Este foi o seu mal, porque momentos depois teve a retaguarda atacada por forças não menos numerosas que as de Luiz Soares. Foi o caso que, tendo-se entendido Maia previamente por carta com Antonio Coelho e concertado com ele o ataque ao obstáculo comum, não se fizera esperar do lado de Goiana o reforço do Tunda-Cumbe.
Vendo-se entre dois fogos o povo de Manoel do Ó, não houve esforço que não empregasse para romper qualquer dos lados, nem atos de bravura que não praticasse, a fim de levar a melhor aos agressores. Tudo porém foi debalde. Trinta homens não podiam triunfar de oitocentos.
A cabo de uma hora de peleja que não se pode descrever, Manoel com quase todos seus parentes estavam destroçados e vencidos. Restavam unicamente da família as mulheres, dois filhos e três sobrinhos, que lograram escapar-se quando reconheceram que a sorte das armas lhes era adversa. Estes, para não perderem a vida, ganharam o mato.
Não se podem imaginar as atrocidades que, vendo-se senhores do campo, cometeram na povoação, desamparada no mais aceso da luta, os bandoleiros desenfreados e sedentos.
Refugiaram-se no mato os homens feridos e as mulheres chorosas e consternadas que constituíam os últimos restos da parentela de Manoel do Ó. Aí o seu ódio cresceu e radicou-se profundamente no coração de cada um dos foragidos. Exagerados em seus desejos de desagravar-se, juraram na solidão da selva, testemunha da sua adversidade e depositaria dos seus prantos, que se pudessem voltar com vida a Pedras-de-fogo, como lei de sua honra, não consentiriam jamais que nenhum português se demorasse mais de vinte e quatro horas na povoação fundada pela ilustre vitima cuja memória eles deste modo queriam honrar. Julgavam, jurando preencher esta promessa solene, que cumpriam um preceito de alta justiça. Não era porém outro sentimento o deles, assim prometendo, que o sentimento da vingança pessoal, sempre cego e injusto.
Transmitindo-se de pai a filho, de filho a neto, nem foi esquecida a tradição do morticínio nem ficou sem preenchimento a promessa feita entre prantos e angustias há mais de um século.
Não há no que aí fica relatado, invenção de romancista. Até bem pouco tempo, logo que chegava qualquer filho de Portugal a Pedras-de-fogo, era intimado de ordinário por moradores pertencentes às primeiras famílias, para que dentro de poucas horas se retirasse.
Este exagero passou de todo. A civilização, polindo o brasileiro do interior, deixou-lhe inteiramente livres os movimentos de natural generosidade e brandura, que constituem a parte essencial de seu gênio.
Enquanto estas cenas e outras semelhantes se passavam em diferentes pontos do termo de Goiana, acertadas providencias eram dadas pelo governo da capital a fim de que elas não se reproduzissem.
Não sem razão inspirava aos nobres plena confiança o ajudante-de-tenente Francisco Gil Ribeiro. A galhardia e a bravura militar de Gil eram tradicionais, e constituíam um dos mais ricos e ilustres patrimônios da gloria pernambucana. Para descansar das fadigas da sua longa e trabalhosa vida, acolhera-se o ancião na sombra do lar domestico. Afetos brandos, inclinações respeitáveis, tinham-se substituído às violentas explosões da paixão guerreira. Estabelecera ele sua residência nas Salinas (hoje Santo-Amaro), à margem direita do Beberibe, entre cajueiros e sapotiseiros pitorescos. Daí o foi tirar o governo, para lhe entregar o comando da fortaleza de Itamaracá, ameaçada de cair no poder dos amotinados de Goiana. As noticias, porém, dos graves e sucessivos conflitos havidos nesta vila, determinaram o governo a ordenar que o ajudante-de-tenente, à frente de quarenta homens, e acompanhado dos alferes Carlos Teixeira e Francisco Alves, e do ajudante Felipe Bandeira de Melo, se dirigissem sem perda de tempo a pacificar aquela localidade.
Ao entrarem na estrada geral do norte, um matuto que passava do Recife, vendo a força, recuou o cavalo, para deixar livre o caminho. Parecendo suspeito a Gil este movimento de pura cortesia ou respeito, fez sinal a alguns soldados que segurassem o matuto. Este, porém, que não era outro que Francisco, adivinhando a intenção, pôs-se a respeitosa distancia, aos primeiros gestos dos soldados.
- Que idéia faz de mim, seu comandante? perguntou ele com serenidade. Pensará que sou pela mascataria? Pois se pensa, está malenganado.
Ouvindo estas palavras, Gil, com gesto imperioso e grave chamou o matuto para mais perto de si; e lhe disse:
- Quem foi que te ensinou este recado para me iludires?
- Não quero iludir ninguém.
Cuidado com esta gente, senhor ajudante, disse Felipe Bandeira a meia voz a Gil. Parecendo simplórios, são finos e manhosos.
- Mas quem lhe disse que eu sou pela mascataria? tornou Gil a Francisco.
Se é ou se não é, eu não posso jurar. Cá eu é que não sou nem serei por eles nem neste mundo nem no outro.
- Então, se eu tivesse necessidade de uma pessoa que me ensinasse os atalhos para chegar à vila sem ser pressentido pelos nobres, não me prestava você de boa vontade este serviço tão pequeno?
- Saberá vossa senhoria que nem de boa nem de má vontade eu lhe ensinava os caminhos da vila para este fim. Daqui mesmo destorcia para traz no meu castanho, porque para servir a tais indivíduos não há forças humanas que me obriguem, nem dinheiro que me compre.
