- É então certo que os mascates se mostram fortes e insolentes? Perguntou ela ao sargento-mór.
- Quem vos disse tal, senhora d. Izabel? Retorquiu ele.
- As cartas que acabastes de ler, respondeu d. Damiana, aparecendo também. Daqui ouvimos toda a leitura.
- Infelizmente parece que vamos ter guerra para muito tempo.
- Que vos dizia eu ainda ontem, Matias? Disse d. Izabel, dirigindo-se ao marido.
- As guerras, observou Manoel de Lacerda, se trazem males, também trazem bens. Demos tempo ao tempo.
E levantando-se, encaminhou-se para a sala, aonde d. Damiana e d. Izabel retrocederam logo. Já aí estavam Cosme Bezerra e Filipe Cavalcanti, que a ele tinham precedido e conversavam com outras senhoras presentes.
- Estes mascotes não estão em si, dizia d. Maria Bezerra a seu marido. Não querem ver que não podem levar a melhor a nobreza da terra. Até os de Goiana, que não são muitos, hão de apresentar-se contra os nobres, disse o alcaide-mor.
Também os de Goiana? Inquiriu com incredulidade a mulher de João da Cunha. A senhora d. Damiana duvida que o façam? É porque ignora que os do Recife mandaram grossas quantias para cá comprar a gentalha que nos odeia. Antonio Coelho, do balcão de sua loja, que considera um trono, só tem para os nobres injurias e desprezos. Belchior Ferreira, de certo tempo a esta parte, monta guarda a horas certas todos os dias, em companhia de Romão, na botica do Rogoberto, e leva horas a dizer maldades e aleives contra os senhores de engenho.
Não admira, Tras sempre a imaginação excitada pelo vinho que lhe dá a beber Antonio Coelho, os olhos encandeados pelo ouro que lhe mostra, mas não lhe dá, Jeronimo Paes, disse Cosme Bezerra.
Tenha a senhora d. Izabel certeza de que dentro em pouco há de soar em Goiana o grito da rebelião. Quem sabe se a este momento não estão tramando nos esconderijos dos seus armazéns, Antonio Coelho com seus sequazes, a destruição de todos nós?
- Façam o que fizerem - observou a mulher do sargento-mór, Goiana não há de render-se a eles. Porque não há de render-se?
- Não sabemos todos que Goiana é invencível porque todas suas igrejas têm as frentes voltadas para dentro dela?
- É verdade - disse uma senhora, que até esse ponto assistira à conversação sem tomar parte nela.
- E d. Maria Bezerra acudiu em apoio da velha, confirmando o que dela ouvira. Abusões do povo, contestou Cosme.
- Os antigos já o diziam, replicou d. Maria e os antigos não diziam senão a verdade. Minha avó contava-me muitos casos de guerras, em que os que vinham a tomar Goiana ficavam destruídos ou presos nela, e nunca a puderam dominar. Os santos das igrejas olham pelos moradores. Vão lá contar destas historias a Antonio Coelho e a Jeronimo Paes, que hão de vê-los responder à crença do povo com risos mofadores. É porque eles são dois refinados hereges, disse a velhota. E como hereges hão de acabar. Quem for vivo há de ver. Talvez que nesta guerra mesma que eles preparam, venha o seu fim encoberto.
O crepitar das labaredas com que as fogueiras iluminavam todo o largo pátio do engenho; as detonações das armas de fogo que de todos os lados estavam indicando quanto o S. João é estimado pelo povo, fizeram enfim inclinar para a festa as atenções até então absorvidas nas tristes apreensões que o grave acontecimento suscitava.
Como se compreendessem a conveniência de auxiliar esta nova disposição dos espíritos, as escravas copeiras entraram nesse momento na sala, conduzindo bandejas com bolos e doces, de que começaram a servir-se os hospedes.
Dentro em pouco a conversação, ainda presa por uma ponta à guerra, espalhava-se pela outra em vários assuntos mais próximos e positivos. Praticou-se da abundância das chuvas, e do mal que tinham feito às canas e à roça; da escassez da farinha; da carestia da fazenda.
A razão porque a farinha não aparece no mercado, observou Manoel de Lacerda, é porque os mascates se atravessam e compram por atacado a que encontram. A razão do alto preço da fazenda é porque são eles os que a vendem.
Vai por estes dias à praça o engenho de Martins por execução que lhe move o Porto, disse Felipe Cavalcanti. Por um ano que Porto levou a suprir o engenho de Martins, fez-se credor deste em avultada quantia. Absorveu-lhe três ou quatro safras, e por fim, não contente com este resultado ainda, propôs-lhe ação em juízo e o obriga agora a dar o engenho a pagamento. Entretanto, observou Cosme Bezerra, Porto está rico. O açúcar, que recebia do Martins, em pagamento, a 400 réis a arroba, remetia a seus correspondentes na Europa à razão de 1$400.
- Só por este modo poderia ele abrir os dois importantes armazéns que estabeleceu no Beco-do-pavão, observou Jorge Cavalcanti.
- E que é feito de Martins? Perguntou um.
- Está pobre, e é hoje meu lavrador, respondeu Matias Vidal.
- E não havemos de pegar em armas contra os mascates! Exclamou Cosme Bezerra.
Foi neste ponto interrompida a conversação pela entrada de Francisco e de Lourenço. Vendo-os, o sargento-mór chamou-os ao gabinete onde minutos antes se celebrara em família a grave conferencia a que assistimos.
