Seriam dez para onze horas quando deram principio ao trabalho.
Com o calor e as cacetadas os caroços entraram a separar-se dos longos estojos. Duas horas depois um montão de pó cobria grossa camada de sementes alvas e luzidias. Então os batedores suspenderam os cacetes e entraram para descansar. Victorino foi direitinho a uma botija que estava sobre a mesa, e derramando aguardente dentro de uma xícara, ofereceu o refrigerante licor ao compadre. Este não se fez rogar; de um trago enxugou a vasilha. A Lourenço, que não bebera do espirito, ofereceu nesse momento Marianinha uma tijelinha com cajuada. A menina tinha preparado com suas próprias mãosinhas este refresco. Já então se achava ai o Saturnino, que não podendo ver com bons olhos o agrado, quis, com o pretexto de gracejar, toma-lo das mãos de Lourenço. Este porém entregou-o, sem a menor oposição, ao sobrinho de Victorino, dizendo-lhe estas palavras:
- Tome para você. Não gosto de ponche de caju.
Marianinha, corando de contrariedade e confusão, voltou a trocar os bilros em sua almofada. Ela não queria mal ao primo, mas desde esse momento começou a trata-lo com manifesta frieza.
Entrava a esse tempo na sala a Bernardina trazendo um pedaço de cana. Lourenço foi-se a ela, no momento mesmo em que a menina o oferecia a Saturnino, e o arrancou da sua mão com surpresa. Esta violência irritou a moçoila que sem hesitar se atirou ao rapaz, a fim de retomar a propriedade. Ele resiste. A resistência leva a rapariga a insistir cada vez mais na sua resolução. Agarram-se os dois corpo a corpo. Agarrarem-se assim foi o mesmo que se abraçarem naturalmente. Os cachos dos negros cabelos da matutinha roçam pelas faces do travesso rapaz. Com ou sem intenção, conchega este aos seus seios os seios boleados da rapariguinha gentil e ofegante. Era já tempo de Saturnino interpor-se e ele, compreendendo a gravidade da luta, não se fez esperar.
Separam-se logo os discordes, um deles - Lourenço - com o pedaço do doce fruto disputado, o outro - Bernardina - com as mãos vazias.
- A cana não é para você, Lourenço - disse ela, resmungando com raiva. Eu a guardei par Saturnino.
- Ora, deixe-se disso - respondeu o endiabrado rapaz. saturnino ainda achou pouca a cajuada que lhe dei? Se quiser cana, vá corta-la na baixada. Esta é minha. Está doce que sabe já a açúcar.
Travou-se então um dize tu, direi eu que só teve fim quando os rapazes foram chamados pelos velhos para continuar o serviço interrompido. Ao sair para o pátio, Lourenço, pondo os olhos casualmente em Marianinha, achou-a pálida e séria como nunca a vira. A menina tinha a vista pregada na renda, como estava esta pregada na almofada pelos espinhos de cardeiro que nela serviam de alfinetes, segundo era de costume por esses tempos entre os pobres. Marianinha não teve mais para o seu noivo in peto olhares nem sorrisos nem atenções durante o restante do dia. Quando á tardinha, levantado o papelão, que Joaquina lhe dera por tarefa, ela foi com sua mãe e irmã sessar o feijão na urupema para o expurgar da areia e do barro original, a menina tinha no rosto a grave expressão que é própria não da filha mas da mãe de família. O despeito e o ciúme mordiam pela primeira vez seu coração, antes merecedor do contentamento inefável a que ela aspirava, do que do pesar profundo que ai tinham deixado os dentes envenenados destas duas serpentes interiores. Assim se passou esse dia, que projetou sombria nuvem, em forma de espectro ou de ave agoureira, na imaginação da pequena.
Tempos depois Francisco, levando em sua companhia Lourenço, fez nova digressão á casa do compadre.
Eram todos no roçado quebrando milho, que devia ser batido como fora o feijão.
- Sempre chego em ocasião de trabalho, compadre Victorino, disse Francisco.
- É verdade.
- A razão é porque meu compadre Francisco é muito trabalhador, observou Joaquina.
- Adeus, meninas.
- Sua bênção, padrinho, disse Marianinha.
- Boa tarde, seu Francisco, acrescentou Bernardina.
Lourenço deu o andar para onde estava esta ultima, e baixinho lhe perguntou:
- Lembra-se ainda do pedaço de cana? Está zangada comigo?
- Eu não, respondeu ela.
- Eu fiz aquilo somente para meter raiva a Saturnino.
- E você para que é mao, Lourenço?
- E você para que faz tantos agrados a ele?
- E você que tem com isso?
- Bernardina! Bernardina!
É melhor que vá se importar com Marianinha, que é sua noiva e mais dia menos dia virá a ser sua mulher.
0 semblante de Lourenço fechou-se subitamente. Mais depressa nuvem escura não cobre a face risonha de estrela gentil e namorada.
- Está bom, disse ele com visível contrariedade. Eu não quero destas graças comigo.
E pois estavam conversando em vozes tão moderadas que ninguém podia ouvir o que diziam. Francisco, a quem não pareceu muito agradável este colóquio, dirigiu-se nos seguintes termos ao filho:
- Ó Lourenço, vai ajudar ali a comadre, que mal pode com aquele braçado de espigas.