- Grande ódio tem você à esses homens que só cuidam em viver do seu trabalho.
Eu cá sei em que eles cuidam. Querem enriquecer à nossa custa. Vendem a fazenda pela hora da morte, agora os gêneros da terra querem comprar por pouco mais que nada. Não fazem isto só com o pobre matuto, como eu; até os senhores-de-engenho gemem entre as unhas deles. O que não tem o olho vivo, quando dá acordo de se está com as terras, as canas, os negros de sua propriedade metidinhos todos dentro da gaveta do mascate, que faz os suprimentos e adiantamentos. Muito francos em fiarem são os tais mascates, quando vêm que a pessoa a quem fazem seus oferecimentos, tem bens de seus. Agora, quando a conta está bem aumentada, tomam tudo pela justiça, e ficam donos de casas, escravos e fazendas do dia para noite. Se isto é ser bom, o inimigo leve esta bondade para si, que eu não a quero nem de graça, quanto mais à custa do meu roçado, do meu cavalo e da minha casinha.
Tendo dito estas palavras, Francisco, chegou a espora que trazia no pé direito à barriga do castanho e virou para o Recife. Não pode, porém, avançar muitos passos, porque Gil, pondo as pernas à sua cavalgadura, tomou-lhe logo o caminho.
- Para onde vai? Venha cá. Estamos de acordo, e podemos ir juntos até Goiana. Você é muito desconfiado, camarada, disse em tom de quem gracejava.
- Não me fiz por minhas mãos, respondeu Francisco. Foi assim que nasci da barriga de minha mãe.
- Mas não tem que desconfiar de mim.
- Meu senhor, a gente vê cara e não vê coração. Eu sei lá se vosmecê vem contra os mascates ou pelos mascates...
- Pois você não está vendo a tropa?
- Que tem a tropa? Não podia ser deles?
- Então, você vem da capital e não sabe que eles estão cercados?
- Eu sei muito bem que eles estão cercados. Sou capaz de dizer até por quem.
- Diga lá.
Pois escute. Nas trincheiras levantadas junto do muro do S. Bento está a companhia do capitão Dionizio, e a dos Estudantes, comandada pelo capitão Antonio Tavares; nos presídios do Varadouro, Porto-dos-padres, Porto-das-lavadeiras, Carreira-dos-masombos e Tacaruna, estão o tenente José Tavares e o sargento-mór Domingos Freire; as forças de S.Amarinho, Campina-da-cerca, Curtume e Santo-André são comandadas pelo padre Paulo; na Conceição, Saco, Olaria e Arraial-da-boa-vista está o capitão Carlos Ferreira; na Barreta e no Arraial-dos-afogados está o comandante João de Barros.
- Bem informado anda você da distribuição das forças do governo.
- Se eu passei por todas elas, porque tive de ir a Jaboatão.
- Mas então porque é que duvida se somos pelos mascates ou pelos nobres? Inquiriu Felipe Bandeira.
- Porque duvido? Então os mascates também não tem tropas na vila? Eles não podiam mandar gente por mar do Recife para Itamaracá? Mas enfim, como vosmecês dizem que vêm por parte do governo, estou calado. Eu não duvido da palavra dos homens.
A esse tempo a tropa, que um instante estivera parada, seguia já o caminho de Goiana. Gil, Felipe Bandeira e os outros oficiais iam no couce. Francisco tinha metido o cavalo entre o de Felipe Bandeira e o de Gil.
Passado um momento, perguntou o ajudante-de-tenente ao matuto:
- Poderemos saber quem é você, camarada?
- Chamo-me Francisco dos Prazeres, e sou morador do engenho Bujari.
- A quem pertence esse engenho?
- A seu sargento-mór João da Cunha.
- Sei quem é.
Havemos de passar por dentro mesmo do engenho. Vou deixar vosmecês em Goiana, e volto ao Cajueiro, onde tenho minha família. Há mais de mês não sei dela, nem nova, nem mandado. Quem sabe o que não terá acontecido à minha mulher e a meu filho durante a minha ausência?
- Você vai encontrar todos em paz.
E se não encontrar, o Tunda-Cumbe é quem me há de pagar. Eu nunca matei ninguém. Trago uma faca de ponta aqui no cós para me defender. Mas se o diabo do pé-de-chumbo tiver feito alguma das suas a gente que me pertença, não pregarei olhos enquanto não lhe pregar primeiro a faca na barriga. Hei de tirar-lhe o couro como se faz aos bodes para secar e dele fazer suador do meu cavalo.
Quando chegaram ao engenho Itapirema, em cuja capela estivera oculto em outubro do ano anterior para escapar à prisão ordenada pelo governador Castro Caldas, o ouvidor de Olinda dr. José Inácio de Arouche, era quase noite. O rio tinha tomado muita água e estava de nado.
- Como há de ser isso agora? Perguntou Gil, pondo os olhos naquele mar d’água, que se estorcia por baixo de galerias de folhagens, estrepitoso e medonho. Para atravessarmos esta imensidade agora de noite, corremos o risco de perder algum companheiro. É entretanto necessário passarmos hoje mesmo da outra banda; porque, antes que a alva esclareça, devemos achar-nos na vila. Aliás poderemos chegar já fora de tempo.
- Eu já sei porque é esta pressa toda, disse Francisco.
- Porque é?
