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Lourenço - Franklin Távora

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Franklin Távora

Palavras que escrevi, aos 3 de julho do ano corrente, na folha exterior do original donde fora copiado o Lourenço para a Revista Brasileira.

Esta crônica, pronta há mais de dois anos para seguir em volume o Matuto, cujo é conclusão lógica e natural, acaba de sair a lume na Revista Brasileira, a que dedico afetos de natureza paternal.

Mudando-se o plano da publicação, tive por necessário adaptar aos leitores da Revista, que eu não podia presumir fossem absolutamente os mesmos do Matuto. Fiz por isso muitas alterações neste manuscrito. Aumentei informações e minúcias, reproduzi idéias inúteis no primeiro caso, indispensáveis no segundo. Quem ler agora o Matuto e o Lourenço notará algumas repetições. É certo, porém, que, na leitura, pode ser este desacompanhado daquele. Pelo que respeita às repetições, passará as vistas por cima delas o leitor benévolo, sem enxergar matéria para corpo de delito contra o autor, atentos os motivos explicados.

Cumpre advertir, que, conquanto cada uma das duas narrativas tenha ação própria, conquanto cada uma delas possa subsistir sem a outra, para melhor conhecimento da guerra dos mascates em que ambas se inspiraram, a leitura do Matuto sem a do Lourenço, e vice-versa, não é bastante.

Esforcei-me por dar, quer no primeiro quer no último, uma idéia tão completa quanto possível, dessa guerra, ainda pouco estudada, não obstante a sua originalidade, por si só no caso de convidar a sério exame e meditação o historiador depois do economista e do político. Pouca ou nenhuma importância se lhe tem dado entre nós; é certo contudo que, sem a guerra dos mascates, a qual deixou um valo profundo entre brasileiros e portugueses. não teríamos a revolução de 1817, radiante e alva de que fora aquela guerra o pálido crepúsculo precursor do dia da Independência em 1822.

Antes da emancipação das colônias americanas (1776), antes da conjuração mineira (1789), reunida a nobreza com o Senado da Câmara de Olinda, em 1710 tratou de dar à capitania de Pernambuco outra forma de governo, independente de Portugal: foi a guerra dos mascates o primeiro grito do novo mundo contra as metrópoles européias. Não imitou Pernambuco a França nem os Estados Unidos. Pensou e obrou por si muito antes de nesses países se pensar em independência e república.

O ajuntamento discutiu a idéia sugerida por vários nobres de se estabelecer em Olinda uma república aristocrática modelada pela de Veneza; e se esta idéia, considerada por todos de alta magnitude, e recebida por muitos com medo, não prevaleceu, porque foram votos vencedores os dos moderados que, como meio de conciliar os ânimos discordes, propuseram fosse aceito para governador o bispo alheio às lutas partidárias, e a quem aliás cabia o governo, na falta do governador fugitivo, por via de sucessão, conforme dispunha a carta-régia prevenindo as vacâncias, nem por isso se deve desconhecer a prioridade de Pernambuco em cogitar na independência.

A devassa, instaurada depois da chegada do governador Félix José Machado, ocasionou homízios, prisões, seqüestros, que somente tiveram termo em 1714. A capitania ficou arruinada, muitas famílias na viuvez e na miséria; muitas fortunas desapareceram: foram quatro longos anos de calamidades, de lágrimas e luto. Se não houve execuções capitais, não foi por faltarem bons desejos ao governador e aos ministros, mas por se poderem avir neste ponto com aquelas autoridades sanguinárias os ouvidores da Paraíba e das Alagoas; houve, porém, mortes e não poucas por ocasião dos levantes nos assaltos e batalhas; houve assassínios nas estradas e até nos refúgios onde os nobres tinham buscado pôr em segurança a sua vida.

Com todo o fundamento dever-se-ia reputar esta guerra como uma das mais prejudiciais a Pernambuco, se ela não fora a semente donde pululou a planta da nossa independência política.

Capítulo I

    O governador Félix José Machado de Mendonça Eça Castro e Vasconcelos, que chegara a Pernambuco em 7 de outubro de 1711, depois de ter passado alguns dias em Olinda, mudou a sua residência para Recife, com grande desagrado e desconfiança dos nobres, porque a florescente vila era a praça forte da burguesia portuguesa, que aspirava à posse e mando da capitânia.

Posto que já muito aumentado, não podia no lustre e número dos habitantes competir o Recife com a opulenta e populosa Capital, que, do alto do seu orgulho, olhava com desdém de soberana para a humilde vizinhança a quem hoje paga feudo de vassalagem. Eram poucas as ruas, quase nenhum os estabelecimentos públicos. Maurício de Nassau fizera surgir, da ilha pitoresca, aos sobrados, palácios e outras obras, cujos restos ainda atestam a grandeza do gênio batavo. Mas todos estes edifícios e estabelecimentos, bastantes para certificar vinte e quatro anos de domínio fecundo de um grande povo, pouco eram em comparação às ruas sem conta, aos templos suntuosos, às habitações aristocráticas com que dos seus outeiros descia até os vales, por entre pomares e jardins esplêndidos, a Olinda dos poetas, que nascera de um conflito de prazer das vistas de Albuquerque com as risonhas perspectivas que de cima desses outeiros se descortinam, como nascera Vênus do ajuntamento do sangue do céu com as escumas do mar.

A preferência do governador feriu a nobreza nos seus foros anciãos, e a cidade na sua justa e legítima vaidade. Todavia os nobres teriam curtido em silêncio este dobrado desdouro, se  em 18 de novembro, quarenta dias depois da chegada de Félix José Machado, não fossem escandalizados com a nova inauguração do pelourinho, causa primordial da guerra extinta (1). Não podendo mais reter, em presença do novo desacato, os seus ressentimentos mal ocultos, os mais importantes membros da nobreza pernambucana procuraram o bispo D. Manuel Alves da Costa, de cujas mãos o governador recebera as rédeas do governo, para o consultarem sobre o procedimento que deviam ter.

O bispo, modelo de brandura cristã e de concórdia fraternal, tratou de amaciar os fidalgos melindres eriçados.

Senhores, disse ele, não há razão para assim vos mostrardes descontentes. O ouvidor não podia deixar de restabelecer o pelourinho, demolido em 1710 no ardor das paixões pelo povo levantado, visto que a vila está criada. Até me parece que, a não ter este procedimento, o ouvidor incorreria em culpa.

Perdoe-me v. exa., redargüiu Estevam de Aragão. É verdade que a vila está criada; mas, tendo oposto os nobres e os homens bons, ou antes o clero, a nobreza e o povo da capitania (que não podem compreender neste número os abomináveis mascates) geral reação a este ato, justo parecera que sem novo ato em que se visse manifesta a vontade de el-rei acerca de tal assunto, não houvesse por parte dos ministros a menor deliberação. Poder-se-á acaso compreender que os pernambucanos derramassem o seu sangue, que a nobreza lançasse mão das armas e gastasse rios de dinheiro pra no fim de tão sanguinolenta e dispendiosa contenda, ficarem satisfeitos com a renovação do infame padrão?! Demais, que significam a carta de D. Lourenço de Almeida, e a confirmação do perdão aos nobres pelo primeiro levante senão que estes tinham razão no dito assunto? Declaro a v. exa., não posso conformar-me com a opinião dos que entendem estar tudo acabado, e nada nos restar d’ora em diante neste singular pleito, senão curvarmos a cabeça aos que tem agora por si a autoridade que não sabem dar o devido apreço à sua honra, e à justiça entregue nas suas mãos. A meu parecer, a questão está de pé, a luta não teve o natural desfecho. O pelourinho, há pouco inaugurado por entre festivas demonstrações dos mercadores, deve ser novamente demolido.

Nem nos custará muito darmos aos vilões esta lição, ajuntou Antônio Dias de Figueiredo. Robustos estão ainda os braços que construíram à roda do Recife essas trincheiras, que o novo governador mandou destruir tanto que tomou conta da terra, mas que as maiores e mais desesperadas investidas dos mascates não puderam romper durante quatro longos meses de cerco. Os pleitos patrióticos, que castigaram a arrogância da vilanagem, depressa voltarão ao posto, onde morrer pela pátria lhes parecia mais nobre do que vencer o inimigo.

Senhores, respondeu o bispo, as guerras são cruas calamidades, que os estados devem evitar e os homens temer; elas se opõem à civilização, e a moral condena-as. Milhões de cruzados e, o que é mais, milhares de vidas gastaram-se nesses infaustos meses. Sofreu a agricultura, sofreu o comércio, sofreu o governo, sofreu a família, sofreu a religião prejuízos incalculáveis. Mas para justificar o estado lastimoso de Pernambuco, havia uma razão o governo tinha o direito de se fazer obedecer e a obrigação de impor aos rebeldes a obediência. Nestes intuitos, a nobreza fez o que ordenara sua honra e o seu dever. Mas as circunstâncias atuais não são as mesmas. A nossa resistência às novas autoridades meteria na mão deles a arma que brandimos contra os rebeldes, e estigma de rebeldia deixaria em nossas frontes. Cuidemos antes de reparar os grandes males que nos deixou como legado fatal essa luta inglória e fratricida. Deixemos o mais à conta da disciplina das coisas humanas, aos altos conselhos da Providência.

Este parecer, que tinhas as principais raízes no ânimo piedoso do bispo, não foi bem aceito pelos circunstantes. Entre estes, o que mais tenaz se mostrou em não se conformar com a nova direção das coisas públicas, foi Leão Falcão d’Eça. Estava ele para os fidalgos do sul da província, pela sua intrepidez e exaltação, na mesma relação que Cosme Cavalcanti para os do norte. Pelo seu voto, o primeiro passo que deviam dar os pernambucanos era porem abaixo o pelourinho. Disse ele que tinha amigos e moradores em Tracunhaém que o seguiriam na represália, sem entrarem na indagação e dos perigos e do resultado final. Disse mais, que não queria a vida senão até o momento de dar esse segundo ensino aos mascates, depressa esquecidos do primeiro.

Cosme Cavalcanti trouxe também a sua pedra para o edifício da revolta.

Não ignorais que vim de propósito de Goiana a cumprimentar o governador, porque se me mandara dizer desta cidade que os nobres haviam assentado fazer cada qual a sua visita, e recolher-se enquanto a obrigação de algum negócio os não chamasse. Ia eu chegando às portas do palácio, quando saíam de dentro João da Mota e o padre João da Costa. Ao darem com as vistas em mim, risos escarninhos são os cumprimentos que tem um, olhares ameaçadores e desdenhosos são a cortesia que tem o outro. Diante dessas figuras ainda macilentas pela fome que com o cerco padeceram, todos os meus brios sentiram-se insultados. Pareceu-me que subir cabisbaixo as escadas por onde haviam descido triunfantes duas víboras peçonhentas não era ação que se compadecesse com o meu sangue e linhagem. Dei de rédeas ao cavalo e torci para trás. Não me hajais por arrebatado, senhores. Eu já trazia nesse momento todos os espíritos erguidos: pelas ruas da infame povoação encontrara magotes de reles mercadores com alegres ares, e palavras descompostas. Uns diziam versos em honra do seu triunfo; outros cantavam as trovas depravadas contra a nobreza, chocalhando da nossa derrota. Sabeis ao que ia essa desprezível gentalha? Ia levar os seus agradecimentos ao ouvidor e ao governador pelo restabelecimento do pelourinho.

Coisas de imprudentes, disse o bispo. Ponhamos bem altos os nossos ouvidos para que não escutemos insultos e injúrias, e bem atentas as vistas no estudo da nossa posição. Senhores, não nos iludamos. O governador traz largos poderes, e empregará todos os meios para se fazer obedecer. Não é tão fácil como vos parece entorpecer a administração em sua marcha. Ele procura mostrar-se imparcial, se acaso não o é.

Procurou ao princípio, hoje não. Hoje tem-no consigo, os mascates, graças à força milagrosa do seu ouro e dos padres da recoleta.

Graves coisas afirmais, Sr. Falcão d’Eça, observou o bispo em ar de quem fazia amiga censura.

Sentindo a intenção de D. Manuel, Falcão d’Eça retorquiu: Perdoe-me v. exa., não estou levantando aleives. Contou-me José da Silva que, indo com um requerimento um dia à casa do ouvidor, achara aí dois missionários, que naquela ocasião lhe entregavam um cartucho de porte; e, querendo, sem que esta parte o visse, recebê-lo, rompendo-se-lhe nas mãos o papel com o peso que embrulhava, se espalharam sobre um bufete as moedas de ouro, que caíram em quantidade, do que ficou o que as recebera, se bem pago, em nada satisfeito da testemunha de vista (2). Quer v. exa. lhe aponte outros fatos? No banquete que deu há oito dias, o governador, em seu palácio, aos mascates, aceitou peças de ouro, louvando por essa ocasião a inteligência deles e, dizendo-lhes que era muito superior à dos naturais de Pernambuco(3).

Não obstante esse forte ânimo dos nobres contra a política do governador e do ouvidor, não obstante a inclinação das suas paixões para o novo conflito, que devia resolver-se em segunda guerra porventura mais encarniçada e mortífera que a primeira, pôde D. Manuel, graças ao prestígio que lhe ficara do governo, ao seu sagrado ministério, à sua piedade, ao seu esforço, dissuadir os nobres do grave pensamento que alimentavam. D. Manuel foi ainda além deste resultado.

Sou de parecer, dissera ele por derradeiro, que cada um dos amigos presentes volte à sua casa a tratar dos seus interesses, sem outro ânimo em relação à administração pública senão o de obedecer às autoridades e ser fiel a el-rei que elas representam.

Estas palavras foram ouvidas por todos. Ate Cosme Bezerra e Falcão d’Eça dentro de vinte e quatro horas volviam a seus lares.

O bispo não se enganara nas conjeturas. De fato, Félix José Machado estava armado com todos os poderes para vencer o espírito da rebelião, fosse de que lado fosse. A corte de Lisboa não quisera desconsiderar inteiramente os pernambucanos, importantes pelas suas tradições, posição e fortuna; mas incumbira o governador de destruir tudo o que se parecesse com germens de resistência, de que pudesse proceder o pensamento de tornar independente o Brasil. Não era sem razão que se previa ali este caso: soubera-se em Portugal tudo o que em Olinda se passara em 1710, por ocasião de reunir-se a nobreza com o Senado da Câmara para escolha do governador, depois da fuga de Sebastião de Castro Caldas. D. João V percorrera com a vistas algumas das cartas, em que pelo miúdo se referiam, a importantes pessoas do reino, palavras dos nobres, reveladoras do intento de realizar essa independência. De feito, este intento já expresso em 1650, quando a coroa esteve para abandonar a colônia à sua própria sorte, em 1710 teve ainda mais positiva afirmação. Pedro Ribeiro da Silva, capitão-mor de Santo Antão, João de Barros Rego, capitão-mor em Olinda, João de Freitas da Cunha, mestre de campo, Bernardino Vieira de Mello, sargento-mor, enfim a principal nobreza opinara pela separação. Bernardino Vieira chegara a propor que se declarasse a capitania em república ad instar dos venezianos.

O primeiro cuidado de Félix José de Machado depois de chegar a Pernambuco foi estudar o estado dos dois partidos que se combatiam.

Estavam ambos cansados por mais que se inculcassem o contrário. Os mascates, além de cansados, não tinham meios de prosseguir a luta. Em toda a guerra só haviam contado uma vitória a de Sibiró. Esta mesma teve por principal origem a circunstância de haver o mestre de campo, comandante das tropas da nobreza, jurado ao bispo que em caso nenhum derramaria sangue; era o juramento de entregar-se ao inimigo. A vitória incruenta trouxe grande força moral aos mascates, e até lhes facilitou pelo lado do sul o fornecimento de gêneros, sem os quais dentro em pouco tempo cairia o Recife em poder dos nobres. Mas aquela impressão desvaneceu-se, e as facilidades cessaram com a vitória de Ipojuca, e o assédio da fortaleza de Tamandaré, que tanto ilustraram o já ilustre ajudante de tenente Francisco Gil Ribeiro. Félix José Machado, que trazia a intenção reservada de tomar o partido dos mascates, não pôde sustentar a máscara de imparcialidade senão nos primeiros dias: e em vez de compor os discordes, afastar os motivos da contenda, realizar, numa palavra, a obra do congraçamento, entendeu em mostrar-se forte para com os nobres em que o cansaço não pudera ainda gerar a fraqueza, nem os grandes gastos e prejuízos o receio de cair em penúria.

Não satisfeito com a restauração do pelourinho, ordenou ao novo ouvidor João Marques Bacalhau, que com ele viera, que instituísse a devassa sobre o primeiro levante, sem embargo de perdão; e nesta devassa atropelaram tão parcialmente os princípios da justiça, que dezenove dos principais nobres de Olinda, pronunciados em segredo, foram mandados prender pelo governador, em 17 de fevereiro de 1712. De alguns, como do sargento-mor Leonardo Bezerra e do alferes André Vieira de Mello, verificou-se a prisão por ocasião de saírem do próprio palácio do governador. As prisões continuaram. O capitão André Dias de Figueiredo, depois de passar quase uma semana dentro de uma mina, no convento dos jesuítas, em Olinda, teve de ser ali arrancado para a semi-tumba das Cinco Pontas. A fuga para o mato foi então o primeiro, senão o único recurso dos nobres. Em poucos dias Olinda ficou entregue somente às famílias apavoradas, os engenhos ficaram ao desamparo, como a cidade e vilas. A guerra já contribuíra poderosamente para paralisar o serviço da lavoura; o novo golpe veio completar a triste obra.

A capitania era como um país conquistado. Olinda chorava lágrimas de sangue e trajava luto. O Recife, porém, embalava entre verdores gentis e águas mansas, como cândida ninfa.

Os mascates banqueteavam-se como os novos ministros. Chegara a sua vez.

Capítulo II

O eclipse do astro dos nobres em Olinda alongou a sua sombra até Goiana, e nele viram medonho anúncio de próximos males todos os daquela vila que pertenciam à nobreza.

Goiana era um dos pontos da capitania onde a causa dos mascates passara por maiores reveses. Do combate que ali se dera na noite de 23 de agosto de 1711, haviam saído vitoriosos o sargento-mor João da Cunha, senhor do engenho Bujari, Cosme Cavalcanti, juiz ordinário, e outros fidalgos, auxiliados pelo ajudante de tenente Gil Ribeiro, que completamente destroçara com as suas tropas as paraibanas capitaneadas por Luís Soares. Realizaram-se por essa ocasião a morte dos sargento-mor dos mascates Antônio Coelho,  a prisão de Jerônimo Paz, poderoso marchante, e a de vários cabeças no mesmo partido. Era portanto de esperar que, restituído Jerônimo Paz à liberdade com a chegada do novo governador, não se demorasse a desforra que devia ser atroz, desforra premeditada e jurada pelo feroz procurador do povo desde o momento da sua prisão (4).

O perigo era eminente. Trataram de prevenir-se os principais nobres.

Prometi ao bispo curvar a cabeça aos decretos da autoridade que nos mandaram para aniquilar-nos; mas não devo considerar-me ligado por esta promessa, porque para fazer tive o fundamento de supor que o intento do governador era administrar justiça a todos igualmente. O seu último procedimento prova o contrário, e eu não estou mais pela obediência senão pela oposição ao tirano. A devassa continua aberta. O governador, o ouvidor e o juiz de fora, os três paus da forca destinada a acabar com os pernambucanos, não pararam em sua obra destruidora. Jerônimo Paz diz pelas tabernas que nos há de pôr as cordas. À vista disso, deveremos ficar impassíveis? Não. Organizar a guerra à tirania eis o que nos cumpre a fazer.

Com que gente contais vós, Sr. Cosme Cavalcanti, para organizar e sustentar essa guerra? Onde estão as vossas ordenanças? Estão com os inimigos, que são as atuais autoridades, ou os sustentadores delas. Onde estão os nossos escravos? Uns morreram, outros fugiram; os que ainda restam, mal chegam para dar-nos água para os pés. Onde estão os nossos moradores, que os não vejo, por mais que estenda as vistas? Os que não ganharam, fugitivos, o sertão a fim de não servirem contra a sua vontade nos regimentos que o governador vai formando a seu modo, são velhos achacados, ou meninos que para nada prestam. Dizei-me, por caridade, com quem havemos de fazer frente aos carrascos? Tendes razão, João da Cunha disse Luís Vidal. O baralho caiu nas mãos dos inimigos, que formam o jogo que lhes faz conta.

Cosme Cavalcanti redargüiu: Não perdi ainda a esperança de dar a esse governador que recebe em palácio aos pares as mulheres de má vida, e sustenta aí banca de jogo, a lição que receberam de nós, por várias vezes, os que com ele se dão agora àquele vício, deixando-se roubar, para terem o grande vicioso a seu lado. Corramos daqui a Itambé. Matias Vidal deve ter muita gente reunida para arrostar com os nossos opressores.

Ouvindo falar em Matias Vidal, os outros fidalgos sobrestiveram: aquele ilustre pernambucano, filho natural de André Vidal de Negreiros um dos heróis da restauração grangeara grande nomeada com a formação do batalhão sagrado, composto de sacerdotes resolutos a derramar até a última gota de sangue em defesa do bispo ameaçado em sua vida pelos mascates, nos primeiros tempos do cerco do Recife.

Mas a agradável ilusão durou pouco. Rumor de passos fez-se ouvir, e um novo interlocutor, entrando inesperadamente na sala, advertiu: Matias Vidal desapareceu, não se sabe para onde. É o que acabo de ler em uma carta escrita por seu genro a Manoel de Lacerda.

O novo interlocutor era André Cavalcanti que, sabendo esta triste notícia, correra a participá-la a Cosme Cavalcanti, seu irmão.

Cosme refletiu um momento.

Não importa disse depois. Tenho cá o meu plano, e para sua realização conto convosco, Sr. Luís Vidal, e convosco, André. Estarei enganado? Podeis contar, podeis contar conosco responderam os dois ao mesmo tempo.

Morrerei onde morrerdes ajuntou Luís Vidal.

Estando convosco, Sr. Cosme disse André Cavalcanti parece-me que terei por mais certa a vitória que a derrota.

Que plano é o vosso? perguntou o sargento-mor.

Irei para as minhas fazendas de gado no Açu.

Estão muito distantes. Não poderei acompanhar-vos até lá tornou João da Cunha.

Aí continuou Cosme reunirei os meus vaqueiros e criadores que quiserem seguir-me: todos hão de seguir-me. Tenho fé que em menos de dois meses Félix José Machado há de tremer ao ouvir falar em meu nome.

Um momento de silêncio que sucedeu a esta declaração, indicou que os valorosos pernambucanos ali congregados refletiam sobre a sua sorte. Às palavras de Cosme, sempre de peso para os amigos, parentes e todos os que conheciam os seus grandes espíritos, seguiu-se breve mas solene interrupção. João da Cunha foi o primeiro que se libertou dessa prisão do prestígio natural da coragem e importância pessoal.

E quando é vossa partida? perguntou.

Para tão breve a tenho assentada que talvez seja esta a última vez que nos achemos juntos. Há muitos dias que me aparelhei para realizá-la. Vejo que é chegado o momento de deixar Goiana, a fim de poder ser útil a Goiana. Os inimigos não dormem. Devemos ser, como eles, espertos e diligentes.

Cosme levantou-se, deu alguns passos em direção a João da Cunha, abriu os braços, e apertou-o, entre eles.

Se não virmos mais, seja esta a nossa despedida disse.

Os dois fidalgos ficaram comovidos. Aquela cena foi tão inesperada, tão muda e tão eloqüente que não podia ser outro o sentimento dos que tomaram parte nela.

Depois de abraçar Luís Vidal e André Cavalcanti, João da Cunha encaminhou-se à escada.

Vede bem como sois, observou Cosme acompanhando-o. Antes de pordes o pé na rua, examinai primeiro se há do lado de fora algum vulto suspeito. Andamos cercados de espiões.

Não há novidades. Matias e José ficaram embaixo; trazem armas, são valentes, e já teriam vindo a meu encontro se houvesse qualquer desconfiança. A noite está medonha, mas eles são dois gatos do mato; vêem perfeitamente no escuro.

Agora nós disse Cosme a meia voz aos irmãos, tornando à sala do sobrado onde estas coisas se passavam. São dezoito horas. À meia-noite devemos achar-nos em marcha. Ide dizer adeus à família, enquanto tomo as últimas providências.

À meia-noite três cavalos selados, e cinco carregados deixavam-se ver no quintal da casa. As cargas eram formadas com barricas, caixões e malas. Nas barricas em que se imaginavam estarem metidos comestíveis, o que continha era pólvora e bala: nos caixões havia armas de fogo. Quando Zacarias, escravo de estimação de Cosme, veio dizer-lhe que as suas ordens tinham sido executadas, ele, com os dois irmãos, que desde as onze horas se achavam de volta, entraram para o quarto de vestir, e com pouco tornaram à sala. Mostravam-se inteiramente disfarçados. Cada um era um perfeito sertanejo com as suas perneiras, guarda-peito e véstia de couro. Quando puseram na cabeça o chapéu, e um pegou do chicote, e outro da peia, tendo cada qual na mão esquerda um clavinote, ninguém diria que ali se ofereciam à vista três fidalgos finos, senão três vaqueiros encourados que voltavam com carregamento ao sertão.

Cosme desceu ao quintal, abriu de manso a porta que comunicava com a rua, e examinou cautelosamente as adjacências: estavam metidas em trevas; o silêncio era absoluto.

Então ordenou aos escravos e arrieiros que tocassem os animais carregados, e montando a cavalo, tomou lugar no couce do comboio. André e Luís seguiram o seu exemplo. Aquelas sombras mudas e tristes desapareceram em menos de um minuto na erma escuridão da noite.

Passados alguns dias, João da Cunha recebeu no seu engenho dentro de um só envoltório duas cartas de circunstância. A primeira rezava assim:

Amigo e Sr. Sargento-mor

A tempestade que desabou sobre este Pernambuco alcançou como um raio mortal o meu amigo e sogro, quando ele julgava ter cessado a fúria dos elementos. Mas a infâmia do mau gênio que preside atualmente os destinos da capitania, não há quem dela possa tomar conhecimento sem se encher de assombro. Tanto que constou que pela devassa aberta pelo ouvidor contra os levantes, os nobres estavam expostos às perseguições e às aflições que se usam nestes negócios, tratou o Sr. Sargento-mor honorário, meu ilustre sogro, de ocultar-se nos matos da sua propriedade em Itambé. E porque foram dizer línguas serpentinas ao governador que aí o mesmo sargento-mor honorário planejava, de acordo com os nobres, terceiro levante, e o dito governador tenha em muita conta o valor e os meios do Sr. Matias Vidal, o mandou declarar em um bando, que se publicou a toque de caixas, revoltoso e inconfidente. E vendo que por este meio não conseguia prendê-lo, lembrou-lhe a perfídia publicar novo bando, destruindo todo o conceito que no primeiro patenteara contra aquele sargento-mor, restituindo-lhe as honras, mandando que lhe fossem entregues todos os bens que lhe haviam sido seqüestrados, e declarando por último que ele podia recolher-se livremente à sua casa, que não haveria pessoa que lho impedisse. Mas aqui, amigo e senhor meu, é que está a nefanda perfídia, porque tudo isso não passou de laço para prender o Sr. Matias Vidal, que, confiando na palavra do primeiro magistrado desta capitania, largou mão das cautelas até aquele momento observadas, e tanto que o tiveram fora do esconderijo deram passos para o prender; e se a prisão não se realizou desta vez, foi porque, avisado em tempo pelos amigos de que tudo quilo era uma traição, voltou ao seu esconderijo. Mas daí o foram arrancar os agentes do governador, e a esta hora jaz sepultado aquele honrado pernambucano na semi-tumba das Cinco Pontas, com outros companheiros de luta e infortúnio. À vista disto, senhor e amigo meu, tomei a deliberação de ocultar-me nestas matas de Tracunhaém. Onde vos escrevo as presentes regras, que particularmente se dirigem a chamar-vos para este abrigo, no qual o valoroso Falcão d’Eça espera dar terrível ensino aos algozes dos pernambucanos. Se vos parecer, com a demais nobreza dessa vila, vir fazer-nos companhia nestas  matas, mandai prevenir-nos, para que todas as providências sejam dadas a fim de se vos facilitar a entrada nos segredos. Deus vos guarde, amigo e senhor meu Vosso humilde servo MARTINHO DE BULHÕES.

A outra carta era escrita pelo bispo, e não tinha mais que as linhas seguintes:

Amigo e senhor sargento-mor

Não tendo aqui um amigo que vos avise, visto que, uns por se acharem presos, outros por andarem foragidos pelos bosques, todos estão ausentes, tomo eu este caridoso ofício. Ocultai-vos com os amigos. Vai partir para aí uma grande força comandada por João da Mota. Martinho pede-me que vos remeta a carta junta. + D. MANUEL A. DA COSTA.

O sargento-mor acabou de ler estas cartas com profunda mágoa. Chamar pela mulher, D. Damiana, e dizer-lhe em poucas palavras o que lera, foi o seu primeiro passo. D. Damiana, posto que moça, era discreta e ajuizada. A estes dotes reunia outro estimava muito o marido; estimava-o como esposa e como filha. O seu conselho era o da prudência; o seu parecer tinha as principais forças na confiança que inspirava àquele que, podendo ser seu pai e sendo rico, compartira com ela a sorte a fortuna.

Não vos assusteis disse o senhor de engenho, disfarçando o seu pesar. O malvado governador jurou acabar com a nobreza de Pernambuco, e vai cumprindo o juramento. Vem aí uma grande força para prender os fidalgos de Goiana. Em Olinda já a maldade não tem em que pôr os dentes e as garras. Os nobres que não caem nas prisões, perdem-se nos matos. D. Manuel manda dizer-me que me oculte. Não há outra esperança de salvação. Lá se foi o tempo em que eu podia castigar tão grandes ousadias. Hoje tudo me falta. A guerra levou-me as economias que eu tinha juntas. Há um ano que meu engenho não mói uma cana, e as minhas lavouras mal dão para o gasto da casa. A nossa fábrica está reduzida pela morte de uns escravos, pela fuga de outros. Os meus foreiros, cansados do serviço da guerra a que foram forçados ante de chegar o governador, ocultam-se agora para não serem chamados a igual inclemência. Nestas penosas circunstâncias, que me resta fazer senão meter-me nas brenhas? Nos primeiros momentos, D. Damiana, tomada de amargura, não soube o que dizer. A separação é morte temporária para os esposos que se estimam: e, a esta idéia, poucos espíritos feitos na suave paz conjugal, tão rica de brandas satisfações, não perdem a serenidade necessária a resoluções que podem traduzir-se na privação daquelas.

Mas não se demorou a recobrar os ânimos. Era mulher para lutas próprias de homens. Chamavam-lhe Escopeteira, por ser perita em atirar ao alvo. Antes de Goiana ser atacada pelo bando de Luís Soares, ele dissera a Cosme Cavalcanti: Se entrardes na sala das mulheres, ficareis admirado do armamento que lá existe. Há mais de uma semana que não tinha eu no engenho outra ocupação, que fazer cartuchame. Na casa de João da Cunha só penetrará mascate depois que Damiana da Cunha houver exalado o último suspiro. Não fora isto uma bravata vã e ridícula, porque na manhã seguinte defendera heroicamente com as mucamas e escravos o sobrado onde se achava, atirando contra os assaltantes, exposta nos maiores perigos(5).

Por que motivo havia de querer ocultar-vos? Estará perdida toda a esperança? inquiriu D. Damiana.

Que outra esperança me resta? respondeu-lhe o sargento-mor. Aqueles parentes e amigos que me ajudaram a dar um ensino aos inimigos em agosto do ano passado abandonaram-me. Vejo-me só. Tudo se mudou para pior. Nem negros, nem moradores, nem provisões de boca.

D. Damiana não se deu por vencida, A ausência do marido afigurava-se-lhe mais penosa que as perseguições ordenadas pelo governador. Enquanto pôde, impediu João da Cunha de resolver-se a deixar o engenho.

Chegou, porém, uma manhã decisiva. A tropa a que se referia o bispo, estava perto. Uma pobre mulher, amiga da família ameaçada, viera, atravessando florestas, trazer ao senhor de engenho esta triste nova.

Se estás deliberado a deixar Goiana, iremos juntos disse D. Damiana ao marido. Não quero ficar aqui. Os nossos inimigos insultar-me-iam se eu ficasse só. Não vão eles mostrando para quanto prestam com os desacatos que, por onde passam, têm para as famílias? Infelizmente não podeis, senhora advertiu João da Cunha. A minha jornada há de ser árdua, por dentro de bosques, através de desertos medonhos e inóspitos. Ser-me-á preciso recorrer ao disfarce que não há de valer muito em vós, porque o disfarce nas mulheres por pouco tempo engana. Ser-me-á preciso estar só, para, se tiver de morrer, poder morrer só, e menos dura me ser a dor da morte. Mas nada temais. Ficam convosco os últimos escravos da nossa confiança: alguns deles carregaram-vos em seus braços quando éreis menina. Mandei vir para junto de vós Marcelina, essa santa e piedosa mulher. Lourenço, que deverá acompanhar-me, porque eu não confio em outrem para viagem de tanto risco, voltará a Bujari, e tereis nele um defensor que valerá por cem. Deus, com a sua vigilância, completará o amparo.

Confidenciava o senhor de engenho com a mulher naquele mesmo gabinete particular onde, pouco mais de um ano antes, por São João, reunira a principal nobreza da vila, e lhe propusera o ataque aos mascates do Recife. Então dera mostras de força pelas quais se pudera aferir quanto era superior àqueles em recursos, quer materiais, quer morais. Agora, era tudo diferente. Em lugar de atacar, tratava de fugir aos inimigos. Ao seu lado via somente a mulher, que, posto fosse resoluta, e rogasse participar da sua sorte, antes lhe inspirava incerteza que decisão. Em vez de rubra soberba, mostrava no gesto cauteloso, pálida resignação, em vez de arrogância, tinha nas palavras magoados tons.

D. Damiana sentou-se ao pé do marido, e pôs-lhe meigamente um braço sobre o ombro. Não lhe consentiu ele ficar assim mais que um instante e, levantando-se, disse: Partirei dentro de poucas horas. Irei tratar sem demora dos preparativos dessa jornada que o coração me anuncia ser a última.

D. Damiana encaminhou-se para dentro, levando lágrimas a banhar-lhe as faces, onde antes se acendiam, viçosas como a juventude, as rosas de felicidade agora murchas e quase extintas.

Capítulo III

Marcelina e Lourenço, depois do incêndio praticado pelo bando de Luís Soares na casa que Francisco fizera à beira da estrada, no Cajueiro, lugarejo distante de Goiana uma légua, atualmente muito estendido, moravam em uma palhoça, obra de vinte braças para dentro na mesma direção da casa queimada. Fora fácil ao rapaz e à sua mãe de criação, mulher afeita ao trabalho do campo, tão resoluta como Francisco, seu marido, reconstruírem a antiga habitação; mas, estando os tempos muito contrários, e receando a cada momento as hostilidades movidas pelos parciais dos mercadores, pareceu-lhe melhor espaçar a reconstrução para depois, contentando-se com levantarem a ligeira palhoça onde se recolheram, e cuja perda lhes seria de pouco tomo, se houvessem de passar por este novo prejuízo.

A palhoça fôra de propósito feita entre umas árvores grandes e ramalhudas, muito juntas e entrelaçadas, que quase a encobriam do lado da estrada. Do lado oposto, porém, dava ela em um como descampado que se interpunha entre aquelas árvores e a renque de dendezeiros e cajueiros que circulava a lagoa, onde certa manhã Francisco surpreendera Marcelina a cortar juncos para fazer esteiras.

Logo que constou em Goiana o levantamento do cerco, Marcelina mandou Lourenço tomar o caminho do Recife.

Não percas nem um dia, sequer; prepara o cavalo e corre a buscar Francisco. Ele já há de estar no Recife, ou na cidade; e quem sabe se não espera por condução para voltar? Quantas saudades tenho do meu marido! E irresistivelmente as lágrimas de um amor sinceramente comovido começaram a bailar nos olhos da cabocla.

Marcelina tinha razão: havia alguns meses que Francisco estava ausente. Caindo na graça do ajudante de tenente, pelos bons serviços que, com lealdade e discrição admiráveis, lhe prestara desde que com ele se encontrara ao sair de Itamaracá, até a completa vitória, no dia 23 de agosto do ano precedente, Francisco, a quem Gil Ribeiro fizera grandes vantagens e prometera outras maiores, o tinha acompanhado ao sul, e se comprometera a não o deixar senão quando acabasse a guerra.

  Se hei de andar almocrevando com risco de me tomarem o meu cavalo e fazerem o diabo comigo dissera o matuto por ocasião de discorrer com sua mulher sobre a proposta do ajudante de tenente melhor é que me acoste a seu ajudante, e vá ganhar meu dinheiro prestando serviços à nobreza. Esta guerra não pode durar muito, porque os pés de chumbo estão encurralados. Portanto, no fim de dois meses já estarei de volta com gimbo bastante para encher o nosso mealheiro.

Para fazer a proposta ao matuto, muito influíra em Gil, além das razões referidas, o conhecimento que tinha aquele de toda a região das matas, desde Goiana até Jaboatão. De sorte que Francisco era ao mesmo tempo confidente e guia do ajudante de tenente.

Francisco, porém, enganara-se, e Marcelina, a quem ao princípio se afigurara, pelo interesse esperado, poder arrostar a ausência, nos últimos tempos sentia-se ralada de saudades e todo dia fazia novas promessas aos santos da sua devoção para que permitissem que seu marido voltasse logo.

Recebendo a ordem de sua mãe, Lourenço não gastou mais tempo no Cajueiro que o necessário ao arranjo da jornada. No outro dia bem cedo já estava em caminho.

A vida de Lourenço entrava em nova fase depois do que se tinha passado no memorável 23 de agosto de 1711.

Com o cerco do Recife, os produtos das pequenas lavouras começaram a escassear, e consequentemente a encarecer. Todos os lavradores da zona das matas, que circula o Recife, tinham acudido ao chamado do governo a fim de pegar em armas, arrastando consigo os matutos e escravos que cultivavam suas terras. Por isso, aqueles que  por qualquer circunstância especial não se acharam neste caso, e puderam prosseguir o seu trabalho do campo, depressa começaram a vender por bom dinheiro as sementes e cereais que levavam ao Recife. Compravam-lhes os capitães-mores esses produtos por ordem do governo para manter as gentes que sustentavam os presídios. E além de lhes comprarem a mercadoria, consideravam grande favor o apresentarem-se com ela, porque, sem este recurso, sustentar o cerco lhes seria impossível.

Marcelina, que tinha o instinto mercantil mais desenvolvido, entreviu os grandes resultados que deveria tirar das circunstâncias. Infelizmente, não podia encher a medida dos seus desejos, porque, além de Francisco não plantar senão quanto era necessário ao sustento da família (nem dispunha de meios para mais, ainda que o quisesse), o ajudante de tenente o levara para a capital, como dissemos. À vista de tão favoráveis promessas, o matuto não achava argumentos com que se esquivar. Demais, Lourenço estava já um homem, e ficava com Marcelina, a quem defenderia nas horas de perigo. O matuto, conhecendo os ânimos do rapaz, e não havendo motivo de perder os proveitos, disse adeus ao Cajueiro, e partiu, o que não lhe custou pouco. Sempre que se separava da mulher, da casa, do seu mundo, sentia uma como mutilação da alma.

Marcelina, porém, não perdia por falta de quem a dirigisse, porque trazia em si o melhor senso administrativo e comercial que ainda se conheceu em mulher. Terras no engenho Bujari não lhe faltavam; e quanto a braços, tratou de aproveitar os que pôde. Nem lhe foi preciso ir muito longe, para preencher esse fim. Com a morte de Vitorino, por ocasião do assalto contra o engenho e da destruição da casa, ficariam Joaquina e Marianinha ao desamparo, se Marcelina as não chamasse para sua companhia. Outra palhoça foi feita nas proximidades da de Francisco, a aí vieram morar a mãe e a filha do morto. Marcelina disse-lhes o seu pensamento, e como eram mulheres do campo, longe de se oporem, mostraram-se deliberadas a trabalhar com vontade. Dentro de algumas semanas, lavouras graciosas cobriam uma vasta quadra de terra até aonde a vista podia alcançar. E porque tão cedo não estivesse em estado de colher-se, Lourenço, que instruído e educado na escola de Marcelina, não tinha ânimo para ver perdida tão boa ocasião de ganhar com que comprar uma engenhoca, adotou, por conselho da cabocla, outro meio de interesse. Muitos plantadores careciam de coragem para ir ao Recife vender os seus produtos; levavam-nos então a Goiana, onde os deixavam por baixo preço. Ao princípio com algumas economias de sua mãe, e depois já com lucros das primeiras vendas, Lourenço comprava o que ninguém queria mais nas feiras; e depois, conduzia os gêneros comprados para Olinda e Recife, e aí os revendia com grandes lucros. Esse lucros já chegavam para fazer aquisição de terras onde levantar uma engenhoca, e Lourenço tinha de olho uma meia légua de massapé que do outro lado das em que morava, estavam em capoeira, e pertencia a um sujeito que andava oferecendo por falta de braços que a cultivassem.

Não custou muito a Lourenço encontrar-se com Francisco no Recife; mas a sorte parecia querer caprichosamente prolongar a ausência do matuto, e as saudades de Marcelina. Apenas o primeiro viu o segundo, correu para ele e atirou-se em seus braços.

Tu por aqui, Lourenço? E que novas me dás de Marcelina? Fala, fala logo, filho de minha alma.

Deixei-a boa, Deus louvado. Foi ela que me mandou buscar vosmecê. E vosmecê ainda está de farda?
E estarei por meus pecados. Nem tu sabes o que acaba de acontecer. Quando eu já me supunha livre e tratava de arrumar a minha trouxa, sabes o que havia de suceder? Oh! Estes mascates só queimados! Diabos os levem, os malditos.

Que foi que sucedeu?
Recebi ordem para continuar a servir el-rei. Maldita foi a hora em que disse a seu ajudante que vinha com ele.

Que está dizendo, meu pai? Pois vosmecê que até poucos dias serviu aos nobres, vai agora servir aos mascates?
É verdade, meu filho. Fizeram-me esta os endemoninhados. Mas isto não é o melhor; Queres saber o resto? Por ordem do governador, foram tomadas todas as presas que seu ajudante tinha feito em Itamaracá. Tu sabes que eu devia ter parte nelas, mas, agora, fico em branco.

Que está dizendo?
Lá se vão as nove sumacas e tudo o mais pela água abaixo bois, cavalos, jóias, dinheiro; tudo vai entregar-se ao governador. Eu nas sumacas não tinha parte, porque seu ajudante as tomou em Itamaracá antes de ir para Goiana; mas no restante devia ter meu quinhão, e não era usura, não senhor. Olha, Lourenço, eu estou falando com o coração nas mãos. No ataque do engenho Garapu, em Ipojuca, atirei-me às trincheiras inimigas como doido. Recebi ali uma bala no ombro, que me deixou um rasgão no couro, que já está são e logo te mostrarei. Os inimigos desampararam as trincheiras, e nós daí fomos a Tamandaré, encontrando sempre gente contrária a fazer-nos fogo. Onde seu ajudante se achava, eu com ele. Nunca virei a cara à bala. Se não chega o novo governador, teríamos de contar nova vitória. Mas os tempos mudaram-se, e de Tamandaré partimos para aqui, onde tivemos a notícia desta boa paga. Seu ajudante está muito desgostoso. E pelo jeito das coisas, parece que vamos ter nova guerra dos fidalgos contra os mascates.

Antes isso, meu pai, de que ficar vosmecê às ordens desta gente ruim, que queimou a nossa casa e levou a nossa criação.

Eu já me lembrei de desertar. mas além de não ser isso bonito, onde iria me meter, que eles não pudessem dar comigo? Mas, se os nobres quiserem novamente pegar em armas, podes dizer que nem um momento estarei com os pés de chumbo.

Quando ainda nem tinham dito um ao outro o necessário, um soldado aproximou-se de Francisco e intimou-o a que voltasse imediatamente ao quartel, por ordem superior. Para encurtar razões, algumas horas depois Francisco saiu em destacamento volante que devia auxiliar o Camarão em importantes diligências contra certos nobres de Serinhaém.

Lourenço voltou ao Cajueiro verdadeiramente amargurado.

Diabos levem a vida de soldado. E eu que já quis sentar praça! Deus me livre. Antes ser negro cativo.

Os dissabores de Marcelina foram maiores. Esperava o marido com o coração transbordando de alegrias, e em vez de consoladoras doçura, recebeu o fel da prolongação da ausência por tempo indefinido. Mas logo caiu naquele espírito privilegiado o bálsamo da resignação.

Que hei de fazer, meu Deus! Tanta promessa pedida a Nossa Senhora do Rosário, a Santo Cristo dos Milagres, ao Bom Jesus dos Martírios. Os meus merecimentos não são nenhuns. Que hei de fazer?!
E voltou-se de corpo e alma ao trabalho, sua esperança, sua fé, sua consolação.

Uma tarde, já em 1712, chamou Lourenço e disse-lhe:
Vamos aumentar o puxado, que já não tenho onde botar as esteiras novas que acabei. Estou vendo a hora que os ladrões vêem furtá-las do alpendre.

Sendo já quase sol posto. Lourenço, para não se expor e anoitecer dentro da mata, lembrou-se de aproveitar a madeira da casa queimada, que se estava perdendo ao tempo. Pegou de um ferro-de-cova e uma enxada, e encaminhou-se às ruínas. Por baixo de um grande entulho, formado pelo barro das paredes e por pedaços de estacas que a força do vento e das chamas havia atirado em uma só direção, apareciam as pontas de uns caibros que não alcançara o fogo.

Era talvez este o único entulho que não tinha sido bulido. Todo mais o espaço restante, ocupado pelos destroços, mostrava-se resolvido, e em alguns pontos viam-se até fundas covas, algumas das quais se converteram em barreiras onde as chuvas deixaram as águas estagnadas.

Lourenço meteu a enxada no barro com vontade e em pouco tempo ouviu um som cavo ecoar de sob as camadas que cobriam a madeira.

