- Ela é verdade - disse primeiro o ex-alcaide-mór, como quem caia em se e via agora de todo clara a situação há pouco envolvida em densas trevas. Junto, em torno de nós, mandatários disfarçados espreitam os nossos passos para os denunciarem aos mandantes, nossos inimigos.
- Que diz você a isto, irmão André? Perguntou Luiz Vidal a André Cavalcanti, que atento ouvira os vários conceitos dos conferentes.
- Digo que o nosso primeiro empenho deve consistir em tratarmos da nossa própria defesa. Estou por isso inteiramente de acordo com o parecer de Matias Vidal. Quem sabe se dentro de poucas horas não teremos de haver-nos com revolta idêntica á do Recife?
- Nem devemos esperar coisa diferente - disse Jorge Cavalcanti.
- A que fim, senão a este, mandaram para cá os mascates o seu ouro? Observou José de Barros.
Ontem corria nas lojas e tabernas de Goiana - disse Manoel de Lacerda, que um motim se preparava contra a nobreza. Antonio Coelho, cuja audácia todos nós sabemos, nunca se mostrou tão derramado em arrogancias e insultos. De noite houve ajuntamento em sua loja, ajuntamento que só se desfez quando já era noite alta e depois de muitos urras, que ressoaram nas vizinhanças. Certo está Antonio Coelho incumbido de dirigir o movimento.
- Bom será que o não percamos de vista, disse João da Cunha.
Hoje de manhã, passando eu pela frente de sua casa, vi-o fazendo gestos no balcão. Estava, ao parecer, ébrio; não tinha curtido de todo o vinho que bebera na véspera, porque lhe ouvi palavras insultuosas que me iam lançando fora do caminho da prudência.
- Que disse ele, Cosme Bezerra? Interrogou o sargento-mór.
Suas insolências tinham por objeto a vossa própria pessoa. <Hei de ensinar o João da Cunha; é tempo dele pagar o novo e o velho. Hei de ir com minha gente revirar a bagaceira de seu engenho, para pôr á mostra a ossada do mascate que ele mandou seus negros matar, só porque...>
- Porque?porque? perguntou o sargento-mór, tomado de súbita comoção, e fazendo-se lívido. Que historia contou o vilão?
- Contou que o mascate tinha sido assassinado por se queixar de lhe não terem pago certa quantia.
João da Cunha, sem o querer, tinha-se levantado.
- Querem saber como foi o caso? A mulher de um morador chamou o labrego para lhe comprar não sei que bugigangas, de que ele saiu pago. Mas como vinha tonto, depressa esqueceu-lhe que tinha recebido a respectiva importância. Hei-lo que volta e começa de exigir novo pagamento; e porque ninguém saiu a dar-lhe mais dinheiro, a todos chamou ladrões, sem exceção do senhor do engenho. Dois negros foram-lhe ao encontro e castigaram, sem que de ninguém tivessem recebido ordem para isso, a ousadia do mascate. Este caiu e não se levantou mais. No outro dia vieram dizer-me que amanhecera um homem morto na estrada. Foi então que soube do ocorrido. Castiguei os escravos, e mandei sepultar o morto, não na bagaceira, mas na capela. Se o não sepultaram onde eu disse, não lhe fizeram injustiça; os animais do campo enterram-se nos monturos. Mas deixemos a um lado esse vil mascate, e tratemos do que nos deve merecer mais atenção. Que se deve fazer, meus amigos? Devemos ir ao encontro dos rebeldes, ou esperar que eles nos venham buscar a nossas casas?
Após um momento, respondeu o ex-alcaide-mór:
- O que entendo que se deve fazer é cuidar, sem perda de tempo, de pôr em armas cada um de nós a sua gente para o que possa acontecer.
- Sairemos ou ficaremos?
- Esperaremos prestes para dar-lhes lição tremenda.
Para andarmos seguros, parece-me conveniente que se mande um próprio, sem perda de tempo, a Olinda, a fim de sabermos dos amigos se são precisos os nossos serviços. A sua resposta nos servirá de guia.
- Acho muito acertado este ultimo alvitre, indicado por Felipe - disse Cosme Bezerra.
- Pois bem, disse João da Cunha. Seja este o nosso primeiro passo.
A sala em que se achavam conferenciando sobre o grave assunto os principais vultos da nobreza de Goiana, tinha janelas que caiam sobre o pomar. Distante deste algumas braças passava o rio, aquela noite aumentado pelas chuvas dos dias anteriores. De seu natural escasso, volvia agora barrentas e volumosas águas que estavam lavando as estivas das toscas pontes que o atravessavam.
Mal acabara de falar Cosme Bezerra, quando chegou á sala o ruído que produziam as águas cortadas por um cavaleiro.
Em qualquer engenho nada é mais natural do que semelhantes rumores. Fosse porém porque se achavam sobreexcitados os espíritos pelo objeto da conversação, fosse porque o rumor tinha o quer que era particular e estranho, o certo é que João da Cunha julgou prudente chegar á janela, a fim de saber quem era que o produzia.
Ao clarão das fogueiras, de que a esse tempo já se atiravam aos ares longas línguas de fogo, reconheceu ele quem chegava.
