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O Matuto

Franklin Távora

Então já as duas multidões, pondo-se em comunicação pela escada, formavam um só corpo, uma como serpente imensa, irrequieta, assanhada, que se esfregava pelas paredes, sacudia-se pelas salas, sumia-se pelos quartos a dentro, penetrando nos pontos mais secretos da casa do fidalgo, enquanto este desarmado, ferido, coberto de baldões, via-se com seus próprios escravos entre os primeiros cabos da força de Luiz Soares, e era apontado por ele, que não ocultava a sua satisfação, como o seu primeiro troféu.

De todas as que estavam na casa de João da Cunha, só uma pessoa pode escapar-se com sua liberdade. Foi Marcelina, que correra, não por fugir, senão por acompanhar d. Damiana, no momento em que com ela rompia Antonio Coelho por entre os seus partidários.

- Hei de ir com ela até ao infinito! Dizia a cabocla correndo após a senhora-de-engenho. Não hei de perder de vista a pobre senhora. Meu Deus! Como tudo se mudou!

Mas a Coelho não fazia conta ser acompanhado por essa terrível testemunha, e cedo achou um meio de afastá-la de suas pisadas, por mais que a senhora-de-engenho pedisse depois que a deixasse passar. Para penetrar no quintal do sobrado, tinha Coelho feito caminho por um dos casebres que abriam sobre a Rua-do-meio. O mascate estugou os passos, atravessou o casebre, e, quando se achou com sua presa na rua, trancou pelo lado de fora a porta. Marcelina não era mulher a quem semelhante obstáculo cortasse a carreira em que ia. Mas quando, desimpedida a saída a poder de esforço e violência, ela passou da outra banda, Coelho e d. Damiana tinham desaparecido.

- Pobre senhora! exclamou a cabocla em lagrimas. Que não fará com ela o bárbaro?

Seriam então oito horas da manhã. O dia, risonho e esplendido, apareceu aos olhos da cabocla como a carranca de um malvado. A viração, que brincava com as folhas dos mamoeiros dos quintais, soou a seus ouvidos como a ameaça de um assassino, o riso infernal de um demônio.

Marcelina tinha até certo ponto razão deixando formar-se em seu espirito esta ilusão mentirosa.

Era geral o destroço, lúgubre o espetáculo que seus olhos descobriram na rua. Homens de feia catadura passavam carregados dos despojos da noite. Outros agora é que iam a colher os frutos que sabe a pilhagem descobrir no meio do desamparo, e por entre as lagrimas dos aflitos. Dos armazéns, onde alguns senhores-de-engenho tinham recolhidos seus açucares, saiam sujeitos maltrapilhos arrastando sacos e caixas, que deixavam pelas calçadas rastilhos brancos ou amarelados. Vários troços da força de Luiz Soares, tanto que fora conhecida a vitoria, espalhavam-se derrubando as portas de novos armazéns, invadindo as casas de famílias afeiçoadas à nobreza que tinham fugido para pontos desconhecidos, e daí tirando tudo o que tentava sua cobiça e podia aprazer à sua voracidade. Essas hordas passavam impunemente, sem que ninguém se atrevesse a ir ao seu encontro; porque os próprios grupos que na véspera se tinham organizado em favor dos nobres e durante a noite haviam sido em muitos pontos obstáculo ao saque, desfizera-os a noticia de que o sobrado do sargento-mór, que era como a praça-forte dos nobres, fora tomado pelo partido contrario. A plebe tomara conta da vila e levava por diante a sua obra de destruição e rapina. Enfim, o que Marcelina tinha diante dos olhos era o saque em toda sua hediondez - o saque, serpente de vasta guela e insondável estômago, que tudo engole, viveres, jóias, moveis, roupas, e o que não lhe apraz ingerir, despedaça, destróe, inutiliza, como faz a enchente de um grande rio quando inunda um ponto habitado.

Marcelina vagou sem norte, tendo o juízo em quase completa confusão, pelas ruas cheias de figuras sinistras, e de vozes e ruídos ingratos. Lembrou-se de Lourenço e de Cosme Bezerra. ‘Que será feito de meu filho?! Quem sabe o que não lhe terá acontecido? E seu Cosme que foi buscar gente e nunca mais apareceu?’

Estas interrogações tinham resposta fácil. Cosme, quando vinha com os poucos trabalhadores e escravos de Jorge Cavalcanti, encontrou-se com o bando de Tunda-Cumbe - aquele mesmo que saqueara o engenho Bujari, e foi batido. Voltou então, com Jorge Cavalcanti, derrotado e ferido. Mas ainda assim dirigira-se ao engenho Jacaré, a fim de ver se decidia o respectivo proprietário, até então indeciso, a tomar o partido da nobreza e a vir em auxilio da vila com sua fabrica e agregados. Quanto a Lourenço, tendo preenchido a comissão que o levará ao Tanquinho, lembrou-se de correr ao engenho Bujari, a fim de chamar a gente que ai ficara. Mal sabia ele o negro drama de que tinha sido teatro a risonha propriedade de sargento-mór.

