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lourenço

Franklin Távora

XVII

Vinte e quatro horas antes chegara Lourenço ao sítio do ajudante de tenente Gil Ribeiro, nas Salinas: viera saber o que era feito de Francisco.

O ajudante mal o reconheceu, não porque o rapaz se mostrasse outro no trajar, como quando voltara ao Cajueiro, depois de sua longa ausência, mas porque no rosto cadavérico trazia vestígios de resignada angústia. Os últimos acontecimentos passado ali tinham-lhe deixado no coração grandes estragos que a sua fisionomia indiscreta, sem a escola da hipocrisia, estampava como vago esboço.

Apressara a jornada a fim de atenuar a intensidade da dor ocasionada pela mudança da viúva do sargento-mor; a jornada, porém, por paragens e regiões que lhe eram familiares, pouco ou nenhum alívio trouxera ao rapaz, em quem o ajudante viu antes um enfermo do que o robusto atleta que admirara em Goiana por ocasião de se bater com as tropas de Luís Soares.

Mas o que a jornada não conseguira, devia Lourenço encontrar no Recife – o seu restabelecimento por violenta e grande comoção que lhe abalou e restaurou os abatidos espíritos – a comoção que despertou nele a notícia do perdão aos nobres, notícia imensamente grata, que ele teve a dita de ser o primeiro a levar aos refugiados de Tracunhaém.

Estava o Recife possuído de febril impaciência por saber a causa de vir entrando um navio adornado com enfiada de galhardetes, ostentando alegres ares, e disparando artilharia de tempos a tempos.

Usurpando os foros de Olinda, à qual ainda hoje está preso pelo ístimo – cordão umbilical que parece destinado a certificar as relações de mãe e filha entre a cidade de Albuquerque  e a cidade de Nassau – o Recife, não obstante ser então vila, concentrara em si desde a chegada do governador Machado, toda a vida da capitania, enquanto Olinda, triste e chorosa, decaída do seu ilustre orgulho, curtia longos dias e agras noites em silêncio, parecido com o que cerca os túmulos.

Com aqueles indícios de extraordinário acontecimento, a vila alvoroçou-se como soe fazer jovem garrida aos primeiros sons de orquestra festiva em salão e baile. Sorriu feliz, agitou-se, pensou em mil assuntos, espreitando a ocasião de transbordarem as suas comoções.

Alguns dos mais insofridos moradores correram ao porto, onde deviam ter trocada em mágoa a leviana alegria. Contra todas as presunções, a notícia trazida pelo mensageiro auspicioso não era agradável; ao contrário, vinha impregnada am azedume e fel. A causa da estrondosa manifestação era o perdão concedido aos nobres por el-rei.

Conhecida esta causa, a agitação aumentou: uns corriam para aqui, outros para acolá, a levarem a notícia; mas, depois começaram a debandar-se, a fugir dos lugares públicos, a concentrar-se no interior dos estabelecimentos e das casas, onde se espraiaram em reflexões sobre o novo tema.

As praças e esquinas ficaram desertas. Súbita paralisia pareceu tomar as ruas. Zacarias de Brito, mercador apacatado, dava ao diabo a fatalidade que escolhera seu navio para portador de tão infausta novidade.

Penetremos, por volta de sete horas da noite, no palácio das duas torres, outrora morada de Maurício de Nassau, agora residência do governador Machado.

À luz de um candeeiro de prata, seis sujeitos conversam sentados em torno de uma mesa, sobre a qual se vê estendido um papel que, pela flacidez, está denunciando ter andado de mão em mão.

O primeiro destes  sujeitos, à vista das atenções que os outros lhe prestam, é o governador. Os seus olhos às vezes incendeiam-se em violento brilho; mas logo este amortece e não têm eles outra expressão que a sua expressão usual – a de chata animalidade.

O outro sujeito, o que lhe ficava imediato do lado direito, tinha fronte estreita, os olhos apertados e piscos, o nariz comprido e fino. Sobre o nariz viam-se ainda os óculos com que o cavalgara seu dono para ler o papel que daí não saiu mais; a razão era porque a leitura, ou, ao menos, o exame visual do documento se repetia de momento a momento, às vezes para se decidir algum ponto acerca do qual a conversação sugeria dúvidas, às vezes como sem intenção, ou simplesmente para iludir o silêncio entrecortado de rápidas observações. Era o desembargador Cristovam Soares, que da Paraíba, onde se achava de há muito, viera expressamente por ordem do governo, a fim de proceder à devassa dos levantes de Pernambuco, por terem os drs. Luís de Valenzuela Ortiz e Pedro Ferreira Brandão dado de suspeito na corte o ouvidor Bacalhau, conforme se disse em outro ponto desta crônica.

O dito desembargador, conhecido por duas alcunhas que passaram à história – Cutia na Paraíba, Tubarão no Ceará – caracterizava-se por certas habilidades  que não raro aparece nas administrações acanhadas e decadentes. Cuidava ele mais dos pequenos do que dos grandes assuntos, mais do exterior do que das entranhas deles. Bastarão algumas linha tomadas ao cronista da famosa guerra para se juizar do espírito deste magistrado. “Começou o sindicante os seus trabalhos – pela escolha do papel para a devassa, de maneira que andou um meirinho de loja em loja e de venda em venda, sem descobrir um papel que agradasse ao ministro.