Em vez de levar a mal, o rapaz aceitou com as duas mãos o recurso, que se lhe oferecia, e foi prestar os seus serviços á Joaquina, não só tomando sobre se parte da carga que ela trazia, mas quebrando o milho maduro que encontrou em suas proximidades.
O aspecto do roçado era o mesmo que oferece qualquer destas plantações em ocasiões idênticas.
Em um ponto central via-se um montão de espigas secas. Junto delas estava Bernardina sentada sobre umas palhas. Sua obrigação consistia em as ir descascando e prendendo depois, de duas em duas, pelo filete de palha, de propósito deixado em cada uma para facilitar não só o trabalho da contagem senão também o da condução. Depois de assim atadas, atirava-as para outro ponto, do qual tinham de ser levadas para casa.
O milharal, posto que na mór parte ainda de pé, estava quase todo seco. As espigas volviam-se para a terra que alguns pés, dobrados pelos ventos fortes, beijavam com os pendões em sua maior parte despidos das flores de que se compunham.
Quebrando aqui, ali, os frutos, foi-se Francisco metendo pelo roçado a dentro até chegar ao lugar onde estava a filha mais nova de Victorino.
- Venho ajudar-te, Marianinha, disse ele.
A menina tinha sobre os ombros alguns atilhos, de sorte que parte das espigas lhe caiam por cima dos seios e parte se derramava pelas costas.
- Para que tem esse trabalho, meu padrinho? Estamos já acabando.
- Como me acho aqui, quero perguntar-te uma coisa. Tu estás mal com Lourenço?
- Porque vosmecê pergunta isso?
Porque ainda há pouco vi todos falarem com ele, menos tu. Que é que houve entre vocês? Eu não gosto de malquerenças.
A menina parou involuntariamente. Seu braço direito que nesse momento ela tinha alçado para uma espiga, descaiu como se força oculta e desconhecida o fizera gravitar para a terra. Os olhos, vencidos pela mesma influencia, tendo relanceado primeiro para o matuto, cravou-os ela irresistivelmente no chão.
Conhecendo que tocará em uma ferida encoberta, Francisco adiantou-se a diminuir-lhe o vexame.
Eu sei que tu gostavas do Lourenço até bem pouco tempo. Como é que aparece agora esta rixa?
Passado um instante, a rapariguinha respondeu, aceso o rosto em suave rubor:
- Mas ele não gostava de mim.
- Quem foi que te meteu isso na cabeça?
- Era preciso que alguém me dissesse o que eu estava vendo com os olhos?
- Engano teu.
- Não estou enganada, não senhor. Lourenço não se importa comigo.
E tu não queres mais bem a ele? Anda, fala. Eu bem sei que tu gostas do pequeno. Se és capaz, nega.
Tomada da maior confusão, Marianinha não soube o que responder.
- Dize o que te pergunto - insistiu o matuto. Eu guardo segredo. Não tenhas vergonha de mim.
- Eu não sei disso - retorquiu a menina, entre satisfeita e triste.
- Não sabes? Então quem é que há de saber?
A filha de Victorino caio novamente na mudez de há pouco.
- Deixa estar, Marianinha, tornou Francisco.
Lourenço há de casar contigo. Se não for por gosto, há de ser contra a vontade.
- Contra a vontade? Não, assim não - disse ela.
- E porque não há de ser por gosto?
- Eu sei... Ele não me quer bem, não. Se ele quisesse, me tratava de outra moda. Como é então que ele te trata?
- Eu não sei dizer como é, não, meu padrinho. Eu só sei que Lourenço é mau e ingrato.
Triste e cabisbaixa, a menina poz-se a chorar. Era muito intensa a dor que feria seu coração. Não chores, pequena, disse Francisco abalado. Hei de fazer que ele venha a casar contigo. Pede bem a Nossa-Senhora-da-Conceição que eu não morra. Tanto farei que ele mesmo é que me há de pedir licença para dar este passo.
Secreto pressentimento, porém, dizia á menina, não obstante este formal compromisso do matuto, que nem o coração de Lourenço nem sua mão lhe pertenceriam jamais.
Entretanto a esperança que tais palavras infundiram em seu espirito, entrou ai como luz serena e divina.
Momentos depois, voltaram todos para casa, conduzindo as mãos-de-milho. A uns derramavam-se espigas pelas costas, a outros caiam os atilhos dos braços, ou das mãos. Marianinha, enquanto os demais tinham a atenção concentrada na colheita, volvendo em torno de se seus belos olhos, há pouco cheios de lágrimas, agora repletos dos fulgores do contentamento intimo, que se revelava, não por palavra mas pela luz do olhar meigo, pelo rápido sorriso, pela irradiação suavíssima do semblante, tinha bem diversos pensamentos. Nas sombras crepusculares que começavam a cobrir a solidão ela descobria encantos e primores naturais, que momentos antes, de caminho para o roçado, debalde buscara na verdura da natureza, formosamente iluminada pelo clarão imenso do sol.
Nem com entrar em seu espirito acompanhada das sombras e dos mistérios do deserto tinha para ela menos brilho e formosura a esperança.
Numeroso foi o concurso de pessoas de alta e distinta jerarquia durante a noite da véspera e o dia de S. João de 1711 no engenho do sargento-mór João da Cunha.
