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Meia Hora de Cinismo

França Júnior

CENA VIII

Os Mesmos e Neves

Neves (Entrando pela direita.) Que cinismo! Meus senhores, estou-os cumprimentando. (Tira do bolso um canivete e, deitando-se na cama, começa a aparar as unhas.)

Frederico Que furioso cínico! É capaz de levar todo o dia ali naquela cama, aparando unhas,e contando as tábuas do teto. Em São Paulo há duas classes de vadios: uns que, parecendo ter o do da ubiqüidade,s e apresentam em toda a parte, em bailes, teatros, festas de igreja, leilões do Joly, novenas, etc, menos na Academia; outros que, inimigos do progresso e da atividade, passam onde deixam à vontade crescer o abdômen. Tu pertences à primeira seita, e cá o senhor, que está deitado, à última.

Nogueira Fechaste a porta do meu quarto quando saíste, Neves?

Neves (Pausadamente) Sim, fechei. (Muda de posição na cama.)

Frederico Tens um companheiro de casa assaz divertido!

Nogueira Há dias que não diz uma palavra; no entretanto é o homem que mais aprecia uma prosa, deitado em uma boa cama, já se sabe, sem nada dizer, mas pronto para tudo ouvir. E sabes qual é a especialidade de prosa que ele mais aprecia?

Frederico Sem dúvida caçada de veados ou cruzamento de raças de cavalo?

Nogueira Nada, coisa mais séria; é a tese das teses a vida alheia. Respeita-o como uma das primeiras rabecas de São Paulo: toca admiravelmente variações sobre motivos de qualquer tema; tem arcadas de Paganini. Também não respeita ninguém: é um verdadeiro pagão!

Frederico E qual é o sistema da rabequeação que ele mais aprecia? Sim, porque há diversos sistemas de rabequear.

Neves Falem mais alto que eu também vim para a prosa.

Nogueira Falamos dos diversos sistemas de rabequeação, e o Frederico tem a palavra.

Frederico (Em atitude magistral.) Pois, meus amigos, pela experiência que tenho, atrevo-me a oferecer-lhes uma brilhante preleção sobre este assunto. Querem?

Nogueira Sim, venha lá isso.

Neves Topo.

Frederico (Com dignidade cômica.) Há sujeitos que rabequeiam de uma maneira insinuativa: eu me explico melhor há sujeitos, por exemplo, que nas suas arcadas dizem: “O Nogueira é um tratante, um canalha, um miserável, um caloteiro, mas no entretanto é bom moço, cumpre as suas obrigações, tem boa alma, toma regularmente a sua carraspana, por divertimento, já se vê, desmoraliza-se em lugares públicos, mas não é mau rapaz, tem bons sentimentos”. Este é o sistema aristocrático, rabeca de salão, e que tem grande número de sectários. O segundo é o sistema dos ronhas. O ronha é o homem que exerce a ronha. A ronha pode-se estender a todos os atos humanos: assim é, por exemplo, ronha o beato ou o hipócrita que, acabando de bater nos peitos na igreja, vem cá fora entregar-se religiosamente às delícias de Cápua. Parece-me que não há estudantes dessa natureza; no entretanto, se é que há, sou de opinião que andem de mantilha para se distinguir dos outros. Mas a ronha, aplicada especialmente à hipótese vertente, é um certo desprezo e mesmo rancor que alguns sujeitos parecem afetar em uma prosa de vida alheia, mas que entretanto extasiam-se às mais pequenas notas de instrumento divino, como o poeta se expande diante do belo. Estes entram somente de ouvido, e são tantos os sectários como os admiradores do Padre Pereira.

Nogueira A comparação é mesmo de bicho.

Frederico Não me interrompa. O terceiro sistema é o dos que falam mal de tudo e de todos e não encontram nos homens senão defeitos: é o exclusivismo, e peca como todos os sistemas exclusivistas.

Nogueira É o sistema do Neves.

Frederico Justamente.

Neves Não tanto.

Frederico O quarto sistema é o dos que rabequeiam por mero passatempo, para suavizar as horas de cinismo. É este o sistema que quase todos nós seguimos, é o menos nocivo, e o que produz menos males, porque não é o ódio nem o rancor que preside a prosa, mas apenas um desejo de pagode. Tais são, senhores, as observações que tenho colhido de minha longa vida de bicho, e que procurarei ir aperfeiçoando com o correr dos tempos.

Nogueira Bravo! Falas com a experiência de um velho: és um alcorão; entretanto esqueces o sistema dos mitras, que tecem os maiores panegíricos a um sujeito pela frente e por detrás não são rabecas, são rabecões.

