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O Defeito de Família

França Júnior

CENA XII

Ruprecht e Artur.

Artur - O que queres?

Ruprecht (Examinando cautelosamente as portas) - Scio!

Artur - Que diabo de mistério é este?

Ruprecht - Este menina não está pom, non.

Artur - O que queres dizer com isto?

Ruprecht - Bai não sape de nata e mãe sem ferconha serfe de capa.

Artur - Patife!

Ruprecht - Batife, ia wohl, endra todo o tia neste zala e está azim (Ajoelhando-se) ao bé de noifa de focê.

Artur - Estarei eu sonhando, Santo Deus! Fala, demônio; mas fala português, de modo que eu te entenda.

Ruprecht - Menina tem um amande, focê não defe gasa com ela.

Artur - E se eu te disser que estás mentindo como um cão!

Ruprecht (Zangado) - Engole este palafra, eu não mente. (Avançando) Engole já palafra. Du bist ein Schaffskopf. (Ameaçando-o com o punho no rosto)

Artur - Está bom, está bom.

Ruprecht - Engole já palafra.

Artur - Já engoli.

Ruprecht - Eu guer lhe abre os olhos em dempo e focê está muito sem ferconha.

Artur - Mas tu tens certeza do que estás dizendo?

Ruprecht - Ya wohl. Gewiss.

Artur - Pois será crível que aquele anjo de candura...Ó Deus de bondade, eu te agradeço por me teres iluminado tão horrendo precipício!

Ruprecht - O que fai facer?

Artur - Lançar em rosto desta mulher a infâmia que cometeu para comigo e despedir-me para sempre desta casa.

Ruprecht - Esbera um bouco. Focê guer fêr com suas próprias olhos?

Artur - Sim, sim.

Ruprecht - Então gala sua boca, não dá esgandalo. Nós abanha sujeita com poça na potija. Fai pra dentro e faz cara de dolo.

Artur - Mulheres! Mulheres!

Ruprecht - Fai pra dentro. (Artur sai) Bobre rabaz! (Acende a última vela e sai)

CENA XIII

André Barata, só.

André Barata (Entrando pela última porta da direita) - Aquela menina ainda há de ser a causa da minha perdição. Obriga-me a entrar aqui pela porta da cozinha, num belo dia esbarro-me face a face com o pai e dão-me cabo do canastro. Se a mãe não consentisse, eu já tinha sido infalivelmente pilhado, e tudo por um capricho tolo; sim, porque no fim de contas, que mal havia que o noivo soubesse das minhas visitas? O coração está me vaticinando que hoje acontece-me alguma (Canta)

Por amor de uma menina,
Estou metido em boa cama,
Se me livro da esparrela
Não caio noutra trama.

Quando entro aqui à noite,
Perco a fala fico mudo,
Sinto câimbras pelas pernas,
Sinto frio, sinto tudo.

CENA XIV

O Mesmo, Josefina e depois Ruprecht.

Josefina - Constipava-me no jardim, à sua espera...Jesus! o senhor aqui?!

André - Pois não me disse anteontem que esperava-me hoje a estas horas? Sou pontual como um inglês.

Josefina - Meu Deus! Ele pode chegar...

André - Minha senhora, declaro-lhe, com a franqueza que me caracteriza, que não compreendo os seus escrúpulos.

Josefina - O senhor não vê que se ele soubesse deste segredo me repeliria no mesmo instante.

André - Não creio, minha senhora; ele havia de fazer todo o possível para ocultar isto e, até depois de casado, as portas de sua casa abrir-se-iam de par em par para receber-me.

Josefina - Depois de casada, nunca, senhor! Porque eu morreria no dia que meu marido suspeitasse disto.

André - E sua mãe não sabe de tudo?

Josefina - Sabe, é verdade; porém ela padecia do mesmo mal quando se casou com meu pai...

André - Então, já vê que...

Josefina - Mas meu pai não se importa com essas coisas.

André - É um excelente marido.

Josefina - E eu a conversar com o senhor! Artur não tarda por aí, vá-se embora.

Ruprecht (Aparecendo na porta) - Prafo! Abanhei-os. (Sai)

CENA XV

Josefina, André e depois Artur.

André - A minha demora é muito pequena; sente-se e vejamos como vai o seu pé. (Senta-se no sofá)

Josefina - Ele pode surpreender-nos.

André - São cinco minutos apenas.

Josefina - Aqui mesmo?

André - Por que não?