Esta respeitável campanha compôs-se dos cavaleiros que diremos: os irmãos André Cavalcanti, Luiz Vidal e Cosme Bezerra; Filipe Cavalcanti, capitão de ordenanças; Jorge Cavalcanti, sargento-mór honorário, e filho natural de André Vidal de Negreiros, o restaurador da Paraíba; Martinho de Bulhões, que veio do engenho Itambé, onde morava com seu sogro Matias Vidal, a quem o dito engenho pertencia, bem como todas as terras da povoação fundada por aquele restaurador. Além destes apontavam-se outros muitos proprietários e autoridades de Goiana, mais ou menos ligados, por laços de parentesco, amizade ou dependência particular com o senhor do engenho.
Foi uma festa que muito deu que falar, não tanto pelo brilho, como principalmente pela concorrência. Dos principais nobres da vila não faltou nenhum. A posição social e política de João de Cunha; sua procedência ilustre; seus haveres geralmente tidos por avultados asseguravam-lhe grande respeito da parte dos seus vizinhos.
Houve quem viu no importante ajuntamento, logo que ele se anunciou pela voz da fama, um pretexto para tratarem em família e em secreto os nobres de Goiana dos seus interesses ameaçados pelos mascates do Recife. Nem era mister grande penetração para fazer esta conjectura, depois do rompimento destes contra aqueles, rompimento que se realizou em 18 de junho do ano apontado, de uma para duas horas da tarde.
Para que fique inteirado do necessário o leitor que não for muito versado no conhecimento das lutas políticas de nossa terra nos tempos coloniais, indispensável nos parece examinarmos aqui, posto que de relance, a causa da agitação dos espíritos na época em que se passou esta historia.
De que procedeu o sobredito rompimento? De quererem os negociantes do Recife que esta povoação passasse a vila, e de o não quererem os nobres da cidade de Olinda. Qual a razão de quererem os negociantes do Recife e de não quererem os nobres de Olinda que passasse a vila aquela provação, que aliás já tinha sido cidade no domínio holandês, por suas vantagens naturais, posição física, e principalmente por ser porto de mar e oferecer fácil ancoradouro? A razão era porque, sendo o Recife quase em sua totalidade habitado por negociantes portugueses, passariam estes a ter, com a elevação da povoação a vila, preponderância no senado da câmara, e por seus votos poderiam reduzir a nada, visto que o seu numero era grande, os nobres da cidade na taxação dos gêneros, na arrematação dos contractos, enfim na governança que até então tinha sempre andados nas mãos da nobreza da terra. Um cronista, contemporâneo da guerra dos mascates, escreveu sobre este ponto as palavras que trasladaremos para melhor compreensão do leitor. São as seguintes:
< A dar-se ao Recife o termo que o governador queria, perdia a nobreza do país; porquanto, igualando-se os nobres aos mascates, e sendo estes muito mais numerosos, vinham aqueles a ser excluídos nos pelouros dos lugares da republica; perdiam as rendas publicas na arrematação dos contractos, porquanto, sendo os arrematantes os mascates, e compondo estes o senado, perante quem se arrematavam, vinham eles a ser juizes e partes, e a seu salvo podiam arredar da arrematação os nobres que quisessem lançar; perdia finalmente toda a população produtora, porquanto, competindo aos almotacés taxarem os preços dos viveres, e sendo o almotacé do Recife mascate, seguia-se, como se seguiu, que os gêneros conduzidos a mercado pelos matutos se taxassem em preço mui baixo, e os que vendiam os mascates taberneiros se estimassem em subido preço>.
Por onde se vê que nem era de todo sem fundamento o ódio que nobres e mercadores se votavam mutuamente, nem a guerra a que esse ódio deu lugar podia faltar em rebentar com a veemência e crueza que a caracterizaram. Enfim, a luta era menos de fidalgos e peões do que da agricultura ameaçada de ruína, e do comercio que aparecia como tirano. Não há luta mais fatal e terrível em seus resultados do que a em que se empenham dois princípios que devem constituir, nas épocas normais, um só elemento de prosperidade publica, servindo cada qual de complemento natural do outro. Estamos por isso muito distantes dos que nesse memorável movimento querem ver, antes um testemunho de ridículos preconceitos, costumes e educação dominantes no século próximo passado, do que a séria colisão de interesses que ainda em nossos dias podem trazer, achando-se em desacordo como então se acharam, resultados ainda mais tristes e lastimosos.
Enquanto as pretensões dos mercadores não passaram de tentativas malogradas, mantiveram-se as coisas em saudável equilíbrio. As pretensões, porém, de que é alma o interesse pecuniário ou a ambição de riquezas dificilmente se resignam a completa renuncia. Quando menos se espera, elas fazem explosão, e só então se reconhece que o silencio em que por algum tempo estiveram a modo de sepultados, não foi o silencio da morte, mas da concentração espiritual e o do estudo dos meios de dar vitoria á dita ambição.
