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lourenço

Franklin Távora

Palavras que escrevi, aos 3 de julho do ano corrente, na folha exterior do original donde fora copiado o Lourenço para a Revista Brasileira.

Esta crônica, pronta há mais de dois anos para seguir em volume o Matuto, cujo é conclusão lógica e natural, acaba de sair a lume na Revista Brasileira, a que dedico afetos de natureza paternal.

Mudando-se o plano da publicação, tive por necessário adaptar aos leitores da Revista, que eu não podia presumir fossem absolutamente os mesmos do Matuto. Fiz por isso muitas alterações neste manuscrito. Aumentei informações e minúcias, reproduzi idéias inúteis no primeiro caso, indispensáveis no segundo. Quem ler agora o Matuto e o Lourenço notará algumas repetições. É certo, porém, que, na leitura, pode ser este desacompanhado daquele. Pelo que respeita às repetições, passará as vistas por cima delas o leitor benévolo, sem enxergar matéria para corpo de delito contra o autor, atentos os motivos explicados.

Cumpre advertir, que, conquanto cada uma das duas narrativas tenha ação própria, conquanto cada uma delas possa subsistir sem a outra, para melhor conhecimento da guerra dos mascates em que ambas se inspiraram, a leitura do Matuto sem a do Lourenço, e vice-versa, não é bastante.

Esforcei-me por dar, quer no primeiro quer no último, uma idéia tão completa quanto possível, dessa guerra, ainda pouco estudada, não obstante a sua originalidade, por si só no caso de convidar a sério exame e meditação o historiador depois do economista e do político. Pouca ou nenhuma importância se lhe tem dado entre nós; é certo contudo que, sem a guerra dos mascates, a qual deixou um valo profundo entre brasileiros e portugueses. não teríamos a revolução de 1817, radiante e alva de que fora aquela guerra o pálido crepúsculo precursor do dia da Independência em 1822.

Antes da emancipação das colônias americanas (1776), antes da conjuração mineira (1789), reunida a nobreza com o Senado da Câmara de Olinda, em 1710 tratou de dar à capitania de Pernambuco outra forma de governo, independente de Portugal: foi a guerra dos mascates o primeiro grito do novo mundo contra as metrópoles européias. Não imitou Pernambuco a França nem os Estados Unidos. Pensou e obrou por si muito antes de nesses países se pensar em independência e república.

O ajuntamento discutiu a idéia sugerida por vários nobres de se estabelecer em Olinda uma república aristocrática modelada pela de Veneza; e se esta idéia, considerada por todos de alta magnitude, e recebida por muitos com medo, não prevaleceu, porque foram votos vencedores os dos moderados que, como meio de conciliar os ânimos discordes, propuseram fosse aceito para governador o bispo alheio às lutas partidárias, e a quem aliás cabia o governo, na falta do governador fugitivo, por via de sucessão, conforme dispunha a carta-régia prevenindo as vacâncias, nem por isso se deve desconhecer a prioridade de Pernambuco em cogitar na independência.

A devassa, instaurada depois da chegada do governador Félix José Machado, ocasionou homízios, prisões, seqüestros, que somente tiveram termo em 1714. A capitania ficou arruinada, muitas famílias na viuvez e na miséria; muitas fortunas desapareceram: foram quatro longos anos de calamidades, de lágrimas e luto. Se não houve execuções capitais, não foi por faltarem bons desejos ao governador e aos ministros, mas por se poderem avir neste ponto com aquelas autoridades sanguinárias os ouvidores da Paraíba e das Alagoas; houve, porém, mortes e não poucas por ocasião dos levantes nos assaltos e batalhas; houve assassínios nas estradas e até nos refúgios onde os nobres tinham buscado pôr em segurança a sua vida.

Com todo o fundamento dever-se-ia reputar esta guerra como uma das mais prejudiciais a Pernambuco, se ela não fora a semente donde pululou a planta da nossa independência política.

LOURENÇO

 

I

    O governador Félix José Machado de Mendonça Eça Castro e Vasconcelos, que chegara a Pernambuco em 7 de outubro de 1711, depois de ter passado alguns dias em Olinda, mudou a sua residência para Recife, com grande desagrado e desconfiança dos nobres, porque a florescente vila era a praça forte da burguesia portuguesa, que aspirava à posse e mando da capitânia.

Posto que já muito aumentado, não podia no lustre e número dos habitantes competir o Recife com a opulenta e populosa Capital, que, do alto do seu orgulho, olhava com desdém de soberana para a humilde vizinhança a quem hoje paga feudo de vassalagem. Eram poucas as ruas, quase nenhum os estabelecimentos públicos. Maurício de Nassau fizera surgir, da ilha pitoresca, aos sobrados, palácios e outras obras, cujos restos ainda atestam a grandeza do gênio batavo. Mas todos estes edifícios e estabelecimentos, bastantes para certificar vinte e quatro anos de domínio fecundo de um grande povo, pouco eram em comparação às ruas sem conta, aos templos suntuosos, às habitações aristocráticas com que dos seus outeiros descia até os vales, por entre pomares e jardins esplêndidos, a Olinda dos poetas, que nascera de um conflito de prazer das vistas de Albuquerque com as risonhas perspectivas que de cima desses outeiros se descortinam, como nascera Vênus do ajuntamento do sangue do céu com as escumas do mar.