Voltou-se então para os circunstantes, que guardavam silencio, e lhes disse com certo tom de voz, em que não seria difícil adivinhar três impressões diferentes - prazer, incerteza e ansiedade:
- Vamos Ter noticias frescas de Olinda.
Com pouco um matuto penetrou no aposento onde se estava celebrando a conferencia, e entregou a João da Cunha um pacote de papeis.
O matuto era Francisco.
O S.João, do mesmo modo que o natal, é festa essencialmente popular e campestre. Cada uma destas duas festas, com especialidade porém a primeira, leva vantagem á da páscoa , que, com ser comemorativa da ressurreição do proto-martir, de quem só nos ficaram exemplos de humildade e singeleza, assumiu formas aristocráticas, e pertence hoje mais ao palácio e á cidade do que á choupana e ao povoado.
O engenho Bujari dava em 23 de junho de 1711 testemunho desta verdade. Não havia casa de lavrador ou de morador em que das 6 para as 7 horas da tarde o prazer não tivesse desabrochado entre risos e folgança.
João da Cunha, com ser de seu natural de poucos amigos, tinha em suas terras muitos lavradores e foreiros. Alguns escolhiam, para se fixar, as terras do engenho Bujari, e havia razão para esta preferencia. João da Cunha era ríspido, exigente e até poder-se-há dizer - mau. Mas tinha uma grande qualidade, que em certo modo atenuava os seus grandes defeitos. Bulir com um morador do seu engenho era o mesmo que bulir com ele próprio. Excedia os limites da defesa quando algum deles era ofendido. Tomava parte pelo morador em publico, ia pessoalmente aos juizes, para que ordenassem o castigo do delinqüente, gastava do seu dinheiro com o pobre e sua família, enfim, deixava o papel de tirano e representava ao vivo o de pai ou zeloso protetor. Por esta razão particularmente, e porque das magnificas situações que se apontavam em derredor de Goiana onde os engenhos ainda não eram numerosos, as melhores lhe pertenciam, muitos eram os seus moradores, entre os quais alguns abastados. Ao numero dos que o eram menos, pertencia Victorino.
Na hora em que se discutiam, com a gravidade que vimos, os interesses das famílias goianistas de primeira representação, Lourenço descavalgava á porta de Victorino.
Ai se estava festejando a noite com todo o entusiasmo e calor do estilo. As filhas do dono da casa faziam as honras aos hospedes, de que já havia um bom numero no momento em que Lourenço penetrou na salinha.
Lourenço foi entrando, e foram eles logo oferecendo a ele espigas de milho verde quebradinhas meia hora antes no roçado próximo e assadas na fogueira que iluminava o pátio e a frente da casa.
Joaquina não apareceu senão mais tarde. Estava na cozinha preparando a deliciosa canjica, que é o primeiro prato das mesas grandes e pequenas do norte nessa noite de tão formosas e prazenteiras tradições.
Não o afamado bolo de S. João, que só nas mesas ricas ou ao menos abastadas costuma aparecer, mas uns bolos de mandioca estavam assando no forno, e por terem sido feitos pelas duas filhas de Victorino mereciam a honra de ser visitados por elas enquanto não ficavam no tom de apresentar-se.
Entre os hospedes apontavam-se mais de meia dúzia, que eram afamados tocadores de viola e guitarra. Alguns deles temperavam já os seus instrumentos para dar principio ao samba.
No pátio, junto da fogueira, uns meninos descalços, de camisas compridas, rodeavam Saturnino, que, de quando em quando, cantarolando e pulando de alegria, descarregava um clavinote, em honra do santo folgazão. A estes tiros, soltados no terreiro, respondiam outros, também de armas de fogo, com que habitantes dos vales e da beira dos caminhos davam noticias suas. Trocavam assim os vizinhos, através das distancias, seus cumprimentos e as demonstrações do seu inocente prazer.
Aquele que nunca saiu da corte, onde os regozijos públicos se vestem de fitas, sedas, bandeiras, arcarias de sarrafos pintados, iluminações graciosas, fogos de artificio, apresentando o conjunto vistosas cores, caprichosas formas, elegantes perfis, não imagina que sem este aparato deslumbrante, e unicamente com a matéria prima que oferece a natureza, possam preparar-se deleitosos momentos para os espíritos mais difíceis de contentar. Não é outra porém a verdade. Ilumina-se com uma fogueira o pátio da casa, no qual se vê uma laranjeira florida, uma mangueira copada, um cajueiro ramalhudo. Enche-se o pátio do riso argentino das crianças, do assobio dos moleques, dos sons da viola, das saudosissimas toadas do matuto cantador, das harmonias melancólicas da gaita tocada pelo negro do engenho. Tanto basta para que voe o tempo com a rapidez do raio e a satisfação das gentes de campo nada tenha que invejar a que trazem aos habitantes das cidades as musicas de pancadaria, os fogos artificiais, os esplendores agradáveis a vista com que celebram suas alegrias.