O governador a que alude o cronista na passagem sobremencionada, era Sebastião de Castro Caldas. Não foi o primeiro que chegando a Pernambuco e deixando-se quase dirigir por seus conterrâneos mais exaltados na sua pretensão capital, representara a el-rei a favor da criação da vila. Antes dele já o tinham feito alguns outros, inclinados sempre a proteger os interesses dos seus patrícios. Nenhum, porém, o fizera com tão fortes razões como o novo governador, homem de grandes espíritos, de animo ousado e tão dado á pratica de ator de despotismo que o próprio rei lhe estranhará asperrissimamente, em data de 7 de outubro de 1709 o <Ter invadido a jurisdição dos ministros, soltado presos, mandado tirar devassas, suspendido no procedimento dele despoticamente, abusado das regias leis e provisões e cometido outros absurdos e excessos de grande prejuízo á boa igualdade da razão e em grande dano da justiça dos povos de Pernambuco.>
É fama que pouco tempo depois de haver entrado no exercício do seu cargo, um negociante lhe foi dizer (não se sabe se havia verdade ou enredo na historia do oficioso senhor) que alguns pernambucanos tinham jurado repetir com ele, se metesse a tomar o partido dos do Recife na criação da vila, o mesmo que seus antepassados tinham praticado com o governador Jeronimo de Mendonça Furtado no século anterior.
A isso respondeu Caldas: - Se são nobres e têm, segundo dizem, por se o popular da capitania, repitam o procedimento dos seus maiores. O que eu lhes asseguro é que não hei de imitar Mendonça Furtado, e que, desembainhada a minha espada, não a meterei novamente na bainha antes de embebida no coração do primeiro conjurado.
Não aconteceu, assim porém. Levado do capricho pessoal, ou do interesse, ou do ódio, ou da vaidade de dar mostras de ser capaz de arrostar com a oposição da nobreza de Pernambuco em peso, fez reiteradas instancias ao ministério e ao rei para que se realizasse a elevação do Recife a vila. Esta elevação foi afinal ordenada pela carta regia de 19 de novembro de 1709; mas, como se verificaram logo no ato da divisão de novo termo grandes vexames e violências, irritaram-se mais os ânimos de parte a parte. Caldas respondeu á reação dos pernambucanos notáveis mandando-os prender. Foram do numero dos presos Leonardo Bezerra Cavalcanti, seu irmão Manoel Cavalcanti Bezerra, Luiz Barbalho, Afonso de Albuquerque e outros. O triste exemplo, produzindo impressão de terror em vários agricultores, obrigou-os a deixar suas propriedades e ocultar-se foragidos nos bosques. Enquanto porém alguns se retiravam aterrados, a reação concertava na sombra a sua desforra. Assim que pelas 4 horas da tarde de 17 de outubro de 1710, por ocasião de passar o governador pela frente de uma casa desocupada da Rua-das-aguas-verdes, um tiro lhe foi dai desfechado, não tendo sido parte para que o não fizessem os dois mandatários obscuros o ir Caldas acompanhado e guardado por uma escolta de 25 homens.
Longe de o chamar á razão, o tiro, que mais parece Ter sido aviso de prudência do que meio de dar cabo do poderoso inimigo, visto que, se esta fora a intenção, não teriam posto na arma tão pequena carga que, não obstante ser muito curta a distancia, a bala produziu unicamente no governador ligeira escoriação, serviu antes para o arrojar de uma vez no caminho do atentado. Bastava Ter contra se suspeita de cumplicidade no nefando delito da Rua-das-aguas-verdes para qualquer ser atirado a horrorosa prisão. O capitão André Dias de Figueiredo foi talvez preso como cúmplice, unicamente por Ter por nome o mesmo que o do juiz ordinário que em 1666 intimou ao governador Mendonça Furtado a ordem de prisão em nome do rei. Enfim, foram tantos os excessos do governador Caldas, agora mandando abrir devassas, agora ordenando prisões indevidas; ora estabelecendo presídios, como fez em S.Lourenço-da-mata e em Santo_Antão, ora determinando que o povo fosse desarmado sem ter em atenção sequer estar iminente a invasão francesa, segundo acertadamente pondera o nosso cronista, que, antes do dia 5 de novembro, em que devia romper a revolução, rebentou esta por ocasião de pretender o capitão João da Mota prender o capitão-mór de Santo-Antão Pedro Ribeiro da Silva. Foi em 2 do dito mês que, em lugar de Mota prender Ribeiro quando este ia ouvir missa na matriz, o sitiou ele em seu próprio presidio e o obrigou a capitular com a condição de não voltar ao Recife enquanto o povo, que tratava de reunir-se, não descesse a atacar a vila novamente criada. Enfim, no Domingo (10 de novembro) uma multidão passante de 2.000 matutos tomou o Recife, e como não encontraram ai o governador, foram aquartelar-se em Olinda, senhores da situação. Caldas tinha fugido de véspera para a Baia sem Ter cumprido a sua promessa de embeber, antes de partir, a sua espada em corações pernambucanos.
Foi logo chamado a tomar as rédeas do governo, visto vir apontado na carta regia que prevenia as vacâncias, o bispo d. Manoel Alvarez da Costa que se havia retirado, em visita pastoral, para a Paraíba com o ouvidor dr. José Ignácio de Arouche pouco simpático aos do Recife por não Ter querido convir na ampliação do termo. D. Manoel volta a Olinda e assume o exercício do novo cargo em 15 de novembro. O primeiro ato do seu governo foi perdoar aos povos a sublevação e o tiro dado em Sebastião de Castro Caldas.