Andando sempre sem destino, ora para um lado, ora para o outro, por fugir das turbas revoltas que não cessava, em seu frenesi, de botar abaixo portas, roubar o que lhe aprazia, despedaçar o que não falava à sua ambição, quando Marcelina deu acordo de se estava no oitão de uma igreja. Era a da Misericórdia. Seriam nove horas. No lugar, como se deserto, passavam com intervalos, maltas de homens, vociferando, gritando, muitos deles já nos braços da embriaguez.

De repente, ela viu vir correndo a marche-marche, pela Rua-das-porteiras, em procura do oitão da igreja, onde ela se sentara, uma longa fileira de soldados, os pés nus, as calças arregaçadas. Capitaneavam-nos dois cavaleiros.

- Virgem Maria! exclamou ela, tomada de novo horror. Aonde irá isso parar! Goiana hoje arrasa-se, acaba-se de uma vez.

Supondo que era novo reforço de bandidos, correu a meter-se dentro de um fechado de arbustos que havia a um lado do oitão. A pobre mulher estava possuída de terror. Em todos via inimigos.

Abaixou-se quanto pode, e nesta posição ficou imóvel, quieta, rezando baixinho a Magnificat.

Quando estava nisso, passou por junto da moita o bando sempre a correr. Não falavam. Parecia mudos. Todos corriam apressados. Adiante ia um oficial e atrás outro, acompanhado de um paisano. Estes três vinham a cavalo.

Súbito uma voz soou aos ouvidos da cabocla.

- Veja, seu ajudante. Olhe como corre o povo solto lá embaixo.

- Estas palavras tinham sido ditas pelo paisano ao militar, apontando o que as dissera para o largo das Portas-de-Roma.

- Elas produziram em Marcelina o efeito de um choque elétrico. Tinha reconhecido a voz de Francisco.

- Marcelina não se pode Ter mais oculta um só instante. Correu de dentro dos arbustos, gritando: Francisco, Francisco, foi Nossa-Senhora que te botou por aqui.

Não se pode descrever o prazer que tomou o matuto. Saltar do cavalo abaixo e correr, louco, delirante ao encontro de sua mulher foram atos que ele praticou a modo de impelido por uma mola magica. Apertou-a entre os braços extasiado. Por cima de suas barbas que iam pintando, mas ainda negras, desceram-lhe duas lagrimas nitentes. Sobre seus lábios crestados perpassou sorriso de inefável contentamento.

- Marcelina, meu amor, que andas fazendo por aqui só, escondida? Estás com medo dos mascates, já sei. Ah! Marcelina, Deus se lembrou de mim. Vim fugindo dos facinorosos. Os mascates estão senhores de toda a vila. Seu sargento-mór, tenho que já o mataram. As forças de Luiz Soares atacaram o sobrado e levaram tudo a ferro e a fogo. Nós resistimos, mas por fim não pudemos mais, e demos os braços.

- Já sei de tudo, Marcelina. Lá embaixo soubemos logo do que havia. Esta tropa, que estás vendo, vem de Itamaracá por ordem do governo de Olinda para acabar com os mascates. Eu vinha fora de mim, minha mulher. Nem tu sabes o que fizeram os ladrões, ao passarem pelo Cajueiro. Que fizeram eles?

- Queimaram a nossa casa, mulher, a nossa casinha, que nunca lhes fez mal.

A nossa casinha! Que dizes tu, Francisco? Pois esses endemoniados chegaram a queimar a nossa moradinha de casa? Oh meu Deus! Cada um havia de Ter sua parte nessa desgraça geral?! Até o nosso suor havia de pagar pelos males dos outros?! Mas isso não há de ficar assim. Deus há de castigar esses malvados, essas feras malfazejas!

- E que novas me dás tu de Lourenço?

- Anda ai mesmo pela vila com seu Cosme, lutando com os mascates. Mas a minha casa, a minha casinha tão bonitinha! Tudo queimado e destruído! Ah! malvados do inferno! A luz há de faltar a vocês na hora da morte.

- E as lagrimas arrasaram os olhos de Marcelina, que tinha nas faces palidez mortal, nos olhos a expressão de profunda e entranhável dor. Não chores, mulher. Foi-se uma, faz-se outra casa. E a minha caixa teria ardido também?

- Qual caixa?

- A nossa caixa, aquela onde tu guardavas o dinheiro. Se não a tiraste antes, ardeu também. Tudo lá estava em cinzas.

- Ah Lourenço, lá se foi a tua fortuna. Era na caixa que eu tinha guardado o papel que me deu seu padre Antonio no momento da despedida. Que papel era esse?