A preferência do governador feriu a nobreza nos seus foros anciãos, e a cidade na sua justa e legítima vaidade. Todavia os nobres teriam curtido em silêncio este dobrado desdouro, se  em 18 de novembro, quarenta dias depois da chegada de Félix José Machado, não fossem escandalizados com a nova inauguração do pelourinho, causa primordial da guerra extinta (1). Não podendo mais reter, em presença do novo desacato, os seus ressentimentos mal ocultos, os mais importantes membros da nobreza pernambucana procuraram o bispo D. Manuel Alves da Costa, de cujas mãos o governador recebera as rédeas do governo, para o consultarem sobre o procedimento que deviam ter.

O bispo, modelo de brandura cristã e de concórdia fraternal, tratou de amaciar os fidalgos melindres eriçados.

Senhores, disse ele, não há razão para assim vos mostrardes descontentes. O ouvidor não podia deixar de restabelecer o pelourinho, demolido em 1710 no ardor das paixões pelo povo levantado, visto que a vila está criada. Até me parece que, a não ter este procedimento, o ouvidor incorreria em culpa.

Perdoe-me v. exa., redargüiu Estevam de Aragão. É verdade que a vila está criada; mas, tendo oposto os nobres e os homens bons, ou antes o clero, a nobreza e o povo da capitania (que não podem compreender neste número os abomináveis mascates) geral reação a este ato, justo parecera que sem novo ato em que se visse manifesta a vontade de el-rei acerca de tal assunto, não houvesse por parte dos ministros a menor deliberação. Poder-se-á acaso compreender que os pernambucanos derramassem o seu sangue, que a nobreza lançasse mão das armas e gastasse rios de dinheiro pra no fim de tão sanguinolenta e dispendiosa contenda, ficarem satisfeitos com a renovação do infame padrão?! Demais, que significam a carta de D. Lourenço de Almeida, e a confirmação do perdão aos nobres pelo primeiro levante senão que estes tinham razão no dito assunto? Declaro a v. exa., não posso conformar-me com a opinião dos que entendem estar tudo acabado, e nada nos restar d’ora em diante neste singular pleito, senão curvarmos a cabeça aos que tem agora por si a autoridade que não sabem dar o devido apreço à sua honra, e à justiça entregue nas suas mãos. A meu parecer, a questão está de pé, a luta não teve o natural desfecho. O pelourinho, há pouco inaugurado por entre festivas demonstrações dos mercadores, deve ser novamente demolido.

Nem nos custará muito darmos aos vilões esta lição, ajuntou Antônio Dias de Figueiredo. Robustos estão ainda os braços que construíram à roda do Recife essas trincheiras, que o novo governador mandou destruir tanto que tomou conta da terra, mas que as maiores e mais desesperadas investidas dos mascates não puderam romper durante quatro longos meses de cerco. Os pleitos patrióticos, que castigaram a arrogância da vilanagem, depressa voltarão ao posto, onde morrer pela pátria lhes parecia mais nobre do que vencer o inimigo.

Senhores, respondeu o bispo, as guerras são cruas calamidades, que os estados devem evitar e os homens temer; elas se opõem à civilização, e a moral condena-as. Milhões de cruzados e, o que é mais, milhares de vidas gastaram-se nesses infaustos meses. Sofreu a agricultura, sofreu o comércio, sofreu o governo, sofreu a família, sofreu a religião prejuízos incalculáveis. Mas para justificar o estado lastimoso de Pernambuco, havia uma razão o governo tinha o direito de se fazer obedecer e a obrigação de impor aos rebeldes a obediência. Nestes intuitos, a nobreza fez o que ordenara sua honra e o seu dever. Mas as circunstâncias atuais não são as mesmas. A nossa resistência às novas autoridades meteria na mão deles a arma que brandimos contra os rebeldes, e estigma de rebeldia deixaria em nossas frontes. Cuidemos antes de reparar os grandes males que nos deixou como legado fatal essa luta inglória e fratricida. Deixemos o mais à conta da disciplina das coisas humanas, aos altos conselhos da Providência.

Este parecer, que tinhas as principais raízes no ânimo piedoso do bispo, não foi bem aceito pelos circunstantes. Entre estes, o que mais tenaz se mostrou em não se conformar com a nova direção das coisas públicas, foi Leão Falcão d’Eça. Estava ele para os fidalgos do sul da província, pela sua intrepidez e exaltação, na mesma relação que Cosme Cavalcanti para os do norte. Pelo seu voto, o primeiro passo que deviam dar os pernambucanos era porem abaixo o pelourinho. Disse ele que tinha amigos e moradores em Tracunhaém que o seguiriam na represália, sem entrarem na indagação e dos perigos e do resultado final. Disse mais, que não queria a vida senão até o momento de dar esse segundo ensino aos mascates, depressa esquecidos do primeiro.

Cosme Cavalcanti trouxe também a sua pedra para o edifício da revolta.