Do seu caráter ainda diz o cronista: “Sendo ouvidor da Paraíba, pelas coisas desordenadas que ali fez, veio para Pernambuco preso, a fim de ir, como foi, para Lisboa; mas porque os maus tiveram sempre padrinhos, que são a quem só servem,  pois os bons não carecem deles, por meio dos tais padrinhos, teve tal dita, que pode merecer quanto já tinha desmerecido. Tornou para o mesmo lugar e ocupação, deixando na corte ofuscada a verdade que dele se dissera. E com esta pena, de seus erros se pôs tão emendado como dantes e como se pode presumir à vista dela. Queria com inversões do natural mostrar-se reto; mas isso mesmo o obrigava a descobrir-se; porque quando humano se supunha, então era vê-lo impaciente e desabrido. Depois de ouvidor passou a medir terras, enchendo as medidas de quem lhe enchia as mãos, ainda que a parte lesada se queixasse. E deste modo ficaram nas montanhas de Jaguaribe e Açu, por onde andou feito Silvano, memoráveis histórias suas que ainda hoje se celebram
Do ouro lado do governador achava-se o ouvidor Bacalhau, e junto deste frei Estevão (da reformada), D. Matias, cônego regrante, irmão de João da Maia, o qual chegara da Paraíba por ocasião de se dar começo à devassa; e o padre João da Costa (da recoleta da Madre de Deus);
Eis o que rezava o papel:

“Faço saber a vós, governador da capitania de Pernambuco, que fazendo-se-me presente, pelo meu conselho ultramarino, a conta que me destes das prisões, que se haviam feito nesta capitania nas pessoas compreendidas nos levantamentos que houve nela, e que também me deu o desembargador Cristovam Soares Romão sobre o mesmo particular, e que pelo erro que houve na última ordem, que se lhe passou, tinha procedido contra os culpados no primeiro e segundo levante; me pareceu mandar-vos estranhar muito severamente por resolução de 7 do presente mês; pois nela vos declarava que Eu havia confirmado os perdões do primeiro e segundo levantamento, pelo que respeitava aos moradores de Olinda; pois segundo o ministro tivera esta notícia, não inquirira dos ditos levantamentos, pelo que pertencia aos ditos moradores; e assim lhe ordeno que se abstenha de perguntar pelos primeiros levantamentos, e que mande soltar os culpados neles por estarem por mim perdoados, fazendo-lhes repor e restituir os bens que lhes foram seqüestrados: e o dinheiro que se tiver despendido das pessoas, que indevidamente foram pronunciadas pelo primeiro e segundo levantamento, se pague pelas despesas da justiça, ou minha real fazenda, por ora. El-rei nosso senhor o mandou por Miguel Carlos, conde geral da armada do mar oceano, de seus conselhos de estado e guerra, e presidente do ultramarino: e se passou por quatro vias. Manuel Barbosa a fez em Lisboa, a 7 de abril de 1714. O secretário André Lopes de Lavra fez escrever.
Miguel Carlos

— Idêntica a esta ordem régia – disse o Cutia pegando pela décima quinta vez no papel – é a que el-rei se serviu mandar-me, segundo viu v.exa.; mas falta-me disposição, sr. governador, para cumprir esta vontade real, em que melhor se está vendo a fatal intervenção do valimento de Antonio de Albuquerque Coelho, do que a justiça usual e natural de el-rei.

— Parece-vos isto sr. desembargador sindicante? perguntou Félix Machado, a modo de quem não tinha convicção formada sobre o objeto, ou de quem vacilava na que tinha.

— Posso afirmá-lo a v.exa., respondeu o Cutia.

— E eu estou de acordo com o parecer do sr. sindicante – acrescentou o Bacalhau.

O Cutia continuou:
— Pode v.exa. ter por seguras todas as minhas afirmativas, porque de tudo o que digo estou informado; nem é de hoje que pratico o ofício de sindicante, mas pelo contrário de há muito que estou afeito às indagações. A Albuquerque e não a outrem devemos este revés, que a muitos desastres, quiçá, dará lugar,se a nobreza quiser tirar dele todos os desforços a que ele se presta.

— Eu já tive ocasião de declarar ao sr. governador – disse o Bacalhau – quantos males devíamos esperar de Antonio Albuquerque. Durante os dezoito dias de sua estada em Pernambuco, donde é natural, não o deixaram desacompanhado um só instante os seus parentes e conterrâneos. Sabido é que nada do que se passou lhe foi oculto, e que ainda não satisfeitos com isso os mazombos, grandes invenções lhe meteram na cabeça. Conta-se que de tantos documentos, cartas, requerimentos e informações o fizeram portador para os homens que mais representam diante d el-rei, e até para el-rei mesmo, que uma grande canastra ainda não chegou para os acondicionar.

— De tudo sei, sr. ouvidor, de tudo sei – disse secamente o governador. Sei mais o que talvez não saiba o sr. ouvidor – que grande parte de uma história da guerra que se está escrevendo, recheadas de mentiras e aleivosias, foi entregue a Antonio de Albuquerque para ser presente a el-rei.

Neste ponto tomou a mão da reformada e disse:
— Mas o que talvez v.exa. ignore, é quem seja o autor desta história.

— Sei tudo, frei Estevam. O autor é o padre Antonio Gonçalves Leitão – acrescentou o governador – que supõe muito resguardado o seu nome da publicidade, quando não é desta, mas da minha gaveta, ou da sua sindicância, sr. desembargador, que ele mais deve recear.

— No meu canhenho está ele, disse o Cutia; e não se meterá de permeio uma semana que eu não lhe mande bater à porta.

— Agora talvez já não seja tempo, observou o governador.

— V. exa. sabe melhor do que eu que todo tempo é bom para se inquirir de um crime.

— Menos, ajuntou o governador, quando crimes maiores acabaram de ser perdoados, e réus de lesa-majestade são mandados soltar pela própria majestade.

À estas palavras do governador, que em outro círculo de que não fizessem parte o Cutia, o Bacalhau e o frei Estevam, teriam cortado pela raiz a questão, seguiu-se um momento de profundo silêncio, mas não todo o silêncio que deviam produzir.

O Cutia, quando julgou que era tempo de tornar ao grave objeto que ali os trazia juntos, disse:
— Mas perdoe-me v. exa.: o sr. governador está no ânimo de fazer cumprir as vontades de Antonio de Albuquerque?
— O que se há de cumprir, sr. desembargador sindicante, é a ordem de el-rei, respondeu Félix José Machado.

