Mas durante ela nunca lhe faltaram remédios nem dietas: Marcelina supria as faltas e a casa com admirável prontidão.
- Donde lhe veio dinheiro para tudo isto? Perguntou uma vez Francisco á sua mulher.
E os cestos que laço não haviam de dar dinheiro? Respondeu-lhe ela com graciosa e móvel expressão. Veja estas rodilhas de cipó que comprei ontem. Chegam para uma dúzia de cestos. Logo que estiverem prontos, não há de faltar quem os queira. Os outros, que pendurei da banda de fora, não levaram uma semana a ser vendidos.
- Ora, Marcelina, disse o marido com manifesto pesar. Para que se cansa tanto? Eu quero muito bem a meu cavalo, mas vai um cavalo hoje, virá outro amanhã. Por isso sou de parecer que, em lugar de estar a trabalhar tanto para a casa, veja antes se alguém quer comprar o pedrez. Ele está em boas carnes e pôde achar bom dinheiro.
- Quem? O seu cavalo pedrez? Vende-lo? Não, senhor, que você precisia dele para quando ficar bom. Você mesmo bem sabe que um cavalo não vem assim tão depressa camo está dizendo. Não estamos ainda em ponto de vender o nosso único bem para remir as nossas necessidades, Deus louvado.
- Deus mesmo havia sempre de ajudar-me a comprar outro.
Mas que necessidade temos nós de nos desfazermos do animalzinho? Só se eu estivesse doida o venderia. Deus me livre.
Não tinha medidas o amor que Francisco votava a Marcelina, exclusiva possuidora do seu coração.
Os matutos não casam por mera conveniência. Suas uniões, ordinariamente precoces, não deixam por isso, em regra, de ter o principal fundamento na estima reciproca daqueles que as contraem. Grandes desgraças têm procedido das junções prematuras, mas no mato não constituem a regra geral. Ao reverso, tais junções são principio de moralidade no lar e no povoado matuto, porque, despertando cedo no homem os afetos conjugais e paternais, enfreiam e moderam, antes das erupções naturais dos primeiros anos, as paixões juvenis, que, quando de todo soltas, têm arrojos inconvenientes e efeitos desastrosos.
A paixão que Marcelina inspirará a Francisco, se tinha serenado, como sucede a cabo de certo tempo a todos os sentimentos, ainda aos mais veementes e exaltados, não arrefecera, antes se apurara com as mil retribuições do coração da cabocla, nunca brandamente estremecido ou amorosamente agitado senão pelo matuto.
Mas a infelicidade é fatalmente na essência humana. Ainda no meio das mais intemeratas serenidades, a idéia de poder ser de um momento para outro desgraçado punge o homem e o faz reputar as venturas por ilusões, cujo principal efeito é aguar-lhe os gostos no melhor deles e entristece-lo, quando não na face - espelho da alma, na consciência - centro de muitas suspeitas que nascem e morrem ignoradas do mundo, como os musgos interiores das cavernas inacessíveis.
Marcelina podia ter a esse tempo de vinte e dois a vinte e cinco anos. O tipo caboclo estava nela representado com opulência e genuinidade. Tez abaçanada, cabelos corridos e pretos, olhos rasos e grandes, cara cheia e redonda, estatura abaixo da média, formas corretas, mãos e pés pequenos - eis o conjunto harmônico e admirável em que a raça a mostrava revestida.
Quando Marcelina batia sua roupa no banco que ficava debaixo da meia-agua de palha levantada por Francisco para resguardar do sol o poço algumas braças da casa de morada, os matutos, que passavam pelo caminho e a não conheciam, cravavam nela olhares cúpidos, e alguns ás vezes de lá lhe atiravam xêtas que ele fingia não ouvir, ou a que, se lhe parecia, dava em resposta um muxoxo ou um olhar de mofa e desprezo, pelos quais ficavam sabendo que a matuta não era do pano que eles supunham.
Muitos deles só retiravam os olhos de sobre ela quando tinham de dar a volta da estrada ou entrar na mata. A tazão era porque a saia, que Marcelina por essas ocasiões trazia a tiracolo pela enfiadura, lhe punha á mostra o principio da perna - monumento de estaturia que deixava adivinhar, mas não descobria, os vendados tesouros da perfeição de que a dotará, por especial capricho, a natureza, mãe tão pródiga para ela como mesquinha para tantas outras.
Uma manhã Francisco, acordando, deu por falta da mulher.
Era muito cedo ainda para o serviço da casa, e fora estava chovendo. O mato, de seu natural sombrio e ermo, desprazia antes do que convidava naquele momento a quem não fosse obrigado a busca-lo por grande negocio.
No começo da trilha que ia ter á lagoa de presente mudada em terreno de lavoura, mas neste tempo com bastante água e oculta pelos matos que se levantavam, contornando-a em forma de semicírculo, no lugar onde acabavam as terras plantadas de abacaxis por Francisco, viu ele atirados a uma banda sobre as ervas os socos grosseiros que sua mulher usava em casa.
Pareceu-lhe claro que ela os tinha deixado ali para ter mais ligeiro e pronto o passo ao lugar aonde se dirigia.
Antes disso já tinha chamado por ela do lado da estrada; mas só teve em resposta o eco de suas próprias palavras.