Não ignorais que vim de propósito de Goiana a cumprimentar o governador, porque se me mandara dizer desta cidade que os nobres haviam assentado fazer cada qual a sua visita, e recolher-se enquanto a obrigação de algum negócio os não chamasse. Ia eu chegando às portas do palácio, quando saíam de dentro João da Mota e o padre João da Costa. Ao darem com as vistas em mim, risos escarninhos são os cumprimentos que tem um, olhares ameaçadores e desdenhosos são a cortesia que tem o outro. Diante dessas figuras ainda macilentas pela fome que com o cerco padeceram, todos os meus brios sentiram-se insultados. Pareceu-me que subir cabisbaixo as escadas por onde haviam descido triunfantes duas víboras peçonhentas não era ação que se compadecesse com o meu sangue e linhagem. Dei de rédeas ao cavalo e torci para trás. Não me hajais por arrebatado, senhores. Eu já trazia nesse momento todos os espíritos erguidos: pelas ruas da infame povoação encontrara magotes de reles mercadores com alegres ares, e palavras descompostas. Uns diziam versos em honra do seu triunfo; outros cantavam as trovas depravadas contra a nobreza, chocalhando da nossa derrota. Sabeis ao que ia essa desprezível gentalha? Ia levar os seus agradecimentos ao ouvidor e ao governador pelo restabelecimento do pelourinho.

Coisas de imprudentes, disse o bispo. Ponhamos bem altos os nossos ouvidos para que não escutemos insultos e injúrias, e bem atentas as vistas no estudo da nossa posição. Senhores, não nos iludamos. O governador traz largos poderes, e empregará todos os meios para se fazer obedecer. Não é tão fácil como vos parece entorpecer a administração em sua marcha. Ele procura mostrar-se imparcial, se acaso não o é.

Procurou ao princípio, hoje não. Hoje tem-no consigo, os mascates, graças à força milagrosa do seu ouro e dos padres da recoleta.

Graves coisas afirmais, Sr. Falcão d’Eça, observou o bispo em ar de quem fazia amiga censura.

Sentindo a intenção de D. Manuel, Falcão d’Eça retorquiu: Perdoe-me v. exa., não estou levantando aleives. Contou-me José da Silva que, indo com um requerimento um dia à casa do ouvidor, achara aí dois missionários, que naquela ocasião lhe entregavam um cartucho de porte; e, querendo, sem que esta parte o visse, recebê-lo, rompendo-se-lhe nas mãos o papel com o peso que embrulhava, se espalharam sobre um bufete as moedas de ouro, que caíram em quantidade, do que ficou o que as recebera, se bem pago, em nada satisfeito da testemunha de vista (2). Quer v. exa. lhe aponte outros fatos? No banquete que deu há oito dias, o governador, em seu palácio, aos mascates, aceitou peças de ouro, louvando por essa ocasião a inteligência deles e, dizendo-lhes que era muito superior à dos naturais de Pernambuco(3).

Não obstante esse forte ânimo dos nobres contra a política do governador e do ouvidor, não obstante a inclinação das suas paixões para o novo conflito, que devia resolver-se em segunda guerra porventura mais encarniçada e mortífera que a primeira, pôde D. Manuel, graças ao prestígio que lhe ficara do governo, ao seu sagrado ministério, à sua piedade, ao seu esforço, dissuadir os nobres do grave pensamento que alimentavam. D. Manuel foi ainda além deste resultado.

Sou de parecer, dissera ele por derradeiro, que cada um dos amigos presentes volte à sua casa a tratar dos seus interesses, sem outro ânimo em relação à administração pública senão o de obedecer às autoridades e ser fiel a el-rei que elas representam.

Estas palavras foram ouvidas por todos. Ate Cosme Bezerra e Falcão d’Eça dentro de vinte e quatro horas volviam a seus lares.

O bispo não se enganara nas conjeturas. De fato, Félix José Machado estava armado com todos os poderes para vencer o espírito da rebelião, fosse de que lado fosse. A corte de Lisboa não quisera desconsiderar inteiramente os pernambucanos, importantes pelas suas tradições, posição e fortuna; mas incumbira o governador de destruir tudo o que se parecesse com germens de resistência, de que pudesse proceder o pensamento de tornar independente o Brasil. Não era sem razão que se previa ali este caso: soubera-se em Portugal tudo o que em Olinda se passara em 1710, por ocasião de reunir-se a nobreza com o Senado da Câmara para escolha do governador, depois da fuga de Sebastião de Castro Caldas. D. João V percorrera com a vistas algumas das cartas, em que pelo miúdo se referiam, a importantes pessoas do reino, palavras dos nobres, reveladoras do intento de realizar essa independência. De feito, este intento já expresso em 1650, quando a coroa esteve para abandonar a colônia à sua própria sorte, em 1710 teve ainda mais positiva afirmação. Pedro Ribeiro da Silva, capitão-mor de Santo Antão, João de Barros Rego, capitão-mor em Olinda, João de Freitas da Cunha, mestre de campo, Bernardino Vieira de Mello, sargento-mor, enfim a principal nobreza opinara pela separação. Bernardino Vieira chegara a propor que se declarasse a capitania em república ad instar dos venezianos.