Novo instante de silêncio sucedeu a esta decisiva sentença do governador, o qual, com uma perna sobre a outra, o lado direito voltado para a mesa, os olhos postos na imensidade escura da noite, que envolvia do lado de fora toda a natureza, na qual engolfara a vista através da janela do palácio que caía sobre o Capibaribe, parecia fazer companhia às visitas mais com o ouvido do que com os olhos e o pensamento.

— Não sei para que serviram os procuradores que foram mandados à corte, disse o Bacalhau. Se era para ao cabo de tantos trabalhos e inquietações voltarem a usar, mais altaneiros, do que dantes, os réus de alta justiça, das antigas licenciosidades e soberbias, melhor fora que lá não tivesse ido.

— Não devemos culpar desta faculdade os nossos amigos que foram para Lisboa na frota, e ainda lá estão, respondeu o governador. Antonio Barbosa de Lima, escreve-me por todos os navios, dando-me parte do muito que fez desde que chegou ali, e está ali fazendo a bem da causa portuguesa; e nenhum dos atos deste meu secretário me deu ainda lugar a suspeitar da sua lealdade e entendimento. Devemos antes referir à felicidade dos mazombos ao grande lugar que tem, diante de el-rei, Antonio de Albuquerque, desde que foi governador das Minas do ouro e do Rio de Janeiro, do que a descuido e fraqueza dos nossos procuradores. Nem é só Antonio de Albuquerque o empenhado na defesa destes réus, que a esta hora já deveriam estar degolados por sua alta contumácia e desmesurada traição. Muitas cartas foram mandadas daqui a fidalgos de grande porte que não podendo, por estarem longe do lugar onde se passam as coisas, ajuizar devidamente da gravidade delas, dão muito pelo que lhes escrevem uma D. Lourença Tavares, em cujas mãos melhor cabida teriam os bilros do que a pena, se as cartas que ela assina, não se devem ao padre Guerra; um Cristovam de Holanda, poço de altivez inaudita; um Miguel da Rocha, enfim tantos outros, ente os quais mulheres e clérigos, que não conhecem o que devem a seu sexo e a seu ministério.

Depois do silêncio que sempre sucedia às palavras do governador, este, como se acordara de um sonho profundo, volta-se inopinadamente para João da Costa e lhe dirige estas palavras:
— E que nos dizeis vós, padre, dos vossos companheiros que foram na frota com o meu secretário? Qual foi o seu papel em tudo o que vemos? Deveis ter deles recebido prolixos esclarecimentos.

— Os da recoleta, excelentíssimo, preencheram o mandado que os levara à metrópole. Não descansaram ainda, desde que aportaram em Lisboa. Em outra ocasião poderei mostrar a v.exa. o entendido relatório que frei Ferrão me enviou, e onde vêm apontados, pelo menor, os meios empregados para o vencimento da causa, infelizmente já perdida.

— O pior de tudo isto, o nosso mal, excelentíssimo, está em não ter feito em Pernambuco a justiça que, por seus crimes, mereciam os caneludos,  disse o Cutia.

— E não sabeis vós que sempre foi este o meu parecer e desejo? Ignorais, sr. desembargador sindicante, que entre estas mesmas paredes que nos estão ouvindo, reuni eu, entre junho e julho de 1712, com o dr. ouvidor Bacalhau e o defunto juiz de fora Carvalho, os ouvidores da Paraíba e das Alagoas para, em relação, julgarmos dos crimes cometidos pela nobreza rebelde? Ignorais que os principais motores do levante devem o trazerem ainda hoje fixas nos ombros as cabeças serpentinas, não à generosidade minha, que nunca a tive nem a terei jamais para réprobos semelhantes, mas à pertinácia e firmeza brutal do ouvidor das Alagoas, João Soares da Cunha, e do ouvidor da Paraíba, Jerônimo Correa do Amaral, muito nosso conhecido, que com o pretexto de nada poderem resolver sobre o assunto sem ordem expressa de el-rei, se retiraram a seus distritos, deixando com isto mais seguros em sua ousadia os réus, então impunes, agora perdoados? Não sabeis vós, sr. sindicante, que do ouvidor das Alagoas corre até assinado um infame papel em que declara lhe terem sido oferecidos pelos nossos amigos três mil cruzados para que votasse pela execução dos réus?
— De tudo sei, excelentíssimo – respondeu o Cutia; mas... Enfim, v. exa. sabe o melhor. O que todos nós sabemos e estamos vendo é que o pior de tudo chegou para nós quando não sem fundamento pelo melhor esperávamos. Aí está o perdão, e a não querer v. exa. fazer que o não recebeu, a fim de irmos por diante na devassa, carregando mais a mão sobre quem não tem tido a sua leva para nós, não sei como poderemos sair com vida de Pernambuco.

Félix José Machado levantou-se, deu alguns passos pela sala, e voltou a ocupar o lugar e a posição de há pouco. Ao cabo de um momento, disse com voz em que vibrava mistura de pesar e despeito:
— E posso eu ocultar o perdão?
— E por que não, sr. governador? perguntaram ao mesmo tempo o Cutia, o Bacalhau e João da Costa, que pareciam estar de antemão combinados em indicar a Machado este indigno e criminoso procedimento. Não se fez o mesmo da outra vez? continuou o sindicante com o calor a que o autorizava a fria e como hesitante pergunta do governador.

— Quereis referir-vos... disse ele.