Tendo agora a prova de que ela tomará direção oposta, cruel suspeita atravessou-lhe, sem o menor fundamento, o espirito, senão o coração, que sobressaltado transbordava inquietações e duvidas.
Sem olhar para seu estado de convalescença, Francisco, que viera da casa até ali abrigado da chuva pelas folhagens das laranjeiras e dos cajueiros novos do sitio, não hesitou mais um só momento e meteu-se pela trilha, que se lhe mostrava, agora mais do que nunca, em forma de serpente, pela planície afora. Não era grande a distancia que separava a lagoa da parte roçada; por isso, dai a pouco se achou ele por traz da renque de arvores que circulava a lagoa e pôde ter esta debaixo dos olhos, sem deixar a quem quer que fosse possibilidade para vê-lo.
Neste ponto parou Francisco, e poz-se a examinar com a vista de um lado para outro todo o espaço livre até aonde podia chegar a sua inspeção.
Ninguém estava ali. Sobre a lagoa a chuva fina caia em forma de fumo ou de névoa espessa. Os sapos coaxavam pela beira d’água, e os jaçanãs soltavam de dentro das moitas aquáticas suas risadinhas de som vibrante e agudo; tudo o mais era imobilidade e silencio.
Não tendo mais para onde ir, Francisco em cuja imaginação exaltada pela fraqueza física e pelos súbitos temores, se desenhavam cenas desesperadoras, não pôde acabar consigo que não chamasse novamente pela mulher.
A voz desprendeu-se-lhe irresistivelmente da garganta, e o som das palavras - Marcelina? Marcelina? Repercutiu pela vasta solidão.
Imediatamente a seus olhos se mostrou uma visão cruel.
Acima dos juncos, que formavam vastos partidos dentro da lagoa, apareceu-lhe uma cabeça coberta com um chapéu de palha. Um homem estava ali e Marcelina não podia achar-se longe. Talvez já estivesse de volta.
Francisco sobresteve um momento imóvel, como estatua; mas notando que o madrugador tão depressa levantara a cabeça, como se abaixará e desaparecera no meio do juncal, mergulhou por entre as folhagens que o ocultavam, e saiu da outra banda no animo de ir por dentro da água até ao ponto onde se sumira o desconhecido.
Quando ia a atirar-se na água, a cabeça reapareceu a seus olhos, e uma voz, reboando por cima das aningas e dos juncos, foi levar-lhe aos ouvidos estas palavras, em grau de grito e em tom de repreensão:
- Que vem cá fazer, Francisco? Você quer morrer?
Era a voz de Marcelina.
Tanto bastou para que ele não avançasse mais um só passo. Fixando a vista com mais serenidade, reconheceu no desconhecido sua mulher.
- E você que está fazendo ai metida, com esse tempo todo? Saia dai, que nem sabe os sustos que me causou com sua ausência.
- Anda você sempre assustado, Francisco! Susto de que? Parece menino.
- Saia já, que eu não posso apanhar chuva.
Agora já não pôde apanhar chuva. Há, instantinhos podia até meter-se na água da lagoa. Parece menino este meu marido. Já lá vou.
Momentos depois, Marcelina achava-se na margem, a saia a tiracolo, o chapéu de palha na cabeça, os pés descalços, a perna de fora, sobraçando um alentado feixe de juncos.
- Então acha que só devo trabalhar nos cestos e na limpa dos abacaxis? perguntou ela ao marido, logo que se achou em terra firme. Vim cortar estes juncos para fazer esteiras de cangalha. Estão dando muito em Goiana, segundo me disse ontem o compadre Victorino, que até me encomendou umas de que precisa.
Livre do peso que lhe oprimia o coração como se fora uma montanha, não teve Francisco para sua mulher demonstrações de desagrado nem rudes expressões, antes agradecido á sua solicitude, para a qual não havia solução de continuidade; seu semblante fez-se de boa sombra, e até um risosinho meigo e terno ensaiou o matuto satisfeito com esta nova manifestação do gênio essencialmente ativo e previdente daquela com quem repartia o peso da vida.
- Não estranho, Marcelina, disse-lhe ele brandamente. - que você, vendo-me no estado em que me acho, trate de suprir as faltas da casa aumentando o seu esforço e trabalhando por você e por mim. Mas por que razão não me há de dizer o que tem de fazer antes de entrar em obra? Que lhe custa isso? Se me tivesse dito o que vinha aqui fazer, eu não teria saído de casa com risco de recair, estando já quase bom.
- Para que está dizendo isso? Se eu lhe dissesse que vinha cortar juncos na lagoa, você não me deixaria vir. Eu bem o conheço, Francisco.
- Deixava. Porque não deixava? No que eu não vejo razão foi em esconder-se de mim, quando eu já a tinha visto.
- Cuidei que não me tinha visto, senão eu tinha logo aparecido. Eu disse comigo: Francisco, não me vendo, volta para casa, e deixa-me tempo de sair da lagoa nas costas dele.
- Que lembrança esta, Marcelina! Então as ervas não haviam de declarar-me a verdade?
Ora! Eu podia dizer-lhe que as tinha comprado ao Manoel da Hora, como disse quando você perguntou donde tinham vindo os cipós.
- E então os cipós também foram cortados por você na mata virgem?