Vamos ao Cajueiro, Francisco. Talvez ainda se possa salvar alguma coisa. Tem paciência. Agora não é possível o que queres. Vou aqui servindo de guia à tropa. Mas se queres ir, vai. Aqui te deixo o cavalo, coitado! que já não pode andar de enfadado. Vê como vais, Marcelina. Se vires alguém que te possa ofender, mete-te no mato. Eu hei de dar contigo onde estiveres. Vou direitinho à minha casa. Mas antes que me esqueça, quero dizer-te uma coisa: vê se podes descobrir sinhá d. Damiana que seu Antonio Coelho prendeu e levou consigo para entregar à justiça. Pobre senhora!

Francisco alcançou logo adiante a tropa, enquanto Marcelina, tendo arregaçado as saias, saltara sobre a cangalha e pusera o cavalo para trás.

A tropa que Francisco tinha guiado não era senão uma parte das forças comandadas pelo ajudante-de-tenente.

Tinha este planejado, antes de entrar na vila, formar um como cerco que avançasse das ruas de fora para as de dentro, a fim de apertar e sufocar a insurreição, de modo que ela não tivesse por onde escapar.

Obedecendo a este intuito, Gil Ribeiro dividiu as forças em duas colunas, e, ficando com a mais forte, entregou o comando da outra ao ajudante Filipe Bandeira com o alferes Carlos Teixeira. Ele fez a sua entrada pelo lado do ocidente, e um quarto de hora depois entrava no Pátio-do-Carmo pelo lado do rio. Ao mesmo tempo a coluna comandada pelo ajudante Filipe Bandeira, e habilmente encaminhada por Francisco, desembocava ai pelo Beco-do-limoeiro. As forças inimigas estavam ainda no Pátio-do-Carmo, tendo à sua frente Luiz Soares, Gonçalo Ferreira, e os mais importantes mascates, seus parciais.

João da Cunha, Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti, eram conduzidos à cadeia por Jeronimo Paes no momento em que as duas colunas desembocaram no pátio. Eles deviam ficar ali ocupando o lugar dos criminosos que a multidão ainda não tinha podido soltar, em conseqüência da tenaz resistência de Antonio Rabelo. A demais nobreza, menos Cosme Bezerra, Jorge Cavalcanti e Manoel de Lacerda que já se achavam de volta novamente à vila para bater os invasores, tinha fugido para o mato. Todavia Gil encontrou já uma nova reação principiada contra os amotinados. Grande numero de cidadãos pacíficos, indignados com a cena do saque, tinham-se armado, e começavam a bater os que continuavam a praticá-lo. De sorte que alguns pontos, por onde passaram as duas colunas, as receberam com vivas demonstrações de contentamento.

Enfim, seriam dez horas da manhã quando o ajudante-de-tenente atacou os revoltosos. O povo é vário como as ondas. Não foi preciso muito para que, operando-se o quase fatal reviramento, logo se declarasse pelos vencidos.

Rompeu vivíssimo fogo de uma parte sobre a outra. Mas os matutos bisonhos, cansados e quase famintos que constituíam as forças de Luiz Soares, não podiam resistir por muito tempo às forças frescas, adestradas no manejo das armas e impacientes por darem tremenda lição, que trazia Gil.

Luiz Soares, em pouco tempo convencendo-se de que a sua estrela atingia o ocaso, tratou da retirada.

Esta operou-se por dentro do próprio convento do Carmo. Os frades, ainda desta vez com as armas nas mãos, protegeram a causa dos estrangeiros.

Mas não foi pequeno o numero dos mortos e feridos que deixavam os que fugiam com medo de sua própria sombra.

No mais aceso do combate, Francisco correra a soltar os três fidalgos que eram conduzidos por um troço dirigido por Jeronimo Paes e seus três filhos.

- Eu nunca matei ninguém, meus senhores - disse Francisco ao bando. Mas para salvar esses homens, mato e morro; faço tudo, contanto que lhes de a liberdade.

Miguel, ouvindo estas palavras decisivas, partiu contra ele com o facão, e Victor imitou-o. A esse momento estavam já com o matuto algumas pessoas de Goiana, que descarregaram terríveis golpes sobre os agressores. Aproveitando a confusão, Francisco consegue chegar-se aos prisioneiros e cortar-lhes as cordas que lhes prendiam os pulsos. A um dá o facão, a outro a arma de fogo. Então eles investem terrivelmente. Pareciam feras soltas das jaulas. Em poucos instantes Jeronimo cai como morto; tinha sido alvo de golpes tremendos a que não pode resistir. Os filhos, porém, ainda que feridos, levantam o procurador do povo (Jeronimo Paes dava-se esta denominação) e fogem com ele. João da Cunha quer persegui-los, mas de repente para, como se o mundo lhe desabara aos pés, tanto que ouviu estas vozes de Francisco:

- Seu sargento-mór, os mascates estão vencidos. Mas o principal para nós está ainda por fazer. Sinhá d. Damiana.