O primeiro cuidado de Félix José de Machado depois de chegar a Pernambuco foi estudar o estado dos dois partidos que se combatiam.

Estavam ambos cansados por mais que se inculcassem o contrário. Os mascates, além de cansados, não tinham meios de prosseguir a luta. Em toda a guerra só haviam contado uma vitória a de Sibiró. Esta mesma teve por principal origem a circunstância de haver o mestre de campo, comandante das tropas da nobreza, jurado ao bispo que em caso nenhum derramaria sangue; era o juramento de entregar-se ao inimigo. A vitória incruenta trouxe grande força moral aos mascates, e até lhes facilitou pelo lado do sul o fornecimento de gêneros, sem os quais dentro em pouco tempo cairia o Recife em poder dos nobres. Mas aquela impressão desvaneceu-se, e as facilidades cessaram com a vitória de Ipojuca, e o assédio da fortaleza de Tamandaré, que tanto ilustraram o já ilustre ajudante de tenente Francisco Gil Ribeiro. Félix José Machado, que trazia a intenção reservada de tomar o partido dos mascates, não pôde sustentar a máscara de imparcialidade senão nos primeiros dias: e em vez de compor os discordes, afastar os motivos da contenda, realizar, numa palavra, a obra do congraçamento, entendeu em mostrar-se forte para com os nobres em que o cansaço não pudera ainda gerar a fraqueza, nem os grandes gastos e prejuízos o receio de cair em penúria.

Não satisfeito com a restauração do pelourinho, ordenou ao novo ouvidor João Marques Bacalhau, que com ele viera, que instituísse a devassa sobre o primeiro levante, sem embargo de perdão; e nesta devassa atropelaram tão parcialmente os princípios da justiça, que dezenove dos principais nobres de Olinda, pronunciados em segredo, foram mandados prender pelo governador, em 17 de fevereiro de 1712. De alguns, como do sargento-mor Leonardo Bezerra e do alferes André Vieira de Mello, verificou-se a prisão por ocasião de saírem do próprio palácio do governador. As prisões continuaram. O capitão André Dias de Figueiredo, depois de passar quase uma semana dentro de uma mina, no convento dos jesuítas, em Olinda, teve de ser ali arrancado para a semi-tumba das Cinco Pontas. A fuga para o mato foi então o primeiro, senão o único recurso dos nobres. Em poucos dias Olinda ficou entregue somente às famílias apavoradas, os engenhos ficaram ao desamparo, como a cidade e vilas. A guerra já contribuíra poderosamente para paralisar o serviço da lavoura; o novo golpe veio completar a triste obra.

A capitania era como um país conquistado. Olinda chorava lágrimas de sangue e trajava luto. O Recife, porém, embalava entre verdores gentis e águas mansas, como cândida ninfa.

Os mascates banqueteavam-se como os novos ministros. Chegara a sua vez.

II

O eclipse do astro dos nobres em Olinda alongou a sua sombra até Goiana, e nele viram medonho anúncio de próximos males todos os daquela vila que pertenciam à nobreza.

Goiana era um dos pontos da capitania onde a causa dos mascates passara por maiores reveses. Do combate que ali se dera na noite de 23 de agosto de 1711, haviam saído vitoriosos o sargento-mor João da Cunha, senhor do engenho Bujari, Cosme Cavalcanti, juiz ordinário, e outros fidalgos, auxiliados pelo ajudante de tenente Gil Ribeiro, que completamente destroçara com as suas tropas as paraibanas capitaneadas por Luís Soares. Realizaram-se por essa ocasião a morte dos sargento-mor dos mascates Antônio Coelho,  a prisão de Jerônimo Paz, poderoso marchante, e a de vários cabeças no mesmo partido. Era portanto de esperar que, restituído Jerônimo Paz à liberdade com a chegada do novo governador, não se demorasse a desforra que devia ser atroz, desforra premeditada e jurada pelo feroz procurador do povo desde o momento da sua prisão (4).

O perigo era eminente. Trataram de prevenir-se os principais nobres.

Prometi ao bispo curvar a cabeça aos decretos da autoridade que nos mandaram para aniquilar-nos; mas não devo considerar-me ligado por esta promessa, porque para fazer tive o fundamento de supor que o intento do governador era administrar justiça a todos igualmente. O seu último procedimento prova o contrário, e eu não estou mais pela obediência senão pela oposição ao tirano. A devassa continua aberta. O governador, o ouvidor e o juiz de fora, os três paus da forca destinada a acabar com os pernambucanos, não pararam em sua obra destruidora. Jerônimo Paz diz pelas tabernas que nos há de pôr as cordas. À vista disso, deveremos ficar impassíveis? Não. Organizar a guerra à tirania eis o que nos cumpre a fazer.