Como era natural, o perdão irritou os parciais do governador Caldas, os quais, não só pelos ódios próprios, mas também pelas reiteradas sugestões que lhes chegavam do mesmo governador para que, por sua vez, rompessem contra os do outro partido, assegurando-lhes que o rei não deixaria de levar a bem semelhante serviço, não pensaram senão em tomar estrondoso desforço. Ou porque acreditassem piamente no que escrevia Caldas, ou porque o seu ódio não tinha outro objetivo que o de aniquilar a nobreza, a quem deviam tão grande revez, que os havia prejudicado em seus interesses e em sua política, os europeus, que esposavam a causa da reação, alimentavam em silencio os seus projetos de vingança e aparelhavam-se com sagacidade e tino para o rompimento formal. Neste intuito levaram muitos meses a prover-se de mantimentos. A farinha, o feijão, o milho, o arroz, o açúcar, a carne, o peixe entravam todos os dias para os seus armazéns, onde ficavam em bom recato. Finalmente, no dia 18 de junho, aos gritos de <Viva el-rei d. João V, morram os traidores> puseram eles nas ruas a revolta, tomaram conta das fortalezas do Brum, Buraco, e Cincopontas, e no pressuposto de restaurarem a perdida autoridade de Caldas, consideraram o bispo suspenso de suas atribuições e o recolheram no colégio dos jesuítas. Nomeando um governo monstruoso, composto de João da Mota e de um preto mestre de campo do Terço-dos-Henriques, obrigaram o bispo a assinar ordens que importaram em os assegurar na posse da situação, assim violentamente roubada á legalidade.
Fosse porém qual fosse o verdadeiro motivo da reunião no engenho Bujari, o certo é que nunca em sua casa reuniu João da Cunha tão numeroso concurso de pessoas escolhidas, com ser costume de longa data ajuntarem-se ai por S.João moradores de conta do lugar.
Não só por ser poderoso, senão também por ser homem de resolução e de gênio arrebatado, era João da Cunha muito temido em todo aquele termo.
Uma tradição de sangue dava a seu nome e família triste celebridade. Contava-se que varias pessoas, das quais algumas por faltas muito leves, tinham sido mandadas matar por sua ordem e enterrar depois na bagaceira. Mais de um negro tinha morrido nos açoites, e de um até se dizia que fora atirado vivo, não sabemos por que motivo, na fornalha do engenho, onde morreu queimado.
Naqueles tempos tradições semelhantes, em vez de diminuírem o tamanho moral do herói dessas repugnantes ilíadas, recomendavam aos povos os sanguinários Achiles, que por este modo se faziam conhecer e celebrizar.
Por isso todos tinham pelo senhor do engenho Bujari profundo respeito; e se seu nome não vem apontado nas incompletas chronicas do tempo, como muitos outros, que não obstante pertencerem a notáveis sujeitos, ficaram inteiramente esquecidos, a tradição ainda o não deixou desaparecer de todo no pó onde jazem sepultados os que por circunstancias inexplicáveis não puderam sobreviver aos acontecimentos.
Recebendo a influencia do tempo, da educação, dos preconceitos inveterados e dos exemplos de todo o dia, a mulher de João da Cunha, d. Damiana, que procedia, como seu marido, de troncos limpos, não lhe cedia a palma em altivez, posto que de seu natural era branda e benévola.
Até a idade de 12 anos, D. Damiana morou, para assim escrevermos, em casa dos pais de João da Cunha. Sua mãe era parenta muito chegada do casal fidalgo, e costumava passar tempos no engenho onde moravam.
Quando ela morreu, d. Damiana não contava mais do que 15 anos. O pai desta tinha falecido dez anos atrás. Circunstancias especiais influíram diretamente para que, sendo ele um dos mais abastados agricultores do termo de Goiana, só deixasse por morte á mulher um nome honrado e ilustre, herança que esta transmitiu mais aumentada, porém ainda muito menos brilhante do que a recebera, á sua filha.
Dos cinco anos até casar-se pode dizer que a jovem senhora viveu á sombra do rico fidalgo, pai do João e de Amador, de quem oportunamente se tratará. Por esse tempo João da Cunha já tinha contraído o seu primeiro casamento. Enviuvando anos depois, contraiu o segundo com d. Damiana, que, já se achando presa á família pela gratidão que lhe devia, entrava agora em suas relações intimas e começava a fazer parte dela por laços mais perduráveis.
O senhor de engenho achou em d. Damiana afeições duplas - as de esposa e as de filha. Sua mulher, que já tinha para ele respeito, votava-lhe agora estima conjugal, que trouxe ao senhor de engenho uma reprodução da felicidade que gozara na constância do primeiro matrimonio.
Quando d. Damiana punha sobre ele seus grandes olhos negros e ternos, João da Cunha sentia no intrínseco de sua alma uma impressão de brandura, que era talvez o reflexo da benevolência da esposa penetrando na dureza natural do coração do marido, como raio de luar em profunda e escura caverna.