Josefina - Ai, ai, se não lhe tivesse tanto amor...Vamos, mas muito depressa. (Artur aparece na porta, Josefina senta-se no sofá e André, ajoelhando-se, segura-lhe no pé)

Artur (Entrando) - Infame!

Josefina (Assustando-se) - Ai! (André esconde-se rapidamente na primeira porta da direita. Artur olha com raiva concentrada para Josefina, que abaixa a cabeça)

CENA XVI

Ruprecht, Josefina e Artur.

Ruprecht - Eu fai arruma minha baú, e fai me embora, patifaria muito crande. (Entra pela segunda porta da direita)

Josefina - Artur!

Artur - Sei de tudo, senhora.

Josefina - Sabes de tudo?! Céus! O que disse ele! Não me desprezes, eu te peço, em nome do que tens de mais santo.

Artur - Vilmente enganado!

Josefina - Eu te juro que é falso. Não creias, não é verdade.

Artur - E ousas negar quando acabo de ver...

Josefina (Com vivacidade) - Não viste, é mentira.

Artur - Basta, senhora; esta cena está me irritando os nervos e eu saberei o partido que hei de tomar. (Canta)

Linda e pura como um anjo
Julguei-te nos sonhos meus,
Quebraram-se os teus encantos
Serena imagem de Deus.

Dos jardins da minha vida
Foste a rosa sedutora:
Já não vives neste peito
Mulher falsa e traidora.

Josefina (Canta) -

Enganá-lo já não posso,
Para sempre estou perdida,
Quebraram-se os seus encantos,
E a ilusão de minha vida.

Josefina - Artur! (Quer segurar-lhe na mão)

Artur (Saindo pela segunda porta da esquerda) - Deixe-me.
(Josefina quer segui-lo, mas volta, deixando-se cair no sofá)

CENA XVII

Josefina e Gertrudes.

Gertrudes - Onde está o Senhor Artur?

Josefina (Encostando a cabeça ao peito de Gertrudes e chorando) - Hi! Hi! Hi!

Gertrudes - O que tens, menina?

Josefina - Está tudo descoberto!

Gertrudes - Como?

Josefina (Levanta-se) - Artur vai abandonar-me e propalará a minha vergonha por toda a parte.

Gertrudes - Mas como foi isto? Conta-me.

CENA XVIII

As Mesmas e André.

André (Tremendo) - Já se foi?

Gertrudes - O Senhor André!

André - É verdade, minha senhora, antes não fosse.

Gertrudes - Mas o que veio fazer o senhor hoje cá?

Josefina - Artur surpreendeu-o aos meus pés e disse-me que já sabia de tudo. (Chorando) Hi! Hi! Hi! (Sai pela primeira porta da esquerda)

CENA XIX

André e Gertrudes.

Gertrudes - Que indiscrição, senhor?

André - E então! Pois é a senhora que me chama de indiscreto? Quem foi que me disse que eu viesse cá hoje?

Gertrudes - É verdade, não me lembrava...saia, saia.

André - Eu sairia correndo como um veado, mas não sei que diabo tenho que as pernas estão a tremer-me como caniços agitados por um grande temporal.

Gertrudes - Onde está o seu chapéu?

André - Daria um doce à senhora, se me dissesse onde está a minha cabeça. (Gertrudes procura o chapéu). Muito custa a levar-se esta vida honradamente.

Gertrudes (Achando o chapéu, em cima de um dos aparadores) - Tome. (André toma o chapéu, deixa-o cair aos pés de Gertrudes e abaixa-se para apanhá-lo, no momento em que aparece Matias na segunda porta da esquerda)

CENA XX

Os Mesmos e Matias.

Matias - Um home nos peses de minha mulher! (André corre precipitadamente, escondendo-se na segunda porta da direita) Senhora Dona Gertrudes! (Com furor)

Gertrudes - Não é preciso alterar-se, é a coisa mais simples deste mundo.

Matias - A senhora arrecebe um home em minha ausência, e tem o atrevimento de vir dizer-me que é a coisa mais simples deste mundo!

Gertrudes - Miserável! Duvidas de tua mulher!

Matias - Não me faça ferver o sangue. Olhe que entre mim e a senhora há um mundo de cobrinhas furta-cores. Eu não estou bão, senhora.

Gertrudes - Fala baixo; queres fazer um escândalo?

Matias - Falo bem arto; todo o mundo há de saber que a senhora me traiu. O casamento de nossa filha está desmanchado, porque a senhora acaba de comprometê-la.