- É porque em Goiana se receia que da Paraíba passe a gente prometida aos mascates pelo capitão-mór. Eu de tudo sei, seu comandante.
- Mas então vê lá se nos dás remédio a isto.
Porque não havemos de passar já? respondeu Francisco, saltando do cavalo à beira do rio, onde a tropa fora obrigada a fazer alto. Há aqui um ponto onde o Itapirema dá vão. Mas está tudo encoberto e não se pode saber onde fica a trilha.
Quase meia hora gastou ele em procurar, sempre debalde, a oculta passagem. Com água, ora pela cintura, ora pelos peitos, ora pela boca, percorreu uma extensão de cerca de vinte braças ao longo da margem. De uma vez caiu dentro de um poço, de que só se salvou por ser forte nadador.
Estava já quase de todo escuro quando, exausto do muito lutar com o impetuoso elemento, que puxava com extrema velocidade lhe pareceu ter dado com o vão desejado, que ele próprio já perdera a esperança de achar.
Veio à terra, muniu-se de um facão, e atirou-se novamente a nado para o meio do rio. Distante da margem cerca de seis braças, um mulunguzeiro, cujo tronco o ímpeto da corrente retorcera e cuja folhagem redemoinhava açoitada pelos novelões revoltos, foi o ponto negro para onde se dirigiu o matuto. Em torno da arvore desacompanhada as águas fremiam vertiginosas, acusando de baixo delas abismo insondável.
- Eh, meu negro! Exclamou Francisco, dirigindo-se ao rio. Estás assobiando e gemendo? Não vês aqui o teu amigo, famanaz do Cajueiro? deixa as tuas raivas para outros. Eu sou teu antigo conhecido. Faz-te de cera, coração.
- Assim gracejando deixou-se o matuto levar pela força da corrente, e quando à claridade duvidosa do crepúsculo pareceu a todos os que da margem tinham os olhos postos nele, inevitável a sua perda, o matuto barafustou na folhagem retorcida e apagou-se um momento da vista dos presentes. Morreu!
- Afogou-se.
Tais foram as vozes que partiram de diferentes bocas.
Súbito ouviu-se bater o facão sobre os galhos superiores do mulunguzeiro. Ninguém viu mais Francisco, mas todos ouviram o rumor dos golpes da pesada arma, movida por sua mão possante contra o atleta vegetal que o Itapirema trabalhava por engolir. Não se demorou muito que os golpes cessaram e uma sombra negra, passando rápida, vertiginosa, como nuvem fatástica, aos olhos da tropa, sumiu-se no turbilhão. Era a ramagem do mulunguzeiro que fugia, deixando aparecer nua, escalavrada, acima da superfície do rio, a parte superior da árvore, e no cimo desta o destemido matuto.
Mas não estava completo o serviço. Francisco veio outra vez á terra, e tendo tirado um fuzil do saco vazio que pendia do cabeçote da cangalha, encaminhou-se para uma macahibeira que a alguns passos aparecia solitária. Umas folhas secas, que a tempestade tinha abatido aí, foram apanhadas pelo intrépido matuto, e com elas improvisou ele um facho.
Então, voltando-se para a tropa disse:
- Vamos passar o rio. Eu vou na frente, feito guia. Com o homem ninguém pode, comandante. É o bicho mais valente que eu conheço. Qual cobra, nem onça, nem rio, nem raio! Quando o homem é homem, fique certo que vence pedras, água, o próprio fogo.
E meteu-se imediatamente no liquido elemento.
Quem souber o que é um rio cheio, nos caminhos do norte, especialmente o Itapirema, que pelo inverno costumava arrebatar e ainda arrebata às vezes algumas vidas, ajuizará da coragem de Francisco e do serviço que prestava. O rio roncava e estorcia-se ainda irritado e ameaçador. Mas a fúria que causava horror a quem um momento atrás levara a vista ao mulunguzeiro, essa, com a ausência da folhagem, tinha diminuído, deixando que as águas corressem mais livremente e menos arrebatadas que antes.
Levaram talvez um quarto de hora a romper o vasto mar, ora em linha reta na direção do norte, ora contornando cotovelos de terra firme.
De repente uma luzinha apareceu como santelmo, na margem fronteira. Era o lume da casinha de um morador do engenho.
- Estamos da outra banda, minha gente. Ali está a casa do Manoel Felix, onde poderemos tomar algum trago. Acho-me todo resfriado.
Quando pisaram terra, Gil Ribeiro, aproximando-se de Francisco, dirigiu-lhes estas palavras:
- Obrigado, camarada. Você nos prestou um serviço que não tem preço.
- Ora qual, seu comandante. eu também estou doido por ver a minha gente.
A noite estava fria, mas clara. A solidão era profunda, e o mato, onde como fogos fátuos, luziam interpoladamente os pirilampos, soturno e medonho.
Mas por entre arvores ramalhudas, moitas bastas, barreiras nuas, mostrava-se a estrada a todas as vistas, figurando o leito arenosos de um riacho que secara.
O dia vinha rompendo, quando descobriram a massa sombria da mata de Bujari. O Cajueiro estava a menos de cem braças, oculto por um cotovelo que formava a estrada.
Sentindo o coração pular-lhe de contente, Francisco virou-se para Gil:
- Seu comandante, vossa senhoria dá licença que eu vá adiante acordar minha mulher e meu filho? Estou que não posso me conter.