Está bom, Francisco; fiquemos nisso. Você tudo quer saber. Vamos já para casa; Deus queira que não lhe voltem as malditas. Não satisfeito com apanhar esta chuva, ainda queria meter-se na água.
- Marcelina, você faz mal em andar assim só pelos matos. Para que faz isso, meu bem? As vezes aparecem por estas bandas, malfeitores. Ali dentro havia até bem pouco um couto dos negros fugidos do engenho. Quem sabe se não estão metidos lá ainda alguns que seu sargento-mór não pôde descobrir?
- Não se lembre disso, Francisco. Quem é que me há de ofender? Os negros? Eles não. Conheço todos e sei que gostam de mim, porque compro algumas coisas que trazem de seus mucambos. Vamos já, que a chuva está engrossando.
Assim falando, Francisco e Marcelina meteram-se por sob as folhagens, e com pouco estavam debaixo de coberta enxuta.
De outravez achava-se Francisco muito a seu salvo, limpando o seu partido de abacaxis, quando ouviu fortes bateduras na janela da casa.
Receando fosse alguma violência praticada pelos ditos negros, em quem ele, menos crédulo e simples do que sua mulher, não tinha a menor confiança, poz no ombro a enxada com que estava trabalhando e que, em caso de necessidade, serviria de arma contra os agressores, e tirou para a casa. Entrou ai agitado e perturbado.
- Hoje voltou muito cedo do serviço - disse-lhe Marcelina.
- Vim correndo ver que pancadas eram estas. Cuidei que, tendo-se você trancado com medo dos negros, eles, não pensando que eu me achasse aqui por perto, estavam botando a porta abaixo. Você tem lembranças, Francisco!
Eis a causa dos estrondos, que assustaram o almocreve.
De há muito Marcelina batalhava com o marido para que lhe arranjasse uma taboa, de que dizia ter grande necessidade. Por esquecimento ou por não lhe sobrar tempo, o matuto estava ainda em falta para com ela. Naquele dia Marcelina, que, quando tinha qualquer idéia que lhe parecia vantajosa, não descansava enquanto a não punha por obra, lembrou-se de um meio de realizar sua intenção, sem ser preciso o concurso do marido.
Não a porta, mas a janela da casa achou Francisco fora do seu lugar; só os portais tinham ficado na mesma posição que dantes. As dobradiças tinham sido mudadas para o batente inferior, a fim de que a porta, em vez de ser aberta pelo lado, o fosse pela parte superior, e de modo que, cravado da banda de dentro no chão um pau que chegasse ao nível do primeiro batente, formasse ela, descansando sobre a cabeça do dito pau, um como balcão que pudesse ser visto por quem passasse pela estrada. O fim de Marcelina, realizando esta mudança, era ter onde expor aos viandantes frutas, tapiocas e outros produtos do comercio domestico.
Esta pequena industria é muito praticada nos caminhos do norte. Quantas vezes, em minhas digressões pelas províncias de Pernambuco e Alagoas, não tive ocasião de chegar-me, montado em meu cavalo, ao pé da janela ou do balcão móvel da casinha pobre, onde se mostravam frutos frescos e sazonados, e de os comprar para neles me desalterar do calor do sol e do cansaço da jornada!
Não levou a mal Francisco a alteração que a mulher fizera na obra das mãos dele, antes aprovou, com elogios, a lembrança que lhe dava novo testemunho das faculdades industriais daquela que, como boa e fiel companheira, o ajudava a tornar fácil e digna a aquisição do pão custoso da pobreza.
- Se me tivesse dito que a taboa que me pedia era para este fim, já eu a teria trazido da vila.
Gosto de fazer as minhas invenções sem dizer nada a ninguém, nem a você mesmo - respondeu Marcelina.
Vivia assim feliz, sem Ter coisa alguma que lhe causasse inquietação nem tristeza, aquele casal pobre, mas honrado e discreto, só pedindo a Deus que lhes desse chuva e sol nos tempos oportunos, para que o milho, o feijão, a mandioca, a macaxeira, as batatas, os abacaxis não morressem alagados ou queimados, e que não lhes mandasse doenças graves que os privassem do trabalho, sua distração e prazer de todo dia.
Marcelina não ficava ai, levava ainda além o seu espírito empreendedor, a sua notabilíssima vocação para o pequeno comercio.
Criava porcos, galinhas, patos e perus. Nos tempos de festa os porcos ou eram vendidos por bom dinheiro na vila, ou ela os retalhava, e em sua casa expunha á venda a carne e o toucinho, sempre com tão boa cabeça que só lhe ficava a porção que reservava para seu próprio uso. As vezes, desta mesma parte fazia o picado e o sarapatel para vender aos matutos que eram perdidos por estas espécies de comidas.
Quando as criações estavam muito aumentadas, Francisco metia-as nas capoeiras, e ia vende-las em Goiana, importante centro comercial de toda aquela redondeza, como o Recife já o era de todo o norte por aqueles tempos. Voltava de Goiana trazendo parte dos gêneros apurada em boa moeda, e a outra parte empregada em fazendas para uso da casa.
Enfim, a vida do almocreve, a vida do pequeno negociante das estradas e feiras, ninguém nem antes nem depois daquelas duas criaturas tão irmãs e amigas uma da outra, compreendeu melhor do que elas, nem talvez tão bem como elas, em suas especiais aplicações.