- E que é feito da senhora d. Damiana?

- Que é feito? Está no poder do principal dos mascates. Quem? Antonio Coelho?

- Sim, senhor.

- Oh! não me digas isto, Francisco. E eu ainda aqui. vamos, corramos. Mas aonde iremos? Para onde correremos?!

Para a casa do mascate. Correram os fidalgos e o matuto como loucos pela rua afora. João da Cunha levava o inferno no coração. Aquela triste nova dava-lhe a esgotar as fezes do cálix de amargura que bebia desde a véspera. Em toda a sua vida nunca sentira tão profunda, tão desumana dor penetrar-lhe a alma.

Todas as portas, tanto as inferiores como as superiores, estavam hermeticamente fechadas. Do lado de dentro o silencio era profundo. Tudo indicava que na casa não havia viva alma.

A João da Cunha, perdido em cogitações e incertezas, só faltava desesperar.

- Meu Deus, meu Deus, que hei de fazer? Onde irei descobrir o infame? Onde irei achar minha infeliz mulher?

Estiveram um momento curtindo silenciosos, de pé, a modo de privados do exercício da razão, aquela angustia sem nome.

Súbito uma detonação, que parecia partir do interior do sobrado, veio ressoar do lado de fora.

- Estão ai, estão dentro. Matou-a o malvado, exclamou o sargento-mór. Adivinho tudo. Quis violentá-la, ela resistiu e ele matou-a. Mas eu o matarei também. Matarei o vilão.

Lívidos, como cadáveres, atiraram-se à porta que lhes pareceu menos resistente. A coices de arcabuz, conseguem metê-la dentro. Voam de escadas acima como quatro sombras, quatro espectros fantásticos. A claridade do dia chegava ao interior da casa como luz crepuscular; mas aos olhos deles o que se apresentava eram trevas profundas. Francisco foi o primeiro que abriu uma das portas, e João da Cunha o que se atirou para o interior da casa, que não conhecia. O cheiro da pólvora e a nuvem de fuma ainda ondulante indicaram a direção que eles deviam tomar. Chegam enfim ao dormitório do negociante. Uma voz enfraquecida fez ouvir então estas palavras:

- Não me matem, não me matem.

Aos pés do leito havia um vulto sentado e outro estendido.

- Por Nosso-Senhor-Jesus-Cristo, não acabem comigo.

- Quem és tu, miserável? Perguntou o sargento-mór.

- Era Bartolomeu, o barcaceiro. Contou tudo. Tinha estado na véspera com o negociante. Tinha concertado esperar por ele na Borboleta; mas tendo visto os dobrões que o negociante inadvertidamente lhe mostrara, projetou logo apossar-se deles furtivamente. Esteve na barcaça até a hora em que a sorte pareceu ser pelas armas dos mascates; mas tanto que soube da entrada da tropa do governo, correu ao sobrado, calculando que Coelho seria morto, ou ao menos preso. Chegando ai, fechou-se por dentro para afastar qualquer suspeita, e forçou a burra. Quando a tampa cedeu à violência, um tiro partiu de dentro, e o feriu acima do ventre. Era o tiro que eles tinham ouvido. Em vão procurou o dinheiro que o tinha tentado. O que encontrou foi uma pistola presa ao cofre por oculto aparelho, ali posto intencionalmente para a fazer disparar sobre quem o violasse. E a Borboleta?

Deve de estar ainda no porto à minha espera. Os quatro amigos atiraram-se imediatamente fora do aposento e ganharam a rua em violenta carreira para o porto.

XXVIII

A enormidade e a iminência do perigo abateram o grande animo da senhora-de-engenho, a qual, percebendo levantar-se diante de seus olhos o vulto horripilante da morte, não escolheu meios de fugir a esta fúnebre visão, e deixou-se arrastar sem resistência e como sem consciência pelo mercador.

De feito, ela ouvira centenas de vozes pedir do lado de fora a sua cabeça em resgate do crime que fora aliás praticado por seu marido; vira a casa tomada pelos amotinados, resolutos a não terem para ninguém, e muito menos para ela, se não fosse o negociante, a menor contemplação; conhecera enfim que sua vida, posto que à sombra da proteção dele, não se podia considerar ainda de todo segura. Então não hesitou, não refletiu. Pegou da mão que se lhe estendia. O instinto da própria conservação impõe-se como uma fatalidade. D. Damiana não podia mostrar-se superior a essa lei absoluta e impreterível.