- Pode ir, meu bom companheiro. Corra já. É natural a sua impaciência. A nossa casinha fica ali adiante, na beira do caminho, à direita, continuou Francisco. A que fica a esquerda é a de seu padre Antonio. Até logo, seu comandante.
Francisco esporeou o castanho, que, não obstante vir caindo de fome e enfado, se empinou, ainda debaixo das pernas do senhor, naturalmente por ter sentido o cheiro da manjedoura de casa, e, contornando o cotovelo da estrada, desapareceu quase de repente da vista dos que ficavam atrás.
- Estou cativo deste matuto, disse Gil, voltando-se para os companheiros.
- Este profundo amor da família, comandante, é um dos dotes naturais do nosso almocreve, disse Felipe Bandeira.
- Bem sei. Em minha longa vida poucos tenho encontrado que desmintam este modelo. Mas o que acho especial em Francisco é o desembaraço, a graça, a franqueza que põe em suas palavras e ações. É verdade, disse o alferes Teixeira. Quase sempre os matutos se tornam bisonhos, quando se acham com pessoas a quem devem respeito.
- Se tivesse meios, era capaz de obsequiar-nos com um lauto banquete. Assim parece. Mas... que vem a ser aquilo, comandante? perguntou Felipe Bandeira, apontando para frente.
- Tinham dado a volta do caminho e entravam no Cajueiro. A casa do padre Antonio apareceu logo aos olhos de todos, à esquerda, como dissera Francisco; mas no ponto onde se devia mostrar a casa deste, o que eles viram foi um montão de cinzas, de que se levantavam ainda fumo e restos de chama por entre algumas paredes, esburacadas e enegrecidas.
- O cavalo castanho, entregue de todo à fome que trazia, devorava, sem cavaleiro, a grama verde, que guarnecia a estrada. Grande desgraça houve por aqui! exclamou Gil.
E atirou-se para diante da tropa e com pouco chegou ao pé das ruínas fumegantes.
- Francisco? Francisco? Chamou ele, sem poder dominar a sua comoção. Que foi isto, meu amigo?
O matuto, quase a queimar-se nos barrotes e caibros que ainda ardiam por entre o barro caído das paredes, revolvia com um ferro de cova, semelhando visão fantástica, os paus e a terra abrasada. Ouvindo a voz de Gil, respondeu:
- Estou desgraçado, seu comandante. Puseram-me fogo na casa, como vê. Mas o que me aterra é pensar que podem estar debaixo destes torrões minha mulher e meu filho queimados!
- Não há de ser assim, Francisco.
Marcelina! Lourenço! Exclamava de momento a momento o matuto, cavando e revolvendo sempre os entulhos eriçados de lascas, algumas flamejantes, muitas reduzidas a carvão. Ninguém me responde, comandante. morreram todos! Morreram! Estou sem mulher, sem filho, sem casa. Só me deixaram a miséria e o luto.
As feições do matuto mostravam-se desfiguradas. Por cima de suas faces de quarenta anos, que há pouco pareciam de trinta, porque as refrescava o reflexo do jubilo intimo, obra da esperança que lhe assegurava veria ele com brevidade os entes prediletos de sua alma, escorriam agora lagrimas lentas, e nelas se lia, em vez do prazer, a dor, a aflição, o desespero. Foi fácil a todos os circunstantes conhecer a súbita mudança, porque a esse momento o dia estava claro, e a aurora iluminava o céu e a terra com reflexos que nenhum pintor pode ainda reproduzir na tela.
Gil, sentindo a gravidade daquela crise, correu ao matuto, lançou-lhe os braços sobre os ombros, e disse-lhe em face:
- Então, que é isso, Francisco? Estás a chamar a todo instante por teu filho e tua mulher? Não vês que não podem estar aqui?
- Mas então onde estão eles, comandante? Na casa do padre Antonio não há ninguém. Já cansei de bater na porte. Ninguém me falou de dentro. Oh! Meu Deus! Por aqui andou de certo o Tunda-Cumbe. Malvado! Malvado! Tu me pagarás.
- Isto, sim, disse Gil, conhecendo que a loucura um momento iminente ia fugindo, espancada pelo sentimento da vingança, que acordara enfim, para salvá-lo, no coração do matuto. Havemos de vingar-nos desses perversos, que queimam as casas pacificas e levantam ranchos para novos salteadores. Não percamos tempo. Salta no teu cavalo. Quem sabe o que não estarão praticando a esta hora na vila os infames bandoleiros. Vamos, Francisco. Quero-te a meu lado.
O matuto saltou sobre o castanho. Tinha os olhos e as faces em fogo. Na respiração sentia calor de fornalha. Da mão, em vez do chiqueirador de buranhém que trazia, pendia agora uma catana fora da bainha.
Mas de momento a momento ia repetindo, como de se para si:
- Lourenço, Marcelina, que terá sido de vocês? Coração, tu estás a anunciar-me uma desgraça sem nome. Deus se lembre de mim, Deus se lembre de mim!
Eis o que tinha acontecido no Cajueiro, ao escurecer do dia anterior.
Lourenço, que depois do que se passara no samba esperava a cada momento ser ofendido por Tunda-Cumbe ou por algum dos seus sequazes, vendo entrar um vulto desconhecido no caminho das carvoeiras, pegou da espingarda de Francisco, e, sem que Marcelina soubesse, encaminhou-se par aquele ponto.