— Quero referir-me – prosseguiu o Cutia – ao perdão mandado por D. Lourenço de Almeida aos portugueses, quando se achavam cercados pelos pés-rapados. Não se ocultou o dito perdão, apesar de recebido? E não teve este procedimento por fim impedir que cessasse a guerra, porque, cessada esta, teria cessado também a esperança de tirarem os portugueses a sua desforra dos nobres? Não se praticou tudo isto, sr. governador? E o que se previu não veio a acontecer? Se v. exa, não publicar o perdão, quem mais haverá competente para o fazer, ainda que de Lisboa o tenha recebido? Se v. exa. declarar que o não recebeu, quem poderá asseverar o contrário?
O governador levantou-se novamente, e dirigiu-se à varanda do palácio.

Neste momento uma como constelação luzia ao longe, e, aos seus reflexos, apareceu no horizonte longínquo o vulto de Olinda.

Não se meteu muito tempo que de diferentes pontos da orgulhosa cidade começaram a levantar-se aos ares girândolas de variados fogos, que por todos os que se achavam com o governador, chamados por este à varanda, foram logo vistos.

— Eis ali a resposta que tenho para dar à vossa última interrogação, sr. desembargador sindicante. A notícia do perdão é motivo de festas gerais na soberba cidade. Não vedes como ela está iluminada de uma extremidade à outra? A esta hora os restantes da empavesada nobreza que ficaram fora da devassa cavalcantina, se banqueteiam não só com os das linhas que a cruzam, mas também com os aduladores e agregados de uma e de outras, Naturalmente da própria secretaria do ultramarino enviaram cópia da ordem que me foi dirigida, a algum mazombo de Olinda, a Duarte Tavares por exemplo, para prevenir a perda do original. Amanhã o perdão estará estampado por todos os cantos da cidade, a fim de que sobre sua existência não haja dúvidas. Não seria, pois, o maior dos desacertos a ocultação deles por parte de quem o recebeu para o fazer cumprir sem tardança? Não seria, além de desacerto, perder tempo, com o risco de perder alguma coisa mais?
— Se eu fora governador – disse então o Bacalhau – assim como sou ministro, “eu lhes construiria ou fizera construir o que isto é; não lhes consentiria estes alguergues e parvoíces(8).

— Sr. ouvidor – disse Machado – o meu ânimo e o meu desejo não podem ir além dos limites da minha autoridade. A campanha que dei aos nobres está finda; é tempo de recolher-me à minha tenda de guerra; se não fui vencedor, não fui vencido. Amanhã se botará bando, fazendo manifesta a graça de sua majestade; e darei ordem para que desembarquem os que estão nos navios, e sejam todos eles postos em liberdade, excetuados somente João Luiz Correa, Felipe Cavalcanti, seu irmão Jorge Cavalcanti, Leandro Bezerra e Felipe Bandeira, que interpuseram recurso para a Bahia. De lá naturalmente voltarão livres, visto que segundo se me escreve do reino, o novo governador-geral e vice-rei vêm no ânimo de compor todas as discórdias atuais.

— E quem é o novo governador-geral? perguntou o Cutia.

— D. Pedro Antonio de Noronha, conde de Vila-Verde, marquês de Angeja, respondeu Félix Machado.

— Assim senhor, está tudo acabado sobre estas terras, e do que fizeram os nobres em sua louca e audaciosa rebeldia nada mais resta, tirante a memória dela?
— E que quereis que reste mais, sr. ouvidor? Eu não sou suspeito. Nunca perdoei aos emperrados desta terra, e agora ainda menos lhes perdôo os males que nos trouxeram a sua natural bazófia e arrogância. Por muito que me desprezem ou que me odeiem, ficarão ainda aquém dos meus o seu ódio ou o seu desprezo. Mas, pois o quer e o manda el-rei, que se lhes dê a liberdade, muito embora não venha ela servir para outros fins que o de revolverem novamente a terra, abaterem a autoridade, impedirem o desenvolvimento material e comercial, cevarem ódios, alentarem vinganças, tirarem a vida a quem devera tem muitas para os poder aniquilar um por um, de geração em geração.

— Não se lhes poderia imputar nova rebeldia, novo levante, ainda não perdoado? perguntou o Bacalhau.

— Qual?
— O levante de Tracunhaém, essa liga tremenda de que é cabeça Falcão d’Eça.

— A liga de Tracunhaém – respondeu Machado – não é propriamente levante, sr. ouvidor. E em que aproveitaria a sindicância que dela se fizesse?
À proporção que a noite ia se adiantando, a sala onde se realizou este diálogo enchia-se dos principais da parcialidade oposta à nobreza. Todos corriam a certificar-se da notícia ouvindo-a da boca de Félix José Machado. Todos tinham os olhos em Olinda, e os ouvidos à escuta; e não era sem razão que o faziam porque ali começavam a manifestar-se estranho e geral regozijo. As casas e as igrejas estavam iluminadas. Repicavam os sinos; bandas de música, improvisadas em poucos momentos, percorriam as ruas, derramando o movimento e a alegria onde horas antes era tudo imobilidade e recolhimento. Os ecos da demonstração febril e vibrante, ondulando por cima das águas mansas do Capibaribe, por cima dos tufos verde-negros, pitorescos e murmurosos dos mangues, que bordavam as suas ilhas e margens, vinham ferir os tímpanos dos ouvidos da burguesia portuguesa que enchia as salas do palácio das duas torres, e nesses ecos parecia escutar os de uma orquestra fúnebre.

No outro dia, pela manhã. à porta dos principais mascates, amanheceram papéis com ridículas caricaturas e sátiras ferinas, alusivas ao destroço daquela parcialidade. Em algumas casas e notórios amigos de Camarão, viam-se covos com alguns camarões dentro, indicando que os parciais do chefe caboclo tinham caído na armadilha. Em outras viam-se forcas de varinhas. Andava ali o engenho popular que não perde vasa.

A musa anônima, que já celebrava a morte do juiz de fora em graciosa décima, produziu mais duas comemorativas de certo fato que dera muito o que falar – o de ter tentado contra os seus dias em Olinda certo partidário do Camarão, o qual morreria enforcado se a mulher não o salvasse.