Gertrudes - Mentes.

Matias - Artur acaba de me contar tudo; ele julgava que Josefina, aquela pomba sem fel...- e no entretanto é a mãe...

Gertrudes - Senhor Matias, deixe-me falar.

Matias - Não; primeiro hei de saciar a minha vingança no infame sedutor. Entra para ali Lucrécia Brogia. (Aponta para a primeira porta da esquerda) Já para ali.

Gertrudes - O que irá acontecer, meu Deus! (Sai)

CENA XXI

Matias e Artur.

Matias - Sou eu a vítima.

Artur - O senhor?!

Matias - Sim; o negócio é com minha mulher.

Artur (Zangado) - Ora, Senhor Matias.

Matias - Apanhei-os.

Artur - Quem?

Matias - Gertrudes e o tal sujeito de que me falou.

Artur - Se não está caçoando comigo, digo-lhe que está doido.

Matias - Mas se eu vi.

Artur - Se eu também vi.

Matias - O senhor está bem certo disso?

Artur - Pois não lhe disse já que estive há pouco com ela nesta sala?

Matias - Então são dois. Nós também samos dois, seguremos os bichos.

Artur - Acredita porventura que eles estejam ainda aqui?

Matias - O meu entrou ali. (Indicando a segunda porta da direita) Fechemos as portas. (Fechando a porta do fundo e a primeira e segunda da esquerda) Ah! é preciso apagar as velas. (Apaga-as) Agora toda a cautela são poucas. (Tateando) Venha me seguindo. (Chegam à segunda porta da direita) Coloque-se do lado de lá, eu ficarei aqui. (Artur fica a um lado da porta e Matias do outro lado)

Artur - Mas isto assim, sem uma bengala ao menos.

Matias - O senhor não tem mões? Scio! Assim que aparecerem a cabeça do sujeito...zás. (Apertando o pescoço) Deve-se fingir voz de mulher. (Com voz fina) Pode entrar.

Artur (Com voz fina) - Entrem, eles já se foram.

CENA XXII

Os Mesmos, Ruprecht e depois André.

Ruprecht (Entrando) - Gue escuritão! (Matias e Artur agarra-lhe no pescoço. Ruprecht quer gritar e não pode, e vêm os três à boca da cena )

Matias - Aperte sem dó, nem piedade.

Artur - Está seguro. (André entra)

André (À parte) - Bonito! A porta do quintal fechada, e eu aqui às escuras. (Tateando)

Matias - Hás de morrer como um porco. Aperte, seu Artur.

André (À parte) - O que ouço?!

Artur - O bicho não nos escapa mais.

André (Á parte) - Morrer como um porco! Caí num matadouro!

Ruprecht (Conseguindo tirar do pescoço a mão de Matias) - Zogorro! Zogorro!

Matias - O alamão?! (Artur larga o pescoço de Ruprecht)

André (À parte) - Santa Bárbara! Onde estará a porta da rua? (Tateando)

Ruprecht - Gue guer dizer isdo?!

Matias - Cala a boca, não faças barulho. O sujeito está aqui; e é preciso gazofilá-lo.

Ruprecht - Mas eu não zou o zujeito!

Artur - Os patifes são dois e não um, como me disseste. Procurêmo-los. (Os três tateiam pela cena)

André - Ei-los comigo! (Tateando, esbarra-se no sofá, e fica de cócoras em cima daquele. Ruprecht esbarrando em Matias, toma-o por André e segura-lhe no pescoço, Matias quer gritar e não pode, Artur passa a mão pela cara de André)

André (Gritando e correndo) - Socorro! Socorro!

Ruprecht - Um xá está securo.

Artur (Tateando, em procura de André, esbarra-se com Ruprecht, toma-o por aquele e aperta-lhe o pescoço) - Achei-te enfim! (Ruprecht quer gritar e não pode)

André (Gritando) - Socorro! Socorro!

CENA XXIII

Gertrudres, Josefina, André, Artur, Ruprecht e Matias.

Gertrudes (De dentro, batendo na porta) - Abram a porta.

Artur - Agüente, seu Matias. (Gritando) - Uma vela, que eu já não posso.

André (À parte) - Se eu achasse a porta da rua...

Gertrudes (De dentro) - Então abrem ou não?

Artur (Gritando) - Uma vela, pelo amor de Deus!

Gertrudes (Arrombando a porta e seguida de Josefina que traz uma vela) - O que é isto?!

Artur (Deixando Ruprecht) - Pois era tu?!

