A botada tendo caído em um sábado, ficou Francisco com o menino para passar o Domingo.
De manhã muito cedinho, Lourenço achou-se de pé, contentando a vista no movimento que lhe oferecia a novidade. Não se fartava de ver os negros passar com feixes de lenha e de bagaço para alentarem o fogo da fornalha. Ia e vinha com eles, fazia-lhes perguntas sobre diferentes coisas que observava, mas não compreendia. Recebia as explicações com visível prazer.
Norando que voltava aos partidos a buscar novos feixes de canas, um carro que acabava de ser descarregado á porta do engenho, Lourenço saltou sobre a mesa dele e deixou-se conduzir aos canaviais de açúcar, coisa que, para bem dizermos, só conhecia de nome.
Quando suas vistas adejaram por sobre aquele mundo de verdura, experimentou sua alma indizível impressão de contentamento.
Eis o que o menino viu.
Formando um cordão, os negros estavam ali a cortar com afiadas foicinhas de mão as canas que outros iam despojando das folhas e atirando no campo, assim privadas da sua verde plumagem. Grandes pilhas delas mostravam-se do meio do imenso tapete de folhas. As hastes, pouco antes graciosas, estavam agora nuas e sem elegância. Sua formosa roupagem cobria o seu leito de morte.
Na véspera tinha sido distribuído aos negros fato novo, que eles traziam ainda sobre o corpo, visto que a festa emendara com o Domingo. Com suas ceroulas e camisas azuis, seus chapéus de palha de pindoba, tão novos como a roupa, figuravam eles uma linha de soldados que derribava matos para assaltar fortificações inimigas.
Levando os olhos ao lado oposto ao de que vinha o corte, o menino só descobriu ai estendido mares de folhas ondulantes. Eram os canaviais novos, que agitavam seus panos de verdura ao sabor das virações campesinas.
Lourenço voltou do engenho perdido por ele. A festa tornara-o expansivo e contador de historias, tudo o que com ele se passara, e o que vira, foi referido circunstancialmente a Marcelina, não esquecendo o menino nem as quedas-de-corpo que pegará com outros meninos na bagaceira.
- Se meu pai tivesse um engenho, a coisa havia de ser outra - dizia ele de quando em quando no curso da narração.
- E porque não há de ter? inquiriu Marcelina. Se tu nos ajudares, no fim de alguns anos poderemos comprar uma engenhoca, ou ao menos um torcedor. Do torcedor vai á engenhoca, e da engenhoca ao engenho. Tu bem vês que todos nós trabalhamos. Onde está Francisco? Foi á vila vender abacaxis. Eu, como vês, estou fazendo minhas esteiras para ele levar a quem as encomendou aqui adiante, na encruzilhada. Só tu não trabalhas ainda. E queres um engenho! Sem trabalhares não hás de ter nem de comer nem de vestir, quanto mais engenho.
Pensando consigo só, Lourenço levantou-se sem dizer palavra, deu volta pelo sitio, e tornou á salinha da casa, que era a oficina de Marcelina. Esta o viu arrastar um tamborete para junto dela e uma rodilha de cipós para junto de si. Sentando-se no tamborete, o menino cortou os cipós pelo modo e medida que Marcelina lhe ensinou, e hei-lo a trabalhar pela primeira vez depois da sua chegada ao Cajueiro.
Vendo-o exercitar tão vem a sua atividade espontaneamente, como tocado de celeste inspiração, Marcelina não pôde suster as lagrimas. Lourenço, a seus olhos, acabava de dar testemunho de emenda, resultado da constância e paciência com que ela o dirigia para o bem desde o dia de sua chegada.
Estava de feito ali uma conquista do seu esforço abençoado por Deus, inquebrantável esteio dos crentes.
VII
Uma manhã encaminhou-se Lourenço á mata, armado com um facão afim de cortar sambaquis de que precisava para umas gaiolas, que lhe tinham encomendado. Este serviço ele o costumava realizar nas horas vagas.
Trabalhar já era uma lei de seu espirito. Adquirir meios de comprar um engenho foi idéia que nunca mais o abandonou, antes constituiu a sua primeira e mais forte ambição. Por isso não perdia tempo, ou antes Marcelina o não deixava perder.
Tinham já passado muitos meses depois dos primeiros acontecimentos referidos nos capítulos anteriores. Colocado em novo centro e sujeito a novas leis morais, Lourenço avançava admiravelmente na requesta do bem, despertando cada dia em seus pais, por seu procedimento , novas esperanças e sendo para eles origem de inefáveis satisfações.
A transformação era obra das mãos deles, na qual se reviam não sem justo orgulho, como na fonte limpa, outr’ora charco, se revê o que lhe tirou as imundícies.
Por isso Lourenço era já, não somente estimado mas acariciado pelos dois consortes, que o consideravam o futuro esteio da casa, de seu natural fraca, o amigo e protetor deles, quando velhos, de seu natural forte.