Com uma nova enxadada, um objeto estalou debaixo do instrumento. Lourenço meteu o ferro-de-cova nesse ponto, e forcejando no cabo, revirou parte dos caibros sotopostos. Ao mesmo tempo um embrulho passou por entre a terra solta, trazido na ponta do ferro. O rapaz corre presto a ver ao achado. Era como uma palma de luva de couro cobrindo um objeto brando e flexível. Com a ponta da faca que trazia ao cós, descoseu este envoltório misterioso, e o que lhe fica nas mãos, tirado o couro, é um papel dobrado em quatro faces.

Que será isto, meu Deus? disse consigo o rapaz.

Abriu o papel e leu o seguinte:

Dou a Lourenço, órfão que Francisco dos Prazeres e sua mulher Marcelina, moradores no Cajueiro, têm como filho em sua companhia, a casa e as terras que me deu o senhor do engenho Bujari, sargento-mor João da Cunha Cavalcanti, do outro lado da estrada onde têm a sua casa os ditos moradores.
Os limites das terras que ora vão ao referido órfão, estão lançados por escritura nas notas do tabelião Belchior da Fonseca e Silva.
Goiana, 22 de agosto de 1711
PADRE ANTÔNIO DO ESPÍRITO SANTO MARIZ

Estático, os olhos imóveis, as pernas trêmulas, Lourenço exclamou:
Oh, meu Deus! Eu não sei o que é que estou lendo! Será certo que seu Padre Antônio me deu a sua casa e as suas terras?  Mas, como veio isso parar aqui? E quem coseu o papel no couro? Ah! já entendo tudo. Foi minha mãe que guardou esta fortuna. Foi por isso que ela andou fazendo tantos buracos por aqui, e não cessava de procurar nestes entulhos uma coisa que nunca disse o que era. Achei, achei, minha mãe; está aqui, está aqui a minha fortuna, o meu dote. Deus lhe dê o pago, seu Padre. Deus lhe dê muitos aumentos por me ter feito esta esmola de tanto valor. Mas, onde estará seu Padre? Oh! Se eu pudesse vê-lo, abraçá-lo, beijar-lhe, de joelhos, a benfeitora mão... Meu Deus! Meu Deus! Será verdade que a casa que ali está me pertence? E foi seu Padre Antônio quem me fez este benefício?

Lágrimas de satisfação indizível acudiram aos olhos do rapaz.

Passado o primeiro momento desta comoção, ele, inclinando-se, examinou o lugar donde o ferro-de-cova tirara aquele tesouro, e pode descobrir uma caixinha onde Marcelina costumava guardar várias orações prodigiosas para a cura de maleita e outras doenças.

Quando Lourenço se ergueu, a fim de ler de novo o papel em que parecia não acreditar estivessem escritas tão agradáveis coisas, sentiu atrás de si rumor de passos.

É minha mãe, disse consigo.

Voltando-se, viu um homem. Era João da Cunha.

Seu sargento-mor, por aqui! emendou ele, ocultando instintivamente o papel na mão.

Vai buscar o teu cavalo, para acompanhar-me. Temos de sair já. Não há tempo senão de tomares o cavalo.

Minha mãe sabe para onde vamos?
Sabe tudo; já me entendi com ela. Neste momento dirigiu-se a Bujari a fazer companhia à sra. D. Damiana. Não te demores, que já me parece ouvir o rumor surdo dos passos da tropa que vem em busca de mim.

É já, seu sargento-mor.

Não tendo meios de guardar o papel em lugar seguro, ele o atou por dentro da camisa na cintura, envolto no mesmo couro que o tivera ileso debaixo da terra.

Antes de anoitecer tomaram a direção de Tracunhaém.

Ficava o famoso ponto de resistência, estabelecido e sustentado aí por Falcão d’Eça perto do rio que deu o nome à liga, cerca de um quarto de légua. Guarnecido de matos por todos os lados, só se podia ir ter ali por um caminho oculto que começava entre duas pedras quase unidas na beira do rio. Para tomar entrada entre essas duas pedras, era preciso seguir um bom pedaço rio acima, de verão com a água pela barriga, e de inverno a nado. Sem isto o ponto era inacessível, porque pelo lado de Tracunhaém os matos vinham morrer quase dentro das águas, entre talhados que não deixavam nenhum espaço à passagem nem de cabras; e pelos outros lados, árvores seculares, que dois homens não podiam abarcar, serviam de natural paliçada, impossível de romper. João da Cunha, que tinha todas as indicações necessárias para entrar no pouso, mandadas pelo próprio Falcão d’Eça, muito antes, chegou sem novidades ao coração do segredo.

Perto de cinqüenta fidalgos, tendo à sua frente Falcão d’Eça, arrostavam neste majestoso esconderijo todos os rigores da sorte adversa.

Capítulo IV

O rigoroso inverno que caiu sobre Pernambuco em 1713, um ano antes começara a mostrar o que havia de ser. Em agosto estavam os rios ainda muito grossos, os caminhos cortados de atoleiros, as terras baixas convertidas em vastos pântanos.

Em uma das noites mais ásperas de 1712, Lourenço entrou nas matas de Tracunhaém. Já muito lhe custara atravessar o rio, e como não oferecesse este passagem, senão arriscada, para o ponto onde se escondiam os nobres, julgou aquele prudente pernoitar por ali mesmo. Em certo fechado ao pé de um cedro colossal, em cujo tronco se via uma grande fenda na altura de um homem pôs abaixo a carga de mantimento e roupa que levava do engenho para o sargento-mor.

Se vier por aí alguma trovoada, - dissera ele consigo, - meto-me dentro deste oco, onde ninguém me há de ver.

O enfado da jornada trouxe-lhe sono que depressa o prendeu, não obstante a chuva. Pela madrugada acordou, ouvindo soar tiros ao longe; e conquanto estivesse certo de se terem ordenado diligências contra os nobres escondidos, recuperou o sono, e dormiu até o raiar do dia, que foi fresco e belo. A chuva cessara inteiramente. O sol dardejava raios horizontais por entre as folhagens, que se esclareciam tomando diferente aspecto.

Apenas de pé, quando tratava de buscar o cavalo para continuar a jornada, ouviu ruído de passos e vozes perto. Os passos e as vozes foram aumentando pouco a pouco. Dentro de algum tempo aquele ruído já era acompanhado do retintim de muitas armas. Enfim, viu o rapaz, com espanto e confusão, desfilar por diante das árvores, que o encobriam, grande partida de soldados.

Afiguravam-se estes aos seus olhos vultos patibulares, visões pavorosas como demônios em que ele acreditava.

Tinham calças arregaçadas e enlameadas, as jaquetas pegadas ao corpo, os chapéus ainda umedecidos e demudados, nas faces estampado o sono, o cansaço, a fome e a maldade, nas mãos armas sinistras e ameaçadoras.

Grande parte desta força passante, de duzentos homens, era composta de caboclos; no restante havia de tudo negros, curibocas, mestiços, semi-brancos e até brancos.

Formava o todo uma grande mó, em cujo centro se destacavam onze membros da nobreza. No couce da tropa mostravam-se a cavalo os coronéis Manoel Gonçalves Tunda-Cumbe e Sebastião Pinheiro Camarão, chefes do bando. A um lado deles, seguiam-nos o capitão-mor de Iguaraçu, Antônio da Silva Pereira, e o de Tracunhaém João Cavalcanti de Albuquerque, que por ordem do governador auxiliaram com gente sua os dois primeiros na importante busca. O semblante destes caudilhos acusava sinistra vaidade; o daqueles tinha a expressão alvar do delator.

Quando menos esperava, impressão mais violenta deixou o rapaz atônito: descobrira, entre os prisioneiros, João da Cunha. Uma corda ligava-o com outro nobre pelo braço direito. Trazia ele a fisionomia decomposta por aflição íntima, por desgosto mortal, antes vergonha filha do desdouro em que se via posto.

Em toda a sua vida, Lourenço nunca sentia dor tão atroz. Afeito desde menino a ver no sargento-mor representada uma instituição, que ele não sabia explicar, mas que impunha a seu espírito a força de lei fatal e quase divina a instituição da nobreza, foi com verdadeiro assombro que testemunhou agora aquele claro pulso aviltado pelo instrumento destinado aos réus vulgares, que só despertavam compaixão. A filosofia da vida, dava pela primeira vez a ler ao bisonho almocreve uma das páginas tristes, que o homem versado em letras encontra aos milhares no imenso livro da história.

Passada esta primeira comoção, uma como revolta interior operou-se de repente em todo o seu ser.

Impulso irresistível atira-o para diante, eletricamente.

Por entre os ramos que o ocultam, a mão direita armada com a faca livre da bainha, mostra-se em atitude de descarregar golpe cruel. Mas a voz da consciência soou mais alto que a da paixão no ânimo do almocreve. Ele tinha diante de si duzentos homens armados.

Será possível disse consigo que eu não possa valer nesta amargura a seu sargento-mor? Desgraçado que sou! Fraco e só, diante de tanta gente forte! Triste foi a hora que fiz esta viagem.

Súbito o assalta um pensamento que ele realiza inconscientemente, mecanicamente. Põe o pé sobre a borda do grande oco, e sobre ao pau. Ganhando posição elevada, atira dentre a folhagem a faca que empalmara quando se lhe deparara a estranha vista. O movimento foi rápido. Como faísca elétrica, a arma, descrevendo uma elipse no vácuo, foi bater contra o alvo. Um grito quebrou a mudez dos bosques: soltara-o Tunda-Cumbe, em cujo braço esquerdo a faca se cravara.

No mesmo instante sentiu o rapaz forte pancada contra os quadris, semelhante à que produz o bote de alentada cobra; e logo força descomunal o puxa para baixo. Mal seguro, não pode resistir à força que o alcançara, e teve de cair, não ao pé da árvore, mas no interior do oco, onde a escuridão era profunda.

Então, uma voz abafada, mas conhecida dele, segredou-lhe aos ouvidos:
Estás doido, Lourenço? Queres que os malvados te matem?
É vosmecê, seu Falcão? inquiriu o rapaz aturdido da descida rude, que lhe lançara grande confusão no espírito. Vosmecê quer desgraçar-me? Eu não sou bom, e não gosto que me tratem deste modo. Por que não me deixa matar aquele puço, aquele infame Tunda-Cumbe?
Cala-te, menino, retorquiu o capitão. Tu não tens juízo; és um tolo. Que seria de ti se eles chegassem a ver-te?
Verdade é que estou desarmado. Mas tenho muita força. Deus louvado. Era capaz de quebrar os ossos do marinheiro, se o apertasse entre os braços.

Guarda a tua força para quando for tempo.

Vosmecê atirou-me aqui dentro, quando eu já ia salvar seu sargento-mor. Estou zangado. Não me faça mais isso.

Ias perder-te. Por ver a tua loucura foi que te puxei para aqui. Não sejas criança. Que farias tu, só, sem armas, sem uma faca ao menos? Ali vão amarrados parentes e amigos, que muito me merecem; mas nem por isso praticarei asneiras.

Lourenço ia responder, quando sentiu sobre os lábios a mão do capitão querendo dizer que não falasse. Ao mesmo tempo ouviu surdo rumor de passos acima de sua cabeça. Eram vários soldados que haviam corrido a ver se descobriam o autor do atentado contra o coronel.

Neste momento, o Tunda-Cumbe, rangendo os dentes, clamou inflamado na paixão que o tomara:
Hás de pagar-me, Falcão d’Eça, hás de pagar-me o que ora fizeste. Hei de cortar-te as orelhas para dar de presente ao meu cão. Se estes matos têm ouvidos, eles que ouçam a tua sentença de morte, que se há de realizar no futuro, pois tão cobarde és que não te apresentas e somente me feres à traição.

Ditas estas palavras, o Tunda-Cumbe, como se reconhecesse os perigos de dar busca em domínios encobertos, alheios e desconhecidos, voltou imediatamente ao ponto onde fizera alto a tropa, que ele ordenou que seguisse a marche-marche.

Não é nada, disse como para tranqüilizar os seus. Já não vertem sangue as minhas veias; o da estúpida nobreza de Pernambuco, descendente de Caeté com Moçambique, esse sim, não vejo atadura que o faça tão cedo estacar.

Não o matei, mas sempre lhe dei um ensino disse Lourenço a meia-voz debaixo da terra, sentindo serenada com as palavras do capitão, parte da sua grande cólera. Assim foi bom. Os nobres precisam da tua vida, miserável peixeiro, para tomarem a vingança que mereces. Havemos de ver qual dos dois sangues deixará primeiro de correr em Pernambuco, se o teu sangue de bicho da outra banda, se o da nobreza de minha terra, o sangue azul daqueles que te mataram a fome e agora cobres de lama e desaforos.

E voltando-se para o capitão, acrescentou:
E o que faz vosmecê, seu Falcão d’Eça, que não mostra ao governador e ao ouvidor dos mascates para quanto presta o seu brio? Será possível que tanta gente, tanto fidalgo limpo, tanto homem rico e que sabe onde tem as ventas, esteja a sofrer as ousadias de labregos sujos, que deviam ser botados para fora à peia?
Veremos agora o que se há de fazer disse o capitão.

Os pernambucanos metidos entre a escolta tinham sido presos por ocasião da diligência que vem apontada nas crônicas  daquele tempo com a denominação de caçada geral.
O fim principal desta caçada, para cujo bom resultado os bandoleiros do Camarão e do Tunda-Cumbe até amestraram cães a pegar gente no mato, era destruir pela prisão de Falcão d’Eça, que por suas grandes faculdades naturais, se tornara o apoio da nobreza, e um dos que mais davam que pensar ao governador, aquele asilo onde se encastelavam muitos e importantes cavalheiros.

Falcão tinha direito a esta distinção que deixou seu nome tão conspicuamente inscrito nos anais pernambucanos.

Tanto que, pelas primeiras prisões, a nobreza começou a procurar os matos, ou ausentar-se para fora da capitania. Félix José Machado, a quem não é lícito recusar ânimos excepcionais, considerando-se inatacável, entregou-se a passeios, banquetes, divertimentos, digressões pelos arrabaldes, e até a grandes jogos e largas crápulas.

Nas crônicas se lêem os nomes dos que freqüentavam a banca de jogo armada em palácio, e os das meretrizes que tinham aí entrada franca.

Um dia, disse-lhe Manoel Carneiro:
Breve teremos tinguijada, Sr. governador.

Tanto bastou para que este se desse por convidado, e no dia aprazado se achasse em casa de Carneiro com o ouvidor, o juiz de fora, D. Francisco de Souza, e outros importantes membros do partido dos mercadores.

Não era a primeira vez que ele compelia Manoel Carneiro a aumentar os pratos da sua mesa. Meses antes, um grande jantar se realizara ali por ocasião da botada do engenho, ao qual compareceu Félix José Machado.

Mas nenhuma festa deu tanto que falar como a tinguijada. Foram três dias gordos. Só em ovos sessenta patacas se despenderam, diz, admirado, o principal cronista da guerra dos mascates.

Chegado o momento da apanha do peixe o governador encaminhou-se para a beira do Capibaribe.

Não deixando o rio poços, duas tapagens tinham sido feitas com palmas de coqueiros. Entre as ditas tapagens ficava o espaço talvez de vinte e trinta braças. As águas estavam ali dentro em um como remanso. Tirados antes os grandes ramos que por muitos dias haviam ficado sobre elas a fim de chamar os peixes para aquele ponto, convidados pela sombra, viam-se ainda a meladinha, o  melão de Caetano e o tingui, que depois de machucados tinham sido lançados dentro da tapagem. As águas nesse ponto estavam esverdeadas, e grandes camorins, prateadas carapebas e tantos outros habitadores do rio mostravam-se boiando por entre as crostas venenosas, embriagadas pelo forte narcótico dos cipós; outros enchiam giquisenfiados nas cercas.

Félix José Machado entrou na canoa que devia percorrer o âmbito da tapagem, e com outros convidados de porte começou a apanhar com a mão o peixe que boiava possesso da mortal tontura.

Olhos atentos e perspicazes haveriam notado que, por entre o prazer, os risos, os gracejos, os banhos involuntários e outros mil incidentes naturais de semelhantes patuscadas, o governador não tirava as vistas da parte superior do rio. Havia nos seus lances d’olhos indícios de inquietação e receio. Eis os fundamentos deste dois sentimentos, que aliás não se compadeciam com as alegrias e a confiança que costumam reinar em semelhantes reuniões.

Um mulato do capitão-mor de Tracunhaém dirigiu-se ao governador em princípios de junho e lhe dissera que se seu senhor, cunhado de Falcão d’Eça, e que muitos serviços prestara no primeiro levante contra Sebastião de Castro Caldas, não fosse incomodado nem sua família, ele revelaria um grande movimento que estava planejado. Tendo a promessa não só de ser poupado o dito capitão-mor, mas também de se lhe dar um prêmio pela revelação do segredo, disse o mulato que consistia aquele plano em um levante contra o governador, assentado entre Falcão d’Eça e outros nobres que com ele se tinham homiziado nas matas. Os conspiradores, aproveitando-se da festa da tinguijada no engenho de Manoel Carneiro, por ocasião da qual o governador ficava distante da capital e sem meios prontos de resistir com vantagem ao assalto, deveriam sair do esconderijo com todos os sequazes, embarcar em certo ponto em canoas, com antecipação preparadas para este fim, descer pelo rio, e surpreender o governador no meio da folgança. O que se seguiria não pôde o mulato dizer, mas Félix Machado compreendeu que semelhante surpresa não podia ter um termo que lhe não fosse fatal. E porque o capitão-mor fazia parte da conspiração, visto que, temendo ser preso, se recolhera ao mato com Falcão d’Eça, mandou o governador chamá-lo pelo mesmo mulato à sua presença, ao que se não esquivou o capitão-mor, tendo somente o cuidado de comparecer às escondidas. Félix José Machado confirmou a promessa feita ao mulato, mas exigiu, como principal condição do ajuste, que o próprio capitão-mor guiasse as forças encarregadas da caçada geral ao esconderijo não sabido. Esta infame condição foi aceita, e a traição teria sortido todo o efeito se Falcão, havendo dado pela falta do cunhado na véspera do projetado assalto, não se prevenisse em tempo.

Como conhecesse a capacidade do parente, e desse todo o valor à responsabilidade que a si próprio cabia como principal membro da Liga de Tracunhaém, congraçando  os companheiros, comunicou-lhes francamente os seus receios.

Não vos assusteis, porém, concluiu Falcão d’Eça. Retiros não nos faltam neste mundo virgem para nos ocultarmos do traidor. Proponho-vos que desamparemos já este pouso. Amanhã talvez já seja tarde.

Alguns dos nobres, não querendo acreditar na possibilidade de serem traídos por parente e companheiro tão qualificado, hesitaram indecisos. Deste número foi João da Cunha.

Que diria de nós Albuquerque, se viesse a saber, não se verificando a vossa suspeita, Falcão d’Eça, que havíamos formado dele conceito tão incompatível com homens de bem? inquiriu João da Cunha. Considero imprudente o passo que aconselhais, e não estou resoluto a dá-lo, para não me arriscar a cair no justo desprezo de um homem de nossa igualha. Demais, temos armas e munições. O ponto em que nos achamos pode reputar-se inexpugnável. Desta banda está o rio de nado, das outras grossos paus que se amparam uns aos outros em muitas ordens à roda de nós. Por que havemos de abandonar tão seguro abrigo? Por uma simples suspeita? Por isso somente não o deixarei.

Fixando a vista em João da Cunha:
Sois livre, sargento-mor disse Falcão; podeis ficar, eu porém, não ficarei. Oxalá não se verifiquem as minhas previsões; mas o coração leal anuncia-me que, se ainda hoje pernoitarmos neste recesso, a nossa liberdade e a vida correrão perigo. Podeis ficar, e convosco os que quiserem. Deixo-vos grande parte das munições de guerra. Até a primeira vista,
Falcão deu o andar. Alguns dos nobres seguiram-no imediatamente, outros pouco depois. Ele era a alma da resistência; a sua ausência enfraquecia os mais fortes. Com João da Cunha ficaram perto de vinte que tinham o mesmo pensar que ele. Este procedimento cravava as raízes na nobreza dos seus corações.

Mas, bem depressa tiveram a prova de quanto a sua grandeza moral se enganara. Antes do amanhecer, despertou-o do sono a perfídia. Defronte da entrada alguma balsas, vencendo a força das águas, atracaram entre as duas pedras; vinham carregadas de bandoleiros. O Camarão dirigiu o assalto. Exercitados na vida do mato, os seus caboclos penetraram no pouso sem grande custo, não obstante ser preciso, para chegar aí, dar muitas voltas onde haviam grandes fojos com estepes aguçados, habilmente dispostos por baixo de camadas de folhas secas. Os nobres somente tiveram tempo de dar alguns tiros a que os agressores responderam com vantagem. João da Cunha, conquanto muito animoso, teve de render-se ao grande número, depois de ferido. Os bandoleiros saquearam o pouco, derrubaram árvores, e deslocaram pedras para o abrir e patentear.

Ao amanhecer, alguns espias vieram referir a Falcão o que se havia passado. Então, tomando escusa vereda, o chefe da liga penetrou na manga subterrânea, e foi parar no cedro oco donde esperava ver a tropa, e pela vista avaliar o destroço.

A hora em que se deu começo à tinguijada, nada constava ainda a Félix José Machado sobre o resultado da diligências às matas. Seu espírito por isso vacilava inquieto entre o bom e o mau êxito; e seus olhos não cessavam de volver-se para o lado donde deveriam vir as canoas inimigas, se acaso a tropa não tivesse dado sobre os conspiradores a tempo de frustrar-lhes o plano.

A tinguijada durou até depois do meio-dia. Da beira do rio levaram peixe para o engenho em caçuás, tão grande fora a pescaria. O vinho, a aguardente, a viola, a toada, a dança começaram a reinar com toda a sua força. Calculando que, visto não aparecerem as canoas, deveriam estar na corda todos os conspiradores, o coração e o espírito de Félix José Machado expandiam-se gradualmente à proporção que o dia ia subindo.

Passando pela casa onde estava a balança de pesar o açúcar do engenho, o governador, cujo corpo era de proporções hercúleas, teve o pensamento de se fazer pesar. Pesou dois quintais e quatro libras (6).

Quando chegou a hora da refeição, pôs-se a comer tão alambazadamente, que a todos meteu assombro(6).

Sobre a tarde recebeu a comunicação do resultado da diligência. Sentiu então grande desgosto por saber que Falcão d’Eça não havia caído no trama urdido.

Mas, Sr. governador, disse o capitão-mor, vieram entre outros o capitão Antônio Silva, o capitão Miguel Lopes, os irmãos do padre Antônio Jorge Guerra, o alferes Diogo de Carvalho Maciel, o sargento-mor João da Cunha, e um escravo de Eça que é seu braço direito.

O governador respondeu:
Pois bem. Façamos conta de que o escravo vale o senhor. Daí ordem, sr. ouvidor, para que esse vil cativo seja hoje mesmo trateado, hoje mesmo, sem falta; ouvistes, sr. ouvidor?
A ordem foi rigorosamente cumprida. À noite soube-se na Várzea que o padecente não pudera sobreviver aos tratos senão algumas horas.

Falcão d’Eça disse Félix Machado, há de chegar a tua vez.

Capítulo V

A cavidade onde estavam Lourenço e Falcão d’Eça terminava, com a forma de funil, em abertura entre certo bamburral enredado, obra de vinte braças distante do cedro: por esta abertura dificilmente passava um homem. Rastejando um atrás do outro, chegaram os dois à extremidade, e esperaram que cessasse inteiramente o ruído dos passos dos soldados e animais.

Segue-me disse Falcão a Lourenço. Nada temas. Quase todo o dia transito por estes lugares onde, para bem dizer, me nasceram os dentes.

Lourenço trazia o espírito preso a certa ordem de idéias que o envolviam como em cipoal mais inextricável do que o bamburral por onde iam. Pensava em livrar o sargento-mor, ainda que para o livramento lhe fosse preciso sacrificar a própria vida. Pensava em castigar atrozmente os inimigos que tinham levado a audácia ao ponto de prenderem o ilustre senhor de engenho, como se fora um dos seus negros: Lourenço estava quase fora de si, arrebatado, nas asas do desespero, da vingança e do ódio.

Seu Falcão disse ele ao saírem do estreito se vosmecê não pensa em meio de prender, açoitar, matar, queimar os infames camarões e tunda-cumbes, escusa de estar com estes atalhos e estas voltas, eu não sirvo para isso, não senhor; eu queria morrer mesmo entre eles, contanto que matasse esse cachorro que tem feito tantos latrocínios por aí além.

Ouvindo estas palavras, o capitão parou e encarou o rapaz, como quem queria ler-lhe o íntimo através da face.

E que cuidas tu, Lourenço? inquiriu a modo de ofendido. Cuidas que não é o meu pensamento de todas as horas, de todos os instantes, tomar uma vingança dos nossos inimigos? Não sabes que estava tudo pronto para darmos hoje um assalto ao engenho de Manoel Carneiro, e tirarmos dali o governador e o ouvidor, e enforcar depois um na tripa do outro? Mas em toda parte há traidores: Cristo teve um Judas para o entregar: eu tive um cunhado. Se não fora a infame traição, podíamos ter a esta hora nossos principais carrascos, prontinhos para um sarapatel no meio destas matas.

Mas disse Lourenço por uma vez mentir fogo a espingarda, a gente não deixa de lhe pôr nova escova e fazer pontaria outra vez sobre a caça.

Miséria, miséria sem nome! Ajustaram a minha cabeça com o governador. Venderam-me ao ouro português. Denunciaram o abrigo de cinqüenta patriotas, cinqüenta bravos, que representaram nestas matas seculares a nacionalidade brasileira. Pernambucanos degenerados, vilões ruins que lançam com esta ação infame uma mancha eterna sobre a nossa história, rica de páginas verdadeiramente imortais.

E não poderemos ir tomar aqueles presos?
Como? Poderíamos fazer uma surpresa, mas não empenhar-nos em luta mais séria. Falta-nos o exército; só temos comandantes. O povo não está conosco. porque o governador o não importuna, antes o chama para o seu lado, fingindo-se amigo dele. Por ora, contamos apenas com meios de defesa, e estes mesmos escassos; meios de agressão não temos nenhum; Talvez para diante possamos compor tropas regulares, que estejam no caso de fazer frente às infantarias de Félix José Machado. Mas não há razão para desanimarmos. Tenho cá um pensamento que, se for posto em prática, a vitória há de ser necessariamente nossa. Vamos ver o que diz da minha idéia o Padre Guerra.

Eram chegados ao novo pouso, que não se distinguia por nenhuma feição particular, a não ser um embastido de árvores colossais, que formavam com sua basta folhagem um abrigo sombrio. Nenhuma árvore fora abatida, nenhuma cabana fora levantada. Viam-se apenas algumas redes armadas, alforjes pelos pés de paus, trouxas, malas e armas.

No momento em que chegaram Falcão d’Eça e Lourenço, havia no pouso de quinze a vinte foragidos, entre os quais estava o Padre Antônio Jorge Guerra.

Que notícias nos trazeis? perguntou o padre a Falcão.

Tristes, muito tristes. O Tunda-Cumbe apanhou sempre onze dos nossos companheiros. Que lhes disse eu?
Grande desgraça!
Mas, não nos deixemos desanimar, senhores, por este revés. Tratemos de desforra, e eu chamo a vossa atenção para o que vou dizer-vos. Se o bispo se dirigir, por um pastoral, aos povos da capitania, declarando-lhes que está em campo, e pedindo o seu auxílio contra o governo de Félix José Machado, exclusivamente empenhado em acabar com os pernambucanos, fio que o povo acompanhará o seu prelado; e se o acompanhar, a vitória há de ser nossa.

Toda a dificuldade está em resolver o bispo a fazer a guerra disse Martinho de Bulhões.

Não a fará, não a fará nunca disse o ajudante Bernardo Alemão.

Se, quando ele exercitava o governo, faltou-lhe ânimo para dirigir a guerra, como tomará hoje à sua conta esta obrigação? inquiriu o coronel Duarte de Albuquerque.

Mas, senhores, tornou Falcão refleti que, se não o fizer, ele próprio será preso, e talvez correrá risco a sua cabeça. Ignorais o ódio que lhe votam os principais dos mascates? Ignorais que já foi entre eles ponto resolvido tirar-lhe a vida? Tão fraco será D. Manoel, que nem ao menos se defenda? Não é possível. Chegou a ocasião de fazermos o Brasil grande e feliz. Não sou pela guerra de um partido contra outro, guerra pessoal e local; sou pela guerra inspirada num motivo verdadeiramente nobre o de tornarmos nossa terra independente de Portugal. Senhores, até quando havemos de ser colônia de portugueses? Não poderemos prosperar enquanto não nos pertencerem os nossos próprios destinos. É chegada a ocasião de quebrarmos a pesada cadeia que nos acorrenta. Não deixemos para mais tarde uma obra grandiosa, que podemos realizar hoje com algum esforço e sacrifício. Se há dois anos, por ocasião da fuga de Castro Caldas, tivéssemos levantado bem alto a bandeira da independência brasiliense, conforme propuseram Bernardo Vieira de Melo Silva e outros patriotas insignes, não estaríamos agora derramados por estas matas, separados de nossa mulheres e filhos, curtindo as mágoas e dores, comendo o sobressaltado pão do homizio. Padre Guerra, que fazeis, vós que sois amigo particular de D. Manoel, que fazeis, que não pegais já da pena para o convidardes a vir colocar-se ente nós, ser o nosso general, levantar conosco o pendão da liberdade do meio destas solidões, que por si só aterram a tirania?
Nas palavras do capitão havia o que quer que era de majestoso e patético. O sentimento nacional subira-lhe até os lábios, e dali se derramava, comunicando a todos que o escutavam, os tons desta paixão excelsa.

Não creio que D. Manoel aceite esta posição; ele não viu a luz do Brasil. Mas, não obstante, escrever-lhe-ei. Tendes portador seguro para lhe levar a carta?
Quanto a isto não vos inquieteis respondeu Falcão d’Eça.

Então o padre, tirando de uma maleta um frasco com tinta, uma pena e papel escreveu sobre um tronco derrubado, a carta seguinte:

Revmo. Senhor.

Do seio destas matas, refúgio franco e largo contra a tirania, sou obrigado a enviar a V. Revma., nestas regras escritas sobre tosco madeiro, a súplica de pernambucanos êxules e perseguidos.
Revmo. Senhor: ninguém melhor do que V. Revma. pode ajuizar das nossas desgraças, porque delas tem sido, como nós, ilustre vítima.
As armas, as algemas, as injúrias ainda não cessaram contra nós o seu odioso ofício. Nossos inimigos não escolhem meios de aniquilar-nos.
Tendo por eles o governador e o ouvidor, não há ofensas que destes desnaturados ministros não consigam contra nossas pessoas, nossas famílias, nossas próprias vidas.
A caçada geral, ordenada pelo parcial governador, apanhou onze dos nossos mais estimados amigos, e ilustres pernambucanos.
Neste momento tivemos aqui a notícia da prisão dos meus dignos irmãos João Alves Guerra e Miguel Lopes. Para levarem a efeito este intento, não hesitaram ante o sangue e a morte; pelo crime de tomar a defesa de seus senhores, um escravo fiel foi assassinado.
Do nosso seio os bandoleiros de Camarão e Tunda-Cumbe acabaram de arrancar tão importantes amigos e patrícios, e sobre a cabeça destes está pendente cruel sentença de morte.
Enfim, de toda a parte levantaram-se aos céus clamores contra a tirania de Félix José Machado e Marques Bacalhau, instrumentos dos mascates do Recife.
À vista de tantos e tão violentos atentados, Revmo. Senhor, estamos deliberados a lançar mão das armas para defesa da pátria e de tudo o que nos pertence.
Essa defesa nós a imaginamos grande, forte, tenaz. O que nós queremos é a independência de Pernambucano, e antes que V. Revma. nos pergunte qual o meio de realizar essa independência, apresso eu a declaração: esse meio é a revolução.
Aos que nos disserem, Revmo. Senhor, que, não procedendo de el-rei, mas de seu governo, os males que padecemos, haveria excesso do recurso indicado, responderei que não se podendo compreender sejam bons reis aqueles que sustentam maus governos, não há excesso, antes há justiça, na projetada providência.
Não é de hoje que na separação do Brasil do reino de Portugal eu vejo o único remédio para os nossos males.
Quando em 1710, em Olinda, reunidos o senado da Câmara e a nobreza se tratou da eleição do governador, por ter fugido covardemente para a Bahia, Sebastião de Castro Caldas, antes que fosse feita a escolha tão honrosamente para a pátria, por ter recaído na pessoa de V. Revma., largamente se discutiu a idéia de sacudir com os mascates, o jugo de Portugal, e V. Revma. sabe decerto, que a independência de Pernambuco era ponto decidido e concertado pelo venerando ancião Bernardo Vieira de Mello, herói talhado pela natureza para libertador da pátria com seu mestre de campo, o famoso João de Freitas da Cunha e o capitão-mor Antônio Ribeiro da Silva
Nesse ajuntamento, Revmo. Senhor, votei com estes exímios patriotas para que nos declarássemos em República ad instar dos venezianos; e se então os nossos votos não prevaleceram, por entender a maioria do ajuntamento que o nosso projeto era de alta audácia e magnitude, e que, com a mudança do odiado governador, volveriam a Pernambuco ditosos e serenos tempo, não pensam mais assim esses mesmos que ilusoriamente acreditaram na eficácia dos meios incompletos, e ao menos todos os que nos achamos no seio destas matas seculares, não temos por eficaz nenhum outro remédio senão a independência do Brasil, seja qual for a forma de governo que possa ele vir a ter.
Cheguei ao ponto essencial desta carta, Revmo. Senhor.
Somos por hora trinta, os que nos achamos aqui; amanhã seremos talvez mil. Dos presentes não um sóque não prefira perecer honrosamente no campo da batalha, pelejando pela liberdade da pátria, a afinar-se obscura e ignominiosamente nos subterrâneos das Cinco Pontas, servindo de ludibrio a estrangeiros que nunca jamais hão de ter para nós sentimentos benévolos.

Que é que nos falta para realizarmos a magna idéia da libertação do Brasil, ou pelo menos de Pernambuco? Falta-nos um chefe querido do povo da capitania, Revmo. Senhor, um chefe de reúna em si altas virtudes particulares e públicas, que seja de egrégias tradições, de ilustre consciência e ilustrada razão, que comungue conosco amigavelmente aos pés do altar da liberdade, que francamente, como nós, queira a revolução, por bem da felicidade dos brasileiros.
V. Revma. preenche satisfatoriamente as condições exigidas no chefe de que necessitamos. V. revma. é vítima como nós, da sanha dos mascates, por ter sido desde o começo da guerra o primeiro esteio da nobreza, é alvo das iras inimigas e está exposto à prisão e à morte; por suas altas virtudes e respeitabilíssima posição, pode melhor do que nenhum outro, ocupar o lugar mais elevado e conspícuo no movimento libertador. E logo que proclamar aos povos da capitânia, todos se levantarão para o seguir, como um só homem, ao caminho da glória.
Eis-nos, por todas estas razões, a pedir a V. Revma. que salve a nossa pátria, aceitando o lugar que está por preencher na frente das falanges pernambucanas.
É esta a nossa súplica, Revmo. Senhor.
Vosso humilde servo e respeitador,

PADRE A. JORGE GUERRA

Em menos de cinco minutos Lourenço estava de caminho para Olinda, e dois dias depois entregava a resposta do prelado que foi desanimadora. “Que nos resta senão curvamos a cabeça aos decretos da Providência? assim concluía ele.

Passado um momento Falcão d’Eça perguntou aos seus companheiros de infortúnio:
Que havemos de fazer, meus amigos?
Se havemos de errar expatriados, famintos, sem sossego de noite e de dia, e por fim cair no poder dos nossos opressores, melhor é que, poupando tantas inclemências e padecimentos, nos entreguemos em suas mãos. Teremos por esta forma, feito jus ao perdão d’el rei, e salvado com as nossas vidas, parte das nossas fortunas.

Entregue-se quem quiser, disse Falcão; eu não me entregarei jamais. Daqui não sairei senão morto ou livre. Ainda que todos me abandonem, não abandonarei eu estas solidões e espessuras protetoras. Até a última gota resistirei à opressão.

Também nós resistiremos disseram alguns dos foragidos.

Resistiremos todos, Falcão disse o padre Guerra. Não ficareis só. Trinta homens dentro de uma fortaleza batem um exército aguerrido, quanto mais dentro de um mundo imenso e desconhecido, como são estas matas intricadas.

Tendes razão, padre Guerra.

O que devemos fazer agora é alargar e aumentar os meios de defesa e agressão.

Isto corre por minha conta,.

Eis como finalizou o congresso dos fugitivos, após a leitura da carta do bispo.

O espírito de resistência em todos os dominava; a firmeza de seus ânimos; a coragem; a fé; a convicção de que por seu número, que tendia a aumentar, e pelas condições de defesa, não havia forças que os pudesse bater, fizeram voltar-lhe aos corações o sossego, um momento interrompido.

Não tendo mais de fazer ali, Lourenço, que ouvira as últimas palavras, profundamente comovido, despediu-se de Falcão d’Eça e tomou para Goiana.

Ia descontente e desanimado. Não lhe restava a mais pequena esperança de salvar o sargento-mor. A última carta tinha sido jogada, e perdera-se a mão.

Sempre pensei dizia consigo que seu Falcão faria alguma coisa; mas toda esperança está acabada. Vejo que não posso ser bom em nada. E como terei ânimo para contar em Goiana, a sinhá D. Damiana e à minha mãe, esta grande desgraça? Oh! que tempos, meu Deus, que tempos! A gente não sabe meios nem modo de fugir à adversidade,
E para matar as idéias tristes que lhe iam na cabeça, começou a cantarolar as letras de uma chula popular:

Tenho minha cachorrinha.

Que minha Tatá me deu;
Tenho um só desgosto dela:
É ser filha de europeu
Toda moça que é briosa,
Não casa com marinheiro;

Espera para casar
Com os quindins dos brasileiros.

Bravo, patusco
Patusquinho, patuscão
Marinheiros, pé de chumbo,
Comedor e beberrão

Lodo impuro que o exclusivismo partidário, revolvendo os corações trazia à luz como arma de guerra, colocava à frente da família, primeiro santuário do povo.

Capítulo VI

João da Mota chegou com a tropa à Goiana, no dia seguinte ao da partida de João da Cunha para as matas.

Faltam-me expressões para pintar o estado de agitação da vila, desde as primeiras horas do dia. Soubera-se da fuga do sargento-mor, e não fora preciso mais para que os que eram pelos mascates se considerassem absolutamente invencíveis e irresponsáveis, e os que pertenciam ao partido oposto se sentissem mortalmente desanimados. Não havia então em Goiana os dois partidos que antes lutavam para aniquilar-se mutuamente. Agora ela se mostrava dividida em um campo vencedor e outro vencido; neste dominava o terror, naquele exercia poder absoluto a vingança sedenta de escândalo e sangue. Os nobres de grande representação na vila, que antes da chegada do governador, tinham, à frente de uma parte da população, batido o pé à outra parte que lhes fazia face, esses desapareciam do dia para a noite, por não serem vítimas. Ficava o povo fraco e desamparado, e em cima dele caía o peso da desforra.

Das dez para as onze horas da manhã foram presos Jorge Cavalcanti em seu sítio da Conceição, e Manoel de Lacerda quando saía da sua propriedade do Tanquinho.

Antes disso já se soubera em Goiânia da prisão do sargento-mor Jorge Camelo de Valcácer, e dos capitães Antônio Rebello e José de Barros Cavalcanti na Paraíba, para onde se haviam retirado, logo que em Goiana, onde, pela sua longa residência, contavam contra si muitos dos principais mercadores, se teve conhecimento das prisões no Recife.

Jerônimo Paes e os filhos, que chegaram com João da Mota, ao saberem que, além de João da Cunha, puderam escapar-se os irmãos Cavalcanti, lastimaram tão importantes perdas. Por sua conta procederam imediatamente as indagações a fim de averiguarem onde paravam os fugitivos. Os segredos, por mais bem guardados, acham sempre reveladores. Tanto indagaram eles que, por boca de um fâmulo, vieram a ter certeza de estarem os Cavalcantis no Açu, onde possuíam fazendas de gado.

Jerônimo Paes, vencido do ódio que votava a Cosme, ofereceu-se a João da Mota para ir, pelo Ceará, prender-se os três expatriados. Aceito este oferecimento, expediram-se as necessárias ordens ao governador Manoel da Rocha Lima; e Jerônimo partiu a seu destino.

A ausência destes ardentes sequazes dos mascates moderou, mas não fez cessar inteiramente a agitação, que, como febre, dominava o povo da vila. Belchior, Manoel Rodrigues, Manoel Gaudêncio, Romão da Silva, e até o preto Lauriano alentavam a efervescência pública, ora percorrendo as ruas, em vociferações, ora comentando em adjuntos nas esquinas e adros, os acontecimentos que se davam; agora, soltando vivas e morras, agora penetrando nas casas onde se achavam as mulheres e filhas dos nobres, para as insultar e desacatar. A medida da desforra era como o tonel das Danaides: não se enchia nunca.

Nos semblantes desfigurados desses homens que as bebidas alcoólicas, larga e gratuitamente fornecidas por taberneiros sem fé nem moral, tornavam mais malvados do que na realidade eram liam-se baixos sentimentos e paixões indignas que a polícia do tempo, em vez de açular como fazia, visto que era conivente nas desordens e motins, devia refrear e punir.

Quando constou a prisão do senhor do engenho Bujari, subiram à altura de delírio as demonstrações e regozijo com que os inimigos a festejaram.

À frente de um espesso magote, de que faziam parte os mais afamados vultos da gentalha, Belchior correu ao condenado engenho, alvo das mais entranháveis animadversões vilãs. A casa grande mereceu as honras da primeira vítima: apedrejaram-na, tomados de brutal sanha. Os insultos praticados foram tanto mais agravantes quanto aumentaram a dor de uma senhora ilustre, que, no resignado martírio, buscava remédio contra a saudade. D. Damiana teve, por fim, de suster as lágrimas para cuidar da sua defesa. Afigurou-se-lhe não sem razão, que o engenho passaria pelo mesmo transe de que fora vítima um ano antes, como o sobrado do pátio do Carmo. Poucos eram os escravos restantes, e estes mesmos em sua maioria, velhos. Marcelina estava ao seu lado. Por conselho dela, trancaram-se todos a fim de ver se quebravam a fúria da canalha, por esta demonstração de fraqueza. Os exaltados que capitaneavam a partida desordeira tiveram um momento de senso comum, e dando-se por satisfeitos com o apedrejamento da casa, a gritaria da plebe, as injúrias atiradas a Escopeteira, voltaram à vila, onde repetiram o que nos dias precedentes haviam feito o insulto às famílias, a violação do lar doméstico, destruindo o que não tentava a sua cobiça e levando aquilo em que ela se comprazia.

Dias depois da feroz romaria ao engenho, novo ensejo ofereceu-se ao espírito de perturbação para prolongar o seu estúpido entusiasmo a notícia da prisão de Cosme Cavalcanti, André Cavalcanti e Luís Vidal. Parecia que a vila vinha abaixo, tamanha foi a vertigem das turbas sem freio.

Era situada a fazenda de gado de Cosme Cavalcanti na comarca de Açu, à margem de um rio. Receando ser aí mesmo perseguidos, não obstante estarem muitas léguas distantes dos rancores e vinganças pessoais, resolveram ocultar-se não na casa da fazenda, mas em uma palhoça em que os vaqueiros se recolhiam por ocasião da ajunta do gado. Para mais segurança, somente tomavam a palhoça de dia: as noites iam eles passá-las numa caatinga.

Cosme pouco ou nada pudera fazer para a formação do corpo de milicianos que planejara. Todos os vaqueiros e criadores tinham sido chamados antes de sua chegada, pelo governador Manoel da Rocha Lima, a pegar em armas; a maioria deles ocupava-se em proceder a diligência contra a nobreza. Depois de esforços incomparáveis, reconhecendo que somente lhe estava como único recurso, encobrir-ser às vistas dos que tramavam incessantemente o seu aniquilamento, chamou para junto de si os poucos sertanejos que pôde reunir, e os escravos fiéis. Mas esta resolução quando foi tomada, já não podia surtir o efeito esperado, era de todo sabido que ele estava no lugar, e o governador já aparelhava expedição para dar no rancho, quando chegou Jerônimo Paes, com as requisições do governador de Pernambuco. Então não houve mais demora, Rocha Lima encarrega o Coronel do Açu, João de Barros Braga, de prender a todo custo os emigrados pernambucanos. Um vaqueiro, encontrando-se com a força, deitou a correr para preveni-los. Fizeram-lhe fogo pelas costas, e ele caiu com uma perna quebrada, correndo-lhe o cavalo. Ao estrondo dos tiros, o mulato Barnabé, de um dos homiziados, acode com uma espingarda que dispara contra a tropa. O tiro emprega-se em um dos soldados e prosta-o morto, por terra; mas imediatamente dão uma descarga, contra o escravo, que cai atravessado por balas. Dando-se estas tristes cenas quase defronte a palhoça, não tiveram os homiziados tempo de fugir. Perdido esse recurso, trataram de combinar meios de defesa.

Não vejo nenhum, a não ser a fuga disse Luís Vidal.

A fuga? inquiriu André Cavalcanti. Mas por que modo? A tropa aí está.

Cosme cortou a discussão com estas palavras decisivas.

Cosme Bezerra Cavalcanti, quando tem pela frente o inimigo, não sabe dar-lhe as costas. Para que nos hão de servir as armas e munições que trouxemos de Goiana? Lutaremos como homens até morrer, mas não fujamos jamais, como fracas mulheres, quando está com vistas em nós o inimigo, que atiraria contra nós pelas costas, como se faz aos covardes, se usássemos esse meio indigno.

Não tinha ainda acabado, quando rompeu o fogo de fora sobre a frágil cabana.