A crônica, prevenida, recolheu estes produtos que me considero na obrigação de trasladar aqui:

“Nesta cidade se quis
Enforcar um camarão,
Fazendo, por sua mão,
O laço como se diz:
Já pela boca e nariz,
Sem poder resfolegar,
Acudiu, no pernear,
A mulher deste madraço;
E, cortando-lhe o cadarço,
O tirou de se enforcar.

Foi coisa bem mal tirada.

Porque a todos desta seita,
Não vi coisa mais bem feita,
Que enforcados, quando nada,
Ação foi desesperada,
E de um homem já perdido;
Mas ficando suspendido
Pela fé dos camarões,
Livrava-se de questões,
E a mulher de tal marido.(2)

A cidade de Albuquerque devolvia assim, aumentados, os insultos e mofas com que havia mais de dois anos a ousada e risonha vila respondia aos seus pesares e lágrimas, dia por dia, às mãos cheias, como inimigo atroz e implacável.

XVIII

Obra de um mês depois, pacificada a capitania, voltados aos seus lares Francisco e Lourenço, saiu este uma manhã do sítio do padre Antonio, onde todos moravam agora, enquanto Francisco cortava umas varas na mata para fazer um caritó onde guardar goiamus, que começava a andar ao atar. Fora Marcelina a autora da idéia, dizendo ao marido que os goiamus, bem cevados como ela os sabia cevar, haviam de dar bom dinheiro na vila, e não convinha perder este lucro.

Lourenço, conquanto a manhã estivesse fresca e risonha, levava no rosto a sombra do desgosto íntimo que, passada a impressão do grande acontecimento, voltou de novo, não tão intenso como dantes, mas tenaz e constante como um, remorso ou uma chaga incurável.

E saíra com o pé esquerdo, porque, adiante, saltando um pau que cortava a passagem, foi cair com a cabeça de encontro a uma pedra onde se feriu, ficando com a camisa lavrada de longas machas de sangue.

Como tinha feito tenção de ir ver um pedaço de terra, do lado de Jopomim, que lhe fora oferecido pelo dono que o vendia por pouco dinheiro, prosseguiu o caminho, não obstante o desastre e a má aparência.

Depois de andar cerca de meia hora, deu na várzea que de há muito não via, a várzea do Jopomim, por onde brincara alguns anos antes, pegando canários e gurinhatãs, quando o seu espírito discorria por horizontes sem nuvens nem limites, quando no seu coração não havia nenhum espinho.

De repente ouviu umas vozes femininas que partiam de ponto não muito distante do em que estava. Com pouco descobriu, de fato, duas mulheres, uma das quais trazia um saco nas costas, e era acompanhada por um cão, que farejava de moita em moita, e às vezes parava de latir. Então a mulher aproximava-se do lugar, arreava o saco, inclinava-se para o chão, e aí apanhava, ora rindo-se ora fugindo com o corpo e as mãos, um objeto que, com toda a precaução, atirava dentro do saco. Lourenço compreendeu logo que a mulher andava apanhando goiamus.

A outra, que estava mais perto dele, e parecia mais nova, em vez de imitar a mais velha, colhia araçás aqui e acolá, e atirava-os dentro de uma cuia, correndo e saltando com os cabelos soltos, de um araçazeiro para outro, como fazem os beija flores de roseira em roseira, nos jardins.

Pressentindo gente por ali, antes de ver quem era, o cão, mais defensor que caçador, deixou aquela a quem estava prestando seus bons serviços, e correu na direção de Lourenço, com quem deu em um instante. Logo que a mulher que se achava mais perto, viu o rapaz com a camisa cheia de lavores pouco tranqüilizadores, um cacete em uma das mãos, um facão na outra, e as vistas cravadas nela, deixando escapar um grito angustioso, e cair da mão a cuia, correu para onde estava a outra:
— Minha mãe! minha mãe! gritou ela, assusta da e trêmula. É Lourenço! É ele. Corramos, fujamos, minha mãe. Quem sabe se ele não vem matar-me!
— Cala a boca, Marianinha. Quem te disse que é Lourenço? respondeu Joaquina, a qual, pela distância, não pudera ainda distinguir bem as feições do rapaz.

Este reconheceu pelas vozes as suas amigas vizinhas e camaradas.

Penetrante e atroz foi a mágoa sentida por Lourenço, quando ouviu as acerbas palavras da filha de Vitorino. O seu coração já tão castigado pelos últimos acontecimentos, o seu coração infeliz que tinha a sensibilidade nervosa dos enfermos de doença moral, experimentou uma dessas impressões produzidas por choques traumáticos a que muitas vezes não se pode resistir com a vida.

Ao princípio, quis fugir para o lado oposto. Não era este o meio direto de resolver aquela situação aflitiva? Fugir das vistas daquele a quem desagradamos, não é passo natural e racional?
Lourenço esteve para dá-lo; mas, compreendendo que, se assim procedesse, confirmaria o mau conceito que dele já formava Marianinha, tomou resolução contrária.

— Elas têm para si que sou um assassino; mas eu não sou o que elas pensam. É preciso que se desenganem. Às vezes, quando me esquento, sou capaz de comer gente viva, mas isto acontece uma vez na vida.

Eis o que ele pensou, eis o que lhe ocorreu, após o primeiro impulso, vencido pelas reflexões. Não hesitou mais, e encaminhou-se para onde estavam mãe e filha.

— Então, que é isto, Marianinha? perguntou ele, ainda de longe. Correu de mim? Eu não venho fazer mal a ninguém. O meu facão não tem ponta; partiu-se ali atrás em uma pedra onde quebrei a cabeça; e é por isso que estou com a camisa cheia de sangue.

Assim falando, Lourenço atirou o facão, de feito quebrado, aos pés da menina, a fim de que ela visse distintamente que ele dissera a verdade.