Para Coelho a crise tinha chegado à solução natural e única. João da Cunha, uma vez nas mãos dos inimigos, não haveria sair delas com vida. E o homicídio, previsto pelo mercador, não esteve longe de ser cometido nos primeiros momentos depois da prisão do senhor-de-engenho; mas interpôs-se uma circunstancia, menos filha do acaso do que da clemência com que o céu quis vir a seu socorro. Os filhos de Jeronimo Paes assentaram não lhe tirar a vida senão depois de perdida a esperança de um resgate em dinheiro, por então muito em voga.

Coelho não pensou mais senão em efetuar a sua viagem para o Recife. Ai esperaria a ultima palavra dos acontecimentos, que para ele não era duvidosa. Ai realizaria o seu sonho. Mas para que este resultado não estivesse sujeito ao mínimo contraste, urgia deixar Goiana. Demais, as turbas achavam-se exacerbadas e podiam ter o capricho feroz de preencher a sua vingança derramando o sangue de infeliz senhora. enfim, apresentando-se todas estas idéias ao espirito do negociante, correu ele à casa, meteu em se todo o ouro que tinha em segredo no cofre, e dizendo a d. Damiana que a ia recolher em lugar onde o povo não pudesse suspeitar seu homizio, encaminhou-se com ela em direitura para a Rua-do-rio.

D. Damiana não votava desafeição a Coelho. Ele tinha sido, por assim escrevermos, seu companheiro de infância, e tanto bastava para que a seus olhos o jovem europeu não aparecesse senão como um amigo, ou um irmão. É verdade que, mais tarde, distancia maior se estendera entre eles dois, filha da desigualdade de condição que naqueles tempos tanto predominava nas relações sociais e de família. Mas as tradições da primeira idade, que, como os hieróglifos dos egípcios e os caracteres cuneiformes dos persas, que tem atravessado as eras e dizem idéias tão duradouras como as pedras em que existem entalhados, não se apagam, senão com a morte, da imaginação ou, melhor, do coração onde se gravaram e donde dizem a todo tempo a sua muda e eloqüente linguagem, essas tradições extintas e sempre vivas prendiam irresistivelmente a gentil senhora-de-engenho, pelo passado, ao jovem português, como na escritura comum, o traço de união liga o verbo com o pronome, e de duas vozes diferentes faz uma só.

Em sua consciência mais de uma vez protestou contra certas manifestações do desdém de João da Cunha para com o negociante; e, conquanto, melhor do que ninguém, ajuizasse da profundeza do abismo que entre eles cavara a fatalidade, nem por isso negava a Coelho certas atenções, aquelas que, pela própria fidalguia dos seus sentimentos, entendia que devia ter para o antigo amigo da casa. Nunca deixou sem retribuição os cumprimentos e as saudações do mercador, nem lhe recusou falas respeitosas, por ocasião de se encontrarem. Seu natural espirito de justiça levava-a até a justificar os profundos ressentimentos de Coelho, quando compreendeu a verdadeira causa deles. ‘ Ele cuidava - dizia d. Damiana consigo mesma - ele cuidava que poderia casar comigo. Julgava que, tendo entrada em nossas relações, estava habilitado para prender-se à família por laços que só o parentesco e a igualdade de condição podem criar. ‘

Tais eram as idéias e os sentimentos de d. Damiana. Por isso, sentindo a gravidade do momento, ela não escrupulisou acompanhar o negociante, única tábua de salvação que nos cruzados mares da súbita adversidade lhe aparecia como instrumento do céu.

E antes de passarmos adiante, justo é que deixemos bem claro este ponto essencial da presente narrativa: Coelho não era indigno da confiança que, por força das circunstancias atuais, ou por influencia irresistível de circunstancias anteriores e remotas, depositou nele a jovem fidalga. O amor que ele lhe consagrava, era sublime e puro; tinha origem imediata no sentimento, não nos sentidos. O português estava na flor dos anos, e seu caráter não se tinha poluído ainda no trato das relações sociais. Nessa época da vida e com esta circunstancia, o amor é mais do que um sentimento, é uma virtude. Tende sempre a elevar-se, e nunca a rebaixar-se. O negociante amava em d. Damiana um ente, uma criatura, um composto de qualidades corporais e imateriais, não unicamente uma feitura plástica, uma forma física, não obstante se acharem coligidas nessa forma todas as perfeições que ele sonhava para o seu ideal. Sua aspiração não se limitava à posse do olhar, do sorriso, do carinho dessa criatura; ele aspirava, não menos do que a isto, ás suas perfeições morais, à parte imaterial da pessoa humana, a essa porção do ser que não é a figura corporal, o arredondado dos contornos, o donaire do talhe, o aveludado da face e da mão, o colorido da cútis, a vibração da voz, mas, mostrando-se intimamente ligada com todas estas prendas não se confunde com elas, e sem se deixar ver, porque não é visível, deixa-se adivinhar, conhecer, sentir na bondade, na dedicação, na conformidade com o sentir da pessoa que lhe é idêntica nas inclinações, nos gostos, no estado espiritual que lhes é comum.

