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O Tipo Brasileiro

França Júnior

CENA VII

Teodoro, John e Henrique

Henrique (Com barbas e cabeleira postiças imitando um francês.) Non é aqui que morra Monsieur Theodore Passion?

Teodoro Um seu criado, senhor; tenha a bondade de sentar-se.

Henrique Sans façon, Monsieur, non se encomode.

Teodoro Ora, por quem é.

Henrique Je suis venu a as case, monsieur, parce quon ma di que monsieur protege todos os estrangeiros que vêm ô Brésil. Eu já tem estado aqui cinco anos, e por toda a parte ouvi falar no nome de vossa senhorrie.

Teodoro Oh, meu caro senhor, é muita bondade.

Henrique Eu vem agora diretamente de Lisbonne pour arranje um negocio com o governo e pede que vossa senhorrie me concede sa valieuse protection. Je suis né à Paris, monsieur, dans la rue du Chateau Margot nº 100, foi baptisade no freguezie du Chateau La Rose, e ma famille demeure presantemente no travesse du Chateau La Pipe. Sou um francês de fine sociedade.

Teodoro Está-se vendo, meu caro senhor, as suas maneiras. O seu todo...Poderei saber qual o negócio que o trouxe pela segunda vez ao Brasil?

Henrique Eu tem idéia de montar aqui um grande fabrique de pomade. Quase todos os brasileiros, senhor, são muite pomadistes e eu tem esperance de fazer beaucopo dargent neste país. O senhor non acha?

Teodoro Não sei; toda a idéia generosa e civilizadora que aqui aparece é recebida com o riso da incredulidade.

Henrique Eu me compromete, eu sozinha, a dar pomade a tout lê monde. Já tem meus calcules todos feito. Se eu consegue arranjar ser pomadiste universal avec garantie du gouvernement, acaba de uma vez com pomade falsificade que se consume em tudo o Brésil.

Teodoro Se o senhor conseguir acabar com o sebo de Holanda que nos impingem os taverneiros e os nossos mascates ambulantes...

Henrique O senhor toca justamente no ponte que eu queria chegar. Mediante um processe que eu acaba de descobrir, eu pretende elevar o sebo de Holanda à altura de la plis superfine banha de urso dos fabriques de todo Europe.

Teodoro Meu caro amigo, a minha humilde proteção está ao serviço de todos os estrangeiros inteligentes e laboriosos que aportam a este país. Hei de fazer todo o possível por apresentá-lo nos melhores círculos; farei com que toda a imprensa se ocupe de um hóspede tão ilustre, empenhar-me-ei enfim para que a sua idéia seja coroada do feliz resultado a que tem direito; mas digo-lhe desde já que conte com a inveja dos meus compatriotas, que são a gente mais levada do diabo deste mundo.

Henrique Não crê; brasileira goste de pomade, e eu ganhe dinheirro.

Teodoro (A John, que durante o diálogo tem lido o jornal.) O que diz a isto, Mr. John? Ah! É verdade, tinha-me esquecido de apresentá-lo Mr. John Read, industrioso com o senhor e uma das glórias da velha Inglaterra. (John inclina a cabeça.)

Henrique Tem muite satisfaction de faire o seu conhecimento, senhor.

Teodoro Tinha mandado vir cerveja quando o senhor entrou...Por favor, não façam cerimônia. (Bebem os dois, menos Henrique.)

John (Depois de ter bebido.) Este cerveja estar muite ordinária.

Teodoro Posso asseverar-lhe que é legítima inglesa.

John - Non, quem vende engana a voucê.

Henrique Deixe-me ver, senhor; eu já tem tido um fabrique de cerveja no Suisse, e entende muite desta bebida. (Bebe.) Monsieur Theodore a raison, muito bom cerveja inglesa. (À parte, com voz natural.) È legítima marca barbante; uma pataca a garrafa. (Alto.) O senhor non fume? (Oferece charutos a John.)

John Obrigada; mim tem charutas. (Tira um charuto do bolso e fuma.)

Henrique Não quer, senhor? (Dá um charuto a Teodoro, que aceita.) Eu gosta muite de fumar destes cigarros.

Teodoro (Fumando.) _ É um delicioso havana.

Henrique Eu não pode fumar que cigarros de Havana.

Teodoro Está como eu. Este é magnífico! Não sei como se possa tragar charutos daqui.

Henrique Eu manda vir diretamente de Cuba. (À parte.) Recebo-os da Bahia.

Teodoro Mas dizia-lhe eu que toda a idéia grandiosa é recebida neste país à ponta de baioneta. Tem o senhor a prova eloqüente disto em Mr. John Read.