Não obstante a humildade e brandura destas expressões, Marianinha não ousava levantar os olhos ao rapaz. Mudas e abaladas, Joaquina e a filha não sabiam o que dizer.

— Nunca matei ninguém, nem Deus há de permitir que eu chegue a matar quem quer que seja algum dia. Vim por aqui para as ver. Tenho sentido muitas saudades da sua companhia. Mudaram-se do Cajueiro sem me dizerem adeus, zangadas comigo sem grande razão, porque...

Lourenço não soube como continuar.

— Se não nos despedimos, disse Joaquina, foi porque você tinha feito o que não devia fazer com  a  Marianinha, que morria por você, que lhe queria tanto bem, que vivia somente para lhe querer bem.

— Naquele tempo, tornou o rapaz, eu andava fora de mim. Agora não hei de sair mais do bom caminho. Foram-se os que tinham vindo, e ficaram os que cá estavam. Com estes é que eu me hei de achar.

Enquanto falava, Lourenço punha os olhos em Marianinha, cujas formas tinham se tornado esplêndidas. Quantas diferenças lhe notou!
Desgostosa do que acontecera, Marianinha cortara os cabelos logo depois da mudança. Estava agora com cabelos novos, bastos e lindos. Libertada do amor e do ciúmes que a amofinavam, engordou e cobrou cores finas. As espáduas, o pescoço, a raiz dos seios, os braços curtos, as mãos pequeninas, estavam revelando a Lourenço, no boleado e no ilustre, quanto ganhara ela com a transformação.

— Não fujam mais de mim, que me fazem ficar tristes – prosseguiu o rapaz. Não vivemos sempre em boa harmonia?
— Sempre não – atalhou Joaquina; até certo tempo, enquanto não se meteu entre nós uma nuvem negra que foi a causa do nosso desgosto.

— Está tudo acabado agora. A nuvem foi-se embora. Não está tão bonita esta manhã? Pois quem sabe se não vem com ela a manhã da nossa passada amizade?
— Como está Marcelina? Como está Francisco? Ainda não o vi depois que chegou, disse Joaquina, como quem ia se acomodando com a nova ordem de idéias sugerias pela imaginação de Lourenço.

— Estão bons. Vou já dizer-lhes que estive aqui, e que depois de amanhã, que é domingo, sinhá Joaquina e Marianinha vão passar o dia lá em casa.

— Não, Lourenço; lá não – disse Joaquina.

— Pois então há de ser cá. Venho eu, meu pai e minha mãe. Pegaremos o resto dos goiamus. A andada não dura três dias?
— Se quiserem vir, venham. Aqui nos acharão para os recebermos.

— Havemos de fazer a nossa festa mesmo debaixo destes araçazeiros. Mas, que é isto, Marianinha? Você parece que está muda. Se não diz que posso vir, não venho.

— Minha mãe já não disse que você podia vir? O que ela disse é o que é.

— Então, até domingo.

— Até domingo. Olhe. O caminho é por ali, e a casa é aquela – ponderou a viúva do Vitorino, apontando, por ver que o rapaz se resolvia a partir.

No dia seguinte amanheceu Marianinha tratando dos preparativos para a esperada recepção.

A casa era de barro, coberta com palhas. Tinha pertencido a um morador que, por desgostos com a senhora daquelas terras, se passara para outras. Estava ainda muito bem conservada e ficava em boa situação. Do lado direito vinham morrer-lhe no oitão uns canaviais; pela esquerda e pelos fundos tinha a várzea; pela frente passava o caminho que levava a Goiana; Entre a casa e o caminho havia um araçazal mais basto do que se via na zona intermédia entre aquela e a mata.

Marianinha cortou com o facão alguns matos que fechavam o caminho, decotou umas goiabeiras ramalhudas que tiravam a vista do alpendre, limpou à enxada a frente, a fim de tornar mais espaçoso e alegre o pátio. De tarde mostrava-se graciosa e faceira. Remoçara com o asseio, e estava como sorrindo aos hóspedes ainda ausentes.

Quem soubesse dos precedentes entre as duas famílias, que circunstâncias supervenientes tinham separado, havia de cuidar que a filha de Joaquina, tão solícita em preparar digna recepção à suas antigas amizades, entre as quais se compreendia Francisco, seu padrinho, estava nadando em satisfação.

Mas a verdade é que bem diverso sentimento dominava Marianinha. Em vez de clarões suavíssimos, clarões e esperanças, tinha no espírito nuvens negras, nuvens de desgosto invencível. A vinda de Lourenço avivara todo o seu passado de que não restavam na lembrança dela senão quadros desbotados, quase extintos; e o passado não lhe era agradável, porque nunca Lourenço lhe dera motivos de verdadeira satisfação, antes quase sempre a contrariara.

Marianinha passou toda a noite pensando no que havia de fazer. Lourenço para ela já tinha morrido, e com ele o grande amor que lhe dedicara. Ressurgindo-lhe agora diante dos olhos, devia ela desenterrar o falecido amor? Lourenço merecia-lhe este milagre? Lourenço, que nunca lhe dera provas de sincera estima, devia voltar a ocupar nas aras do seu coração o lugar de honra, e receber o culto exclusivo que ele próprio desprezara? Depois de pensar em tudo isto, e de meditar cada uma das graves questões que no espírito se lhe apresentavam, a menina, tomando uma resolução heróica, disse consigo:
— Lourenço morreu para mim de uma vez. Seja de quem quiser, menos meu; nem eu serei dele. Lourenço acabou-se para mim, como homem a quem eu queria bem.