Frederico Cada dia aparecem novos sistemas, e eu ultimamente não estou muito a par do progresso da ciência, porque os credores não me deixam pôr o nariz na rua.

Neves Vocês estão muito cínicos.

Nogueira (Rindo-se.) Este desgraçado ainda acaba tocando realejo para se distrair.

Frederico Ó Neves! Diz alguma coisa para animar a prosa: estás mesmo de neve.

Neves Vocês estão estupidamente cínicos: eu me retiro. (Levanta-se da cama e sai pela porta do fundo.)

Frederico Ó Neves! Amanhã aparece mais cedo para prosearmos. (Nogueira e Frederico riem-se às gargalhadas.)

CENA IX

Frederico, Nogueira e Trindade

Trindade (Entrando com dois negros, aponta para as canastras.) Rapaz , segura ali. (Virando-se para o outro negro.) Rapaz, ajuda ali teu parceiro. Irra! Hoje acaba-se o pagode, mudo-me, e está tudo decidido.

Nogueira (Para Frederico.) É preciso abrandarmos o homem. O Macedo, quando souber que fui eu a causa da mudança do calouro, queima-se comigo, e eu não estou para indispor-me com ele. Não quero ser o ponto de discórdia desta casa. Vou fazer as pazes com o calouro. (Para Trindade, batendo-lhe no ombro.) Não sejas criança, Trindade, foi uma brincadeira própria de rapazes.

Trindade Vá-se embora, senhor, não me aborreça.

Frederico Você também cavaqueia com qualquer coisa, encordoa por uma bagatela.

Trindade Pois é qualquer coisa, é bagatela ser um homem constantemente amolado, não poder dizer uma palavra que não lhe respondam com quatro gargalhadas não poder sair à rua sob pena de lhe gritarem: ó burro, ó sandeu, ó calouro? Isto é bonito? É próprio de moços decentes e civilizados que freqüentam os bancos de uma Academia?

Nogueira Concordo com tudo que quiseres; mas dá-me um abraço e façamos as pazes. (Trindade deixa-se abraçar um pouco friamente.) Manda os pretos embora, e continua a viver com os teus companheiros que te estimam como um bom menino que és. Deixa-te de criançadas, e viva a pândega!

Trindade Pois bem, se juram doravante tratar-me como um companheiro de casa, e não como um cão, fico.

Nogueira e Frederico Juramos.

Trindade (Virando-se para os negros.) Ponham-se fora. (Os negros saem.)

Nogueira (Abraçando a Trindade.) Viva a conciliação! Se tivéssemos uma boa garrafa de vinho, poderíamos tornar mais solene este tratado de paz.

Trindade Se prometem cumprir o juramento, isso é o que menos custa. Tenho ali na canastra duas garrafas de vinho que me restaram do pagode que dei no dia de minha sabatina...

Nogueira (À parte.) Sempre desfrutável.

Frederico (À parte.) Lá vem a sabatina.

Trindade (Continuando.) E podemos esvaziá-las.

Frederico e Nogueira Prometemos.

Nogueira Eu ainda levo a minha promessa mais longe: prometo que de hoje em diante serei o teu mais fiel e dedicado amigo.(À parte.) Ó mágico poder do vinho.

Trindade Pois bem, viva a rapaziada e vamos à pândega. (Enquanto Trindade tiras as garrafas da canastra, Frederico e Nogueira fazem-lhe gaifonas pelas costas.) Aqui estão, rapaziada. (Dá uma garrafa a Nogueira e fica com a outra.)

CENA X

Os mesmos e Macedo

Macedo (À parte.) Aproxima-se o momento fatal: é quase meio-dia, e o verdugo não tarda a aparecer. (Reparando para o grupo.) Pois quê, já fizeram as pazes?

Nogueira Não há copos nem saca-rolha.

Frederico Saca-rolha há um aqui em cima da mesa. (Tira o saca-rolha e dá a Nogueira.) Quanto a copos dispensa-se perfeitamente, podemos beber pela garrafa é mais clássico.

Trindade Está dito, vai-se ao gargalo. (Recebe o saca-rolha e abre a garrafa.)

Nogueira Viva o Trindade. (Bebe.)

Frederico (Tirando-lhe a garrafa.) Alto frente: ainda não bebi. À saúde de sua brilhante sabatina, Senhor Trindade. (Vira a garrafa.)

Trindade Meus senhores, um brinde: à saúde da emancipação do primeiranista, e à morte de todos esses prejuízos acadêmicos que herdamos da velha Coimbra. À saúde de todas aquelas por quem nossos corações palpitam.