- Aqui está o rapaz, seu sargento-mór, disse Francisco, entrando no gabinete.
Estava impaciente pela tua volta. Dize-me cá. O rapaz poderá partir para a capital, ao nascer da lua?
- Quem? Eu? perguntou Lourenço.
- Tu mesmo, Lourenço.
- Posso partir já, assim o ordene vosmecê.
- Estás pronto de tudo?
- De tudo estou, porque nada tenho que aprontar.
- Se Francisco não tivesse chegado há pouco, ele é que havia de ir. A incumbência é de gravidade.
- E que tem que eu tivesse chegado há pouco? Perguntou o matuto.
- Estás cansado. Já não és menino para resistires a duas jornadas forçadas uma atrás da outra.
Perdoe-me vosmecê, seu sargento-mór. Muito me agrada fazer pessoa em meu filho. Mas se é somente por me supor cansado da viagem que o escolheu, dê preferência a mim, para ir à cidade, eu devo dizer a vosmecê que estou mais pronto do que ele para fazer a viagem. Faço de conta que tomei o rancho em Goiana, e que a minha parada é na Paraíba. Lourenço é digno de toda a confiança dos homens de bem. mas é ainda muito moço, tem viajado pouco por esses caminhos, e sem ele o querer, pode sair o seu serviço mal feito. Vosmecê entregue-me o que tinha para ele, que em menos de uma hora já estou no caminho de Olinda. Só peço licença para ir ao Cajueiro dar um adeus à minha velha.
- Pois vai. Quando voltares, receberás as minhas ordens.
- Senhor, sim.
Dentro de poucos minutos, pai e filho estavam no Cajueiro; e quando a luz apontava por cima da mata, já aquele se achava uma légua distante da vila, em direitura para a capital.
Lauriano tinha sua tenda na rua do Rosário, perto da loja de Antonio Coelho. Era, como quase todos os sapateiros, paroleiro, indagador da vida alheia, e por isso sabedor de muita particularidade e segredo intimo. Seus freqüentadores não tinham nem podiam ter para ele reservas.
Na dita tenda ajuntava-se o povo baixo da vila, que o vinho e o cobre do famoso mercador, por interesseira generosidade dele, faziam simpatizar com a causa dos mascates. Para esta gente estava ela nas mesmas condições que a botica do Rogoberto para o rábula, o meirinho e outros sujeitos de igual estofa. Era o club permanente da plebe. Aí se discutiam com veemência e largueza os negócios da amiga e da inimiga parcialidade. Não raras vezes, no estreito recinto desse singular parlamento, resolveram-se ofensas e defesas da máxima importância. O oficial de pedreiro, o servente de obras, o aprendiz e o oficial de outros ofícios, vinham deixar na tenda as noticias que colhiam nas ruas, e daí levavam as que os outros, seus iguais, tinham trazido para o ignóbil comercio em que eram práticos.
O Tunda-Cumbe fazia parte deste congresso ilícito. Então as repugnância reciprocas entre os portugueses e os homens de cor do país não estavam tão afirmadas como depois vieram a ficar. Eram adina de fresca data os grandes exemplos da fraternidade que em conjunturas gravíssimas ligara raças estrangeiras com raças e castas nacionais; aquelas representadas por João Fernandes Vieira e outros, estas por Filipe Camarão, Henrique Dias e tantos índios, mulatos e pretos que deixaram ilustres nomes esculpidos nas paginas da historia e glorificados pela tradição. Não é pois de admirar que, vendido o seu peixe na vila, fosse o Tunda-Cumbe, não por obrigação mas por devoção, tirar a ferrugem da língua na tenda do Lauriano, onde se reuniam outros mascates da sua laia.
Na antevéspera de S. João o Tunda-Cumbe tinha estado com o sapateiro e lhe havia dito que iria divertir-se à noite seguinte em casa do Victorino. Em conversa familiar já revelara tempos antes as suas inclinações por Bernardina.
<Em toda esta redondeza por onde ando, dissera o vendedor de peixes ao de sapatos, não conheço rapariga que tanto tenha bólido com o meu sentimento como a filha do Victorino.>
O tendeiro, que com os defeitos próprios da sua condição, trazia aliado o de instigador das ruins paixões, tantas coisas lhe meteu na cabeça que o mascate saiu dali cheio da falsa idéia de que ninguém melhor do que ele tinha direito à posse da rapariga. Àquela manhã, Antonio Coelho, passando pela porta de Lauriano, perguntara pelo Tunda-Cumbe. Respondera-lhe o tendeiro que lhe seria fácil encontrar-se com o peixeiro à noite em um ponto, que sabia; e, como farejou negocio importante, ofereceu-se para transmitir-lhe o recado que o mercador quisesse dar. Este contentou-se com lhe pedir que dissesse, de sua parte, ao Tunda-Cumbe, que viesse falar com ele impreterivelmente em sua casa àquela noite. Tunda-Cumbe, não obstante Ter grandes desejos de não deixar o samba senão depois de ausentes todos os convivas, correu sem demora à vila, calculando que de semelhante chamado só lhe poderiam provir vantagens, atento o estado das coisas na capital, do qual já tinham chegado as graves noticias à Goiana.
