulo?
Aurélio Sim, senhor; nasci na capital, lá eduquei-me e formei-me.
Basílio Boa terra! Passei ali a minha mocidade e ainda tenho saudosas recordações dos pagodes que lá tive. Nós, quando somos moços, fazemos cada extravagância...
Aurélio Eu imagino o que o Major por lá faria...
Basílio O senhor conheceu lá uma... Não; não há de ser do seu tempo.
Aurélio Diga sempre.
Basílio Ora, isto já foi há tantos anos, e graça é que nunca mais soube notícias daquela pobre criatura! Foi uma rapaziada... Mas, enfim, eu lhe conto. Havia na Luz uma rapariguinha viva e travessa que era requestada por muitos estudantes, menina séria. Eu fazia o meu pé-de-alferes com a sujeita e em um belo dia, quando menos pensava, sou apanhado em flagrante pela velha que era um demônio. Espalhou-se a notícia pela cidade, a polícia soltou atrás de mim os seus agentes, e eu, - pernas para que te quero! Venho para a corte, meu pai soube do negócio e assenta-me a farda às costas. Pobre menina! Nunca mais dela soube notícia.
Aurélio (Com interesse) Esta mulher morava na Luz?
Basílio Sim, senhor, quase a chegar à Ponte Grande.
Basílio (Com interesse crescente) E como se chamava?
Basílio Maria da Conceição.
Aurélio Maria da Conceição!! E o nome da velha que morava com ela?
Basílio Mas que diabo tem o senhor?
Aurélio (Disfarçando) Nada. O nome da velha?
Basílio Creio que era Aurélia.
Aurélio (Segurando em Basílio) Foi pois o senhor quem atirou no caminho da perdição uma mulher pura e inocente que devia mais tarde lançar ao mundo um desgraçado?!
Basílio O que é isto, senhor? Deixe-me.
Aurélio Sim; saiba que este que tem à sua frente é o fruto desse amor criminoso.
Basílio O fruto? Pois que...o senhor... Tu és meu filho! (Chorando e ajoelhando-se) Perdão.
Aurélio Senhor, minha pobre mãe, que está no céu, sofreu tanto...
Basílio Perdão, meu Aurélio. Deixa-me contemplar teu rosto. (Abraça-se com Aurélio chorando em altas vozes) Se procedi como um miserável para com aquela infeliz que te deu o ser, eu juro que doravante saberei ser teu pai. Vira para cá esse rosto (Dá um beijo em Aurélio chorando) És o retrato da tua defunta mãe. E como chegaste à posição em que te achas?
Aurélio Graças à alma generosa de um protetor que já não existe e que foi um verdadeiro pai que encontrei no caminho da vida.
Basílio O teu verdadeiro pai aqui está... Tu serás o arrimo da minha velhice. Não me perdoas?
Aurélio Meu pai. (Abraça aBasílio)
Basílio Meu filho. (Abraça-o chorando e rindo-se ao mesmo tempo)
Os Mesmos e Damião
Damião (Entrando pela direita) O que é isto?
Basílio (Abraçado com Aurélio) Eu fui um grandíssimo patife, porém juro-te que serei teu escravo.
Damião (Para Basílio) Mas que diabo é isto?
Basílio Ah! És tu? Abraça-me, abraça-me, Damião! (Abraçando-o) Eu quero abraçar todo o mundo.
Damião Já sei, tu fizeste algumas visitas à copa e bebeste mais do que devias.
Basílio O que se passa em mim é tão grande, acho-me neste momento tão altamente colocado, que não desço a responder à chufa pesada que acabas de me dirigir.
Damião Por que motivo queres abraçar então todo o mundo?
Basílio Conheces aquele rapaz?
Damião Pois não conheço o Senhor Doutor Aurélio?!
Basílio Olha bem para ele. (Pausa) Olha agora para mim. (Pausa) Não achas ali um quê...
Damião Um quê?!
Basílio Aurélio é meu filho e eu sou seu pai.
Damião Ah! Ah! Ah!
Basílio É uma história que depois te contarei. (Para Aurélio) Vamos para a sala, preciso desabafar com todos a alegria que me vai pelo coração. Vamos, meu filho, quero te apresentar como tal às tuas irmãs. (Sai com Aurélio)
Damião Um filho natural! Eu já devia sabê-lo. Aquele rubor que lhe subia às faces quando se lhe falava na família... (Sai pensativo pelo fundo)
Hermenegilda e Guimarães
Hermenegilda Os perfumes dos salões falam-me às fibras
mais recônditas da alma. Sinto um indefinível que me atrai para
os espaços como as estrelas que brilham no éter purpurino das
melodias do céu.
Guimarães (Com um cravo na mão, à parte) O negócio
há de começar por esta flor.
Hermenegilda (Depois de pequena pausa) Que ar pensativo é este que lhe anuvia a fronte em cismas de poeta?
Guimarães O que é que a senhora está dizendo?