A esse tempo não era a habitação de Francisco a única existente na estrada do Cajueiro. Obra de trezentas braças para o sul via-se outra de melhor parecer, de paredes de pedra e coberta de telha. Pertencia a um padre que, tendo por ali aparecido não se sabia como nem porque, fora convidado pelo sargento-mór João da Cunha para capelão do engenho. O padre Antônio escolheu aquele local para sua residência, desprezando uma boa morada que o senhor do engenho possuía dentro do cercado, e até a residência que lhe ofereceu na própria casa grande. Escolhido o local e feito o prédio, o padre chegou-se a João da Cunha e lhe disse que de há muito cumpria o voto de só morar em propriedade que fosse sua, e por isso lhe pedia declarasse por quanto vendia, com os respectivos terrenos, a casa feita. O sargento-mór, que achará aquilo singular, e enxergará no ato inocente do padre um assomo de independência e altivez, não querendo por vaidade própria da nobreza daqueles tempos ficar por baixo, declarou que lhe dava de mão beijada casa e terrenos, e disso se lavrou termo.
O novo vizinho foi recebido com alvoroço pela família do Cajueiro. Quem era que por então não tinha em alta estima o sacerdote da religião santa do Crucificado?
Francisco, saltando de contente, para me servir da frase do povo, dizia a Marcelina que dava mostras de sentir dobrado prazer com a nova vizinhança.
- Bem-dita foi a hora em que abri meu sitio nesta estrada. Olhe lá como o Cajueiro está honrado. E daqui a pouco já não haverá quem não queira vir levantar sua casa aqui por perto. Basta saber-se que o capelão de Bujari quis antes morar no Cajueiro do que no engenho, para todo o povo correr para este ponto.
- É verdade, Francisco, é verdade, respondeu Marcelina. Temos agora bem perto de nós quem nos confesse e unja em caso de morte, o que Deus tal não permita.
- E que gloria tenho eu de se dizer que fui eu que fundei o Cajueiro! acrescentou o matuto. Se ele não prestasse, não havia de querer morar nele o capelão do engenho. O que eu quero é que a todo tempo se saiba que fui o primeiro morador deste lugar. Seu padre Antônio já me fez esta justiça. Ainda ontem ele virou-se para mim, quando fui á vê-lo, em sua casa nova, e me disse que eu que tenho olho para conhecer lugar de boa moradia.
Por muito tempo levaram os moradores velhos a praticar neste sentido do novo morador. Da casa passaram ao homem físico, e do homem físico ao homem moral. Nada disseram dele na ausência que não pudesse ser dito na presença. Ainda hoje a maledicência não é qualidade característica do povo; naqueles tempos ainda o era menos.
O que Francisco disse do padre, foi que sua palidez e sua magreza indicavam que ele perdia noites de sono no serviço de Deus; Marcelina acrescentou que seus olhos pardos e como quebrados, seus sorrisos tristes, suas palavras simples revelavam consciência limpa, desprezo pelo mundo e bondade de coração. Francisco ajuntou que já uma vez em Olinda tinha visto um frade com o qual muito se parecia o padre Antônio, por sua estatura média, a cabeça grande, a testa larga, o rosto comprido, as faces descarnadas. Enfim Marcelina, recordando-se de uma novena na igreja do Senhor-dos-martirios, disse que a voz fraca e branda do sacerdote que fez ai uma pratica ao povo, era a mesma do padre Antônio.
Nem o marido nem a mulher andavam longe da verdade. O padre Antônio tinha sido frade, e foi provavelmente no tempo em que ainda o era, que se encontrou com ele o matuto. Um ano depois de secularizado, de passagem para Paraíba, aposentou-se no convento do Carmo em Goiana, aonde o foi convidar para dirigir a novena dos Martírios um negociante que o conhecia quando ele pertencia á recoleta do Recife. É natural que ai o tivesse ouvido Marcelina.
Eles não estavam também longe da verdade no tocante ao moral do padre Antônio. Grande era a sua humildade, publica a sua piedade, notória a sua benevolência, de que todos davam noticia no Recife, em Olinda, e na Paraíba, donde viera para Goiana, fazia poucos meses. Com serem frades, gente de seu natural maldizente - estes sim - os do Carmo de Goiana que o conheciam, nada contavam dele que o desabonasse. Só um deles - vejam o que são frades - explicava a secularização do padre Antônio dizendo que, realizando-a, não o fizera ele com outro fim que o de desimpossibilitar-se para herdar muitos mil cruzados de uma tia solteirona que lhe votava grande afeição. O certo é que a tia morreu, e o padre foi o único herdeiro da fortuna deixada.
O que o padre Antônio era, quais os seus sentimentos e dotes naturais, sua piedade, seu intimo ver-se-há melhor pela presente narrativa.
Lourenço sentiu inclinarem-se para o sacerdote os seus afetos, e teve por ele instintivo respeito. Por sua vez, o padre Antônio, que parecia saber já a historia do rapaz, não perdia ocasião de o encaminhar para a honestidade e a virtude com a satisfação que enche o coração do varão reto quando se lhe depara a quem beneficiar.
Lourenço parecia tão mudado, seus sentimentos eram tão diferentes dos que trouxera da povoação para a estrada, que dificilmente o padre Antônio acreditou tivessem sido praticadas pelo rapaz as feias ações atribuídas ao menino.