Detrás da palhoça dos negros existia uma cova imensa, em que um homem podia meter-se até aos peitos. Com as ultimas chuvas tomara ela muita água, e se convertera em barreiro, donde os sapos estavam a essa hora soltando suas monótonas toadas. O rapaz avançou para ela por baixo das ramas rasteiras dos cajueiros. Na parte mais funda a água deu-lhe pela cintura. Lourenço pouco se importou com isto. O que ele queria era saber quem era o vulto e o que ia fazer ali. Eis o que viu e ouviu.
Estavam dentro da palhoça, com os habitantes do costume, um negro do serviço domestico de João da Cunha por nome Germano e o Pedro de Lima, cabra destemido do séquito de Tunda-Cumbe, braço direito deste, para assim escrevermos, que deixou nome na historia da guerra, pelas - extorsões, mortes, roubos e outras desenvolturas que cometeu em Goiana, de que fora o terror.
No momento em que Lourenço pode enxergá-los através das palhas da choupana, estava Pedro de Lima, a frente voltada para o casal de negros e o Germano, justamente a dizer-lhes estas palavras:
- É certinho o que digo; podem crer que terão vocês sua liberdade. Guardarei todo o segredo.
Lourenço compreendeu logo, por estas palavras, que o cabra prometia aos negros a alforria a troco de um levante contra João da Cunha.
- Então, então, Germano, que dizes a esta proposta? perguntou Moçambique ao negro da confiança do sargento-mór. Pois a liberdade é coisa que se engeite?
- A liberdade é boa coisa, e eu a não engeito, assim ela venha, respondeu Germano. Mas se os outros parceiros não quiserem aceitar a proposta, e meu senhor vier a saber que eu é que andei nisso, quem me livrará de ir ao carro ou à fornalha?
- És um pateta, moleque, disse Pedro de Lima. De hoje até amanhã hei de dar no engenho de teu senhor. Se acontecer o que eu cá espero, amanhã de manhãzinha o chumbo assobia nas urupemas de sua casa e a faca trabalha nas banhas da barriga dele. Se os negros que ele lá tem consigo prontos para dar e apanhar, faltarem na hora do apuro, não haverá santos que o livrem de ir direitinho para a bagaceira, servir de pasto aos urubus.
- Mas aí é que está a historia, observou Germano. Eu sei lá se eles querem faltar ou não?
Negros safados são todos vocês. Não prestam nem para tratar de libertar-se. Não sabem nem ao menos deixar a senzala, onde andam curtidos de fome e sono, pela mata virgem. Negros de patente eram os dos Palmares. Aqueles sim. Foram quarenta os que primeiro meteram a cabeça no mato; daí a pouco já eram não sei quantos mil. Vocês são ao pé de duzentos e têm medo do chicote do feitor. Vai, Germano, falar a João-Congo, a Thomaz, a Januario e a Jacinto. Se eles não tiverem coragem para a tragédia, faze tu o que te vou dizer.
- Diga lá.
Quando o engenho for atacado por nós, corre a botar água dentro dos canos das armas de fogo. Isto é coisa muito fácil, e que tu podes fazer sem ninguém saber, nem ser preciso que alguém te ajude neste serviço.
Germano nada disse, e, pelos modos, deu mostras de que dentre diferentes alvitres indicados pelo audaz bandoleiro, era este o que mais lhe quadrava. Mas súbito, com gesto de quem tinha tomado uma resolução decisiva, assim falou a Pedro de Lima:
- - Sabe que mais, seu Pedro de Lima? Eu não faço a meu senhor isso que vosmecê propõe. Ele para mim é bem bom senhor. Até minha senhora, que é uma soberbona, essa mesma já uma vez me prometeu alforia. Pateta! Estás com medo, moleque ruim.
Este moleque é assim mesmo, disse Quiteria. Promete as coisas e não faz. Quer e não quer. Tem medo do bacalhau - disse o cabra despeitado. Não tem agora medo de minha faca, ou do bacamarte de Gonçalo Ferreira. Eu só digo uma coisa: encontrando-te diante de mim, no momento do ataque há de ser para ti a minha primeira facada ou o meu primeiro tiro.
- Não se zangue comigo, seu Pedro de Lima, disse Germano com certa expressão e revirado de olhos, para dar a entender ao mulato que ele tinha intenção reservada. Pois se eu visse Germano metido na dança, eu também me metia nela, disse Moçambique.
Estás ouvindo? Olha lá o que perdemos. Eu porém não quero que ninguém me acompanhe contra a vontade. Nunca pensei que não aceitasses a minha proposta. Quando te vi passar de tarde para esta banda, eu logo conheci que vinhas ao sitio das carvoeiras, e disse comigo: ‘Vou falar com Germano para ver se ele quer, a troco da sua liberdade, prestar-nos um servicinho. Eu estava na mente de que havia de te chamar para nós; mas, como não queres, nem por isso te farei mal. O que eu disse há pouco foi gracejo. De ti, pobre negro cativo, o que eu tenho não é ódio, é pena. E adeus. Perdi meu tempo e minhas razões. De outra feita talvez a coisa já não seja assim’.
- Eu também me vou embora, que já é tarde; disse Germano. Adeus, tio Moçambique. Com Deus amanheça, tia Quiteria.
- Vai-te embora daí que tu não prestas senão para chotear de jaqueta de galão atrás de teu senhor, abrir-lhe as porteiras para ele passar, e limpar as botas dele quando vêm cheias de lama - respondeu Moçambique.