Henrique Ah! O senhor também tem um idéia?

Teodoro E que idéia! Um ideão! Encanar cajuadas em toda a cidade e dar-nos excelente caldo dessa deliciosa fruta a dois vinténs o copo.

Henrique Tiés, vraiment, que cest bom ça! Mais cest difficile pour encanar cajuades dans cette ville!

John Processa estar perfeitamente estudada. Mim pode explica a voucê, porque tem segreda que eu só conhece e mim estar arranja tudo muite bem.

Henrique Doit être um machinisme très complicade!

John Machinisma muito fácil. Mim coloca aparelha no Ponta de Caju. As cajus são colocadas em uma reservatória e daí conduz fruta perfeitamente madura por um roda a uma ponta dada! Neste ponta mim estar faze uma sistema de guilhotine, que logo que a caju apresenta seu cabeça arranca o castanha em três tempos. O castanha separada da caju cai em uma tubo que vai ter a uma outra reservatória. Caju passa então por grande cilindras, é espremida perfeitamente, retirada todo o calda, a bagaça fica para uma lada, e o líquida vai para uma caldeira, onde, por uma machinisma especial, entra o açúcar e água necessária para o tempera. Depois de fervida tudo isso, para não fica picada, passa para destilador, sai todos os porcarias de caju, e vai por uma tubo para o caixa matriz. Daí é distribuída em encanamentas de barro...

Henrique Como dans la compagnie City Improvements?

John Oh! Yes.

Henrique Mais cest une maravilhe. É precise entretante recomendar de botar sempre água no recipiente, que é para não deixar sair cheiro de caju.

Teodoro É um ideão!

John Em cada esquina há um pilastra com um torneira e uma pequena caixão para mete dentro dele vendedor de caju. Cada cajuada custa duas vinténs.

Henrique Deve ser une empresa très lucrative.

Teodoro É um negócio da China.

John Já tem minhas cálculos tudo feito. Rio de Janeiro tem quatracentas mil almas; desses quatracentas mil, cinqüenta mil bebe caju. Cinqüenta mil na razão de quarenta réis prefaz quantia de duas contas de réis por dia. Tem ainda mais. Ninguém bebe caju sem paresenta cartão. Mim calcula emissão de dez contas de réis de cartão por dia. Neste emissão com os cartões que perde, o jura do dinheiro, cartão que mim non paga, porque diz que é falsa, fica mais com uma conto de réis por dia; com as duas contos acima faze três, e mim pode faze na fim de ano mil e tantas contos.

Teodoro E então?!

Henrique Eu tem também autre idée, senhor, que me há de ainda tornar celébre dans tout le monde

Teodoro Só o Brasil nada inventa, nada descobre!

Henrique Eu, senhor, eu acaba de descobrir la direction du balon aereostatique.

John Oh! non pode!

Henrique Eu vai comunicar ao senhor meu segrede, que é precise ainda estudar.

Teodoro Até onde vão esses homens!

Henrique La direction du balon aerostatique, senhor é o cousa mais facile deste mundo. Supõe vosmecê (Segurando na cabeça de John.) que isto é o Terra.

John (Com dignidade.) Minha cabeça nos estar globe terraque. Si voucê quer demonstra idéia, segura em sua chapéu.

Henrique Non é precise zangar, senhor. (Segurando em seu chapéu.) Supõe vosmecê que isto é o Terra. Ora, senhor sabe que o Terre está constantemente girando. O senhor quer ir au Chine, por exemple, não tem mais que sóbe cô balon a uma certe altura; fica lá parade, e esperra que o Chine passe. Quando vosmecê aviste o Chine desce tout de suíte, e assim em muito pouco tempo pode viajar tout lê monde.

Teodoro É assombroso!

John Non póde! Non póde!

Teodoro (À parte.) Vejamos agora os dois.

John Eu vai explica a voucê que no póde. Mim estar uma vez com a cabeça doenta, cidade todo anda à roda, e mim espera numa canto que meu porta passa para mete chave. Mim fica na mesma lugar, e porta non passe. Balão não pode cai no Chine.

Henrique Vossa Senhoria há de ver.

John (Baixo a Teodoro.) Mim precisa fala em particular com voucê sobre previlegia de caju. O negócio há de ser decedida este semana.

Teodoro (A Henrique.) Monsiúe esta casa é sua, pode ficar aqui ou entrar; esteja como lhe aprouver.

Henrique Si eu encomode Vossa Senhorrie eu vai me embora.

Teodoro Não, senhor, há de ficar para jantar conosco e dar-nos, todas as vezes que quiser, o prazer de sua amável companhia. Eu vou chamar minha filha. Fique aqui conversando com ela, enquanto trato um negócio importante com este senhor. (Gritando para dentro.) Henriqueta? Ó Henriqueta?