Meia hora não se tinha ainda passado depois da chegada de Lourenço, a casa de Victorino, quando nadava com os demais em um mar de indescritível contentamento. Todos os de casa e até os de fora já tinham visto a sombra de suas cabeças ao acender das fogueiras, sinal de que não morreriam aquele ano. Achando-se fora de duvida este ponto, não havia razão para que a alegria não fosse a primeira senão a única expressão de todos os semblantes. Por isso uns gracejavam, outros riam, outros tocavam seus instrumentos, e todos comiam e bebiam no seio da plenissima confiança que caracterizava aquelas épocas como se foram todos membros da mesma família.
Marianinha porém, no meio do prazer imenso de que cada um tinha o seu quinhão, deixava-se tomar naturalmente de ligeira sombra de tristeza, não obstante dever ser em verdade o seu quinhão de prazer muito mais avultado do que o de qualquer dos convivas.
Não era verdadeiramente uma sombra de tristeza a que anuviava interpoladamente o seu rosto iluminado pela suave pureza da juventude. Era, sim, a asa pardacenta de receio traiçoeiro ou de duvida intima a causa do intermitente eclipse daqueles olhos negros e vivos, daquele sorriso franco e loução, daquela voz afinada pelas harpas dos sabiás e dos curiós que cantavam ao nascer e ao pôr do sol nas ramalhudas pitombeiras do quintal.
Quando seus olhos se encontravam com os de Lourenço, a nuvem se adelgaçava e desvanecia como fumo, e o brilho da face, antes escasso, parecia agora o de uma constelação. Se o filho de Francisco dirigia a Bernardina as mesmas palavras, os mesmos gracejos que tinham feito reacender-se no rosto de Marianinha a graça, a vida interrompida quando não eram outros mais languidos e ternos, nova interrupção vinha cortar ai a ventura recentemente morta e logo renascida. Havia naquele coração de mulher o ciúme antes mesmo do amor; havia o receio de perder a felicidade que aliás não existia senão no seu desejo, e na promessa que lhe fizera Francisco.
Marianinha de feito enganava-se. Toda ela era afetos por Lourenço; mas este não tinha para ela especiais atenções.
Mas, fosse engano, ilusão ou infantil confiança, esse amor fantástico, ideal, impossível talvez enchia-lhe o coração de suavíssimos fulgores, a alma de todos os perfumes e cânticos do paraíso terreal, de que ela tinha uma ligeira noticia por ouvir, quando era menina, a historia do princípio do mundo a uma velhota das bandas de Nossa-Senhora-do-ó. Quando na manhã seguinte ela foi achar murcho o dente d’alho que enterrara na horta ao acender da fogueira, o que importava profético sinal de que Lourenço não casaria com ela, os olhos se lhe encheram de lágrimas. Supersticiosa e crédula, como é a mulher em geral e a filha do povo em particular, a pobre menina por um triz não deu consigo em terra, tão grande foi o golpe que atravessou seu coração.
Não aconteceu já o mesmo a Bernardina. Para esta noite de S.João foi uma grande aurora sem intervalos. Suas aspirações sendo menos altas, a sorte apressou-se em cercá-las de risonhos anuncios. Era de feito modesto o objeto delas. Este objeto era Saturnino, o qual, posto não sentisse por ela grande inclinação, antes se inclinasse mais para Marianinha, se sentia inevitavelmente arrastrado pela gentileza franca, pelos requebros feiticeiros, pelos ditos engraçados, e especialmente pelos agrados da rapariga.
Sempre que Saturnino pensava em sua condição obscura - a condição do cargueiro, do almocreve sem eira nem beira - não podia ser indiferente aos afetos de sua prima, a qual, quando por outra coisa não fosse, tinha o direito de aspirar, por seus belos olhos, a um casamento mais vantajoso. Bernardina porém não encaminhava seus pensamentos para o terreno árido e escabroso das condições sociais. Tinha amor a seu primo, e este amor apagava, no conceito dela, as diferenças pessoais e nivelava a sua condição e a de seu primo. O certo é que o alho que ela plantara ao pé do de sua irmã, amanheceu com o caule de fora e como pendoado; o nome que ouviu publicar no momento de se acender a fogueira, principiava pela letra inicial do de Saturnino. E para coroar as suas esperanças, achou o grão de arroz que ela meteu em um dos três pedaços em que dividira o bocado de feijão por ocasião do jantar, não no que tinha escondido na soleira da porta do fundo não no do meio, mas no da frente. Não havia pois que duvidar. S. João dizia que ela se casaria, não dai a três ou a dois anos, mas no próprio ano presente.
Seriam oito horas quando Joaquina começou a distribuir pelos hospedes, em tigelinhas de barro, a canjica saborosa.
Marianinha, esquecida do que lhe acontecera por ocasião de oferecer a Lourenço a cajuada, adiantou-se para o servir, corada e tremula. Deste vez não houve formal recusa como da outra: Lourenço recebeu a tigela e esvaziou-a em poucos instantes; mas, levantando-se imediatamente, pegou do chapéu, e encaminhando-se para a porta, disse:
Vou-me embora, minha gente. A festa está muito boa, mas vem muita chuva, e eu tenho ainda de levar minha mãe do engenho para o Cajueiro. Entrei para me recolher da neblina, e ia-me esquecendo da minha obrigação.
Ó xentes! Disseram do lado umas rapariguinhas das vizinhanças que tinham chegado minutos antes. Já vai tão cedo?