Os inimigos da nobreza, divertindo-se, como esta, ao menos aparentemente, e festejando com fogos enterrados à frente de suas casas, com reuniões, danças, comes e bebes a noite do precursor do Messias, projetavam também tenebrosas vinganças, seguindo, sem o saberem, os nobres, posto que o conjeturassem.
A morada de Coelho ficava por cima da própria loja. No vasto sobrado para isto destinado não faltava o luxo que caracteriza a vida de larguezas e deleites que o comercio dá e tira com a facilidade natural do jogo das operações mercantis. As extensas relações que tinha entre os agricultores, e a circunstancia de ser o negociante de mais nota do lugar pelos meios pecuniários de que dispunha, obriga-lo-iam a essa vida fastosa, quando certa ambição de figurar e o propósito de competir no lustre e grandeza com os primeiros fidalgos de Goiana não exigissem dele o tratamento luxuoso que sustentava. Até certo tempo atrás, fora visto com bons olhos por esses fidalgos. Mais de um deles lhe dera demonstrações de respeito e estima. Chegou-se a dizer que à influencia de alguns devia Coelho a nomeação de sargento-mór com que o distinguira el-rei. Fosse porque fazia de se grande conta; fosse porque lhe parecera tempo de firmar a sua posição ainda não de todo segura; fosse porque não pudera resistir às imposições do sentimento, deu Coelho um passo que, produzindo completa e radical mudança em sua vida, converteu em hostilidade e ódios contra se próprio as afeições e benevolências que tinham antes disso manifestado por ele os nobres da vila. Sabendo anos antes, que d. Damiana, pela qual sentia grande afeto, estava para ser dada em casamento a João da Cunha, antecipou-se ele e pediu-a para si. Foi-lhe peremptoriamente recusada; e não teve outra origem o eclipse da sua estrela, nem o ódio que cavou entre ele e o sargento-mór o abismo insondável que os separava. Ao principio sentiu-se Coelho como curvado debaixo do peso deste grande desastre; mas, por derradeiro, reacendendo-se-lhe a chama do forte animo, um momento apagada pelo sopro da tormenta, o negociante ergueu a cabeça, fixou vistas altivas em seu altivo inimigo, e assentou de lutar com ele e seus parentes e iguais, até que os vencesse ou caísse de todo exangue e morto. A esse tempo já se iam manifestando as rivalidades que trouxeram como resultado a guerra. Coelho, em vez de procurar dissipá-las, foi o primeiro que em Goiana as ateou e lhes deu vulto e desenvolvimento; de modo que, quando, pela criação da vila do Recife, elas definitivamente fizeram explosão, à frente dos mascates apareceu ele, sedento de vingança, tomando para se toda a responsabilidade e direção dos ódios insurgentes e tornando-se o alvo dos rancores da nobreza. Quando o Tunda-Cumbe apareceu na sala, achavam-se aí com o dono da casa Jeronimo Paes, o português Manoel Rodrigues (taberneiro), Belchior, Romão e outros. O assunto da conversação era a guerra, nem podia ser outro o que os reunisse então. Mas aqui não se manifestavam apreensões e temores, como no engenho, entre os nobres. Aqui se tinha por segura a vitoria, não obstante já se saber que o bispo se evadira e se achava exercitando o governo contra os mascates. - Que importa isso? Inquiria Jeronimo Paes. As fortalezas, os arsenais, a milícia de terra e a milícia naval, os homens bons do Recife e o povo são todos nossos. Em nossos armazéns temos gêneros acumulados para seis meses. Falava-se em que os mazombos tencionavam sitiar a vila. Estúpido plano é este. Que mal nos pode trazer semelhante sitio, quando temos livre o porto, por onde podemos comunicar-nos, não só com as outras capitanias, mas até com importantes localidades do litoral de Pernambuco?
- Hão de cansar-se eles primeiro de nos guardarem, que nós de estarmos guardados por semelhante modo - acrescentou um dos circunstantes. Dando com os olhos em Tunda-Cumbe, Antonio Coelho levantou-se e acenou-lhe com a mão que o acompanhasse ao aposento contíguo. Aí chegados, Coelho ofereceu ao peixeiro uma cadeira, e dando exemplo, disse-lhe:
- Senta-te, Manoel Gonçalves.
Este, a modo de admirado da intimidade que eqüivalia a uma honra, que ele estava longe de esperar, respondeu:
- Pode vosmecê dizer o que ordena. Ouvirei tão bem estando de pé, como se sentado estivera. Senta-te. O negocio exige pratica longa.
Tunda-Cumbe sentou-se.
Por todos os de Goiana era o Tunda-Cumbe havido por meio mercador e meio bandido. Ninguém ignorava suas relações com certos sujeitos de ruim fama, alguns dos quais se dizia serem associados ao peixeiro em criminosas negociações. Havia quem soubesse que no lugar denominado Sipó tinham eles um como rancho, onde celebravam seus conciliábulos.
- Mandei chamar-te, Manoel Gonçalves...
Aqui interrompeu Antonio Coelho, e um momento depois continuou:
Mas, antes de entrarmos no assunto, não será mau que desmanches um pedaço de bolo fresco e laves a guela com um copo de vinho puro e velho, que há dias me chegou do Porto.
Assim falando, Coelho apontava para a cômoda de cedro, onde se viam, em salvas de prata, bolos de S.João de diferentes tamanhos e formas, e em garrafas de cristal o vinho generoso a que aludira. Tenha paciência, seu Antonio Coelho, - respondeu o peixeiro. Acabo de chegar agora mesmo do divertimento em que estava, quando o Lauriano me deu o recado. Queira ter vosmecê a bondade de vir direitinho ao negocio, que eu fiquei de voltar ainda hoje ao dito divertimento, onde tenho uma grande empresa que executar, se para isso não me faltar o tempo.