Henrique É muite bondade de Vossa Senhorrie.

CENA VIII

Os mesmos e Henriqueta

Henriqueta Meu pai chamou-me?

Teodoro (Apresentando Henriqueta.) Minha filha

Henrique Bon jour, mademoiselle, comment vous portez vous? O senhor tem uma filha trop interessante. (John lança um olhar de ciúme para Henrique.)

Teodoro Entretém este senhor, que nós já voltamos. (Sai com John.)

CENA IX

Henrique e Henriqueta

Henriqueta (À parte.) O que hei de dizer a este mono? (Henrique vai pé ante pé examinar as portas.) O que é isto, senhor?

Henrique Sciu!

Henriqueta (Assustada.) Eu grito.

Henrique Sciu! (Segura na cintura de Henriqueta.)

Henriqueta Deixe-me.

Henrique Não te assustes, sou eu. (Tira as barbas.)

Henriqueta Henrique!

Henrique Sim, sou eu, o teu Henrique, disfarçado em francês pomadista. Teu pai recebeu-me de braços abertos, porque disse-lhe que tinha nascido na rua do Chateau Margot, vendi-lhe pomada por muito tempo, convidou-me para jantar e aqui instalou-me sem perguntar-me sequer o nome.

Henriqueta O que pretendes fazer agora?

Henrique Não sei em que acabará esta comédia; mas tenho fé que a minha idéia há de ser bem sucedida. Olha, Henriqueta, se eu te pedisse a mão na qualidade de francês?

Henriqueta Nada conseguirias.

Henrique Pois bem, mas consigo, em todo o caso uma coisa.

Henriqueta O que é?

Henrique Provocar o meu rival.

Henriqueta Henrique, tu deliras!

Henrique Não, Henriqueta, estou em perfeito uso de razão. O inglês saiu daqui meio atravessado com a idéia de ficarmos a sós, eu aumentei ainda a aflição ao aflito, dizendo a teu pai que tu eras muito interessante. Não dou um segundo que o ousado bretão não estejas aqui de sentinela.

Henriqueta Vai-te embora.

Henrique Daqui não sairei.

CENA X

Os mesmos e John

John (Dentro.) Mim já volta; só um instanta.

Henrique Aí vem o inglês. (Põe as barbas.) Je vous adore, mademoiselle! (Ajoelha-se aos pés de Henriqueta e beija-lhe as mãos.) Oh, je vous aime! (Henriqueta procura esquivar-se.)

John (Entrando.) Desafora!

Henrique Quest ce que o senhor tem com isso?

John O que eu tem com issa?...Eu vai já te ensina. (Forma um soco.)

Henrique Atira soco, patife. (John vai dar um soco, Henrique dá-lhe uma cabeçada que o lança ao chão. À parte.) Esta é legítima brasileira.

Henriqueta Meus senhores, por piedade!

John Deixa mim ensina francês. (Dá um outro soco que é correspondido com outra cabeçada.)

Henriqueta Meu pai? Meu pai?

CENA XI

John, Henrique, Henriqueta e Teodoro

Teodoro O que é isto, senhores?!

John Mim encontra este francês aos pés de filha de voucê, mim vai dar-lhe um soco, e ele mete cabeça em mim.

Henrique Eu repele laggression, que senhor me faz; mais je suis um français de boné famille, eu desafia senhor para uma duelo.

John Mim aceita duelo.

Teodoro Muito bem; procedem com a dignidade de estrangeiros ofendidos. Infelizmente não temos essas práticas. Mr. John, eu serei seu padrinho.

Henrique Au toque daragon eu estarrei no Matadouro com meus testemunhas.

Henriqueta (À parte.) Meu Deus!

John Mas mim ainda não sabe sua nome!

Teodoro É verdade, o seu nome!

Henrique Ernesto Guillaume, membre de la societé higienique des parfumistes de Paris, president de lAssociation du cosmetique bleu, sócio honoraire de la societé cheval de Bronze, condecorado com a orde de la fleur du thé de la Chine.

John (Sobressaltado.) Ernesto Guillaume? Voucê estar mora em Pariz?!

Henrique (À parte.) O meu nome sobressalta o inglês! Aqui há mistério. (Alto.) A Paris, senhor.

John Na rua de S. Honoré?

Henrique Isso mesmo.

John Número vinte.

Henrique Número vinte. (À parte.) Oh! a Providência! Parece-me que ela me guia os passos.

John Número vinte?

Henrique Eu já disse ô senhor que sim. (À parte.) Vou já saber de tudo. (Alto.) Eu conhece o senhor perfeitamente, senhor não me embace.