- Você também de que serve? Perguntou Germano despeitado. Não é também escravo dele, como eu sou? Não é mais que a gente se levantar contra seu senhor! Mestre Moçambique, sabe que mais? Vá contar a outro as suas valentias, que eu nelas não creio, e tanto caso faço delas como dos latidos de cachorro velho, carregado de rabuje, que já não morde, porque nem dentes tem.
- Está bom, está bom, vai-te embora, meu pimpão - disse o Moçambique. Amanhã, tu me dirás quem é o cachorro velho que não morde. Talvez que a esta hora tu estejas na ponta da faca de Pedro de Lima, e eu na mata virgem.
Germano deu o andar para a vereda, onde já entrara Pedro de Lima, que saíra antes dele.
Adiante, debaixo de um cajueiro, um vulto estava parado. Era o matuto.
- Eu bem te endendi, Germano. E para saber todo o teu pensamento, aqui fiquei à tua espera.
- Quando é que vão atacar o engenho?
- Para te falar verdade, eu não sei bem quando há de ser o ataque.
Mas vamos cá saber uma coisa, seu Pedro de Lima: como posso Ter eu certeza de que serei livre se fizer o que vosmecê propõe?
Não há duvida que tudo há de ser conforme te digo. Pois queres melhor certeza do que a nossa vitoria? Olha cá. Se vencermos a nobreza, o governo passará a ser outra vez dos mascates, e passando a ser dos mascates o novo governo, está bem visto que todos aqueles escravos que nos tiverem ajudado a dar com o governo da nobreza em terra, terão em recompensa a sua liberdade.
- E se, em lugar de darem a eles a liberdade, os mascates ficarem com os negros na escravidão, não virá tudo a dar no mesmo?
- Mas se eu te afianço que tu pelo menos ganharás a tua alforria, que mais garantia queres do que minha palavra? Não duvides da promessa. Ajuda-nos a dar um ensino de mestre a esses senhores soberbões, e eu te asseguro que não te hás de arrepender. Pois sim, seu Pedro. Eu, como confio na sua palavra, estarei pronto, quando chegar o momento, a molhar as armas. Mas, olhe: todo o meu serviço não passará disso, porque eu não quero historias comigo.
- - Nem eu exijo outro serviço além deste. Ficarei com ele muito satisfeito, e ele só será bastante para te forrares. Então, fica assentado isso mesmo, não é verdade?
Isso mesmo. E eu vou já dizer ao Tunda-Cumbe a tua promessa, que é para não haver duvida. Os dois tinham chegado à beira da estrada.
- Ah! Esqueci-me do saco de batatas que Moçambique mandava lá para casa. Volto a buscá-lo.
Separaram-se, Germano para tornar, como disse, à palhoça dos negros, Pedro de Lima para tomar à direita a direção da mata.
Quando eles desapareceram, saiu do mato um vulto com passo sorrateiro e cauteloso. Era Lourenço, que por entre o arvoredo os havia seguido, amparado pelas folhagens, quase ombro a ombro com eles, sem que o vissem. Ele entretanto, que também os não vira, ouvira, sem perder uma palavra sequer, toda a conversa que tinham tido os dois conjurados desde a palhoça até a beira do caminho.
Marcelina estava na porta da casa.
Vendo o filho com a espingarda, as primeiras palavras que para ele teve foram estas:
- Que anda fazendo pelo mato a esta hora, Lourenço? Nem sabes que susto acabo de ter.
- Que foi que aconteceu, minha mãe?
- Passou por aqui mesmo, há instantinhos, um homem que, depois de passar, ficou ali de pé a olhar para cá e a fazer jeito de quem queria saber ou ouvir alguma coisa de cá de casa. Sabe quem era? Pedro de Lima.
- Pedro de Lima, aquele malvado?! Virgem-da-Conceição. Entra Lourenço, que quero fechar logo a porta. Ele que anda por aqui a esta hora, fazendo bem não é. Quer saber o que estava fazendo o cabra?
- Fala baixo, que ele ainda pode estar por ai. Mas o que foi?
Uma das suas. Mas o pior foi o que fez o ladrão do moleque, o Germano. Em vez de ser pelo senhor, prometeu ser pelos mascates e botar água dentro das armas, quando o engenho for atacado. Que negro ingrato e perverso! Tive desejos de lhe dar um tiro na cabeça, quando lhe ouvi as traidoras palavras. Mas eu nunca atirei em ninguém.
- Virgem Maria! exclamou Marcelina. Pois querem atacar o engenho?
- Foi o que disse Pedro de Lima. Germano não tarda a passar por aqui. ah! Ali vem ele.
- E que queres fazer? Queres dizer-lhe alguma coisa?
- Quero, sim senhora.
- Vai para dentro, que eu falo ao moleque. Ele a mim há de atender mais do que a ti.
- Ainda bem não tinha Lourenço entrado, quando o negro passava pela frente da casa trazendo o saco de batatas nas costas. Se não me engano, é Germano que vai aí, disse Marcelina em voz alta, a fim de ser ouvida. Sou eu mesmo, sinhá Marcelina, respondeu o negro. Quer alguma coisa?
- Eu logo vi que tu ainda havias de andar por aqui. Porque diz vosmecê isso?
- Se não vais com muita pressa, dá-me cá uma palavra.
O negro parou à porta da casa.
-Senta-te nessa pedra que te quero dizer uma coisa.
- A pedra está muito quente eu oiço mesmo de pé o que tiver de me dizer. Pois olha; nessa pedra mesma esteve ele sentado, há pouquinho.
- Ó xentes! Ele quem, sinhá Marcelina?