- Que empresa é essa?
Quebrar os dentes a um pé-rapado, por não terem mordido a língua dele na ocasião de me dizer meia dúzia de liberdades que lhe hão de custar bem caro.
- Folgo em encontrar-te nestas boas disposições. Mas, para não dares passo em falso, trata primeiro de organizar as tuas forças. Não tens tu vários amigos com quem te podes ajuntar a qualquer hora que seja necessário?
Tunda-Cumbe, não sem dar mostras de confusão e hesitação, inclinou a cabeça como quem respondia afirmativamente.
- Pois bem, tornou o negociante. É da máxima conveniência que de hoje para amanhã reunas todos eles e à sua frente trates de hostilizar por todos os meios imagináveis, não só o pé-rapado a quem queres quebrar os dentes, mas tantos pés-rapados e mazombos quantos puderem cair em tuas mãos. Já deves saber o que resolveram os nossos patrícios e amigos do Recife...
- Tudo sei.
É de nossa honra e de nosso interesse que o grito que eles soltaram na vila, acha eco em todos os pontos importantes da província, especialmente em Goiana.
- E o governo está de nossa parte?
O governo! O governador, o legitimo, o verdadeiro governador de Pernambuco, Sebastião de Castro Caldas, este está conosco. D. Manoel é simplesmente o governador da rebeldia. Deu força aos insurgentes, e está exercendo atribuições que lhe não competem. Os que o sustentam e por eles são sustentados, tão criminosos são como ele. opuseram-se à criação da vila, o que quer dizer que se opuseram à vontade e à ordem de el-rei; tentaram contra a vida do legitimo governador, e o obrigaram a refugiar-se na Baia para escapar à morte; na ausência dele, tomaram conta do poder tumultuaria e revolucionariamente; o bispo por infame covardia ou por indigna conivência, assumiu as rédeas do governo e expediu perdão aos rebeldes e assassinos. Devíamos nós, leais vassalos de el-rei, ter por justo e legal o infame perdão, quando as justiças do céu e da terra exigiam antes as cabeças dos rebeldes? Não, mil vezes não. Acumulamos viveres, ajuntamos dinheiro para que nos não faltasse nada na ocasião do desforço. Julgando os nossos amigos do Recife chegada esta ocasião, acabam de soltar o brado em favor da restauração da autoridade legal, vil e traiçoeiramente conspurcada pelos que se apelidam nobres, quando outra coisa não são senão rebeldes e sicários. Assim, todo leal português tem o dever de lançar mão das armas para derrubar o governo de d. Manoel e levantar novamente o de Castro Caldas. Em favor desta empresa patriótica e gloriosa é que te proponho reunas todos os amigos que puderes. O programa da luta é largo, mas resume-se nisto - destruir, seja por que meio for, qualquer força, qualquer bem, até a própria vida de todos os fidalgos de Pernambuco.
- Tudo de que precisares, a saber, dinheiro, viveres, apoio, proteção ilimitada para ti e para os teus, a fim de se preencher este plano salvador das nossas fortunas, das nossas vidas e do nome português, ser-te-há prontamente dado ou feito, contanto que a represália não fique nem por um instante retardada. Posso confiar em ti e nos teus, Manoel Gonçalves? Concluiu Antonio Coelho com gestos e expressão de quem estava de corpo e alma entregue a este pensamento e por levá-lo a efeito subiria a todas as eminências e desceria a todos os abismos.
Antonio Coelho era de boa estatura. Tinha os cabelos pretos e corridos, os olhos rasgados e úmidos. Espadaúdo e anafado, dir-se-ia que esse homem, uma vez sentado, não poderia levantar-se senão com auxilio de outrem. Nada entretanto encontraria mais a verdade. posto que maciço de formas, era pronto nos movimentos. Sua agilidade tinha o quer que fosse da eletricidade. Em seu semblante estavam esparzidos os toques de uma expressão particular que o tornavam atrativo. Usava a palavra com veemência e mobilidade que interpretavam brilhantemente os caprichosos raptos e oscilações de seu espirito, umas vezes lento e tardo nas operações, outras franco e arrebatado até a inconveniência e a temeridade.
- Há então viveres e dinheiro bastante para serem distribuídos pela gente que eu ajuntar? Inquiriu o peixeiro, como quem não queria ainda acreditar na formal promessa que acabava de fazer-lhe o negociante.
- Há tudo de que precisares para as mais arriscadas e custosas arremetidas contra a nobreza, disse a com segurança Antonio Coelho, qual se fizesse um juramento solene. Além disso, acrescentou como por demais, o saque entrará por muito na ordem dos meios de suprir qualquer falta que se não tenha podido prever.
- Eu quero ser franco a vosmecê. Tenho já comigo, não de hoje, mas de há muito, vinte camaradas valentes e decididos. Se me autoriza a aumentar o número, dentro de pouco tempo terei uma companhia organizada. Autorizo-te a organizares um batalhão. Pagarei a todos o soldo, e a ti aquele que costumam vencer os coronéis.
- Muito bem, respondeu o Tunda-Cumbe. Pode contar comigo. De hoje a oito dias teremos gente para tomar Goiana.