Que é isso, Lourenço? Perguntou Victorino colando-se em frente do rapaz, como quem queria embargar-lhe o passo. Estás gracejando, ou falas sério?
- Falo sério, seu Victorino. Vou-me embora.
- Ora, deixa-te disso. Hoje é noite de S. João.
- Por isso mesmo. Minha mãe está esperando por mim, e não é bonito que eu me deixe ficar aqui a divertir-me quando ela está com os olhos no caminho para me ver chegar. E Francisco ainda não voltou da viagem a cidade?
Até eu sair para a vila, ela não tinha chegado. Mas prometeu que havia de vir comer conosco milho assado hoje de noite.
Pois então, se tens esta certeza, para que semelhante pressa? Assim que ele chegar, virá logo até cá.
- Ele não sabe que eu estou aqui.
- A comadre lhe há de dizer logo, e ele há de vir. Fica, rapaz. Precisamos de ti para cantares.
- Não posso, seu Victorino.
As filhas do almocreve, compreendendo o perigo em que se achavam, de perder tão boa perna para a folgança, como era Lourenço, espontaneamente uniram seus pedidos ao do pai.
- Fique, Lourenço, fique, disse Bernardina.
- Deixe-se de escusas, acrescentou Marianinha timidamente.
Estas e outras instancias e intervenções determinaram afinal o rapaz a mudar de resolução, e a satisfazer aos rogos gerais.
Tratou-se então de principiar logo o samba. Esta providencia era aconselhadas pelo interesse comum. Era o meio de prender os hospedes a casa. Além disso não faltava nada para começar a dança. Uma das primeiras violas do lugar - o Chico Pedro; uma das primeiras vozes - Lourenço; os melhores dançadores - Nicolau e Roberto, estavam todos ali. Não faltava aguardente, nem milho verde, nem bolos. As raparigas mostravam-se bem dispostas, e algumas até impacientes por verem formar-se a roda. A fogueira dava estalidos festivos. O tempo prometia limpar. O concurso dos convidados engrossava cada vez mais. Enfim, em menos de um quarto de hora, bateu o pinho, e rompeu o samba de gosto.
Lourenço, tendo tomado uma pouca da cana, temperou a guela e soltou sua grande voz ao pé do violeiro, enquanto Bernardina, Mariquinha, as filhas da Bernarda, os sobrinhos do velho Cosme, o Manoel João, o Jacinto da Luzia e muitos outros caiam na roda por sua vez, tripudiando, fazendo recortes e negaças com o corpo, atirando embigadas na forma do imemorial estilo.
O canto de Lourenço era monótono como o dos sambistas em geral, mas a letra variava e tinha as graças naturais das composições do povo.
Eis algumas das quadras com que o rapaz gratificou a companhia. Muitas delas ainda hoje em dia têm extensa voga entre os matutos de Pernambuco, aos quais as ouvi mais de uma vez, jornadeando, entre fins de novembro e princípios de dezembro, do Recife para Goiana nos meus tempos escolares. Elas pertencem exclusivamente ao povo, e eu aqui as dou com a exatidão com que as recebi da grande musa que as produziu.
Minha mulata, eu tenho
Vontade de te servir;
De dia falta-me o tempo,
De noite quero dormir.
Vou-me embora, vou-me embora
Para minha terra vou;
Se eu aqui não sou querido,
Lá na minha terra sou.
Quando eu me for não choreis,
Que são penas que me dais;
Deixai o chorar prá mim,
Que eu me vou, não venho mais.
Manjericão verde-escuro
Tem a folha miudinha;
Só em te ver eu te amo:
Que fora se fosses minha?
Passei pela tua porta,
Pus a mão na fechadura;
Eu falei, tu não falaste,
Coração de pedra dura.
Meu passarinho tão manso,
Das minhas mãos escapou;
Para mais penas me dar,
Penas nas mãos me deixou.
- Molha a guela, Lourenço, molha a guela com a patricia - disse neste ponto ao cantador o Ignacio Macambira. A patricia é o vinho do pobre - acrescentou Chico - rosado.
E Victorino, despejando aguardente na xícara, que não estava quieta um só instante em cima da banquinha do canto da sala, apresentou-a a Lourenço, que dela tomou um trago forte.
Mas como se sentia cansado, poucos versos cantou ainda, e concluiu pelo seguinte:
As convivências do mundo
São amparo da pobreza;
Enquanto o pobre convive,
Não se lembra da riqueza.
- Aqui está o lugar para quem quiser, minha gente, disse ele, sentando-se.
- Deste tão cedo parte de fraco?
- É enquanto tomo fôlego.
- Quem vem? Quem vem? perguntou o violeiro. Quem vem, venha logo, que o fogo está esfriando.
- Vai tu, Bernardina - disse Victorino.
- Muito bem, Victorino.
- Logo, logo, Bernardina.
A rapariga foi ocupar o lugar deixado por Lourenço.
A voz de Bernardina era volumosa e límpida. As mulheres invejavam a filha mais velha de foreiro este grande dote que atraia os homens a ela e lhe dava o prestigio e o renome de uma sereia. Não sendo tão bonita, como a irmã, via entretanto em roda como de se um sem numero de entusiastas e adoradores sempre que exercitava o seu divino privilegio. Por isso, quando rapariga se encaminhou para o lugar que Lourenço deixara desocupado, surdo rumor, indicio da curiosidade, se fez ouvir em todos os cantos do casebre. Seguiu-se-lhe porém logo profundo silencio.
