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O Matuto

Franklin Távora

Não foi preciso muito para que Zefinha compreendesse que os sonhos de Coelho, seus pensamentos, suas ambições afetivas tinham por objeto outra mulher. Mas, por infelicidade, já sentia ela por ele todos os estremecimentos que revelam a existência da paixão. Herpe, corrosivo, o amor infeliz alastrava suas vesículas peçonhentas pelo coração virgem da rapariga, envolvendo-o em camada de fogo que o abrasava. Ela sentia o rapaz nos olhos, na fantasia, na luz, na sombra, entre a costura e a agulha, entre o sorriso e as lagrimas, entre a esperança vã e o desengano previsto ou adivinhado. ‘Ele não quer saber de mim’ dizia Zefinha em seu entendimento. E chorava tristemente. Mas se Coelho aparecia, já ela sorria de novo, não porque volvesse a acreditar, como nos primeiros tempos que o português retribuía o seu afeto, mas porque sua doce imagem lhe trazia o prazer que fugia quando ele se ausentava. A poder do esforço, Zefinha mostrou-se aparentemente senhora de sua paixão. Sem indiferenças despeitosas, sem contentamentos exagerados, ela conseguiu levar ao espirito de seu pai e ao do próprio Coelho a convicção de que, se não era feliz, também não era desgraçada; que sobre o lago azul dos seus afetos pairava a calma da inocência; que por ai não sopravam os vulcões que revolvem o céu de anil da mocidade, e são antes lavas abrasadas do que sopros de tormenta.

Para chegar a tamanho resultado a moça pôs em contribuição toda sua energia, que nunca fora tão grande nem tão bem sucedida. Aquela natureza, a modo de morna e indolente, acendeu-se para a luta, e com suas próprias forças pode triunfar de se mesma. O espirito dominou tiranamente o coração. O bom senso impôs silencio ao desprezado afeto. Poucas lutas interiores já foram maiores em uma mulher ignorante e de vulgar condição do que a sustentá-la nesse asfixiar de um amor imenso que morria às mãos de quem o devia ameigar e chegar bem ao seio, como fazia às rolinhas gentis de casa. Pelo proceder da filha veio Jeronimo a conhecer que seus desejos e esperanças estavam longe de ser preenchidos. O descontentamento, o pesar trouxe a frieza, não a quebra das relações de amizade que o prendiam ao negociante. Esta frieza durou pouco, porque de certo dia em diante Coelho, fazendo-se mais assíduo em casa do marchante, reanimou, por seu modo de tratar Zefinha, no espirito do pai dela a quase de todo extinta esperança. Se para Ter explicação desta rápida e inesperada mudança o marchante houvesse podido penetrar no espirito de Coelho, teria achado aí a seguinte ordem de idéias: Despeitado com João da Cunha, voltava-se para Jeronimo, fazia-o entrever a possibilidade de vir ele Coelho a casar com Zefinha, e por este meio chamava para seu lado o primeiro elemento de hostilidade aos nobres de Goiana, o dito Jeronimo, que por seus sentimentos francamente populares, era o homem mais próprio para levantar as massas e encaminhá-las ao fim que lhe aprouvesse.

Fosse que, desconhecendo a política tortuosa e dissimulada que certos homens, práticos em explorar as paixões alheias, usam no seu próprio interesse, se prestava de boa fé ao calculo do jovem europeu; fosse que obedecia simplesmente a impulsos do seu coração, votado ao povo por quem era capaz de derramar a ultima gota do seu sangue; fosse que só tinha em mente, concorrendo com todos os auxílios possíveis a Coelho, penhorá-lo pela gratidão, a fim de tornar fácil a retribuição dos seus serviços com o desejado consorcio, o certo é que Jeronimo se identificou com a causa dos mascates fervorosamente, arrastando após de se seus filhos, amigos, afeiçoados, o próprio povo, segundo se vê pela história.

O que se pode considerar fora de duvida é que Antonio Coelho não tinha grande empenho no aniquilamento da nobreza, mas no de um nobre, João da Cunha, nem pensava verdadeiramente em outra mulher que não fosse d. Damiana. Completemos com algumas palavras mais o esboço desse caracter, que vem na historia da guerra a par com o de Jeronimo Paes.

Tendo chegado ao Brasil de pequena idade, cedo revelou Coelho particulares propensões para a vida comercial, pelos progressos que fez. Quando João da Cunha o conheceu, era ele caixeiro em um dos armazéns do Recife. Ou por suas feições e maneiras atrativas, ou por seu talento que talvez fosse ainda mais atrativo do que as feições, o certo que o senhor-de-engenho, simpatizando vivamente com ele, convidou-o para recebedor de seus açucares em Goiana, convite que o jovem Antonio aceitou, atentas as vantagens prometidas pelo sargento-mór. Ali os seus serviços cedo atraíram-lhe tantos créditos que em poucos anos Coelho foi geralmente estimado na vila, e conhecido no Recife; teve entrada nas principais casas comerciais destes dois centros; enfim tratou de estabelecer-se por sua conta. Revelando suas intenções a João da Cunha, em vez de se opor a elas, o senhor-de-engenho fez que ele as realizasse logo, e a este efeito lhe prestou os necessários auxílios.