Eram doze a dezesseis homens os que haviam dentro, doze a dezesseis para um troço de cinqüenta a sessenta, bem municiados, tendo consigo a força da autoridade. Travou-se desigual, porém fortíssima luta; mas a vitória, ainda que demorada, não podia caber a quem estava cercado, e recebia balas por todos os lados cada qual mais exposto às agressões. No medonho conflito, Cosme chegou a matar um dos agressores, e ferir dois mortalmente. E porque, não obstante a superioridade em número da tropa sobre os da casa, a resistência se prolongava tenazmente, lembrou-se o coronel Braga de um recurso trivial e covarde  contra os que de dentro combatiam como heróis o de por fogo na palhoça. Então a defesa tornou-se de todo o ponto impossível. Logo que as chamas começaram a invadir o âmbito, André e Luís Vidal, depondo as armas, entregaram-se à prisão. Cosme não fez outro tanto; os seus ânimos não se compadeciam com esta solução de prudência extrema: resistiu até onde foi humanamente impossível. Quando as labaredas, cercando-o por todos os lados, o ameaçavam com mais fúria do que os inimigos que, aliás, de fora não cessavam de ajudar o terrível elemento com tiros sem conta, saltou por uma janela resolvido a abrir, ainda assim, caminho por entre as chamas e os agressores, intento que se frustrou.

Isto não é nada, é a vossa hora derradeira, Sr. Cosme Bezerra disse um dos da escolta, levantando-o do chão onde o nobre caíra por ocasião do salto.

Cosme, ainda aturdido da queda, volvendo as vistas ao que lhe falara, reconheceu Jerônimo Paes.

Trazia este na mão uma catana desembainhada. Dos olhos fuzilavam-lhe brilhos indescritíveis. O rancor, a cólera, a vingança satisfeita nunca tiveram mais fiel e completa expressão.

Eu contava com o assassínio como termo natural desta perseguição respondeu Cosme. Quando saltei pela janela para não morrer pelo fogo que a vossa covardia pôs na casa, escapuliu-me a arma da mão, e caindo em baixo desloquei um pé. Estou que nem posso andar; valho menos que uma criança. Não é pois de admirar que me assassineis.

Não vos façais de fraco e inocente. Há algumas horas que resistis com as armas nas mãos, ferindo e matando gente. Ali estão três camaradas a quem tirastes a vida; vede aqui quanto sangue derramado de outros três que nem se podem mexer. Como é que agora que vos pondes numa cruz, dizendo que somos assassinos?
Cosme nada respondeu. Tinha nesses momento os olhos voltados para André e Luís Vidal que, no centro da escolta, recusavam entregar os pulsos às cordas com que, por ordem do coronel Braga, pretendiam manietá-los.

Somos nobres e não temos nenhum crime, dizia Luís Vidal. Não nos sujeitaremos jamais à infâmia de nos deixar amarrar como cativos ou vilões.

O tempo da nobreza acabou respondeu um, chacoteando.

Falais ainda em nobreza, mazombo? Tu e teus irmãos não passais de rebeldes. Havemos de pôr as cordas em todos vós. Haveis de pagar-nos o novo e o velho.

Foi frustrado todo o esforço dos vencidos. No meio dos maiores impropérios, seis robustos ilhéus que acompanhavam a força, ataram os três irmãos com os vaqueiros, e, o que é mais, com os próprios escravos que não haviam caído na luta. Quando Cosme, passada a exaltação, reconheceu que sem forças, sem armas, sem um braço livre que o defendesse, não era mais que um réu no poder de verdugos apaixonados, pensou em diminuir a humilhação; e valendo-se do momento de vir o coronel fazer-lhe certas perguntas sobre os bens que possuía, dirigiu-lhe estas palavras:
Não sei, Sr. Coronel, se alguma vez vos ofendi. A minha consciência apressa-se a dizer-me que nunca dei motivo ao vosso desagrado, quanto mais ao vosso ódio. Mas se não é esta a verdade, peço-vos me declareis a minha culpa, que talvez possa convencer-vos da sem razão.

Braga respondeu:
Sr. Capitão, de vós nunca recebi a menor ofensa. Apenas vos conheço.

E por que então procedeis tão atrozmente conosco?
Cumpro ordens. As instruções do governador, que me foram transmitidas, são positivas e rigorosas. Parece-me que, se por qualquer circunstância, o que Deus não há de permitir, viésseis a escapar de meu poder, a minha cabeça pagaria esta desgraça.

Não penseis que estranho a parte que tomaste em nossa prisão; o que estranho é a descortesia que tendes com presos a quem a adversidade não pode ainda, nem poderá nunca fazer esquecer a nobreza natural do seu caráter. Uma vez presos, Coronel, nem Cosme Bezerra Cavalcanti, nem André Cavalcanti, nem Luís Vidal Cavalcanti fugiriam jamais ainda que lhes fosse fácil a fuga. A sua palavra honrada tornaria indispensáveis cordas e algemas.

Sr. Cosme, eu não acredito na honra, na nobreza e ainda menos nas palavras dos rebeldes respondeu o coronel. Haveis de seguir amarrados até o Recife. As instrução que me foram dadas não permitem lugar a outro procedimento.

Cosme sorriu com amargura.

Enganai-vos, coronel, se pensais que vos peço misericórdia. Podeis em lugar de cordas mandar pôr em nossos pulsos pesadas algemas; podeis pôr-nos à ração de pão e água: com isso não fareis mais que antecipar os tratos que nos esperam na semi-tumba das Cinco Pontas. Não vos peço que mandeis afrouxar as cordas que estão cortando os meus braços, tamanha foi a força que Jerônimo Paes os amarrou. Seriam indignos da causa que nos faz sofrer, se vos pedíssemos brandura em vez do rigor a que temos direito.

Não sei o que quereis dizer.

Quero saber se nas vossas instruções vem determinado o itinerário, como vem, ao que parece, o modo de sermos levados presos.

Depois de refletir por alguns instantes, Braga respondeu:
Quanto ao itinerário, nada se me determinou.

Portanto uma vez que nos leveis ao Recife, tereis preenchido a vossa obrigação?
Certamente.

Pois bem. É agora que vos peço um favor.

Qual é?
Imaginai que em vez de sermos vossos prisioneiros, éreis vós nosso; e que, em vez de seguirmos para o Recife, teríamos de ir a um ponto além do Açu, donde sois natural, onde viste correr a vossa mocidade, onde tendes representação. Qual dos dois caminhos preferidos o que passa por dentro do lugar do vosso nascimento, ou que rodeia por fora?
Compreendi já o que desejais, disse Braga.

Em Goiana, Coronel, nasci eu, e nasceram os meus irmãos, que estão presentes. Sou ali juiz ordinário e Capitão de ordenanças; tenho aí família e amigos que me prezam com todas as veras. Meus amigos e parentes, vendo-me passar por dentro da vila neste estado lastimoso, sentiriam o mais acerbo desgosto. Para poupar-lhes este golpe, peço-vos, que ordeneis outro caminho, onde só encontremos inimigos ou indiferente. Eis o favor.

Braga respondeu:
Estais servido. Passaremos por fora de Goiana.

Prometeis então que não passarei por dentro de Goiana, Coronel?
Podeis ficar tranqüilo, que há de ser satisfeita neste ponto a vossa vontade.

Coronel, perdôo-vos a parte que tendes tomado nos meus males, e desde já vos agradeço tamanha graça. Eu tinha-vos por vilão, mas agora reconheço que sois nobre. Beijo-vos as mãos.

Cosme fez um sinal de cabeça em sinal de reverência a Braga.

Capítulo VII

Não tinha cessado ainda, se não aumentara, a agitação em Goiânia, quando Lourenço chegou ai Cajueiro, de volta de Tracunhaém.

Vinham com ele vários almocreves com quem se juntara algumas léguas atrás. Iam todos àquela vila, e eram antigos conhecidos de Lourenço, que uma hora por outra se encontrava com eles nos caminhos e ranchos.

Uma circunstância muito contribuíra, pouco antes de chegaram ao Cajueiro, para estreitar cada vez mais as relações de simpatia que já ligavam a maioria deles ao rapaz. Foi o caso que jornadeavam muito tranqüilamente, quando de improviso lhes aparece pela frente uma partida de bandoleiros. Apenas avistam o comboio, o chefe do bando e mais três que o seguiam de perto, foram ao seu encontro; e sem mais nem menos, intimam-lhe que entreguem os animais por ordem de Tunda-Cumbe, para que o bando pudesse realizar certa diligência de que estavam incumbidos. Naqueles tempos o terror dominava todos os que não pertenciam à classe elevada do partido do governador. O povo não tinha direitos. Qualquer bandido julgava-se autorizado para apoderar-se da propriedade do pobre, e fazer dele o seu moço de recados. Inúmeros pais de família, pertencentes à classe desfavorecida, perderam muitos dias de serviço por se ocuparem na condução de ofício ou outro qualquer objeto a pontos longínquos, por ordem de agentes subalternos. Por isso a intimação foi ouvida pelos almocreves como uma sentença de que não havia onde apelar.

Não estavam os bandidos acostumados a declarar as suas vontades sem as verem imediatamente cumpridas. O chefe, que vinha a cavalo, atirou-o com força que pôde sobre o matuto que mais próximo estava, dizendo arrogantemente:
Ainda estão montados? Não ouviram o que lhes disse?
Seus olhos tinham a expressão da insolência brutal que caracteriza o poder nos agentes subalternos.

Montados estão e estarão advertiu a este tempo um grito que viera ecoando por sobre as cabeças dos almocreves parados na frente.

Súbito, por entre eles, rompe o que soltara aquelas palavras. Era Lourenço.

Logo que se achou diante do chefe, o rapaz prosseguiu assim:
Então vosmecê entende que quem comprou um cavalinho com o suor do seu rosto, e dele precisa para seu meio de vida, há de entregá-lo a quem quer andar montado à custa dos outros?
Que desaforo! gritou o chefe em brasas. Atreves-te a fazer-me observações, confiado?
Este pé-rapado precisa de uma roda de pau disse um dos da tropa, aproximando-se de Lourenço.

Este já tinha o facão desembainhado na mão.

Desaforo é o seu respondeu ele ao chefe. Nenhum de nós está resolvido a entregar o seu animal. Ainda quando todos entregassem o seu, eu cá não entregarei o meu castanho. Se os senhores andam em diligência, sigam o seu caminho devagar, para não serem pressentidos; agora se andam fazendo coisa que não devem, estão pior um pouco.

Soava ainda o veemente protesto, quando um dos bandoleiros fez menção de pegar no cabresto do castanho; mas antes que mão tocasse a corda já o braço se retraía à dor de uma forte pancada que sobre ele vibrara Lourenço, o qual, voltando-se aos almocreves, lhes falou com gesto imperioso.

Para diante, para diante, camaradas!
E deu o exemplo, esporeando o castanho que tão depressa sentiu a espora, como rompeu caminho, aos pinotes e aos coices, por entre a tropa, debaixo de um chuveiro de pancadas.

A tropa tentou então impedir a passagem dos almocreves; mas já foi tarde: o exemplo de Lourenço levantara os espíritos. Não houvesse um só dentre aqueles que não desse mostras de grande valor. Aos golpes dos bandidos, respondiam com chicotadas e pranchadas. Estando a maioria dos bandidos a pé, não foi difícil aos almocreves escapar-lhes. O chefe e dois ou três, quando muito, que estavam cavalgando, cansados animais, ainda tentaram atalhar a fuga, descarregando as armas de fogo que traziam sobre os que fugiam. Mas, assim que viram Lourenço seguidos de três ou quatro mais animosos torcer para trás, e de facão em punho, fazer-lhes frente, sobrestiveram, espantados de tanta coragem e receosos de serem vítimas deles.

Havemos de encontrar-nos muito em breve disse o chefe.

É quando quiser. Ando sempre por estas estradas a qualquer hora do dia e da noite retorquiu Lourenço.

Assim falando, voltou com os quatro a reunir-se aos outros, que, livres do embate, já corriam à brida solta pela estrada afora.

Começaram agora as reflexões sobre o que poderia acontecer-lhes. Fracos homens do povo, sem o menor amparo, porque o único que tinham eram os senhores de engenho, por então ainda em mais estreitas condições do que eles mesmos, levaram algum tempo, não a mostrar-se arrependidos do seu procedimento, mas lastimando-se por ter a sorte criado para eles tão perigosa alternativa. Lourenço porém tratou de tranqüilizá-los, o que lhe não custou muito, porque a sua energia impusera os seus sentimentos aos outros, que, se já o estimavam antes, agora não só começaram a respeitá-lo, mas até a chamá-lo digno de sua confiança.

Não tenham medo destes assassinos, destes ladrões do alheio, que só têm valentia par as mulheres que vestem saia, para os poleiros de galinhas, as estrebarias de bestas velhas mal guardadas e os chiqueiros dos porcos.

Eles são capazes de esperar-nos na vila e prender-nos.

Pois então, em vez de tomarem vocês o rancho, façam a sua pousada no mato. Mas afora me lembra uma coisa. O rancho é na entrada da vila, e eu moro muito para cá do Cajueiro, como vocês sabem, e a minha casa, que por ora é uma palhoça, está sem gente, porque a minha mãe foi fazer companhia à senhora do engenho Bujari. Podem vocês arranchar-se na minha palhoça, que fica da estrada muito para dentro, e de noite não se vê; amanhã de manhãzinha seguirão então para Goiana. De dia e dentro da vila já eles, se aí ainda se acharem, não farão o que lhes vier nos narizes; porque, ainda que os mascates estão de cima, sempre nos povoados há alguém que fala pelos perseguidos.

Este alvitre de Lourenço foi aceito com reconhecimento por todos os almocreves, e ainda mais acrescentou o seu vulto, já desenhado em grande tela na imaginação deles.

Quando chegaram à palhoça, era quase noite. Lourenço apenas lhe deu os esclarecimentos necessários, continuou a jornada até Bujari, onde não se demorou, e mais tarde, com o intento de saber se o encontro com o bando já era conhecido na vila e se tomavam providências contra os desobedientes, dirigiu-se até lá.

Goiana estava cheia de uma notícia, mas de estrondo a prisão dos irmãos Cavalcanti.

Quero ter o gosto de vê-los entrar aqui amanhã com as cordas nos pulsos dizia um mascate. Quero chegar-me ao Cosme, que de todos ele é o mais peitudo, e perguntar-lhe: “Onde está a tua fama, pé-rapado mofino?
Outro dizia:
Hei de dar-lhe uma bofetada e ameaçá-lo de dar outra se ele não disser em altas vozes: “Viva quem me deu. Só assim me pagará o pouco caso em que sempre me teve esse ruim e arrogante mazombo.

Cá as minhas contas são com o André, que ainda pela última quaresma teve para mim gestos de desprezo, por lhe parecer que estavam mal pesadas umas caixas de açúcar que mandara para o meu armazém. Chegou a chamar-me ladrão. Hei de lhe perguntar quem é mais ladrão se o que está solto e livre, tratando do seu negócio, ou se o que vem amarrado, e em pouco tempo há de subir à forca?
É impossível dar uma idéia aproximada da angústia de Lourenço, quando soube a cruel notícia, e da aflição, que o possuía por não poder dar incontinenti o castigo a quem o merecia, quando nos adjuntos pelas ruas, e nas portas das tabernas e das boticas, ouvia semelhantes projetos de vilãs vinganças contra os nobres em quem se acostumara a não pôr as vistas senão com respeito.

Que desgraça, meu Deus! Parece que não ficará um fidalgo que não seja preso. Mal pensa seu Cosme o que está para lhe acontecer.

Cosme Bezerra, entretanto, confiando na promessa do Coronel Braga, pôs o espírito ao largo, e da grandeza do infortúnio tratou de tirar forças e resignação maiores que o mesmo infortúnio para o vencer com dignidade.

Estou preso como um cativo, mas no meu crime há um protesto em favor da liberdade dos pernambucanos. Demais, desobedecer ao despotismo, à violência, em lugar de crime, é direito. Poderão matar-me, porque são assassinos; poderei subir à forca, e outro fim não espero, se antes disso não me assassinarem por estes caminhos, sob qualquer pretexto para se verem logo livres de mim. Mas, meu nome passará, com meu ânimo, ao grande quadro da história de Pernambuco, onde vêem desenhados vultos tão ilustres, que basta ocupar um lugar ao pé deles para ter seguro o respeito dos pósteros.

Mal acabara este solilóquio, quando, erguendo a vista à roda de si, sentiu que o espírito se lhe abatia repentinamente. Conhecera os lugares que o dia, ao romper, lhe ia mostrando aos olhos. Estava na estrada de Goiana.

Mas o abatimento foi rápido; a antiga energia correu de novo pelas veias do brioso goianista; o espírito ergueu-se-lhe fresco, forte, diante das paisagens natais, alentado pela sua gentileza em que se deliciara nos bons tempos da mocidade.

Vamos entrar em Goiana, disse a Luís Vidal.

É verdade, respondeu este tristemente.

Neste momento passou por junto dos presos o Coronel.

Sr. Coronel, disse-lhe Cosme, quer ter a bondade de ouvir uma palavra?
Braga aproximou-se.

Se não me engano, este caminho vai dar à vila de Goiana.

É verdade.

Mas vós me prometestes que passaríamos por fora.

A estas palavras, Jerônimo Paes, que se aproximara também dos prisioneiros, disse:
O Sr. Coronel fez esta promessa, é verdade, mas mudou de resoluções, por eu lhe lembrar uma circunstância. Como extremosos filhos, segundo inculcais, da terra que vos viu nascer, seria grande crueza cortar, para não vê-la pela última vez, por escusos atalhos e rodeios.

Eu não me dirijo a ti, vilão imundo, retorquiu Cosme.

Sr. Cosme Bezerra! advertiu o Coronel Braga.

Dirigia-me a vós, Coronel, que aliás sois também um vilão ruim, um homem infame, um soldado covarde, que outros não cabem a quem falta à palavra dada a um nobre prisioneiro.

Os cães acorrentados ladram com mais fúria do que os soltos, replicou Braga.

E deu o andar, enquanto Paes, achegando-se mais da mó formada pelos prisioneiros, ia talvez erguer o chicote para flagelar Cosme na face, quando foi compelido a voltar-se para inquirir com as vistas a causa de um ramalhar violento que um dos lados do caminho se fizera sentir.

E volver as vistas, ao ponto, foi o mesmo que ver uma partida de cavaleiros armados de facões e pistolas correr sobre a tropa. O Coronel deu imediatamente ordem para que as forças cercasse os presos e disparasse as armas contra os assaltantes. Poucos tiros soaram; com a umidade da noite, as escovas da maior parte das armas haviam esfriado e muitas destas mentiram fogo. Não se viu depois senão um torvelinho medonho e indescritível. Os cavaleiros caíram sobre a tropa, e a patas de cavalo, começaram a atropelar os que não lhe davam passagem. Braga, que descalvagara momentos antes de falar com Cosme Bezerra, não teve tempo de tomar o seu animal. Jerônimo Paes, porém, homem de lutas desabridas e de valentia, tivera tempo de saltar sobe a sua cavalgadura, e com a espada investia, em defesa dos que formavam um círculo à roda dos presos, como possesso do gênio do mal.

Esta luta durou poucos momentos, porque um dos assaltantes correu acesso em valor, ao círculo, e expondo-se a dezenas de golpes, pode romper o cordão, e chegar até aos prisioneiros.

És tu, Lourenço, és tu, Lourenço! clamaram os nobres admirados de tanta bravura, e satisfeitos com a nova face que a sua sorte apresentava, um momento depois de ter para eles uma das mais feias carrancas.

Sou eu mesmo, seu Cosme. Em poucos instantes, seu Cosme, havemos de mostrar a estes safados mascates para quanto prestam os pernambucanos.

O facão de Lourenço cortava já os últimos nós da corda passada à roda dos braços de Cosme, quando uma pranchada vigorosa fez o rapaz sobressaltar. Com este novo estímulo, o homem mudou-se em fera. Perdida a sensibilidade que o momento exigia, deixou a obra de salvação em mais de meio, e voltou-se para investir contra o seu ofensor. Inexperiência da idade que frustrou a grande obra quase terminada.

O ofensor era Jerônimo Paes. A sua coragem, se fosse ajudada de força tão extensa como ela, seria, talvez, digna de competir com a de Lourenço; mas só este, de todos os que ali estavam, trazia os dois tesouros reunidos. Descarregar um golpe sobre Jerônimo foi o mesmo que prostrá-lo; mas quando ia acabar com este inimigo, teve que volver a sua atenção para outro ponto, donde um da tropa dissera aos camaradas:
Não esmoreçam, minha gente, que ali vem o Tunda-Cumbe.

João da Mota, receando que os nobres que andavam foragidos pelos matos se reunissem e tentassem tomar os presos trazidos do norte, dera a ordem para que Tnda-Cumbe, que já voltara do Recife, onde deixara os outros presos, fosse reforçar com gente fresca e descansada a que trazia tantos dias de jornada passando rios cheios, fomes e outras inclemências naturais da longa digressão pelo sertão. E porque tinha recebido informação do Coronel Braga sobre a hora da entrada na vila, muito cedinho fizera partir o Manuel Gonçalves com trinta homens do seu séquito.

Tunda-Cumbe caiu sem piedade com os seus sobre os assaltantes, e não obstante terem estes já do seu lado a vitória, pode, a golpes e a tiros, dispersar os que não morreram no meio da luta.

Os assaltantes não eram outros senão os matutos a quem Lourenço dera pousada em casa à noite anterior.

Eis o que tinha havido:
Voltando à palhoça, com grande mágoa, pelo que vira e ouvira nas ruas e tabernas onde se tratava da recepção hostil a Cosme e aos irmãos.

Trago o coração negro, como tinta de escrever dissera. Meu desgosto é tão grande que, se não tivesse pai e mãe ainda vivos, eu me atiraria por aí além, em busca da morte.

Ora, deixe-se disso, Lourenço. Não vejo razão para essa zanga.

Olhem vocês. Enquanto eu não tomar uma desforra desses mascates, e dos ladrões que andam aí prendendo a gente limpa da terra, eu não fico bom nem tenho sossego. Estou em termos de arrebentar.

Então lhes referiu o que ouvira e presenciara na vila.

Mas, por que não tiras a desforra? Que te falta? A ocasião não podia ser melhor. Vamos tomar os nobres pelo poder da força.

Este é o meu intento, e se vocês me ajudam...

Ora! disse um. Somos tão somente nove, mas assim mesmo havemos de dar o que fazer.

A minha birra é com o ladrão desse peixeiro desprezível, o desavergonhado Tunda-Cumbe, que traz galões dourados nas mangas, quando devia trazer algemas.

Pensa você então em se pegar com o Tunda-Cumbe que, além de não ser peco, valha a verdade, traz consigo tanto cabra  matador, e tanto negro feio mandingueiro?
Lourenço sorriu em ar de mofa e impaciente.

E por que não me hei de pegar com ele, Manoel Félix. Eu só sou capaz de lhe dar com a bainha da minha faca nas ventas quanto mais se vocês lhe fizeram uma perna. O marinheiro bem me conhece, e tem-me ronha. Em um samba que houve o ano passado, em casa do defunto Vitorino, o Tunda-Cumbe bem viu o pau da minha canoa. Há pouco tempo mesmo ele sentiu no braço o dente da minha faca; se as folhas dos paus não estivessem tão embrenhadas, havia de sentir o gosto dela, não no braço, mas no coração, que foi para aí que eu a atirei. Eis aí. Vocês bem sabem a cantiga que eu canto:

Não tenho medo de homem
Nem do ronco que ele tem
O besouro também ronca
Vai se ver, não é ninguém.

Está bem, basta, Lourenço.

Você também parece que está com medo, Antonio Luís. Ora não seja mofino, que um homem quando come carne e farinha é para ser duro.

Eu não tenho medo. Por mim está já assentado que tomaremos os presos das mãos dos malvados.

Os matutos escorvaram algumas armas de fogo que traziam, examinaram os facões e as facas, e puseram-se a espiar o momento do assalto. No outro dia de manhã apontou a escolta na extremidade do caminho. Foi então quem por entre as folhagens que lhes serviam de graciosa e natural moldura, caíram os almocreves sobre os soldados.

Lourenço lutou até não poder mais, até ficar só em campo, e seria vítima debaixo do peso do grande número do bando, se Cosme Bezerra, que chegara a ter um braço livre, não descarregasse uma arma contra o Coronel Braga. Supondo que este ia morrer, as atenções dos bandidos e soldados dividiram-se entre os prisioneiros e o ferido. Neste momento pôde Lourenço escapar-se. O chão estava juncado de cadáveres.

Das onze horas para o meio-dia, um homem, que entrara gacheiro, afastando os matos aqui, unindo-se acolá, para passar sem ser visto, meteu a cabeça por entre as estacas do engenho Bujari, e correu para a casa grande.

Quando o desconhecido, cujas roupas se mostravam rasgadas em alguns pontos, cobertas de sangue em outros, penetrou na sala onde somente se achavam as mulheres D. Damiana, Marcelina, Joaquina e Mariana algumas delas amedrontadas da inesperada visão, chegaram a procurar os quartos para se trancarem, supondo que estavam com um malfeitor em casa. Marcelina, porém, reconhecendo logo com mágoa o filho, correu ao seu encontro, e tomou-o nos braços.

Minha Nossa Senhora do Rosário, Virgem Santíssima! Que te fizeram, Lourenço?
Este respondeu por interrogação:
Não passou por aqui seu Cosme com os irmãos?
Não fales nisso Lourenço observou Marcelina. Tem piedade daquela senhora que mal pode enxugar as lágrimas de tantas que são. Nem tu sabes o que disseram, o que praticaram os malvados. Eles aí vão ainda. Quase nos matam. Olha para aquelas urupemas. Não vês como estão quebradas e esburacadas? Não vês as paredes como estão? As balas e as pedras dos endemoninhados choveram aqui dentro. Parecia que o mundo ia se acabar, tamanho foi o estrondo, o estrago, o desatino. Com as balas e as pedras, chegavam aqui também os desaforos e as poucas vergonhas que eles diziam. A canalha do Tunda-Cumbe foi quem teve a maior parte nisso. A outra gente ia ocupada com o seu Cosme, seu André e seu Luís, e pouco se demorou à porta da casa. Sinhá D. Damiana ainda quis abrir a urupema para falar a seu Cosme. Se não sou eu, ela fazia esta asneira, e talvez não vivesse. Mas, quem foi que te pôs neste estado?
Quis ver se podia livrá-los das mãos dos malvados, minha mãe; mas Deus não quis. Quando já estavam quase soltos, chegou o Tunda-Cumbe com a quadrilha, e não houve meio de vencer. Os meus camaradas morreram quase todos; e eu fiquei jurado pelo Tunda-Cumbe de morrer mais cedo ou mais tarde às suas mãos. Talvez que hoje mesmo ele ainda venha correr esta casa, ou vá à palhoça para ver se me encontra.

Santo Cristo de Ipojuca! Valei-nos, minha Nossa Senhora da Conceição!
Olhe, minha mãe, tenha paciência; porque o pior é o que eu lhe vou dizer agora. Eu não tenho medo do marinheiro, mas ele tem muito quem o acompanhe. Por isso acho bom ganhar o mato por alguns dias, até ver se as cousas tomam outra cara.

Filho de minh’alma, queres deixar-me?
Lourenço, Lourenço, não nos desampares disse Marianinha.

Que resolução é esta, Lourenço? perguntou D. Damiana, quase soluçando.

O rapaz não soube o que dizer. Calado, impassível, confuso, lançava olhares estúpidos de uma para outra das mulheres, que assim recebiam a triste declaração e sua ausência.

Mas, minha mãe... sinhá D. Damiana... Marianinha... Se eu ficar aqui, ainda pode ser pior. Se eles me prenderem, se me levarem para o Recife, que será de vosmecês? Eu não vou desamparar esta casa por uma vez, minha mãe; Deus me livre disso; nem tenho coração para fazer semelhante ingratidão. Andarei por aqui mesmo em roda da casa, mas dentro do mato. Se os negócios forem ficando muito feios, irei para Tracunhaém; irei reunir-me a seu Falcão, que já deve ter muita gente junta.

As mulheres ouviram atentas, no maior silêncio, estas palavras, nascidas do sentimento da prudência, que era aliás obra de Marcelina no coração do corajoso jovem.

Valha-me Deus! disse Marcelina, como quem compreendia que era absolutamente necessário resignar-se à ausência daquele que, com ser filho de outra mulher, se tornara objeto dos seus maternais afetos.

Ele nos queria valer, Marcelina acrescentou D. Damiana. Longe estava eu ainda há bem pouco tempo de pensar neste novo revés da minha infeliz sorte.

Ontem era seu Francisco, hoje é Lourenço que vai deixar-nos disse Joaquina. Será o que Deus quiser.

Já não há corda em meu coração que não tenha estalado acrescentou Marcelina. mas, já que Deus assim ordena, vai Lourenço, mete-te no mato, esconde-te bem dos facinorosos; e por nosso respeito não te percas. A Virgem Maria, na tua ausência há de ser a nossa advogada, há de proteger-nos.

Esta cena de dor foi interrompida pela chegada de um negro que acompanhara João da Cunha às matas e com ele seguira para a prisão no Recife. Vendo-o coberto e suor, e ofegante de cansaço de longa jornada, D. Damiana foi a primeira que lhe falou, não sem grande sobressalto.

Que novas nos trazes, José?
O escravo fiel e respeitoso, por única resposta, entregou-lhe um papel que ela inquieta e nervosa, desdobrou rapidamente. Era uma carta do seu cunhado Amador Cavalcanti, senhor de engenho, residente em Jaboatão.

Eis o que continha  a carta:

“Prezada prima

Escrevo-lhe estas regras quase às escuras, porque estou na semi-tumba das Cinco Pontas, onde me recolheram ontem, por ordem do governador depois de sofrer os maiores vexames da quadrilha do Camarão que me prendeu.

Vim aqui encontrar o meu irmão, o seu marido João da Cunha.

Mal poderá imaginar em que estado o encontrei. Ferido, enfermo, maltratado pelos nossos verdugos... não tenho ânimo para lhe dizer tudo; mas o parentesco e a amizade não permitem furtar-me a este penoso dever.

Hoje, pela manhã, ele chamou-me para junto de si; os seus ferimentos tinham se agravado. Mal pude entender o que me disse; digo mal: não entendi uma só das suas palavras.

Abraçou-me, e inclinou a cabeça sobre o peito. Não a levantou mais, senão talvez para comparecer perante o Criador, que nos há de julgar e vingar.

Resigne-se
AMADOR CAVALCANTI

D. Mariana caiu quase sem sentidos nos braços de D. Marcelina. Os soluços queriam arrancar-lhe a vida.

A este tempo, Cosme Cavalcanti e os irmãos, atravessavam a rua principal de Goiana no meio do mais público espetáculo cujo único objeto eram eles.

Para que fosse esplêndida a recepção das ilustres vítimas, os principais mercadores da vila tinham ordenado comédias e cavalhadas.

Fogos estouraram de todos os cantos e alguns sinos repicaram em sinal e alegria, logo que os presos se aproximaram. Na rua das Portas de Romão armara-se um tablado pelo modelo do que se tinha levantado em Olinda para festejar a chegada do governador, a 7 de dezembro de 1711. Aí apareceram cinco figuras ricamente vestidas; quatro representavam as quatro partes do mundo, e outra, Goiana.

O tablado ficava como o de Olinda. debaixo de uma “parreira agradável na forma, e abundante de uvas, com passarinhos que as depinicavam.

Quando os presos passaram pela frente do tablado a figura que representava Goiana fez sinal que parasse o troço, e com ênfase dirigiu “em romance curioso, uma alocução a Jerônimo Paes, que exaltou como benemérito do povo e da realeza. A rua não tinha mais onde se pôr um pé de pessoa. A vila em peso, uns por satisfação, outros por natural curiosidade, assistia ao estrepitoso espetáculo.

Os mercadores mais dinheirosos distribuíam aos soldados peças de ouro e bebidas finas; a plebe atirava insultos e injúrias aos algemados.

Estes nunca haviam demonstrado tanta nobreza no gesto e no porte. Tinham a serenidade de mártires. O silêncio dava-lhes gravidade, e a elevação da face deixava manifesto que os seus espíritos, longe de rastejarem, se sustentavam na altura do seu nome e posição.

A um insulto que lhes dirigiu o taberneiro Joaquim Rodrigues, Cosme Bezerra retorquiu:
Insulta os nobres que vês presos, marinheiros; mas fica sabendo que se não pudermos algum dia ajustar as nossas contas contigo, ajustá-la-ão com os teus malungos, que para cá vierem, os nossos filhos, os nossos netos, enfim a nossa geração; ódio eterno à tua raça é a primeira herança que ensinaremos e deixaremos aos nossos descendentes.

Toma lá que te dou, profeta sujo retorquiu-lhe em ar de zombaria o taberneiro.

E atirou-lhe uma moeda de cobre.

Capítulo VIII

Receoso de encontrar-se com algum bando inimigo, Lourenço que, ao deixar o engenho, tomara a margem direita do Tracunhaém, pela qual passava o caminho por onde se saía de Goiana atravessou não sem risco o rio com bastante água pelas chuvas torrenciais do inverno, e meteu-se numa capoeira que, ao cabo de um quarto de légua, vinha morrer na margem esquerda.

Era quase noite, e desde a saída, a chuva não cessara ainda, antes aumentara.

Em todas as paragens circunvizinhas, não se descobria uma só habitação. |O rio entrava aqui pelos matos, saía acolá por entre lajedos, espraiava-se além em várzeas cobertas de buritizeiros. De verão, a região que Lourenço percorria agora silencioso e pesaroso, tinha aspecto risonho; era um lindo painel, não obstante ser deserta e quase virgem. Atualmente vêem-se já por ali casinhas de almocreves, quadras de terra cobertas de roças, partidinhos de canas que alegram a vista e comunicam ao espírito a sua graciosa flutuação iluminada e colorida. Por esse tempo, só se avistavam ali águas, matos e céu, que o verão enchia de limpidez, verdura e azul. Aos olhos de Lourenço, porém, não eram estas tintas oferecidas pelas paisagens feiticeiras. Com o inverno elas haviam tomado feições espessas e sombrias. As águas barrentas, em vários pontos encachoeiradas, enovelando-se com arbustos e pedras, semelhavam terras diluídas por forte ebulição, mostrando todas as fezes e lia deixadas no seu seio pelo curso de muitas idades, as folhagens inclinadas para o chão, quando as águas do céu caíam sobre elas sem sopro de tormenta, ou revoltas e confusas quando a tempestade as açoitava com a sua violenta cólera, apresentavam o semblante de tristeza ou do desespero; o céu cor de cinza tinha comunicativa morbidez que penetrava nos corações ternos. Enfim, longe de despertar pensamentos e sensações gratas, essa região demorada não oferecia ao hóspede perdido no seio dela outros presentes senão o tédio, a ingratidão e a aspereza do deserto.

Ao anoitecer, saindo de uns pauis perigosos, onde quase se havia sumido com o cavalo, ouviu, surpreso, o bater de uma caçula por ali perto. Guiado por este sinal, ganhou um alto onde deu de rosto com uma casinha de barro, coberta de palha. Alongando as vistas, descobriu na baixada que ficava do outro lado da eminência, uma como aldeia de índios. Contavam-se talvez de quinze a vinte palhoças. Quase todas estavam fechadas, e somente da que ficava mais próxima da casinha do alto, se levantava aos ares, sem embargo dos pesados pingos d’água que no momento caíam, uma fumacinha azulada, indicando que havia moradores na palhoça.

Já tenho, graças a Deus pensou o rapaz onde passar esta cruel noite de inverno.

E tirou para a casinha, donde lhe chegava aos ouvidos o som levantado pelo alternado bater das mãos do pilão sobre o milho.

Faziam a caçula uma rapariga e uma mulher já de idade. Aquela podia passar por branca, e não era mal parecida: cabelos negros e cacheados emolduravam-lhe o rosto jovial e franco; formas boleadas sem carência de gentileza, acusavam tesouros que se perdiam ocultos ou mal apreciados no ermo.

A outra mulher tinha feição e formas vulgares, que nenhum traço particular tornava distintas, a não ser o olhar suspeitoso e a grossura corpórea: ambas trajavam saia de chita e cabeção de renda. Estavam de pé, na sala posterior da casinha, perto de um banco largo, espécie de porta deitada sobre quatro pés cravados no chão, a qual, pelos indícios, preenchia o ofício de estrado, mesa de jantar e cama de dormir. Sobre o banco via-se um alguidar de barro de tamanho, contendo certa quantidade de milho pilado; junto do alguidar, um rapa-coco de ferro e alguns pratos ordinários. Dentro de um destes estava o coco, partido já em duas bandas, destinado a dar as rapas de que se devia extrair, pela expressão, o leite grosso e saboroso. O leitor entendido nos usos do norte há de ter compreendido por estas particularidades domésticas, que as duas mulheres se ocupavam em fazer o popular e apreciado mucunzá. Ficava de permeio entre uma e outra, o pilão que lhes dava pela cintura.

A quantidade de milho quebrado que se via dentro do alguidar, e o suor que aljofrava o rosto e as espáduas das mulheres, não obstante o tempo frio, revelavam que a caçula já ia puxada, ou antes, estava perto de acabar.

Lourenço, rodeando a casa, foi parar defronte da janela, onde se entregavam àquela ocupação culinária as duas mulheres.

Ó de casa? disse ele.

Apenas estas palavras ressoaram dentro, as moradoras fizeram uma pausa, e cessou o batecum.
Ó de fora respondeu a mais velha, enquanto a mais nova, que estava oculta por trás da parede, estirou o pescoço, e com os olhos procurou ver quem era o hóspede. Tão depressa porém o viu como, deixando a sua mão de pilão metida no milho, deitou a correr para a camarinha, único aposento encoberto que havia na casa.

Tenha vosmecê muito boas noites, minha senhora disse Lourenço, chegando o cavalo mais para junto da janela.

Nosso Senhor lhe dê as mesmas respondeu a matuta.

Minha senhora prosseguiu o rapaz venho pedir a vosmecê um rancho por esta noite. Com semelhante chuvarada, que vosmecê bem está vendo, é impossível a gente andar por dentro de lamas que querem engolir homem e animal.

Mas senhor... balbuciou a mulher com evidente embaraço.

E como não passou dali, Lourenço, compreendendo estar ameaçado de eminente recusa, acrescentou:
Quer vosmecê acredite, quer não, o que eu lhe posso dizer é que ainda hoje não comi nem descansei. Estou resfriado desde os pés até a cabeça. Não sei bem em que altura ando. Além disso, com os rios cheios e de noite pelo escuro, não se pode viajar.

Meu senhor... retorquiu a mulher sempre hesitante, eu não teria dúvida em lhe dar o rancho: mas o dono da casa não está em casa, e não é de bem... vosmecê bem sabe.

Sim, se o dono da casa não está em casa, nem aqui por perto, é verdade, vosmecê tem razão. Mas também quero lhe dizer uma coisa: eu com  pouco me satisfaço. Basta que vosmecê consinta que eu me recolha debaixo deste alpendre, ao menos enquanto ponho um punhado de farinha e um pedaço de carne na boca, e o meu cavalo descansa.

A mulher não disse uma palavra; continuou indecisa. Estava sem saber determinar-se.

Passado um momento, como visse Lourenço que não cessava a indecisão, disse o seguinte:
Minha senhora, eu não sou nenhum malfeitor. Pela cara dou logo a conhecer.

Não digo menos disso retorquiu ela.

Meto-me ali debaixo do puxado, e pode vosmecê ter certeza que não arredarei dali o pé senão para ver o meu cavalo, ou tratar da jornada quando as barras vierem quebrando.

A mulher ia reforçar a recusa com outras razões, mas a um sinal feito do dentro da camarinha pela moça mudou de rumo, e respondeu sem os escrúpulos de há pouco.

Está bom. No alpendre pode vosmecê ficar.

Deus é que lha há de pagar este favor, disse o rapaz, criando alma nova com a resposta.

E sem mais esperar, tirou para o pequenino alpendre, onde descavalgou.

Quando estava para soltar o cavalo com a peia, como é costume, ouviu dizer da janela:
Ó meu senhor? Ó meu senhor?
Pela voz reconheceu a mulher, e imediatamente botou-se para aquele ponto onde a encontrou, tendo numa da mãos uma cuia.

Se vosmecê não tem o que dar ao seu cavalo, aqui lhe ofereço este bocado de milho que sempre há de chegar para ele ir roendo durante a noite.

Aceito o favor, e muito agradeço a vosmecê a sua lembrança. Eu já ia soltar o animal aí no campo, sem esperança que ele comesse qualquer coisa, porque está tudo debaixo de água.

Pouco depois, sob a folhagem de uma gameleira próxima do alpendre, o cavalo quebrava com estrépito o presente da hospitalidade, e o seu dono, de uma rede que armara, fazia-lhe companhia, comendo, com apetite devorador, da matalotagem que trazia em um saco de couro, onde a água da chuva não pudera penetrar.

Ali mesmo, rendendo-se do enfado da jornada, Lourenço, recostado na rede, adormeceu. A noite fechada, a chuva, o silêncio, o ermo convidavam ao repouso.

Por volta de oito horas, não obstante estar no melhor do sono, foi despertado pelo ladrar do cachorro da casa contra o cavalo. Logo depois ouviu uma porta, rumor de alguém que saía, e as palavras seguintes:
Não me demoro, não. Vou levar a Joaninha esta tigela de mucunzá para ela cear, e dizer-lhe que eu venho hoje fazer companhia a você.

Compreendeu Lourenço que a mulher era dali mesmo das vizinhanças, e viera ajudar a moradora no serviço da caçula. E como levantara a cabeça, deram seus olhos com a suave claridade no alpendre. Era produzida por um fogo que havia sido feito não muito distante da rede onde ele estava.

Esta fineza com que ele não contara, deu-lhe grande satisfação.

Boa gente é a desta casa, disse, levantando-se para atiçar o fogo, e ver o cavalo que, com os latidos do cão, se afastara um pouco da gameleira. Pois não me pareceu assim, quando cheguei logo.

Fizera-se uma estiada, o que permitiu a Lourenço ir sem repugnância até o lugar onde estava o cavalo, que ele tocou para junto do alpendre.

Já ia sentar-se novamente na rede, a fim de retomar o sono do ponto em que fora interrompido, quando enxergou, à claridade do fogo, um vulto que se encaminhava para o seu lado. Era a dona da casinha. Mostrava-se cautelosa, olhando para um lado e para o outro.

Quando não faltavam senão alguns passos, Lourenço quis levantar-se; mas antes que se pusesse de pé, a rapariga estava sentada com ele na rede, apertava-o entre os braços com frenesi de alucinada.

Lourenço, Lourenço, você não me conhece? perguntou ela em voz baixa.

Estou reconhecendo a sua voz disse o rapaz, tomando posição conveniente para ver o rosto da rapariga.

Sou Bernardina, disse ela.

Bernardina! Bernardina! exclamou Lourenço.

Então, afirmando a vista, reconheceu, de feito, com indescritível prazer, a filha de Vitorino que fora raptada por Tunda-Cumbe, por ocasião do ataque contra o engenho.

Bernardina não parecia a mesma que estivera de tarde na caçula, com a outra mulher. Substituíra a saia caseira por um vestido de chita impregnado dos cheiros do coradouro campestre. Entre os cabelos anelados, que o pente alisara momentos antes, um galhinho de alecrim recendia suavíssimo aroma. As faces estavam animadas de irradiação rósea; os braços e as espáduas acusavam recente ablução.

Ninguém diria, em presença daquele asseio modesto, único talvez ao alcance da pobre, ninguém diria que o suor do trabalho umedecera, algumas horas atrás, pele tão fresca e limpa. O que à primeira vista se adivinhava, era que a galante cachopa havia posto particular cuidado em aparecer sem vexame ao seu camarada da meninice.

Meu Deus! continuou ele. Como são as coisas! Quem havia de dizer que eu teria hoje este encontro? Eu bem ouvi cantar, um pouco antes de chegar a este lugar, um pitiguari no olho de um catolé.

É verdade disse ela. Eu reconheci você, logo que o vi chegar à janela, ainda que você está muito diferente. Está um moço alto, e bonito de fazer a gente ter oura de gosto de vê-lo.

Mas por que se escondeu de mim? Por que fugiu tão depressa, tanto que a não pude ver senão pelas costas, e por isso não pude saber que era você?
Fugi para lhe poder falar mais tarde. Se eu me desse logo a conhecer à vista da mulher que saiu daqui há pouco, ela não nos deixava sós, e eu não podia abrir-lhe o meu coração, como estou fazendo. Ela é uma boa mulher, mas não havia de consentir que os avistássemos, nem eu quero que ela saiba da minha vida.

E o que faz você por estas alturas, Bernardina?
Ora! Foi a minha desgraça. Mas por que não se deita como estava ainda há pouco? Deitemo-nos, para não parecer que estão aqui duas pessoas. Meta o seu braço por debaixo do meu pescoço. Falaremos baixinho. Direi assim tudo que lhe quero dizer. Você não sabe como estou satisfeita com a sua presença. Não tenha vergonha de mim. Faça de conta que ainda somos meninos.

A rapariga foi a primeira a deitar-se transversalmente na rede: o rapaz imitou-a. Os seus hálitos se confundiram. Os negros cabelos de Bernardina espalharam-se, em ondas, voluptuosas, pelas faces nédias e afogueadas de Lourenço, que parecia estar numa fascinação parva.

Perto da rede jazia atirado um tronco seco destinado ao fogo. Bernardina, tomada de frenesi irresistível, alcançou com a ponta do pé a cabeça do tronco, e firmando-se nela, deu balanço à rede. Caiu-lhe então a chinela e com o movimento enfunou-se-lhe parte da saia arrendada, aparecendo, com uma tentação, o pé pequenino e metade da perna de perfeição incomparável.

Mas Bernardina não atentou no seu estado. Era outra a ordem de idéias que lhe andava no cérebro. Fervilhava-lhe aí a serpente do remorso e da saudade.

Quando eu não quis falar com você diante daquela mulher foi justamente porque os meus segredos não eram para ela ouvir. Mas antes de tudo, não se demore; dê-me notícias dos meus. Minha mãe e Marianinha como estão? Há quase dois anos que as não vejo. Só Deus sabe a minha dor, as lágrimas que tenho derramado, longe dos meus, com saudades deles.

Elas estão boas, Bernardina.

Não houve nenhuma novidade?
Houve somente a morte de seu pai.

Desta já soube. Meu pai era tão bom para mim!
Mas que vida é a sua, Bernardina?
Não me fale, não me fale, Lourenço. Nem sei como me deixei desgraçar, em vez de morrer; antes tivesse morrido. Lá não souberam como eu fui roubada por seu Tunda-Cumbe, quando entraram com ele no engenho os malvados que lhe dão força para fazer tudo o que lhe vem às ventas?
E o que está você fazendo aqui?
Aqui é que eu moro. Não sabe que este é o Rancho do Cipó?
Pois aqui é o Cipó? Aqui é que o ladrão do Tunda-Cumbe tem os seus malfeitores?
Aqui mesmo. Aí adiante na baixada moram eles. Só eu moro aqui com seu Tunda Cumbe, neste deserto por onde não passa ninguém, com medo de ser atacado e assassinado.