- Como é possível que a gente se transforme de semelhante modo? Dizia ele uma vez a Francisco. Ainda se tivesse recebido depois desses desatinos saudável educação...
- Pois é o que digo a seu padre - respondeu o matuto. Lourenço parecia ter o inimigo no couro. Eu nunca vi menino tão endiabrado. Agora, quanto a ensino, o que ele recebeu foi o que lhe deu minha companheira; e parece que não foi mau, porque o rapaz já está outro.
- Bom ensino foi o que lhe deu tua mulher, Francisco. As mulheres são muito próprias para isso. Quando elas querem, ninguém tem melhores meios de endireitar as voltas de uma índole torta e defeituosa.
- Dai a pouco, o padre, como se tivera um pensamento súbito, uma resolução heróica, acrescentou:
- Quero prestar a vocês um serviço, que não é preciso me agradeçam, visto que tenho o dever de proceder assim. Quero completar a obra que levaram tão adiante. Vou ensinar a Lourenço as primeiras letras. Lourenço, que já está bom, ficará melhor. Que dizes?
- Ho, seu padre! retorquiu o matuto, cujo semblante pareceu iluminar-se do reflexo de prazer que lhe vinha do intrínseco da alma. Não tenho expressões para agradecer a vosmecê tamanho beneficio. Quem me dera ver meu filho lendo carta-de-nomes. Eu já me contentava com isso só, porque quem lê carta-de-nomes, pode chegar a ler um livro e escrever umas regras no papel. Deixa o rapaz, por minha conta, Francisco. Hei de ensinar-lhe a ler e a escrever. Não é preciso que te mostres desde já tão agradecido por um serviço que ainda não fiz, e que, se grande valor deve ter para quem o recebe, nada custa a quem o faz; antes é seu dever presta-lo. Vai para tua casa e dize lá á tua mulher que todos os dias logo cedo - comecemos segunda-feira - mande cá o rapaz a passar comigo algumas horas. Não é preciso mais.
- Seu padre...seu padre... Deus é que lhe há de pagar esta obra de caridade.
No dia aprazado, antes do menino entrar na casa do padre para receber a primeira lição, já Marcelina tinha levado pessoalmente umas macaxeiras, uma galinha gorda e duas dúzias de ovos para almoço do ilustre vizinho, e jurado, com a eloquência dos sorrisos e das lagrimas simultaneamente, gratidão eterna e infinita àquele que se mostrava tão bom e generoso para a obscura criatura.
- Para que isto, Marcelina? Inquiriu o padre, quando ela lhe fez entrega do presente. Eu ensino de graça e não por paga. Fica sabendo que ainda sem os teus mimos, hei de fazer este serviço ao pequeno. É obra de misericórdia ensinar os ignorantes. Além disso, pelo meu sagrado ministério, tenho obrigação rigorosa de lançar nas trevas do espirito infantil a pouca luz que tiver a meu alcance. Olha. Diz-me o coração que Lourenço ainda há de ser almotacê em Goiana.
- Deus o queira, seu padre, Deus o queira.
E porque não há de querer? Lourenço já está bom. Hoje já é merecedor das bençãos do céu, e da proteção dos homens de bem.
O que Lourenço poz por obra na manhã supramencionada, vem desmentir este conceito e palavras de seu mestre.
Tendo vagado durante algum tempo em busca de sambaquis, por dentro da mata, foi ele dar em uma trilha que lhe era ainda desconhecida. Tomou por ela, e, quando menos pensava, deu consigo em um cajueiral que se perdia de vista. De um lado aparecia uma casa de palha, e por entre o arvoredo, em parte bastantemente destruído pelos machados dos lenheiros, foi descobrindo imensos socavões, de alguns dos quais saiam ainda novelões de fumo negro. O rapaz reconheceu que se achava nas carvoeiras onde tempos atrás lhe tinham ido tão mal as coisas.
De propósito, e por incessantes recomendações de Marcelina, ele tinha, desde essa fatal noite, evitado digressões por aquele lugar, tão rico de belas paisagens e frescos e aprazíveis ermos. Agora, porém, inesperada e involuntariamente achava-se de novo ali. Lembrou-lhe incontinente o que ai passara; pareceu-lhe ouvir a matinada dos cães, e sentir nas carnes os dentes deles e o jagunço dos negros.
Eles levaram a sua avante - disse instintivamente consigo mesmo - porque eu estava desarmado. Se nos encontrássemos agora, a coisa havia de ser outra muito diferente. Já sou homem, e trago o meu facão, que está bem amolado. Eu havia de tirar a minha desforra.
Pincel fatal ou fatídico avivava em sua imaginação a cada passo, que dava o rapaz, as cenas do sanguinolento episódio, que parecia de todo apagado de sua memória. Imediatamente os ferozes instintos de outr’ora ressurgiram violentamente como línguas de serpente ou de fogo em seu cérebro, exigindo pronta vingança.
Sem mais refletir, Lourenço botou-se para a palhoça. Achou-a sem gente. Mas havia criação pelo terreiro, e debaixo do pequeno alpendre viu ele vasilhas de serviço diário, sinal de que os negros ainda ali residiam.