- - Trata-se, não de tomar Goiana, que nossa é, mas de ir em socorro dos nossos amigos do Recife, que estão ameaçados de um rigoroso sitio, posto pelos rebeldes de Olinda e das vilas mais próximas. Pois sim; é para o que quiser. Sou pau para toda obra.
- Fica pois assentado que de hoje em diante andaremos de acordo nesta grande obra. Sim, senhor. Está decidido.
- Em cado de necessidade, por quem poderia mandar chamar-te?
- Por Lauriano.
- Podemos confiar nele?
É um negro interesseiro, que odeia muito os nobres, porque de um deles foi escravo e provou muito bacalhão. Ele sabe onde há de procurar-me, nos dias em que não costumo vir à vila.
Antonio Coelho deu algumas ordens ao peixeiro, assaz agradáveis para este, por serem acompanhados de algumas moedas de prata.
Metido o dinheiro na algibeira do gibão velho que trazia, o Tunda-Cumbe retirou-se, levando consigo a convicção de que desde o momento em que fora autorizado a acrescentear o seu séquito, era ele tão poderoso chefe senão mais do que o próprio que a isso o autorizara.
Nos primeiros dias de julho, em lugar dos vinte malfeitores que dantes trazia mais ou menos ligados consigo, contava o Tunda-Cumbe numero superior a duzentos; e por tal forma lhes havia imposto a sua autoridade, que a seu grado os dirigia e movia tão bem como se foram puros autômatos.
Os insultos, as arrogancias, os furtos de cavalo, os roubos, as atrocidades de toda espécie começaram então a aumentar de modo assustador. Hoje, era a casa de um foreiro assaltada, amanhã, era um negro do engenho castigado cruelmente porque se tinha oposto a que tirassem a cana, a macaxeira, a galinha, a ovelha, que eles por fim sempre tiravam.
Para a família do pobre não houve mais respeito nem segurança. Mulheres honestas e recolhidas, moças solteiras que viviam honradamente sovre se ou em casa de seus pais eram raptadas sem o menor escrúpulo, e iam contra a vontade delas, os olhos arrasados de lagrimas, cevar a brutal concupiscência de assassinos e ladrões, que, confiando na impunidade prometida para eles por seus protetores, as deixavam ao desamparo, nos braços da devassidão, ou entre as unhas felinas da miséria, depois de saciadas suas paixões reprovadas e vis.
Constituiu-se assim o Tunda-Cumbe dentro em pouco tempo o terror de todo o norte de Pernambuco, porque para suas correrias ele não escolhia lugares nem conhecia limites; e publicar o seu nome montava publicar, não já o nome de vinte ou duzentos facinorosos, mas o de quinhentos, afeitos a desrespeitar os homens sérios, a roubar a honra das famílias fracas e a fazenda do proprietário pacifico, a matar o matuto que lhes resistia, a destruir e aniquilar homens e coisas.
Pelo mesmo tempo outro caudilho truculento começou a representar no sul as mesmas tradições de saque, sangue e morte que celebrizaram tão tristemente o Tunda-Cumbe. Era o índio Sebastião Camarão, de quem se dizia que recebera três mil cruzados dos mascates para ser por eles, com seu séquito na guerra que se acendera. Este séquito, composto em sua maior parte de homens que tinham dado inteiramente as costas à honra, à moral, à lei e a Deus, chegou a ser muito numeroso e a contar quase o dobro do outro bandido. Os maiores criminosos do sul faziam parte dele, razão porque nos lugares por onde passavam, nenhum principio ou interesse venerável ficava sem receber deles as mais graves violações e ofensas.
De todos os senhores-de-engenho das cercanias de Goiana, o que servia de alvo ao ódio mais apurado do Tunda-Cumbe era Matias Vidal de Negreiros. A razão é obvia.
Durante o seu almocrevar, quando sucedia passar, não por fazer negocio, mas por encurtar distancias ou evitar grandes atoleiros ou rios cheios, pelo engenho de Matias, fazia o Tunda-Cumbe, rosnando como cão irritado, esta acerba jura:
Hei de vingar-me algum dia neste vilão ruim do que me fizeram seus negros. O dia pareceu-lhe ter chegado duas semanas depois da conferencia que tivera com Antonio Coelho, e para lá se encaminhou com cerca de sessenta dos seus valentões no intuito de tomar a desforra longamente premeditada.
Quando chegou a Itambé seria meia-noite. Fazia brando luar. Tendo sido muito abundantes as chuvas aquele ano, o mato fechara consideravelmente e quase tomara os cinco ou seis caminhos que iam ter na casa. Tunda-Cumbe dividiu a gente em partidas iguais, cada uma das quais tomou a direção conveniente pelo caminho que lhe incumbiu percorrer. A casa não poderia resistir a sessenta homens, que simultaneamente a atacassem por todos os lados; mas não surtiu o plano o menor efeito, porque antes de chegados os atacantes ao ponto, diferentes tiros, partidos de dentro dos matos e canaviais lançaram susto e pavor no animo daqueles que tomavam da surpresa ou emboscada a sua principal valentia. Tunda-Cumbe, receoso de forças que não conhecia, ordenou a retirada.