Eis os versos que a matutinha cantou por entre aplausos repetidos e frenéticos:
Benzinho, quando te fores,
Escreve-me do caminho;
Se não achares papel,
Nas asas de um passarinho.
Assim, assim, Bernardina - disseram três ou quatro convivas, enfeitiçados do desembaraço, já conhecido, da filha do dono da casa.
A rapariga, requebrando-se senhorilmente, prosseguiu relanceando os olhos para o namorado, que a esse tempo, já tinha desamparado o terreiro e encostado a um canto o clavinote:
Da boca faze o tinteiro,
Da língua pena aparada,
Dos dentes letra miúda,
Dos olhos carta fechada.
Oh, que rapariga candeia! exclamou o Ignacio Macambira, sem poder conter o entusiasmo, acrescentado pela cana.
Bernardina prosseguiu:
Manjericão verde cheira,
Ele seco cheira mais;
Mulher que se fia em homem
Anda sempre dando ais.
Eu de cá e tu de lá,
Fica um rio de permeio;
Tu de lá dás um suspiro,
Eu de cá suspiro e meio.
Meu coração é de vidro,
Feito de mil travações:
Com qualquer coisa se quebra,
Não atura ingratidões.
Longo tempo levou Bernardina a cantar, ora variando, ora repetindo as letras ao paladar dos circunstantes.
No mais aceso do samba, quando não só se ouviam os sons das violas, mas também os ásperos rechinar das costas da faca sobre a botija segundo praticam em ajuntamentos tais; quando os aplausos se manifestavam por meio de gritos e gargalhadas estridentes; quando não se dançava só o cocô e o baiano, mas uma mistura de todas as danças populares com o acréscimo da fantasia de cada um, escaldada pelos vapores espirituosos; quando enfim era tudo algazarra, derriços pouco decentes, demonstrações menos dignas, apareceu um novo conviva no meio da multidão. Era Francisco, o qual, depois da entrega das cartas no engenho, viera em busca do filho, pelo motivo que adiante saberemos.
Não podia o matuto chegar mais oportunamente àquele ponto. No momento exatamente em que ele se fez ver por entre a matutada que enchia a salinha, sentiu Lourenço bater-lhe no ombro pesada mão, que o obrigou a voltar-se, a fim de saber quem era que lhe fazia tão estranho cumprimento. O rapaz reconheceu o Tunda-Cumbe.
Em poucas palavras poremos o leitor a par deste sujeito, que tão importante papel desempenhou na Guerra-dos-mascates. E para que o retrato venha com o cunho de severa autenticidade, preencheremos a nossa promessa trasladando aqui as próprias palavras em que um cronista pernambucano o descreveu para conhecimento da posteridade. < Este sujeito era um homem rústico e grosseiro, de idade já maior, que do reino de Portugal tinha há anos vindo para esta terra, trazendo da sua, por divisa, uma grande cutilada no rosto, ou para que a se não desconhecesse, ou para que por ela fosse conhecido; mas diziam que por usar do oficio de parteira, e para disfarçá-la de algum modo, conservava os seus bigodes, ou mustachos, em tempo que ninguém fazia caso deles. Buscando meios de poder acomodar-se, fez em Goiana assento de feitor, por seu salário em casa do sargento-mór Matias Vidal, a fim de no serviço dirigir os negros; mas estes, conspirando-se contra ele em certo dia, lhe deram uma pista de pancadas que na etiópica língua chamam Tunda, e o lugar onde lhe deram chama-se Cumbe. Como se fez o caso publico, por antonosia lhe chamavam o Tunda-Cumbe, e sendo por este nome de todos conhecido, como quem faz do sambenito gala, quis do modo como era apelidado, apelidar-se. Daí se foi para a freguesia da Várzea, e nela esteve com o mesmo exercício de feitor do Capitão Lourenço do Cunha Moreno, e depois tornou para Goiana, e se fez almocreve de peixe, indo, com uma besta, a buscá-lo pelas praias, e pelas portas dos moradores a vendê-lo: nesta ordem de vida se manteve até que sucedeu o levante do Recife, em que tomou parte, que veremos.
- Então, menino cantador, disse o Tunda-Cumbe a Lourenço, com entono e arrogância mais de quem agredia, do que perguntava - será certo que você está apaixonado pela Bernardina? Pois olhe, quero preveni-lo de uma coisa, para que depois não vá você chamar-se ao engano. Sabe muito bem que todas as semanas, da Sexta para o sábado, ando eu por estas bandas a vender o meu peixe.
- Sei, disse Lourenço, sem se alterar, com os olhos postos, como quem nisso tinha propósito, na funda cicatriz do Tunda-Cumbe não tão oculta pelo espesso bigode, que se não pudesse deixar ver.
- Pois fique sabendo mais que aquilo é tainha que eu tenho contado há de cair, mais dia, dentro do meu caçuá.
- Você refere-se a Bernardina?