Quando estava a olhar para uma banda e para outra, a ver se dava com algum dos antigos conhecidos, descobriu ao longe um vulto acocorado á beira de uma das covas que apareciam no vasto tabuleiro de areia.
Encaminhou-se para ai, saboreando com antecipada sofreguidão o prazer da projetada vingança.
VIII
O vulto era o moleque, já então quase negro feito, que lhe tinha posto os cachorros em cima àquela fatal noite. Lourenço reconheceu-o logo: nem foi preciso para isto esforço, visto que uma vez por outra o estava vendo, ora entrar, ora sair do sitio.
- Que está você fazendo ai? perguntou ele, com voz de senhor arrogante e provocadora.
Benedicto voltou-se espantado, e por única resposta, vendo quem a ele se dirigia, proferiu estas palavras:
- Que quer saber? É da sua conta?
E com gestos e meneios de quem fazia pouco caso do visitante, deixou-se ficar na mesma posição em que se achava, a saber, de cócoras á beira da cova, e de costas voltadas para o seu interlocutor.
Veja lá como fala - retorquiu Lourenço, aproximando-se. Não foi você quem me botou aqui há tempos os cachorros em cima como se eu fosse alguma raposa au maracajá? Foi você mesmo, que nunca mais sua cara me saiu da lembrança.
- Fui eu mesmo - respondeu Benedicto. E que tem que fosse? É você meu senhor, ou meu pai para vir falar-me assim? Ora vá fazer seus balaios e suas gaiolas, e deixe-me sossegado, que eu não faço conta de você.
- Este negro está enganado comigo, retorquiu Lourenço, como se dirigisse a terceiro. Então você acha que eu havia de esquecer aquele desaforo? Eu não sou de Goiana, sou do Pasmado; e se faço gaiolas e cestos, é para não fazer facas de ponta. Agora, quanto a dizeres, negro, que não me levas em conta, isto é coisa que é mais fácil de dizer do que mostrar.
A esse tempo Lourenço achava-se já pertinho de Benedicto, e este estava de pé. As vistas de um cruzavam-se com as do outro como floretes manejados por dois inimigos, peritos no jogo, e curtidos no rancor.
De repente o olhar de Benedicto se perturba, e ele, de negro, que era, faz-se fulo. Palidez mortal cobriu-lhe a face, há pouco retinta como carvão. Tinha descoberto o facão, que Lourenço trazia e em cuja larga folha se refletia a claridade do dia.
Lourenço aproximou-se mais do seu antagonista.
- Se és homem, disse ele, em atitude de quem estava mete não mete o facão no rapaz - repete as palavras que há pouco disseste.
- Você então quer brigar comigo deverás? Ora deixe-se disso. O que passou está passado.
O que passou comigo não está passado, não, negro mofino e sem vergonha. Eu só sinto não encontrar também aqui os outros dois tições - teu pai e tua mãe - para dar a vocês todos um ensino de mestre com a folha deste facão. Mas não há de faltar ocasião.
Benedicto, que não era bom, encarou novamente com Lourenço, como quem sentia voltar-lhe o animo que fugira um momento. Tinha-lhe lembrado um recurso, que ele passou imediatamente a pôr em pratica.
- Você diz tudo isto porque tem ai um facão na mão; se não fosse ele, não tinha barbas para o dizer. Mas ainda estando com esse ferro e não tendo eu arma nenhuma, não faço conta de você, quanto mais meu pai e minha mãe. E para que fique sabendo, de uma vez por todas, que eu não me lembro de suas valentias, vou dizer-lhe uma coisa: se tiver o atrevimento de passar outra vez de noite por junto do poleiro, tenha certeza de que lhe hei de pôr os cachorros, como fiz da outra vez.
Ainda bem não tinha Benedicto finalizado esta inocente ameaça, quando Lourenço atirava para longe o facão.
- Para te quebrar os beiços, negro, eu não preciso de arma.
Era o que Benedicto queria; seu adversário estava desarmado. Então investiu contra ele como fera. Aparentemente, Benedicto representava ser mais forte do que Lourenço. As ceroulas azuis arregaçadas até aos joelhos, deixavam á mostra pernas musculosas, que acusavam grande força física. O negro mesmo tinha consciência de sua robustez; do seu tope nenhum morador de quatro léguas em redondo lhe era superior. Por isso, tendo lá para se que podia com Lourenço, atirou-se sobre ele no pressuposto de o derrubar e pôr debaixo dos pés logo ao primeiro ímpeto.
Nunca porém uma falsa crença teve mais pronta e estrondosa desilusão. Agarrar-se com Lourenço foi o mesmo que se agarrar com um touro bravo. Mal sabia ele que, além da imensa força física, de que nunca supôs possuidor, tinha Lourenço meneios, jeitos e passos que o habilitavam a dar em terra com o mais corpulento animal. Em um instante o trêfego rapaz atirou o negro, não sobre a areia, mas dentro da cova próxima, onde havia um abismo de fogo, parte ainda em chamas, parte já em carvões, mas ainda vivos e ardentes.
E esta operação, rápida como passar de faisca elétrica, seguiu-se um grito nu de agonia, que atroou os ares. Benedicto, que estava nu da cintura para cima, sentira no corpo, nas mãos, nos pés as dores trazidas pelo fogo.