Causava a todos inveja e admiração a harmonia, a felicidade desses dois entes rudes, que dispensavam lições da gente civilizada para viverem com honra e conveniência e que da beira de um caminho deserto, do pé de uma mata, sem saberem ler nem escrever, davam edificativos exemplos de moral domestica, amor ao trabalho, e fé no Criador.
Não se pretende fazer nestas palavras a apologia da ignorância, nem a da pobreza, que são os dois maiores males da terra; o que deste rápido esboço de dois caracteres puros e respeitáveis se aspira a inferir é que o bom natural traz em se mesmo, como por instinto, a ciência da vida, e que o trabalho, ainda o mais humilde, é o primeiro meio de suprir as faltas da fortuna e vencer os defeitos da condição.
Foi para esse ninho de modesta felicidade e de paz nunca perturbada, que Francisco levou consigo o trêfego Lourenço, infeliz fruto de união reprovada, precozmente apodrecido nas dissoluções da povoação, pobre de instrução, rica porém de misérias e maus exemplos.
Relatar aqui miudamente as maldades, os atentados cometidos pelo menino, entregue, até bem pouco tempo atrás, á torpe licença; rememorar os esforços usados para o reprimir e corrigir, por Francisco e Marcelina, que desde o dia de sua chegada não lhe faltaram com bons conselhos e as mais saudáveis lições de moral, fora longo e fastidioso encargo.
Imagine uma criatura humana com entranhas de tigre; na mão o pau ou a faca prestes para ofender ou ferir a quem estava perto, a pedra para atirar contra quem estava longe; sempre a saltar e a correr pelo caminho, a trepar nas arvores novas, primeiro que nas arvores idosas por serem mais fáceis de quebrar-se com o peso do corpo as primeiras do que as ultimas; imagine um ente essencialmente malévolo que cortava, por gosto de fazer mal, os gerumusinhos ainda na erva, arrancava as batatas verdes, despedaçava os maturis, queimava as cercas, quebrava as pernas ás aves domesticas que se achavam a seu alcance quando ele entrava em seu furor; enfim imagine o espirito mais diabólico, o coração mais duro, a constituição mais forte aos doze anos de idade, que tereis, não o retrato tirado pelo natural, mas apenas a miniatura de Lourenço quando chegou ao Cajueiro.
Ao cabo de um ano a luta continuada de dois sexos, dois gênios, duas idades diferentes, representadas por Marcelina e Lourenço, tinha trazido notável alteração ao natural e aos costumes de ambos. Marcelina estava cansada de lutar; as faces se lhe alquebraram; com pouco se irritava. Por felicidade, porém, Lourenço dava mostras de achar-se menos duro, manos indiferente aos castos sentimentos, menos insensível aos afetos plácidos do lar, menos forte para fazer mal, e já propenso ao trabalho e á pratica do bem.
Luta insana e titânica fora essa, mas tão gloriosa para a parte vencedora, como proveitosa para a vencida.
A mãe mais amorosa, paciente e discreta teria que invejar àquela mulher ignorante e rústica o esforço que, em sua benevolência, empregava em domesticar o animo da fera metido no coração da criatura humana, que ela adotará por filho.
Aquela mulher era digna do estudo das mães de família, e de ser por elas imitada. Era o modelo vivo da mãe pobre, boa e virtuosa.
- É meu filho, dizia Marcelina consigo mesma. Porque não hei de ter para ele amor e brandura? Que tem que me dê muito que fazer encaminha-lo para o bem? Muito custa a gente acertar com o bom caminho; mas querendo-se ir por ele, ou tendo-se quem sirva de guia para ai, chega-se ao fim sempre. Hei de amolecer a natureza de pedra deste menino; hei de o fazer bom, ainda que eu fique má e dura de coração contra minha vontade.
Quem souber que o maior desejo de Marcelina era Ter um filho, facilmente compreenderá os impossíveis que ela vencia para fazer Lourenço digno dos seus afetos grandiosos.
As palavras que, no momento de chegar com Lourenço da povoação, Francisco dissera á sua mulher, apresentando-lho, deram logo a esta a conhecer a grande obra em que tinha de empenhar suas gigantescas forças.
- Não pedias todo santo dia um filho a Deus? Pois aqui tens um que ele te enviou e está já em condições de te fazer companhia e ajudar, quando eu não estiver na terra. Achei-o rasgado, sujo, desamparado, obrando ações feias, de todos desprezado e odiado. Lembrou-me o teu desejo, compadeci-me da criança desviada do bom caminho, tomei-a para nós, e aqui t’a entrego. Se aprender a trabalhar, a ajuntar, e a fazer bem, de muito nos poderá servir, porque é forte como uma onça.
Lourenço estava hediondo. Os cabelos tinha-os imundos e crescidos, as unhas terrosas, os pés cortados das pedras e dos vidros dos quintais e esterquilínios por onde de noite andava em busca do alheio.
Sobre o corpo, que sendo de cor branca, se apresentava enegrecido do pó e das imundices em que se espojava, como cão, e sobre as quais dormia como porco, trazia, não roupa, mas pútridos e repugnantes andrajos.
- Onde achou você este menino? perguntou-lhe Marcelina, não sem espanto do que via e não esperava.
- Achei-o por ai além; não precisa saber onde. Toma-o á tua conta, limpa-o, trata dele.