Lourenço estava admirado do que ouvia. Nunca pensara em tal.

Eu sou mulher continuou Bernardina; mas assim mesmo, não tenho medo dele nem dos malfeitores; e mais de uma vez tenho feito tenção de deixar este degredo, dê no que der.

Pois este é o falado rancho do Cipó! inquiriu Lourenço pela segunda vez, parecendo não ter o seu pensamento preso a assunto diferente, ou fingindo-se alheio do que na realidade pusera alerta todos os seus sentidos. Ah! é verdade. Eu vi, quando vinha, as tais casinhas lá embaixo. Em boas estou metido. Venho fugindo do malvado, e caio dentro do seu giqui.
Em poucas palavras referiu Lourenço os acontecimentos em que andara envolvido de manhã, a luta com o Tunda-Cumbe, o juramento que este fizera de vingar-se dele, enfim, as circunstâncias que davam a sua posição atual um caráter melindroso, pelos muitos perigos que o cercavam.

Para um homem da sua coragem, Lourenço, não há perigos, disse Bernardina. Eu tenho tanta confiança em você que, se você quisesse tirar-me daqui, eu não punha a menor dúvida.

Dizendo isto, a rapariga roçava a face pela do rapaz, que, embriagado e ofegante, devorava com os olhos acesos em estranho anelo aquela imagem provocadora.

Você diz o que eu tenho no juízo. E fique sabendo que, ainda que houvesse de cair, transpassado de balas, ali diante nos atoleiros, eu a levava comigo para entrega-la à sua mãe. O ajuste de contas com o ladrão do marinheiro se não pudesse ser antes, ficaria para depois. O principal era tirar você do poder dele, que é um ladrão muito desaforado.

Que está dizendo? Pois você tem esta idéia? Não sei como agradecer a Deus esta mercê.

Mas, presentemente, Bernardina observou o rapaz, pegando-lhe de uma das mãos eu não a procurava. Nos primeiros tempos da sua ausência , andei com Saturnino pelos matos a ver se a achava; não foi uma nem duas vezes que fizemos isto, foram muitas que não tem conta; e se nunca viemos ao rancho do Cipó, foi porque nunca pensamos que o Tunda-Cumbe a tivesse trazido para viver junto dos negros e cabras safados que compõem a sua quadrilha. Mas desta feita o meu destino será outro.

Eu estou aqui desde que ele me roubou do Bujari. Não viu você a mulher que estava comigo e ficou de voltar? É a caseira do Pedro de Lima, que ele encarregou de me espiar.

Lourenço ficou silencioso um instante, como quem refletia.

Agora, disse depois, a ocasião não é das melhores para ir comigo, porque não vou para o Cajueiro, vou até fugindo dele.

Não me diga isso, Lourenço, tornou Bernardina pesarosa. Não o deixarei sair sem me levar em sua companhia. Ainda que vá para o inferno, irei com você, porque tão cedo não se há de oferecer outra ocasião.

Depois de novo instante de silêncio, disse o rapaz:
Quer tomar um conselho? Deixe-me ir primeiro aonde tenho de ir, a Tracunhaém, a ver se dá algum jeito para livrar-se da prisão seu Cosme Bezerra e os irmãos. Na volta passarei outra vez por aqui, e então você irá comigo.

Ora, Lourenço! disse a rapariga ainda mais magoada. Você está com isso para se livrar de mim. Sou uma desgraçada.

Os olhos da gentil matuta, há pouco tão cheios de alegres brilhos, inundaram-se de tristeza e lágrimas.

Lourenço reparando na mudança, sentiu-se comovido.

Para consolar a moça, apertou-a contra o coração com ternura e meiguice infantil.

Para que diz isso de mim, Bernardina? Você bem me conhece, e sabe que eu não sou de prometer uma coisa e fazer outra.

Nisto o cão, que há pouco ladrara, começou a ladrar de novo. Ouvindo os latidos, Bernardina sentou-se na rede.

É sinhá Manuela que volta. Não posso mais demorar-me.

Talvez não seja ela. Fique ainda um instantinho só, Bernardina.

Não; adeus. Se não nos virmos mais, leve este abraço para mamãe, e este outro para Marianinha.

Assim falando, a rapariga, de pé, inclinada sobre a rede, suspendeu e apertou por duas vezes o rapaz aos seios em quantas forças tinha.

Este agora é o seu disse por fim.

Lourenço, que estava já também de pé, foi o primeiro a tomar ente os braços Bernardina, cujas formas, com o ardente contato da despedida, lhe deixara no corpo deleitoso quebranto.

Dou-lhe este abraço, para que você não se esqueça de mim.

Foram estas as suas palavras. Correu para dentro rapidamente e desapareceu.

Pouca era já a claridade espalhada no alpendre. A fogueira estava extinta. O frio da noite invadia o informe aposento. Lourenço, porém, não precisava de calor extremo para se sentir aquecido. Tinha o fogo interior, o fogo das paixões, o fogo dos dezoito anos que as provações quase ingênuas de Bernardina, tão moça como ele, haviam deixado no maior grau de intensidade.

Capítulo IX

Os braços de Bernardina, antes irresistível manifestação de estima e contentamento sem malícia, do que indício de paixão desonesta como se pode afigurar ao leitor menos entendido na singeleza dos costumes do campo, deixaram Lourenço num estado de excitação nervosa que não revelava a mesma simplicidade, nem o mesmo puro incentivo. De feito, Lourenço via as coisas por outro lado. Das duas filhas do finado Vitorino, fora sempre Bernardina a que, por muito saída, merecera a sua particular atenção. Demais, havendo tantos meses que não a via, o vulto da sedutora rapariga teve para ele, com o tom misterioso que lhe davam as condições da atualidade, o encanto das visões inesperadas, frescas e gentis, dessas que matizam os sonhos apaixonados da juventude. Bernardina, na fantasia estreita de Lourenço, limitada aos horizontes dos bosques, dos rios, dos engenhos, das ásperas jornadas e dos sambas rudes, surgira como a estrela boeira nas madrugadas de verão. A rapariga iluminara-se com o fogo dos dezoito anos, cujo reflexo revelava nos olhos o calor da alma. Não obstante a vida, não raro orvalhada de lágrimas, que ela arrastava na solidão agreste da sua desgraça, tinha o seu corpo ganhado formas esbeltas, as suas feições distinta vivacidade. Ao clarão da fogueira, vira ele nesse vulto de natural elegância o quer que fosse que lhe descobriu novos mundos até então perdidos na vacuidade do seu espírito mais positivo que sonhador.

Depois que Joaquina fora morar junto de Marcelina, e para assim dizer à sua sombra, quase todos os dias ofereciam-se ensejos de Lourenço conversar a sós com Marianinha, impressionar-se da sua beleza fresca e rósea, e comover-se da brandura do seu natural. Muitas provas de estimação dava-lhe a filha mais nova de Joaquina e ele, se bem que não se havia entregado inteiramente a este amor, porque a juventude raras vezes se deixa cativar das paixões modestas, da ternura passada ainda que pura e imensa, sentia já por Marianinha doce afeição, que começava a encher-lhe o coração como o aroma do manacá silvestre povoa as abóbadas formadas pelas ingazeiras nas margens dos rios.

Ainda na manhã daquele dia, depois da cena de dor e prantos a que assistiu na sala do engenho, quando Lourenço desceu à cavalariça, seguiu atrás dele Marianinha trazendo os olhos arrasados de lágrimas; era a dor da separação que lhe arrancava aos sentimentos aquela triste homenagem.

“ Lourenço, Lourenço perguntara ela você se esquecerá de mim?
“ Não me esqueço, não, Marianinha. Olhe, quando não esperar por mim, há de ver-me bem juntinho de você, de todos de casa.

“ Eu não deixarei nunca de esperar por você; esperarei sempre, de dia e de noite, a todo momento. Não se ocupa com ninguém, senão com você, a minha lembrança, a minha imaginação.

Quando o rapaz estava para tomar o cavalo, Marianinha aproximou-se, cada vez mais comovida.

“ Tome esta oração. Ela serve para você se lembrar de mim, e para o livrar dos perigos.

Era uma oração prodigiosa, um breve, cosido dentro de um saquinho de cetim, e preso a um rosário de contas tão límpidas como as lágrimas que se deslizavam pelas faces da moçoila.

“ Reze todas as noites, e todas as manhãs, a Nossa Senhora do Rosário esta coroa. Ela há de protege-lo.

Com as próprias mãos, hesitantes e trêmulas pela comoção, a filha de Vitorino lançara ao pescoço do rapaz o talismã popular misto de fetichismo e catolicismo, tão conhecido das gentes do campo. Lourenço agradeceu-lhe a lembrança, o presente da despedida, e, para retribuir a fineza, apertou a rapariga ao peito, com vontade de a levar ao sertão, ao deserto, ao desconhecido, onde necessariamente devia precisar de uma companhia, ou antes de uma companheira que suavizasse os rigores da peregrinação.

As despedidas exercem grande influência na vida. Durante a jornada, Lourenço só pensava em Marianinha, chorosa e meiga por ocasião de lhe entregar o rosário e o brevezinho. Não foi uma nem duas vezes que teve vontade de chorar de saudade lembrando-se da menina, da mãe, do engenho, lembrando-se de tudo o que deixara, e que não sabia quando havia de tornar a ver. Foi assim, enternecido por lembrança tão grata e comovente, que ele chegou ao rancho do Cipó.

Mas Bernardina, aparecendo-lhe de improviso com uma alma benfazeja, filha do mato, criada na solidão, uma alma nova, não obstante ser sua conhecida da infância, aparecendo-lhe assim, quando ele menos esperava, ente uma fogueira símbolo da paixão, e uma rede símbolo do gozo, por uma noite de inverno estação propícia ao aconchego, e sem outras testemunhas que os elementos mudos posto que traiçoeiros e irritantes, apagou com a sua imagem, rica de estímulos sensuais, a doce cena de amor inocente em que se deixara entrever a irmã com o recato da alma cândida, como apaga o pintor com o pincel ensopado em tintas vivas, brancas virgens retratadas em quadros ainda mais branco que elas.

Depois de um instante de vacilação, o rapaz correu em busca da fugitiva moça. Esta já estava dentro da casa fazendo que repousava. Nem sombra restava de tão encantadora visão. Afigurou-se a Lourenço um momento ter-lhe ido a vida com ela. Fora um enganoso egoísmo que o provocara, que o exacerbara, e que o havia esquecido, fugindo rapidamente quando ele mais desejava tê-la unido ao peito. Levara consigo todas as formas da sedução; todas? Não; uma tinha ficado no alpendre, talvez contra a vontade daquela tentação revestida em contornos ondulantes como os das serpentes: era o galhinho de alecrim que Bernardina trouxera entre os cachos do cabelo.

Lourenço achou-o pouco antes da porta, no chão, e reconhecendo-o, apanhou-o, aspirou-lhe o brando cheiro, e meteu-o entre a camisa e o corpo. Penetrando aí, a sua mão tocou involuntariamente em outro objeto que lhe veio imediatamente à lembrança o talismã que lhe dera Marianinha, o qual, pendente do rosário, nadava sobre o peito do rapaz. Lourenço estremeceu, sentindo o contato do breve; e seria capaz de afirmar que as paixões que se lhe haviam mitigado repentinamente com esse contato. Toda a idéia que tinha de forçar a frágil porta da palhoça varreu-se-lhe do espírito. Poderoso cordão aquele, Marianinha, aquele que deste a Lourenço! Poderoso porque lhe acalmou por um instante os ardores infrenes que o atiravam para imprevistos abismos, poderoso, porque o fez volver à rede, quando já ia passando de tempo. De fato, não se meteu um momento, que atravessou o terreiro, encaminhando-se à porta, que abriu, uma sombra em que Lourenço reconheceu a grosseira Manuela.

Lourenço não dormiu mais. Em seu espírito travou-se então uma luta fratricida a luta das duas irmãs uma que ressurgira depois de apagada, outra que perdera metade da sua grande força, logo que se achou defronte da primeira.

Que seria dele, solicitado por duas atrações iguais? Ficou sem dar um passo nem para um lado nem para outro. Tinha a inércia de um corpo pequeno entre dois maiores de igual grandeza. Mas se a vontade caíra nessa indecisão passiva, indecisão da criança, que, vendo ao alcance dois quadros sedutores, não sabe por qual deles se há de decidir, o seu espírito parecia incliná-lo para aquela que, a poucos passos de distância, ouvindo talvez o rumor dos seus movimentos, lhe havia despertado no coração alvoroços que se assemelhavam a chamas.

Perto do amanhecer a chuva cessou inteiramente. À claridade do dia, as condições do estado do almocreve modificaram-se consideravelmente. A realidade, eriçada de perigos, ressurgiu-lhe de novo aos olhos. Volvendo-os à baixada, avistou lá a rua de casinhas que lhe avivou a idéia da quadrilha e do chefe, a que ele ia fugindo. Era tempo de deixar a ameaçadora pousada, por algumas horas tão hospedeira e carinhosa.

Mas partir sem ver Bernardina, sem lhe protestar estima recente, cujas raízes vinham do passado, sem receber, talvez, na despedida, uma daqueles sorrisos feiticeiros que, quando a menina cantava e dançava nos sambas, deixaram tantas vezes corações atravessados de desejos mais agudos que pontas de espinho, isto afigurou-se-lhe um tormento, um impossível. Ainda esteve um instante para bater à janela sob qualquer pretexto; mas, receando-se não ter forças para ausentar-se, se a rapariga lhe aparecesse, quando a sua salvação exigia rapidez no apartamento, dominou o desejo, e partiu.

Não tinha ainda perdido de vista a casa, quando, ao emparelhar-se com umas árvores sombrias e fechadas, virando-se para trás, viu vir descendo a rua do rancho a mulher que fizera companhia a Bernardina. Foi o caso que Manuela, tanto que percebera, pelo rumor das pisadas do cavalo, que Lourenço deixava a casa, se despediu de Bernardina e encaminhou-se à sua cabana.

Este incidente, com que o rapaz não contava, reacendeu-lhe o desejo de voltar. Sobresteve um instante, pensando. As árvores ocultavam-no inteiramente. Ele podia refletir por quanto tempo quisesse, sem receio de ser notada a sua presença.

Estou quase voltando disse consigo, ao cabo de alguns minutos de reflexão.

Pouco depois, tomada a resolução, acrescentou:
Ora! Aconteça o que acontecer. Para os perigos é que são os homens.

Não se demorou mais. Com pouco, estava junto da janela que se abriu tanto que ele chegou, para deixar aparecer o rosto da gentil rapariga, mais sedutor do que nunca, porque se mostrava agora orvalhado de lágrimas, como as florinhas do campo estavam nadando entre as águas da noite.

Eu logo vi que você não havia de se ir embora de um vez sem me dizer adeus, Lourenço disse ela, recobrando, com a vista do rapaz, o fulgor da sua natural expressão. Lourenço aproximou-se mais, e perguntou-lhe à meia-voz:
Bernardina, você ainda está no parecer de me acompanhar?
Como ouvira a voz da sua salvação, a rapariga, erguendo-se sobre as pontas dos pés, inclinou-se para fora, e, estendendo os braços como quem queria prender o almocreve, respondeu num assomo de entrega, filho de absoluta confiança.

Pois ainda pergunta, Lourenço?
Então venha depressa, antes que chegue alguém tornou ele. Eu bem sei que vou correr grandes perigos; mas por seu respeito, cometo tudo. Que espero mais? Acabemos já com isso. O que chegar, chegou. Comigo ninguém pode.

Em poucos minutos o cardão passeiro e passarinheiro, que Lourenço tirara da estrebaria do engenho para se meter na jornada, tomou sobre o dorso o rapaz e a rapariga; e não obstante esta dobrada carga, atravessou com pés seguros os atoleiros, e ganhou outra vez o caminho sem mostrar o menor enfado, antes lesto e forte, graças ao milho que comera de noite.

Por toda a parte foram encontrados riachos cheios que se assemelhavam a rios, campos inundados que se assemelhavam a lagos, vales que se assemelhavam a correntes encachoeiradas, e enfim as provas evidentes do inverno que se prolongou em Pernambuco de 1712 a 1713.

Mas Bernardina, na sua qualidade de mulher, tinha ânimo inexcedível. A sua organização parecia de ferro. Nada a fatigava.

Quanto mais se afastavam da colônia de malfeitores, mais animada e contente se mostrava a fugitiva.

Estou vendo que você é muito forte, Bernardina observou uma vez Lourenço.

Ora! retorquiu ela com disfarce. Neste cortado vou até o fim do mundo. Estou tão contente como você não avalia. Vou achando tanta graça nos matos que eu aborrecia ainda ontem... Que bonita manhã, não é Lourenço? Eu vou achando tudo tão bonito, porque me soltei da prisão.

Passados momentos, acrescentou:
Que prazer vou ter, meu Deus! Há tanto tempo que não vejo minha mãe e minha irmã. Chegaremos hoje à Goiana?
A Goiana! Pois eu não lhe disse que a nossa viagem não é para Goiana? Se eu voltasse ao Cajueiro ou a Bujari, era o mesmo que ir meter-me na boca da onça.

E para onde vamos nós?
Vamos... vamos para o sul respondeu Lourenço, com voz hesitante. Eu estava me lembrando agora mesmo de um lugar onde podemos demorar algum tempo sem grande risco. Vou cortando para Jaboatão. Aí mora seu Amador, irmão do defunto João da Cunha: Deus se lembre de sua alma. Os Camarões deram-lhe no engenho, e ele, coitado, está preso no Recife; mas como ninguém nos conhece nem a mim, nem a você em Jaboatão, podemos ficar aí mesmo pelo engenho, ou em alguma casinha por perto, até vermos tudo isto em que dá.

Ora! disse Bernardina. Estava já tão satisfeita de ver os meus de hoje para amanhã!
Mas que lhe parece, Bernardina? Não acha que meu plano é bom?
É bom, Lourenço. Que havemos de fazer? Para mim, tendo saído do poder do Tunda-Cumbe, todo lugar me serve para moradia, enquanto não chega ocasião de reunir-me outra vez com minha mãe.

Muita raiva tem você do Tunda-Cumbe.

Nem na hora da morte lhe hei de perdoar o que ele me fez contra a minha vontade.

E por que você não fugiu logo? Nunca achou uma ocasião?
Nunca. Nos primeiros tempos, Tunda-Cumbe deixava sempre no rancho muitos espiões. Eu não era senhora de sair no terreiro sem ser acompanhada. Fui pouco a pouco perdendo a esperança de voltar para a companhia da minha mãe. Além disso, o Tunda-Cumbe disse-me uma vez que ela se tinha mudado de Goiana, e estava em outra terra muito distante. Então tive paciência. Quando reconheci você ontem de tarde, Lourenço, estava longe de cuidar que você havia de aparecer por estas paragens.

Ele nunca lhe falou em se casar com você?
Casar-se comigo? quem? o Tunda-Cumbe? Malvado! depois de ser um parteiro na sua terra, e vendedor de peixe cá, está fidalgo. Ele havia de casar-se com filha de gente pobre?
E se houvesse quem o obrigasse a casar com você, era do seu gosto o casamento?
Eu não quero casar-me com semelhante diabo, renego dele! Quem quiser que o tome para si, que eu passo muito bem sem ele. Um diabo que matou meu pai!
Lourenço deixou correr um instante em silêncio, e tornou depois:
E comigo quer casar-se, Bernardina?
A rapariga, como se não ouvira a pergunta, ou como se fizesse que a não ouvira, nada respondeu.

Diga, diga, insistiu Lourenço, sentindo rápido calafrio a percorrer-lhe o corpo.

Pois você há de querer-me para sua mulher, Lourenço? respondeu ela enfim, a modo de quem via um impossível na idéia do rapaz.

Faça de conta que eu quero, e responda então, tornou ele, cada vez mais empenhado em obter resposta decisiva.

O lugar onde estas coisas se passavam, tinha uma beleza suave, plana e ampla. De um e outra banda estendia-se um varjado, coberto de cajueiros novos, mangabeiras e araçazeiros bravos. Abaixava-se para o lado do ocidente, mas não perdia a sua natural decoração. O sol, que nascera havia pouco, lançava sobre a face dessas milhares de árvores, quase todas do mesmo tamanho, uma neblina de luz, que dando nas gotas de chuva ainda espalhadas nas folhas lisas, fazia sair dali uma imensa esteira de reflexos cristalinos. Dir-se-ia que a maior prodigalidade conhecida atirara por cima daquele extenso arvoredo todos os brilhantes que têm saído das minas do mundo. Era uma região nova, nitente, alegre, fresca, paradisíaca. Lourenço parou o cavalo, e voltou-se para encarar a rapariga, que com um dos braços lhe cingia o corpo. Todo o sentimento dos dezoito anos, vivaz como a natureza circunstante, havia acordado, ora trêmulo e tímido, ora afirmando sua pujança nos impulsos mal refreados. Longe ia a imagem de Marianinha, peregrina na vastidão daquele mundo, apropriada somente à vida do lar, onde não se querem comoções vertiginosas, indomáveis, mas mornas como a família, despertadas pela ternura, não pela paixão. Quem Lourenço sentia junto dele era a mulher ardente, de vigorosas formas, de inebriante contato, mulher que o acompanharia ao coração dos sertões mais adustos, às margens dos rios mais arrebatados, aos braços dos vales mais ingratos, enfim era a mulher que exigia a vida do deserto com todas as suas impressões mordentes, agudas e atrozes.

Mas a fisiologia humana é um enigma indecifrável Bernardina, ordinariamente desembaraçada, guardou silêncio. A sua mão esquerda tremia no corpo do cavaleiro. Este, paciente, pegou-lhe da outra mão, e levou-a aos lábios. Em vez de quente, estava resfriada, não pela temperatura, senão por sobressalto invencível.

Diga, Bernardina instou ele. Você sabe que seus olhos sempre me renderam, que sua danças e cantigas sempre me cativaram.

E porque, ainda com isto, a rapariga continuou tenazmente calada, Lourenço acrescentou:
Ora, deixe-se de vergonhas. Ninguém nos vê, ninguém nos ouve; estamos sós neste deserto, e podemos fazer o que quisermos.

Eu só me casava com você, Lourenço, se tivesse a certeza de uma coisa.

Que é?
Só me casava se você jurasse nunca mais voltarmos ao Cajueiro.

Mas por que não havemos de voltar?
Por quê? Pois você acha que eu teria cara para aparecer como sua mulher diante de minha mãe e de

Marianinha? Se jura que não havemos de voltar lá nunca mais, então sim.

No primeiro momento, Lourenço não soube o que dizer. Compreendeu e achou, além de naturais, muito louváveis os escrúpulos da sua camarada de infância. Desde pequeno na casa do pai, na de Vitorino, nas vizinhanças, o seu casamento com Marianinha considerava-se coisa assentada. Francisco afiançara muitas vezes que esta união havia de realizar-se.

Mas logo depois a paixão, fustigando-o com mais veemência, pôs-lhe no espírito estas interrogações: Por que não havia de sujeitar-se à condição indicada pela moça? Esta condição não estava tão concorde com o tempo? Não ia ele fugindo bem longe, sem saber quando poderia voltar? Marianinha não ficaria solteira, quase certa de não ver realizados os seus sonhos? Enfim, o que Bernardina propunha não era quase a realidade das coisas, na atualidade?
O juramento acudiu aos lábios do rapaz. Se tomasse para a Paraíba, o Ceará ou Piauí, quem saberia mais deles em Goiana? E por que não havia de seguir para um desses lugares estranhos e desconhecidos? Estava assim ele, como ela, na flor da mocidade; ambos tinham grandes energias para o trabalho e a vida; meter-se-iam num retiro ignorado, onde gozariam a existência satisfeitos.

O espírito, ou antes o ânimo de Lourenço, oscilava entre estas idéias de um lado, e aquelas do outro, quando uma lembrança, rompendo como faísca elétrica o nebuloso céu do seu cérebro, o fez empalidecer. Lembrou-se Marcelina e Francisca, seus bons pais, tão ricos de meiguice para ele. Lembrou-se especialmente de Marcelina no momento da despedida, tendo as faces banhadas de lágrimas, rogando aos santos que o protegessem, rogando-lhe que não se esquecesse dela, que esquecê-la era matá-la, não porque precisasse do seu arrimo para viver, mas porque, na sua ausência, o coração dela ficava sangrando de saudades dele, e de sobressalto pela sua conservação.

Saíram-lhe imediatamente dos lábios estas palavras:
— A troco de semelhante coisa, Bernardina, já não quero aquilo que há pouco tanto cobiçava. Deus me livre de não acompanhar minha mãe de perto, a fim de a defender quando ela precisar de ter quem a defenda. Ela fez tanto por mim você bem sabe quando eu era pequeno e estava no mau caminho, que a minha primeira obrigação é dar por ela a vida, se tanto for preciso.

Ouvindo palavras tão consoladoras, Bernardina respirou livremente, e sentiu-se aliviada do grande peso que a oprimia;
— E pensa você muito bem. Era isto mesmo o que eu queria e esperava que você dissesse.

— Mas, observou o rapaz, voltando ao estafado assunto, que tem que vamos viver casados no Cajueiro, na mesma harmonia com todos?
— Está bom, está bom; vamos para diante. Logo falaremos sobre o que você propõe.

Tinham ele descido o declive da planície, e estavam perto do rio Tracunhaém. No lugar onde iam, o rio apenas se dava a perceber pelo medonho fragor das águas. Se não fora este, ainda que por ali se notavam pedras espelhadas, ninguém diria que o tinha a poucos passos de distância mais embaixo. Ficava encoberto por uma orla de árvores espessas de cujos galhos caíam largos panos de samambaia a que um poeta chamaria barbas ou guedelhas daqueles monges seculares. De um e de outro lado apareciam pés de manacá, de cujos ramos pareciam namorar a manhã as flores ora roxas. ora brancas, que lhe matizavam a copa.

O cavalo deu alguns passos, e atravessando, por uma lamacenta trilha, a rústica paragem, achou-se quase de repente à beira do Tracunhaém. Do embastido passara ao descampado.

Descobriram então os dois fugitivos na vasta margem, em sua maior parte alagada, três sujeitos armados. Haviam eles passado o rio pouco antes, e estavam apertando as cilhas das selas, e experimentando os loros, como quem se aparelhava para apostar carreira. Do outro lado, seis tangerinos tocavam para dentro da água uma boiada, passante talvez de cem cabeças.

— Meu Deus! disse baixinho Bernardina, tomada de sobressalto, e buscando o mais possível esconder o rosto por trás do corpo de Lourenço. Que homens serão esses?
— Se não me engano, Bernardina, vamos ter caldo derramado; quem está ali é Pedro de Lima, Manoel Hilário e Chico Andorinha. Mas você não esmoreça, que é pior.

A rapariga quase cai do cavalo abaixo, tamanho foi o terror que estas palavras lhe causaram; mas Lourenço, depois de lhe dirigir outras palavras de animação, seguiu adiante na marcha que ia.

— Lourenço, pelo amor de Deus, voltemos.

O rapaz já não tinha ouvidos para rogativas. Todos os seus espíritos estavam concentrados em um ponto o grupo dos malfeitores.

Logo que Pedro Lima reconheceu Lourenço, voltou-se para os companheiros, e disse-lhes:
— Chegou a hora de tirar uma desforra deste pé-rapado. Meto-lhe a peia e tomo a camarada.

Assim falando, o cabra, que já sabia de quanto o almocreve era capaz, em vez de pegar a peia a que se referiu, segurou o bacamarte e examinou com atenção se a escova estava enxuta.

A esse tempo achavam-se os inimigos a dez passos de distância.

— Tire já o chapéu e apeie-se para passar por baixo da barriga do meu cavalo, pé-rapado de borra gritou o bandido, pondo as pernas ao cavalo, e indo esbarrar com violência e arrogância em frente de Lourenço.

— Tu não sabes com quem está falando, cabra ruim. Era preciso que eu me chamasse Pedro de Lima, que já apanhou com uma bainha de parnaíba na cara, ou Manoel Gonçalves, que já levou Tunda da mão de escravos no engenho Cumbe, para cobrar esta ação de negro cambado.

Pedro de Lima não esperou por mais nada; levantou com a mão direita o bacamarte até a altura dos peitos de Lourenço, e ameaçando-o com uma tabica que trazia na outra mão, replicou alvoroçado:
— Se queres morrer, patife, repete o que aí disseste.

— Negro, eu te direi já com quem é que estás metido.

Firmando-se nas cordas da cangalha em que se estribava, Lourenço deu um salto para agarrar Pedro de Lima, e com a mão procurou tomar-lhe o bacamarte. A esse tempo um tiro soou, e o cardão, em que se empregara toda a carga da arma do bandido, rolou por terra em sangue, estrebuchando.

Imediatamente Lourenço voltou-se, temendo que debaixo do cavalo agonizante ficasse Bernardina. Pode ver então que um dos companheiros de Pedro de Lima tinha agarrado a rapariga pelos braços, e afastava-a do lugar da luta com quem queria pô-la a salvo de qualquer golpe perdido.

Quando encarou novamente Pedro de Lima, estava este desmontado, e tinha uma espada de ponta direita na mão. O bacamarte descarregado pedia-lhe a tiracolo, pela correia. A seu lado estava também armado com uma catana Manoel Hilário, mameluco reforçado, cuja cara por si só era uma provocação de meter medo. Ambos os malfeitores caíram imediatamente sobre o rapaz decididos a fazê-lo em postas.

Pedro de Lima não era fraco, Manoel Hilário era assassino de profissão. Lourenço era a coragem e a força no mais alto grau. À vista dos outros, poder-se-ia dizer dele que era uma criança. As suas feições corretas e finas, a cor branca que mais parecia indicar sentimento de paz e índole branda, a juventude, fase da existência em que se desconhecem ainda os recursos que a experiência e o traquejo do mundo sugerem e aperfeiçoam deviam torná-lo inferior na luta de vida e morte com os dois malvados, mais velhos que ele, mais experimentas e inteiramente familiarizados com o sangue humano pelo assassinato. Quem os visse antes de travada a briga assombrosa, pouco daria pelo jovem, tudo pelos maduros matadores; mas em pouco tempo de assistência e observação, coisa diversa se lhe afiguraria; porque a intrepidez e a temeridade, a energia muscular, a agilidade mais flexível postas em ação por Lourenço lhe davam inquestionável superioridade sobre os dois contendores, ainda que apostados a destruí-lo e aniquilá-lo.

Como conhecessem, logo nos primeiros golpes com que Lourenço respondeu aos deles, a sua incomparável habilidade no manejo da arma branca, trataram de metê-lo entre eles dois; Lourenço, porém, alcançando a estratégia, encostou-se ao tronco de uma ingazeira, conseguindo por este meio impedir que qualquer deles o pudesse atacar pelas costas, fito principal de Pedro Lima.

A luta prolongar-se-ia por mais tempo, se Chico Andorinha não corresse a aumentar a agressão, fazendo frente a Lourenço, enquanto os outros dois bandidos o tomavam pelos lados. Andorinha amarrara Bernardina pelas mãos com um cabresto a um tronco, para que não fugisse. Ele conhecia-a do rancho do Cipó, sabia que com ela estava amasiado o Tunda-Cumbe, e para prestar serviço a este, por baixa adulação, resolvera levá-la à casa.

Em vão Bernardina estorcia-se e forcejava para romper a sua cadeia; em vão carpia, arrastando-se pelo chão, a sua desgraça extrema; em vão pedia socorro, em altas vozes, rogando que não matassem Lourenço, e protestando a inocência dele.

Dessa tribulação veio arrancá-la um estrupido vasto, medonho, após um tiro que ressoara na imensa solidão. A larga margem do rio estremeceu, com uma onda sonora no interior: os terremotos devem produzir o som cavernoso que saiu naquele instante do chão rudemente percutido. Quem não soubesse o que era, julgaria que um cataclismo, revolvendo as entranhas da terra, ia abrir covas profundas, goelas tenebrosas que imediatamente se iluminariam, deixando passar fogo e lavas abrasadoras. O tiro tinha sido dado por Andorinha contra Lourenço; o ruído subterrâneo não fora produzido senão pela corrida da boiada que arrancara da beira do rio, espantada pela detonação do tiro.

Foi então tudo confusão e burburinho. O fato de arrancar uma boiada é vulgar para os que conhecem a vida sertaneja; mas sempre infunde pavor, ainda nos que melhor sabem esta feição daquela vida. Quando uma boiada arranca, uma boiada de duzentas a trezentas cabeças, pouco depois de ter deixado o pasto usual, isto é, quando está em quase todo o vigor, e não tem ainda perdido, pelo cansaço, parte das forças ganhas na vida livre do sertão, não fica incólume e ileso o que encontra à sua frente. O chão arrasa-se, porque as moitas desaparecem e os arbustos acamam-se torcidos ou quebrados sob os seus pés. Os espinheiros ficam lisos. Onde não havia nenhuma trilha, nem uma aberta, mostram-se depois entradas novas, que o homem aproveita algumas vezes. As longas cortinas de cipó pendentes das folhagens das grandes árvores, esfrangalhadas, despedaçadas, ou deslocam-se das alturas donde as suas flores namoravam o sol e o azul etéreo, e vêm alcatifar confusas e revolvidas o chão, ou, partidas ao meio, oscilavam dali em retalhos que resistiram à invasão das centenas de cabeças bicornes que, através deste floridos cortinados com que a natureza decora os tetos e as abóbadas dos sombrios paços de espessura, abriram improvisa passagem, no desespero do pânico bruto. Tudo leva de rojo a mole ambulante, na disparada. A tempestade muitas vezes não produz tantos estragos, não muda tão prontamente os aspectos da solidão.

Bernardina cosera-se com o tronco da árvore, para não ficar debaixo dos pés dos bois. Quanto a Lourenço, seus dias pareciam estar contados. O tiro covardemente desfechado, ferira-o gravemente em um dos ombros. O facão fugiu-lhe das mãos, as pernas cambalearam, o sangue envolveu-lhe o corpo em rubra mortalha. Enfim, caindo quase sem sentidos somente ele dentre os lutadores, ficou exposto a acabar sob o peso da vaga bravia que assolava a paragem, porque os outros, não tendo podido montar os cavalos que correram espavoridos, se haviam suspendido a galhos superiores de árvores próximas, e dali aguardaram que passasse o vertiginoso soão.

Capítulo X

Por alguns momentos ouviu-se, agora perto, depois mais longe, o rude bater dos chifres das reses, uns contra os outros, o som soturno que despedia de si o chão violentamente contundido pelas patas daqueles animais unidos, conchegados, conforme soem correr em semelhantes ocasiões, o estalar dos ramos, o rechinar das folhas, o espadanar das lamas sem empate nem medida, no varjado esplêndido.

Restabelecidos o silêncio e a imobilidade do ermo, os assassinos desceram das árvores, em busca do ferido. Covardes, faltara-lhes coragem para fazerem frente aos animais alvoroçados e infrenes; tiveram-na, porém, de sobejo, para correrem ao tronco de uma árvore que, com um galho baixo e curvo, sob o qual se metera Lourenço, e que os bois na corrida haviam saltado, o protegera e o salvara.

— Já conhecestes para quanto presto, caneludo, moleirão, que só tens parolas e desaforos? disse Pedro de Lima, arrastando por uma perna Lourenço ao meio da trilha onde a lama quase o afoga. Eu bem disse que este cabra não servia para nada.

E porque, através da mutilada camisa do rapaz tomado de mortal delíquio, lhe descobriu o cinto em torno da barriga, imediatamente o cortou, supondo que trazia dinheiro. O que encontrou foi a luva de couro, dentro da qual estava o papel de doação. Indignado por ter sido iludido em sua cobiça, ia cravar o facão no peito de Lourenço, quando sentiu o braço preso por uma vigorosa mão. Viu então, ao seu lado um homem calçado de botas, vestido de preto, com um chapéu de palha na cabeça: era o dono da boiada. Junto dele estava um dos tangerinos e um negro, que minutos antes haviam passado o rio.

Logo que deu com os olhos no primeiro dos novos personagens, Pedro de Lima abrandou a raiva e a arrogância, mostrando-se outro que ninguém diria ser o mesmo.

— Vosmecê me perdoe, seu João Mateus disse, em tom respeitoso, ao fazendeiro. Há muito que eu tinha umas contas a ajustar com este pé-rapado, que sempre foi muito confiado, e parecia não fazer caso de ninguém. O pior é que, cuidando que ele trazia algum gimbo, só encontrei no cinto magro este papel metido num pedaço de couro velho. Parece que é um patuá  para livrar de arma e de prisão; mas o cabra não tem fé, que o patuá não lhe valeu, e ele fica bem castigado.

Assim falando, Pedro de Lima passou o papel de doação ao fazendeiro que, como se vira nos caracteres ali traçados, uma escritura cabalística e maldita, deu um grito mistura de espanto e consternação, volvendo rápidas vistas a Lourenço. Pedro de Lima e Manoel Hilário, a quem este gesto não escapara, puseram os olhos em cima do fazendeiro, em ar de quem interrogava.

— É uma oração... Não, é uma oração... São palavras diabólicas as que estão aqui escritas, disse-lhes o fazendeiro. Se vosmecês soubessem ler, haviam de reconhecer que este papel tem coisas infernais. Coitado de quem o trazia.

E com gesto nervoso despedaçou o papel, dando mostras de forte comoção, que aumentava de instante a instante.

— Mas acrescentou logo que querem ainda vosmecês fazer deste infeliz? Está moribundo, se ainda não morreu. Deixem-no comigo. “Não matarás,  disse Deus por boca de Moisés aos Hebreus; e esta sentença é hoje um dos primeiros preceitos da Cristandade. Quererão vosmecês ainda matar alguém que já está quase morto?
O semblante do fazendeiro tinha adquirido feições tão particularmente severas e tristes, que não só os dois assassinos, mas até o tangedor, companheiro daquele, se sentiram tomados de espanto.

Pedro de Lima não se demorou a responder.

— Eu não o quero mais matar. Ainda quando ele desta se levante, o que eu duvido, não teria eu mais para quem é tão mofino a minha arma, porque o ensino está dado. Só peço a vosmecê que me perdoe.

Tendo disto estas palavras, cortejou o dono da boiada como quem se despedia, e encaminhou-se para o fechado em busca do cavalo. Manoel Hilário, acompanhou-o, silencioso e cabisbaixo.

Um quarto de légua distante do lugar onde se deu este encontro, via-se dentro de um capão de mato que vinha morrer à beira do rio, uma casa de tacaniça, de aspecto quase claustral, que convidava ao repouso. À volta, fora roçado vasto espaço, destinado a pequena lavoura e criação de aves e animais miúdos. Entre a casa e o mato, do lado sul, era um extenso curral de vacas, e ao lado do norte um curral de cabras. Logo à primeira vista, reconhecia-se que naquela situação agreste estava fundada uma fazendola de gado.

O dono desta propriedade era João Mateus, sujeito magro, de cabelos e barbas compridos, que no meio das brenhas onde se concentrara, lugar semi-bárbaro, quase inteiramente inacessível à luz das letras, levava grande parte do tempo a ler seus livros. Tipo misterioso e incompreensível, cujo segredo ninguém penetrara. Não era casado, nem tinha família de espécie alguma, com exceção de uma negrota que lhe fazia comida, uma negra idosa que lhe lavava a roupa,e um negro de meia idade que era o seu pajem e confidente.

Levantava-se logo cedo, chamava as aves, e com as próprias mãos dava-lhes a ração de milho ou arroz. As galinhas, os patos, os perus, os capotes, depinicavam os caroços, escarvavam o chão, soltavam as suas toadas uma baças, outras argentinas alegres, domésticos, mansos, amigos do seu senhor, em redor do qual se demoravam, como se, presos pela confiança, lhes custasse muito apartar-se de quem era tão bom para eles. João Mateus dirigia-se depois a um e outro curral, e passava as vistas por sobre as reses, algumas cabras que andavam soltas do lado de fora, iam a seu encontro logo que o avistavam, e tomadas de familiar ternura, lambiam-lhe as pernas ou as mãos, na mesma doce entrega da amizade que para o fazendeiro tinha a criação.

Nos primeiros tempos que sucederam à chegada de João Mateus, sumiram-se algumas cabeças de gado; mas depois os ladrões começaram a excluir do número das suas explorações a propriedade do velho, mudança que tinha natural explicação na caridade com que ele tratava aquela gente sem cultura, mas não sem o discernimento necessário para render homenagem à virtude, especialmente se lhe devia gratidão. Os pobres, os viajeiros, os doentes sem encosto encontravam em casa de João Mateus abrigo paternal e piedoso.

A sua fama, porque a fama dos bons homens vai a grandes distâncias como vão os sons, invadira as cercanias e impusera aos que antes o defraudavam, respeitosa afeição que nos últimos tempo se traduziu em estima de filhos para pai. Os próprios bandidos desenfreados não ousavam penetrar na fazenda do Jatobá, senão quando tinham de pedir com que matar as suas necessidades, nunca se apossarem, como dantes, do que lhes não pertencia. A qualquer hora do dia ou da noite, de verão ou de inverno, a porta da casa do Jatobá abria-se para dar agasalho a quem batia nela. Mariana a negra, e Clara a negrota, inquiriam do hóspede se precisava de alimentos ou de remédios; os primeiros davam-lhos elas, os últimos era o ancião quem os ministrava; se o caso urgia, levantava-se ele ainda que fosse fora de horas, a fim de acudir àquele a quem os seus socorros deviam oferecer alívio. E porque as moléstias que ordinariamente atacavam as pessoas do povo naquelas circunstâncias, eram uma dor, umas maleitas, uma maligna, quase sempre a limitada ciência prática de João Mateus e os remédios de que ele dispunha, bastavam a minorar senão a extinguir o padecimento alheio.

Ao passo que cuidava tão paternalmente dos outros, não se descuidava inteiramente de si mesmo. De tudo o que havia dentro das suas terras ele vendia a quem estava nas condições de o comprar; estas vendas, porém, eram feitas sem relevar a mínima cobiça, nem usura da parte dele. O ancião, que diziam ter vindo do Ceará ou do Piauí, comprara a fazenda do Jatobá nos começos da guerra. Recebendo-a muito estragada e empobrecida, dentro de uma mão lhe dera aumento que a todos causava admiração. Quando alguém lhe dizia que seu antecessor não prosperara, porque, por preguiçoso ou desmazelado, não era para andar com semelhante ramo de vida, João Mateus acudia logo, refutando estes descaridosos conceitos.

— A razão não é esta; a razão principal é porque ele tinha talvez grande família, enquanto eu não tenho nenhuma; ele despendia talvez com incontáveis credores, doenças graves, ou largas fianças ou pequenos rendimentos; eu, graças a Deus, não tenho sentido a unha ou o dente destes males que amofinam tantos pais de família amantes dos seus, e dignos da consideração de todos. Não devemos fazer mau juízos dos outros, porque não há réu que não possa alegar a sua justificação ou as suas escusas.

A verdade, porém, é que João Mateus, que não possuía senão aqueles três escravos, não sentia falta, e parecia ir amoedando já alguns lucros de manso e manso. Era isto o que dizia o povo.

Certa manhã, pôs-se a caminho para Goiana com uma grande boiada que ali deveria vender por bom dinheiro. O vaqueiro Valentim ficara na fazenda; com João Mateus iam seis tangedores, entre os quais um de nome Cipriano, rapaz de excelente coração, trabalhador e sossegado. Depois que comprara a fazenda era a primeira vez que arredava dali o pé o dono dela. Quando chegaram à beira do rio, começavam a atravessá-lo os três malfeitores que sabemos.

Os tangedores tocaram os bois para água, e iam estes pelo meio do rio, quando soou o primeiro tiro, o que fora disparado por Pedro Lima; e conquanto as boiadas não arranquem de dentro da água, ficaram as reses tão espantadas, que, com a detonação do segundo tiro, quando já estavam da outra banda, deitaram a correr. Quatro dos tangedores seguiram a boiada praticando esforço, gritando aos animais, a fim de os conterem; dos outros dois, um sabedor das proezas dos malvados deixou-se ficar com o negro ao pé do fazendeiro, para o defender se fosse preciso; o outro Cipriano condoendo-se de Bernardina, correra a salvá-la, sem que o vissem os malfeitores. Quanto a João Mateus, resolvera ir em socorro de Lourenço, parte fraca. Posto que o não conhecesse, a nobreza dos seus sentimentos sugeriu-lhe este procedimento; e foi assim que se achou tão a ponto de livrar o moribundo da fúria dos bandidos.

O fazendeiro tomou Lourenço nos braços com especial expressão de dó. De instante a instante escapavam-lhe dos lábios palavras repassadas de mágoa e aflição:
— Meu Deus! Meu Deus! Quem havia de dizer que seria este o seu destino? Está acabado. Somente a misericórdia divina o poderá salvar.

Com o auxílio do tangedor e do negro, conduziu o enfermo para um lugar mais alto, aonde as águas do rio não tinham podido chegar, e em panos que trazia na maleta presa à garupa, tomou-lhe os golpes, e enxugou-lhe o sangue.

Ali esteve com ele enquanto o negro e o tangedor improvisavam uma balsa para transportá-los à outra margem. Enfim, antes do meio dia, Lourenço ocupava o melhor aposento da casa da fazenda.

Por muitas horas esteve sem fala. João Mateus já sentia desampará-lo  a última esperança de salvar aquela vida, quando Lourenço, depois de um ai que lhe arrancara a dor dos ferimentos perguntou:
— Bernardina? Onde está Bernardina?
— Estou aqui, Lourenço.

A rapariga estava, de fato, à cabeceira do moribundo. Cipriano pudera salvá-la, metendo-se pelo mato, por fugir aos bandidos, no momento em que estes falavam com João Mateus, tomando depois atalhos que lhe eram usuais, descendo à margem do rio cerca de um quarto de légua abaixo do lugar do conflito, atravessando as águas, e enfim levando-a à fazenda onde presumia já estar o ferido.

Junto de Bernardina, João Mateus tinha as vistas presas em Lourenço. Um dos ferimentos era profundo e mortal; requeria toda a atenção e cuidado. Por isso, aqueles dois entes, que parecia dedicarem igual afeto ao doente, não consentiam em deixá-lo entregue somente a si.