Foi o caso que tendo Matias Vidal negros e moradores de sua confiança, devidamente espalhados por dentro do mato, e empregados em vigiar durante a noite os caminhos, por sinais assentados antes tinham estes vigias dado aviso da aproximação do bando aos outros negros e moradores, que correram sem demora a impedir o passo aos assaltantes. De há muito suspeitava Matias que o Tunda-Cumbe, em oferecendo-se ocasião oportuna, não deixaria para mais tarde a sua desforra. Todavia, não estaria preparado para frustrar tão facilmente este ataque inopinado, se outra razão o não determinasse a ter prontos meios de debelar qualquer agressão, por forte e súbita que fosse. É a razão que diremos. Assentado ficara entre os nobres em casa de João da Cunha, antes de dissolvido o ajuntamento aí celebrado na noite de S.João, que, não obstante dever-se esperar, para resolução definitiva, por noticias e indicações formais das autoridades e amigos da capital, prudente era que cada um dos proprietários presentes tratasse de organizar sem perda de tempo terços defensivos, com seus moradores e escravos. Dado este importante passo, era fácil dentro em pouco tempo, no caso de necessidade, mobilizar-se em Goiana uma grande massa de gente, que acudisse ao primeiro reclamo da capital, quer para engrossar o cerco, se esta fosse a idéia predominante, quer para tomar de assalto o Recife e destruir o governo constituído pelos mascates dentro nesta vila. Se não fossem reclamados socorros, nem por isso se perderia o que estivesse feito, visto que, devendo-se ter por mais que provável que a reação se generalizasse mais dia menos dia, ter cada um dos senhores-de-engenho junto de se seu contingente, era o mesmo que estar defendido em sua família e propriedade. A demonstração pratica da excelência e sabedoria deste acordo, foi Matias Vidal o primeiro que a teve, pelo que fica escrito.
Esta lição, porém, longe de encurtar, posto que fosse incruenta, os arrojos do chefe dos bandoleiros, o incitou a investida ainda mais grave.
O dia seguinte sendo Domingo, apresentou-se ele muito cedo na vila, deliberado a praticar qualquer distúrbio, que, produzindo escândalo, para logo desse lugar a que seu nome soasse como o de um diligente e fiel servidor dos mascates, tanto em Goiana, testemunha do insulto, como no Recife, aonde logo havia de chegar a noticia dele.
Estava-se em 3 de julho. Os espíritos achavam-se por extremo excitados. Os parciais da nobreza, animados por saberem que tinha ela por se o governador, já restituído a sua liberdade, não perdiam ensejo de exaltar a sua força e ostentar o poder que dá a autoridade. Os parciais dos mascates não faziam por menos, publicando que sem dinheiro comprariam os mais nobres da terra, inventando inumeráveis relações de comunidade entre os rebeldes proeminentes e o governador geral do Brasil, d. Francisco de Souza, seu filho, e outros importantes vultos da Baia e de Portugal.
Varias eram as pessoas que na botica do Rogoberto matavam o tempo enquanto o sino da matriz não vibrava a Segunda chamada para a missa conventual. Entre essas pessoas apontavam-se Jeronimo Paes e Belchior. Serviam de assunto as ultimas noticias chegadas do Recife. Eis a substancia de tais noticias. D. Manoel, logo que se achou de novo de posse da autoridade, mandou publicar na vila o edital pelo qual eram intimados os oficiais da milícia e os demais moradores que estavam em armas a retirar-se das fortalezas com as respectivas guarnições, a fim de entrarem os povos no sossego do costume, sob pena de serem havidos por traidores e inimigos da paz, e ficarem por isso sujeitos ao rigor das leis. Não tendo querido, porém, os revoltosos aceitar estes avisos, e devendo-se por isso dar começo a procidencias mais enérgicas, para as quais, por ser de paz e perdão o seu ministério, não se julgava o mais próprio, resolveu encarregar do governo militar o ouvidor geral, dr. Luiz de Valenzuela Ortiz, o mestre de campo Christovão de Mendonça Arraez e o senado da câmara de Olinda, que se compunha do coronel Domingos Bezerra Monteiro, capitão Antonio Bezerra Cavalcanti e tenente Estevão Soares de Aragão.
O procedimento do prelado era considerado como covardia no congresso da botica. Belchior, para dar mais autoridade a este juízo, recordava diferentes circunstancias passadas, a saber, a partida de d. Manoel para a Paraíba quando desfecharam o tiro no governador Caldas; o ter-se deixado prender pelos mercadores no dia 18 do mês anterior; e outras circunstancias que não são para o nosso caso. O bispo não é mais do que um vilão ruim, um desprezível instrumento dos Cavalcantis que querem ter sempre curvados a seus pés, como têm os negros dos seus engenhos, os povos de Pernambuco. Os mascates não precisam dele para castigarem a soberba e arrogância dessa nobreza de meia tigela, que o que traz limpo em seu sangue deve a esses mesmos mascates; porque o que daí não procede, é cor da noite de África ou cor do fogo das aldeias.
Palavras não eram ditas quando um filho de Jorge Cavalcant, que vinha montado em fogoso ginete, chegando-se à porta da botica assim retorquiu, montado como estava, a Belchior com o calor e a imprudência dos primeiros anos:
- Vilões ruins são aqueles brasileiros desnaturados que se vendem ao ouro ou rendem às lábias dos estrangeiros, cujo sentimento não é outro que o de revolverem a terra onde encontraram hospedagem. Esses, sim, são os mais infames vilões que pisam na terra de Camarão e de Henrique Dias. Sua baixeza não se compara nem mesmo com a dos que mordem a mão que deveriam beijar.