Certamente ele imaginava ser feliz ao lado dessa existência seleta, dessa alma que constituía a essência dos seus desejos, das suas vaidades, do seu nobre orgulho; mas essa felicidade ele nunca a imaginou de outra forma. Por isso, tanto que viu entre suas mãos o tesouro longamente apetecido, a única idéia que lhe passou pela mente foi a de que cessara enfim o seu tormento e começara, pelo gozo dos bens sonhados, o resgate dos males curtidos; a idéia de, prevalecendo-se das circunstancias, sujeitar o ente querido e alcançado ao papel de instrumento de paixões menos dignas, essa ele não a teve então, porque não a tivera nunca. No coração do jovem português havia o afeto generoso do amante, não os ardores animais do barregão.

Cortando pelas ruas exteriores, dando rodeios, atravessando becos desertos, Coelho chegou com a senhora-de-engenho ao embarcadouro. A Borboleta era a única embarcação surta no rio.

Como a revolta se concentrara, deste lado a vila aparecia quase deserta. O dia estava em seu começo, mas assim as casas de morada como as de negocio mostravam-se fechadas; e só por intervalos passavam pela frente delas os magotes que andavam exercitando o ignóbil oficio da rapina. Vamos embarcar, senhora - disse Coelho, descendo a margem, onde então se viam grandes mangues de basta e estendida folhagem.

- Embarcar? inquiriu a senhora-de-engenho, não sem surpresa. Embarcar para onde, Sr. Coelho?

- Senhora, o momento é grave, e não me dá lugar a refletir sobre a escolha do porto de salvamento. Correremos á mercê das águas e dos ventos, e, uma vez longe dos perigos que vos ameaçam, pensaremos então com serenidade sobre esse objeto.

- Que estais dizendo? tornou d. Damiana, mais pálida, e porventura mais abalada do que estava antes.

Talvez só nesse momento a sua desgraça se lhe desenhou tal qual era na imaginação, até então tolhida e obscurecida pelo terror que, por mais próximo da morte, devera ser maior e mais intenso.

- Tencionais então levar-me para fora de Goiana? perguntou ela, com tremula e quase chorosa voz.

- Certamente, minha senhora, certamente. Goiana neste momento tem para vós sentimentos de madrasta, não de mãe. Não ouvis aqueles tiros, aqueles ruídos sinistros, aquele vozear confuso e medonho? Eles indicam que o povo é o triunfador, que os mascates estão senhores da vila...

- Já sei, já sei tudo isto - interrompeu ela freneticamente.

- Pois bem. O povo é exigente, e vinga-se neste momento dos nobres. Vosso marido, senhora minha, deve já ter acabado às mãos dos populares. Pois se ele acabou, acabarei tantém eu - disse a senhor-de-engenho soluçando.

- Não, isso nunca. Já não pertenceis nem a vós, nem a ele, observou Coelho.

- E a quem pertenço então? perguntou ela com altivez.

- O destino confiou a mim a vossa guarda, e hei de salvar-vos, ainda que a troco do meu sangue.

Sem meu marido, senhor, não quero a vida. Senhora d. Damiana! exclamou Coelho com entranhável amargura que lhe estalara nos lábios como se fora vesícula de fel.

É o que vos digo, Sr. Coelho - repetiu a gentil senhora com a firmeza que indica as profundas convicções. Só agora, continuou ela, só agora compreendo todo o horror da minha situação. Porque fugi eu? Porque não me deixei matar pelo povo, ao lado de meu marido?

- Porque a sorte tinha já assentado que vós devíeis sobreviver a ele, talvez para completar uma existência que vegeta entre as luzes e as sombras do mundo, sem experimentar outras impressões que não sejam as que as sombras, não as luzes, despertam - respondeu o jovem negociante em tom sentido. Mas para que falais ainda - continuou logo, como quem se reanimava ao calor de uma inspiração súbita - para que falais ainda em - uma existência que já deve pertencer ao passado? A esta hora, senhora minha, deveis estar viuva, isto é, livre.

- Sois cruel, Sr. Coelho! - retorquiu com voz amargurada a mulher do sargento-mór. Porque trazeis ao meu espirito este fúnebre pensamento? Houve um momento na minha vida em que cheguei a supor que em vosso coração existia um sentimento fidalgo.

- Que quereis dizer, Sra. d. Damiana? interrogou o negociante.

Que pensei que, não obstante o rancor que tendes ao Sr. João da Cunha, e que vós explicais atribuindo-o à contrariedade de certo afeto que vos inspirei, não hesitaríeis um só momento em salvardes do acabamento o objeto desse rancor, se a salvação dependesse de vós e eu vo-la lembrasse com as lagrimas nos olhos, como agora faço. Vejo, porém, Sr. Coelho, que o vosso ódio é maior do que o vosso amor, e que só a minha desgraça, esta sim não tem medida nem limite na terra.