Então o porco selvagem fazia-se escravo da juruti meiga e naturalmente elegante. Voltava-se todo para ele e ficava como em contemplação ascética. Os cabelos abundantes e pretos, a rosto emoldurado em oval corretíssima, a cútis morena, fina e rosada, o nariz levemente erguido na ponta, a boca representante de altivez e bondade ao mesmo tempo, faziam de d. Damiana um como centro luminoso diante do qual o orgulhoso e duro João da Cunha sentia deslumbramentos.
A influencia, porém, que a mulher exercitava sobre o senhor de engenho, não era absoluta.
Quando João da Cunha tomava uma resolução sobre objeto grave; quando seu orgulho exigia dela o preenchimento de um dos seus caprichos, leis do seu caracter, nem o olhar, nem o sorriso, nem a meiguice, nem as lagrimas dela venciam a dureza marmórea do espirito, que de outras vezes parecia de cera.
O engenho Bujari estava situado em um ponto de que inteiramente se perdeu a memória. O que se sabe ainda, pela tradição oral, é que, tendo ele ficado, pelo tempo adiante, todo em capoeira em conseqüência do longo desamparo, veio a confundir-se com a mata virgem. O engenho que traz hoje esse nome, fundou-se muito depois do desaparecimento do primeiro.
Nesse tempo - áureo período da vida do respectivo proprietário - era ele uma das mais importantes propriedades rústicas de Goiana, e a sua situação uma das mais formosas do termo.
O tempo, na forma do costume, não respeitou as prendas naturais e ainda menos as obras de grosseira arquitetura da grande propriedade de João da Cunha. No lugar onde foi a casa-de-vivenda - sobrado acaçapado de telhado enegrecido, que, por muito alto no centro, era a primeira parte da casa que se via de longe acima dos matos, com seis janelas quadradas, entre as quais se rasgava a porta, para onde se subia por uma escada de tijolos grosseiros - existe hoje seguramente uma renque de sicupiras colossais, cuja folhagem enche os vãos das duas salas fronteiras - uma reservada aos hospedes, a outra á família - agora desaparecidas. Mais para o centro, no lugar dos aposentos interiores, floresce o amarelo, o páo-d’arco, o jatobá. Na casa-de-purgar, que devia ficar á esquerda, nasceram cedros, que se mostram gigantes, cobertos de cipós, que, entrelaçando-se com a vegetação circunvizinha, formam galerias e abobadas naturais, onde não penetra luz e se acoitam durante o dia aves noturnas e cobras venenosas. Á direita, no lugar da capela, é agora uma elevaçãosita, de que se atiram aos ares uns sambaquis, umas maniçóbas, uns marmeleiros, umas cabuatãs, cujos ramos e folhas se entretecortam e amigam. Por onde corria a rua dos negros, composta de vinte a vinte e cinco casinhas de cada lado, vêm-se adjuntos de embiribas e jucás. A casa-da-moenda foi substituída por um grupo de colossais angicos. Enfim a atividade da grande propriedade passou, para dar lugar á serenidade, ao sossego, ao silencio majestoso e solene da mata virgem. As obras da arte substituíram-se as produções, desde as mínimas até as máximas, da natureza. Ao viver do homem sucedeu o do bicho bravio. Assim são as coisas deste mundo. No topo de uma civilização germinam latentes as raízes de uma barbaria.
Uma exceção destaca-se, para confirmar a regra geral, do circulo vicioso em que giram, após vidas, gerações, progressos humanos, os seres, ou antes, as forças indestrutíveis da matéria. Por entre uns paus secos aqui, umas moitas enredadas ali, umas arvores frondosas além, arrasta ainda a existência um ente contemporâneo de João da Cunha. Está mais selvagem, porém mais vivo e belo.
Suas forças não diminuíram, antes aumentaram. Em suas faces há risos continuados. Não lhe alvejam na fronte as cans da velhice. Esse ente é o rio Capibaribe-mirim, de que em 1711 passava por dentro do cercado do engenho Bujari, um braço cheio e vigoroso, o qual se estendia então sobre limpo e arenoso leito, enquanto hoje só o caçador ou algum viajor transviado o vê dilatar-se por entre matos e por baixo de frescas e amenas sombras. Semelhante ás cobras que rastejam em suas margens, ele serpeai desconhecido e caracola, ora brando e vagaroso, ora barrento e assanhado, atravessando os próprios pontos onde no século passado brincava com a luz do dia e recebia os beijos da franca viração dos descampados. As águas, com que refresca essa parte central da mata banham, antes de chegar ai, as povoações denominadas Mocós e Timbaúba, únicos pontos populosos por onde passam. Toda a restante região que elas percorrem, é solitária e erma. O morador do centro civilizado fez-se quase exclusivo habitante da solidão e da floresta.
O negro André, carreiro do engenho, tinha descarregado, no pátio da casa-de-vivenda muito antes do anoitecer do dia 23 de junho de 1711, vários carros de lenha destinada ás fogueiras de S. João. De dispor os grossos tóros de angico e cajueiro tinham sido encarregados três ou quatro parceiros daquele carreiro, de propósito dispensados com cedo do serviço diário para este fim.
No sobrado habitualmente silencioso, notava-se a animação, o bulício que acompanham fatalmente esta festa popular.
Viam-se senhoras na sala dos hospedes. Algumas delas eram mulheres, outras eram filhas dos nobres proprietários convidados para a reunião; e conversavam sentadas nas cadeiras de sola com pregaria que guarneciam a sala e das quais ainda se vêm algumas, que são como as relíquias do tempo em que representaram grande adiantamento da arte.