Replicou-lhe Belchior com quatro pedras na mão; o filho de Jorge treplicou, já com mostras de quem queria usar o chicote que trazia. Quando o gesto indicou a intenção, quase todos os que estavam na botica, tomaram o partido de Belchior, mas não tardou que varias pessoas das vizinhanças e da rua vieram em socorro do outro contendor.
Estavam justamente as coisas neste ponto, quando apareceu o chefe dos bandoleiros. Ao gibão surrado, aos calções em diferentes partes serzidos e aos sapatões grosseiros com que costumava andar, tinham-se substituído casaca e calções de veludo e sapatos de entrada baixa com fivelas. Trazia pendente um espadim que parecia novo, como o chapéu de pluma e a roupa. Naqueles tempos já o habito fazia o monge. Tanto que o Tunda-Cumbe se apresentou vestido com este apuro e galhardia, não foi preciso mais para que todos logo conjeturassem que grande transformação se operara na vida do ex-peixeiro, e já alguns lhe tirassem o chapéu, como demonstração de respeitosa cortesia. Tal houve que se afastou para que ele tivesse livre acesso ao ponto central do conflito. Muitos dos circunstantes explicaram esta atenção, atribuindo-a a vir ele acompanhado de dez a doze valentões conhecidos, pouco tempo antes seus companheiros, agora seus guarda-costas.
- Donde vem esta grandeza e este poderio a Tunda-Cumbe, que ainda não há um mês vendia bodiões e amorés pelas portas? perguntou a meia voz um parcial dos nobres.
Respondeu-lhe no mesmo diapasão o companheiro:
- Dizem que tem ordem franca dos mascates para ajuntar gente, e do Recife lhe prometem a patente de coronel em paga dos serviços, já vendidos a eles por bom dinheiro.
Entretanto o Tunda-Cumbe chegara ao ponto onde se dera o veemente bate-barbas. Achou somente aí o Belchior. O filho do Jorge Cavalcanti tinha tomado já a direção da matriz, e com pouco descavalgava e entrava.
Entendendo Tunda-Cumbe que não devia perder aquela ocasião de dar a mostra do pano, puxou do espadim e assentou-o de chapa sobre as costas de um sujeito que no canto da rua mais publica da vila exaltava a causa da nobreza e desfazia na reação dos mercadores. Não foi preciso mais para que se desse novo conflito, que dentro de alguns minutos redundou em serio motim. Houve muitas contusões, muitos ferimentos, muito sangue inutilmente derramado. Estando ainda nas mãos da nobreza a autoridade e a força publica, pode-se dominar no fim de algum tempo a assuada. O nome, porém, de Tunda-Cumbe e os dos bandoleiros mais violentos que com ele percorreram as ruas, espancando e ferindo os adversários que encontraram desprevenidos e inermes, esses nomes, especialmente o de Manoel Gonçalves, começaram desde esse momento a voar nas asas da fama, e poucos dias depois designaram celebridades que todos entraram a respeitar e temer.
Uma semana depois, Goiana foi testemunha de novas cenas, mais graves do que as primeiras, as quais chegaram a durar três dias.
Por ordem de João da Maia da Gama, capitão-mór da Paraíba, tão dedicado aos mascates que pelo senado da câmara de Olinda foi apelidado em oficio de 26 de junho de 1711 - a pedra fundamental em que os do Recife se levantaram e formaram o quimérico edifício e fabrica do industrioso levantamento - , veio Luiz Soares reunir-se com o Tunda-Cumbe a fim de irem ao Recife com sua gente passante de oitocentos homens, levantar o cerco.
Achavam-se entre os da Paraíba, não só Joaquim de Almeida, espirito por assim escrevermos, inspirador do capitão-mór João da Maia, mas também Pedro de Melo, um dos instrumentos da revolta sustentados pelo Almeida. Tendo esta por base, para tornar uniforme o movimento, dar Goiana como unida à Paraíba, veio desta Pedro de Melo eleito capitão-mór daquela. Feita a junção em Pedras-de-fogo, tomam posse com ele em Goiana os oficiais da nova câmara, distribuem-se lugares aos mais esforçados cabos da rebelião, constitui-se enfim o governo da vila independente do de Pernambuco. Pedro de Melo entra no exercício do seu lugar com toda a solenidade do estilo. Sai da igreja do Carmo para a casa da câmara debaixo do palio, acompanhado dos camaristas, tão legítimos como ele, e dos frades carmelitas, executores das ordens dos da recoleta do Recife. A vila, achando-se desguarnecida de força militar, visto que a que havia tinha ido atacar o rancho do Sipó, no pressuposto de surpreender aí o Tunda-Cumbe, viu-se obrigada a aceitar este desatino quase a portas fechadas. E o intruso e ilegítimo governo se consolidaria talvez, sustentado por Maia, se logo depois da sua posse, em 14 de julho, não tivesse chegado a guarnição incumbida da diligencia e ao mesmo tempo as forças legais mandadas de Olinda para impedir que seguissem os revoltosos e dissolver o governo intruso. Estas forças vinham comandadas pelo ajudante Bernardo de Alemão e Mendonça, o qual se unira com o capitão Bento Bezerra de Menezes, que comandava a companhia de Araripe, e com o ajudante Felipe Bandeira de Melo e os que com ele estavam na ilha de Itamaracá. Posto que não eram numerosos, tendo feito junção com a guarnição da vila, puderam por em violento e vergonhoso regresso todos os revoltosos Paraibanos.