Esse grito medonho e a vista que inesperadamente se apresentou aos olhos de Lourenço, produziram nele súbita comoção. O impulso de fera, que o levara a atirar na cova o adversário, foi instintivo, inevitável, fatal: não lhe deu tempo a refletir; tinha passado tão rápido como o pensamento, e em seu lugar estava agora a razão.
Lourenço correu a uma tora meio queimada que se via a um lado sobre a areia, e, pegando dele, e metendo-o imediatamente na cova, como se o fizera em um poço para impedir que se afogasse aquele que aliás estava nadando em puro fogo, gritou da beira da cova a Benedicto, com voz comovida:
- Pegue-se neste pau e suba por ele para não se queimar. Eu nem pensei no fogo que havia ai dentro.
Era ainda cedo e o casal de pretos, inquilinos da palhoça, o qual tinha ido á Goiana, a serviço do engenho, só poderia estar de volta sobre a tarde ou talvez no dia seguinte.
Quando Benedicto disse isto a Lourenço, sentiu este ainda maior abalo. A situação afigurou-se-lhe então mais difícil e penosa do que ao principio lhe parecera. Quem trataria do negro, que se revolvia, em gritos, já salvo do fogo, mas preso das extensas queimaduras, sobre folhas secas á sombra de um cajueiro próximo? Era possível que ele ficasse assim desamparado por todo esse tempo? E os gritos de dor que cada vez aumentavam mais, e o terror da situação que se tornava mais pungente e cruel, como resistir a eles sem tratar de os remediar?
Lourenço ficou abatido um momento, mas logo tornou em se e disse á vitima dos seus maus instintos:
- Não grites, não chores, que vou chamar minha mãe para tratar de ti.
Esta inspiração, que transluziu como reflexo de prazer intimo, em seu semblante, pouco tempo antes anuviado pela sombra do desgosto, rápida se desvaneceu, deixando em seu lugar no espirito do rapaz um sem numero de interrogações, cada qual mais acerba e atroz.
- Que dirá minha mãe quando souber do que eu fiz? perguntava ele em silêncio a se mesmo. Para que tomei eu esta vingança? Porque não esqueci de todo a ofensa passada? Minha mãe, meu pai, seu padre Antônio que já me quer tanto bem, que idéia ficarão fazendo de mim d’ora em diante? Um me chamará mau, outro cruel, outro desumano, coração de tigre. Minha mãe dirá que perdeu comigo seus conselhos; meu pai dirá que, em lugar de trabalhar, ando eu fazendo mal aos outros sem me lembrar de que ele só me encaminha para o trabalho. E seu padre Antônio, oh meu Deus, seu padre, que se mostra tão meu amigo, de que modo não me ficará tratando d’ora por diante? Ainda ontem ele me fazia escrever esta passagem da Escritura: “Que homem haverá por acaso entre vós, que tenha uma ovelha, e que, se esta lhe cair no sábado em uma cova, não lhe lance a mão para dai a tirar!(S.Mat.cap.XII vers.11). Eu fui o primeiro a atirar, por vingança e malvadeza, dentro de uma cova cheia de fogo, não uma ovelha, mas um meu semelhante! Ho meu Deus! Como vai ficar descontente de mim seu padre Antônio por eu ter praticado um ato tão desumano.
Lourenço deitou a correr para que mais depressa chegasse o socorro ao aflito.
Quando Marcelina soube do que acontecera, foi ela própria com o marido e Lourenço buscar o negro queimado para a casa do Cajueiro, a fim de tratar dele, visto que, morando longe da palhoça, não podia estar a tempo e a hora prestando os serviços e cuidados de que precisava o doente.
Lourenço, quando punha os olhos neste, inclinava-os logo abatidos ao chão. O remorso, o desgosto, a vergonha pesavam como anéis de chumbo em suas pálpebras.
- Para que fizeste isto, Lourenço, com o pobre rapaz? perguntou-lhe Francisco. Já me viste fazer alguma vez coisa semelhante?
- Eu não fiz isto por vontade - respondeu ele. Não me pude conter quando o vi. Lembrei-me do que tinha acontecido, e tive ímpetos de vingar-me. O ensino que vosmecê e minha mãe me deram, não pôde vencer em mim o arranco que me atirou para aquele de quem eu guardava uma grande ofensa. Além disso, ele me maltratou de novo, e me descompôs. Mas não foi por vontade, foi sem querer que eu o empurrei para dentro da carvoeira.
Era o mau natural, ainda não vencido de todo pelos edificativos exemplos e ensinos da família, o que tinha levado o rapaz a praticar tão feio ato.
- Que havemos de fazer para castigar a Lourenço sem pau nem pedra? perguntou Marcelina a Francisco.
- Procura lá em teu juízo um meio, Marcelina. Eu não quero dar-lhe pancadas.
- Eu nunca lhe pus a mão senão para o acomodar ou limpar.
Pois vê lá o que se deve fazer. A ação foi ruim, e deve ter um castigo. Neste momento entrou a Quiteria, que vinha saber como tinha o filho passado a noite.