A mobília, não obstante ser de uma casa em que se professavam hábitos de nobreza e riqueza, não era de dar na vista; ao contrario, pouco adiantava á que se encontra presentemente em alguns engenhos, donde grande parte dos hábitos daquele tempo não desapareceu inteiramente. Além das cadeiras viam-se dois canapés, também cobertos de sola, três ou quatro bancas de acaju, e uma grande cômoda de nogueira com muitas ordens de gavetas. Sobre as bancas havia alfaias de prata e sobre a mesa estava assente um candeeiro grande do mesmo metal. Pendiam da parede, fronteiros e na mesma altura dois quadros em que apareciam retratados o senhor e a senhora do engenho.
A sala das mulheres, aquele momento deserta, atestava melhor o gosto, a educação e a mocidade de d. Damiana. Sobre cômoda de formas menos pesadas do que o da sala contígua, certamente obra de fora, em que se procurara entalhar uns longes do gosto de Luiz XIV, via-se um rico santuário de jacarandá, que, estando aberto, deixava ver por entre ramalhetes de frescas flores naturais, formosas e ricas imagens, adornadas com seda, ouro e pedras preciosas. Por junto da parede corria um estrado coberto de damasco, e fronteiro a ele mostrava-se o bufete de especial estimação da aristocrática senhora. Um tear ao canto, bancas de jacarandá de delicadas entalhas e sobre as bancas garrafinhas e frascos de vidro e cristal completavam, com o grande espelho afixado na parede, a sala particular de d. Damiana.
Ao acender as fogueiras achavam-se os homens, não na sala-de-visitas, mas no aposento imediato - espécie de gabinete onde tinha João da Cunha cama para descansar, papeis, roupas e armas.
Á luz amarelenta de um candeeiro, colocado sobre uma secretária de forma de piano, lia o senhor de engenho, para os amigos ouvirem, as ultimas regras de uma carta que recebera de André da Cunha, morador em Olinda.
<Eis o extremo a que chegamos. Os mascates em armas, senhores do porto, das fortalezas e agora do governo, visto que tem o bispo guardado por 150 soldados e ás ordens deles, tudo podem contra nós, enquanto nós muito pouco ou coisa nenhuma podemos contra eles. Se o bispo tivesse espirito, ou se o seu espirito fosse tão grande como é o seu coração, certo as coisas presentes seriam para nós pequenas. Mas é fraco e entende pouco de estratégias e ciladas. Que força se pode esperar de um governador que se deixou cair, por moleza, nas mãos dos seus próprios inimigos?>
- Que havia de fazer ele? inquiriu Matias Vidal. Aquele feixe de virtudes não é para semelhantes lutas.
- É isto exatamente o que escreve André respondeu João da Cunha.
E prosseguiu a leitura:
< Enfim o Recife está cercado de trincheiras, fortemente guarnecidas de gente e providas de munições de guerra.
< Como não tenho certeza de que esta vá Ter ás suas mãos, por isso que a todo canto a nobreza se está picando nos espinhos da traição, finalizo, rogando a Deus se sirva olhar por nós e por nossas famílias ameaçadas de toda sorte de calamidades, das quais a menos crua será a morte.
< Olinda, 19 de junho de 1711. - André da Cunha.>
- Meus amigos - disse João da Cunha dobrando a carta e metendo-a em um dos escaninhos da secretaria - foi menos para tomardes parte no meu prazer do que na desgraça da pátria, que me pareceu mandar chamar-vos á minha casa. Estão consternadoras para nós - os pernambucanos - as coisas publicas. Comandada a força militar por Miguel Correa, Manoel Clemente, Euzebio de Oliveira e Antonio de Souza Marinho, mascates conhecidos como odientos por todos nós, aos filhos da terra não nos resta, a meu parecer, outro recurso que o de lançarmos mãos das armas. Devemos acudir com as nossas fabricas e moradores, ao lugar do perigo, e ai castigar a audácia dos rebeldes. Este recurso deve ser usado sem perda de tempo. Dar pancada mortal na cabeça da cobra peçonhenta.
Não obstante ser mais forte João da Cunha em preconceitos de fidalguia do que em eloquência, dote que vem do berço mas que a cultura acrescenta e apura, suas palavras ressoaram, como ecos de discurso divino, nos corações dos amigos.
Entre estes viam-se alguns que eram mais bem versados em letras e em orações incendiarias do que o sargento-mór.
Contava-se neste numero Cosme Bezerra dentre todos os que ali se achavam o mais ardente membro da nobreza, e o que, por sua força de vontade e grandeza de espirito, maior nome deixou nas crônicas do tempo, porque, degredado para a Índia em 1713, dai não voltou mais á sua pátria. Era juiz ordinário e capitão de ordenanças. Tinha a presença atrativa e gestos largos e arrebatados.
Cosme Bezerra, que foi dos primeiros que reagiram contra os mercadores, como dos que sofreram as conseqüências dessa reação, quis tomar a mão em seguida do sargento-mór; mas antecipou-se-lhe Manoel de Lacerda, ex-alcaide-mór; emprego que devera a seus longos e distintos méritos.