Não tem pai nem mãe? Poderemos te-lo por nosso, sem risco de o perdermos ou de que alguém o venha tirar de nosso poder quando já estiver não como bicho, mas como gente?
- Não tenhas receio de que haja quem o queira, Marcelina. Todo o Pasmado entregou-mo para ficar aliviado e livre dele. Tu não sabes de quanto é capaz este menino endiabrado que nos está ouvindo sem dizer uma palavra sequer, passado de raiva e em termos de arrebentar. Enfim, para encurtar a historia, basta que eu te diga que pelo que me fez em tão curta jornada, tive muitos ímpetos de o ir deixar outra vez no lugar onde o encontrei aborrecido e temido por todos. Não foi uma nem duas vezes que me arrependi da minha caridade e de me terem lembrado as tuas encomendações sempre que eu saia.
- Não diga assim, Francisco. Ele há de ficar bondinho, com o favor de Deus. Você há de ver. Não há tanta gente que nasce ruim e que pelo tempo adiante fica boa?
- Enfim, ai o tens. Foi o menino que encontrei, e agora agüenta-te com ele, que tem sangue no olho e cabelo na venta.
Dias depois, Lourenço já apresentava aspecto diferente do que trouxera. Marcelina tinha feito para ele ceroula e camisa nova, e principiou a sua obra de regeneração pela limpa do corpo.
Á tardinha, entrando Francisco com o feixe de capim que fora cortar na baixa para o cavalo, ficou admirado de ver a mudança de Lourenço.
A limpa corporal tinha sido completa.
Desapareceu o cabelo sórdido e especado, que fora cortado rente, as rajás que desfiguravam a cara, as unhas que se podiam comparar com as garras dos carcarás. Lourenço mostrava-se agora na realidade outro do que viera. O banho geral que lhe foi dado por Marcelina o poz ao natural. A cara despojada da crosta terrena em que se envolvia, como em mascara, atestava pela brancura que o menino era de boa origem. Os vasos azuis desenhavam-se sob a cútis das faces, murchadas pouco antes, agora porém refrescadas pela ablução saudável, e como remoçadas pela pronta reação que é natural da meninice.
Conheceu-se então que o menino não era feio. Tinha a fronte espaçosa, os olhos rasgados e negros mas de desvairado brilho, efeito das insônias que curtia; aquilino o nariz; bem proporcionada a boca; fendido o queixo. Lia-se-lhe porém no semblante móvel e no olhar sorrateiro, sem deixar de ser observador, a desconfiança, que é uma das manifestações naturais de quem se afez a obrar ações reprovadas, a cuja pratica se não animaria, se lhe não fossem propícios os esconderijos, as trevas, os ermos, que prometem a impunidade e quase a asseguram.
Mas Lourenço, posto que de todo solto desde os primeiros anos, não tinha certos vícios que rebaixam nas cidades populosas a infância entregue a seu próprio e único alvedrio e direção. Ele era de índole mau, e cedendo ás impreteríveis e fatais leis do instinto, fora arrastado inumeráveis vezes a cometer atos reprovados. Ignorante, porém, das vilezas que os meninos aprendem nos colégios mal administrados, e que das mais puras e inocentes almas fazem pacientes e propagadores do enredo, da mentira e de vergonhosos prazeres que desnaturam as mais fortes e viris organizações, ele guardava ainda no coração intactos e como adormecidos os estímulos próprios do homem, que ainda metido no charco das paixões, não lhes bebe a lama como a dos charcos bebem os animais.
As paixões de Lourenço davam para a briga, o roubo, e até para o assassínio, posto que nunca tivesse tirado diretamente a vida de ninguém. Causava-lhe prazer destruir as animadas e as inanimadas criaturas, que não eram bastantemente fortes para fugir ás suas arremetidas, ou resistir a seu gênio demolidor. Mutilava as arvores, por despoja-las de uma parte de sua forma e faze-las defeituosas. Dava pancadas nos cães por ouvi-los soltar gritos de dor. Com o padecimento mudo da arvore, e com o ruidoso do animal, ele se alegrava, porque era mau de coração; mas não usava habitualmente a mentira, a traição, nem tinha outros vícios feios e sentimentos vis que revelam da parte de quem os cultiva, animo fraco e no todo desprezível. Era o perverso da selva, duro, difícil, mas não impossível de vencer-se, e não o das côrtes, nojento, infame e tão fácil de prostrar-se quão impossível de corrigir-se. Era o malvado ignorante, arrebatado, e não o corruptor manhoso, cortês, polido, muito mais danoso do que o malvado, para o qual há prisões e castigos; o corruptor entre em toda a parte impunemente, e com todos e com tudo comunica a sua perversão: suas palavras adocicadas, os gestos insinuantes, os olhares, os sorrisos, os gracejos, os agrados, os serviços gratuitos, os presentes abrem-lhe o espirito infantil, o seio da família crédula e até o coração do amigo confiante. Dentro em pouco, de ordinário quando já não é tempo de atalhar o mal, sentem-se estes dominados da peçonha mortífera, e perdido no conceito dos que tiveram bastante habilidade ou felicidade para evitar o contato com o envenenador.