Por volta da meia-noite, taciturno, pálido, os olhos encovados, João Mateus mandou que a rapariga o deixasse só com o enfermo. Ela obedeceu, levando os olhos cheios de lágrimas.

Na sala da frente havia um oratoriozinho com alguns santos. Estava aberto; um candeeiro de metal esclarecia-o com sua luz amarelenta, quase lúgubre. Bernardina ajoelhou-se diante dos santos, e fez uma promessa a S. Sebastião, que se via preso a uma árvore, tendo o corpo flechado, segundo reza a crônica, por selvagens. Feita a promessa, a rapariga retirou-se, cheia de esperança e fé, ao interior da casa.

Enquanto esta cena de piedade, que estava no espírito daqueles tempos, e ainda se pratica no seio de muitas famílias, se passava na sala, o fazendeiro, levado por idêntico sentimento religioso, propunha no quarto ao enfermo a confissão, nestas palavras:
— Lourenço, poderás confessar-te?
Abrindo os olhos a custo, o matuto respondeu com voz pesarosa:
— Quem é que me há de confessar?
— O que te pergunto retorquiu o fazendeiro, é se podes cumprir este dever de todo bom cristão.

— Posso e desejo, porque sei que desta não hei de escapar.

O fazendeiro levantou-se, puxou a porta do quarto contra si, deu volta à chave, e tomou por uma portinha que parecia estabelecer secreta comunicação com o aposento contíguo. Era neste que ele tinha em bom recado os seus livros e outros objetos que muito zelava. Ao cabo de alguns minutos estava de volta à alcova, e dizia ao enfermo:
— Lourenço, os teus desejos vão ser satisfeitos.

Lourenço abriu novamente os olhos. À sua cabeceira achava-se um padre com a vestimenta negra e tala. Procurando com as vistas, à luz do candeeiro que alumiava a alcova, o fazendeiro que acabara de falar-lhe, não o encontrou. Volvendo-as depois ao padre, e parecendo reconhecer nele um antigo conhecido:
— “Seu padre Antonio! exclamou espantado.

— Tu me reconheces? respondeu o fazendeiro, que não era outro senão o padre Antonio de Mariz.

Lourenço, sem se poder dominar, tentou um esforço para levantar-se. Estendeu os braços como quem queria prender ente eles o sacerdote; mas, faltando-lhe as forças, recaiu em mortal prostração, banhado de sangue.

O padre, porém, foi em seu auxílio. Inclinou-se sobre o enfermo, e pegando-lhe em uma das mãos, inquiriu brandamente:
— Que queres de mim, Lourenço?
— Que quero? tornou o moribundo. Quero agradecer-lhe a sua bondade, “seu padre. Estou para morrer, mas ainda me lembro do que vosmecê me fez no Cajueiro, do ensino que me deu, e das terras e casa...

E como estas palavras lhe avivassem uma lembrança obliterada inteiramente, procurou, ainda que com dificuldade, na cintura, o cinto de algodão que sempre trazia consigo.

— Os ladrões até me tiraram o papel... o papel que vosmecê, “seu padre, deixou em mãos de minha mãe... Roubaram o meu papel...

— O teu papel agora, Lourenço, é o que cumpre a todo bom cristão. Estou pronto a ouvir-te.

Terminada a confissão, o padre dirigiu estas palavras ao penitente:
— Se Deus se lembrar de ti, e te sarar, imponho-te que a ninguém reveles o meu segredo.

— “Seu padre, a ninguém direi quem é vosmecê; mas meu coração estará a dizer-me, a todo instante, que vosmecê é “seu padre Antonio, aquele que me ensinou a ler, que me deu muitos conselhos, que ajudou meus pais a fazerem de mim gente, que me deu a casa e as terras do Cajueiro, que tem sido para mim um segundo pai.

— Lourenço, o padre Antonio fugiu, e ninguém sabe onde ele se meteu. Quem está aqui, neste homem que vês, de barbas e cabelos compridos, magro e taciturno, mas conformado com a sua sorte, é o fazendeiro João Mateus. Estás ouvindo?
— Pode vosmecê descansar.

— Agora pega-te com Deus, e repousa.

Desaparecendo na porta que dava para o aposento secreto, o padre foi dizendo consigo estas palavras:
— Podes agora comparecer perante o Supremo julgador dos homens. O teu dever de cristão e o meu de sacerdote estão cumpridos.

Lourenço porém não estava destinado a acabar obscuramente, no seio daquela solidão agreste de poucos conhecida. Dentro de alguma semanas, graças à solicitude do padre e de Bernardina, começou a sair da região da vida que parece pertencer aos domínios da morte, tão confuso e sombrio é o seu horizonte, tão longo o crepúsculo que aí reina. As forças voltavam-se lentamente, por fios tenuíssimos ao princípio, por mais grosso canais depois, que lhe traziam ao coração e o cérebro a riqueza do seu antigo ânimo.

Uma manhã, o padre, que penetrara a forte inclinação de Lourenço por Bernardina, levantou-se muito cedinho, como de costume, e encaminhou-se ao curral das vacas, onde encontrou já Cipriano tirando leite. Imediatamente mandou chamar Bernardina para ajudar o vaqueiro no serviço.

Logo que chegou a rapariga, disse o padre a Cipriano:
— Dize-me cá uma coisa, Cipriano: que idade tens?
— Vou fazer vinte e dois anos.

— É uma idade casadoira, e não sei porque ainda está solteiro.

— Como me hei de casar? O que eu ganho mal chega para mim e para minha mãe.

— Não seja esta a dúvida. Tens-me prestado muitos serviços, e eu não desgosto de ti, porque és um bom rapaz. Venho em teu auxílio. Procura uma rapariga que te agrade, que te darei gado e terras bastante para principiares uma fazendola.

Cipriano, que nesse momento batia no ubre de uma vaca a fim de chamar o leite, ergueu-se e pôs o olhar no seu interlocutor, com quem perguntava se nas palavras proferidas estava uma promessa real e séria.

— É o que te digo retorquiu o padre. Procura uma consorte. Mas parece que em toda esta redondeza não encontrarás nenhuma. Verdade seja prosseguiu que para este inconveniente teríamos um remédio ao pé de nós. Olha lá. Tu salvaste Bernardina das unhas dos bandidos, atravessastes com ela os matos e o Tracunhaém, expuseste por ela a tua vida em terra e nas águas, porque o Andorinha, tanto que deu pela falta, entrou a rastejar a fugitiva, para ver se a descobria. Ora, à vista de tanto risco que correste, de tanto esforço que puseste em salvar esta menina, justo parece que ela sinta por ti, senão afeição, ao menos qualquer inclinação, que possa vir a ser no futuro um respeitável amor conjugal. Que dizem vocês?
Não disseram uma palavra sequer o rapaz nem a rapariga.

O padre, porém, conheceu que as suas palavras tinham tido o efeito que ele calculara.

— Não se vexem com isto tornou. Pensem no futuro que lhes ofereço, e que Deus há de abençoar. Amanhã a esta hora e neste lugar dar-me-ão a resposta.

E retirou-se, deixando Cipriano e Bernardina no trabalho de ordenhar as vacas.

Tanto que o padre Antonio deu o andar, Bernardina disse, à meia voz:
— Não pensei que seu João Mates me chamava para me fazer esta entrega.

Cipriano acudiu logo:
— Para que você diz isto, sinhá Bernardina? Ele nos quer bem. Se não quisesse, ele não propunha este negócio.

— Mas ele sabe se eu quero casar com você?
— Ele não sabe, nem eu sei. Mas a intenção é tão boa para você como para mim. Lá a você não querer casar comigo, é outro caso.

— Pois eu não quero casar com você, não, seu Cipriano, disse Bernardina com disfarce.

Cipriano não respondeu.

E porque tinham acabado o serviço, cada um se encaminhou para a casa com sua panela cheia de leite.

Logo depois, encontrando-se o vaqueiro com Bernardina, junto do chiqueiro das cabras, disse-lhe estas palavras:
— Pense no que faz, sinhá Bernardina. Olhe que manhã bem cedo tem de dar a resposta a seu João Mates.

— Eu já sei que resposta hei e dar.

— Qual é?
— Você quer saber?
— Quero, sim, porque tenho meu interesse aí também.

— Pois amanhã saberá e talvez o seu interesse tenha a sorte de ovo goro.

E fugiu para dentro da casa. Mas antes de anoitecer de todo, teve ela de ir ao poleiro buscar uma galinha para Lourenço; e quando se aproximava do jirau onde as galinhas dormiam, viu tomando chegada, um vulto que veio para junto dela. Era Cipriano, que, segundo indicavam as aparências, não pensara em outro assunto durante o dia, senão no casamento, e andava rondando a rapariga.

— Então, sinhá Bernardina, que decide você? perguntou ele, pegando de surpresa, da mão da filha de Vitoriano.

A rapariga estava triste. Em lugar da natural vivacidade, que não perdiam nos mais arriscados transes, tinham seus olhos uma expressão de mágoa íntima. Em seu espírito operara-se uma revolução, cruel e devastadora. O padre Antonio chamara-a depois do almoço, e tivera com ela uma larga conferência.

— Menina, dissera ele, seja qual for o favor que a sorte tenha lhe guardado no futuro, não se pode duvidar que o seu casamento com um rapaz de bons sentimentos, e de costumes ainda melhores, fora a maior felicidade, e você não a deverá recusar. Você não conhece Cipriano, mas eu dou testemunho das suas excelentes qualidades. Em toda esta redondeza não há nenhum que possa ombrear com ele na diligência, no trabalho, e no bom coração. Não é de hoje que eu o tenho ao meu serviço. Enfim, basta que eu lhe diga, se Cipriano não fosse digno de minha benevolência, eu não lhe daria o que lhe prometi. E o que mais deseja você, minha filha? Melhor marido posso quase assegurar-lhe que em vão procurará no mundo. Demais, minha filha, você teve a desgraça de lhe haverem roubado o único tesouro que traz como dote a filha do pobre. Aceite portanto a minha proposta. Se Cipriano a quiser para mulher, não enjeite a felicidade.

O vaqueiro não era mal parecido. Bernardina sentia até por ele inclinações vagas, que se não fossem as condições que a ligavam a Lourenço naquele momento, poderiam ter-se convertido talvez em amor. Quando o vaqueiro cortou com sua faca de campo a corda que lhe apertava os pulsos, e a prendia ao tronco da árvore, ela sentiu-se tão grata ao moço por esta ação, filha da sua coragem e da sua caridade, que não teve expressões para manifestar exatamente quanto ficara cativa dele.

Arrancando-a, para que assim o digamos, das mãos do perverso, ele não a livrar somente do Tunda-Cumbe, cujo despotismo já não podia sofrer; ele seguira com ela através de matos, atravessara águas impetuosas, e sem o menor indício de a querer aviltar, trouxera-a respeitosamente até a casa da fazenda. Por muito menos têm-se visto acender-se paixões imortais; e tudo leva a supor que no coração da matuta alguma dessas sublimes paixões teria origem, se não se interpusesse entre o vaqueiro e ela o vulto de Lourenço. Este vulto era simpático à menina por mais de um motivo. Ela conhecia Lourenço desde a sua infância e voltava-lhe afeição fraternal, quando foi roubada pelo Tunda-Cumbe.

O sentimento fraternal não era contudo o que ela aninhara no coração depois que Lourenço, revelando a sua paixão, dera mostras de lhe dedicar especial afeto. A rapariga pouco e pouco habituara-se a querer bem ao rapaz de modo diferente. Em sua longa enfermidade esse bem aumentara. A dor aproxima as almas irmãs. Ela sofria com o sofrimento da vítima.

Ao princípio escrupulizara amar Lourenço. “Lourenço pertence a Marianinha, dissera-lhe a consciência em sua linguagem muda, imperiosa. Mas depois, com os cuidados que se julgava obrigada a prestar, e de feito prestara ao rapaz em sua longa doença, a voz íntima fora pouco a pouco abafada pelo sentimento nascente: e este resultado chegara a tal ponto que o sentimento avultara, se tornara força quase invencível, e a consciência, posto que nunca inteiramente vencida, transigira por último.

O amor contrariado torna-se indagador e discutidor. Bernardina, antes de responder ao fazendeiro, pensara no caso.

— Que interesse tem seu João Mateus em me ver casada com Cipriano? Ele não é seu filho, não é seu irmão, não é seu parente, não é nada seu: donde vem este empenho? Eu bem estou vendo que o casamento não é mau, e até não desgosto de Cipriano, que não é feio, é trabalhador, e tem o gênio muito brando. Também estou vendo que a minha pouca sorte, entregando-me a seu Tunda-Cumbe, aumentou a minha desgraça. Mas quem sabe se assim como fui desgraçada com Tunda-Cumbe, não poderei vir a ser feliz com outro homem que não seja Cipriano? O melhor é dizer a verdade a seu João Mateus, já que ele não compreendeu ainda que eu gosto de Lourenço e Lourenço gosta de mim. O melhor é dizer-lhe que eu quero bem a Lourenço, e que só com ele me casarei.

De acordo com esta ordem de idéias, a rapariga deu ao padre Antonio a resposta seguinte:
— Eu não quero casar-me aqui. Lourenço, quando me tirou do rancho do Cipó, foi me levar para a companhia de minha mãe. Se estou aqui, é porque tivemos a desgraça de encontrar-nos com malvados que nos quiseram matar, e a Lourenço deixaram por morto. Esta é a verdade que estou dizendo a vosmecê. Agora, se eu me quisesse casar, então seria com Lourenço que me conhece, e que é meu conhecido desde menino.

O padre, que não contava com esta resposta, pôs os olhos penetrantes em Bernardina, como quem queria ler todo o passado em seu semblante. Ignorando o como compromisso que Francisco tomara para com Marianinha, ficou supondo, por estas palavras de Bernardina, que esse amor que ele tratava de extinguir, tinha as suas raízes nos corações dos dois jovens desde os seus primeiros anos. A suposição fê-lo por momentos considerar mais difícil do que ao princípio lhe parecera, impedir o consórcio; mas tirando argumentos do que acontecera à rapariga, retorquiu:
— Quaisquer que forem as relações que liguem você a Lourenço, minha filha, o seu casamento com ele me parece altamente inconveniente, para não dizer impossível. Eu tenho amplo conhecimento da vida de Lourenço. Se, pela parte que Lourenço tem tomado pela nobreza, já lhe é muito arriscado, não obstante ser solteiro, viver em Goiana, agora, que ele foi tirar a menina do poder do feroz chefe dos bandoleiros do norte, a sua estada lá, tendo em sua companhia a menina, seria a mais direta provocação à vingança desse chefe, e, pelo estado atual das coisas, Lourenço seria irremissivelmente vencido. O homem que a levasse em sua companhia para Goiana, expor-se-ia a morrer. Você, voltando à casa de sua mãe, pode ter desde já a certeza de ser novamente tirada por Tunda-Cumbe. Somente longe dos lugares onde esse bandoleiro domina despoticamente, poderá ter alguma tranqüilidade. Ora, estas paragens estão neste caso; mas Lourenço está impossibilitado de procurar abrigo nelas, porque a sua família, as suas amizades, os seus benzinhos lá é que se acham, e pode-se dizer que de lá não podem ser deslocados. Seja, pois, cordata, e não enjeite a felicidade que se lhe oferece; Cipriano é de um natural muito estimável, eu conheço-o de há muito, e folgaria de o ter casado aqui, ao pé de mim. Deixe Lourenço seguir o seu destino. Seus pais já não são crianças; mais dia, menos dia, hão e precisar dos serviços e amparo do filho. Estou informado que a mãe e a irmã da menina vivem com a mãe de Lourenço; é portanto de presumir que elas, a quem roubou o único protetor aquele que a você roubou a honra, participem da proteção que Lourenço tem para a mãe. Dê você uma prova de benevolência para a sua mãe e sua irmã, não sendo causa, quando por outra razão não seja, ao menos em atenção ao bem estar de ambas, para que se aparte da companhia delas aquele de quem hoje tudo esperam.

Estas palavras exprimiam tão exatamente a verdade, que Bernardina não teve que retorquir ao padre, em resposta. Inclinou a cabeça, cravou as vistas no chão e dali a pouco as lágrimas começaram a apontar-lhe nos olhos.

— Não chore, minha filha disse o padre Antonio. Você ficará morando aqui ao pé de mim. Do que eu comer, vocês hão de comer também. Servir-me-ão de companhia neste deserto, e eu guiá-los-ei na vida, cujos caminhos são tão difíceis e enredados. Em Deus fio que havemos de ter aqui a tranqüilidade de espírito, e paz do Senhor, que em vão se buscaria nestas terras, que o vento da anarquia tem revolvido, e continua a revolver.

O padre, como se considerasse vencida a dificuldade do lado de Bernardina, encaminhou-se para o quarto onde estava Lourenço; era preciso destruir ali o outro obstáculo, porventura mais forte que o primeiro. Mas, sem desanimar, antes fortificado com a vitória ganha, ele tinha quase por certo que igual vitória ganharia. Refletiu alguns instantes em silêncio, antes de penetrar no aposento do enfermo.

Lourenço estava sentado na cama, quando o padre entrou.

Pensava precisamente em Bernardina, em quem o seu espírito andava absorvido.

Tinha terminado a primeira refeição, e ficara encostado à parede, os olhos voltados para a natureza que, pela janela, nesse momento aberta, se lhe mostrava fresca, esplêndida e magnificente.

— Há quantos dias estou na cama? perguntou ele ao padre.

— Há talvez, umas cinco semanas.

— Estou doido por me levantar. Tenho muitas saudades da minha vida no campo.

— E dos teus não te lembras?
— De minha mãe me lembro a toda hora. Não vá ela cuidar que já morri por aí além.

— E é natural que não seja outra a sua idéia.

— Coitada! Quantas lágrimas não terá derramado por mim!
— Não te amofines por isso. Vejo-te quase são; em breve hás de levantar-te. Tanto que puderes montar a cavalo, bom será que não retardes a tua volta. Deves encurtar a aflição da pobrezinha e das outras que com ela vivem hoje.

— É verdade. Sinhá Joaquina e Marianinha hão de pensar também muito em mim.

— Mas a estas terás uma boa nova que levar. Quanto souberem que  Bernardina está bem, e fica amparada... É verdade: devo dizer-te que Bernardina, que parecia estar condenada a trazer os olhos sempre inclinados para o chão pela sua desgraça, dentro em pouco tempo será digna de entrar em qualquer casa de família sem sentir os sangue subir-lhe as faces, ou sem o fazer subir às faces das donzelas e das damas honradas.

— Que quer dizer com isto, “seu padre? inquiriu o rapaz, inquieto e como espantado.

— Bernardina casará dentro de algum tempo com Cipriano.

— Bernardina! exclamou Lourenço violentamente, como se lhe tivesse caído junto um raio. Pois Bernardina vai casar-se?
— Não te comovas tanto, meu filho. Condoendo-me da infeliz rapariga, procurei-lhe essa união, que Deus há de abençoar.

— E foi vosmecê “seu padre, quem lhe arranjou este casamento?
— De que te admiras? Cuidei que esta notícia em vez de te causar escândalo, fosse origem de muita satisfação para ti. Cipriano tem uma parte nestas terras, e tantas cabeças de gado quantas forem bastante para situar, ao lado desta, outra fazenda. Pareceu-me Lourenço, que nenhum outro partido tão favorável se poderia oferecer a essa menina, de quem a sorte tem feito joguete.

— E Bernardina, “seu padre, e Bernardina casa-se por gosto?
— E por que não há de  casar por gosto? Em que parte acharia ela tão bom marido? Em Goiana, onde conheceu seu infortúnio, e onde não pisará sem expor a mil perigos a sua vida e a do homem que a levar em sua companhia?
— Meu Deus! meu Deus! como as coisas se armam! exclamou Lourenço, profundamente abalado. Eu cuidei que Bernardina...

Lourenço não pôde acabar.

A luz fugiu-lhe dos olhos. A razão perdeu-se-lhe em um mar de conjeturas. Caiu sem sentidos sobre o leito.

Correndo a socorrê-lo, o padre Antonio dizia a meia voz, como quem respondia a uma interrogação ou exprobração íntima:
— Antes quero vê-lo morto do que ligado a uma mulher que o não mereça.

Capítulo XI

Ainda hoje o seqüestro é um grande mal, não obstante suavizado pelos princípios novos, mal que até nos indiferentes que o vêem realizar-se produz vexame: pacientes há que à dor da vergonha, preferem o suicídio.

A justiça entra pelas casas estranhas, e como se foram dela, apreende bens ali que os donos não deixariam passar, contra sua vontade, ao poder de outrem, sem defesa ou resistência formal, não raro ensangüentada. A justiça procede assim, fria, inexorável, algumas vezes arrogante, sempre hirta. Em certos casos, talvez não cumpra o seu ofício com os olhos enxutos; mas, dado que isso aconteça, como ter uma prova da sua piedade, se a justiça traz nos olhos uma faixa que os vela? A verdade é que a justiça não chora nunca, não tem coração, não tem entranhas: a justiça não tem o direito de chorar, direito vulgar que pertence a todos, até ao que não tem direito nenhum.

Era, ao menos, assim a que em Goiana, quando na fazenda do Jatobá se passavam os acontecimentos que sabemos, invadiu com surpresa dos moradores o engenho Bujari, onde haviam feito estada a aflição e o luto, desde que ali se teve notícia do falecimento do sargento-mor.

Acompanhado da fez do foro venal, parcial, ou vingativo, o oficial público, incumbido da execução, não chegou à sala da casa, trazendo a compostura, ainda que severa, da linguagem da lei, chegou ali, precedido por insultadores canalhas, quadrilheiros afeitos a conspurcar a modesta majestade das famílias desamparadas, e a assenhorear-se do que nos lares desprotegidos encontravam agradável à sua cobiça; chegou ali trazendo carranca e esgares pavorosos, pelos quais se podia aferir a sua brandura, ou antes, a sua intenção. Bastará dizer que faziam parte do séquito o Tunda-Cumbe e o Pedro de Lima, nunca assaz execrados bandidos do rancho do Cipó.

Os insultos ignóbeis, as zombarias torpes não tiveram forças para vencer o espírito da jovem viúva. Em vez de se abater com esta face da sua adversidade, colheu ela novos alentos da aspereza do transe, primeiro tão rude por que passava.

Dois escravos, únicos que no engenho restavam da avultada fábrica, inveja de muitos vizinhos, e que, vendo aproximar-se o bando, tentaram a fuga, quase pagaram com a vida esta dedicação à senhora de engenho. Animais, móveis, jóias, tudo quanto representava qualquer valor, foi irremissivelmente seqüestrado. O sargento-mor, embora falecido, estava indiciado em crime de primeira cabeça; todos os seus haveres deviam ser confiscados para a coroa, nos termos da tenebrosa Ord. do Liv. 5º. Era isto o que dizia o executor, era isto o que repetiam, vociferando irados, os sequazes, dignos daquela legislação de sangue e rapina, que os tempos justificava, mas não enobreciam.

Logo que recebeu a intimação para despejar o sobrado, D. Damiana, voltando-se ao santuário, que ainda se via em cima de uma mesa, pôs os olhos na imagem de sua devoção, e, traindo a amargura que lhe ia na alma, disse:
— Para onde hei de ir, Virgem da Conceição?
Uma resposta amiga não se fez esperar:
— Para a minha casa, sinhá D. Damiana, para minha casinha, que há de ter muita honra em recebê-la.

A senhora de engenho, enternecida, caiu nos braços de Marcelina.

— Bem sei prosseguiu a cabocla que ela, à vista deste palácio, não merece que vosmecê volte para ela os olhos; está na mesma esteira dos mocambos dos negros fugidos... Mas terá lá uma escrava para olhar por vosmecê, e dar-lhe água para os pés.

— Havemos de ver disse um dos da multidão havemos de ver até quando durará este amparo reles.

— Há de durar até quando vosmecês quiserem respondeu, sem titubear, a cabocla. Eu sei que nada do que é meu me pertence contra a vontade de vosmecês.

— Marcelina, por piedade, cala-te disse D. Damiana, receando-se de roubarem aquele mesmo cantinho obscuro onde podia repousar a cabeça, depois de haver chorado livremente os seus males.

— Pois, já que têm onde se metam, ponham-se no andar da estrada sem demora. Tudo o que está aqui pertence a el-rei, tirado antes o que deve caber aos credores do nobre senhor falecido.

Era, em termos irônicos, a intimação para que saíssem as duas mulheres.

D. Damiana ergue-se imediatamente. As roupas negras, realçando-lhe a palidez do rosto, davam-lhe aspecto senhoril, em que ainda falava a altivez de outrora.

Relanceou os olhos por sobre os móveis que decoravam a sala, e dos quais ia apartar-se para sempre.

Dando as suas vistas, no rápido percurso, com o oratório, pousaram aí um momento, e dos lábios lhe saíram, sem que as vistas se afastassem estas palavras:
— E as minhas imagens também me são arrancadas das mãos?
— Tudo o que existe no engenho, de porteiras para dentro, pertence à coroa, respondeu o oficial que dirigia a execução judicial. De tudo o que os rebeldes deixam, as suas viúvas somente herdam a má fama.

— Vamos, Marcelina, disse D. Damiana, com decisão, voltando-se à cabocla.

E caminhou-se à porta, por entre a turba, que sem intenção, se abriu a fim de lhe dar passagem. Por algum tempo aqueles homens ordinariamente bulhentos, não tiveram uma palavra das suas grosseiras e banais chacotas com que menoscabarem a solenidade de tão aflitivo momento.

Chegando embaixo, Marcelina disse à senhora de engenho:
— Se pudéssemos tirar um cavalo da estrebaria... Daqui ao Cajueiro é longe para vosmecê, sinhá D. Damiana. Como é que há de romper tanta distância a pé?
— Vamos assim mesmo, Marcelina. Nem eles nos deixariam tirar qualquer cavalo, nem os cavalos me pertencem mais. Vamos a pé. Havemos de chegar lá, ainda que seja com a noite ou com a madrugada. Demais, o Cajueiro não é tão longe, como dizes. Daqui uma hora, quando muito, estaremos lá.

A vida de D. Damiana no Cajueiro, ao princípio passada de amarguras quase incomportáveis, foi perdendo pouco a pouco o travo dos primeiros tempos. Não se demorou a resignação, devida em grande parte às condições ministradas por Marcelina, que fazia tudo por adivinhar os pensamentos da sua nobre hóspede.

Uma vez, depois de certa fineza, a viúva falou nestes termos à cabocla:
— Marcelina, tu não nasceste para viver na pobreza; tu devias ser muito rica, e viver em palácio, tão nobre és nas tuas ações.

— Quer vosmecê que lhe diga uma coisa, sinhá D. Damiana? Dentro das casas de palha, na gente pobre, encontra-se muito bom coração.

Era a voz do povo que se erguia, sem floreios, em linguagem trivial, para responder à voz da nobreza vencida, mas não convencida.

A história da aludida fineza conta-se em poucas palavras.

Dois dias depois de estar no Cajueiro,a viúva de João da Cunha travou com ela, a mulher de Francisco, o seguinte diálogo:
— Eu sei disse Marcelina que vosmecê não passa bem aqui. A casinha é pequena e não é digna.

— Muda de conversa respondeu-lhe D. Damiana. Que é que me falta? Vim até encontrar a tranqüilidade e a consolação que haviam fugido da casa grande.

— Vosmecê me perdoe, mas eu bem vejo as coisas. Por sua honra, vosmecê diz que está muito bem; mas pela minha também eu hei de dizer o que conheço.

— Estou muito bem, sim.

— Pois se está bem pode ficar melhor; e isto é o que eu quero dizer. Vosmecê pode mudar de casa, sem ir para muito longe; ficará tão perto daqui que, chamando por mim, eu daqui mesmo ouvirei a sua voz.

— Como há de ser isso então?
— Eu estive pensando ontem de noite e achei o que queria. Lembrei-me de que tenho em meu poder a chave da casa de seu padre Antonio, que fica ai, do outro lado da estrada. É uma casinha bonita, limpinha e boa. Vosmecê sabe melhor do que eu que ela foi dada a seu padre por seu sargento-mor.

— E está sem morador?
— Está, sim senhora. Na véspera de fazer a viagem, que ninguém sabe onde foi, seu Padre Antonio disse-me estas palavras, que nunca mais hei de esquecer: “Como é possível que no lugar para onde vou, tenha de entregar a alma a Deus, peço-te, Marcelina, que olhes por tudo o que é meu, a minha casa, a minha criação, as minhas plantaçõezinhas, de que levo tantas saudades. A estas palavras, acrescentou ele estas outras: “Se eu morrer por lá mesmo, podem vocês dispor de tudo o que lhes entrego, sejam meus herdeiros; mas, enquanto não tiverem certeza do meu acabamento, tratem de minha casa como bons vizinhos e amigos. Eu não tenho certeza de seu padre ter morrido, e Deus queira que ele tenha ainda muitos anos de vida, e muito breve esteja de volta ao Cajueiro, a que deu tantos aumentos deu com a sua presença; mas, enquanto ele não chega, sua casa há de estar se enchendo de aranhas e de ratos, não é melhor estar servindo a quem já foi dono dela e das terras onde ela está, e que já morou e ainda há de morara em ricos palácios?
D. Damiana achou caminho na proposta, e aceitou-a com reconhecimento. E para que tudo saísse à feição, uma preta idosa, muito pegada com a viúva, e que fugira para o mato, por certo desgosto no engenho, vindo a saber as condições que estava a senhora, apareceu no Cajueiro logo depois da mudança desta para ali, onde aquela ficou. Com a nova companhia, D. Damiana passou-se para a casa do padre, continuando Joaquina e Marianinha a morar junto de Marcelina na palhoça que fora levantada entre a lagoa e a casa queimada.

Estavam as coisas neste pé, quando uma noite, por volta das oito horas, D. Damiana, ainda não recolhida ao seu quarto, sentiu ruídos de pisadas por perto da casa. Tinham-lhe dito que, sabedora de estar com ela a escrava Felícia, a autoridade viria tirá-la às escondidas do seu poder, a fim de adjudicá-la, com os outros bens, à coroa. Novos dissabores e novas inquietações para a infeliz viúva.

Era aquele o único benzinho de que estava de posse; era todo o seu haver. E porque na atualidade os serviços da escrava valiam pelo de cem escravos para a senhora de engenho, a idéia de lha tirarem trazia-a sobressaltada e agoniada.

Por isso, ouvindo as pisadas já ao pé da casa, correu à cozinha em busca de Felícia. Esta não se achava ali, e a porta que dava para fora estava aberta.

Tomada de exaltação momentânea, sem medir a gravidade do passo, a senhora de engenho ganhou o terreiro, resoluta a disputar a presa ao roubador que, valendo-se das trevas e do ermo, viera, com emboscada, despojá-la do último possuído.

Junto da porta estava, de pé, um homem que parecia indagar com as vistas, cautelosamente, se havia alguém dentro. Vendo-o só, a viúva como se cobrara novos ânimos, encaminhou-se apressadamente até onde ele estava e falou-lhe com veemência nervosa:
— Senhor, quero a minha escrava, quero a minha escrava. É o único bem que me resta; todos os mais levaram em nome de el-rei; mas ela, não consentirei que a levem. Preciso de uma escrava para o meu serviço. A justiça deve ser feita com a prata, os brilhantes, os móveis, os bens de raiz e até os santos de que me privou, quando eu deles mais necessitava para minha consolação. Faça de conta que Felícia já não existe, ou anda fuga. A única súplica que faço à justiça de Goiana é que me deixe a minha negra.

Estas palavras foram um raio de luz no espírito do desconhecido que, a modo de espanto e confuso, nenhuma palavra dirigira à agoniada senhora. Em lugar de afastar-se correu para ela, como quem queria tomá-la nos braços.

Este gesto atemorizou a viúva, que só então pareceu medir o alcance de sua temeridade.

Faltou-lhe inteiramente a coragem para sustentar o seu papel. Quis correr, mas entrara tanto pelo terreiro que quem quando com os olhos buscou a porta da casa, viu entre esta e ela, o desconhecido, que se adiantara e se aproximava cada vez mais, fazendo menção de a querer cingir com os braços.

— Não corra, não corra de mim, sinhá D. Damiana.

Foi tarde. Temor pânico tomara a gentil senhora, e após o temor viera o delíquio. Se o desconhecido a não amparasse, se a não sustentasse contra o peito, ela daria com o corpo em terra, tamanha fora a exaltação que lhe esgotara os poucos alentos deixados pelas adversidades recentes.

O desconhecido era Lourenço. Acabara de chegar da fazenda do Jatobá. Deixara o cavalo preso pelas rédeas no fundo do sítio e viera, pé ante pé, cauteloso, para não ser visto, a fim de atravessar incólume a estrada e ganhar o lado oposto. Contando com o sítio desabitado, tomara por ele para maior segurança; mas, vendo aberta a porta da cozinha, e pressentindo morador dentro da casa, por curiosidade ficara a espiar, quando saiu D. Damiana, que de modo nenhum o pudera reconhecer, não só porque estava longe de o supor tão perto dela, mas também porque era de noite, conquanto esclarecida por tíbio luar, e especialmente porque estava Lourenço trajado muito diversamente do costume, pois trazia chapéu de palha fina, burjaca preta, calças de ganga, botas de polimento, onde retiniam esporas de prata; numa palavra, Lourenço não era mais o matuto chão, descalço e vulgar como quando fugira de Bujari para não cair nas unhas do Tunda-Cumbe.

Toda esta transformação, como bem se compreende, era devida ao padre Antonio que, na hora da partida, brindara ao filho com aquele fato novo, o seu cavalo mais forte que tinha, o selim e arreios do seu uso, alguns trajos caseiros que chegavam exatamente no rapaz, e um cartucho de moedas de prata, não sem recomendar-lhe primeiro que fosse tratando de se apresentar mais dignamente, para que tivesse a consideração dos homens de bem; que deixasse a vida errante, e se empregasse em trabalhos estáveis; que fugisse de batebarbas com quem quer que fosse enfim, que se desse o respeito para que qualquer malfeitor não se julgasse no caso de lhe fazer o que os três malvados haviam praticado com ele semanas antes.

— Se tu não andasses com mulheres dos outros na garupa, não havia de acontecer o que te aconteceu.

Por último, disse-lhe o padre Antonio:
— Até aqui, tenho somente tratado de ti; quero agora dar-te instruções que se ligam com o meu interesse. Ainda uma vez te encomendo, Lourenço, que a ninguém, exceto Marcelina, te suceda declarar o nome do dono desta fazenda. Não quero fazer juízo temerário; mas uma vez íntima, a voz de Satanás está a dizer-me que, se os  frades de Goiana forem sabedores da minha estada nestas paragens, são capazes de mandar tirar o restante da minha inofensiva existência, somente porque não consenti em prestar-me a auxiliá-los nos seus planos de iniqüidade e feroz vingança. Sê prudente e cauteloso. Não tenho grande apego à vida Lourenço, mas não desejo que ela me seja tirada por outrem, senão por Aquele que me achou merecedor de guardar este pesado depósito.

Ainda não de todo restabelecido, Lourenço deixara a fazenda, por não poder vencer o desgosto de ver Bernardina casar-se com o Cipriano.

— Está em minhas mãos dissera ele mais de uma vez impedir este casamento, que tanto desgosto me tem dado; era só eu querer; tomava a rapariga outra vez na garupa e abalava para este mundo que não tem fim. Mas, o muito que devo a “seu padre Antonio, que foi que me arranjou tamanha desgraça, prende-me tanto as mãos, que eu não posso ser bom em nada.

Bernardina, acometida de grave enfermidade, ficara em cima de uma cama, às portas da morte.

Capítulo XII

A chegada de Lourenço foi uma festa, uma primavera para todos no Cajueiro; não foi somente uma festa, foi principalmente uma ressurreição, uma evocação que reviveu ilusões e esperanças mortas, porque ele já tido ali por perdido para sempre à vista da sua longa ausência e do silêncio tumular que havia crescido em torno do seu nome.

Passados alguns dias depois da abortada tentativa de tomada de presos, começaram a mostrar-se no Cajueiro, umas vezes à boca da noite, outras ao raiar do dia, nunca em hora certa, sujeitos estranhos, de suspeitas cataduras, que alguns vizinhos diziam ser do rancho do Cipó. Mais de uma vez Marcelina havia surpreendido um ou outro rondando-lhe a casa, como quem espiava a vida dos moradores. De uma feita, um deles, com todo o desplante, encarando a matuta, perguntou-lhe:
— Que novas me dá de seu filho, que há muito ninguém lhe põe os olhos em cima? Pois era agora ocasião de aparecer quem andava por estas beiradas arrotando tanta valentia.

— Eu ia perguntar mesmo a vosmecê tornou a cabocla o fim que lhe haviam dado; porque não sei onde ele para. De todo o mal que aconteça ao rapaz, eu só tenho que me queixar de vosmecês, porque sem razão juraram de dar-lhe fim, desde aquela matinada que os homens fizeram para soltar “seu Cosme Cavalcanti. Começaram a espalhar que Lourenço tinha sido o autor da tragédia, e quase que o matam.

— E quem foi senão ele, que meteu os outros na dança? Não foi outro. Você deve saber de tudo, agora põe-se de fora como quem não sabe como se arranjou a história. Eu só queria ainda encontrá-lo com vida. E se fosse hoje, que estou com os meus calundus, você e ele haviam de ver o bonito.

— Vosmecê não tem razão; o rapaz não é mau.

— Ele sempre foi muito mauzinho, não por você, mas pelos bofes que trouxe do Pasmado. Pelo gosto de você, ele não fazia muita coisa que não era para ele fazer, porque ele não é nada; mas é que ele lhe tomou fôlego,e não leva mais você em conta.

— O que eu sei é que vosmecês deram fim aqui ao meu filho; só me parece que nunca mais o tornarei a ver.

Ditas estas palavras, Marcelina pôs-se a chorar, enquanto o espião, como se comovera, ou convencera, nenhuma lhe voltou em resposta, e deu logo o andar.

Posteriormente, espalhou-se em Goiana que o rapaz tinha morrido. Pedro de Lima dizia a quem queria ouvir, jactando-se da sua proeza, que havia deixado por morto o filho de Francisco, à beira do Tracunhaém, por ocasião de encontrá-lo, vindo ele, Pedro de Lima, entender-se com o Tunda-Cumbe sobre certa diligência de muita circunstância.

Ocioso seria dizer quanto esta triste nova enlutou as mulheres que por tantos laços, cada qual mais estreito, se achavam ligados ao jovem almocreve. Marcelina, conquanto acostumada a receber más notícias desde que Francisco se ausentara, e que Lourenço dera em fazer freqüentes jornadas para fora; Marcelina que, muitas vezes, quando alguém vinha lhe dizer que seu filho estava preso, que o marido era morto, tinha esta resposta invariável: “Tempo de guerra, mentira como terra, desta vez não pode suster as lágrimas por muitos dias; e quanto mais tempo se passava, mais crescia aos seus olhos a certeza daquela infausta nova, que o testemunho pessoal de Pedro de Lima e os dois companheiros, verificado por pessoas sérias, viera confirmar em termos que não admitiam réplica.

Foi nestas condições que Lourenço ressurgiu inesperadamente, vivo, forte, e até mais bonito de feições. A longa estada à sombra, pela enfermidade, e posteriormente pela convalescença, dera ocasião a que suas formas se desenvolvessem e aumentassem, se lhe afinasse e clareasse a pele, enegrecesse o cabelo, apontasse a barba. Essas formas, já varonis, adquiriram um novo dom a gentileza; os olhos, já cheios de brilho, receberam de desconhecido centro de luz novos raios em que se deixava reconhecer o reflexo de paixões impacientes. A expressão dessas esferas luminosas. que graciosamente se moviam entre as pestanas finas e bastas, era banhada em áureas vivacidades, com uns longes lampejos lácteos, que um pintor poderia copiar para primor das suas estampas. Demais e era talvez esta circunstância exterior o que mais afirmava a diferença no trajar, Lourenço já não era o almocreve tu, desasseado e grosseiro; as novas roupas em que apareceu metido, davam-lhe o aspecto que distingue os homens de boa procedência e educação. Poucos meses bastaram para o afeto de pai transformar o filho.

No outro dia pela manhã, reunidos todos na casa ocupada por D. Damiana, Lourenço deu mostras de não ter mudado o seu sentimento para Francisco, assim como tinha mudado de formas e trajos.

— Eu vim somente dizer-lhes, advertiu ele, não morri, porque nem eu posso ficar por muito tempo aqui à vista de todos, nem, ainda que pudesse, ficaria antes de saber notícias de meu pai. Eu sempre cuidei que ele já estivesse de volta; mas uma vez que ainda não veio, uma vez que está sabe Deus onde, devo ir ver se o encontro vivo ou morto.

— Filho abençoado, tornou-lhe Marcelina, era isto mesmo o que eu queria te dizer. Vai, e não voltes sem trazer Francisco adiante de ti. Não me digas nem por graça que ele morreu, porque assim como tu tornaste cada vez mais bonito, quando todos aqui diziam e até eu cuidava que já não existias, assim Francisco há de tornar também, gordo, forte e mais moço, que Deus não há de permitir que meu marido, tão bom, morra por aí além sem ter quem, na hora da morte, lhe chame pelo nome de Jesus.

Nada, porém, ficou assentado quanto ao dia da partida. Lourenço disse que se sentia cansado da longa jornada; D. Damiana, que ficara muito abalada do susto e comoção porque passara na noite precedente pediu tempo para escrever, com a devida pausa e meditação, uma carta minuciosa que Lourenço devia entregar a Amador, único parente que, conquanto preso, a podia atualmente valer e socorrer.

Um ponto negro, que se mostrara logo no horizonte iluminado pela presença do rapaz, começou a avultar de hora em hora a idéia do perigo que ele correria, se se deixasse ficar no Cajueiro, enquanto não seguia para o Recife. Aos olhos de Marcelina, prudente e prevenida, já começavam a aparecer a cada canto os vultos suspeitos, os espiões sinistros que tempos atrás haviam tido as vistas sobre a palhoça, ameaçando devassá-la e esmerilha-la, cantinho por cantinho, na intenção de descobrir quem havia incorrido no ódio dos mascates pela sua dedicação aos nobres. Marcelina tinha o coração nas mãos, de sobressaltada e temerosa que andava. Ainda não haviam decorrido vinte e quatro horas depois da chegada de Lourenço, e já a solicitude da cabocla, estremecendo pela segurança dele, não sabia onde o resguardar de emboscadas e delações inimigas.

— Tu não podes ficar aqui muito tempo, Lourenço. Vê lá como te haveis.

Depois de refletir por alguns momentos, Lourenço, dando mostras de ter achado a melhor solução, tranqüilizou os espíritos com estas palavras:
— Não se importem comigo. Os cabras não hão de lamber-me. Tenho um lugar que ninguém suspeita, e para mim é o melhor que eu podia encontrar. Irei dormir lá todas as noites; e até de dia, estando eu lá. Não há quem seja capaz de descobrir onde estou.

Passou-se o dia sem coisa de maior. Quando o sol desapareceu por trás da mata do Bujari, deixando cair sobre a estrada as primeiras sombras da tarde, o rapaz, armado com faca e pistola uma pistola que encontrara em casa do padre Antonio despedindo-se das mulheres, tomou pelos fundos do sítio do mesmo padre, e alcançou a mata. Logo adiante deu com o cavalo dentro do fechado onde o deixara todo o dia. Em vez de o cavalgar, foi levando-o por um cabresto, com grande dificuldade, porque não podia dar um passo sem lhe ser preciso antes abrir caminho através das folhagens e cipós emaranhados, que faziam redes e tapagens de diferentes formas.

Depois de andar um bom pedaço pelo mato a dentro, parou para se orientar. Tinha o espírito confuso. Perdera-se no labirinto e não sabia onde estava. Com o rigoroso inverno, as antigas veredas haviam desaparecido, e em lugar delas, e onde supunha encontrá-las, o que achou foram árvores novas, cujos galhos se entrelaçavam, fazendo com os longos fios e as miúdas folhas dos cipós, largos panos que o seu braço por fim já se sentia cansado de mutilar e romper. A cada passo ouvia o sibilar de cascavéis, ouvia os suspeitos ruídos da massa enorme da selva que não se afronta impunemente.

— Por onde ando eu, meu Deus? disse começando a apoderar-se de inquietação. Estou perdido. Já nada vejo. Escureceu de todo mais cedo do que eu cuidava. Agora não há outro remédio senão ficar aqui mesmo.

Quando estava neste solilóquio, ouviu, não longe o ponto onde parara, rumor de cavalgada e vozes. Deu mais alguns passos para a frente, e pôde reconhecer, por entre as sombras da noite, que estava não no seio da mata, como julgara, mas à beira do cercado do engenho Bujari. Obra de cinqüenta braças na frente dele passava a estrada, e pouco adiante se deixava ver, como uma grande laje escalvada e negra, a casa grande do engenho.

— Ora, meu Deus! Como vim parar aqui?
Ficou um momento em silêncio, observando o lugar, combinando as idéias, buscando uma resolução.

Não tardou muito que lhe ocorreu um pensamento singular, e, na realidade, original o de pernoitar na própria casa do engenho, que, conquanto seqüestrada com os demais bens do defunto, nenhum destino se lhe havia dado ainda.

— É, e não é arriscado dormir lá disse Lourenço, como se praticasse consigo mesmo. Quem é que há de pensar que eu vou dormir no engenho? Ainda que soubessem que eu já estou em Goiana, ninguém havia de me julgar com a coragem de ir recolher-me na casa grande, quanto mais não havendo quem saiba que eu cheguei. Em vez de arriscado, eu acho até que é o lugar mais seguro que possa encontrar por aqui para estar. Nunca ninguém há de ir lá em minha procura.

Lourenço quebrou as varas do cercado, para que o cavalo pudesse passar, e, logo que lhe pareceu estar longe a cavalgada atravessando a estrada, tomou para a casa grande.

Chegando aí, estranhou quase tudo o que viu. Nada há que desfigure tanto os lugares destinados à habitação do homem como deixá-los por algum tempo sem habitador, porque tomam conta dele outras habitantes de diversa natureza, tomam conta dele os matos, os musgos, as parietárias, os bichos peçonhentos: a situação demuda-se: as paredes amarelecem ou enegrecem: aqui escalam-se, acolá embuçam-se nessa vegetação parasitas que estendem os seus domínios mais depressa pelas regiões onde pisou o pé, ou pousou a mão humana, do que nas regiões virgens em que plantas mais fortes e avultadas não lhe dão lugar à invasão.