No intuito de deixarem inteiramente serenados os espíritos dos pacíficos habitantes e restabelecida a ordem em Goiana, fixaram-se essas forças no engenho do capitão Bento Correa de Lima, que ficava à vista da vila, e onde estiveram por muitos dias.
O Tunda-Cumbe, sagaz e prevenido, tinha-se retirado com os seus ao valhacouto do Sipó, logo depois de constituído o governo que teve tão efêmera existência, o que não concorreu pouco para o aumento dos créditos da sua manha e penetração.
Antes de chegar à Goiana, praticou em Pedras-de-fogo o bando que viera da Paraíba, capitaneado por Luiz Soares, uma infame tragédia.
Essa povoação, da qual, por efeito de nossa viciosa divisão territorial, uma parte pertence à província da Paraíba, e a outra parte a Pernambuco, já naquele tempo representava certo espírito de resistência ao elemento estrangeiro, que depois da referida tragédia se acentuou e manteve até bem pouco tempo, segundo direi.
A principal família de Pedras-de-fogo em 1711 não se caracterizava por clara linhagem nem por haveres, mas pelo numero de seus membros, pelo espirito de trabalho de cada um, pela harmonia que os trazia unidos uns aos outros, e pela valentia que de qualquer deles fazia um leão.
Manoel do O’, sujeito tirante a pardo, natural de Nossa-Senhora-do-ó fora ainda muito novo estabelecer-se com sua tenda de alfaiate em Pedras-de-fogo.
Esse lugar, que ainda hoje não é notável senão por sua grande feira de gados, a qual aí se faz semanalmente, por então começava apenas a povoar-se. poder-se-ia compor de quinze a vinte casinhas, em sua maior parte cobertas de palha.
O alfaiate casou-se com a filha de um mulato por nome José da Luz, que tinha na Rua-da-feira a casa de morada e defronte desta a tenda de ourives. A união foi fecunda, cada ano nascia a Manoel do Ó um filho; de tal sorte foram as coisas, que em 1710 a sua descendência se compunha de dez filhos e vinte e dois netos. Alguns destes já taludos.
Não havia nenhum que não tivesse seu meio de vida. Alguns não o tinham muito decente e legitimo; não há família numerosa em que se não aponte qualquer lepra. Em sua maioria, porém, eram os descendentes varões de Manoel do Ó de regular procedimento e muito benquistos no lugar.
Posto que, como meio de levantar a gentalha a seu favor, os mascates fizeram publicar que a sua causa era a da liberdade e da igualdade do povo contra a tirania constituída e os privilégios antigos da nobreza, meio a que deveram a maior parte dos auxílios dos naturais da terra, Manoel do Ó, que não era tolo, convidado por Maia a aderir aos motins, escusou-se, dizendo que nada tinha nem com os nobres, nem com os mascates, visto que era ele, como todos os seus, mecânico, plebeu e homem de cor.
Tanto bastou para excitar o desagrado dos insurgentes, dos quais foram, dentro em pouco, tão positivas e repetidas as hostilidades e arrogancias contra Manoel do Ó, que, ofendido este, ao principio simplesmente no seu melindre de família, e por derradeiro na própria pessoa de um filho, certo dia, de um genro daí a pouco, e de um neto semanas depois, resolveu declarar-se pela causa dos nobres; e uma das tentativas de Maia para fazer junção em Goianinha com o bando do Tunda-Cumbe, a fim de se dirigirem ao Recife, foi frustrada por Manoel com sua companhia de filhos, mais ou menos ligados com ele por laços particulares. Foi tão forte e acertada a oposição, que a força mandada por Maia não pode passar sequer os limites da Paraíba.
Não foi só esta a única tentativa de junção malograda; nenhuma houve de 11 de julho para traz que surtisse efeito. Manoel do Ó achava-se diante de todas com sua gente como barreira intransponível e fatal.
Estas e outras idênticas contrariedades exacerbaram por tal forma o capitão-mór da Paraíba que este assentou de queimar o ultimo cartuxo para as fazer cessar de todo.
- Diga a esse negro Manoel do Ó, assim se exprimia ele uma vez a certo sujeito que tinha relações com o alfaiate, que muito breve lhe hei de provar que O é o mesmo que zero; e a seus filhos José da Luz e Antonio da Luz, diga igualmente que hei de mandar apagar as luzes de sebo de Pedras-de-fogo pelo meu escravo Euzebio, com tiros de bacamarte.
Dito e feito. Em 10 de julho, quando menos se esperava no povoado, rompeu o fogo para as bandas da Baixinha, lugar de Pedras-de-fogo que pertence à Paraíba. Tinham sido dados os tiros pela gente de Luiz Soares contra uns sobrinhos do alfaiate que moravam desse lado.
Manoel do Ó, que não obstante a sua avançada idade tinha ainda grandes espíritos e não perdia de vista os passos de Maia, saiu logo com sua gente; e pois na véspera de noite seu filho Anacleto do Espirito-Santo, que chegara do Limoeiro, aonde tinha ido a destrocar uns cavalos, lhe dissera ter visto aí o Tunda-Cumbe, não pensou em proteger a retaguarda, até porque, sendo muito numeroso o concurso dos agressores, toda a gente viu-se obrigada a empenhar-se em lhe fazer frente.