- A ela mesma é que me estou referindo, sim, senhor.
Pois eu também quero dizer-lhe uma coisa. Eu com ela nada tenho. Se canto e gracejo com a rapariga, é porque tenho amizade na casa. Nela não tenho intenção de espécie nenhuma, porque, quando a gente não sente inclinação para uma mulher, por muito que ela se derrengue para a gente, não passa tudo isso de divertimento sem maldade. Mas como diz você que já conta com aquela tainha no seu caçuá, a coisa muda de figura.
- Menino - tornou o Tunda-Cumbe, você para Ter comigo esta linguagem, preciso fora primeiro que ou não estivesse no seu juízo, ou não me conhecesse devidamente. Saberá acaso com quem é que está falando?
- Sei muito bem que estou falando com seu Manoel Gonçalves Tunda-Cumbe.
Pois então veja d’ora em diante como anda. Depois não vá dizendo que Santo Antonio o enganou.
- Você é que parece estar enganado comigo, retorquiu-lhe Lourenço, sentindo faiscar-lhe já os olhos. Eu há muito tempo não faço uma das minhas, mas, em ocasião se oferecendo, não lhe hei de torcer a cara, e bem pode acontecer quem para ficar você melhor assinalado, lhe vá eu deixar no queixo direito o golpe que lhe falta para fazer parelha com o que lhe plantaram no outro queixo, quando você tinha o oficio de partejar na santa terrinha.
A violência desta represália deixou perplexo, e como espantado por momentos o Tunda-Cumbe, pouco habituado, não obstante a tunda sabida, a ouvir cara a cara tão pesadas reprimendas.
Não conhecia ele o Lourenço senão de o ver uma vez por outra almocrevando, e pensou que com a simples ameaça, sendo tão conhecido por seus feitos que, em abono da verdade, davam para um in-fólio, levaria logo o terror ao animo do rapaz. o seu desengano foi formal, ou como quem procurava recursos e força dentro em se mesmo, Tunda-Cumbe esteve um instante sem proferir palavra, dizendo porém mil coisas pelos olhos que não arredou de sobre a cara de Lourenço.
- Não embatuque por tão pouco, acrescentou este como em acrescentamento do pouco caso em que revelara ter o seu agressor. O que você disse está dito; não queira agora tornar atrás, que você seria mais desprezível do que a besta em que costuma vender o seu peixe velho e moído, se recuasse depois desta avançada. Agora, de que eu sou capaz de fazer o que prometi, você a seu tempo há de ter a prova. E para que fique logo conhecendo que eu não sou de caixas encoiradas e que aonde vou não mando, veja lá como me ponho já a derreter com a filha de seu Victorino, mesmo aqui nos seus bigodes.
Todo este dialogo, posto que faiscante e eriçado de perigos, não foi pressentido por nenhum dos circunstantes, a não ser por Francisco. Este mesmo o não teria testemunhado se não fora a circunstância especial que diremos. Ao chegar, talvez por fugir de ser convidado a cantar, se colocara por traz de umas esteiras, que tinham sido postas de pé em um dos cantos do casebre. Foi daí que tudo viu e ouviu sem ser visto, oculto pela concorrência.
Lourenço, se bem o disse, melhor fez. Logo que se lhe ofereceu ocasião, caiu no meio da roda. Fez o seu sapateado, deu meia dúzia de castanholas, atirou uma embigada na rapariga que lhe ficava mais perto, e foi colocar-se ao pé do violeiro, fronteiro à Bernardina, que ainda estava deliciando os sambistas com suas graciosas vozes.
Quando Bernardina conheceu que Lourenço tinha ido colocar-se ali para alternar com ela as cantigas, empalideceu, mas sorriu. O desafio lhe era agradável, posto que fosse mais forte do que ela o seu contendor. De seu natural vaidosa e leviana, nunca recusou demonstrações de apreço a Lourenço, embora tivesse o coração quase todo ocupado pela imagem de Saturnino.
Lourenço cantou este verso:
Boca de cravo da Índia,
Dentes de marfim dourado,
Quando meus olhos te viram,
Meu corpo fez um pecado.
Bernardina respondeu com est’outro:
Você vai prá sua terra,
Bem pudera me levar;
Prá saber que eu quero ir
Não carece perguntar.
Lourenço retorquiu:
Dei um nó na fita verde,
Dei-lhe a fita de presente;
Você fala, e não repara
Que estamos diante de gente.
Eis a resposta da rapariga:
Amores, quando te fores,
Antes de ir tira-me a vida,
Que eu não tenho coração
De ver a tua partida.
O desafio foi neste ponto interrompido por um rumor inesperado, idêntico ao que produz o arranco de onça por entre a folhagem. Não uma onça, mas o Tunda-Cumbe tinha atravessado de um salto, causa do rumor, a primeira ordem de pessoas que formavam o circulo, e achava-se ao pé de Lourenço, com a catana levantada contra o rapaz. Mas ainda bem não erguia o braço armado, quando um homem, saído, como ele, violentamente dentre os circunstantes, se interpunha entre o agressor e o agredido, tendo na mão fora da bainha a faca que trazia ao cós. O homem não era outro senão Francisco.