- Anda cá. Pois tu não sabes quem podia ser? O Pedro de Lima.
- Seu Pedro de Lima?! perguntou o negro subitamente alterado. Ó xentes! Seu Pedro de Lima!
- Então, ele não andou por estas beiradas ainda agorinha? Quererás negar?
- Ele andou, é verdade, respondeu Germano, entre aterrado e tremulo.
- E que coisas te disse ele?
- Pois vosmecê sabe o que ele me disse?
- Chega-te para perto de mim, que eu não te quero botar a perder, Germano.
O negro aproximou-se, com passo tardo, porque em cada pé começou a sentir o peso de uma arroba, depois que ouvira as ultimas palavras da cabocla.
- Queres saber o que foi?
- Diga, sinhá Marcelina.
Ele esteve contigo na palhoça de Moçambique, e falando-se aí sobre os motins que tem havido na vila e a revolta dos mascates do Recife, tu te ofereceste a botar água dentro das armas de teu senhor, para elas não pegarem fogo, quando o bando de Tunda-Cumbe atacasse o engenho.
Não se pode imaginar a impressão de medo, dor, arrependimento e cólera, que estas palavras produziram no espirito do negro.
Sem o querer, caiu-lhe do ombro o saco, e ele próprio, para sustentar-se de pé, teve de apoiar-se no ferro de cova que trazia em uma das mãos.
- Ora, dize-me, Germano, prosseguiu Marcelina: isto era coisa que tu dissesses àquele malvado? Podias tu prometer semelhante traição contra teu senhor, que te estima, e que, até já tem, por vezes prometido forrar-te? És um escravo indigno de ter liberdade.
O negro não respondeu. Triste, cabisbaixo, imóvel, não sabia o que dizer à cabocla.
Esta prosseguiu:
- Pois não seria muito mais bonito que, em vez de seres traidor e ingrato a seu sargento-mór, fosses o primeiro a defendê-lo na hora do ataque? Não terias tu muito mais segura a tua alforria, se, quando Pedro da Lima partisse contra seu sargento-mór, tu partisses contra Pedro de Lima, e com a foice, o facão, o chuço ou o bacamarte impedisses que ele fizesse mal a teu senhor ou á tua senhora?
Germano não era um negro bronco.
Ouvindo estas palavras, percebeu que nelas se lhe oferecia uma porta para sair da situação cruel e desprezível a que fora arrastado.
Então soltou-se-lhe a voz, que estava presa.
- Eu quero contar a vosmecê a historia como foi. Seu Pedro de Lima foi quem me fez esta proposta, com a promessa de minha liberdade. Vosmecê bem pode saber que todo cativo deseja ficar livre, ainda que seja muito bem tratado por seu senhor, como sou eu na escravidão. Eu prometi fazer isso que ele disse, mas depois que ouvi suas palavras, estou arrependido; e posso jurar que não cumprirei a promessa que fiz a seu Pedro.
- Estarás tu dizendo a verdade, Germano?
Eu sou negro, sinhá Marcelina, mas não minto. Pode vosmecê crer que estou muito arrependido da minha ruim ação. Só uma coisa lhe peço: é que não vá dizer isso à minha senhora.
- Se eu quisesse fazer mal, já tinha corrido para lá a meter-lhe tudo no ouvido. Mas tu sabes que eu tenho bom coração. Antes quis aconselhar-te do que fazer-te a cama, mesmo porque esperava que mudasses de parecer. Tu estás muito moço; não te apresses que hás de Ter a tua liberdade, não pela mão de Pedro de Lima, ou do Tunda-Cumbe, mas pela mão de teu senhor mesmo. Vai-te embora descansado, que nada por minha boca se há de saber do que temos conversado. Pela boca de Pedro de Lima é que eu não respondo.
O negro levantou o saco, pô-lo novamente no ombro, e disse:
- Pela boca dele, sinhá Marcelina, respondo eu. o que ele acaba de fazer comigo, há de pagar-me com língua de palmo e meio.
- Olha bem, não te vais espetar em alguma tragédia. O cabra é malvado e traiçoeiro.
Ele é cabra, e eu sou negro, mas porém se ele não andar muito ligeiro, eu passo-lhe o pé adiante. Ele não sabe com que negro está pegado. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda bem Germano não tinha entrado na mata, quando novo vulto se mostrava na estrada, do lado oposto.
- Não te recolhas já, Marcelina, disse o vulto de longe.
Quem falava era o padre Antonio.
- É vosmecê, seu padre? perguntou a cabocla admirada.
- Que será isso? disse Lourenço aparecendo. Seu padre por aqui!
- Vocês admiram-se, hein? E não deixam de ter sua razão.
Os três tornaram para dentro da casa. Marcelina, que foi a ultima a fazê-lo, encostou a porta de baixo, pois a sala era muito pequena, e daí mesmo, com os olhos na estrada e nos outros dois interlocutores, alternativamente, fez-se toda ouvidos. O padre então sentou-se em um tripeça, ao pé da mesinha da sala, enquanto Lourenço, de pé, com as mãos sobre o espeque onde descansava a porta da janelinha, quando estava aberta, esperava impaciente que o sacerdote quebrasse os selos do mistério que o levava ali.
- Venho pedir-te um serviço que, na ausência de teu pai, só tu me poderás prestar, Lourenço.
- Vosmecê não pede, manda, seu padre, respondeu o rapaz.