- Pensáveis então, senhora... - retrucou o português - Que pensáveis vós? Dizei francamente a vossa idéia.

- Ah! Quereis ouvir-me? Pois bem, senhor, escutai. O que eu pensava era muito natural, e não era impróprio de vós nem de mim. Pensava que, em vez dos sentimentos ferozes que tendes mais de uma vez manifestado, deveríeis ter para meu marido antes benevolência e atenções respeitosas.

- Esqueceis, Sra. d. Damiana, que nenhum homem que se prezasse dignamente, beijaria jamais a mão do algoz que lhe houvesse afogado as mais caras esperanças, que lhe tivesse destruído uma felicidade irreparável.

- Vós é que esqueceis, Sr. Coelho, o passado que devíeis ter bem presente na memória. A meu marido deveis, não a desgraça, mas a posição de que soubestes fazer-vos digno. Sua mão generosa e amiga indicou-vos o caminho para a vossa independência. Por muito tempo não tivestes nesta vila outra proteção, outro amparo, outro pai além de João da Cunha. A vossa entrada nas primeiras casas, a estima que para vós tiveram os mais ricos e os mais nobres de Goiana, a quem as devestes principalmente, Sr. Coelho, quando éreis sem relações, sem nome, e sem haveres? Não vos lembro estas causas por magoar-vos, mas por ver se desperto em vosso coração o nobre sentimento que sempre conheci em vós antes do fatal desastre que levantou uma muralha entre vós e meu marido - o sentimento da gratidão.

- Sra. d. Damiana, vossas palavras trazem-me terror e confusão, disse o jovem europeu, a modo de atordoado.

Seu espirito nadava em um mar de hesitações.

- Que esse sentimento acorde enfim, senhor. É talvez tempo ainda de produzir sua ação consoladora. Não vos importeis comigo, importai-vos com o homem que um dia vos tratou como se fosseis seu filho. Correi e livrai-o do furor dos vossos parciais. Porque tanto ódio? Porque tanta vingança?

Não pode continuar este singular dialogo, que prometia chegar a um desenlace talvez patético e imprevisto. Bem perto dos dois interlocutores soaram vozes confusas e retintim de armas. O chão estremeceu, batido por um sem-número de pés que precipitada carreira movia em direitura ao rio.

Afigurou-se então aos fugitivos uma visão sinistra, um desfecho medonho.

- É o povo que vem em vossa procura, Sra. d. Damiana. não percamos um só momento. Salvai-vos, senhora, salvai-vos enquanto é tempo.

Eles tinham chegado ao pé de uma das arvores que da margem estendiam sua grande copa sobre o rio. Perto desta arvore levantava-se um armazém, feito de tábuas, onde se fazia o embarque dos açúcares, e o desembarque dos gêneros importados pelas barcaças, quando a maré estava cheia e elas podiam ficar ao nível da estiva do armazém, do lado que entrava pelo rio sobre solidas estacas. Nesse momento a maré cheia dava ao rio a sua natural plenitude, e a Borboleta, livrando-se sobre as águas banzeiras que acusavam a aproximação da preamar, estava em comunicação com o tosco trapiche por meio de uma prancha que para ele partia do embono de bombordo. Coelho, sem perder mais um instante, arrastou d. Damiana contra a vontade dela para dentro do armazém, e, todo preocupações e temores pela sua salvação, indicou-lhe a Borboleta, que aparecia no fim da estiva. - Correi, senhora, entrai na barcaça, mandai atirar dentro da água a prancha, e ordenai, em meu nome, que sigam incontinenti rio abaixo. Nada temais, que eles daqui não hão de passar. Contê-los-hei.

Disse, e retrocedeu acesso em brio, mas pálido como um cadáver. Seu olhas fuzilava. Os músculos, obedecendo às impressões nervosas, experimentavam súbitos estremecimentos. A terra parecia fugir-lhe sob os pés, ao mesmo tempo pesados e céleres. - Meus amigos - gritou ele, alguns passos distante do trapiche, dirigindo-se ao magote que vinha para seu lado, até onde quereis levar o vosso desforço? A lição satisfaz. A nobreza está vencida em Goiana. tratemos agora de ir vencê-la no seu reduto principal - em Olinda. Não percamos tempo.

- Então, do bando que corria com as armas nuas reluzindo ao sol, um grito partiu, e não foi preciso mais, ouvindo-o, para que o chefe dos mascates compreendesse que se enganara e que seus dias, esses, sim, estavam contados. Ainda falas, mascate infame?!

Seguiu-se uma cena, só própria de canibais, mas que os excessos das paixões humanas estão reproduzindo todos os dias, ainda nos centros da mais adiantada civilização. Vários soldados da tropa que chegara, e que se haviam reunido aos fidalgos e a Francisco, ao saberem que eles vinham em demanda do negociante, de catanas desembainhadas se atiram sobre ele e covardemente o degolam.