À roda da casa nascera um jerobebal espesso, em cujo fechado poderia esconder-se, não só um homem, mas muitos homens; dentro dele, em caso de aperto, ainda mesmo de dia, Lourenço poderia ocultar-se com o cavalo, sem receio de ser descoberto, a não haver suspeita ou denúncia que determinassem busca minuciosa.

O seu primeiro passo foi para a estrebaria.

— Ponho aí meu cavalo, e deito-me perto dele. Uma noite passa depressa.

Assim fez. A porta da estrebaria estava encostada, mas não trancada. A invernada tinha esburacado as paredes do lado norte,e  pelos buracos penetrava no interior a escassa luz da lua cheia, que mal deixava distinguir os objetos, dando-lhes feições que infundiam pavor.

Lourenço pôs o cavalo a comer na longa manjedoura deserta um pouco de milho que trouxera do Cajueiro, e estendeu-se sobre uma tábua velha, junto da porta.

— O ladrão que entrar aqui há de primeiro pisar em mim, antes de pegar o cavalo.

Tentou dormir, mas não pôde. As sombras do aposento destinado a animais, e não a homens, lançavam-lhe vagos temores no espírito. De um e outro lado ouvia silvos de cobras. Pesados sapos saltavam-lhe por cima do corpo, aumentando a intensidade das impressões desagradáveis. O mau cheiro das emanações deletérias que se desprendiam de restos de matérias corruptas por tantos meses retidas naquele pequeno espaço, onde o ar não girava livremente, começou a produzir no hóspede tonturas e náuseas, que o determinaram a mudar de pouso.

Pensou então em pernoitar no sobrado. Mas havia de deixar o cavalo sem defesa? Ainda se a estrebaria pudesse trancar-se...

Levando a mão à porta, deu ai com a chave na fechadura.

— Ora bem! disse com satisfação. Fechada a porta, já não será tão fácil furtarem o animal. Qualquer barulho me despertará, e em dois saltos estarei cá embaixo.

Lourenço deu a volta à chave, que tirou. A porta era segura. Não se podia por dentro com duas razões.

Rodeou a casa, não sem as devidas cautelas, e vencida a escada de tijolo, parou à porta de entrada, entre as três janelas da direita, e as outras três da esquerda, que davam ao sobrado o aspecto de um convento. Pela entrada principal não podia abrir caminho, visto que estava trancada; mas, com a força das chuvas, ou da ventania, fora aberta a primeira janela da direita, para a qual não era difícil passar do peitoril de pedra e cal com que terminava o longo plano de parede que ladeava a escada, sem esforço pôde ele alcançar o batente, e saltar dentro.

A sala, onde se achava, era a destinada às mulheres. Penetrando aí, sentiu-se tomado de instintivo respeito, porque pouca vezes em vida do sargento-mor tivera ocasião de chegar até o aristocrático aposento de D. Damiana, e sempre que nele entrava, era seguido de todos os escrúpulos que a nobreza e a representação da gentil senhora impunham aos que mais ou menos dependiam de sua casa.

A admiração do rapaz foi ainda maior quando notou que a mobília nova, comprada por João da Cunha para ocupar o lugar da que fora arremessada de cima do pátio do engenho e aí entregue às chamas pelo bando do Tunda-Cumbe dois anos antes, estava no mesmo lugar em que a vira pela última vez. O santuário, o estrado, o bufete de D. Damiana faziam nascer a ilusão de morar ela ainda na sua casa, longe de qualquer constrangimento, e ainda menos penúria. O seqüestro parecia não ter tido senão um fim o de humilhar a viúva e o nome do orgulhoso membro da nobreza.

Bem depressa porém outras foram as impressões.

A luz do luar, alongando-se pela sala em forma de um vasto lenços da largura da janela, mostrou-lhe a porta da alcova aberta, e lá dentro um vulto de grandes dimensões que aparecia, como uma larga mancha escura, no fundo da parede. Era a cama do casal ausente. do casal que nunca mais se de juntar havia ali, cama altaneira, ao paladar do tempo, para a qual se subia por degraus. Estava nua, mas tinha o estrado em ser.

Lourenço parou defronte dela: contemplou-a por instantes; chegou a comover-se. Aquela armação parecia-se mais com uma eça do que o teto de um leito onde a tranqüilidade e o repouso deveram ter dado momentos de suave satisfação. Os bons tempos tinham passado por cima daquela árvore de felicidade, tinham-lhe levado os adornos e elegância, filhos da posse e condição dos cônjuges, e tinham-lhe deixado os ramos nus, secos e desgraciosos, representavam o arcabouço da passada existência, outrora vestido de lençaria, sedas e damascos, agora mal coberto por tecidos de outra espécie os que fabricavam no escuro e no silêncio as aranhas, essa industriais dos bairros despovoados. Era a imagem viva do casal já desfeito em parte pela morte. Figurava a viúva reduzida à extrema pobreza, desataviada, recolhida, em escuro canto e condição. Tudo o que fora grandeza e soberba desaparecera com o finado consorte.

Logo que se desvaneceu esta primeira impressão que não podia durar muito, porque o momento não era para reflexões filosóficas, nem o cérebro do rapaz comportava larga meditação, ocorreu-lhe a idéia de passar a noite na própria cama diante da qual se achava.

Mas agora eis que lhe surgem novos escrúpulos no curto espírito; nova luta vem aí travar-se: vem o respeito pueril dizer-lhe que não devia ocupar o lugar que pertencera a tão nobres e respeitáveis pessoas. Pareceu-lhe que o vulto do sargento-mor surgiria diante dele, com a usual arrogância, para tomar-lhe satisfação da sua ousadia.

— Deitar-me na cama de seu sargento-mor! advertia ele dentro de si mesmo. Dormirei em ouro lugar, naquele estrado, ou naquele canapé.

Antes de se decidir por qualquer dos móveis indicados, chegou-se à janela para ver se havia alguma novidade da banda de fora. Era tudo silêncio e imobilidade. Abaixando a cabeça para o lado da cavalariça, e prestando atenção como quem escutava, pareceu-lhe ouvir longe, longe, o estalido do milho quebrado pelos forte molares do cavalo. A lua estava no horizonte, e mal esclarecia a paragem com a sua alva luz enfraquecida. Ao cabo de pouco mais a escuridão dentro do sobrado seria completa.

Lourenço voltou-se para a alcova, e ganhou resolutamente a cama.

Por um fenômeno fisiológico, que os sensualistas ou os materialistas talvez expliquem facilmente, em lugar do vulto do sargento-mor, o que surgiu na fantasia do rapaz, foi a imagem da viúva, conjunto de perfeições humanas. Deitar-se na mesma cama onde ela se deitava, afigurou-se-lhe o mesmo que ter a gentil viúva ao seu lado. A intimidade com um objeto de pessoa que consideramos acima de nós, parece dar-nos a intimidade com o próprio dono dele: abate as barreiras, enche os abismos que nos separam.

Ilusão ou fenômeno natural, Lourenço sentiu-se imediatamente outro. Acenderam-se-lhes as paixões, determinando-lhe estremecimentos nervosos. Ofegava, como se a imagem da formosa mulher fora uma realidade, e esta ali estivera com o calor, a suavidade da pele, a voluptuosidade do amplexo e do ósculo, produzindo nele a excitação, ou antes estimulando-lhe as sufocantes ambições da carne. Lourenço pensou em tudo o que a natureza põe nas formas da mulher bela para adoçar no homem, por instantes, as agruras deixadas pelo trabalho, que é a sua lei fatal, pela inveja dos outros homens, pelas injustiças da sociedade, enfim pelas misérias da comunhão exterior, que, se em certos casos protege e ampara, em outros gera crenças veneráveis, destrói incentivos nobres, desnorteia e avilta afetos que devia encaminhar e ajudar a subir, bafeja ruins paixões que desenvolve indiretamente, comunica a bons corações o vírus da sua perfídia, ensina maus caminhos pelo seu exemplo, planta a semente do egoísmo onde havia o germe da generosidade natural.

A ilusão, casando-se com a lembrança, pôs na fantasia do rapaz um quadro completo. Ele reviu, porventura mais vivamente, a cena em que representara vinte e quatro horas antes, perto da casa do padre Antonio, com a orgulhosa senhora de engenho. Sentiu novamente os braços, desta vez com melhor consciência, porque em lugar do inesperado de então, tinha agora o conhecimento prévio e a sensação antecipada, sentiu o doce contato do corpo de D. Damiana, inteiramente entregue ao seu corpo. A precipitação com que atravessara a estrada e fora bater, sobressaltado e aflito à porta da palhoça onde já dormia Marcelina, não lhe tinha dado, além disso, ocasião para bem apreciar os atrativos daquela que carregara em desmaio. Esses atrativos desenhavam-se agora, no fundo sombrio do quarto, como se fora iluminado em tela; e ele via-os distintamente, um por um, cada qual mais encantador, ou fossem os grandes olhos ternos que ela pusera nele quando tornou a si, ou fossem os espessos cabelos negros que pelos ombros se lhe espalharam, ora cobrindo, ora descobrindo o colo anelante, ou fossem as mãos afiladas, aristocráticas, frias, em que ele pegara trêmulo e comovido, ou fossem sobre todos os outros atrativos, o corpo nem muito pobre nem muito rico de carnes, mas muitíssimo graciosos, pelas curvas brandas, pela flexibilidade comparável à das hastes das plantas novas que, ao mais leve toque da viração, se inclinam, e tornam logo à sua natural atitude.

Lourenço viu tudo isto, ora vagamente, ora permanentemente, sem poder ter diante dos olhos outra visão.

Não dormiu um só instante, posto houvesse levado a noite neste sonho fantástico e ideal.

Quando menos pensava a primeira claridade do dia penetrou na câmara.

Passara toda a noite lidando com a viúva do sargento-mor, no dormir mais original que ainda tivera na vida.

Capítulo XIII

Aos vinte e três anos de idade por grandes que sejam os dissabores e desenganos, ninguém pode impor às suas próprias paixões que se não agitem. O coração, como o cérebro, rege-se por leis impreteríveis. Ora, a primeira, ao menos, uma das principais dessas leis é a linguagem prática da força, resistência às adversidades, confiança no volver dos dias, esquecimento das dores passadas, fé não encontro outra palavra que tão bem designe o poder de não cair aos golpes dos acontecimentos, e de arrostá-los com intrepidez fé nas energias físicas e nas aspirações espirituais, que diz interiormente, com acentos proféticos: Não esmoreças, não enfraqueças. És moço, resiste, vence as dificuldades; luta com as resistências que se atravessam. Não vês no mundo, no passado, na história, nos teus dias, não vês os moços dominando terríveis oposições, porque eles têm força, porque os seus músculos, os seus nervos, o seu cérebro ainda têm vigor para muitos anos, para muito tempo, e os anos  e os tempos mudam as circunstâncias, matam inimigos, fazem surgir amigos novos, fazem aparecer outros merecimentos, criam novas recomendações, restabelecem o império da justiça, que é a lei em virtude da qual cada um deve adquirir aquilo que vale?

D. Damiana era um poço de desgostos. De uma alta representação na vila onde nascera, caiu na planície da pobreza, afundou-se na obscuridade. Às sedas e aos brilhantes substituíram-se-lhe jóias e roupas da viuvez. Os sorrisos que soíam entreabrir-lhe os lábios, quando, para comemorar datas distintas se reunia em sua casa a primeira nobreza no lugar, haviam desaparecido sob lágrimas silenciosas e longas, que lhe desciam agora pelas faces cobertas de mortal palidez. É fácil imaginar o desgosto que lhe acarretara a súbita transformação.

Mas uma jóia, um tesouro, havia ficado com ela. Por não lho poder arrebatar a morte do marido, a ausência dos parentes, as injúrias da plebe amotinada e capitaneada pelos inimigos da nobreza, o seqüestro, a rápida mudança de uma existência talvez de fausto para uma existência que estava ao nível das que sustenta a caridade particular; essa jóia, esse tesouro, eram os seus vinte e três anos; era a musculatura nova; eram a s carnes rijas, o sangue puro, o coração sem lesão, a massa encefálica forte, funcionando regular e plenamente.

Para quem está em semelhantes condições, a resignação não tarda, e a resignação em tais casos é o ressurgir das esperanças um instante submersa no mar dos contratempos. D. Damiana conformou-se. As fadas amigas, nas quais se acreditava então, praticando com ela em misterioso e secreto dialeto, tinham lançado no seu espírito estas idéias: Pensarás que o mundo se acabou para ti, com a morte do teu marido, com a perda dos teus bens? Enganas-te. Tens beleza, e estás na flor da vida. Se choras hoje, amanhã poderás ter nos lábios sorrisos novos, mais louçãos talvez que os que perdeste. Se estás agora na miséria, poderás daqui a pouco voltar à abundância, e reergueres o cetro que te caiu da mão.

D. Damiana acreditou nestas vozes lisonjeiras, que não eram vozes de fadas, porque as fadas, como anjos, ou diabos, ou quaisquer influências de semelhante natureza, nunca existiram senão nas superstições dos tempos ignaros que precederam os nossos mas, sim, eram a linguagem natural da consciência, enriquecida e esclarecida pela observação e pelo conhecimento da vida.

Por singular coincidência que não é, todavia, difícil explicar, não ouviu elas advertências íntimas senão depois de ter visto Lourenço. Não era ele o testemunho vivo e irrecusável dessa verdade? De pobre e humilde, que fora, não se ia tornando de pouco a pouco outro, quer quanto às suas posses, quer quanto à sua condição? Não havia achado um protetor o fazendeiro desconhecido, que talvez fosse seu pai visto que tinha para ele extremos de afeto e liberalidade pouco comum? Esse desconhecido não poderia dar-lhe mais tarde tudo o que era seu, e definitivamente afiançar a sua completa independência? Assim como por uma volta inesperada a sorte se tornara propícia para quem dantes rastejava no pó dos caminhos, por que somente para ela, Damiana, havia de ser implacável e imutável? Não era possível que dentro de pouco tempo outra revolução rebentasse contra o governador Machado, a exemplo do sucedera ao seu antecessor, Sebastião de Castro Caldas?
Quem me diz ponderava consigo a viúva quem me diz que, de posse novamente dos meus bens, hoje no poder da justiça ou de terceiros, não  se me deparará outro marido, que me levante da humildade em que ora jazo?
Absorta nesta ordem de idéias, por entre as quais o vulto do rapaz se mostrava na vaga recordação da cena do terreiro, estava D. Damiana sentada à porta do sítio, com as vistas embebidas no laranjal verde e florido que o sombreava, quando pressentiu que se avizinhava alguém. Voltando os olhos, deu com Lourenço, que vinha chegando do engenho.

Vaga impressão de satisfação sentiu a viúva, descobrindo o rapaz. Durante a noite, sem que ela o quisesse. pensara mais de uma vez nele. Fora triste a sua principal idéia. Temia que lhe acontecesse qualquer desastre. Se o prendessem, que seria dela e das outras mulheres?
O seu semblante, talvez por isto, talvez por nascente interesse que a ia prendendo ao rapaz, traiu o prazer íntimo que a vista dele produzira nela. Quanto a Lourenço, trazia no rosto uns longes de palidez, nos olhos brilho único e a modo de amortecido que lhe não eram usuais.

Bom dia, sinhá D. Damiana disse ele à viúva.

Esta, sem se poder dominar, já tinha dito antes:
Graças a Deus que te vejo, Lourenço.

Por que diz vosmecê esta palavra?
Porque... porque estes tempos estão cruéis. A gente deita-se livre, e acorda na prisão.

Teriam andado aqui em busca de mim?
Não, porque não sabem talvez que está no Cajueiro; mas, a idéia de que andam nas tuas pisadas, não me deixa o espírito. A cada canto parece-me ver inimigos e perseguidores.

Lourenço mostrou-se satisfeito com estas palavras, que acusavam da parte da viúva solicitude para ele.

E como sem consciência, tornou irresistivelmente:
Eu também levei toda a noite pensando em sinhá D. Damiana.

Cuidavas, talvez, que me dariam na casa, que viriam fazer-me novos insultos.

Cuidei em tanta coisa, que nem vosmecê sabe. Cuidei em tanta coisa, em tanta coisa, meu Deus!...

De repente, acrescentou:
Vou ver minha mãe como amanheceu. Vou dizer-lhe que os cabras me deixaram em paz por esta.

A primeira pessoa que o rapaz viu sentada à porta da palhoça, com os olhos na direção donde ele ia, foi Marianinha. Pouco depois apareceu Marcelina.

Deitei-me com o credo na boca, Lourenço. Deus te abençoe. Deixa-me tomar um fôlego bem comprido, que levei toda a noite com um peso no coração.

Marianinha disse somente que não era bom Lourenço andar pelas bandas da casa do padre Antonio, porque os mascates que deviam ter os olhos na negra de D. Damiana, podiam vê-lo e prendê-lo. Marcelina achou razão no que dizia Marianinha, mas Lourenço dissipou estes receios, observando que quando tivessem que cercar a casa, haviam de vir de noite, e não àquelas horas.

Na manhã seguinte, voltando Lourenço do sobrado, foi sabedor de uma novidade que o abalou; a casa onde residia D. Damiana tinha sido cercada de noite, e haviam arrancado de dentro a negra Felícia.

Para ostentação do pouco caso, realizou-se a diligência à luz de fachos, e com grande acompanhamento; e para melhor fundamento desta publicidade, haviam feito correr antes voz de fama que naquela casa estavam acoitados, além da negra, todos os escravos que tinham fugido para o mato, logo que a estrela do sargento-mor empalidecera.

Os esbirros varejaram todos os cantos e recantos, não só da casa principal, mas também de todas as palhoças da redondeza. Na de Marcelina a busca foi miúda e paciente.

O troço já se sabe, mas devo repeti-lo, ainda com o risco de me tornar enfadonho era composto, em sua maior parte, da ralé que formava o esquadrão do Tunda-Cumbe. Informado de se planejar aquela diligência, tinha vindo expressamente do rancho do Cipó, a porem por obra as suas maldades, esses vagabundos organizados em um corpo numeroso, que chegava aos pontos mais importantes da vasta região das matas, isto é, daquela região onde se mostravam situados os duzentos  e cinqüenta engenhos que se contavam em Pernambuco. Tristes e lastimosos tempos eram estes, em que “a vil e pífia canalha vagabunda tinha permissão de entrar pelas fazendas e moradas destituídas do poder que as defendesse, a decompô-las, e roubá-las, como por ofício, sem respeito à nobreza dos donos, nem ao decoro das venerandas matronas, nelas assistentes, sem armas, sem forças e sem socorro algum que as amparasse(2). Medonhos tempos em que “metidos os nobres pelos matos, suas mulheres, suas filhas e famílias em triste desamparo, o Camarão e o Tunda-Cumbe roubavam nas campanhas, matando cada qual por sua parte bois, vacas e criações, e corriam e revolviam os interiores mais recônditos das casas principais de Pernambuco, sem cortesia, nem respeito às suas donas(2).

D. Damiana mal pôde resistir ao golpe de lhe tirarem a escrava. Tinha visto, cheia de coragem, ir-se toda a sua fortuna; mas aquele pequeno resto, que era quase metade da sua existência, atento o estado em que se achava posta, não pôde vê-lo desaparecer de seu poder, sem cair de cama.

O desacato, conquanto previsto, e a tristeza em que encontrou a senhora de engenho, sugeriram a Lourenço um pensamento que se deu pressa a realizar. A escrava foi logo arrematada por um senhor de engenho dali perto. Com ele entendeu-se Lourenço; e com o dinheiro que lhe dera o padre, e um pouco das economias destinadas por Marcelina para a compra de um sítio, recomprou a Felícia. É inútil dizer da satisfação de D. Damiana, ao ver entrar novamente em casa a sua escrava de estimação.

Obrigada, obrigada, Lourenço, disse, sentindo algumas lágrimas umedecer-lhe os olhos. Restituíste-me uma parte da minha tranqüilidade, do meu sossego.

Este ato foi origem de novas alterações no Cajueiro. Marianinha que notara grande frieza no rapaz, sentiu aumentarem-se as suas suspeitas e ciúmes.

Uma manhã, voltando Lourenço da casa de engenho, onde continuava a pernoitar, porque mais do que nunca se receava de ciladas, viu na beira da estrada, no ponto que ficava justamente fronteiro à casa de D. Damiana, uma mulher sentada. Era a filha de Joaquina.

Que está fazendo aqui, Marianinha?
Por única resposta, disse-lhe a rapariga:
Olhe, Lourenço: há muito que tenho tenção de lhe dizer os meus sentimentos. Você é muito ingrato para mim.

Marianinha, você parece que não está em seu juízo desde que cheguei.

É verdade que não estou. Vivo triste sem gosto de nada. Desde que essa mulher veio morar aqui, foi-se embora a minha esperança. Vejo tudo cor de carvão.

Que mulher?
Que mulher! Faça-se desentendido. Você bem sabe a quem é que me quero referir.

Tenha juízo, Marianinha. Você está ofendendo com suas palavras uma dona que não é qualquer. Você está dizendo coisas à toa.

Estou dizendo o que o meu peito sente.

Mas eu é que não estou para ouvir coisas que não devo. Que tenho eu com o que seu peito sente?
A rapariga inclinou a cabeça. Não teve outra resposta senão o silêncio e as lágrimas.

Não chore, tornou-lhe o rapaz. Não sei o que querem dizer estas lágrimas.

Esta fingida e calculada ignorância de Lourenço, irritando os melindres da matutinha, deu-lhe ânimo para retorquir, com a cabeça erguida, em atitude de quem exprobrava:
Querem dizer que a sua ingratidão atravessa o meu coração como faca de matador; Bernardina, desgraçada no princípio, vai ter um marido, vai ter sua casa; eu sou mais desgraçada do que ela, porque estou vendo me roubarem aquele que me pertencia.

Eu nunca lhe pertenci, Marianinha.

Dizendo isto, com maus modos, deu o andar, deixando a rapariga sem pingo de sangue nas faces, porque todo ele lhe refluíra ao coração pela impressão nervosa.

No dia seguinte, Lourenço não a encontrou ali; mas, no outro, lá estava, quando ele atravessou a estrada, mais tarde do que costumava.

Logo que seus olhos deram na filha de Joaquina, Lourenço encaminhou-se diretamente para ela, e, com modos ainda mais rudes do que da outra vez, falou-lhe neste termos:
Marianinha, não faça mais isto, não faça. Devo-lhe alguma coisa, para você ficar aqui à espera?
Não me deve nada, mas quero vir vê-lo.

Visivelmente contrariado, tornou-lhe Lourenço:
Não estou para semelhantes impertinências. Não quero que me espiem, nem é bonito você ficar aqui à beira da estrada, onde passa tanta gente.

Mas, ela respondeu-lhe com brandura que quase o enterneceu:
Não se zangue, Lourenço. Eu não lhe mereço ingratidões, o que eu lhe mereço são outros sentimentos. Nós podíamos ser tão felizes...

Felizes? Você é que está na obrigação de buscar a felicidade para mim, ou sou eu mesmo que a devo buscar?
Não se zangue, Lourenço repetiu ela. O que eu defendo não é a sua, é a minha felicidade, que me querem tirar. Eu a tinha no coração; mas isto não valeu nada. Daí mesmo a estão arrancando.

Passando adiante, Lourenço deixou-a ainda mais chorosa que no outro dia.

No momento em que a rapariga voltava à sua palhoça, Joaquina procurava-a na de Marcelina.

Já não é esta a primeira vez que Marianinha me deixa só, e vai meter-se não sei onde. A rapariga anda tão triste que tenho medo de alguma coisa.

Não adivinha você o que é isto? inquiriu Marcelina.

Que será?
Vontade de casar-se.

Não duvido.

Marianinha não se esquece de Lourenço.

Lourenço é uma grande pessoa. Se eu visse minha filha casada com ele, considerava todos os meus gostos satisfeitos.

Eu tenho muito desejo de vê-lo casado. Na idade dele o homem perde-se depressa, se não se casa logo. Ora deixe estar que eu hei de falar a Lourenço, sobre este negócio. Mas não vá dizer nada à menina. Nestes dois dias direi o que se passar.

Marianinha, ao princípio, quase inteiramente desorientada com o que acontecera, tomou, por fim, uma dessas resoluções heróicas que somente o amor sugere, estimulado pelo ciúme.

Hei de vencer Lourenço pela minha constância.

Firme nesta resolução, foi esperá-lo no ponto onde costumava.

Lourenço tinha passado a manhã mais feliz da sua vida. Os seus colóquios com a senhora de engenho nada ofereciam digno de reparo; eram sempre sustentados em termos respeitosos e discretos; a coragem de Lourenço enfraquecia perante a idéia de revelar a sua mais preciosa eleição. Ele e D. Damiana conversavam sobre a guerra, as perseguições, as ocorrências do tempo. O prazer de Lourenço resumia-se em ver a viúva tão graciosa, em ouvir-lhe as palavras tão bonitas: o rapaz vivia encantado pela companhia. A viúva, do seu lado, gostava de ver o rapaz, cujo rosto adquirira grandes atrativos; gostava de admirar nele uma grande ânimo.

Tanto em um como no outro, o que havia, quando assim se embebiam em mútua e branda contemplação, não era senão amor; mas esse amor não sabia como se declarar; era um amor original receio e respeito de um lado, superioridade, altivez, gratidão do outro. Era um amor que ainda não havia amadurecido eis a verdade.

Lourenço fora feliz naquela manhã, porque, da conversação com D. Damiana, notara de parte dela menos altivez, mais benevolência. mais intimidade, e certas revelações de ternura que, conquanto sem a penetração que a educação gera ou aguça, o rapaz interpretou como a confissão tácita de lhe ir dando posse do seu coração.

Vinha ele absorto na consideração de tão grande bem, quando, pela terceira vez, descobriu Marianinha no ponto sabido.

De chofre, passando da satisfação ao dissabor, apressou o passo para aquele lugar. A sua exaltação revelou-se-lhe tão vivamente no rosto, que a rapariga tremeu imediatamente do passo que tinha dado.

Lourenço não pôde dominar-se. Os seus instintos animais, tanto tempo adormecidos, acordaram impetuosos, e ofuscaram-lhe, por assim dizer, o discernimento. Com a violência que tinha quando lhe chegavam estas temíveis manifestações da índole bravia, pegou no braço da rapariga, como se fora um galho de árvore que quisesse arrancar.

Lourenço! gritou ela aterrada. Que é isto, Lourenço?
Ainda pergunta?
A voz soturna foi um novo motivo de pavor para a rapariga,
Não lhe disse que não viesse mais aqui?
Foi o ciúme, o ciúme...

Ciúme! clamou ele irando-se cada vez mais Se para me ver livre de quem tanto me aborrece, for necessário fazer uma morte, hei de fazê-la, hei de fazê-la.

Não me mate, Lourenço suplicou a rapariga em pranto.

Mato-te, sim. Não quero mais enxergar-te diante dos meus olhos.

Vendo no mesmo instante, luzir a faca na mão do almocreve, Marianinha empregou os esforços que pôde para soltar-se. Lourenço correu atrás dela, e chegou a feri-la covardemente pelas costas. O mais vil assassínio ter-se-ia consumado, se a rapariga não alcançasse logo a palhoça.

Lourenço parou à porta, enquanto Marcelina e Joaquina tomavam nos braços a moça banhada em sangue.

Que loucura foi esta, Lourenço. Dize-me, por que fizeste esta ação tão feia? Virgem da Conceição! E eu que cuidava que estavas curado do teu mal natural, desgraçado filho.

De outro lado, Joaquina, indignada, horrorizada, dizia, com a valentia das mães ofendidas:
Pela minha benção, te peço, filha, que não olhes mais para este homem. Esquece-te dele, filha de minha alma.

Lourenço esteve um momento em silêncio, contemplando a sua triste obra. Pouco a pouco, a sua exaltação foi moderando, a sua loucura transitório foi cedendo lugar à consciência.

Caiu em si. A palidez dos finados tomou-lhe as faces. Enfiado, envergonhado, arrependido, deu o andar para onde estava Marcelina, e disse-lhe, pondo as mãos, em atitude de quem suplicava:
Não chore, não chore, minha mãe. Estou arrependido.

Pois não hei de chorar, quando te vejo dar tão triste cópia de ti?!
Perdoe-me, minha mãe. Eu sou um animal, uma fera. Não pensei no que fiz. Tudo isto se acaba, deixando eu o Cajueiro. Vou-me embora, vou-me embora. Se eu já tivesse ido em busca de meu pai, não aconteceria isto agora.

Abraçou Marcelina e saiu enxugando os olhos.

Capítulo XIV

No mesmo dia em que se deu este triste caso, um cavaleiro, acompanhado de vistosos pajens, descavalgou, por volta de três horas da tarde, à porta de D. Damiana.

Não me esperava por aqui agora, prima? perguntou ele, logo que avistou a senhora de engenho.

Esta correu para o recém-chegado. Abraçaram-se com efusão: lágrimas de contentamento orvalharam os olhos da viúva.

Por aqui, Amador?! Eu tinha já uma carta escrita para lhe mandar.

Então pensava que não nos tornaríamos mais a ver?
Que poderia eu pensar, sendo tão crus os nossos inimigos? Só milagre.

Amador sorriu ironicamente.

Sim, milagre foi; milagre do deus-açúcar, ou antes, do deus-dinheiro. Não me compreendes, prima? Não sabe que Cristovam de Holanda, nosso parente, preso pelo Bacalhau a dezoito caixas de açúcar, de que abriu mão a sua mulher, deve o ter voltado à sua liberdade?(6) Não sabe que o mesmo milagre se reproduziu com André de Abril de Souza, Antonio Cavalcanti Bezerra e outros? (6) É um deus todo poderoso o deus-açúcar: Félix José Machado rende-lhe o culto especial que não tem para o verdadeiro Deus aquele que o há de punir pelos seus crimes. Ao deus-açúcar devo também a minha salvação.

Amador tinha entrado. No exterior dava logo a conhecer que ele se tratava à lei da nobreza. Um pouco empertigado, um pouco arrogante, olhando por cima do ombro, era o mesmo que dantes. A prisão não lhe abatera a vaidade. Solto, parecia mais orgulhoso do antes de ser preso,
Percorrendo as vistas por sobre os objetos que cercavam a cunhada, e somente descobrindo neles humildade e modéstia, não pôde fugir de observar, com acento de moralista:
Mas, em que estado a venho encontrar, prima! A última vez que a vi foi ao lado do mano João. Tinha você todos os mimos da felicidade e da nobreza. Venho agora achá-la só, vestida de luto, quase desamparada neste ingrato ermo. Reveses da sorte. Mas Deus é grande. Quando você nem mais se lembrava de mim, entro-lhe pela porta, para velar pelo seu destino. Nada lhe faltará de hora em diante. Estou livre, outra vez livre.

Por ocasião do jantar, Amador desenrolou aos olhos da cunhada o tristonho quadro das perseguições e rigores.

Principiou contando-lhe o que ele próprio sofrera de Luís Brás, o famigerado carcereiro das Cinco-Pontas.

Luís Brás é a imagem fiel dos ministros, seus superiores na hierarquia, seus iguais nas perfídias e manhas. O seu Deus já não é o deus-açúcar; também não é o Deus d’Abrão, mas o deus-dobrão. Os grilhões “feitos a molde de tormento e de martírio, porque não têm mais de um palmo, para impedir aos presos o andar, com o ferro quadrado e farpado para ferir, os elos tão justos que a alguns presos fazem inchar as pernas, os grilhões, inventiva do ministro da devassa, realizada pela Câmara, enchem as mãos de Luís Brás de alourado fruto. “Sem mais ordem de justiça, ele bota nos presos para, a preço de moedas d’ouro, se livrarem deles. Outras vezes, “quando quer que lhas dêem, ameaça-os com eles, o que não produz pequeno lucro. Nenhum dos presos logra escrever duas regras a quem quer que seja, sem pagar a este fiscal da tirania o costumado imposto. “As boas festas que Luís Brás dá aos presos nas ocasiões e dias delas, é convidá-los para grilhões, inventando novas ordens para botá-los, a fim de haver por este modo, em câmbio, moedas d’ouro, porque mais que este, valem em sua mão os ferros. A este cão da porta do inferno, porque inferno é a prisão das Cinco-Pontas, paguei eu o tributo extorquido pela fereza e perversidade. Provei dos seus grilhões, enchi-lhe do meu ouro as mãos. A carta que escrevi à prima, participando o falecimento de seu marido, custou-me seis moedas d’ouro. As pernas, trago-as ainda inchadas do tormento infernal, mais rendoso que um engenho ou uma fazenda. Imagine a prima, pelo que rapidamente lhe estou narrando, o que não padeceram as onze vítimas que compuseram a primeira remessa para Lisboa, o que padeceram André Dias de Figueiredo, Bernardo Vieira de Melo, Cosme Bezerra, Cosme Bezerra Cavalcanti nosso primo, João de Barros Correa, José Tavares de Holanda, Leonardo Bezerra Cavalcanti, Lourenço da Silva e Manoel Bezerra, ilustres mártires em que o governador e os infames ministros primeiro ensaiaram a sua sanha.

D. Damiana escutava, atenta e comovida, esta rápida relação dos padecimentos infligidos aos nobres pelos instrumentos do governador. Por vezes benzia-se, de assombrada do que ouvia, e em que dificilmente queria crer.

Amador prosseguiu:
Com a chegada do desembargador Cristovam Soares Romão, que veio substituir Bacalhau, a sorte dos nobres, se não piorou, não melhorou. Tínhamos visto passar os pés de um cadáver com um sovelão, para verificarem se a morte fora real ou mentida, como fizeram ao respeitável capitão-mor João de Barros; tínhamos visto meterem no subterrâneo das Cinco-Pontas o licenciado David de Albuquerque, porque “sendo advogado insigne e perfeitíssimo, conhecido por tal, e finalmente homem grande nas letras, temeram o governador e o ouvidor que por seu conselho viessem a pagar o mal que a tantos sem razão estavam fazendo um homem quase morto, chagado e sem mãos para servir-se; tínhamos visto mandarem matar o crioulo do Capitão Nicolau Pereira, cortarem-lhe a cabeça, levarem-na ao ouvidor, e receberem deste 3$ de gratificação, por haver aquele crioulo instrumento da justiça divina tirado a vida ao malvado bandido Pedro de Lima.

Pedro de Lima! exclamou a viúva . Já me pagou os insultos e ousadias.

... Tínhamos visto todas estas estranhezas, sem contarmos as prisões, os seqüestros, os despotismos contra a nobreza; e parecia-nos que o novo ministro, conquanto de muitos conhecido por apaixonado e ambicioso, viria pôr cobro a tamanhos desatinos; mas os males não tiveram termo, prima; a ambição e o ódio não desapareceram da face de Pernambuco: Cristovam Romão seguiu o caminho de Marques Bacalhau. Um dos seus primeiros passos foi instar para que fossem embarcados os onze mártires, que a esta hora, talvez, já tenham sido degolados em Lisboa. Tratou depois da devassa, na qual ouviu como testemunhas, hoje um mulato, amanhã um cativo, um vil, um destinado, e com esta madeira erigiu a execrável fábrica destinada a servir de cadafalso à nobreza. O capitão Antonio Bezerra foi recebido a toque de charamelas pelos mascates, regozijados da sua prisão. O Capitão Francisco de Freitas andou quatorze léguas, presas as mãos ambas nas algemas. Por impedir que os nobres se entendessem, foram estabelecidos presídios em vários pontos, dos quais não passam os passageiros, sejam brancos ou pretos, clérigos ou frades, por não terem licença de ir adiante, nem ainda de voltar para trás, por mais que o desejem; somente em Tracunhaém se contam nove. E porque o ódio ainda não se sentia satisfeito, ordenou o governador que o Tunda-Cumbe, com trezentos e sessenta vagabundos, se unisse com o Camarão e seus trezentos índios, para baterem novamente as matas, com cães de caça, “a fim de levantarem aos que, por fugirem dos homens, se haviam acolhido ao trato das feras. Neste exercício passaram largos dias sem verem rasto de pessoa alguma, andando mais de quatrocentas escondidas, e nem de todas as que chegaram a esconder-se puderam prender-se jamais algumas, porque não eram no mato tão afoitos os que as buscavam, como nas casas onde sabiam não haver mais poder que o das mulheres! Prima, o que têm feito contra a nobreza os portugueses europeus com o seu ouro e os seus instrumentos de baixa ou da alta origem, nunca havemos de esquecer.

Amador sobresteve, um instante. Tinha os olhos inundados de estranho e insólito brilho. Depois continuou:
Cinco dias passou sem comer, o capitão-mor Matias Coelho, dentro de um pau oco sem dele sair; e o Capitão Gonçalo Carneiro, homem de mais de setenta anos, outros cinco esteve debaixo da terra em um caixão bem coberto, ficando parte dentro de uma casa e outra parte fora dela, sem ser visto, aberto para ter entrada o ar. O sargento-mor Domingos Coelho Nunes assistiu a uma temporada no meio do Capibaribe, entre umas lapas, sem mais comércio, nem mais trato do que com as águas do mesmo rio, e um filho que lhe levava o sustento. Prima, a valentia dos pernambucanos em lutar com todos os inimigos que esta guerra assanhou como fim de abater egrégias tradições, tem-se manifestado por vários modos que eu me sinto insuficiente para dar a conhecer.

Em idêntica recordações levou Amador o resto do dia.

Na manhã seguinte, deixando o campo das divagações, e mostrando-se mais ligado aos interesses da família, disse à cunhada:
Não lhe parece ser tempo de tratarmos da nossa ida?
Devo dizer-lhe, Amador, que, perdendo meu marido, encontrei uma proteção amiga respondeu D. Damiana.

Esta declaração encheu-me de satisfação; mas devo também dizer-lhe que, vindo a Goiana, não tenho outro fim senão levar você comigo para o seio de minha família, que não é senão a sua mesma,.

D. Damiana não disse uma palavra. Notando este silêncio, acrescentou Amador:
Esteja pronta no mais breve tempo que for possível. Precisam muito de mim no meu engenho. Não posso demorar-me aqui senão o tempo necessário aos aprestos da partida.

Primo tornou-lhe D. Damiana muito lhe agradeço o seu desvelo; mas não estou resolvida a deixar Goiana. Por que razão deixarei a terra onde nasci? Bem sei que estou pobre, porque tudo me roubaram os perseguidores da nobreza; mas, bem depressa me conformei com a adversidade e vivo hoje tranqüila neste ermo, sem outra cobiça senão a de continuar viver nele. Você não conhece os tesouros de ternura das pessoas que me receberam na sua companhia. Marcelina, aos respeitos que, por sua condição obscura, julga dever ter para mim, ajunta afetos que me lembram os de minha prezada mãe; Lourenço, filho de Marcelina, não sabe onde me ponha; a solicitude dele para mim não se pode avaliar. Entre os meus, Amador, nunca encontrei nem hei de encontrar mais verdadeira estima.

Estas palavras, impondo silêncio ao irmão de João da Cunha deram-lhe que pensar por alguns momentos.

Horas depois, voltou ao mesmo assunto, outra era a expressão do seu rosto, o tom da sua voz.

Disse:
Em poucos meses, prima Damiana, aprendeu você uma lição que é a repulsa viva e absoluta de todas as lições da nossa família e da sua vida passada. Muito pode a adversidade; seja, porém, qual for a sua conformidade com as circunstâncias que tanto lhe mudaram os sentimentos, devo declarar-lhe que não acho para isso explicação razoável. Compreendo, e todos compreendem, que, tendo você o espírito elevado e o coração católico, as vicissitudes da sorte gerassem nele menos o desespero que a resignação, e que você visse nos últimos infortúnios largas ocasiões oferecidas por Deus, para dar provas das grandes qualidades de que é dotada. O que nem eu, nem você, nem ninguém poderá explicar, é este enfraquecimento dos laços que a ligaram por tanto tempo a uma vida distinta e limpa. Nem ainda é isto o que mais me admira. Quer saber o que me parece verdadeiramente misteriosos e incompreensível: É a sua indiferença às relações da família; é o seu desapego aos afetos que sempre lhe tiveram os seus parentes, e, entre estes, eu sobre todos.

Mas, quem lhe disse, Amador, que sou indiferente à sua benevolência, às relações da nossa família? Será prova de desamor querer viver no retiro?
Não, é o retiro o que se lhe pode estranhar, prima. É natural que, havendo perdido aquele a que, deve o seu maior lustre, busque ocultar do mundo as suas lágrimas. O que não é natural é que você troque pela proteção que lhe devem os parentes, a que, por caridade, lhe dão humildes estranhos. Isto é inexplicável. Atente bem nisso, prima. O mundo tem mil bocas maldizentes. Vendo você viver às costas de uma família anônima e pobre, o mundo há de ter para mim os maiores baldões. Não há de faltar quem diga que, à baixeza minha, e não ao seu capricho na realidade difícil de compreender, se deve o fato de ficar você vivendo de esmola, quando eu disponho de largos meios.

D. Damiana foi sentar-se mais perto de Amador.

Amador, disse-lhe com voz suplicante, que interesse tem você de privar-me de uma ilusão que me resta na vida? Quero ter toda a franqueza para você. Tudo o que acabou de figurar, já me tinha passado antes pelo espírito. O que o mundo poderá dizer de mim, já o ouvi eu da minha consciência. Mas, Amador por que não lhe hei de dizer toda a verdade? já não poderei viver apartada desta família, sem sentir o coração despedaçado. Não há muitos meses que estou aqui; mas, as cadeias que me prendem a esta gente, são tão fortes, que se alguém as quebrasse, quebraria com elas as veias do meu corpo, e não sei como poderia viver depois disso. Sinto que não terei forças para libertar-me de prisões que são hoje cordas do meu coração.

Amador em poucas horas estava informado de tudo. Soubera de Felícia a história da restituição dela; soubera da triste cena da estrada entre Lourenço e Marianinha. Suspeitou que este e a viúva o amor os enleara em estreitos laços.

Ergueu-se, e deu alguns passo pela sala. Voltou-se depois para a cunhada, em cujas faces a palidez se estampava. Fitou-a, não revelando ódio, sim tristeza; não ira, sim, desdém.

Sra. D. Damiana disse-lhe se se tratasse simplesmente da felicidade de uma mulher, fosse nobre ou mecânica, não seria Amador Cavalcanti quem se interpusesse entre essa mulher e a fonte da sua felicidade, posto que as mulheres, além de caprichosas, são muito fáceis de cegar-se e acham muitas vezes grandeza de leão no verme que rasteja pelo pó. Trata-se, porém, de uma mulher que foi recebida por um nobre, como legítima consorte, digna do seu nome e do seu sangue, à face da igreja e do mundo. Dobrada covardia seria a minha, se eu fosse tão fácil em retroceder, quanto foi fácil à senhora adiantar-se: como irmão desse nobre, tenho o dever de afastar de sobre o seu nome uma mancha iminente. Se eu não procedesse assim, seria mais vilão que o vilão que, valendo-se da adversidade de uma senhora para quem nunca jamais devera erguer as vistas, pode lançar no coração dela germes fatais, de que se geraram serpentes peçonhentas.

A sua intenção é oculta, Amador. Seja claro.

Já compreendi tudo, sra. D. Damiana; de tudo fui sabedor: o mistério de há pouco, penetrei-o. Aquele que morreu mártir de sua nobreza, vai ter um sucessor que nem apelido tem. Os mascates não calcularam com esta vingança, que muito mais os deve alegrar do que a própria morte do sargento-mor João da Cunha. A viúva deste nobre será amanhã mulher de um ente anônimo, que percorre as estradas de Pernambuco, descalço e maltrapilho, vendendo os seus serviços por muito menos dinheiro do que vendia outrora os seus a Tunda-Cumbe.

Meu Deus! Que está dizendo, Amador! Que fiz eu, que autorize a formar de mim este conceito? O senhor ofende-me sem razão. Não preciso das suas lições para saber respeitar-me.

Se esta desgraça houvesse chegado ao meu conhecimento, antes de me ver outra vez livre, eu diria que Deus resolvera extinguir de todo a nobreza de Pernambuco, pela prisão, pela morte, e pela infâmia. Não posso compelir, porque não tenho esse direito, não posso compelir a sra. D. Damiana a zelar a sua própria honra; a minha nobreza, herdada de meus avoengos, aumentada com a educação que me deram meus pais, impede-me de constranger a ter nobre procedimento qualquer mulher que a não queira ter, ainda que essa mulher seja a viúva de meu irmão. Mas, o direito de desprezar essa mulher, que é a primeira a desprezar-se, este eu o tenho, e ninguém pode impedir-me de me o exercitar. A sra. D. Damiana é livre; pode acompanhar-me, pode ficar. O que, porém, lhe afianço é que Amador Cavalcanti saberá perseverar na altura a que tem direito, e aonde não chegarão jamais nunca os salpicos das lamas levantadas pelos animais dos arreeiros ou pelos próprios pés destes.

Amador não deixou tempo para mais a D. Damiana. Voltando-lhe as costas, chamou imediatamente por um dos flâmulos, e, em voz alta, deu-lhe ordem a fim de ter os animais prestes para a volta, no dia seguinte, muito cedinho.

À noitinha, um vulto veio rompendo do fundo do sítio, e, conhecendo gente demais na casa, esteve para voltar; pouco depois, tirou para a cozinha. Era Lourenço que sem ânimo para deixar Goiana tornava ao Cajueiro. Felícia informou-o de tudo. O rapaz quase perde o uso de suas faculdades mentais.

Passada essa primeira impressão, tomou para a palhoça, onde foi encontrar Marcelina chorando. Com a sua presença a cabocla reanimou-se.

Não imaginas o que tem acontecido nestas vinte e quatro horas. Joaquina com a Marianinha mudaram-se das nossas vizinhanças; e sinhá D. Damiana segue de madrugadinha para Jaboatão. O Cajueiro vai ficar bem triste. Quanta novidade em tão pouco tempo, sem a gente esperar! Felizmente, vejo-te ao pé de mim, filho.