Com que gente contais vós, Sr. Cosme Cavalcanti, para organizar e sustentar essa guerra? Onde estão as vossas ordenanças? Estão com os inimigos, que são as atuais autoridades, ou os sustentadores delas. Onde estão os nossos escravos? Uns morreram, outros fugiram; os que ainda restam, mal chegam para dar-nos água para os pés. Onde estão os nossos moradores, que os não vejo, por mais que estenda as vistas? Os que não ganharam, fugitivos, o sertão a fim de não servirem contra a sua vontade nos regimentos que o governador vai formando a seu modo, são velhos achacados, ou meninos que para nada prestam. Dizei-me, por caridade, com quem havemos de fazer frente aos carrascos? Tendes razão, João da Cunha disse Luís Vidal. O baralho caiu nas mãos dos inimigos, que formam o jogo que lhes faz conta.

Cosme Cavalcanti redargüiu: Não perdi ainda a esperança de dar a esse governador que recebe em palácio aos pares as mulheres de má vida, e sustenta aí banca de jogo, a lição que receberam de nós, por várias vezes, os que com ele se dão agora àquele vício, deixando-se roubar, para terem o grande vicioso a seu lado. Corramos daqui a Itambé. Matias Vidal deve ter muita gente reunida para arrostar com os nossos opressores.

Ouvindo falar em Matias Vidal, os outros fidalgos sobrestiveram: aquele ilustre pernambucano, filho natural de André Vidal de Negreiros um dos heróis da restauração grangeara grande nomeada com a formação do batalhão sagrado, composto de sacerdotes resolutos a derramar até a última gota de sangue em defesa do bispo ameaçado em sua vida pelos mascates, nos primeiros tempos do cerco do Recife.

Mas a agradável ilusão durou pouco. Rumor de passos fez-se ouvir, e um novo interlocutor, entrando inesperadamente na sala, advertiu: Matias Vidal desapareceu, não se sabe para onde. É o que acabo de ler em uma carta escrita por seu genro a Manoel de Lacerda.

O novo interlocutor era André Cavalcanti que, sabendo esta triste notícia, correra a participá-la a Cosme Cavalcanti, seu irmão.

Cosme refletiu um momento.

Não importa disse depois. Tenho cá o meu plano, e para sua realização conto convosco, Sr. Luís Vidal, e convosco, André. Estarei enganado? Podeis contar, podeis contar conosco responderam os dois ao mesmo tempo.

Morrerei onde morrerdes ajuntou Luís Vidal.

Estando convosco, Sr. Cosme disse André Cavalcanti parece-me que terei por mais certa a vitória que a derrota.

Que plano é o vosso? perguntou o sargento-mor.

Irei para as minhas fazendas de gado no Açu.

Estão muito distantes. Não poderei acompanhar-vos até lá tornou João da Cunha.

Aí continuou Cosme reunirei os meus vaqueiros e criadores que quiserem seguir-me: todos hão de seguir-me. Tenho fé que em menos de dois meses Félix José Machado há de tremer ao ouvir falar em meu nome.

Um momento de silêncio que sucedeu a esta declaração, indicou que os valorosos pernambucanos ali congregados refletiam sobre a sua sorte. Às palavras de Cosme, sempre de peso para os amigos, parentes e todos os que conheciam os seus grandes espíritos, seguiu-se breve mas solene interrupção. João da Cunha foi o primeiro que se libertou dessa prisão do prestígio natural da coragem e importância pessoal.

E quando é vossa partida? perguntou.

Para tão breve a tenho assentada que talvez seja esta a última vez que nos achemos juntos. Há muitos dias que me aparelhei para realizá-la. Vejo que é chegado o momento de deixar Goiana, a fim de poder ser útil a Goiana. Os inimigos não dormem. Devemos ser, como eles, espertos e diligentes.

Cosme levantou-se, deu alguns passos em direção a João da Cunha, abriu os braços, e apertou-o, entre eles.

Se não virmos mais, seja esta a nossa despedida disse.

Os dois fidalgos ficaram comovidos. Aquela cena foi tão inesperada, tão muda e tão eloqüente que não podia ser outro o sentimento dos que tomaram parte nela.

Depois de abraçar Luís Vidal e André Cavalcanti, João da Cunha encaminhou-se à escada.

Vede bem como sois, observou Cosme acompanhando-o. Antes de pordes o pé na rua, examinai primeiro se há do lado de fora algum vulto suspeito. Andamos cercados de espiões.

Não há novidades. Matias e José ficaram embaixo; trazem armas, são valentes, e já teriam vindo a meu encontro se houvesse qualquer desconfiança. A noite está medonha, mas eles são dois gatos do mato; vêem perfeitamente no escuro.

Agora nós disse Cosme a meia voz aos irmãos, tornando à sala do sobrado onde estas coisas se passavam. São dezoito horas. À meia-noite devemos achar-nos em marcha. Ide dizer adeus à família, enquanto tomo as últimas providências.