Com Lourenço dera-se o contrário. Aparecendo-lhe acrescentada de beleza e graça, quando ele tinha a alma devastada e árida, a gentil rapariga deu-lhe frescura e vigor. A sua imagem restituiu-lhe o amor à vida. Dissuadido do enganoso sonho, sentiu-se voltar todo, como o girassol, para aquele astro que se lhe deparou no horizonte brusco. Marianinha era meiga e boa, era extremosa e dedicada, era paciente e cândida. Ele conhecia as suas superiores qualidades raras numa menina, adoráveis numa esposa. Onde acharia mulher mais digna dele? Nenhuma conhecia que se comparasse com ela na ternura, na modéstia, no afeto, e poucas poderiam ser rivais nos seus encantos.

Aceso em desejos, anelou pelo domingo. Tinha tomado também a sua resolução. Na mesa, por ocasião do almoço ou do jantar, recordaria a passada promessa, e designaria dia para o casamento.

No domingo aprazado, ainda com escuro, bateram à porta da casa da várzea. Marianinha e Joaquina puseram-se imediatamente de pé, julgando serem as visitas. Era um negro que Lourenço mandara adiante com um carneiro que devia ser sacrificado nas aras da reconciliação, e com algumas garrafas de vinho dentro e um cesto, licor indispensável em semelhantes sacrifícios, como é no sacrifício por excelência da igreja católica.

Pouco depois chegaram Marcelina, Lourenço e Francisco, que foram recebidos pelas duas mulheres à beira da estrada, onde eram esperados com impaciência.

Todos sabem ou ao menos avaliam com que atenções e cortesias se tratam no primeiro encontro pessoas que, depois de desavindas, reatam as antigas relações. Neste particular, nenhum dos que se achavam presentes levou vantagem a Lourenço, origem da desavença.

Das nove para as dez horas começou o almoço, na parte lateral do alpendre que dava para a várzea. Com ser almoço de gente pobre, foi variado e abundante.

Moquecas e amorés, e frigideiras e ensopados de goiamus, preparados na véspera por Marianinha; sarapatel feito do sangue do carneiro por Marcelina; angu de milho já nesse tempo muito usado entre o povo, e que Joaquina sabia fazer primorosamente, deram-lhe, com café com leite, e as usuais macaxeiras e batatas doces, honras de lauta refeição de gente abastada.

Quando foi chegando a ocasião do café, Francisco pegou do copo e, dirigindo-se a Marianinha, disse-lhe:
— Marianinha, enche o teu copo. Há de ser de virar. À saúde do teu casamento.

A menina empalideceu, e guardou silêncio.

— Então, Marianinha, que é isso? inquiriu Marcelina. Põe vinho no copo, menina. Não fiques triste. Desta vez há de fazer-se o que tanto desejas.

— À saúde do teu casamento, Marianinha, repetiu Francisco, pondo-se de pé.

E voltando-se para Lourenço:
— Que fazes tu também aí que não despejas logo o teu bacamarte? Queres ou não queres casar com Marianinha.

— Quero, sim senhor. Eu já tinha feito tenção de falar nisto hoje, se vosmecê me desse licença.

— E por que não? Jurei sobre a cova do compadre Vitorino que tu, Lourenço, havias de ser o marido de Marianinha. Chegou a ocasião. Mas... que tens, menina? perguntou Francisco, vendo a afilhada com os olhos cheios de lágrimas. Não chores. A ocasião é para a gente rir.

Lourenço, Francisco, Marcelina e Joaquina levaram os copos aos lábios, e esvaziaram-nos. Somente Marianinha não bebeu.

— Por que motivo não bebes? perguntou Francisco espantado.

— Porque esse casamento não se há de fazer, respondeu a menina, com voz chorosa.

— Estás malucando, menina, tornou Francisco.

Os outros, silenciosos e confusos, cravaram as vistas na filha de Vitorino, cuja palidez aumentara.

— Há de fazer-se o casamento, porque eu quero, Lourenço quer, e tu queres.

— Não, eu não quero, meu padrinho, respondeu ela com firmeza, que a todos deixou por um instante espantados, quase fulminados.

— Tu não queres! exclamou o matuto, tomado de assombro. Por esta não esperava eu!
— Não quero, não senhor. Não quero, porque sei que Lourenço não me quer bem.

Lourenço, a esta voz, quis vir ao encontro da rapariga, mas faltaram-lhe expressões. Como havia de provar o contrário, quando na consciência de todos parecia haver um tropel de provas a favor da afirmação de Marianinha?
Houve, por instantes, uma como suspensão da vida em todos os convivas. No semblante de alguns, em cujo número estava Marcelina, revelou-se vaga expressão de pesar.

Francisco, levando as vistas ao rosto de Lourenço, foi o primeiro que rompeu o silêncio:
— Quanto a isto, estou calado. Se Lourenço te quer bem ou não quer, só ele é que sabe, só ele poderá dizer.

Lourenço acudiu simplesmente:
— Por meu gosto, quero casar com Marianinha.

Esta retorquiu:
— Eu já quis, mas agora não quero mais. Se não me casar nunca, nem por isso hei de morrer. Tenho vivido muito bem em companhia de minha mãe.

Tão decisiva resposta pôs termo à questão. O casamento estava definitivamente desmanchado.

Neste ínterim, ouvindo ruído de passos de cavalo no caminho e, logo depois o eco de pancadas na porta da frente, correu Joaquina a ver quem era.

— Querem ver que temos por aqui o Saturnino, que volta do Jatobá – conjeturou Francisco.

Palavras não eram ditas, quando Joaquina gritou de fora:
— Marianinha, Marianinha, aqui está Bernardina!
Todos correram ao encontro da filha mais velha de Vitorino.

Era de feito ela com o marido, o incomparável Cipriano, já casados, que, aproveitando a ocasião de ter ido com eles por mandado de Joaquina, o Saturnino logo depois da sua chegada do Tracunhaém com Lourenço e Francisco, vinham abraçar a velha e a moça, contentes e felizes.

O convívio que esfriara um momento, recobrou novo calor.

Bernardina, depois da grave doença que a pusera de cama, botara corpo, e estava outra, isto é, cada vez mais bonita.