Que lhe disse sinhá D. Damiana, minha mãe?
Saiu há pouquinho daqui. Ia banhada em lágrimas. “Nunca julguei disse-me ela que havia de passar por este golpe. Tinha para mim tão resoluto o meu destino!! Mas, que hei de fazer, minha boa amiga? Amador é duro. Falou-me em nome da memória de meu marido. Disse-me que se eu o não acompanhasse, cobrir-me-ia de infâmia; que os mascates, para menoscabarem essa memória, me levantariam mil aleives. Tenho medo da má fama, muito medo. Além disso, não me pertenço, conquanto pareça que sou senhora de mim; pertenço a uma família. Como havia de ser feliz se não tivesse um nome! Na riqueza não vivi melhor do que na pobreza. Mas, que hei de fazer, senão pagar o tributo que se exige de mim? Nunca me esquecerei de ti, Marcelina, nem de Lourenço. Ah! disse ainda ela dize a teu filho que eu lhe quero falar antes de partir.

Sinhá D. Damiana não sabia que eu havia indo embora?
Não sabia. Eu não quis contar-lhe o ato de desespero praticado ontem por ti.

Fez bem, minha mãe; mas o que não farei é vê-la mais.

Por que não hás de vê-la, Lourenço, se a pobre senhora se mostra tão agradecida a todos nós?
Mostra-se muito agradecida? Não tem de que. Não passamos de uns miseráveis que não lhe fizemos senão o nosso dever. Se ela não nos tivesse nesta conta, não havia de deixar-nos com tanta ingratidão.

Quando ia a prosseguir, Lourenço sentiu sobre o ombro uma pressão meiga. Voltando-se rapidamente, viu junto dele a gentil viúva. A mão, que lhe pousara no ombro um instante tomou uma das dele. Nunca o rapaz tinha sentido o doce contato dessa mão fina e deliciosa, senão por ocasião do desmaio da viúva, ou nos fantásticos delírios em que ele se absorvia, durante as últimas noites no sobrado.

Não me queiras mal pelo que eu faço contra a minha vontade, Lourenço, disse ela enternecida. Tenho o coração despedaçado. Minha alma fica no Cajueiro, ao lado de vocês. Mereço mais a tua compaixão do que o teu agravo. Levo comigo a saudade e a tristeza, bem cruéis companheiras; levo-as para bem longe, donde talvez não torne mais nunca a esta terra dos meus pais, das minhas recordações, das minhas mágoas. Não te esqueças inteiramente de mim, Marcelina, nem tu, Lourenço.

Ninguém há de esquecer-se aqui da sinhá D. Damiana, respondeu o rapaz comovido.

As lágrimas acudiram-lhe aos olhos. Deu o andar para a porta e desapareceu nas últimas sombras do lusco-fusco, hora atroz para os amantes que se despedem certos de nunca mais se avistarem.

A liga de Tracunhaém engrossara. Reduzida, pela caçada geral, a trinta membros, compunha-se de quinhentos um ano depois, não se compreendendo neste números os escravos e agregados dos senhores de engenho que com eles se haviam asilado nas matas. O nome do chefe andava de boca em boca. Falcão d’Eça era a égide dos expatriados, a providência dos perseguidos; alguns dos nobres tinham-no por doido, muitos por temerário, a maioria deles por defensor das suas pessoas e fortunas.

Falcão não descansava. Mensageiros de confiança levavam os seus convites suasórios aos pontos mais afastados. Os nobres, que pela distância em que ficavam de Tracunhaém, não podiam sem perigo vir aumentar com suas pessoas o grande núcleo da resistência, remetiam mantimentos, roupas e munições. Alguns tinham contribuído com escravos e moradores.

Todas estas diligências porém realizavam-se com grandes cautelas por evitar os grandes perigos a que se expunham os que nela se metiam.

Como era este o único ponto que o açoite do governo ainda não lograra reduzir à ultima expressão, o governador tinha nele concentradas as vistas. Muitos piquetes varriam quase constantemente as estradas que iam ter a Tracunhaém; muitos percorriam as proximidades do refúgio. A cada momento, para assim dizermos, estavam sendo espiados os menores passos dos refugiados, e somente à conhecida valentia do chefe da liga se devia não se animarem os troços ambulantes a penetrar no esconderijo onde aquele chefe devia ter o centro das suas operações, e que eles por maiores esforços empregados não haviam logrado devassar.

Coisas maravilhosas diziam-se sobre o ponto. Exagerando as forças e recursos dos asilados, o povo propalava e acreditava que o inimigo, por mais poderoso, que penetrasse ali, estaria irremissivelmente perdido. No dizer popular, as matas estavam cortadas de minas. Inexpugnáveis fortificações haviam sido construídas para defendê-la de assaltos. Existia dentro verdadeiro arraial de guerra, onde nada faltava.

Havia exagerações nesses boatos, que explicam a reputação quase lendária, que cercava o nome do chefe da liga e a própria liga.

Ao contrário disso, Falcão d’Eça assentara por maior segurança não ter pouso fixo e ter muitos em vários pontos. Certo havia dentro das matas uma região, um vasto perímetro que os nobres tinham por seguro, e consideravam do seu exclusivo domínio. Dentro dessa região, rica de naturais defesas, em parte aumentadas pelo trabalho dos refugiados, moviam-se estes, segundo convinha. Certo tinham eles armas e munições, víveres e gente para lutar quando oferecesse ocasião; mas pode-se quase afirmar não passavam daí os seus elementos de defesa; porque o pensamento de Falcão não era ficar nas matas por muito tempo, não era somente defender-se, mas principalmente, quando a medida dos seus recursos estivesse completa, fazer irrupção sobre a vila odiada, e dar cabo do governador e dos ministros, ou, ao menos, expulsá-los de Pernambuco, a exemplo do que em 1710 haviam feito a Sebastião de Castro Caldas.

— Nós não somos negros fugidos, dissera ele uma vez a um dos companheiros. Os negros contentam-se com o seu esconderijo. Quanto mais oculto é este, tanto mais lhes convém; porque os negros fugidos, como morcegos, têm horror à luz. Nós somos patriotas, que nos ajuntamos aqui especialmente para combinarmos sobre os meios de lançar fora da terra, que nos deixaram nossos avós, os intrusos que miram apoderar-se da herança que nos deixaram nossos pais. As matas de Tracunhaém não são os Palmares. Aqui há homens livres que tratam de castigar o despotismo; aqui há patriotas que esperam quebrar as cadeias com que pretendem acorrentá-los aventureiros ralados de cobiça; aqui não há escravos, há senhores, que hão de castigar, como a escravos esses estrangeiros, que inculcando-se amigos do povo e atraindo-o a si, têm o pensamento clandestino de tornar-se donos de Pernambuco.

Em um dos primeiros dias de junho de 1714, cortando por manhosas veredas que iam dar na região dos homiziados, onde eram esperados, quatro sujeitos chegaram a um dos pousos.

Seriam dez para onze horas da noite. Chovia copiosamente; as gotas de água, caindo na vasta folhagem da mata, produziam rumor monótono e surdo, que se assemelhava ao do vento nas folhas do coqueiral.

No pouso estava o chefe da liga, que foi o primeiro a recebê-los. Dois deles eram Faustino Figueira e Domingos Gonçalves Freire que, depois de muito buscados pelos bandos do governador, e depois de várias tentativas abortadas para chegarem às matas, tinham realizado o seu intento, auxiliados por mensageiros de Falcão d’Eça.  O terceiro era o nosso conhecido Francisco dos Prazeres, marido de Marcelina. O quarto era Saturnino.

O aspecto do pouso era simples. Em um ponto onde os matos haviam deixado um pequeno espaço livre, mostrava-se suspensa, sobre quatro forquilhas de boa altura, uma ramada mais baixa para um lado que para o outro, em forma de meia-água, sob a qual uma fogueira que esclarecia, tanto quanto era preciso, o âmbito. Não obstante ser muito copiosa, a chuva não ofendia o fogo assim abrigado.

Para livrar-se do mau tempo, tinham os refugiados posto em prática o meio simples que em certas tribos os selvagens empregam: em altura conveniente haviam sido fortemente ligadas por cipós aos troncos de grandes árvores folhas de palmeira, de um e de outro lado, inclinadas obliquamente, de modo que ao mesmo tempo serviam de condutores de águas e de coberta às redes pendentes dos primeiros galhos destinadas ao repouso dos donos durante a noite. Não eram poucas as árvores que se mostravam decoradas com estas palmas largas e compridas, o que indicava não ser pequeno o número das pessoas existentes naquele pouso. Todavia, como nesta indústria não interviera senão matéria prima oferecida pela floresta, não se imaginaria, se não fora a fogueira, que por ali passara a mão do homem.

Faustino Figueira era capitão do terço de linha de Olinda. Por ocasião do levante dos mascates, em 1711, marchara contra o Camarão. Pelo seu arrojo e intrepidez, na batalha de Sibiró, onde praticara atos de bravura, pondo duas vezes em retirada as forças daquele caudilho, tanto se expusera que, perdida a batalha, teve de cair no poder dos inimigos. Remetido para o Recife, foi solto pelo bispo, que era então o governador; mas, com a mudança dos tempos, sendo tenazmente perseguido, escapava às perseguições, asilando-se nas matas de Tracunhaém.

O outro, Domingos Gonçalves Freire, sargento-mor da ordenança em Olinda, e que, na distribuição dos presídios, quando os mascates estiveram sitiados, tivera a seu cargo o comando e inspeção dos pontos que pelo lado daquela cidade fechavam o assédio, receoso de pagar com sua liberdade estes atos de hostilidade contra os mascates, viera com o mesmo destino de Figueira.

Quanto a Francisco, bastará dizer que, não podendo vencer o remorso de prestar serviços aos perseguidores da nobreza, resolvera enfim passar-se para os perseguidos. O ajudante-de-tenente indicara-o a Figueira, exaltando muito a sua fidelidade e discrição.

Foi, talvez, ele o principal guia ao pouso, isto é, o que melhor compreendeu as indicações.

— Graças a Deus, que já posso dizer —“não estou com os mascates, dissera o matuto, penetrando na mata. Eu sei bem que se eles me pegam me penduram logo no primeiro pé de pau que encontrarem; porque antes de tudo sou desertor dirão eles. Mas eu direi que desertor era eu quando lá estava, porque a minha gente sempre foi a nobreza, e nunca os pés de chumbo. Se estive com eles todo este tempo, só Deus sabe quanto isto me custou. Por vontade minha não foi; foi porque encontrando-me com a farda nas costas e pau furado na mão, puderam dar-me leis e obrigar-me a fazer coisas que, em meu juízo e em minha liberdade, eu não faria nunca; Mas agora, lá se avenham; agüentem-se como puderem, que eu, se puder, ajudo a lhes tirar o couro. Estou muito prático no serviço da arma; sou hoje um soldado de patente; podia até ser um sargento-mor. Estou pronto para entrar em fogo, tendo à minha frente “seu Falcão, que é só em quem se fala. Eu também só falo nele, porque tenho muita fé em quem mostra tanta coragem.

Tudo isto dissera Francisco ao entrar na mata. Parecia ter ganhado aí alma nova, ter recuperado os seus antigos espíritos, e até a sua graça e bom humor natural.

— Capitão disse Figueira, logo que avistou Falcão d’Eça trago-vos uma notícia cruel.

— Mais uma que venha não fará mossa na minha couraça. Há dois anos que não recebo aqui notícias de outra natureza, mas dizei-me sempre o que é, dizei logo, sr. Capitão Figueira.

— Tranqüilizai-vos. Não é nada contra as matas de Tracunhaém.

— Contra as matas, retorquiu Falcão, já eles não têm mais nada que pôr por obra. O seu entendimento esgotou-se; digo mal, esgotou-se a sua covardia, a sua perfídia. Somente lhes resta hoje um meio, que a chuva do céu não lhes permite por em prática: é tocar fogo nas matas. Se não fora invernada parece que estas léguas de espessura já teriam ardido, e com elas os que existem aqui dentro, mais prontos para morrer que cuidadosos da vida.

Tinham desembarcado na pequena aberta onde ardia a fogueira. Vendo-os chegar salvos, vários dos refugiados, saltando das redes e dos troncos secos onde estavam, correram ao seu encontro: havia uma como comunicação de alegria em todos, sempre que chegava um novo companheiro. Ao reflexo do fogo, aqueles vultos de barbas e cabelos compridos, de variados trajos, uns altos e esguios, outros baixos e cheios de corpo, quase todos silenciosos; alguns trazendo arma de fogo na mão, e cartucheira a tiracolo, alguns com espadim, ou catana pendentes de cintura, alguns arrimados a grossos cipós-paus; estes trazendo chapéus na cabeça, aqueles trazendo unicamente esta parte do corpo envoltas em lenços de cor, como praticam com lenços brancos as mulheres beatas, ou as de humilde condição, mal se cuidara que ali estava representada a primeira nobreza da província, e que homens de clara estirpe, muitos deles senhores de grandes fortunas, se confundiam assim pelas mostras, com um bando de malfeitores, réus de todos os crimes. Havia, contudo, ali corações verdadeiramente nobres; espíritos verdadeiramente dignos, pelas idéias de engrandecer a terra natal; entre esses mesmos haviam muitos que eram realistas sinceros, inimigos do governador, mas vassalos fiéis que, não sem mágoa, viam em colisão a sua vida e a hostilidade aos representantes do rei, os depositários da autoridade pública.

Restabelecido o silêncio, Falcão voltou ao assunto de que tratara momentos antes:
— Não nos dissestes ainda qual é a triste notícia que tendes para dar-nos.

Figueira respondeu:
— Não fostes sabedor de ter chegado ao Recife uma esquadra de Lisboa, e nela ordem para que o bispo se retirasse cem léguas da sua catedral, a fim de não influir suborno nas testemunhas?
— Fomos sabedores, sim, dessa gentileza do governo da metrópole, respondeu Falcão.

— Pois bem. O bispo já está de marcha para as Alagoas, cumprindo humildemente a vontade caprichosa dos fariseus.

Depois de rápidos instantes de silêncio que sucederam a estas palavras:
— Que vos disse eu, padre Guerra? perguntou Falcão, voltando-se para um dos nobres que cercavam os recém-chegados. Eu esperava que assim tratassem quem já os teria posto fora, se houvesse aceitado o convite para ser o chefe da revolução.

— Mas, senhores disse o padre já a igreja não merece nenhum respeito a quem tem o dever de velar pela majestade dela? Quando a impiedade partia dos aventureiros, nada havia que dizer: os aventureiros profanam os lugares sagrados, e arrancam dos santos as jóias que vendem nas tabernas a troco de cachaça ou bertagel; mas que da corte de Lisboa venha semelhante desacato, coisa me parece esta que excede a medida da maldade humana, e bem indica o ódio de Portugal contra a nobreza de Pernambuco.

— A chegada daquela frota não foi de todo má, visto que esta notícia nos trouxe outra com que devemos alegrar-nos. Veio ordem para que devassasse dos levantes o desembargador Cristovam Soares Romão... disse Domingos Freire.

— O Cutia, o Cutia acudiu Falcão d’Eça... Sim... É boa chita o Cutia. Falas ironicamente, não é assim?
— Não vos pareceu sempre um pouquinho melhor que o Bacalhau, a quem os drs. Ortiz e Brandão deram por suspeito em Lisboa pela sua notória parcialidade a favor dos mascates?
— Melhor! exclamou Antonio Bezerra. Achais pouco o que tem feito? Conheci na Paraíba o Cutia. É capaz de todas as aleivosias, e o tempo vai mostrando se eu não tenho razão. Ah! pensais que nos há de chegar de Lisboa coisa que preste?
Falcão concentrou-se um momento, enquanto os companheiros praticavam de vários assuntos relativos ao ponto principal.

Domingos Freire, que era dotado de gênio jovial, quando os outros consideravam o assunto pelo lado sério, atraiu a atenção de alguns, encarando o lado cômico.

— Senhores, tenho um presente que lhes dar, mas antes de tudo, quero cachaça para tomar uns goles, porque estou resfriado; e depois dos goles, alguma coisa que comer, ainda que sejam pastéis fresquinhos, ou queijadas doces, como as que aparecem nos presepes de D. Úrsula.

— Pastéis frescos e queijadas doces nestas alturas! Sempre te conheci chalaceiro, Domingos, disse Manoel Bezerra.

— Não desconversem. Vocês, que são os donos do rancho, estão na obrigação de dar boa ceia a hóspedes da minha prosápia. Se, por gulosos, comeram na janta o peru e toda a eletria, contento-me com um pouco de carne de sol assada ali na fogueira. Quem é o despenseiro?
— A despensa é franca. Do jantar nos ficou ali um quarto de carneiro. Tira um pedaço, mete-o no espeto, assa-o tu mesmo.

— Asso eu, asso eu gritou Francisco.

— Então faze logo esta obra de caridade às nossas barrigas famintas. Molharemos depois a goela com bom vinho de Lisboa, que deve haver na adega de Falcão.

— Aqui não entra nada de Lisboa, nada da santa terrinha.

— Perdão, perdão, não adverti que estava num acampamento onde se trama contra tudo quanto é europeu.

— Mas olha: ali há ótima aguardente num garrafão. Chegou ontem do engenho Cumbe. Presente que mandaram a Bulhões.

— Mas enquanto não chega o carneiro, dá-nos o mimo que trouxeste, observou Francisco Botelho.

— Isto só ao pé da fogueira.

Encaminharam-se para ali, e em troncos sentaram-se todos os que com Domingos Freire estavam formando grupo. Além de Matias Barbosa, Antonio Bezerra, Manuel Bezerra e Francisco Botelho, compunham aquele grupo Francisco de Melo, João Nunes Tinoco, Lourenço Uchoa, Álvaro Marreiros e Simão Mendes.

— Não é nem brilhante nem ouro em pó; mas é coisa que vale ouro e brilhante. É uma décima que compôs para epitáfio do juiz de fora uma musa nossa patrícia.

— Para epitáfio do juiz de fora?
— Sim, o juiz de fora Paula Carvalho, que é morto.

— É verdade.

— Morreu hidrópico do muito mal que fez à nobreza, e das largas peitas que recebeu da mascataria. Tão hidrópico morresse o Bacalhau que publicamente dizia que a “todos que morassem das pontes do Recife para fora, se não pudesse tirar a pele, havia de tirar a camisa. O diabo os fez e o governador os ajuntou, esse governador alarve, que é capaz de comer um boi numa assentada, tão sevandija que, estando à mesa, mandou buscar o asqueroso e imundo vaso de espúrias pra exoneração do ventre cheio, e à vista dos assistentes, no mesmo ato do comer, estar em ato contrário(2).

— Quem pratica “ação tão fidalga pode presumir-se e afirmar-se que teve  o nascimento em alguma estrebaria, e a criação em algum chiqueiro(2), disse Simão Mendes.

— Vamos à décima, acrescentou Botelho.

Então Domingos Freire, tirando do bolso um papel, desdobrou-o e leu:

“Jaz debaixo de um calhau
Que é de pederneira galho
O defunto juiz Carvalho
Esperando o Bacalhau
Da morte deste marão
Nenhum dos mortais se queixe
Deixe andar o mundo, deixe
Que a morte não acabou
Se ela o Carvalho cortou
Inda há de pescar o peixe(2)

Gargalhadas e palmas, sucedendo-se irressistivelmente a este produto da musa pernambucana do século XVIII, atroaram os ares abafados da floresta.

Quando cessou o estrépito do aplauso, Domingos Freire, voltando-se para um lado, gritou:
— Ó Francisco, traze logo o carneiro.

Francisco entrou, quando ainda soavam estas palavras, no pequeno espaço esclarecido pela fogueira; mas em lugar de carne, o que trazia era um homem agarrado pela véstia. Com grande esforço pudera arrastá-lo até ali. A luta fora tão renhida que parte da camisa do matuto vinha em pedaços.

— Tomem conta do cabra, que já não posso comigo mesmo!
Assim dizendo, atirou para o lado da fogueira com quantas forças lhe restavam o desconhecido, e, por não se poder ter mais em pé, caiu para o outro lado.

Em menos de um minuto o desconhecido estava cercado por todos os que de perto, ou de longe, haviam testemunhado a inesperada cena. Alentada a fogueira de propósito, para que pudessem ser bem reconhecidas as feições do espião, puseram-lhe as cordas, e amarraram-no ao tronco de uma árvore.

Havia por esse tempo no Recife uma mascate de nome Gregório, muito protegido por um europeu chamado Afonso Maciel, de todos temido. Quando o Camarão, primeiro sustentáculo dos mascates ao sul da província, entrou no Recife para visitar Félix José Machado, chegado de há pouco, muito escândalo ocasionou à nobreza Afonso Maciel com os vitupérios e convícios que para ela teve.

Com um grande séquito de conterrâneos seus, fora esperar e receber o caudilho em Afogados, ao som de fagotes e chamarelas. No momento de Miguel lançar ao pescoço do Coração uma medalha em festão lavrada de ouro, Maciel, não querendo ficar atrás, desabotoou o talabarte donde pendia vistoso espadim de bainha de ouro, e cingiu com ele o chefe caboclo. Ao passar pela rua onde morava, alcatifada como se houvera de receber um monarca, ou um benemérito da humanidade, foi a mulher de Maciel, que de cima das suas janelas adornadas com tapeçarias as que mais custosas ostentava, foi a mulher desse europeu a que mais água de Córdova, mais flores, mais confeitos e mais moedas atirou em honra do Camarão. Foi ela a que, descendo da sua morada até a rua, obtida permissão do marido, correu e abraçou o chefe caboclo, que arrogante e ancho de tão estrondosa recepção ostentava à frente dos seus quatrocentos índios, a bizarria de um guerreiro e a altivez de um ditador.

Não lhe faltando meios, porque ele era negociante sólido, não lhe faltando estímulo, porque a maioria dos seus conterrâneos, reconhecendo de quanto era capaz, lisonjeava a sua vaidade, e o incitava a praticar os maiores desdéns para os nobres, disse um dia, no fim de um jantar opíparo, em um dos sobrados da rua dos judeus, que lhe havia de ser o seu Gregório quem daria com o esconderijo de Falcão d’Eça, e quando não pusesse as algemas neste rebelde, havia de tirar-lhe a vida, para que não tramasse novo levante, e de uma vez para sempre ficasse ensinado. Fora dito isto depois de larga comezaina e de copiosos licores que lhe deveram perturbar a consciência; mas, no outro dia, camaradas exaltados lembraram-lhe o juramento feito no dia precedente, e foi isto bastante para que Afonso Maciel o ratificasse. Entre os baixos sequazes dos mascates, aqueles que percorriam em continuadas jornadas o sul da província, não havia um só que não soubesse entrar nas matas de Tracunhaém e chegar até a região onde não corria risco inspeção estranha, porque constituía domínio do público; mas dentre tantos que chegavam até terreno ou campo neutro, nenhum se arriscara jamais a dar um passo para adiante, temendo, não sem razão, cair na emboscada do célebre chefe da liga.

Gregório, porém, levado por sequazes conhecedores das veredas, animou-se a penetrar nas que eram suspeitas; e com a coragem dos instrumentos da sua condição, deixara-se ficar em paciente observação, oculto pelos matos, na entrada de uma dessas veredas, aguardando meio de penetrar no segredo.

Duas desgraças esperavam-no porém ali. A primeira foi Faustino Figueira acertar, com os companheiros, de tomar pela mesma vereda para o pouso. Gregório acompanhou-os, servindo-lhes eles, sem o suspeitarem, de guias no intricado labirinto dos matos, e nas trevas da medonha noite de inverno.

A segunda desgraça foi colocar-se perto da árvore donde pendia a matalotagem que Francisco buscava.

Capítulo XV

Se isto não o fora, ou ele, cansado de esperar em vão, deixaria o mato sem coisa de maior, desenganado de achar o refúgio dos pernambucanos; ou não seria descoberto por Francisco, e teria sido o herói de uma alta façanha no conceito dos mascates, ocasionando a prisão de quinhentos nobres, entre os quais o chefe da liga, que por si só valia mais para o governador do que todos os outros quatrocentos e noventa e nove.

Capítulo XVI

Reconhecendo no espião o acostado de Afonso Maciel, Falcão d’Eça empalideceu. Como pudera penetrar até ali? Teria vindo só, ou seguido de tropas incumbidas de prender os nobres? Estavam estas perto ou longe? Demorar-se-ia o ataque, ou deveria romper já?

A primeira idéia que lhe ocorreu, foi a de mudar de pouso. Os outros companheiros tiveram o mesmo pensamento em presença do perigo considerado iminente.

— Nem mais um instante aqui! disse um, disseram quase todos, entreolhando-se confusos, senão admirados de não haver ainda rompido fogo contra eles.

Sobressaltados e precípites, cada um se muniu das suas armas; cada um, no seu fâmulo, ou escravo, pegou da ligeira bagagem; todos tomaram imediatamente o caminho em direitura para o Rancho do quiri, denominação dada por Falcão a outro arraial que ficava distante, cerca de três quartos de légua, do que desamparavam. Devia chegar lá ao amanhecer, depois de atravessarem vários arraiais, donde iriam coligindo as forças esparzidas na vasta massa dos bosques. Esta era uma estratégia que o chefe praticava sempre que se pressentia ameaçado concentrar em um só ponto os vários contingentes.

A noite estava medonha, assim pela escuridão, como pelo tempo, que não suspendera.

Falcão ia na frente. Ninguém sabia, como ele, as sendas amigas. Intrépido e hábil, não havia matos, lamas, barrocais, desfiladeiros, precipícios, que lhe retivessem a marcha por perigosos ou desconhecidos. Às vezes, deslizava-lhe o pé nas folhas umedecidas, ou na argila escorregadia, e ele vinha em terra; mas logo se levantava, e seguia, sem proferir uma palavra que, ao menos e longe, indicasse indecisão ou desânimo.

Os outros acompanhavam-no quase instintivamente como autômatos. Os que eram mais sabedores dos caminhos conduziam os menos práticos, dando-lhes a extremidade de uma vara, e pegando na outra extremidade, como usam os guias com os cegos.

Era de singular efeito a vista oferecida, de tempos a tempos, por aquele longo cordão de figuras silenciosas em que se notavam semblantes de todas as feições, ao fuzilar dos relâmpagos nas abertas dos matos, ou ao clarear dos vaga-lumes no mais fechado. Uns de bota, outros descalços, todos, escorrendo água e tiritando de frio, lembravam, em parte, o tropel de fugitivos que no século XVII, deixando o Recife e as estâncias vizinhas, que haviam caído no poder dos holandeses, caminhavam a pé, na direção do sul, em demanda das Alagoas, por escapar aos vencedores.

O Rancho do quiri, que tomava a sua denominação de ser o lugar muito abundante daquela madeira, ficava quase no fim da mata, à beira de uma baixada, que com as grossas chuvas se mudara em vasto lago mediterrâneo.

Estavam ali os refugiados mais próprios para entrar em fogo, os de fibra rija, pela vida áspera que tinham levado antes. Compunham-se, em sua maioria, de moradores e foreiros, dedicados aos senhores do engenho. Quase toda esta gente, passante de cem indivíduos, se sustentava de caça e frutas agrestes. Uma vez por outra, saíam alguns do esconderijo, e nos povoados mais próximos iam prover-se de farinha e bebidas, ou iam buscar nos engenhos, onde tinham famílias, outras provisões; o mato, porém, era o seu principal fornecedor, agora lhes dando a paca, o tatu, a cutia, o preá; agora o jacu, a juriti, o nambu, pato bravo; agora o ananás, o inhame, a mangaba, o caju.

Às vezes saíam a pescar à noite, nas lagoas perdidas no interior da espessura; era para ver como tarrafeava habilmente o que se supunha, à primeira vista, não saber outro ofício senão o de carguejar. Voltavam trazendo cestos cheios de camarões e traíras.

Para esses homens, não trouxera grandes inclemências o homizio. Muitos deles preferiram estas indústrias grosseiras e selváticas à do trabalho de plantar ou almocrevar. Alguns que tinham a sua ponta de índio, compraziam-se nesse viver despreocupado, próprio e querido dos povos nômades. Tais haviam que diziam com sinceridade, quando sucedia falar-se-lhes no termo das perseguições e na volta ao antigo estado:
— Deus queira que não acabe mais esta guerra,
Outros completavam a idéia:
— Quero antes esta vida muito menos trabalhosa, que o do engenho. A única falta que sinto é a da minha mulher.

Pela madrugada chegaram Falcão com os companheiros ao Rancho do quiri, e ao amanhecer, reunidos em figura de  conselho os principais nobres, trataram de sentenciar sumariamente o espião.

Notava-se no ponto insólito alvoroço. Todos os semblantes, ainda os de seu natural mais serenos, davam mostras de invencível inquietação. Muitos dos fugitivos ali reunidos nunca se tinham achado em condições de testemunhar espetáculo idêntico ao que fora resolvido.

Chegado o momento, em uma aberta da mata, seis escravos formaram uma roda, como se se aparelhassem para certa dança circular que usavam os nossos índios.

Ao meio do círculo fora arrojado o espião, nu, da cintura para cima, com as mãos atadas atrás da costa. Alguns dos refugiados mais animosos, os mais duros, de pé, ou sentados junto das árvores que formavam o desigual anfiteatro grosseira semelhança dos circos romanos onde prisioneiros de guerra combatiam para divertimento do público testemunhavam a punição cruenta que talvez terminasse com a morte do delinqüente. Sobre este, que umas vezes implorava perdão, outras soltava imprecações injuriosas, descarregavam os executores os instrumentos da infame e infamante pena.

O paciente, que ao princípio rugia de cólera, ou gritava ou vociferava, do meio para o fim, quebradas as forças, enfraquecidos os espíritos, recebia em silêncio, mal se sustentando de pé, e por último caído por terra, as varadas brandidas pelos vigorosos pulsos africanos.

Era a isto que se chamavam roda de pau, castigo muito praticado naqueles tempos, por naturais de Pernambuco, especialmente contra os portugueses europeus.

Vários alvitres tinham sido indicados, várias penas propostas, entre as quais a do saco de areia, hoje inteiramente desusada, como a da roda de pau.

A surra de saco de areia ligava-se a uma superstição: o povo acreditava que o paciente de semelhante suplício não declarava, em caso de nenhum, o nome do ofensor. Era castigo aplicado a culpas graves, e consistia em longo estojo de lona cheio de areia fina bem socada, que, tanto pela forma, como pelo tamanho e dureza, se parecia com um cacete. À circunstância de ter no fundo uma moeda de cobre e uma rodela de fumo, invenção da superstição do povo ignaro, atribuía este a especial virtude de impor silêncio ao que com ele era castigado, e que, por muito moído em todo o corpo, mui raras vezes sobrevivia ao castigo.

Quando no rancho foi indicada a surra de saco de areia, para a punição do espião, um dos matutos observou, em tom de chalaça:
— Isto é lá para a beira da praia, onde não há madeira forte; não é para aqui, onde não falta quiri nem pitiá, e só temos barro duro, e não areia fina.

Ainda por estas razões, que, bem indicam não ser o aludido castigo filho da região das matas, ou do sertão, mas, sim, do litoral, e talvez até de país estrangeiro, provavelmente da Holanda, prevaleceu o da roda de pau, o qual, parecendo mais atroz que o outro, nem sempre, na crença do povo, tinha, como aquele, resultados fatais; porque à roda de pau muitos sobreviviam, ao saco de areia quase nenhum; o primeiro tinha por fim castigar, ou ensinar, como se dizia então, ao passo que o último tinha por fim matar.

Ora, os nobres não quiseram sentenciar à morte o espião; ao contrário, entrara no seu plano que, longe de ocultar o nome de quem lhe aplicara o castigo, fosse depois o espião revelá-lo àqueles cujo era mandatário. Havia nisto particular sabor de vingança o desdém por não ter o ardil sortido o esperado efeito. Estava tão enraizado no espírito pernambucano do século passado, que não contribuiu pouco para a explosão revolucionária de 1817 a prevenção contra os portugueses, até certo ponto justificada pelo exclusivismo que afastava os brasileiros das posições e empregos importantes na região oficial, e tão em voga o castigo corporal como represália àquele exclusivismo, à qual se ligava a idéia de ter em pouca conta os preferidos, ou de os rebaixar, que um dos nobres o sargento-mor Leonardo Bezerra, depois de três anos de prisão em Lisboa, escreveu da Bahia, onde voltando ao Brasil, se fixara definitivamente, aos parentes de Pernambuco, lugar do seu nascimento:
“Não corteis um só quiri das matas; tratai de poupá-los para, em tempo oportuno, quebrarem-se as costas dos marinheiros(7).

Reproduzindo estas palavras, não sou levado por intuito de picar a nacionalidade irmã, intuito que não teria o menor fundamento, e contra o qual, muito ao contrário, não me seria difícil aduzir provas, tomadas de mim mesmo. O meu fim único é dar idéias dos costumes e paixões dominantes naquele tempo; é autorizar a narrativa com a tradição, junto da história.

Terminado o atroz suplício, mandou Falcão d’Eça por um pano nos olhos do supliciado, e conduzir este para fora do pouco. Inútil, senão irrisória precaução, Gregório, mole, esquálido, metia horror. As alvas costas, para onde, por especial recomendação, tinham convergido os golpes dos executores, haviam enegrecido: não se notava diferença de cor entre os algozes e a vítima. Somente as mãos e os pés atestavam, pela brancura, a raça do infeliz.

Deixaram-no, por morto, na entrada da mata, tendo em uma das mãos um papel com este improviso em verso, obra de Domingos Freire:

“Buscar lã veio o Gregório,
Mas volta bem tosquiado:
Se vier, por mais finório,
O Felix José Machado,
O Cutia e o Bacalhau,
Havemos de ter, não uma,
mas quatro rodas de pau.

Seria meio-dia. Tinha feito uma estiada, O sol chegou a mostrar-se, ardente e amarelento, como é o sol do inverno. Aproveitando a impressão deixada nos espíritos pela notícia da partida de D. Manoel para as Alagoas, e pela audácia da recente espionagem, aproveitando, enfim, a crença de todos os homiziados, e não esperarem remédios aos seus males senão de si mesmos, e de estarem constantemente cercados de emboscadas e perigos, Falcão d’Eça chamou de parte alguns amigos, em cujo critério e decisão mais confiava, para que lhe ouvissem a última palavra:

— É tempo de tomarmos uma resolução. Quando me meti nestas matas, não foi com o único intento de escapar à prisão ou à morte. Tendo parentes no Ceará, ser-me-ia fácil, se o meu intento fosse somente evitar a prisão, emigrar para o seio deles, onde estaria ao abrigo de toda hostilidade. Quem primeiro me impeliu para aqui, senhores, não foi um sentimento baixo o medo; foi um sentimento elevado o amor da pátria; fio que vós poderei dizer outro tanto.

— Decerto, respondeu o padre Guerra.

— Que víamos antes da luta? Dois interesses, um estrangeiro, outro brasileiro. Levados de cobiça, e não satisfeitos com serem senhores do comércio e das indústrias, os portugueses europeus queriam chamar a si a agricultura, impondo aos agricultores obrigações que redundavam em ficarem estes à mercê daqueles. Como não pudessem, por meios lícitos, levar a efeito o seu intento, maquinaram criar a vila onde tinham e onde têm a sua força, e tornar-se, por este modo, árbitros dos preços dos gêneros que haviam de ser forçosamente tachados por almotacés do seu plano; e este diabólico intento estaria de todo realizado, se a nobreza não pusesse para fora o governador que tivera o arrojo de promover a criação da vila maldita. Sabeis, tão bem como eu, o que se seguiu ao ato de energia, que nos livrara de Sebastião de Caldas. Foi no Senado da Câmara de Olinda, reunido para providenciar sobre o governo da capitânia acéfala, foi ali que o amor da pátria, fazendo-nos pulsar os corações, proclamou em nossas consciências a necessidade de tornarmos Pernambuco independente da metrópole, madrasta e não mãe. O amor da pátria, pernambucanos, o amor da pátria é uma paixão grande que se gera, não do ajuntamento de dois seres como geram as criaturas, mas do ajuntamento de milhares de seres, dos ajuntamento dos povos; que nasce, não sob o teto particular, ou em leito clandestino, mas sob o teto público, sob a abóbada livre e ampla dos céus, no largo leito das praças; que nasce, não ocultamente, à luz da candeia noturna, trancadas as portas, mas nas vistas de todos, fora de paredes ou cortinas, alumiados pelo sol do dia; que nasce, não como nascem as crianças que acende, rubor nas faces das mães, mas como nascem os sentimentos imortais, trazendo à face dos patriotas o sangue vivo do coração, porque o amor da pátria não é uma paixão vergonhosa, e sim uma paixão egrégia, que dignifica os que nela se abrasam. Sabeis, tão bem como eu, que a primeira palavra nesse consórcio do Senado da Câmara com a nobreza, foi no sentido de Pernambuco declarar-se república; mas, como naturalmente acontece sempre que se congregam muitas vontades, os que assim pensavam, encontraram da parte de outros pensar, senão inteiramente oposto, ao menos restrito quanto à oportunidade da declaração. O que os exaltados, a cujo número tenho orgulho de pertencer hoje mais do que então, porque os acontecimentos posteriores, confirmando a nossa razão, vieram provar que dos meios brandos nada colheríamos, queriam realizar imediatamente, isto é, separação, entenderam os moderados que se devia adiar para logo. Não faltou nestes, senhores, amor da pátria, faltou um pouco de previsão, um pouco do conhecimento dos homens, e sobejou prudência que não mereciam os nossos inimigos. Os moderados, no pensamento de conciliarem os ânimos, propuseram a eleição do bispo, ficando este obrigado a conceder aos nobres o perdão em nome de el-rei. Entendiam-se eles, e entendem todos, menos alguns, de cujo número faço parte, que esta providência reconduziria a Pernambuco a tranqüilidade e a paz, fazendo entrar nos justos limites os mascates exorbitantes. Sabeis, tão bem como eu, que em vez de se submeterem a tão prudente alvitre, os mascates levaram seis meses a aparelhar o golpe, que descarregaram contra nós, e ocasionou o sítio do Recife, até a chegada de Félix José Machado; o que trouxe a certeza da sua perseverança e contumácia em sotopor-nos. Sucedendo as prisões, quase em massa, e por sentenças arbitrárias dos novos ministros contra os nobres, o único remédio que a estes se ofereceu, foi desamparar as suas famílias e propriedades, para se meterem como feras, nos bosques. Depois desta prova da ineficácia do meio paliativo, proposto em Olinda pelos moderados, que se devia fazer? O que se devia fazer era voltar à primeira idéia, aventada em Olinda pelos exaltados ou antes, pelos de maior previdência à idéia da separação; era pôr em campo a revolução nacional. Sabeis, tão bem como eu, que do seio destas matas vozes eloqüentes, soltadas por quem na tribuna sagrada está afeito a arrebatar os mais vastos auditórios - vozes eloqüentes do padre Guerra representando a aspiração de trinta refugiados ilustres pelos seus troncos e haveres, foram levar ao bispo D. Manuel ponto culminante do nosso partido, não só pela sua posição na igreja, mas também por ter sido o nosso chefe o governador no levante dos mascates as nossas súplicas e instâncias, para que aceitasse o primeiro lugar à frente de nós, nessa revolução tão nobre quanto justa. Sabeis, tão bem como eu, que surdo às nossas rogativas, a sua resposta foi uma recusa formal, foi um ato de desânimo, inspirado talvez em piedosa ingratidão. Todavia, alguns dos que me escutam aqui agora, não afastaram de todo as vistas de sobre o prelado; e esperavam que mais cedo ou mais tarde, vendo os destroços daqueles que o haviam elegido em Olinda para o chefe, se resolvesse a dar o passo direito, e único adequado à nossa salvação e glória. Acabamos, porém, de saber que D. Manoel, intimado para se ausentar da sede do levante cem léguas, já está de marcha para as Alagoas, como corre a longínquo estábulo fraco cordeirinho apavorado por lobos carniceiros. Depois desta solução final da abortada esperança, dizei-nos senhores, o que nos resta? Devemos continuar aqui foragidos, nus e crus, ausentes de nossos filhos, os nossos engenhos e fazendas destroçados e seqüestrados, a nossa saúde enfraquecida pelas injúrias do tempo, fomes, vigílias, febres e frialdades, sem um físico que nos receite um xarope, os mantimentos escasseando de dia a dia, os inimigos levantando cada vez mais a cabeça deles, enquanto nós cada vez abaixamos mais a nossa? Preciso de saber o que resolveis.

Falcão calou-se.

O padre Guerra, como se estivesse de inteligência com o chefe da liga respondeu-lhe depois de curta interrupção:
— Não nos pergunteis, Falcão, o que resolvemos; dizei-nos o que tendes resolvido. Vós que haveis sido a nossa coluna neste ermo de amarguras, tendes o direito de indicar-nos a vossa vontade. Por minha parte dir-vos-ei que estarei cegamente pelo que vos parecer melhor. Entendeis que devemos continuar doentes, famintos, rotos e esfarrapados, sem tranqüilidade de espírito nem comodidades físicas, a cada momento julgando-nos descobertos como ainda ontem, enfim com o coração nas mãos e a alma somente entregue a Deus e à aventura? Se é este o vosso parecer, estarei por ele; ficaremos aqui indefinidamente, até que nos mares encapelados da adversidade sobrenade uma tábua de salvação. Entendeis que, tendo em menoscabo todos os sacrifícios porque há dois anos estamos passando, devemos nós, enfim, para o epílogo condigno de tamanha tragédia, deixar o nosso asilo, correr à vila maldita, subir as escadas escorregadias de vício e devassidão do palácio das duas torres, e aí batendo com a mão no peito, como penitente em artigo de morte, confessar ao governador culpas que na realidade não temos, e pedir perdão que provavelmente nos será recusado? Se vos parece decisivo, para termos dos nossos males, este recurso sem nome, acompanhar-vos-ei até a morada da soberba, da avareza, da luxúria, da ira, da gula, de todos os pecados mortais, aí rojar-me-ei aos pés do que tem feito do ofício de governador edifício do ódio, imoralidade, vícios e crimes. Se vos parecer...

Falcão interrompeu o padre Guerra, com uma interrogação hábil e estratégica, e um gesto rasgado que acusava irrupção de sentimentos por muito tempo sustidos:
— Padre, falais em vosso nome, somente, ou falais também em nome de todos os que nos escutam?
O padre Guerra, que estava sentado em um toro seco,  ergue-se imediatamente. Quem fora estranho ao congresso da selva não dissera que estava ali um padre. Os cabelos e a barba de mais de um ano, trazidos em parte pela dificuldade de serem aparados a tempo e a hora, em parte pela conveniência de ter o rosto mudado, chegavam-lhe aos peitos e às espáduas, e davam-lhe uns longe de solenidade que haviam às suas grenhas os antigos profetas. Os olhos brilhantes, o nariz alto no meio e grosso na ponta, as mãos e a testa salientes, a tez entre pálida e tostada, ajudavam a expressão da guedelha, dando ao antigo profeta parte do moderno tributo.

— Creio poder afiançar-vos, capitão, disse ele, discorrendo rápido olhar sobre os companheiros, alguns dos quais, imitando-o, pela força comunicativa do seu gesto, já estavam de pé, entregues a poderosa comoção creio poder jurar-vos que num uma voz divergente virá contradizer o meu enunciado, filho da nobreza e lealdade que nos são comuns a todos, filhos principalmente da confiança sem limites que, pelo vosso procedimento alevantado, nos tendes merecido até este momento.

Falcão deu alguns instantes ao silêncio, como quem aguardava manifestação mais larga e positiva. O seu silêncio era na realidade uma interrogação.

Compreendendo-o talvez alguns dos nobres, e entre estes, Ribeiro da Silva, Faustino Figueira e Bernardo de Alemão, adiantaram-se para clamarem com certa ênfase:
Falcão, que era um homem bonito, nesse momento aliava à graça do seu gesto o prestígio que lhe haviam captado dois anos de perseverantes esforços em triunfar das maquinações e traições dos inimigos, dois anos de insano lidar. Alto, espadaúdo, o rosto corado, os olhos retintos, de fulgor seco e vivo, oferecia majestoso e insinuativo aspecto. Era o tipo da força e da resolução um desses homens que nos afastam dela os adversários e comunicam aos amigos grande e heróica firmeza um desses homens em quem se encontram qualidades de dois mais admiráveis representantes do espírito revolucionário Cromwell e Mirabeau.

— Darei a minha resposta em poucas palavras: somos quinhentos nobres, temos quatrocentos escravos e duzentos camaradas; mil e cem homens bem armados e municiados para tomar a vila de surpresa, pôr abaixo o governador e os ministros e expulsar os mascates que não quiserem submeter-se, proclamar a independência de Pernambuco. O meu intento não é outro, senhores! O meu intento é libertar a terra que nos viu nascer. Eu quero a liberdade de Pernambuco, ou do Brasil, eu quero acabar, de uma vez por todas, com o jugo dessa metrópole ingrata que nos traz em baixa vassalagem.

Apenas tinha acabado de proferir estas palavras, quando se ouviu ruídos de passos de cavalo em uma das veredas que vinham dar no pouso.

— Quem será? disse um dos nobres em tom de quem se assustava.

E a esta voz, todos os outros presentes, levantando-se com um só homem, lançaram mão das armas.

Falcão, empalidecendo levemente, fez-lhes sinal que ficassem silenciosos e quedos.

O papel arriscado de ir ao encontro de quem quer que fosse, ele o não quis passar a ninguém. Rompendo por entre troncos seculares, desapareceu das vistas dos outros, num abris e fechar d’olhos.

Mas logo retornou ao recinto, possuído de diferentes impressões, ouvindo uma voz conhecida a de Lourenço. O semblante do rapaz indicava uma extraordinária satisfação.

— Alvíssaras, seu Falcão, alvíssaras!
— Que notícias trazes? perguntou o capitão espantado.

— O perdão.

— O perdão? inquiriram dez, vinte, cem bocas ao mesmo tempo.

— Sim, o perdão que o rei mandou para a nobreza; chegou ontem. Andei toda a noite, debaixo de chuva que Deus dava, para ser o primeiro que trouxesse a vosmecês este alegre presente.

Por entre a multidão, que ocorrera ao ponto, a fim de ouvir de perto a grande nova, Lourenço enxergou Francisco e Saturnino, que se adiantavam para ele. Atirou-se ao encontro, tendo antes entregue a Falcão uma carta, que este leu em voz alta, depois de a haver lido para si:

“Amigo e senhor,

Não tenho tempo senão para lhe participar, sumamente regozijado, que chegou esta manhã de Lisboa um navio com a notícia de estarem perdoados os nobres.