Cessaram imediatamente as vozes dos cantores e instrumentos, e todas as vistas e atenções concentraram-se no ponto do conflito.
- - Que ação é esta, seu Tunda-Cumbe? perguntou Francisco a Manoel Gonçalves. O que vosmecê fizer a meu filho, terá feito a mim mesmo. O que eu quero é que me digam o motivo deste barulho, disse Victorino apresentando-se.
É que este menino ainda não achou quem lhe desse o ensino de que precisa, respondeu Manoel Gonçalves.
- O que eu quero saber é o motivo do barulho, repetiu Victorino.
- Você o saberá quando for tempo. Palavra de Manoel Gonçalves Tunda-Cumbe.
Lourenço, que até então guardara silêncio, rugiu a meia voz:
Eu se não me for embora daqui, faço as todinhas e acabo ainda com muito sol. O sangue está a ferver-me.
Entretanto, o Tunda-Cumbe metera a catana na bainha, e Francisco tinha feito o mesmo com a faca.
Victorino virou-se para este ultimo, enquanto aquele se afastava dando a um e a outro a razão do seu procedimento; e a meia voz perguntou:
- Viu você o principio da briga, compadre? Se viu, conte-me a historia como foi.
Para dizer a verdade, eu não sei bem a causa da contenda. Mas parece-me que a Bernardina anda no meio. Tenha paciência, compadre, e perdoe o que lhe vou dizer. É preciso acabar com estes sambas em sua casa. Quem tem filhas, não abre as suas portas assim a Deus e ao mundo.
- Eu não convidei o Tunda-Cumbe para o meu divertimento. Se ele entrou aqui foi confiado em ser nosso freguês de peixe.
- Pois abra os olhos, que ele disse que a Bernardina é tainha que ainda há de cair no seu caçuá. E adeus, adeus. Vamos, Lourenço.
- Pois ele disse isto, meu compadre? Ele não conhece Victorino.
Quando Francisco chegou com o filho à porta do casebre, achou aí da banda de fora o Victorino, o Tunda-Cumbe e um pardo de Goiana que tinha o oficio de sapateiro. A este último dizia o Tunda-Cumbe as seguintes palavras:
- Diga a seu Antonio Coelho que fico entendido do recado, que me mandou por você e daqui a pouco lá estarei.
O pardo, por nome Lauriano, saiu, e o Victorino dirigiu-se nestes termos a Manoel Gonçalves:
Seu Tunda-Cumbe , eu quero dizer-lhe os meus sentimentos. A Bernardina é solteira, mas já tem noivo. Por isso escusa andar vosmecê a fazer desordens na casa alheia por causa dela.
- Eu bem sei donde partem estas historias e por saber donde elas partem é que as suas palavras me entram por um ouvido e me saem pelo outro. Se a Bernardina tiver de ser minha, não há de ser nem você nem seus parceiros que tenham forças para o impedir. Não seja tolo, Victorino.
Dizendo estas palavras, Manoel Gonçalves ganhou a besta de um salto e tomou a correr, a caminho de Goiana.
- Que lhe disse eu, compadre? Observou Francisco, que chegara ao lado de fora ainda a tempo de ouvir as últimas palavras do Tunda-Cumbe. Tome suas cautelas. Aquele malvado é traiçoeiro e está avezado a tirar moças solteiras da casa de seus pais.
- Ele poderá tirar alguma das minhas filhas; mas para fazer isso será preciso que primeiro me tenha morto e bem morto. Vou acabar já com esta festa.
Fosse, porém, que os espíritos estavam muito exaltados para atenderem às prudentes considerações do foreiro, fosse que Victorino não quis desagradar àqueles que lhe honravam a casa com sua presença, o samba ferveu até o amanhecer do dia, aos estouros intermitentes do bacamarte de Saturnino, e aos gritos de - Viva S. João - soltados pelos diferentes sambistas, alguns apenas alegres, outros inteiramente entregues ao espírito vertiginoso da cana.
Que razão teve Francisco para, apenas chegado da capital, ir em demanda do filho? Seria acaso para evitar que o rapaz se deixasse envolver em algum distúrbio como aconteceu? Seria para fazê-lo sair da desordem, segundo fez, no caso de já o achar colhido nas malhas dela?
A razão foi outra. Não temia Francisco os perigos do samba. Desde pequeno sentia paixão por este divertimento, de que fora ardente cultor na mocidade. Grande parte dos versos com que Lourenço deliciara os festeiros da casa de Victorino, ele os aprendera de Francisco, insigne cantador e repentista. A fama deste ultimo era tal que muitos dos matutos daquelas vizinhanças andavam espreitando a ocasião de ir Francisco ao Recife para fazerem com ele as suas viagens. É fácil a explicação deste procedimento.
Em sua companhia, as longas noites que tinham de curtir na travessa de muitas léguas de solidões quase inteiramente inabitadas, eram suavizados pelos formosos cantares do matuto. Que soberbos serões não tiveram eles, ao luar, as redes armadas debaixo das arvores, os cavalos pastando peiados em frente a pousada, a viola quebrando com seus sons deleitosos a mudez da noite, e Francisco enchendo o deserto com as inspirações de sua musa soberana e as harmonias de sua voz rica de ternura e de saudade!