Hermenegilda Por que está tão pensativo?
Guimarães Eu...Ora esta...É meu modo. Quando estou no armazém é sempre assim. (À parte) Vou lhe dar a flor. (Alto) Minha senhora...(À parte) Deixe-me ver se me lembro...
Hermenegilda O que quer?
Guimarães (Oferecendo-lhe o cravo) Tomo a liberdade de oferecer um cravo a outro cravo.
Hermenegilda - Ah! Será possível? Deixe-me oferecer-lhe também uma flor do meu inodoro ramalhete. (Tira uma flor do buquê que traz) Tome, é uma perpétua. Sabe o que quer dizer no dicionário das flores esta inocente filha dos vergéis, vestida com as cores sombrias do sentimentalismo?
Guimarães Não, senhora.
Hermenegilda Quer dizer constância eterna.
Guimarães (À parte) Eu atiro-me aos pés dela e acabo com isto de uma vez.
Hermenegilda (Pondo o cravo no peito) Este cravo não me sairá do peito até que morra. “Morte, morte de amor, melhor que a vida.”
Guimarães (Ajoelhando bruscamente) Ah! Minha senhora, eu a adoro; pela senhora... Eu a amo.
Hermenegilda Não repita essa palavra, que me afeta todo o sistema nervoso.
Os Mesmos, Vilasboas e Laurindinha
Vilasboas Um patife ajoelhado aos pés de minha mana.
Laurindinha Ah! Ah! Ah!
Vilasboas Não se ria, prima, que isto é muito sério.
Guimarães (Levantando-se) Que tem você com isto?
Vilasboas O que tenho com isto?!
Laurindinha (Apontando para Guimarães) Ah! Ah! Ah! Olhe, que cara, primo Vilasboas.
Vilasboas Não se ria, prima, que eu tenho gosto de sangue na boca. (Para Guimarães) Prepare-se para bater-se comigo, senhor.
Guimarães Pois para bater-me com você é preciso preparar-me?
Vilasboas Escolha as armas!
Hermenegilda (Pondo-se de permeio) Cassiano Vilasboas, meu irmão, não derrames o sangue deste homem.
Laurindinha Ah! Ah! Ah!
Vilasboas Escolha as armas, senhor!
Guimarães Estou pronto. (Avança para Vilasboas e dá-lhe uma bofetada)
Vilasboas (Gritando) Ai! Ai! Ai!
Laurindinha Ah! Ah! Ah!
Guimarães Em guarda, e defenda-se! (Dá outra bofetada)
Vilasboas (Gritando) Ai! Ai! Socorro! Socorro! (Hermenegilda desmaia nos braços de Laurindinha)
Vilasboas, Hermenegilda, Miranda, Damião, Raimunda, Marianinha, Basílio, Laurindinha, Cocota, Guimarães, Aurélio, Convidados e os Meninos
Damião O que é isto, meus senhores? Que escândalo!
Vilasboas (Apontando para Guimarães) Este homem ousou levantar a mão para o meu rosto. Deve-me uma reparação.
Miranda Minha filha! (Hermenegilda acorda)
Vilasboas (Para Miranda) Meu pai, surpreendi-o aos pés de minha mana e desafiei-o para bater-se comigo.
Miranda (À parte) É preciso fazer render a situação.
(Alto, para Guimarães) O senhor deve-nos uma reparação.
Guimarães Mas que diabo de reparação querem vocês?
Eu gosto desta moça, caso-me com ela e está acabado.
Miranda (Abraçando Guimarães) O senhor é um homem de bem.
Damião (Para Guimarães) Mas, minha filha...
Guimarães Sua filha disse-me na bochecha que já tinha dado o capital a outra sociedade e isto de mulher sem o capital...Hum...temos conversado.
Basílio (Para Damião) Sua filha tem aqui um noivo. (Apresentando Aurélio) E eu, como pai, dou o meu consentimento.
Laurindinha e Cocota Como pai?
Basílio Sim, é seu irmão.
Laurindinha Ah! Ah! Ah! Donde saiu este irmão de comédia?
Marianinha (Ajoelhando-se com Aurélio aos pés de Damião) Meu pai, a sua benção. (Damião volta o rosto)
Guimarães (Para Vilasboas) Se quiser bater-se comigo ainda estou às suas ordens.
Vilasboas Uma vez que o senhor vai ser meu cunhado, eu o perdôo; fica a bofetada em família.
Damião (Para Marianinha e Aurélio) Casem-se, eu irei acabar a minha vida longe daqui. Maldita parentela! Envergonham-me, roubam-me o genro e acabam introduzindo-me em casa ainda um parente! (Canta)
Meus senhores, neste espelho
Podem todos se mirar.
Em parentes desta ordem
Ninguém deve se fiar.
Se algum dia se casarem
Vejam lá, tenham cautela!
Que há mulheres que, por dote,
Trazem esta parentela.
(Cai o pano)
Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante
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