- Olhe, sinhá Marcelina, disse a negra, o que mais sinto é meu filho perder tantos dias de serviço.
Que quer dizer isto? Inquiriu Marcelina. Pois a única ocupação dele não era botar sentido aos cajueirais?
- Esta era a obrigação que lhe deu meu senhor. Mas o tempo chegava para mais, e Benedicto já tinha ajustado limpar as canas e a roça de um homem chamado seu Zeferino, que tem o sitio nos fundos da campina de meu senhor.
Marcelina refletiu um momento, ao cabo do qual tornou á preta:
- Quero dizer-te uma coisa, Quiteria. Se o ajuste está feito, não digas nada ao Zeferino, que eu mando uma pessoa fazer o serviço. A paga fica pertencendo sempre a Benedicto.
Como é isto, sinhá Marcelina? Pois vosmecê me faz esta esmola, minha senhora? Oh! fico-lhe muito agradecida. E quem é a pessoa que vai fazer o serviço em lugar de Benedicto?
- É Lourenço.
- Seu Lourenço?
- É ele mesmo. Não foi ele que o botou dentro da cova?
A negra nada mais disse, e Francisco, sabendo da resolução de Marcelina ou, antes do castigo de Lourenço, aprovou-o com satisfação.
Quando Benedicto se deu por pronto, Quiteria e Moçambique o vieram buscar.
Traziam estampado nos semblantes o contentamento.
Tinham recebido os cobres do Zeferino, o qual só fazia gabar o serviço de Lourenço. Os negros agradeceram pela ultima vez a bondade de Marcelina, e quando iam a sair, esta os fez parar e lhes disse:
- Quando Lourenço foi fazer a limpa no sitio de Zeferino, havia oito dias que Benedicto estava de cama, não é verdade, Quiteria?
- É, sim senhora.
- Eu não quero que Lourenço fique devendo ao filho de vocês nem uma hora.
- Está tudo pago, está tudo pago já e repago, minha senhora - disse Moçambique.
- Não está; eu sei o que estou dizendo. O trabalho de meu filho nesses oito dias é aquele.
E indicou uma porção de cestos e esteiras de cangalhas que estavam amontoados a um canto da casa.
- Tudo isso pertence a Benedicto. Não me deixem uma só esteira, nem um só cesto; levem tudo. Vendam, dêem, façam deles o que quiserem. Está completo o castigo de Lourenço. Com o seu próprio trabalho remiu ele a sua culpa.
Lourenço que assistiu á solene entrega desses objetos, filhos das suas mãos, viu com lagrimas nos olhos eles passarem do seu poder para o daquele cuja vida pusera em perigo, e a quem dera tanto que padecer.
Mas nada disse. Os olhos baixos, o semblante abatido, o coração abalado, compreendeu, do modo mais natural e positivo, que todo mal que praticasse dali por diante a outrem, seria praticado consigo próprio, não resultando em ofensa a sua pessoa, mas privando-o do resultado de sua atividade, que fosse necessário á respectiva indenização.
Nunca ele tinha compreendido tão bem, como nesse momento, que o homem que menos mal faz, é o que está menos sujeito ao mal.
Quando os pretos saíram satisfeitos e agradecidos, Marcelina dirigiu estas palavras ao filho:
- Estás vendo, Lourenço? Trabalhaste dois meses inteiros para um moleque cativo.
- Foi porque vosmecê quis - disse ele, despeitado.
Não, foi porque assim devia ser. De ninguém te deves queixar senão de teu mau natural, de ti mesmo. Deus queira que esta lição te aproveite. Lá se foi grande parte das tuas economias. Ficaste mais longe do que estiveste de poderes comprar um engenho.
Lourenço respondeu:
- Trabalharei de dia e de noite, e em pouco tempo hei de recuperar o que perdi. Vosmecê há de ver.
- Deus permita que isto aconteça.
Nesse momento entrou o padre Antônio, a quem os negros tinham contado o que pouco antes se dera.
Venho dar-te os parabéns, Marcelina, pelo modo como castigaste teu filho. Aprovo muito esta teoria. A pena de detenção corporal, quero dizer a prisão, não repara o mal que vem do crime. Traz um constrangimento, um sofrimento físico ao delinqüente, mas é estéril, sem resultado. Com excepção do crime de morte, o qual nem pela pena de morte se pode reparar, todos os mais crimes podem achar justa reparação no trabalho. Ao crime de morte mesmo é possível ás justiças arbitrarem uma reparação razoável. Fizeste muito bem. e tu, Lourenço, não botes fora a lição, que de muito te há de servir na vida. Trabalha e tem fé na Providencia.
Pouco distante do Cajueiro tinha Victorino sua casinha em um alto entre dois vales, por um dos quais desciam uns canaviais escassos que ai plantara, enquanto pelo outro apontava a roça graciosa que ele sempre trazia limpa e parecia sorrir feliz a todos.
Não foi preciso que decorresse muito tempo para que Victorino e Francisco se aproximassem, e suas famílias criassem relações. A família de Victorino compunha-se de sua mulher, por nome Joaquina, e de Marianinha e Bernardina, filhas do casal.