- Estou de acordo convosco, disse Lacerda a João da Cunha. Querem grande e rude lição esses que só têm recebido de nós hospitalidade e favores? Pois satisfaçamos á sua vontade. Não gosto de violências; mas quando sagrados direitos andam em perigo, não olho a desastres nem espero pelo dia de amanhã. O fogo, o sangue, a morte não me amedrontam, nem o receio de ser vitima na luta me retém no regaço morno da vida domestica.
- Demais, observou Cosme Bezerra, que estava impaciente por manifestar-se sobre o assunto, nas atuais circunstancias a guerra é inevitável. Certo, os mascates a esperam. Se nós não formos leva-la a eles, hão de vir eles traze-la a nós. Das fortalezas passarão ás estradas, e por estas virão Ter ás vilas mais importantes e enriquecidos, menos pela grandeza do seu trabalho do que do nosso coração e da nossa complacência projetam sobre as ruínas da agricultura, levantar em pedestais de ouro o seu comercio ilícito e plebeu. Quem julgar que eles ficam ai, engana-se. eles põem a mira em completar a obra do desmoronamento pernambucano, derramando o sangue daqueles que com os nobres portugueses, e não com a gentalha de Portugal, sustentaram no mar e nos campos de batalha a honra e o poder da lusa monarquia. Hão de ir mais longe ainda, porque em seu bestunto supõem, e até o dizem, que somos tão selvagens como os índios que eles destruíram ou escravizaram. Armarão ciladas a nossa honra, tentarão manchar nossas famílias. Em seus tenebrosos plenos, tem mais lugar a idéia de enxovalhar do que a de destruir a fidalguia, que os admitiu em sua terra, levada de dó pela miséria deles. E havemos de consentir em que esta baixeza sem nome se tente praticar ainda que não passe da tentativa? De modo nenhum. Cá por mim estou prestes para a luta e entendo que é tempo de a travar com esses vis e ingratos hospedes.
- Este pontos está fora de duvidas, acrescentou Filipe Cavalcanti. Mas o essencial é assentarmos nos meios de ferir a batalha. Temos gente pronta para seguir á metrópole da capitania? Convirá seguirmos? Ou será mais prudente esperarmos que de lá se nos peça o auxilio das nossas forças! A meu parecer são estes os pontos mais importantes e graves da presente conjuntura.
- E que mais esperaremos? Inquiriu Jorge Cavalcanti. A luva está atirada, e embora nos venha de vilão, cumpre-nos apanhá-la para castigarmos a vilania.
- A nobreza da capital, ajuntou Cosme Bezerra, está ameaçada. A tardança no socorro poderá trazer males irremediáveis.
Estava neste ponto a discussão, quando Matias Vidal tomou a mão, e disse:
- Senhores, tudo o que acabo de ouvir de vossas bocas, parece-me inspirado pelo principio da própria conservação de cada um de nós, pela dignidade da nobreza pernambucana, e pelo amor da terra de que os forasteiros querem assenhorear-se. Mas quem nos afiança que não estamos já ameaçados também de perdermos as nossas vidas e propriedades? Honroso seria corrermos imediatamente á capital, afim de reforçarmos a sua defesa; mas um dever que me parece superior a todos, exige talvez a nossa presença no seio das nossas famílias. Teremos acaso tão seguros estes penhores da nossa estima que possamos, sem risco, deixa-los entregues a se próprios, enquanto vamos auxiliar os nossos parentes e amigos longe daqui? Certamente o plano dos forasteiros ficaria abaixo das suas ambições se nele entrasse o pensamento de se hostilizar a nobreza dos arredores da vila de fresco criada. Tudo ao contrario faz crer que eles conspiram contra a nobreza de toda a província, porque sem a destruição total dela não poderão ficar senhores de todo país. Não moro na vila de Goiana, mas lá mesmo no meu mato soube que o ouro dos mascates andava por aqui nas mãos de baixos comissários.
- Tendes razão, tendes razão - disse Manoel de Lacerda. O que dizeis é verdade.
Antes de montar a cavalo para vir a esta reunião, disse-me um dos meus lavradores que soubera terem sido distribuídos em Goiana, donde chegava, 14,000 cruzados para a compra de gente que apoie a causa dos mercadores. Se isto é verídico...
- É verídico - disseram muitos dos que se achavam presentes.
Se assim é, prosseguiu Matias Vidal, não será imprudência desampararmos nossas casas, que, privadas de nosso encosto e sem nenhum meio de defesa, visto que teremos de levar conosco as nossas escravaturas, ficarão expostas a grandes desgraças.
A estas palavras, que saíram fracamente dos lábios de Matias Vidal, como dentre duas pedras caem gotas de água nativa, seguiu-se um momento de silencio. Nelas vinha um cunho de madura prudência que abatia e resfriava os ímpetos e os éstos dos precedentes oradores. Aqui estava o pai de família, o agricultor, o matuto, sem exclusão do patriota. A inspiração sensata, a lúcida intuição que adivinhava os perigos próximos, ao mesmo tempo que via os remotos já descobertos, tomaram o lugar aos assomos da soberba de João da Cunha, da valentia de Lacerda, da ardência de Bezerra, e apresentaram a solução natural do grave problema que os trazia ali reunidos.