Nogueira (Para Frederico.) Percebo. A filha do Juca do Braz.

Trindade Viva a mocidade inteligente e briosa que abandonando, que abandonando, que...

Frederico (À parte.) Temos cabeleira.

Nogueira Não se engasgue, dê-me o caroço.

Trindade - ...as afeições mais caras, o lar doméstico e a terra que lhe deu o ser, vêm, longe de tudo isso, conquistar os louros que engrinaldaram a fronte de Homero, Tasso, Petrarca, Dante e Camões que, cantando as ações heróicas dos Lusitanos, enxergava um horizonte de glórias no futuro.

Frederico E assim mesmo não via pouco; olhe que tinha só um olho.

Nogueira Pelo menos assim o diz a história.

Trindade (Pulando em cima da cadeira com entusiasmo.) Vou arrematar este brinde, senhores, bebendo à saúde daquelas idéias que mais se harmonizam com o estado de perfectibilidade e civilização dos povos: à saúde das idéias republicanas. (Vira a garrafa toda.)

Viva o Porto,

Viva o Madeira,

Não é tolice

Uma cabeleira.

(Todos, menos Macedo.)

Viva o Porto,

Viva o Madeira,

Não é tolice

Uma cabeleira.

Nogueira (À parte.) O vinho já começa a fazer efeito antes de tempo. (Para Trindade.) Passa-me a garrafa.

Trindade (Descendo da cadeira.) Já não há mais nada. (Vira a garrafa de boca para baixo.)

Macedo (Que durante esse tempo passeia pensativo.) Entretanto esqueceram-se de mim.

Nogueira Pois também estás hoje tão cínico! Não sei o que tens.

Trindade (Mal podendo suster-se em pé.) Que diabo, anda-me tudo à roda...o tal vinho é forte. Ó Nogueira, tu estás meio fardado, fala franco. Está-me tudo a andar à roda... Ó Nogueira anda cá, dá-me ali aquela vela para acender um cigarro. (Mete a mão no bolso, e tira da algibeira um lápis que põe na boca, julgando ser um cigarro.) que diabo tem este fumo? (Olhando para o lápis.) Está furado. (Atira o lápis no chão.)

Frederico (Encostando-se à mesa.) Furada está a tua cabeça.

Nogueira De que cor é esta linha, Trindade?

Trindade Que pagode, minha comadre. Vem cá, Mariquinha, não fujas; olha que é teu benzinho quem fala.

Nogueira (Segurando em Macedo, e puxando Frederico.) Não sejam cínicos, vamos formar aqui uma pândega, e apreciar o Trindade enquanto está impagável. Dance-se o cancan, e viva o pagode.(A orquestra toca a última quadrilha da Corda Sensível -; Frederico e Nogueira dançam em cancan desesperado, e Trindade sempre cambaleando embrulha-se no cobertor encarnado, trepa em cima da cama, e aí dança um cancan infernal, no meio do qual Jacó aparece no fundo, e o cancan continua.)

CENA XI

Os mesmos e Jacó

Jacó (Entrando.) Com licença, meus senhores. (Macedo e Frederico escondem-se na porta da esquerda. Nogueira pára espantado, olhando para Jacó, obriga-o a valsar pelo meio da cena e largando-o de repente, atira-o de costas.) É desta maneira (Levantando-se e sacudindo a roupa.) que os senhores recebem as pessoas? (À parte.) Se não viesse buscar dinheiro...é preciso humilhar-me para ver se o pilho. (Alto.) Não sabem dizer se o Senhor Doutor Macedo está em casa?

Nogueira Julgo que não. O senhor deseja alguma coisa? É sem dúvida dinheiro que vem buscar?

Jacó (Risonho.) Como o senhor doutor adivinha; é isso mesmo. Vossa Senhoria é muito pitoresco. Vence-se hoje uma letra que o Senhor Doutor Macedo assinou, e eu vim buscar os 300$000 por que ele se obrigou.

Nogueira Queira sentar-se. (Na ocasião em que Jacó vai sentar-se, Trindade puxa-lhe a cadeira, e atira-o de costas.)

Jacó (Furioso.) O senhor não me deixará! (À parte.) Este sujeito está bêbado.

Trindade (Batendo-lhe no ombro.) Excelso vinagrão, eu te saúdo.

Jacó (Risonho.) Isso é lisonja, senhor doutor.

Nogueira (Vai buscar o violão, e vem sentar-se em cima da mesa ao pé de Jacó.) Tenha a bondade de explicar-se pausadamente para que eu o entenda.