Ruprecht (Deixando Matias) - Pois era o zenhor?!

Artur - Onde está o sedutor?

Josefina (Para André) - Fuja, fuja.

Matias (Avançando para André) - Eis aqui o marvado. (Segurando-o pela gola do paletó) Agora não me escaparás.

André (A Gertrudes) - Ó senhora, deslinde toda esta alhada, que a minha vida está por arames.

Gertrudes - Este homem está inocente.

Matias - Eu já te vou dar a inocência, grandissíssimo maroto. Xubregas? A minha espada.

Ruprecht - Brombto. (Sai)

CENA XXIV

Os Mesmos, menos Ruprecht.

Gertrudes - Senhor Matias, um escrúpulo mal entendido da nossa filha é a causa desta cena.

Josefina - Pelo amor de Deus, minha mãe, cale-se.

Artur - Deixe sua mãe falar, senhora.

Gertrudes - Este homem é um pedicura.

Matias - Pedicura!

André - É a pura verdade, senhor; sou formado neste difícil ramo, e merecia que me tratassem com mais consideração.

Matias - Mas o que veio fazer em minha casa?

Gertrudes - Josefina sofre...

Josefina - Ela vai dizer tudo! Minha mãe...

Artur - Fale, fale, minha senhora.

Gertrudes - Josefina sofre de uma moléstia horrível...

Matias e Artur - Qual é?

Gertrudes - Tem um joanete!

Josefina - Está tudo acabado! (Cobre o rosto com as mãos)

Matias (Deixando André) - Um joanete?! Que diacho vem a ser isto, senhor?

André (Com tom dogmático) - O joanete é o diabo em forma de osso que se agrega ao pé, faz com ele comércio de amizade, aumenta-lhe a base e uma vez estabelecido o seu domínio, entendiam os antigos pedicuras que era impossível desalojá-lo. Eu, porém, depois de um acurado estudo, em que gastei a mais bela parte da minha mocidade, descobri um remédio milagroso, perante o qual todos os joanetes se abatem, como provam os atestados, que passo a ler. (Tira diversos papéis do bolso)

Matias - Não me explicará, senhora, esta embrulhada?

Gertrudes - Josefina queria ocultar este defeito ao Senhor Artur. Vendo anunciadas nos jornais curas milagrosas feitas pelo Senhor André Barata, resolveu, com meu consentimento, recebê-lo aqui em segredo...

Matias - E como me ocultaram isto?

Gertrudes - Com o teu gênio falador, irias contar tudo ao Senhor Artur e a pobre menina estava persuadida que o seu noivo a abandonaria no dia em que soubesse do fatal segredo.

Artur (Para Josefina) - Por que me julgaste tão mal? Acreditavas porventura que te idolatrando com um anjo...

Gertrudes - Era o que eu lhe observava, porque, no fim de contas, o que quer dizer um joanete? (Para Matias) Eu tenho um enorme e tu nunca deste pela coisa.

Josefina (Para Artur) - É de família.

André (Lendo) - "Atesto que o Senhor Barata tirou-me oito calos do dedo mínimo..."

Matias - Esta bão; abasta. Vá em paz e agardeça à Providência o não ter de ir daqui para a botica.

Josefina (Para Artur) - Não me desprezas?

Artur - Pelo contrário, cada vez te amo mais. (Para André) Autorizo-o a continuar desassombrado a cura encetada e ponho à sua disposição a minha bolsa.

Josefina - Mas atestado, por forma alguma.

CENA XXV

Gertrudes, Ruprecht, Artur, André, Matias e Josefina.

Ruprecht (Com a espada embainhada e fazendo esforço por tirá-la da bainha) - Aqui está a esbada. Muito verrugem, non sai, non.

Matias - Leva-a para dentro; já não é preciso.

Ruprecht - Gomo?

Matias (Batendo no ombro de Gertrudes) - Sempre me meteste um susto...

Ruprecht (Para Artur) - Gomo se expliga isdo?

Artur - As aparências muitas vezes enganam, meu palerma.

Ruprecht (Á parte) - Bercepo, apafaram o negocia em família.

Josefina (Canta) - Meus senhores e senhoras,
Quero dar-lhes um lembrete,
Não propalem por aí...

Gertrudes (Canta) - Que ela tem um joanete.

Todos (Menos Ruprecht) - Silêncio! Scio ! Atenção!
Por favor bico calado,
Que um defeito de família
Não deve ser revelado.

[Cai o pano]

FIM

Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante

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