Ao darem de face com este repugnante espetáculo, os fidalgos estacam horrorizados. Só um deles, a cabo de um momento de confusão, que se diria antes remorso, pode proferir estas palavras:

- E minha mulher? Onde está ela? Onde está a senhora d. Damiana?

Na Borboleta - lembrou Luiz Vidal. Corramos. Mas eis que perto deles soa um grito, que não só traz a tranqüilidade, mas descomunal prazer ao espirito de todos.

- Aqui estou, minha gente. E vós salvo, Sr. João da Cunha! Foi Nossa-Senhora-do-rosario quem vos salvou.

Os fidalgos apertaram em seus braços a senhora-de-engenho, a cujo encontro fora Francisco o primeiro que correra.

- Em poucas horas tudo estará acabado e pacificado - exclamou o sargento-mór. Os mascates serão vencidos, os populares hão de ter uma rude lição.

- E até os frades também hão de ter a sua, para não serem tão audazes e metidos nas coisas do mundo - acrescentou Luiz Vidal. E Antonio Coelho? interrogou d. Damiana, que ainda ignorava o trágico fim do negociante. Deste estamos livres. Hei-lo ali morto, degolado - respondeu o sargento-mór, apontando para o cadáver que a poucos passos se mostrava rodeado pela mó de soldados, agora ocupados em apanhar o ouro, que, na ocasião de cair, se lhe entornara das algibeiras.

- Morto! Morto! Fostes cruéis, senhores! Exclamou como alucinada a senhora-de-engenho. Quem praticou tamanho latrocínio? Oh meu Deus! Que horror!

- Não foi nenhum de nós - responderam Francisco e Filipe ao mesmo tempo.

Não foi nenhum de nós, repetiu o sargento-mór, fitando na mulher seu olhar inflamado e a modo de pasmo. Mas eu o mataria, se fosse eu o primeiro a encontra-lo. Era um espirito danado.

- Engana-vos. Era uma alma generosa, um bom coração; era um mártir - respondeu d. Damiana em lagrimas. Ele ia a salvar-vos, Sr. João da Cunha, supondo em perigo a vossa vida. Oh! meu Deus, por que razão as grandes criaturas não se hão de entender melhor e formar uma companhia só na terra? Mas fujamos daqui. Não posso ter os olhos nesta desgraça que me esmaga.

E a senhora-de-engenho foi a primeira que deu o exemplo da retirada.

Era tempo de se ausentarem todos desse ponto deserto, porque Luiz Soares, batido fortemente pelo ajudante-de-tenente Gil Ribeiro, pelo ajudante Felipe Bandeira e pelo capitão Antonio Rabelo, demandava esse lado para escapulir-se com sua gente. Conseguiu-o, com mais quinhentos, entre Paraibanos e portugueses.

Enfim, segundo anunciara o sargento-mór, algumas horas depois Goiana estava pacificada.

Mas era contristador o aspecto que apresentava, como facilmente se imagina. O saque tinha deixado nas casas vestígios profundos de sua passagem fecunda em ruínas e desastres. O sangue manchava a terra, berço de tantos heróis ilustres e afamados. No Pátio-do-Carmo, de mistura com vários cadáveres pertencentes aos invasores, viam-se alguns das forças legais, e muitos da escravatura de João da Cunha.

Jeronimo Paes, os filhos, Belchior, e outros proeminentes vultos do partido vencido tinham sido presos, e daí a três dias seguiam para Olinda, no meio da tropa vitoriosa de Gil Ribeiro. Paes mal podia consigo. Recebera durante a luta nove tiros, e inumeráveis cutiladas na cabeça.

Conta-se que, por ocasião de lhe darem na prisão a noticia da morte de Coelho, dissera ele o seguinte, formais palavras:

- Se desta não morrer, hei de vingar-me ainda de João da Cunha. O que ele devia a Antonio Coelho há de pagar a mim, quando tivermos de ajustar as nossas contas. Estão muito anchos com o sucesso, esses infames mazombos. Já pensam que os mascates se acabaram de uma vez. Estão enganados. Hei de ver ainda João da Cunha e Cosme Bezerra correrem as ruas de Goiana, amarrados com cordas pelas minhas mãos, como se fossem negros fugidos.

Estas palavras foram proféticas. Mas não antecipemos acontecimentos que tem lugar próprio na continuação desta historia.

Diz-se que Zefinha faleceu a cabo de algumas semanas, depois do lastimoso fim de Antonio Coelho, e da prisão do pai e dos irmãos. Atribuem seu falecimento à profunda impressão que produziram nela tão estranhos e cruéis golpes.

Porque não havia de ser assim?

Era uma excelente alma a rapariga.

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