O sitio de Francisco, pelo lado do sul, confinava com as terras onde o senho do engenho Bujari tinha umas carvoeiras, que ficavam muito dentro. Não havia ai casa decente, mas uma palhoça ligeiramente feita, onde se abrigava ele, quando vinha dar-lhes uma vista d’olhos. Para evitar que estranhos, aproveitando-se dos cajueirais, fossem fazer carvão em sua ausência, tinha ali o senhor de engenho um casal de negros idosos, cuja ocupação não era outra que pôr sentido nas terras, guarda-las de intrusos, tratar dos cajueiros existentes e plantar novos, afim de que se não extinguissem os cajueirais.
Para se ir á palhoça, distante ainda menos de metade de um quarto de légua da estrada, tomava-se por um estreito trilho que desta partia, dentre duas touceiras de capimassú, e se metia para dentro, ocultando-se pouco adiante por traz das primeiras arvores da capoeira.
Um dia, já ao anoitecer, por ocasião de Marcelina entrar para acender a candeia, Lourenço, que passará a tarde amuado sobre um tronco de macaibeira que jazia estendido ao pé da casa, largou-se pela estrada afora. Pouco adiante, no ponto mesmo em que na estrada se encontrava a vereda, lobrigou ele ao longe Francisco, que tomava a casa. Deliberado a fugir da companhia dos seus benfeitores, única intenção que o fizera apartar-se de casa, o menino, para evitar o encontro com o matuto, enfiou pela vereda. Não sabia ele em que ponto ia ela morrer; mas parecendo-lhe que levava á lagoa, donde tinha visto de tarde chegar Marcelina com um braçado de juncos, e donde se podia ir ao caminho geral por um caminho particular que ela sabia, apressou os passos, e só parou quando, pressentindo gente perto da palhoça, três formidáveis cães, açulados por Benedicto, molecote filho do casal de negros, lhe saíram ao encontro, não para o receberem atenciosamente, como fazem com os de fora os moradores hospitaleiros, mas para o despedaçarem com desabrido furor. Cercado de todos os lados, Lourenço mal se podia livrar dos temíveis defensores de escuso lar, quando de dentro da palhoça correu ao lugar do conflito uma negra apercebida com um jagunço, em atitude de quem o queria desancar.
- Quem é você? quem é você? - perguntou ela, sem fazer o menor gesto aos cães para que se acomodassem.
- Sei lá quem eu sou?! Respondeu com maus modos, Lourenço agitado e colérico da estranha e inesperada recepção. Vi este caminho na beira da estrada e sem ter o que fazer, enfiei por ele, para saber onde vinha dar.
- É mentira sua - retorquiu a negra. Você veio atrás das minhas galinhas, e está agora dizendo estas coisas. E eu que pensava que era a raposa que me estava dando no poleiro.
- Negra do diabo! Gritou Lourenço, cada vez mais zangado e irritado. Eu algum dia trepei no teu poleiro? O que eu sinto é não trazer na mão uma vara para te enfiar pela boca a dentro.
- Acuda cá, Moçambique, acuda cá. Estou ás voltas com o ladrão das minhas galinhas - gritou a preta como possessa, e movendo o jagunço contra Lourenço.
Os cães, entretanto, açulados por ela, e autorizados por este novo gesto hostil e agressivo, já mordiam o rapaz pelas pernas como implacáveis inimigos, que de propósito se criam sem cortesia nem benevolência para maior segurança dos lares confiados á sua guarda.
Quando Lourenço sentiu as primeiras dentadas dos terríveis animais, atirou-se desesperado á preta, na intenção de lhe arrancar a arma, de que ele precisava, assim para se defender, como para castigar as ofensas que tanto dela como dos seus companheiros tinha recebido; e teria realizado o seu pensamento, se a esse tempo não se achasse junto com eles, trazendo um longo quiri, descascado ao fogo, o preto por quem a negra chamara em seu socorro.
O conflito tornou-se então sério. O menino, o molecote, a negra, o negro e os cães, tomando parte nele com o empenho de ter cada um por se a vitoria, formaram pelo bracejar e revolver vertiginoso um novelo, uma onda rotatória, um medonho redemoinho, do qual se levantava surdo rumor, produzido pelo respirar confuso, e abafado dos lutadores, e pelo rosnar da rábida matilha.
Lourenço era forte, segundo sabemos. Mais de uma vez atirou para longe um cão, para uma banda o moleque, para outra a negra. Mas os que ele assim afastava de ao pé de si, tornavam logo mais exacerbados ao ponto donde tinham sido atirados, e prolongavam o conflito com fúria e esforço novos. Além disso, Lourenço achava-se desarmado, o que diminuía consideravelmente a sua grande força física, incapaz para resistir ás dos inimigos, que eram gigantes em comparação da sua, visto serem eles numerosos e terem, além das forças, instrumentos que contundiam, feriam e até despedaçavam. Com pouco mais sentiu-se enfraquecer. O sangue escorria-lhe de diferentes pontos das pernas; os cães, ensinados desde pequenos a dilacerar os timbus, as raposas e os maracajás - hospedes importunos do sitio, tinham-lhe rasgado importantes vasos, e cortado com seus poderosos colmilho as carnes moídas das cacetadas. Lourenço estava quase desfalecido, e só lhe faltava cair para ser de todo vitima e não se poder levantar mais.