Levado da simpatia natural que lhe inspiraram Francisco e Marcelina, convidou-os Victorino para padrinhos de Marianinha, que contava por então seus três para quatro anos. Este novo laço veio estreitar mais as duas famílias matutas, que já se sentiam presas por mutuas inclinações.
Por isso, era natural - e assim aconteceu - que na primeira ocasião Francisco levasse Lourenço á casa do compadre, o qual já o conhecia da garapeira, e dele dera noticia circunstanciada aos seus.
Acharam ali o menino muito bonito, muito forte, e especialmente muito artista. Este ultimo dote de Lourenço não obstou porém a que tivessem logo para ele vistas particulares o pai e a mãe de família. No mato ainda hoje se contratam casamentos com grande facilidade e antecipação; ainda bem uma menina não se põe moça nem um menino rapaz, quando os pais falam em uni-los pelos laços do santo matrimonio e assim que atingem a idade necessária, os noivos são recebidos á face da igreja. O melhor é que essas uniões prematuras quase sempre produzem bons frutos. Contrariamente sucede nas cidades e capitais adiantadas. Aqui não direi os casamentos assim contraídos, mas até aqueles a que precederam longos noviciados, não são muitas vezes suficiente seguro de paz e felicidade no lar.
Poucos anos depois da apresentação de Lourenço em casa de Victorino, já Marianinha, que desde os primeiros tempos sentira grande inclinação para ele, alimentava a esperança de ser sua mulher. Era isto o resultado das conversações particulares na casa do forasteiro, das comentações e gracejos das meninotas das vizinhanças, enfim das suposições dos conhecidos a quem não eram estranhas as relações das duas famílias.
Não tinha então Marianinha mais de doze anos, mas já pensava na falada união com tal constância e satisfação que só com isso se considerava feliz. Lourenço era o passarinho verde dos seus sonhos infantis, a feiticeira imagem que tinha o primeiro lugar nos seus brinquedos de bonecas, e lhe enchia o espirito de suavíssimo esplendor, de dia quando ela trabalhava, de noite quando se entregava ás enganosas cismas da primeira idade.
Ao menino já não sucedia o mesmo que á menina. Se estava alegre e brincão, bastava falarem no casamento, para que em seu rosto se mostrassem indícios de desprazer. Fugia, amuava-se, e só aparecia de novo dai a tempos.
Outras vezes vingava-se das finezas de Marianinha respondendo com demonstrações de pouco caso.
Eis o que aconteceu um dia em que se achou com Francisco em casa de Victorino, por ocasião de uma arranca de feijão.
Os dois dias anteriores tinham sido empregados neste serviço. Em frente da casa viam-se os couros estendidos sobre os quais Victorino, a mulher, as filhas, e seu sobrinho Saturnino tinham atirado a erva trazida ás braçadas da plantação.
Com três tigelas de feijão mulatinho, uma do feijão branco e outra do preto que Victorino plantara pela várzea que ficava do lado da casa e pelos pés dos altos que do outro lado a cercavam, esperava ele apanhar tantos alqueires que lhe dessem para todo o ano. Parece que o calculo não ficou longe da realidade, visto que no serviço da arranca andaram empregados durante dois dias todos aqueles braços.
Ao dar com os olhos sobre os grandes montes de vagens e ramas atiradas em cima dos couros, disse Francisco:
- Sempre cuidei que eu bateria primeiro o meu feijão do que você o seu, compadre Victorino. Vejo agora que me enganei.
- É verdade, compadre Francisco.
- E boa apanha fez você. que putici! Dá bem seus dois alqueires.
- É quanto espero apurar.
- Mas parece que ainda era cedo para arrancar esta erva. Vejo ainda tantas vagens zarolhas entre as secas. Nem por isso. Ele já estava estralando ao sol mesmo no pé.
- Como está a comadre? Como passam as meninas?
- Nenhuma quer morrer, não, meu compadre.
- Fazem elas muito bem.
- A comadre como ficou?
- Trabalhando com seus cestos.
Apareceu nesse momento Joaquina na porta da casa, as mangas do vestido para baixo, o cabeção de rendas á mostra, os pés no chão.
- Por isso é que o dia amanheceu tão bonito. É porque o compadre Francisco tinha de aparecer hoje por aqui.
- Não presto mais para nada, comadre. Mas porém já fui um cabra mesmo pimpão. Muita mulata bonita já se remexeu por mim ouvindo-me cantar ao som da viola, em noites de luar. Hoje deixo isso para esta mocidade que se está enfeitando, para esses frangotes que como a nossa criação vão enchendo os nossos terreiros.
E apontou para Lourenço e as raparigas que nessa ocasião conversavam entre si. Estas não se demoraram a vir cumprimentar o matuto. Marianinha chegou-se para bem parto dele, e, estendendo a mão direita, disse, corada e confusa:
- Sua benção, meu padrinho.
- Deus te dê um bom marido.
- Isto é que é o mais custoso - observou Joaquina.
- Há de aparecer, há de aparecer, tornou Francisco.
- Também se há de ser algum vadio, algum preguiçoso que não tenha animo nem para peiar um cavalo, melhor será que esteja ela solteira ai dentro de casa, acrescentou Victorino.