John (Baixo.) Cala sua boca, não me compromete.

Henrique (À parte.) Bravo!

John (Para Teodoro e Henriqueta.) Mim precisa fala sozinha com este senhor.

Teodoro (À parte.) Aqui há grande mistério. (Sai Henriqueta. Teodoro finge que sai e fica a espreitar.)

CENA XII

Henrique, John e Teodoro

Henrique (À parte.) Vou dar por paus e por pedras, chegar ao conhecimento disto. (Alto.) Eu conhece ô senhor muito bem.

John Não fala alto.

Henrique Há de falar, e diz que senhor é um grande tratante.

John Mas voucê não é dono de casa; mim não tem estada ainda em Pariz, mas dono de casa tem estada comigo em Liverpool.

Henrique (À parte.) Que diabo de embrulhada!...(Alto.) Eu já disse que conhece o senhor perfeitamente.

John Mim deve, senhor, mim não nega este grande dívida; mas mim paga.

Henrique (À parte.) Oh, agora compreendo tudo! Dei por fatalidade o nome de uma casa comercial em Paris, onde este patife deve muito dinheiro. (Alto.) Sim, senhor, sabe o senhor que je suis o irmon do dono deste case, e que vem diretamente ao Brésil por cobrar este dívida. Quando je suis entre ici, foi por apanhar o senhor, e eu não sai daqui, sem dinheiro contade.

John Fala baixo. Escuta. Mim estar casa com este menina, ela traz muite dinheira de dote, eu arranja inda dinheira de brasileira com minha previlégio, e paga tudo a voucê.

Teodoro (À parte.) Que ouço!

Henrique (À parte.) Ó tratante! (Alto.) Eu não querro palavra de senhor, senhor já falta su palavra quando promete a meu irmon de pagar, e eu quero garantie.

Teodoro (À parte.) É impossível que eu não esteja sonhando.

John Que quer que eu faz?...

Henrique Escreve no papel isso que senhor diz, e eu esperro.

John - Non, mim não escreve nada.

Henrique Então bote pra cá dinheirro.

Teodoro (Vindo à cena.) Não é necessário escrever, eu ouvi tudo.

John Oh!

Henrique (À parte.) Obrigado, Senhora Dona Providência!

Teodoro Saia desta casa, senhor.

John Voucê não tem nada com minha negocia particular com esta sujeito. Voucê me dar mão de sua filha, eu casa com ela. Mim estar home de bem.

Teodoro Homem de bem! Você é um grandíssimo patife, que veio aqui enganar-me com cajuadas para apanhar o dinheiro da pequena.
John Espera uma pouca, eu quer fala.

Teodoro Saia, já lhe disse.

John Arranja ao menos minha negocia, e mim fica muito contente com voucê.

Teodoro (Como procurando um pau.) O que eu vou arranjar é um cacete para obrigá-lo a sair.

John (À parte.) Mim foge amanhã de cidade, e fica livre de credor. (Toma o chapéu e sai correndo.)

Teodoro (Para Henrique.) E você também o que faz ainda aqui?

Henrique Mr. Theodore Passion, je deande la main de mademoiselle Henriette.

Teodoro O quê? Rua, rua, senhor. Nenhum de vocês me engoda mais.

Henrique Senhor non tem dirreito de me despede de sua casa sem consultar primeiro vontade de sa filhe.

Teodoro Eu tenho o direito de lhe rachar até a cabeça agora mesmo.

Henrique Fala com mademoiselle, senhor. (Falando para dentro.) Faz favor, mademoiselle. Mademoiselle Henriette?

CENA XIII

Teodoro, Henriqueta e Henrique

Henriqueta (À parte.) O que terá havido, meu Deus!

Henrique Eu pede seu mão a seu pai, e precisa de seu consentimento, senhora.

Henriqueta Se for do gosto de meu pai casar-me-ei com o senhor.

Teodoro Nunca! Nesta casa não há de entrar mais tratante algum. Consinto no teu casamento com o Senhor Henrique. Quanto ao senhor, suma-se.

Henrique (Tirando as barbas e com voz natural.) Muito obrigado, Senhor Teodoro Paixão.

Teodoro Pois era o senhor?!

Henrique É verdade; um brasileiro, ainda quando nenhum préstimo tenha, serve ao menos para desmascarar um tratante. Receba calado esta lição, e aprenda a respeitar a terra das bananas e palmeiras, onde canta o sabiá. Deite-nos a sua bênção.

Teodoro (Abençoando-os.) Deus os faça santos.

Henrique Merci, Mr. Theodore Passion.

FIM

Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante

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