O governador ainda não fez público o perdão com que el-rei se amerceou dos pernambucanos; mas, várias cartas do reino a amigos nossos são unânimes em afirmar que o perdão foi concedido e o governador será mudado.

Receba os meus parabéns e abrace todos os nossos amigos e patrícios.

Salinas, 3 de junho de 1714
Gil Ribeiro

Apenas acabada a leitura, muitos exultando de prazer, soltaram irresistivelmente vivas a el-rei que foram calorosamente correspondidos.

O padre Guerra não pôde fugir de dizer:
— Eu logo vi, senhores, que el-rei não havia de ser surdo às nossas súplicas conteúdas nas cartas dos clérigos, das matronas pernambucanas...

— Não esqueçais as vossas eloqüentes cartas acrescentou Christovam de Holanda.

— Senhores, senhores, tornou o padre, demos graças a Deus por este celestial benefício.

O ruído, o burburinho produzido pelos que celebravam e comentavam a nova; os sorrisos de uns, os gracejos de outros, os abraços e as alegrias gerais indicavam que a idéia da separação política, há pouco aceita e proclamada por todos os homiziados, não tinha grandes raízes senão em Falcão d’Eça, o qual emudecera, triste e eclipsado, quando o júbilo dava brilho a todos os semblantes, e eloqüência a todas as vozes.

Capítulo XVII

Vinte e quatro horas antes chegara Lourenço ao sítio do ajudante de tenente Gil Ribeiro, nas Salinas: viera saber o que era feito de Francisco.

O ajudante mal o reconheceu, não porque o rapaz se mostrasse outro no trajar, como quando voltara ao Cajueiro, depois de sua longa ausência, mas porque no rosto cadavérico trazia vestígios de resignada angústia. Os últimos acontecimentos passado ali tinham-lhe deixado no coração grandes estragos que a sua fisionomia indiscreta, sem a escola da hipocrisia, estampava como vago esboço.

Apressara a jornada a fim de atenuar a intensidade da dor ocasionada pela mudança da viúva do sargento-mor; a jornada, porém, por paragens e regiões que lhe eram familiares, pouco ou nenhum alívio trouxera ao rapaz, em quem o ajudante viu antes um enfermo do que o robusto atleta que admirara em Goiana por ocasião de se bater com as tropas de Luís Soares.

Mas o que a jornada não conseguira, devia Lourenço encontrar no Recife o seu restabelecimento por violenta e grande comoção que lhe abalou e restaurou os abatidos espíritos a comoção que despertou nele a notícia do perdão aos nobres, notícia imensamente grata, que ele teve a dita de ser o primeiro a levar aos refugiados de Tracunhaém.

Estava o Recife possuído de febril impaciência por saber a causa de vir entrando um navio adornado com enfiada de galhardetes, ostentando alegres ares, e disparando artilharia de tempos a tempos.

Usurpando os foros de Olinda, à qual ainda hoje está preso pelo ístimo cordão umbilical que parece destinado a certificar as relações de mãe e filha entre a cidade de Albuquerque  e a cidade de Nassau o Recife, não obstante ser então vila, concentrara em si desde a chegada do governador Machado, toda a vida da capitania, enquanto Olinda, triste e chorosa, decaída do seu ilustre orgulho, curtia longos dias e agras noites em silêncio, parecido com o que cerca os túmulos.

Com aqueles indícios de extraordinário acontecimento, a vila alvoroçou-se como soe fazer jovem garrida aos primeiros sons de orquestra festiva em salão e baile. Sorriu feliz, agitou-se, pensou em mil assuntos, espreitando a ocasião de transbordarem as suas comoções.

Alguns dos mais insofridos moradores correram ao porto, onde deviam ter trocada em mágoa a leviana alegria. Contra todas as presunções, a notícia trazida pelo mensageiro auspicioso não era agradável; ao contrário, vinha impregnada am azedume e fel. A causa da estrondosa manifestação era o perdão concedido aos nobres por el-rei.

Conhecida esta causa, a agitação aumentou: uns corriam para aqui, outros para acolá, a levarem a notícia; mas, depois começaram a debandar-se, a fugir dos lugares públicos, a concentrar-se no interior dos estabelecimentos e das casas, onde se espraiaram em reflexões sobre o novo tema.

As praças e esquinas ficaram desertas. Súbita paralisia pareceu tomar as ruas. Zacarias de Brito, mercador apacatado, dava ao diabo a fatalidade que escolhera seu navio para portador de tão infausta novidade.

Penetremos, por volta de sete horas da noite, no palácio das duas torres, outrora morada de Maurício de Nassau, agora residência do governador Machado.

À luz de um candeeiro de prata, seis sujeitos conversam sentados em torno de uma mesa, sobre a qual se vê estendido um papel que, pela flacidez, está denunciando ter andado de mão em mão.

O primeiro destes  sujeitos, à vista das atenções que os outros lhe prestam, é o governador. Os seus olhos às vezes incendeiam-se em violento brilho; mas logo este amortece e não têm eles outra expressão que a sua expressão usual a de chata animalidade.

O outro sujeito, o que lhe ficava imediato do lado direito, tinha fronte estreita, os olhos apertados e piscos, o nariz comprido e fino. Sobre o nariz viam-se ainda os óculos com que o cavalgara seu dono para ler o papel que daí não saiu mais; a razão era porque a leitura, ou, ao menos, o exame visual do documento se repetia de momento a momento, às vezes para se decidir algum ponto acerca do qual a conversação sugeria dúvidas, às vezes como sem intenção, ou simplesmente para iludir o silêncio entrecortado de rápidas observações. Era o desembargador Cristovam Soares, que da Paraíba, onde se achava de há muito, viera expressamente por ordem do governo, a fim de proceder à devassa dos levantes de Pernambuco, por terem os drs. Luís de Valenzuela Ortiz e Pedro Ferreira Brandão dado de suspeito na corte o ouvidor Bacalhau, conforme se disse em outro ponto desta crônica.

O dito desembargador, conhecido por duas alcunhas que passaram à história Cutia na Paraíba, Tubarão no Ceará caracterizava-se por certas habilidades  que não raro aparece nas administrações acanhadas e decadentes. Cuidava ele mais dos pequenos do que dos grandes assuntos, mais do exterior do que das entranhas deles. Bastarão algumas linha tomadas ao cronista da famosa guerra para se juizar do espírito deste magistrado. “Começou o sindicante os seus trabalhos pela escolha do papel para a devassa, de maneira que andou um meirinho de loja em loja e de venda em venda, sem descobrir um papel que agradasse ao ministro.

Do seu caráter ainda diz o cronista: “Sendo ouvidor da Paraíba, pelas coisas desordenadas que ali fez, veio para Pernambuco preso, a fim de ir, como foi, para Lisboa; mas porque os maus tiveram sempre padrinhos, que são a quem só servem,  pois os bons não carecem deles, por meio dos tais padrinhos, teve tal dita, que pode merecer quanto já tinha desmerecido. Tornou para o mesmo lugar e ocupação, deixando na corte ofuscada a verdade que dele se dissera. E com esta pena, de seus erros se pôs tão emendado como dantes e como se pode presumir à vista dela. Queria com inversões do natural mostrar-se reto; mas isso mesmo o obrigava a descobrir-se; porque quando humano se supunha, então era vê-lo impaciente e desabrido. Depois de ouvidor passou a medir terras, enchendo as medidas de quem lhe enchia as mãos, ainda que a parte lesada se queixasse. E deste modo ficaram nas montanhas de Jaguaribe e Açu, por onde andou feito Silvano, memoráveis histórias suas que ainda hoje se celebram
Do ouro lado do governador achava-se o ouvidor Bacalhau, e junto deste frei Estevão (da reformada), D. Matias, cônego regrante, irmão de João da Maia, o qual chegara da Paraíba por ocasião de se dar começo à devassa; e o padre João da Costa (da recoleta da Madre de Deus);
Eis o que rezava o papel:

“Faço saber a vós, governador da capitania de Pernambuco, que fazendo-se-me presente, pelo meu conselho ultramarino, a conta que me destes das prisões, que se haviam feito nesta capitania nas pessoas compreendidas nos levantamentos que houve nela, e que também me deu o desembargador Cristovam Soares Romão sobre o mesmo particular, e que pelo erro que houve na última ordem, que se lhe passou, tinha procedido contra os culpados no primeiro e segundo levante; me pareceu mandar-vos estranhar muito severamente por resolução de 7 do presente mês; pois nela vos declarava que Eu havia confirmado os perdões do primeiro e segundo levantamento, pelo que respeitava aos moradores de Olinda; pois segundo o ministro tivera esta notícia, não inquirira dos ditos levantamentos, pelo que pertencia aos ditos moradores; e assim lhe ordeno que se abstenha de perguntar pelos primeiros levantamentos, e que mande soltar os culpados neles por estarem por mim perdoados, fazendo-lhes repor e restituir os bens que lhes foram seqüestrados: e o dinheiro que se tiver despendido das pessoas, que indevidamente foram pronunciadas pelo primeiro e segundo levantamento, se pague pelas despesas da justiça, ou minha real fazenda, por ora. El-rei nosso senhor o mandou por Miguel Carlos, conde geral da armada do mar oceano, de seus conselhos de estado e guerra, e presidente do ultramarino: e se passou por quatro vias. Manuel Barbosa a fez em Lisboa, a 7 de abril de 1714. O secretário André Lopes de Lavra fez escrever.
Miguel Carlos

— Idêntica a esta ordem régia disse o Cutia pegando pela décima quinta vez no papel é a que el-rei se serviu mandar-me, segundo viu v.exa.; mas falta-me disposição, sr. governador, para cumprir esta vontade real, em que melhor se está vendo a fatal intervenção do valimento de Antonio de Albuquerque Coelho, do que a justiça usual e natural de el-rei.

— Parece-vos isto sr. desembargador sindicante? perguntou Félix Machado, a modo de quem não tinha convicção formada sobre o objeto, ou de quem vacilava na que tinha.

— Posso afirmá-lo a v.exa., respondeu o Cutia.

— E eu estou de acordo com o parecer do sr. sindicante acrescentou o Bacalhau.

O Cutia continuou:
— Pode v.exa. ter por seguras todas as minhas afirmativas, porque de tudo o que digo estou informado; nem é de hoje que pratico o ofício de sindicante, mas pelo contrário de há muito que estou afeito às indagações. A Albuquerque e não a outrem devemos este revés, que a muitos desastres, quiçá, dará lugar,se a nobreza quiser tirar dele todos os desforços a que ele se presta.

— Eu já tive ocasião de declarar ao sr. governador disse o Bacalhau quantos males devíamos esperar de Antonio Albuquerque. Durante os dezoito dias de sua estada em Pernambuco, donde é natural, não o deixaram desacompanhado um só instante os seus parentes e conterrâneos. Sabido é que nada do que se passou lhe foi oculto, e que ainda não satisfeitos com isso os mazombos, grandes invenções lhe meteram na cabeça. Conta-se que de tantos documentos, cartas, requerimentos e informações o fizeram portador para os homens que mais representam diante d el-rei, e até para el-rei mesmo, que uma grande canastra ainda não chegou para os acondicionar.

— De tudo sei, sr. ouvidor, de tudo sei disse secamente o governador. Sei mais o que talvez não saiba o sr. ouvidor que grande parte de uma história da guerra que se está escrevendo, recheadas de mentiras e aleivosias, foi entregue a Antonio de Albuquerque para ser presente a el-rei.

Neste ponto tomou a mão da reformada e disse:
— Mas o que talvez v.exa. ignore, é quem seja o autor desta história.

— Sei tudo, frei Estevam. O autor é o padre Antonio Gonçalves Leitão acrescentou o governador que supõe muito resguardado o seu nome da publicidade, quando não é desta, mas da minha gaveta, ou da sua sindicância, sr. desembargador, que ele mais deve recear.

— No meu canhenho está ele, disse o Cutia; e não se meterá de permeio uma semana que eu não lhe mande bater à porta.

— Agora talvez já não seja tempo, observou o governador.

— V. exa. sabe melhor do que eu que todo tempo é bom para se inquirir de um crime.

— Menos, ajuntou o governador, quando crimes maiores acabaram de ser perdoados, e réus de lesa-majestade são mandados soltar pela própria majestade.

À estas palavras do governador, que em outro círculo de que não fizessem parte o Cutia, o Bacalhau e o frei Estevam, teriam cortado pela raiz a questão, seguiu-se um momento de profundo silêncio, mas não todo o silêncio que deviam produzir.

O Cutia, quando julgou que era tempo de tornar ao grave objeto que ali os trazia juntos, disse:
— Mas perdoe-me v. exa.: o sr. governador está no ânimo de fazer cumprir as vontades de Antonio de Albuquerque?
— O que se há de cumprir, sr. desembargador sindicante, é a ordem de el-rei, respondeu Félix José Machado.

Novo instante de silêncio sucedeu a esta decisiva sentença do governador, o qual, com uma perna sobre a outra, o lado direito voltado para a mesa, os olhos postos na imensidade escura da noite, que envolvia do lado de fora toda a natureza, na qual engolfara a vista através da janela do palácio que caía sobre o Capibaribe, parecia fazer companhia às visitas mais com o ouvido do que com os olhos e o pensamento.

— Não sei para que serviram os procuradores que foram mandados à corte, disse o Bacalhau. Se era para ao cabo de tantos trabalhos e inquietações voltarem a usar, mais altaneiros, do que dantes, os réus de alta justiça, das antigas licenciosidades e soberbias, melhor fora que lá não tivesse ido.

— Não devemos culpar desta faculdade os nossos amigos que foram para Lisboa na frota, e ainda lá estão, respondeu o governador. Antonio Barbosa de Lima, escreve-me por todos os navios, dando-me parte do muito que fez desde que chegou ali, e está ali fazendo a bem da causa portuguesa; e nenhum dos atos deste meu secretário me deu ainda lugar a suspeitar da sua lealdade e entendimento. Devemos antes referir à felicidade dos mazombos ao grande lugar que tem, diante de el-rei, Antonio de Albuquerque, desde que foi governador das Minas do ouro e do Rio de Janeiro, do que a descuido e fraqueza dos nossos procuradores. Nem é só Antonio de Albuquerque o empenhado na defesa destes réus, que a esta hora já deveriam estar degolados por sua alta contumácia e desmesurada traição. Muitas cartas foram mandadas daqui a fidalgos de grande porte que não podendo, por estarem longe do lugar onde se passam as coisas, ajuizar devidamente da gravidade delas, dão muito pelo que lhes escrevem uma D. Lourença Tavares, em cujas mãos melhor cabida teriam os bilros do que a pena, se as cartas que ela assina, não se devem ao padre Guerra; um Cristovam de Holanda, poço de altivez inaudita; um Miguel da Rocha, enfim tantos outros, ente os quais mulheres e clérigos, que não conhecem o que devem a seu sexo e a seu ministério.

Depois do silêncio que sempre sucedia às palavras do governador, este, como se acordara de um sonho profundo, volta-se inopinadamente para João da Costa e lhe dirige estas palavras:
— E que nos dizeis vós, padre, dos vossos companheiros que foram na frota com o meu secretário? Qual foi o seu papel em tudo o que vemos? Deveis ter deles recebido prolixos esclarecimentos.

— Os da recoleta, excelentíssimo, preencheram o mandado que os levara à metrópole. Não descansaram ainda, desde que aportaram em Lisboa. Em outra ocasião poderei mostrar a v.exa. o entendido relatório que frei Ferrão me enviou, e onde vêm apontados, pelo menor, os meios empregados para o vencimento da causa, infelizmente já perdida.

— O pior de tudo isto, o nosso mal, excelentíssimo, está em não ter feito em Pernambuco a justiça que, por seus crimes, mereciam os caneludos,  disse o Cutia.

— E não sabeis vós que sempre foi este o meu parecer e desejo? Ignorais, sr. desembargador sindicante, que entre estas mesmas paredes que nos estão ouvindo, reuni eu, entre junho e julho de 1712, com o dr. ouvidor Bacalhau e o defunto juiz de fora Carvalho, os ouvidores da Paraíba e das Alagoas para, em relação, julgarmos dos crimes cometidos pela nobreza rebelde? Ignorais que os principais motores do levante devem o trazerem ainda hoje fixas nos ombros as cabeças serpentinas, não à generosidade minha, que nunca a tive nem a terei jamais para réprobos semelhantes, mas à pertinácia e firmeza brutal do ouvidor das Alagoas, João Soares da Cunha, e do ouvidor da Paraíba, Jerônimo Correa do Amaral, muito nosso conhecido, que com o pretexto de nada poderem resolver sobre o assunto sem ordem expressa de el-rei, se retiraram a seus distritos, deixando com isto mais seguros em sua ousadia os réus, então impunes, agora perdoados? Não sabeis vós, sr. sindicante, que do ouvidor das Alagoas corre até assinado um infame papel em que declara lhe terem sido oferecidos pelos nossos amigos três mil cruzados para que votasse pela execução dos réus?
— De tudo sei, excelentíssimo respondeu o Cutia; mas... Enfim, v. exa. sabe o melhor. O que todos nós sabemos e estamos vendo é que o pior de tudo chegou para nós quando não sem fundamento pelo melhor esperávamos. Aí está o perdão, e a não querer v. exa. fazer que o não recebeu, a fim de irmos por diante na devassa, carregando mais a mão sobre quem não tem tido a sua leva para nós, não sei como poderemos sair com vida de Pernambuco.

Félix José Machado levantou-se, deu alguns passos pela sala, e voltou a ocupar o lugar e a posição de há pouco. Ao cabo de um momento, disse com voz em que vibrava mistura de pesar e despeito:
— E posso eu ocultar o perdão?
— E por que não, sr. governador? perguntaram ao mesmo tempo o Cutia, o Bacalhau e João da Costa, que pareciam estar de antemão combinados em indicar a Machado este indigno e criminoso procedimento. Não se fez o mesmo da outra vez? continuou o sindicante com o calor a que o autorizava a fria e como hesitante pergunta do governador.

— Quereis referir-vos... disse ele.

— Quero referir-me prosseguiu o Cutia ao perdão mandado por D. Lourenço de Almeida aos portugueses, quando se achavam cercados pelos pés-rapados. Não se ocultou o dito perdão, apesar de recebido? E não teve este procedimento por fim impedir que cessasse a guerra, porque, cessada esta, teria cessado também a esperança de tirarem os portugueses a sua desforra dos nobres? Não se praticou tudo isto, sr. governador? E o que se previu não veio a acontecer? Se v. exa, não publicar o perdão, quem mais haverá competente para o fazer, ainda que de Lisboa o tenha recebido? Se v. exa. declarar que o não recebeu, quem poderá asseverar o contrário?
O governador levantou-se novamente, e dirigiu-se à varanda do palácio.

Neste momento uma como constelação luzia ao longe, e, aos seus reflexos, apareceu no horizonte longínquo o vulto de Olinda.

Não se meteu muito tempo que de diferentes pontos da orgulhosa cidade começaram a levantar-se aos ares girândolas de variados fogos, que por todos os que se achavam com o governador, chamados por este à varanda, foram logo vistos.

— Eis ali a resposta que tenho para dar à vossa última interrogação, sr. desembargador sindicante. A notícia do perdão é motivo de festas gerais na soberba cidade. Não vedes como ela está iluminada de uma extremidade à outra? A esta hora os restantes da empavesada nobreza que ficaram fora da devassa cavalcantina, se banqueteiam não só com os das linhas que a cruzam, mas também com os aduladores e agregados de uma e de outras, Naturalmente da própria secretaria do ultramarino enviaram cópia da ordem que me foi dirigida, a algum mazombo de Olinda, a Duarte Tavares por exemplo, para prevenir a perda do original. Amanhã o perdão estará estampado por todos os cantos da cidade, a fim de que sobre sua existência não haja dúvidas. Não seria, pois, o maior dos desacertos a ocultação deles por parte de quem o recebeu para o fazer cumprir sem tardança? Não seria, além de desacerto, perder tempo, com o risco de perder alguma coisa mais?
— Se eu fora governador disse então o Bacalhau assim como sou ministro, “eu lhes construiria ou fizera construir o que isto é; não lhes consentiria estes alguergues e parvoíces(8).

— Sr. ouvidor disse Machado o meu ânimo e o meu desejo não podem ir além dos limites da minha autoridade. A campanha que dei aos nobres está finda; é tempo de recolher-me à minha tenda de guerra; se não fui vencedor, não fui vencido. Amanhã se botará bando, fazendo manifesta a graça de sua majestade; e darei ordem para que desembarquem os que estão nos navios, e sejam todos eles postos em liberdade, excetuados somente João Luiz Correa, Felipe Cavalcanti, seu irmão Jorge Cavalcanti, Leandro Bezerra e Felipe Bandeira, que interpuseram recurso para a Bahia. De lá naturalmente voltarão livres, visto que segundo se me escreve do reino, o novo governador-geral e vice-rei vêm no ânimo de compor todas as discórdias atuais.

— E quem é o novo governador-geral? perguntou o Cutia.

— D. Pedro Antonio de Noronha, conde de Vila-Verde, marquês de Angeja, respondeu Félix Machado.

— Assim senhor, está tudo acabado sobre estas terras, e do que fizeram os nobres em sua louca e audaciosa rebeldia nada mais resta, tirante a memória dela?
— E que quereis que reste mais, sr. ouvidor? Eu não sou suspeito. Nunca perdoei aos emperrados desta terra, e agora ainda menos lhes perdôo os males que nos trouxeram a sua natural bazófia e arrogância. Por muito que me desprezem ou que me odeiem, ficarão ainda aquém dos meus o seu ódio ou o seu desprezo. Mas, pois o quer e o manda el-rei, que se lhes dê a liberdade, muito embora não venha ela servir para outros fins que o de revolverem novamente a terra, abaterem a autoridade, impedirem o desenvolvimento material e comercial, cevarem ódios, alentarem vinganças, tirarem a vida a quem devera tem muitas para os poder aniquilar um por um, de geração em geração.

— Não se lhes poderia imputar nova rebeldia, novo levante, ainda não perdoado? perguntou o Bacalhau.

— Qual?
— O levante de Tracunhaém, essa liga tremenda de que é cabeça Falcão d’Eça.

— A liga de Tracunhaém respondeu Machado não é propriamente levante, sr. ouvidor. E em que aproveitaria a sindicância que dela se fizesse?
À proporção que a noite ia se adiantando, a sala onde se realizou este diálogo enchia-se dos principais da parcialidade oposta à nobreza. Todos corriam a certificar-se da notícia ouvindo-a da boca de Félix José Machado. Todos tinham os olhos em Olinda, e os ouvidos à escuta; e não era sem razão que o faziam porque ali começavam a manifestar-se estranho e geral regozijo. As casas e as igrejas estavam iluminadas. Repicavam os sinos; bandas de música, improvisadas em poucos momentos, percorriam as ruas, derramando o movimento e a alegria onde horas antes era tudo imobilidade e recolhimento. Os ecos da demonstração febril e vibrante, ondulando por cima das águas mansas do Capibaribe, por cima dos tufos verde-negros, pitorescos e murmurosos dos mangues, que bordavam as suas ilhas e margens, vinham ferir os tímpanos dos ouvidos da burguesia portuguesa que enchia as salas do palácio das duas torres, e nesses ecos parecia escutar os de uma orquestra fúnebre.

No outro dia, pela manhã. à porta dos principais mascates, amanheceram papéis com ridículas caricaturas e sátiras ferinas, alusivas ao destroço daquela parcialidade. Em algumas casas e notórios amigos de Camarão, viam-se covos com alguns camarões dentro, indicando que os parciais do chefe caboclo tinham caído na armadilha. Em outras viam-se forcas de varinhas. Andava ali o engenho popular que não perde vasa.

A musa anônima, que já celebrava a morte do juiz de fora em graciosa décima, produziu mais duas comemorativas de certo fato que dera muito o que falar o de ter tentado contra os seus dias em Olinda certo partidário do Camarão, o qual morreria enforcado se a mulher não o salvasse.

A crônica, prevenida, recolheu estes produtos que me considero na obrigação de trasladar aqui:

“Nesta cidade se quis
Enforcar um camarão,
Fazendo, por sua mão,
O laço como se diz:
Já pela boca e nariz,
Sem poder resfolegar,
Acudiu, no pernear,
A mulher deste madraço;
E, cortando-lhe o cadarço,
O tirou de se enforcar.

Foi coisa bem mal tirada.

Porque a todos desta seita,
Não vi coisa mais bem feita,
Que enforcados, quando nada,
Ação foi desesperada,
E de um homem já perdido;
Mas ficando suspendido
Pela fé dos camarões,
Livrava-se de questões,
E a mulher de tal marido.(2)

A cidade de Albuquerque devolvia assim, aumentados, os insultos e mofas com que havia mais de dois anos a ousada e risonha vila respondia aos seus pesares e lágrimas, dia por dia, às mãos cheias, como inimigo atroz e implacável.

Capítulo XVIII

Obra de um mês depois, pacificada a capitania, voltados aos seus lares Francisco e Lourenço, saiu este uma manhã do sítio do padre Antonio, onde todos moravam agora, enquanto Francisco cortava umas varas na mata para fazer um caritó onde guardar goiamus, que começava a andar ao atar. Fora Marcelina a autora da idéia, dizendo ao marido que os goiamus, bem cevados como ela os sabia cevar, haviam de dar bom dinheiro na vila, e não convinha perder este lucro.

Lourenço, conquanto a manhã estivesse fresca e risonha, levava no rosto a sombra do desgosto íntimo que, passada a impressão do grande acontecimento, voltou de novo, não tão intenso como dantes, mas tenaz e constante como um, remorso ou uma chaga incurável.

E saíra com o pé esquerdo, porque, adiante, saltando um pau que cortava a passagem, foi cair com a cabeça de encontro a uma pedra onde se feriu, ficando com a camisa lavrada de longas machas de sangue.

Como tinha feito tenção de ir ver um pedaço de terra, do lado de Jopomim, que lhe fora oferecido pelo dono que o vendia por pouco dinheiro, prosseguiu o caminho, não obstante o desastre e a má aparência.

Depois de andar cerca de meia hora, deu na várzea que de há muito não via, a várzea do Jopomim, por onde brincara alguns anos antes, pegando canários e gurinhatãs, quando o seu espírito discorria por horizontes sem nuvens nem limites, quando no seu coração não havia nenhum espinho.

De repente ouviu umas vozes femininas que partiam de ponto não muito distante do em que estava. Com pouco descobriu, de fato, duas mulheres, uma das quais trazia um saco nas costas, e era acompanhada por um cão, que farejava de moita em moita, e às vezes parava de latir. Então a mulher aproximava-se do lugar, arreava o saco, inclinava-se para o chão, e aí apanhava, ora rindo-se ora fugindo com o corpo e as mãos, um objeto que, com toda a precaução, atirava dentro do saco. Lourenço compreendeu logo que a mulher andava apanhando goiamus.

A outra, que estava mais perto dele, e parecia mais nova, em vez de imitar a mais velha, colhia araçás aqui e acolá, e atirava-os dentro de uma cuia, correndo e saltando com os cabelos soltos, de um araçazeiro para outro, como fazem os beija flores de roseira em roseira, nos jardins.

Pressentindo gente por ali, antes de ver quem era, o cão, mais defensor que caçador, deixou aquela a quem estava prestando seus bons serviços, e correu na direção de Lourenço, com quem deu em um instante. Logo que a mulher que se achava mais perto, viu o rapaz com a camisa cheia de lavores pouco tranqüilizadores, um cacete em uma das mãos, um facão na outra, e as vistas cravadas nela, deixando escapar um grito angustioso, e cair da mão a cuia, correu para onde estava a outra:
— Minha mãe! minha mãe! gritou ela, assusta da e trêmula. É Lourenço! É ele. Corramos, fujamos, minha mãe. Quem sabe se ele não vem matar-me!
— Cala a boca, Marianinha. Quem te disse que é Lourenço? respondeu Joaquina, a qual, pela distância, não pudera ainda distinguir bem as feições do rapaz.

Este reconheceu pelas vozes as suas amigas vizinhas e camaradas.

Penetrante e atroz foi a mágoa sentida por Lourenço, quando ouviu as acerbas palavras da filha de Vitorino. O seu coração já tão castigado pelos últimos acontecimentos, o seu coração infeliz que tinha a sensibilidade nervosa dos enfermos de doença moral, experimentou uma dessas impressões produzidas por choques traumáticos a que muitas vezes não se pode resistir com a vida.

Ao princípio, quis fugir para o lado oposto. Não era este o meio direto de resolver aquela situação aflitiva? Fugir das vistas daquele a quem desagradamos, não é passo natural e racional?
Lourenço esteve para dá-lo; mas, compreendendo que, se assim procedesse, confirmaria o mau conceito que dele já formava Marianinha, tomou resolução contrária.

— Elas têm para si que sou um assassino; mas eu não sou o que elas pensam. É preciso que se desenganem. Às vezes, quando me esquento, sou capaz de comer gente viva, mas isto acontece uma vez na vida.

Eis o que ele pensou, eis o que lhe ocorreu, após o primeiro impulso, vencido pelas reflexões. Não hesitou mais, e encaminhou-se para onde estavam mãe e filha.

— Então, que é isto, Marianinha? perguntou ele, ainda de longe. Correu de mim? Eu não venho fazer mal a ninguém. O meu facão não tem ponta; partiu-se ali atrás em uma pedra onde quebrei a cabeça; e é por isso que estou com a camisa cheia de sangue.

Assim falando, Lourenço atirou o facão, de feito quebrado, aos pés da menina, a fim de que ela visse distintamente que ele dissera a verdade.

Não obstante a humildade e brandura destas expressões, Marianinha não ousava levantar os olhos ao rapaz. Mudas e abaladas, Joaquina e a filha não sabiam o que dizer.

— Nunca matei ninguém, nem Deus há de permitir que eu chegue a matar quem quer que seja algum dia. Vim por aqui para as ver. Tenho sentido muitas saudades da sua companhia. Mudaram-se do Cajueiro sem me dizerem adeus, zangadas comigo sem grande razão, porque...

Lourenço não soube como continuar.

— Se não nos despedimos, disse Joaquina, foi porque você tinha feito o que não devia fazer com  a  Marianinha, que morria por você, que lhe queria tanto bem, que vivia somente para lhe querer bem.

— Naquele tempo, tornou o rapaz, eu andava fora de mim. Agora não hei de sair mais do bom caminho. Foram-se os que tinham vindo, e ficaram os que cá estavam. Com estes é que eu me hei de achar.

Enquanto falava, Lourenço punha os olhos em Marianinha, cujas formas tinham se tornado esplêndidas. Quantas diferenças lhe notou!
Desgostosa do que acontecera, Marianinha cortara os cabelos logo depois da mudança. Estava agora com cabelos novos, bastos e lindos. Libertada do amor e do ciúmes que a amofinavam, engordou e cobrou cores finas. As espáduas, o pescoço, a raiz dos seios, os braços curtos, as mãos pequeninas, estavam revelando a Lourenço, no boleado e no ilustre, quanto ganhara ela com a transformação.

— Não fujam mais de mim, que me fazem ficar tristes prosseguiu o rapaz. Não vivemos sempre em boa harmonia?
— Sempre não atalhou Joaquina; até certo tempo, enquanto não se meteu entre nós uma nuvem negra que foi a causa do nosso desgosto.

— Está tudo acabado agora. A nuvem foi-se embora. Não está tão bonita esta manhã? Pois quem sabe se não vem com ela a manhã da nossa passada amizade?
— Como está Marcelina? Como está Francisco? Ainda não o vi depois que chegou, disse Joaquina, como quem ia se acomodando com a nova ordem de idéias sugerias pela imaginação de Lourenço.

— Estão bons. Vou já dizer-lhes que estive aqui, e que depois de amanhã, que é domingo, sinhá Joaquina e Marianinha vão passar o dia lá em casa.

— Não, Lourenço; lá não disse Joaquina.

— Pois então há de ser cá. Venho eu, meu pai e minha mãe. Pegaremos o resto dos goiamus. A andada não dura três dias?
— Se quiserem vir, venham. Aqui nos acharão para os recebermos.

— Havemos de fazer a nossa festa mesmo debaixo destes araçazeiros. Mas, que é isto, Marianinha? Você parece que está muda. Se não diz que posso vir, não venho.

— Minha mãe já não disse que você podia vir? O que ela disse é o que é.

— Então, até domingo.

— Até domingo. Olhe. O caminho é por ali, e a casa é aquela ponderou a viúva do Vitorino, apontando, por ver que o rapaz se resolvia a partir.

No dia seguinte amanheceu Marianinha tratando dos preparativos para a esperada recepção.

A casa era de barro, coberta com palhas. Tinha pertencido a um morador que, por desgostos com a senhora daquelas terras, se passara para outras. Estava ainda muito bem conservada e ficava em boa situação. Do lado direito vinham morrer-lhe no oitão uns canaviais; pela esquerda e pelos fundos tinha a várzea; pela frente passava o caminho que levava a Goiana; Entre a casa e o caminho havia um araçazal mais basto do que se via na zona intermédia entre aquela e a mata.

Marianinha cortou com o facão alguns matos que fechavam o caminho, decotou umas goiabeiras ramalhudas que tiravam a vista do alpendre, limpou à enxada a frente, a fim de tornar mais espaçoso e alegre o pátio. De tarde mostrava-se graciosa e faceira. Remoçara com o asseio, e estava como sorrindo aos hóspedes ainda ausentes.

Quem soubesse dos precedentes entre as duas famílias, que circunstâncias supervenientes tinham separado, havia de cuidar que a filha de Joaquina, tão solícita em preparar digna recepção à suas antigas amizades, entre as quais se compreendia Francisco, seu padrinho, estava nadando em satisfação.

Mas a verdade é que bem diverso sentimento dominava Marianinha. Em vez de clarões suavíssimos, clarões e esperanças, tinha no espírito nuvens negras, nuvens de desgosto invencível. A vinda de Lourenço avivara todo o seu passado de que não restavam na lembrança dela senão quadros desbotados, quase extintos; e o passado não lhe era agradável, porque nunca Lourenço lhe dera motivos de verdadeira satisfação, antes quase sempre a contrariara.

Marianinha passou toda a noite pensando no que havia de fazer. Lourenço para ela já tinha morrido, e com ele o grande amor que lhe dedicara. Ressurgindo-lhe agora diante dos olhos, devia ela desenterrar o falecido amor? Lourenço merecia-lhe este milagre? Lourenço, que nunca lhe dera provas de sincera estima, devia voltar a ocupar nas aras do seu coração o lugar de honra, e receber o culto exclusivo que ele próprio desprezara? Depois de pensar em tudo isto, e de meditar cada uma das graves questões que no espírito se lhe apresentavam, a menina, tomando uma resolução heróica, disse consigo:
— Lourenço morreu para mim de uma vez. Seja de quem quiser, menos meu; nem eu serei dele. Lourenço acabou-se para mim, como homem a quem eu queria bem.

Com Lourenço dera-se o contrário. Aparecendo-lhe acrescentada de beleza e graça, quando ele tinha a alma devastada e árida, a gentil rapariga deu-lhe frescura e vigor. A sua imagem restituiu-lhe o amor à vida. Dissuadido do enganoso sonho, sentiu-se voltar todo, como o girassol, para aquele astro que se lhe deparou no horizonte brusco. Marianinha era meiga e boa, era extremosa e dedicada, era paciente e cândida. Ele conhecia as suas superiores qualidades raras numa menina, adoráveis numa esposa. Onde acharia mulher mais digna dele? Nenhuma conhecia que se comparasse com ela na ternura, na modéstia, no afeto, e poucas poderiam ser rivais nos seus encantos.

Aceso em desejos, anelou pelo domingo. Tinha tomado também a sua resolução. Na mesa, por ocasião do almoço ou do jantar, recordaria a passada promessa, e designaria dia para o casamento.

No domingo aprazado, ainda com escuro, bateram à porta da casa da várzea. Marianinha e Joaquina puseram-se imediatamente de pé, julgando serem as visitas. Era um negro que Lourenço mandara adiante com um carneiro que devia ser sacrificado nas aras da reconciliação, e com algumas garrafas de vinho dentro e um cesto, licor indispensável em semelhantes sacrifícios, como é no sacrifício por excelência da igreja católica.

Pouco depois chegaram Marcelina, Lourenço e Francisco, que foram recebidos pelas duas mulheres à beira da estrada, onde eram esperados com impaciência.

Todos sabem ou ao menos avaliam com que atenções e cortesias se tratam no primeiro encontro pessoas que, depois de desavindas, reatam as antigas relações. Neste particular, nenhum dos que se achavam presentes levou vantagem a Lourenço, origem da desavença.

Das nove para as dez horas começou o almoço, na parte lateral do alpendre que dava para a várzea. Com ser almoço de gente pobre, foi variado e abundante.

Moquecas e amorés, e frigideiras e ensopados de goiamus, preparados na véspera por Marianinha; sarapatel feito do sangue do carneiro por Marcelina; angu de milho já nesse tempo muito usado entre o povo, e que Joaquina sabia fazer primorosamente, deram-lhe, com café com leite, e as usuais macaxeiras e batatas doces, honras de lauta refeição de gente abastada.

Quando foi chegando a ocasião do café, Francisco pegou do copo e, dirigindo-se a Marianinha, disse-lhe:
— Marianinha, enche o teu copo. Há de ser de virar. À saúde do teu casamento.

A menina empalideceu, e guardou silêncio.

— Então, Marianinha, que é isso? inquiriu Marcelina. Põe vinho no copo, menina. Não fiques triste. Desta vez há de fazer-se o que tanto desejas.

— À saúde do teu casamento, Marianinha, repetiu Francisco, pondo-se de pé.

E voltando-se para Lourenço:
— Que fazes tu também aí que não despejas logo o teu bacamarte? Queres ou não queres casar com Marianinha.

— Quero, sim senhor. Eu já tinha feito tenção de falar nisto hoje, se vosmecê me desse licença.

— E por que não? Jurei sobre a cova do compadre Vitorino que tu, Lourenço, havias de ser o marido de Marianinha. Chegou a ocasião. Mas... que tens, menina? perguntou Francisco, vendo a afilhada com os olhos cheios de lágrimas. Não chores. A ocasião é para a gente rir.

Lourenço, Francisco, Marcelina e Joaquina levaram os copos aos lábios, e esvaziaram-nos. Somente Marianinha não bebeu.

— Por que motivo não bebes? perguntou Francisco espantado.

— Porque esse casamento não se há de fazer, respondeu a menina, com voz chorosa.

— Estás malucando, menina, tornou Francisco.

Os outros, silenciosos e confusos, cravaram as vistas na filha de Vitorino, cuja palidez aumentara.

— Há de fazer-se o casamento, porque eu quero, Lourenço quer, e tu queres.

— Não, eu não quero, meu padrinho, respondeu ela com firmeza, que a todos deixou por um instante espantados, quase fulminados.

— Tu não queres! exclamou o matuto, tomado de assombro. Por esta não esperava eu!
— Não quero, não senhor. Não quero, porque sei que Lourenço não me quer bem.

Lourenço, a esta voz, quis vir ao encontro da rapariga, mas faltaram-lhe expressões. Como havia de provar o contrário, quando na consciência de todos parecia haver um tropel de provas a favor da afirmação de Marianinha?
Houve, por instantes, uma como suspensão da vida em todos os convivas. No semblante de alguns, em cujo número estava Marcelina, revelou-se vaga expressão de pesar.

Francisco, levando as vistas ao rosto de Lourenço, foi o primeiro que rompeu o silêncio:
— Quanto a isto, estou calado. Se Lourenço te quer bem ou não quer, só ele é que sabe, só ele poderá dizer.

Lourenço acudiu simplesmente:
— Por meu gosto, quero casar com Marianinha.

Esta retorquiu:
— Eu já quis, mas agora não quero mais. Se não me casar nunca, nem por isso hei de morrer. Tenho vivido muito bem em companhia de minha mãe.

Tão decisiva resposta pôs termo à questão. O casamento estava definitivamente desmanchado.

Neste ínterim, ouvindo ruído de passos de cavalo no caminho e, logo depois o eco de pancadas na porta da frente, correu Joaquina a ver quem era.

— Querem ver que temos por aqui o Saturnino, que volta do Jatobá conjeturou Francisco.

Palavras não eram ditas, quando Joaquina gritou de fora:
— Marianinha, Marianinha, aqui está Bernardina!
Todos correram ao encontro da filha mais velha de Vitorino.

Era de feito ela com o marido, o incomparável Cipriano, já casados, que, aproveitando a ocasião de ter ido com eles por mandado de Joaquina, o Saturnino logo depois da sua chegada do Tracunhaém com Lourenço e Francisco, vinham abraçar a velha e a moça, contentes e felizes.

O convívio que esfriara um momento, recobrou novo calor.

Bernardina, depois da grave doença que a pusera de cama, botara corpo, e estava outra, isto é, cada vez mais bonita.

Cipriano também mudara muito com o casamento. De concentrado e bisonho que era, tornara-se expansivo e sociável. À sombra do padre Antonio formara-se aquela modesta família, por ele dotada e favorecida.

O padre mandara a Lourenço uma carta:
— Que diz essa carta, Lourenço? perguntou Francisco, vendo o rapaz passar as vistas por cima das regras tremidas.

Lourenço leu em voz alta, para todos ouvirem:

Lourenço, Deus te abençoe.
Depois de casados e arranjados aqui juntos de mim, Cipriano e Bernardina resolveram mudar-se para Goiana, onde ela diz querer morrer. Lá nasceu, lá lhe correram os dias da primeira mocidade, lá tem as cinzas de seu pai, lá quer acabar, ao lado da mãe e da irmã. Para que tudo se arranjasse do melhor modo, fiquei com a parte da terra, que tinha dado de dote à menina, e dei-lhe o equivalente em dinheiro, com a condição de comprarem aí outra terra onde vivam, sem serem pesados à ninguém.
Estando eu já no fim a vida, e vendo-me só neste ermo, venho propor-te a tua mudança para aqui.
Em casa deste padre velho e achacado acharás, ao menos, bons conselhos que de muito te devem servir na vida.
Cipriano porá nas tuas mãos novo papel de doações no sítio do Cajueiro, onde poderão ficar morando Francisco e Marcelina.
Está com os olhos no caminho o
Padre Antonio.

Quando Lourenço terminou a leitura, Marcelina tinha os olhos nadando em lágrimas, Francisco emudecera comovido, e o próprio rapaz, dobrando o papel, sentia uma grande aperto no coração. A carta era uma ordem terminante a que ele devia obedecer. A separação era inevitável.

— Vais assim deixar-nos, meu filho! exclamou Marcelina. Meu Deus! Quantas coisas neste dia! Só consinto que nos deixe, porque sei que tu não me pertences.

Depois, enxugando os olhos, a cabocla disse com voz segura:
— Deves ir, Lourenço. A felicidade está te chamando. É a felicidade, filho; acredita nas minhas palavras, porque eu sei o que estou dizendo. Seu padre que te abençoa é porque ele quer ser teu pai.

Dizendo estas palavras, a cabocla parecia querer fazer-se forte; mas, foi em vão. As lágrimas, desta vez copiosas, voltaram-lhe aos olhos; e com pouco, entrou a soluçar. Sem se poder conter, correu ao rapaz, abraçou-o ternamente, com quem ia separar-se de uma vez, por morte.

No outro dia, pela manhã, deu-se uma cena ainda mais viva do que esta entre Marcelina  Lourenço.

— Minha mãe, perguntou este, vosmecê viu o que Marianinha me fez ontem?
— Vi sim. Eu não esperava por aquilo, ainda que tu...

— Não me diga nada, minha mãe que eu tudo sei. Se lhe falo nisto agora, é para lhe dizer que antes de sair do Cajueiro para o Jatobá, hei de vingar-me de Marianinha.

Um raio que caísse aos pés da cabocla não teria aterrado tanto como estas palavras do rapaz.

— Lourenço, Lourenço, que estás dizendo, Lourenço?! respondeu ela com os tons de suprema angústia.

E atirando-se de joelhos aos pés do rapaz com as mãos postas, em atitude de quem suplicava, continuou:
— Por minha benção te rogo, Lourenço, que te esqueças de semelhante delírio.

— Deixe-me falar, minha mãe tornou ele, levantando-a; vosmecê não sabe o que vou dizer. Pensa que, para vingar-me do que Marianinha me fez, quero matá-la?
— Nem por graça digas esta palavra, filho.

— Eu quero vingar-me dela de modo muito diferente. Quando ela souber para quanto presto, há de correr para me abraçar; mas já não há de encontrar-me, minha mãe, porque eu estarei bem longe desta terra onde tenho sofrido tanto desgosto, onde só eu tenho sido o infeliz.

— E que é que tu queres fazer?
— Vosmecê sabe que Saturnino, desde pequeno, sempre quis muito bem a Marianinha.

— É verdade.

— Pois, sim; eu quero fazer um presente a Marianinha coma condição de casar com Saturnino; mas o presente depende de vosmecê e de meu pai.

— Que presente?
— Quero dar-lhe este sítio, que seu padre me deu.

— O teu sítio, Lourenço? O teu sítio tão bom, tão bonito?
— Bom e bonito? Sim, ele é tudo isto; mas ele me recorda sempre coisas muito tristes. Eu não passo daqui sem me lembrar de sinhá D. Damiana, e de tudo que mais que houve. Além disso, para que eu o quero, se não hei de voltar mais para Goiana senão de passagem? Sinhá D. Damiana deve voltar, porque todos os seus bens hão de ser-lhe restituídos. Ora, Deus me livre de ter terras e casa junto das dela. Vosmecês também não precisam dele, para morarem porque têm o seu pedacinho de terra e a sua casa. Assim, minha mãe, deixe-me tomar a vingança a meu modo. Só assim sairei de Goiana consolado.

— Pois faze o que quiseres, Lourenço.

Três dias depois, quando os galos começaram a amiudar, Lourenço montou a cavalo à porta do sítio do Cajueiro, Francisco e Marcelina de pé, do lado de fora, viram-no partir, viram-no desaparecer, ouviram ambos, com as faces inundadas de lágrimas, os últimos ruídos dos passos do cavalo, que conduzia para bem longe o melhor das esperanças, o melhor dos afetos, daquelas existências tão boas, tão dignas, tão irmãs daquelas existências tão ricas na sua pobreza, tão grandes no seu pequenino mundo, tão nobres na sua humilde condição dois tomos de uma obra que se poderia intitular Trabalho, bom senso e virtude.

 

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