À meia-noite três cavalos selados, e cinco carregados deixavam-se ver no quintal da casa. As cargas eram formadas com barricas, caixões e malas. Nas barricas em que se imaginavam estarem metidos comestíveis, o que continha era pólvora e bala: nos caixões havia armas de fogo. Quando Zacarias, escravo de estimação de Cosme, veio dizer-lhe que as suas ordens tinham sido executadas, ele, com os dois irmãos, que desde as onze horas se achavam de volta, entraram para o quarto de vestir, e com pouco tornaram à sala. Mostravam-se inteiramente disfarçados. Cada um era um perfeito sertanejo com as suas perneiras, guarda-peito e véstia de couro. Quando puseram na cabeça o chapéu, e um pegou do chicote, e outro da peia, tendo cada qual na mão esquerda um clavinote, ninguém diria que ali se ofereciam à vista três fidalgos finos, senão três vaqueiros encourados que voltavam com carregamento ao sertão.

Cosme desceu ao quintal, abriu de manso a porta que comunicava com a rua, e examinou cautelosamente as adjacências: estavam metidas em trevas; o silêncio era absoluto.

Então ordenou aos escravos e arrieiros que tocassem os animais carregados, e montando a cavalo, tomou lugar no couce do comboio. André e Luís seguiram o seu exemplo. Aquelas sombras mudas e tristes desapareceram em menos de um minuto na erma escuridão da noite.

Passados alguns dias, João da Cunha recebeu no seu engenho dentro de um só envoltório duas cartas de circunstância. A primeira rezava assim:

Amigo e Sr. Sargento-mor

A tempestade que desabou sobre este Pernambuco alcançou como um raio mortal o meu amigo e sogro, quando ele julgava ter cessado a fúria dos elementos. Mas a infâmia do mau gênio que preside atualmente os destinos da capitania, não há quem dela possa tomar conhecimento sem se encher de assombro. Tanto que constou que pela devassa aberta pelo ouvidor contra os levantes, os nobres estavam expostos às perseguições e às aflições que se usam nestes negócios, tratou o Sr. Sargento-mor honorário, meu ilustre sogro, de ocultar-se nos matos da sua propriedade em Itambé. E porque foram dizer línguas serpentinas ao governador que aí o mesmo sargento-mor honorário planejava, de acordo com os nobres, terceiro levante, e o dito governador tenha em muita conta o valor e os meios do Sr. Matias Vidal, o mandou declarar em um bando, que se publicou a toque de caixas, revoltoso e inconfidente. E vendo que por este meio não conseguia prendê-lo, lembrou-lhe a perfídia publicar novo bando, destruindo todo o conceito que no primeiro patenteara contra aquele sargento-mor, restituindo-lhe as honras, mandando que lhe fossem entregues todos os bens que lhe haviam sido seqüestrados, e declarando por último que ele podia recolher-se livremente à sua casa, que não haveria pessoa que lho impedisse. Mas aqui, amigo e senhor meu, é que está a nefanda perfídia, porque tudo isso não passou de laço para prender o Sr. Matias Vidal, que, confiando na palavra do primeiro magistrado desta capitania, largou mão das cautelas até aquele momento observadas, e tanto que o tiveram fora do esconderijo deram passos para o prender; e se a prisão não se realizou desta vez, foi porque, avisado em tempo pelos amigos de que tudo quilo era uma traição, voltou ao seu esconderijo. Mas daí o foram arrancar os agentes do governador, e a esta hora jaz sepultado aquele honrado pernambucano na semi-tumba das Cinco Pontas, com outros companheiros de luta e infortúnio. À vista disto, senhor e amigo meu, tomei a deliberação de ocultar-me nestas matas de Tracunhaém. Onde vos escrevo as presentes regras, que particularmente se dirigem a chamar-vos para este abrigo, no qual o valoroso Falcão d’Eça espera dar terrível ensino aos algozes dos pernambucanos. Se vos parecer, com a demais nobreza dessa vila, vir fazer-nos companhia nestas  matas, mandai prevenir-nos, para que todas as providências sejam dadas a fim de se vos facilitar a entrada nos segredos. Deus vos guarde, amigo e senhor meu Vosso humilde servo MARTINHO DE BULHÕES.

A outra carta era escrita pelo bispo, e não tinha mais que as linhas seguintes:

Amigo e senhor sargento-mor

Não tendo aqui um amigo que vos avise, visto que, uns por se acharem presos, outros por andarem foragidos pelos bosques, todos estão ausentes, tomo eu este caridoso ofício. Ocultai-vos com os amigos. Vai partir para aí uma grande força comandada por João da Mota. Martinho pede-me que vos remeta a carta junta. + D. MANUEL A. DA COSTA.

O sargento-mor acabou de ler estas cartas com profunda mágoa. Chamar pela mulher, D. Damiana, e dizer-lhe em poucas palavras o que lera, foi o seu primeiro passo. D. Damiana, posto que moça, era discreta e ajuizada. A estes dotes reunia outro estimava muito o marido; estimava-o como esposa e como filha. O seu conselho era o da prudência; o seu parecer tinha as principais forças na confiança que inspirava àquele que, podendo ser seu pai e sendo rico, compartira com ela a sorte a fortuna.