Jacó Eu já disse ao que vim. (Nogueira acompanha-lhe a frase a violão.)

Nogueira Pode continuar.

Jacó O Senhor Doutor Macedo deve-me já há dois anos 300$000 (Nogueira acompanha-o a violão.) e para garantia dessa dívida pedi-lhe que me assinasse uma letra...(Acompanhamento de violão.) Senhor Doutor, olhe que falo sério: deixe-se de caçoadas. (Acompanhamento de violão.)

Nogueira Senhor Jacó, tenha a bondade de falar outra vez e repetir o recitativo, para ver como é sonoro este acompanhamento. (Fere o violão.)

Jacó (Levantando-se.) Eu não vi, aqui para ouvir música, senhor doutor; quando quero vou às retretas.

Nogueira Está incomodado, Senhor Jacó? A retrete é no fundo do corredor à esquerda. (Indicando a porta da direita.)

Jacó S ó o que desejo é falar com o Senhor Doutor Macedo. (Acompanhamento.)

Frederico (Para Macedo.) O Nogueira com aquele debique é capaz de comprometer-te.

Macedo Haja o que houver eu não apareço.

Nogueira (Continuando a tocar.) Ora, Senhor Jacó, esqueça-se disso: o Macedo está sem dinheiro, e ainda mesmo que tivesse é filho-família, e não é responsável pelas obrigações que contrai.

Jacó (Furioso.) Não é responsável, senhor doutor! Não me diga isso: a letra está assinada por ele, e em nome de sua dignidade deve pagá-la.

Trindade (Dando uma encapelação em Jacó.) Está queimado! Viva o rei dos Vinagres!

Jacó Olhe que o senhor está me fazendo chegar a mostarda ao nariz. (Faz menção de avançar para Trindade.)

Nogueira (Empurrando-o) Ponha-se fora.

Frederico (Entrando em cena.) Fora! Fora! (Trindade dá uma porção de encapelações em Jacó, Nogueira dá-lhe com o violão nas costas, e Frederico ri-se às gargalhadas.)

Macedo (Entrando.) O homem queima-se e é capaz de fazer alguma.

Jacó (Sai pela porta do fundo aos empurrões, e voltando, pára na porta.) Isto é um estorpício, é um vandalismo. Por terem força julgam-se uns Rockchilles. Hei de mostrar o que é um negociante ofendido em sua dignidade! Eu já volto acompanhado. (Sai.)

CENA XII

Frederico, Nogueira, Macedo, Trindade e depois Neves

Trindade (Ainda envolvido no cobertor encarnado, deita-se de barriga para baixo em cima da cama.) Que pagodeira!

Neves (Entrando com toda a fleuma.) Que algazarra foi esta que vocês fizeram?

Nogueira Foi uma pequena correção doméstica em um credor.

Macedo Vocês com o seu pagode acabam de comprometer-me. O homem saiu desesperado.

Frederico Ele é incapaz de queimar-se: aquilo foi fogo de cavaco.

Nogueira Eu responsabilizo-me pelo resultado.

Trindade (Levantando-se da cama.) Esteve riquíssima a pagodeira. Ó Nogueira! Tu viste a cara com que saiu o Jacó? O homem saiu vraiment indignado! Ó Frederico! Passa a garrafa, e vamos beber à saúde do Jacó. Ora esta, homem, quem me vir é capaz de apostar que estou bêbado.

Frederico Qual, não tens nada: estás somente com um fardão de grande gala.

Macedo (Passeando.) Vejamos qual é o desfecho desta tragédia.

Nogueira Eu já te disse que não te maces; deixa correr o negócio por minha conta.

Neves Mas que diabo de cinismo: eu não os entendo.

Trindade Nem eu tão pouco, meu amigo.

Nogueira Pois eu lhes explico, meus amigos. O Macedo deve 300$000 ao Jacó, ele veio cobrá-los, e nós tocâmo-lo a cachações pela porta fora. É uma coisa muito natural, e que nada tem de extraordinário: seria extraordinário se o Macedo pagasse a dívida e o deixasse sair impunemente.

Trindade Lá isso é; tem toda a razão. Mas que diabo tenho eu que está tudo a andar-me à roda? E esta? Parece-me que tenho tanta gente na minha frente; dar-se-á o caso que e esteja em aula? Ó Araújo! Dá-me o compêndio, e passa-me uma lição que eu estou in albis.

Frederico (Segurando em Trindade e procurando levá-lo para a cama.) Vai-te deitar, Trindade, que tu estás meio incomodado.