- Como tenho de fazer uma viagem esta madrugada para fora de Goiana, quero que vás agora mesmo ajudar o José a arrumar as minhas malas. Olha. Põe tudo o que é meu dentro delas. Deixa só o que absolutamente não puder ir.
- Se vosmecê quer, vou eu, disse Marcelina. Lourenço não sabe fazer bem estas coisas.
- Sabe, sabe, respondeu o padre. Demais eu tenho que te falar. Vai, Lourenço.
Quando se acharam sós o padre Antonio e Marcelina, disse aquele a esta:
- Marcelina, venho fazer-te uma confissão tão verdadeira e sincera como se a fizesse a um padre do Senhor.
- Uma confissão! Quem sou eu para merecer tanta honra e confiança?
- O que tu és, bem o sei eu. Tu és merecedora de honras e distinções muito mais altas do que esta, porque em ti a virtude fez sua morada, e a honestidade dá seus saudáveis frutos. Todos os elogios da terra ficariam ainda aquém do teu merecimento. O lar domestico ainda não encontrou nem encontrará jamais quem o represente melhor do que tu o representas.
- Seu padre está exagerando.
- Não estou, não. Há quatro anos que moro no Cajueiro. estou por isso habilitado a conhecer as tuas qualidades, a saber os teus sacrifícios, a admirar a rara beleza de tua alma. Mas venhamos já ao que importa. De duas partes se compõe a minha confissão. Começarei pela segunda. Estou-me vendo em uma colisão cruel. Avalia por ti mesma. Não viste entrar hoje em minha casa o sargento-mór?
- Vi, sim senhor.
Veio pedir-me, antes impor-me, que eu partisse hoje até amanhã para Goianinha, a fim de, por meio de praticas publicas, chamar ao partido dos nobres o povo que se declarou e tomou armas pelos mascates. Se o pedido fosse exclusivamente dele, eu acharia logo meios de escursar-me, posto que são muitos os obséquios e as atenções que me prendem ao sargento-mór. Mas infelizmente não é assim; e o sargento-mór foi portador de uma carta em que o bispo suplica que eu vá pacificar os ânimos daquele povo, e de lá siga até os limites da Paraíba com o mesmo fim. Alguém no meu caso recusaria este favor ao seu prelado e ao seu amigo? Ninguém. Pois eu acabo de recusar, quando já estava determinado a praticá-lo. Sabes porque recuei? Escuta lá, Marcelina. Não viste hoje de tarde sair de lá de casa um frade carmelita?-
- Não vi, mas Lourenço me disse.
Era o prior do convento do Carmo. Veio de propósito - vê lá tu como as coisas se ajuntam - com uma carta, antes ordem da recoleta do Recife, exigindo que eu sem perda de tempo me dirija a Paraíba, a fim de levantar os ânimos do capitão-mór João da Maia, que começam a resfriar. Esta providencia foi resolvida pelo padre João da Costa, a quem devo grandes benefícios, e pelos Drs. Ferreira Castro e Mendes de Aragão, conselheiros do governo dos mascates. Não contentes com incumbir-me deste gravíssimo mister, exigem que eu me ponha a caminho de hoje para amanhã. Neste sentido recebi, à entrada da noite, nova carta de frei José de Monte Carmelo, que Antonio Coelho me mandou trazer por Pedro de Lima. entre as três e as quatro horas da madrugada hão de estar por aqui os meus companheiros de jornada à Paraíba. Oh, que colisão cruel, Marcelina?
- E seu padre vai fazer este serviço aos mascates? Perguntou a cabocla.
- Eu deixo o Cajueiro, mas, aqui em particular, que ninguém nos ouça, devo dizer-te: não vou nem para Paraíba, nem para Goianinha. Vou para... Nem sei para onde vou eu. Vou fugindo de mascates e de nobres.
- Mas, meu Deus, como há de ser isso? Pois vosmecê nos deixa assim?
Nem uns nem outros têm razão, Marcelina. São exagerados ambos em suas paixões. Cegou-os a vaidade, o interesse, o capricho condenável. Deviam estimar-se e auxiliar-se mutuamente como dantes; mas não; hostilizam-se, como se fossem dois povos bárbaros e inimigos, como se não tivessem laços comuns - a mesma nacionalidade, a mesma religião, a mesma língua, as mesmas leis. Porque é que brigam eles? Por um pedacinho de governo? Por uns vinténs de mais ou de menos? Por uma vila? Mas em uma terra imensa, como esta, que ainda por muitos séculos há de ser um mundo universo, onde poderão aposentar-se todas as nações da Europa, brigar por uma vila, por um engenho, um armazém, uma loja, um assento no senado da câmara, é dar testemunho de ter o entendimento obscurecido pelas trevas da ignorância ou da loucura. Querem destruir-se os dois loucos? Pois destruam-se, como querem; eu é que não hei de ir meter-me entre eles dois. Ambos são meus irmãos; mas como não posso nem mesmo com um só deles, quanto mais com ambos juntos? O recurso que tenho é deixá-los pegados até que, pela dor física, pelo sangue derramado, pela fome criem ambos medo à luta e volte um para a loja e o outro para o engenho a tratar, já com as paixões castigadas e o juízo claro, dos seus interesses particulares. O padre inclinou a cabeça, como quem meditava, e, passado um momento, voltando-se para Marcelina, disse-lhe com evidente desprazer e tristeza:
- Vou passar ao segundo ponto de minha confissão.
- Seu padre pode falar, que eu estou ouvindo com toda a atenção, respondeu a cabocla.
E sentou-se para escutar melhor.