Neste tom correu a palestra ainda por alguns minutos, Lourenço conversando a maior parte do tempo com Bernardina, e Victorino e Joaquina com Francisco.
Entretanto o dia ia crescendo, o sol subindo e o feijão estalando no terreiro: o que levou Francisco a dirigir esta pergunta ao compadre:
- Para quando guarda bater o feijão?
- Estou esperando por meu sobrinho Saturnino, que ficou de voltar, mas ainda não chegou.
Ora! Aqui estou eu e o Lourenço para o ajudarmos. Eu não tenho que fazer hoje. Dei este salto até cá por distrair-me.
- Pois se você quer, vamos a isso.
Francisco chamou pelo pequeno. Para terem mais desembaraçados os movimentos, tiraram as camisas; assim - nus da cintura para cima - ficaram inteiramente á vontade e conformemente ao costume do campo. Cada um pegou então do seu cacete, e começaram a surrar a grande tulha que primeiro se lhes ofereceu á vista.
As mulheres, pelo sentimento de pudor que lhes é natural, especialmente no campo, não obstante lhes faltarem as saudáveis praticas, presente da educação, tinham-se recolhido antes á sala da casa, e ai se entregaram a diferentes gêneros de ocupações. Bernardina, sentada em uma esteira de juncos, e Marianinha em um couro de cabra, faziam companhia, tendo cada uma entre as pernas sua almofada com vistosas rendas, a Joaquina que, pousada no chão, com as pernas estiradas uma sobre outra, fiava em um fuso pastas de alvíssimo algodão que ela ia tirando de dentro do balaio, onde trazia um montão delas abertas.
Dai a pouco Bernardina entrou a cantar para se umas letras matutas, enquanto sua mãe repetia os pés de um bem-dito que de costume tirava sempre que se punha a fiar. Era lembrança da missão que um capuchinho fizera em Goiana anos atrás. Marianinha guardava silencio. Ouvia com atenção as toadas das duas cantadeiras, porém mais atentos do que os ouvidos tinha ela os olhos , que de quando em quando levava furtivamente da renda a Lourenço por uma aberta da porta pela qual entrava com a imagem do rapaz um pedaço de céu azul.
O amor que Marianinha votava a Lourenço, vinha dos primeiros anos, mas já era ardente, continuado, exclusivo. Nasceu no momento em que o menino foi apresentado á família. Remontemo-nos a esse momento. Victorino tinha dado do menino as piores informações; mas sua filha o achou tão bonito que ficou escrava dele. Tinha ido Victorino abrir um roçado dentro da mata que lhe ficava por traz da quadra de terra que o senhor do engenho lhe dera para cultivar. Como não era muito grande o espaço concedido, da casa ouvia-se o ruído que, ao cair, produziam com as folhas e as arvores derrubadas pelo poderoso machado foreiro. Ao ruído das arvores, ao ciciar das por entre a folhagem de um pé de massaranduba que ficava de um lado da casinha, ao cantar dos chechéus poisados esse momento sobre as bananeiras do quintal, Marianinha, que na ocasião de chegarem os hospedes, estava no terreiro brincando com suas bonecas, sentiu que despertará novo sentimento em seu coração. Esse sentimento não se confundia com o que ela experimentava minutos antes ouvindo os mesmos rumores e o mesmo canto; era diferente, posto que acompanhado do mesmo natural cortejo.
A manhã estava esplendida. O sol aquecia, sem queimar, as plantas e os animais, vivificando-os. As vastas sombras dos matos e dos oiteiros, projetando-se sobre o capinzal donde iam desaparecendo os últimos pingos da orvalhada brilhante da noite, poder-se-iam comparar com as folhas fechadas de um livro imenso --o livro da natureza. Poucas horas depois essas folhas estavam de todo abertas, a luz patenteava nelas muitas belezas, que a sombra ocultava antes, a saber, as moitas figurando ninhos virados, as flores inodoras, mas lindas, que costumam nascer pelos sopés das montanhas, as rolinhas, de duas em duas - modelos da união dos dois sexos estreitada pelos laços do afeto natural, modesto e sóbrio que Deus plantou no coração dos irracionais, e que só a razão, ou antes, a obliteração dela perturba na espécie humana - depinicando silenciosas, a fazer voltas em sentidos opostos e a encontrar-se depois, como para afirmarem mutuamente que nunca jamais se separariam, a não ser momentaneamente. Nenhuma dessas manifestações da vida campestre, nem mesmo o conjunto de todas elas, tinha despertado no coração de Marianinha o sentimento brando e indefinível que ela começou a conhecer dali por diante. Francisco e Lourenço não se demoraram, tiraram para a mata a falar com Victorino; a impressão porém que a assaltou, quando ela viu pela primeira vez o menino, e que depois, acrescentada pelas relações de amizade e pelo tempo, se agigantou a ponto de constituir-se um mundo, uma imensidade, essa perdurou para sempre não só em seus olhos, enchendo-os de novos brilhos, mas em toda a sua alma, povoando-a de nuvens rosadas e de paisagens verdoengas.
Eis porque Marianinha olhava agora ás furtadelas para o rapaz, achando graça particular no modo como ele botava o cacete sobre a tulha do feijão.