Trindade Quem? Eu incomodado? Ó Frederico! Não me insultes; olha, eu vou aqui à república vizinha, e vê só a certeza com que ando. (Vai cambaleando para o fundo da cena , e encontrando-se com Jacó, que entra com um oficial de justiça, atira-o ao chão.)

CENA XIII

Os mesmos, Jacó e um Oficial de Justiça

Jacó- Não há dúvida este sujeito está tocado.

Trindade Levante-se, que eu não brigo com homem deitado.

Jacó (Levantando-se.) Pois, meus senhores agora espero obter um melhor resultado, porque trouxe uma boa carta de recomendação de pessoa influente, a quem os senhores não podem deixar de servir. (Tira do bolso uma citação, e entrega a Macedo.)

Macedo (Lendo.) É uma citação; eis o desfecho terrível que eu esperava de tudo isso.

Nogueira Uma citação!

Jacó Quando vim pela primeira vez já a tinha comigo; pois sabia perfeitamente que o Senhor Macedo havia de esquivar-se ao pagamento da dívida; porém o acolhimento benévolo que aquele senhor (Apontando para Trindade.) prodigalizou-me e obrigou-me a ir pedir o auxílio da justiça para fazer valer o meu direito: é a razão por que volto agora com este senhor.

Macedo E julga o senhor que vem fazer valer o seu direito quando usa de uma infâmia?

Frederico (Batendo o pé.) Sim, é uma infâmia.

Trindade (Cambaleando para ele, e dando-lhe um arroto na cara.) É um desaforo; é uma vinagreira.

Jacó Será tudo o que os senhores quiserem.

Nogueira Pois bem, se eram os seus desígnios comprometer a reputação sem mancha de um moço, fazendo-o comparecer perante uma autoridade por um motivo que o difama e extorquir depois, abrigado à sombra da lei, o dinheiro que lhe roubou, se eram estes os seus desígnios, Senhor Jacó, fique convencido que nunca os realizaria. Eu já volto. (Sai precipitadamente.)

CENA XIV

Trindade, Jacó, Frederico, Macedo, Neves, depois Nogueira

Jacó (À parte.) Eles todos falam em dignidade, em vinagreira e dizem tudo o que lhes vem à boca, mas quando têm de bater o cobre, vêm com desculpas, quando não dão para atrevidos.

Macedo Então com que o senhor esperava que eu havia de esquivar-me ao pagamento da dívida? (Com furor.) O senhor é bem ordinário.

Jacó Ora, senhor doutor, isto não vai a zangar.

Frederico( À parte.) O que iria fazer o Nogueira em casa?

Trindade Estes credores são temíveis!

Macedo É bem triste a minha posição, porém a sua ainda é mais, é degradante. Diga-me, finalmente, Senhor Jacó, o que pretende fazer?

Nogueira (Entrando apressado.) Coisa nenhuma. (Para Macedo.) Aqui tens o dinheiro que te devo.

Macedo Dinheiro que me deves?

Nogueira (Em voz baixa.) Cala-te e aceita. Senhor Jacó, a sua dívida vai ser satisfeita, mas antes de tudo há de ouvir-me. Há ladrões que, embrenhando-se pelas matas, assaltam os viandantes de pistola e faca; há outros que roubam de luva de pelica nos salões da nossa aristocracia, estes têm por campo de batalha uma mesa de jogo; há outros, finalmente, os mais corruptos, que são aqueles que, arrimados a um balcão, roubam com papel, pena e tinta. O senhor faz honra a esta última espécie: é um ladrão e um ladrão muito mais perigoso do que os outros. Dê-me essa letra, documento autêntico de sua infâmia e tome o seu dinheiro. (Tira o dinheiro da mão de Macedo, e esfrega-lhe na cara.)

Jacó Ora, senhor doutor, não se zangue; deixe-se de brincadeiras.

Macedo (Abraçando Nogueira.) Obrigado, meu amigo, obrigado. Acabas de provar que tens uma alma grande e generosa, que, no meio dos risos e folguedos próprios da nossa idade, não olvidas esses sentimentos sagrados, que tanto enobrecem o coração do bom amigo. Obrigado, obrigado.

Jacó (Que durante esse tempo está contando o dinheiro.) Está exato. Agora vamos fazer outra visita. O dia está feliz.

Nogueira Ponha-se fora. (Todos tocam Jacó pela porta fora.)

Trindade Viva a pândega! (Cai na cama.)

Neves (Olhando ao redor da cena .) Que cinismo!

(Toca a orquestra a última quadrilha da Corda Sensível; dançam todos o cancan.)

(Cai o pano.)

FIM

Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante

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