Achava-se neste extremo apuro, e seus pés já iam resvelando na areia poida do terreiro da casa, aonde as evoluções desordenadas do conflito tinham arrastado os que nele eram parte, quando, repentinamente, vencendo o burburinho, voz forte e vibrante fez ouvir estas palavras:
- Negro! Negro! Moçambique! Tem mão. Queres matar meu filho?
Os negros sobrestiveram espantados.
- É seu filho, seu Francisco? Perguntou Moçambique ao recém-chegado, que não era outrem que Francisco mesmo.
- É meu filho, negro do diabo.
- Então, perdoa, seu moço. Ninguém sabia. Perdoa a Moçambique.
Francisco, sentindo falta de Lourenço, e atraído pelos primeiros latidos da canzoada, viera dar consigo no lugar onde a sua benéfica intervenção não podia chegar mais oportunamente.
Lourenço estava muito maltratado. Chegando á casa, caiu de cama para não se levantar senão depois de um mês. Nos primeiros dias não deram nada pela vida dele.
Este acontecimento, lastimável por um lado, foi pelo outro providencial, e, para assim escrevermos, acentuou a obra de regeneração em que se empenharam aquelas duas almas que porfiavam para pôr no bom caminho o menino perdido e infeliz.
Preso pelas mordeduras e contusões á cama, Lourenço a quem nunca em Pasmado acontecera desastre que com este se parecesse, teve ocasião de fazer irresistível e fatalmente o juízo do seu procedimento desde o dia em que caiu na laxidão das ruas, tabernas e ranchos. O senso intimo, até aquele momento obscurecido pela inexperiência e verdor dos anos, começou a reagir contra as camadas que o impediam de lhe mostrar as trilhas do dever e da sã doutrina.
Marcelina, hábil e natural educadora, aproveitara-se do ensejo para aconselhar o menino, tomando lições do acontecimento, a não se encaminhar senão para o trabalho e o bem.
- Que ias tu fazer, Lourenço, quando os cachorros e os negros caíram sobre ti? Ias perder-te. Deixavas aqui pai e mãe, que olham por ti com amor e doçura; metias-te por esse mato a dentro, com risco de morreres de fome, de doença ou de mordedura de cobra.
- O que eu queria era ganhar o caminho que vai dar em minha terra - respondeu ele. O negro e a negra não me deixaram passar; mas eles hão de pagar-me este desaforo.
- E que ias ver em tua terra? Que foi que ela te deu? maus exemplos e maus costumes. Que ias tu achar lá? A miséria, o sujo e o desprezo. No fim de contas serias recrutado e acabarias sabe Deus onde, com a farda nas costas.
- Cuida que eu tenho medo de ser soldado? Eu sou forte.
- Isso sei eu.
- E gosto de brigar e combater. Havia de vir uma guerra que eu mostraria para quanto sou.
Assim que assentasses praça te arrependias logo da asneira feita. Pensas que o soldado tem licença para andar a toda hora por onde quer, como fazias tu antes de Francisco te trazer para o Cajueiro? Estás enganado. O soldado não tem a menor liberdade; é pior do que negro de engenho; não pode dar um passo sem ordem do seu superior. És uma criança, Lourenço; não sabes ainda o que é o mundo. Acomoda-te com os bons e busca ser um deles. Ajuda-nos a trabalhar e a viver em nosso sossego, que o trabalho por pouco que dê á gente, é sempre proveitoso e traz alegria e paz.
Quando se levantou da cama, Lourenço dava mostras de melhorado do gênio trêfego que fora causa da sua longa doença. Um grande fruto, quando outros se não pudessem apontar, tinha produzido o recolhimento forçado do menino: saíra-lhe de todo do entendimento a idéia de volver ao povoado donde viera. Aos olhos de Marcelina, que aprendeu sem que ninguém lhe ensinasse, a ler nas palavras e na fisionomia de quem com ela tratava, os íntimos pensamentos e intuitos, nenhum indicio de melhora podia parecer mais favorável do que este. A fugida de Lourenço a Pasmado era o que ela mais receava, e para tolher que semelhante desgraça viesse a suceder, ela liberalizava agrados e carinhos ao menino, e com espertos cuidados vigiava sobre ele a toda hora. Nada lhe recusava, mas também não o deixava pisar em ramo verde.
A estação veio em seu auxilio na construção da grande obra moral que tinha em mãos. Chegou dezembro. O tempo estava enxuto, não obstante se mostrarem os campos borrifados das chuvas-do-cajú, nome que vem a tais chuvas de serem elas muito favoráveis a esta fruta. As laranjeiras novas, que Francisco plantara de um e de outro lado da casa, curvavam-se debaixo do peso das primícias do estio. Ao longe, para os fins do sitio, viam-se os abacaxis ostentando garbosos, dentre suas touças louçãs, o distintivo que na ordem vegetal a todos lembrava a insígnia civil da realeza.
Era a melhor estação do norte. Pobres, remediados e ricos apercebiam-se, sem excepção, cada qual conforme suas forças o ajudavam, para a festa do natal, época de folganças e divertimentos no campo, á sombra das arvores e dos rústicos alpendres.
Em toda a vasta zona açucareira da província os engenhos começavam a tirar sua safra; o que ficava do outro lado da mata, que sabemos - o engenho Bujari - tinha de botar dentro de uma semana.
O dia da botada não tem igual, pelo reboliço que o caracteriza, na grande propriedade.