Razão muito diferente teve o almocreve para procurar Lourenço.
As noticias da guerra, trazidas por ele da capital, eram de suma gravidade. Ele próprio tinha ouvido em Olinda contar-se muito caso triste. Aí soube o que projetavam os mascates e os nobres. Com seus próprios olhos testemunhou os aprestos para a guerra. Viu de perto a chama imensa que começara a incendiar a província. João da Cunha, lidas as cartas, fez-lhe varias indagações, e com ele os amigos presentes, sobre o quetinha visto e sabia. Combinadas as informações pessoais do morador com as noticias enviadas por Amador da Cunha, por André, e por outros, forçado lhe foi reconhecer que, atirado o facho da revolução aos quatro ventos, dentro em pouco prenderia fogo a vila de Goiana, para onde emissários particulares dos portugueses tinham sido adrede mandados, e na qual contavam eles parciais poderosos de meios e valorosos de animo.
Entre estes apontavam-se Antonio Coelho, sujeito de grandes espíritos; Jeronimo Paes dinheiroso marchante, não menos ardente do que o primeiro; Belchior Ferreira, rábula que, posto fosse filho da terra, bem como o meirinho Romão da Silva que dele recebia diariamente lições incendiarias, destinadas a decidir a gentalha do lugar a tomar o partido dos mercadores, fazia grandes entradas nos espíritos por falar em nome da liberdade do povo; Manoel Gaudencio, alfaiate pernóstico, patranheiro e ambicioso, que aspirava a melhorar de oficio com a descida dos nobres e a subida dos negociantes.
O principio, ou antes os interesses contrários aos que estes sujeitos, e outros de idênticos sentimentos e intuitos, sustentavam eram representados pelos cavalheiros que já apontamos, isto é, pelos senhores-de-engenho e pelas primeiras autoridades, assim civis, como militares da localidade.
Só uma vista curta não verá na guerra dos mascates, antes uma luta travada por dois grandes princípios, do que uma revolta filha de preconceitos ridículos e costumes atrasados. Certo concorreram não pouco para essa luta o costume e o capricho antigo, inflexíveis ambos; mas o seu papel nessa grande representação foi mais secundário do que principal. A parte essencial e verdadeiramente dramática da ação, essa pertencia a dois grandes interesses, assim das sociedades modernas, como das antigas - ao comercio e a agricultura, princípios que, quando acordes em seu desenvolvimento, trazem a properidade e riqueza dos povos, e, quando divergentes, o seu atraso senão o seu aniquilamento.
As cartas de que Francisco foi portador, em substancia rezavam:
Que a guerra, declarada pelos forasteiros contra os pernambucanos e o governo legal, e já em principio de execução, prometia ser de vida e morte, atentos os meios de que dispunham aqueles, e o empenho em que se mostravam de aniquilar estes;
Que esses meios, eram imensos e consistiam não só em viveres acumulados durante os seis meses últimos nos armazéns do Recife, mas também em grossas quantias com que eles habilitavam os seus confidentes nas localidades mais importantes a propagar e alentar a premeditada hostilidade;
Que esta hostilidade era tanto mais digna de temer-se quanto a patrocinavam, dando toda a força que podiam aos negociantes do Recife, o governador Caldas, da Baia, onde estava, e até alguns fidalgos portugueses, por exemplo d. Francisco de Souza e seu filho d. João de Souza, que se achavam então no sul da província;
À influencia destes dois fidalgos já deviam os mascates a forte cooperação do coronel dos índios do Cabo, d. Sebastião Pinheiro Camarão, parente do grande Camarão, que tanto brilhara na guerra holandesa. D. Sebastião Pinheiro deixara seduzir-se por eles, bem como outros importantes moradores da freguesia do Cabo;
Que tinha Amador da Cunha (irmão de João da Cunha) recebido ordem do capitão-mór de Jaboatão para ir com sua gente por certo ao Recife, segundo o acordo havido com os capitães-móres de Maranguape, Iguarassú, Várzea, Santo-Antão, São-Lourenço, Nossa-Senhora-da-Luz, Ipojuca, Tracunhaem, Serinhaem e outras freguesias, afim de ver se conseguia que se rendessem os revoltosos;
Que a ele, Amador, se lhe afigurava, pelos obstáculos conhecidos ou calculados, terem os pernambucanos guerra para muitos anos, se Deus não conjurasse o medonho cataclismo que ameaçava devorar honras, fortunas e vidas.
Enfim, tanto as cartas de Amador, como as de André e outros, acordes em quase todos os pontos e noticias, respiravam sobressaltos, inquietações e até desanimo. Havia porém no meio das trevas, que traziam, um ponto luminoso, que em todos os corações projetou um raio de esperança. Era a noticia de que o bispo se tinha libertado, por uma pia fraude, do poder dos mercadores.
O ódio, a ira, o receio, a impaciência e outros diferentes sentimentos tiveram por minutos perplexo e mudo o senhor-de-engenho.
Quando estava para tomar parte nas reflexões que os outros, durante o seu silencio, iam fazendo sobre o objeto da correspondência lida, umas das senhoras que se achavam na sala imediata, apareceu à porta do aposento. Era a mulher de Matias Vidal.