Não vos assusteis disse o senhor de engenho, disfarçando o seu pesar. O malvado governador jurou acabar com a nobreza de Pernambuco, e vai cumprindo o juramento. Vem aí uma grande força para prender os fidalgos de Goiana. Em Olinda já a maldade não tem em que pôr os dentes e as garras. Os nobres que não caem nas prisões, perdem-se nos matos. D. Manuel manda dizer-me que me oculte. Não há outra esperança de salvação. Lá se foi o tempo em que eu podia castigar tão grandes ousadias. Hoje tudo me falta. A guerra levou-me as economias que eu tinha juntas. Há um ano que meu engenho não mói uma cana, e as minhas lavouras mal dão para o gasto da casa. A nossa fábrica está reduzida pela morte de uns escravos, pela fuga de outros. Os meus foreiros, cansados do serviço da guerra a que foram forçados ante de chegar o governador, ocultam-se agora para não serem chamados a igual inclemência. Nestas penosas circunstâncias, que me resta fazer senão meter-me nas brenhas? Nos primeiros momentos, D. Damiana, tomada de amargura, não soube o que dizer. A separação é morte temporária para os esposos que se estimam: e, a esta idéia, poucos espíritos feitos na suave paz conjugal, tão rica de brandas satisfações, não perdem a serenidade necessária a resoluções que podem traduzir-se na privação daquelas.

Mas não se demorou a recobrar os ânimos. Era mulher para lutas próprias de homens. Chamavam-lhe Escopeteira, por ser perita em atirar ao alvo. Antes de Goiana ser atacada pelo bando de Luís Soares, ele dissera a Cosme Cavalcanti: Se entrardes na sala das mulheres, ficareis admirado do armamento que lá existe. Há mais de uma semana que não tinha eu no engenho outra ocupação, que fazer cartuchame. Na casa de João da Cunha só penetrará mascate depois que Damiana da Cunha houver exalado o último suspiro. Não fora isto uma bravata vã e ridícula, porque na manhã seguinte defendera heroicamente com as mucamas e escravos o sobrado onde se achava, atirando contra os assaltantes, exposta nos maiores perigos(5).

Por que motivo havia de querer ocultar-vos? Estará perdida toda a esperança? inquiriu D. Damiana.

Que outra esperança me resta? respondeu-lhe o sargento-mor. Aqueles parentes e amigos que me ajudaram a dar um ensino aos inimigos em agosto do ano passado abandonaram-me. Vejo-me só. Tudo se mudou para pior. Nem negros, nem moradores, nem provisões de boca.

D. Damiana não se deu por vencida, A ausência do marido afigurava-se-lhe mais penosa que as perseguições ordenadas pelo governador. Enquanto pôde, impediu João da Cunha de resolver-se a deixar o engenho.

Chegou, porém, uma manhã decisiva. A tropa a que se referia o bispo, estava perto. Uma pobre mulher, amiga da família ameaçada, viera, atravessando florestas, trazer ao senhor de engenho esta triste nova.

Se estás deliberado a deixar Goiana, iremos juntos disse D. Damiana ao marido. Não quero ficar aqui. Os nossos inimigos insultar-me-iam se eu ficasse só. Não vão eles mostrando para quanto prestam com os desacatos que, por onde passam, têm para as famílias? Infelizmente não podeis, senhora advertiu João da Cunha. A minha jornada há de ser árdua, por dentro de bosques, através de desertos medonhos e inóspitos. Ser-me-á preciso recorrer ao disfarce que não há de valer muito em vós, porque o disfarce nas mulheres por pouco tempo engana. Ser-me-á preciso estar só, para, se tiver de morrer, poder morrer só, e menos dura me ser a dor da morte. Mas nada temais. Ficam convosco os últimos escravos da nossa confiança: alguns deles carregaram-vos em seus braços quando éreis menina. Mandei vir para junto de vós Marcelina, essa santa e piedosa mulher. Lourenço, que deverá acompanhar-me, porque eu não confio em outrem para viagem de tanto risco, voltará a Bujari, e tereis nele um defensor que valerá por cem. Deus, com a sua vigilância, completará o amparo.

Confidenciava o senhor de engenho com a mulher naquele mesmo gabinete particular onde, pouco mais de um ano antes, por São João, reunira a principal nobreza da vila, e lhe propusera o ataque aos mascates do Recife. Então dera mostras de força pelas quais se pudera aferir quanto era superior àqueles em recursos, quer materiais, quer morais. Agora, era tudo diferente. Em lugar de atacar, tratava de fugir aos inimigos. Ao seu lado via somente a mulher, que, posto fosse resoluta, e rogasse participar da sua sorte, antes lhe inspirava incerteza que decisão. Em vez de rubra soberba, mostrava no gesto cauteloso, pálida resignação, em vez de arrogância, tinha nas palavras magoados tons.

D. Damiana sentou-se ao pé do marido, e pôs-lhe meigamente um braço sobre o ombro. Não lhe consentiu ele ficar assim mais que um instante e, levantando-se, disse: Partirei dentro de poucas horas. Irei tratar sem demora dos preparativos dessa jornada que o coração me anuncia ser a última.

D. Damiana encaminhou-se para dentro, levando lágrimas a banhar-lhe as faces, onde antes se acendiam, viçosas como a juventude, as rosas de felicidade agora murchas e quase extintas.