Ajuntam-se parentes, amigos e conhecidos para acompanharem o proprietário na sua alegria, e participarem das suas larguezas.
Francisco, a cujos bons sentimentos e qualidades devia o lugar que tinha diante do senhor de engenho, achou-se presente com Lourenço á festa rural, que oferecia ao menino novo e indizível encanto.
Não obstante ser quase nômada na povoação, nunca dai saiu este para assistir a festas semelhantes nos engenhos da freguesia pela distancia em que ficavam do lugar. De sorte que, penetrando agora com Francisco no engenho Bujari, experimentou desconhecido prazer.
Um padre veio de propósito para dizer missa na capela e benzer a nova moenda, que se achava adornada com ramos verdes, lembrança e fineza dos negros. Depois da benção, entregou ele ao senhor do engenho a primeira cana, que devia ser moída aquele ano. O sargento-mór meteu-a entre os eixos da moenda, os negros açoitaram as bestas, levantaram urras e vivas, vários moradores e convidados dispararam armas de fogo em sinal de regozijo, enfim encetou-se a moagem.
Lourenço ficou ao principio admirado, perplexo perante aqueles acontecimentos inteiramente novos para ele; dai a pouco, porém, já lhe faltou o tempo para beber do caldo de cana ainda quente, e mais tarde comer do mel-de-engenho saindo da tacha, subir á almanjarra e açoitar os animais de companhia com os molecotes mais espertos.
Moços e moças formosas e elegantes, que tinham ido de Goiana á festa, faziam agradáveis digressões pelos campos e outeiros próximos da propriedade. Alguns jovens pescavam no açude, enquanto outros se metiam pelos matos a colher cajus e a passarinhar.
Lourenço ouviu de noite, de sobre as palhas da cana onde se deitara ao luar, defronte da casa-da-moenda, melancólicas e saudosas harmonias, que lançavam ecos suavíssimos em sua alma.
Eram as toadas com que os negros respondiam da porta da senzala, de cima da bagaceira, da almanjarra, do pátio da casa-de-purgar, aos regozijos da casa-de-vivenda, onde os toques ressoavam desacompanhados das altercações, a que dá lugar o demônio do jogo, então bem menos conhecido do que hoje do fazendeiro nortista.
Parece que se prepara grande guerra à cana-de-açúcar no norte. Para levar a efeito este pensamento - o da destruição da planta abençoada, servem-se do de cultivar com largueza o café no interior das províncias onde até o presente se cultivou largamente a cana.
Não me leves a mal uma declaração que farei aqui, tocante à projetada revolução agrícola.
Entristeço-me, meu amigo, a qualquer indicio de que á cultura da cana se trata de substituir cultura de planta diferente, seja muito embora esta da estatura e importância do café, ao qual desde pequeno me acostumei a votar grandes afeições. A razão é porque a cana-de-açúcar me inspira intima e saudável paixão, que não sei explicar, mas que tem em mim a extensão e a amplitude de uma elevada e pura estima. A meus olhos, ela não é uma planta, é um ente magico e pitoresco. Vejo nela poesia e grandeza que irresistivelmente me levam a tributar-lhe culto do coração.
Causam-me profundas alegrias seus bastos ajuntamentos, seus partidos virentes, acamados, com suas folhas, ora encurvadas, ora destendidas ao sopro dos ventos irados ou brincões. Essas folhas são como harpas gigantes, melancólicas, ternissimas, que as virações fazem vibrar docemente e que despedem harmonias eólias.
A vista da moagem produz em mim gratas alterações, e traz-me saudades da infância, recordações veneráveis dos tempos felizes em que, levando a vida entre a vila e os engenhos, entre a casa paterna e os painéis que a natureza expõe gratuitamente aos que para ela têm os seus principais afetos e a sua primeira admiração, meu espirito adejava, como os sanhaçus e os bentevis, por sobre as folhagens, mergulhado alternativamente já em luzes, já em sombras, mas sempre enleado e passado de inocente contentamento.
Para o homem do norte o engenho de açúcar é o representante de imemoriais e gloriosas tradições. Especialmente o pernambucano nasce vendo com amigos olhos aquelas grandes propriedades que são como os seus castelos feudais. O engenho é o solar do norte. A nobreza do país principiou por ele; não conheceu outro solar. Ele figura nas maiores paginas da historia daquela parte do vasto império. Sua importância é lendária, histórica e santa.
E querem agora que á cana-de-açúcar se substitua o café! Promovem a extinção do giganteo elemento que produziu e perpetuou fortunas respeitáveis naquela grande região!
Aperfeiçoar os processos de cultura dessa planta ilustre, a que Pernambuco deve brilho e grandeza imorredoura, é digno do progresso. O direito senão o dever de melhorar as condições da agricultura, do comercio, das industrias, está acima de toda duvida; mas suprimir um gênero de cultura que tem por se a consagração de muitos séculos e elevou muitas gerações e opulentou a província, não me parece nem justo, nem acertado, nem econômico.
Voz secreta e consoladora, dissipando os meus temores, segreda-me que tu, ó planta benfazeja - estandarte da independência e da riqueza do pernambucano, seja qual for a conspiração tramada contra ti, não hás de desaparecer das nossas planícies, dos nossos outeiros, dos nossos vales e encostas, por onde estendes há três séculos tua folhagem hospitaleira.