Cipriano também mudara muito com o casamento. De concentrado e bisonho que era, tornara-se expansivo e sociável. À sombra do padre Antonio formara-se aquela modesta família, por ele dotada e favorecida.

O padre mandara a Lourenço uma carta:
— Que diz essa carta, Lourenço? perguntou Francisco, vendo o rapaz passar as vistas por cima das regras tremidas.

Lourenço leu em voz alta, para todos ouvirem:

Lourenço, Deus te abençoe.
Depois de casados e arranjados aqui juntos de mim, Cipriano e Bernardina resolveram mudar-se para Goiana, onde ela diz querer morrer. Lá nasceu, lá lhe correram os dias da primeira mocidade, lá tem as cinzas de seu pai, lá quer acabar, ao lado da mãe e da irmã. Para que tudo se arranjasse do melhor modo, fiquei com a parte da terra, que tinha dado de dote à menina, e dei-lhe o equivalente em dinheiro, com a condição de comprarem aí outra terra onde vivam, sem serem pesados à ninguém.
Estando eu já no fim a vida, e vendo-me só neste ermo, venho propor-te a tua mudança para aqui.
Em casa deste padre velho e achacado acharás, ao menos, bons conselhos que de muito te devem servir na vida.
Cipriano porá nas tuas mãos novo papel de doações no sítio do Cajueiro, onde poderão ficar morando Francisco e Marcelina.
Está com os olhos no caminho o
Padre Antonio.

Quando Lourenço terminou a leitura, Marcelina tinha os olhos nadando em lágrimas, Francisco emudecera comovido, e o próprio rapaz, dobrando o papel, sentia uma grande aperto no coração. A carta era uma ordem terminante a que ele devia obedecer. A separação era inevitável.

— Vais assim deixar-nos, meu filho! exclamou Marcelina. Meu Deus! Quantas coisas neste dia! Só consinto que nos deixe, porque sei que tu não me pertences.

Depois, enxugando os olhos, a cabocla disse com voz segura:
— Deves ir, Lourenço. A felicidade está te chamando. É a felicidade, filho; acredita nas minhas palavras, porque eu sei o que estou dizendo. Seu padre que te abençoa é porque ele quer ser teu pai.

Dizendo estas palavras, a cabocla parecia querer fazer-se forte; mas, foi em vão. As lágrimas, desta vez copiosas, voltaram-lhe aos olhos; e com pouco, entrou a soluçar. Sem se poder conter, correu ao rapaz, abraçou-o ternamente, com quem ia separar-se de uma vez, por morte.

No outro dia, pela manhã, deu-se uma cena ainda mais viva do que esta entre Marcelina  Lourenço.

— Minha mãe, perguntou este, vosmecê viu o que Marianinha me fez ontem?
— Vi sim. Eu não esperava por aquilo, ainda que tu...

— Não me diga nada, minha mãe que eu tudo sei. Se lhe falo nisto agora, é para lhe dizer que antes de sair do Cajueiro para o Jatobá, hei de vingar-me de Marianinha.

Um raio que caísse aos pés da cabocla não teria aterrado tanto como estas palavras do rapaz.

— Lourenço, Lourenço, que estás dizendo, Lourenço?! respondeu ela com os tons de suprema angústia.

E atirando-se de joelhos aos pés do rapaz com as mãos postas, em atitude de quem suplicava, continuou:
— Por minha benção te rogo, Lourenço, que te esqueças de semelhante delírio.

— Deixe-me falar, minha mãe – tornou ele, levantando-a; vosmecê não sabe o que vou dizer. Pensa que, para vingar-me do que Marianinha me fez, quero matá-la?
— Nem por graça digas esta palavra, filho.

— Eu quero vingar-me dela de modo muito diferente. Quando ela souber para quanto presto, há de correr para me abraçar; mas já não há de encontrar-me, minha mãe, porque eu estarei bem longe desta terra onde tenho sofrido tanto desgosto, onde só eu tenho sido o infeliz.

— E que é que tu queres fazer?
— Vosmecê sabe que Saturnino, desde pequeno, sempre quis muito bem a Marianinha.

— É verdade.

— Pois, sim; eu quero fazer um presente a Marianinha coma condição de casar com Saturnino; mas o presente depende de vosmecê e de meu pai.

— Que presente?
— Quero dar-lhe este sítio, que seu padre me deu.

— O teu sítio, Lourenço? O teu sítio tão bom, tão bonito?
— Bom e bonito? Sim, ele é tudo isto; mas ele me recorda sempre coisas muito tristes. Eu não passo daqui sem me lembrar de sinhá D. Damiana, e de tudo que mais que houve. Além disso, para que eu o quero, se não hei de voltar mais para Goiana senão de passagem? Sinhá D. Damiana deve voltar, porque todos os seus bens hão de ser-lhe restituídos. Ora, Deus me livre de ter terras e casa junto das dela. Vosmecês também não precisam dele, para morarem porque têm o seu pedacinho de terra e a sua casa. Assim, minha mãe, deixe-me tomar a vingança a meu modo. Só assim sairei de Goiana consolado.

— Pois faze o que quiseres, Lourenço.

Três dias depois, quando os galos começaram a amiudar, Lourenço montou a cavalo à porta do sítio do Cajueiro, Francisco e Marcelina de pé, do lado de fora, viram-no partir, viram-no desaparecer, ouviram ambos, com as faces inundadas de lágrimas, os últimos ruídos dos passos do cavalo, que conduzia para bem longe o melhor das esperanças, o melhor dos afetos, daquelas existências tão boas, tão dignas, tão irmãs – daquelas existências tão ricas na sua pobreza, tão grandes no seu pequenino mundo, tão nobres na sua humilde condição – dois tomos de uma obra que se poderia intitular – Trabalho, bom senso e virtude.

FIM

Fonte: http://www..com.br

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