III

Marcelina e Lourenço, depois do incêndio praticado pelo bando de Luís Soares na casa que Francisco fizera à beira da estrada, no Cajueiro, lugarejo distante de Goiana uma légua, atualmente muito estendido, moravam em uma palhoça, obra de vinte braças para dentro na mesma direção da casa queimada. Fora fácil ao rapaz e à sua mãe de criação, mulher afeita ao trabalho do campo, tão resoluta como Francisco, seu marido, reconstruírem a antiga habitação; mas, estando os tempos muito contrários, e receando a cada momento as hostilidades movidas pelos parciais dos mercadores, pareceu-lhe melhor espaçar a reconstrução para depois, contentando-se com levantarem a ligeira palhoça onde se recolheram, e cuja perda lhes seria de pouco tomo, se houvessem de passar por este novo prejuízo.

A palhoça fôra de propósito feita entre umas árvores grandes e ramalhudas, muito juntas e entrelaçadas, que quase a encobriam do lado da estrada. Do lado oposto, porém, dava ela em um como descampado que se interpunha entre aquelas árvores e a renque de dendezeiros e cajueiros que circulava a lagoa, onde certa manhã Francisco surpreendera Marcelina a cortar juncos para fazer esteiras.

Logo que constou em Goiana o levantamento do cerco, Marcelina mandou Lourenço tomar o caminho do Recife.

Não percas nem um dia, sequer; prepara o cavalo e corre a buscar Francisco. Ele já há de estar no Recife, ou na cidade; e quem sabe se não espera por condução para voltar? Quantas saudades tenho do meu marido! E irresistivelmente as lágrimas de um amor sinceramente comovido começaram a bailar nos olhos da cabocla.

Marcelina tinha razão: havia alguns meses que Francisco estava ausente. Caindo na graça do ajudante de tenente, pelos bons serviços que, com lealdade e discrição admiráveis, lhe prestara desde que com ele se encontrara ao sair de Itamaracá, até a completa vitória, no dia 23 de agosto do ano precedente, Francisco, a quem Gil Ribeiro fizera grandes vantagens e prometera outras maiores, o tinha acompanhado ao sul, e se comprometera a não o deixar senão quando acabasse a guerra.

  Se hei de andar almocrevando com risco de me tomarem o meu cavalo e fazerem o diabo comigo dissera o matuto por ocasião de discorrer com sua mulher sobre a proposta do ajudante de tenente melhor é que me acoste a seu ajudante, e vá ganhar meu dinheiro prestando serviços à nobreza. Esta guerra não pode durar muito, porque os pés de chumbo estão encurralados. Portanto, no fim de dois meses já estarei de volta com gimbo bastante para encher o nosso mealheiro.

Para fazer a proposta ao matuto, muito influíra em Gil, além das razões referidas, o conhecimento que tinha aquele de toda a região das matas, desde Goiana até Jaboatão. De sorte que Francisco era ao mesmo tempo confidente e guia do ajudante de tenente.

Francisco, porém, enganara-se, e Marcelina, a quem ao princípio se afigurara, pelo interesse esperado, poder arrostar a ausência, nos últimos tempos sentia-se ralada de saudades e todo dia fazia novas promessas aos santos da sua devoção para que permitissem que seu marido voltasse logo.

Recebendo a ordem de sua mãe, Lourenço não gastou mais tempo no Cajueiro que o necessário ao arranjo da jornada. No outro dia bem cedo já estava em caminho.

A vida de Lourenço entrava em nova fase depois do que se tinha passado no memorável 23 de agosto de 1711.

Com o cerco do Recife, os produtos das pequenas lavouras começaram a escassear, e consequentemente a encarecer. Todos os lavradores da zona das matas, que circula o Recife, tinham acudido ao chamado do governo a fim de pegar em armas, arrastando consigo os matutos e escravos que cultivavam suas terras. Por isso, aqueles que  por qualquer circunstância especial não se acharam neste caso, e puderam prosseguir o seu trabalho do campo, depressa começaram a vender por bom dinheiro as sementes e cereais que levavam ao Recife. Compravam-lhes os capitães-mores esses produtos por ordem do governo para manter as gentes que sustentavam os presídios. E além de lhes comprarem a mercadoria, consideravam grande favor o apresentarem-se com ela, porque, sem este recurso, sustentar o cerco lhes seria impossível.

Marcelina, que tinha o instinto mercantil mais desenvolvido, entreviu os grandes resultados que deveria tirar das circunstâncias. Infelizmente, não podia encher a medida dos seus desejos, porque, além de Francisco não plantar senão quanto era necessário ao sustento da família (nem dispunha de meios para mais, ainda que o quisesse), o ajudante de tenente o levara para a capital, como dissemos. À vista de tão favoráveis promessas, o matuto não achava argumentos com que se esquivar. Demais, Lourenço estava já um homem, e ficava com Marcelina, a quem defenderia nas horas de perigo. O matuto, conhecendo os ânimos do rapaz, e não havendo motivo de perder os proveitos, disse adeus ao Cajueiro, e partiu, o que não lhe custou pouco. Sempre que se separava da mulher, da casa, do seu mundo, sentia uma como mutilação da alma.

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