Coelho teria por então seus vinte anos. Era elegante e bem parecido. Tinha sedução no olhar, e graça especial na conversação. Sabia de cor paginas de Palmeirim-da Inglaterra e as repetia tão possuído das gentilezas namoradas que enchem a obra de Francisco de Moraes, que mais valia ouvi-las ao moço português do que as ler no próprio autor. Sentindo particular predileção pelos nobres em cujas relações se ufanava de aparecer ligado, foi pouco a pouco ascendendo da esfera opaca onde principiara a vida, às alturas douradas em que calculava colocar-se definitivamente como um dos astros que formavam a constelação. Seus dotes pessoais granjearam-lhe as inclinações das jovens damas e a benevolência dos cavalheiros de seu conhecimento. Por então d.Damiana, solteira ainda, passava temporadas, como já se referiu, em casa de João da Cunha. Era muito nova mas trazia já em torno de se um circulo de adoradores em cujo numero Coelho soube aparecer tão conspicuamente que, passados alguns meses, os outros bateram em retirada, deixando-o senhor exclusivo do campo. É porém de notar que nem a idade de d. Damiana nem os costumes da época deram lugar a que ela tivesse conhecimento ou sequer suspeita dessa luta travada entre os primeiros jovens assim agricultores como comerciantes da vila. Contavam-se por sua raridade as reuniões familiares que se efetuavam na roda do ano ainda nas casas ricas; e mesmo nessas reuniões era tão respeitoso e cortês o trato entre os cavalheiros e as damas que, para assim escrevermos, o amor, ao contrário do que hoje acontece em nossos salões, mais se fazia adivinhar do que declarava. Todavia, por ocasião de uma festa do orago da freguesia, em que houve cavalhadas e fandango, na qual se achou d. Damiana, pode Coelho fazer-lhe protestos de amor, que, em sua mente, foram por ela bem aceitos. Mas veio logo o desengano com a recusa que o leitor sabe. Sendo até ai um dos primeiros amigos da nobreza e seu comensal, converteu-se Coelho em seu acérrimo inimigo. O ódio que começou a votar a João da Cunha, foi tanto mais intenso e profundo quanto tinha ele para se que nenhum outro, a não ser o senhor-de-engenho, poderia triunfar de seu triunfo. O golpe que a desgraça vibrara em seu afeto, o fez ainda mais injusto para com aquele que lhe dera a mão no principio da carreira. Coelho assegurava que d. Damiana fora constrangida a renunciar à afeição que consagrava a ele, e casara com o sargento-mór, não mais livremente do que fizera a dita renuncia. Minúcias são estas em que escrupuliso entrar. O coração da mulher assemelha-se à gruta profunda e inacessível: quem empreende descer-lhe ao fundo, corre vários riscos, sendo o primeiro deles o de dar com estranhos reptis não classificados ainda pela fisiologia. A verdade é que o mercador nunca mais pode apagar do coração a imagem suavíssima de d. Damiana. Fora aquele o seu primeiro amor. O objeto dele insculpira-se-lhe por tal modo na alma, que fazia parte integrante do seu ser o olhar, o sorriso, o gesto, a voz da gentil dama. Há paixões fatais que acompanham toda a vida aqueles a que se apegaram como a Nesso a túnica fatídica. O negociante era vitima de uma paixão semelhante. Às vezes a chama incessante abrandava; a vida agitada costuma trazer este efeito aos sentimentos; mas bastava encontrar suas vistas com as da senhora-de-engenho, para que logo sentisse reacender-se-lhe mais intensamente o fogo, um momento diminuído ou serenado. Enfim a idéia de a possuir - não importava quando - nunca mais o deixou, e essa ilusão, esse desconhecido que vagamente lhe prometia a felicidade, alentava a labareda que ele trazia como deliciosa chaga no coração, iluminava-lhe a fantasia como estrela que fulge em canto de céu prenhe de tempestades. O barcaceiro deu o andar para descer após o marchante, mas foi atalhado pelo mercador que lhe disse:

- Fica, Bartolomeu. Quero perguntar-te uma coisa: Em caso de aperto, amanhã ou depois, terás animo para te fazeres à vela novamente em direitura ao Recife?

- Agora mesmo abro as asas à Borboleta e largo-me por estes mares afora; assim o patrão ordene. Eu sou pau para toda obra. Conjeturo que amanhã a esta hora não exista mais um nobre em Goiana a não ser amarrado com boas cordas. Mas, como é preciso contar também com o mal, e não unicamente com o bem, ordena a prudência que tenhamos prontos os meios de escapar-nos aos inimigos se a eles pertencer a vitoria. Ora, nenhum outro se me afigura mais pronto nem mais eficaz do que a viagem pelo rio.

- Vosmecê tem razão. Montado na Borboleta, só por um oculo poderão ver-me os pés-rapados. E as olarias de Jorge Cavalcanti?

- Que tem elas?

- Tem bocas de fogo sobre o rio.

- Taparemos essas bocas de fogo com as balas dos nossos bacamartes. Tens então animo para passar em frente às trincheiras, Bartolomeu?

Porque não, seu Coelho? Vosmecê não conhece ainda este cabra com quem está falfando. Ora escute: Nesta mesma viagem, de que acabo de chegar, mandaram-me, quando eu ia, da fortaleza de Itamaracá um chuveiro de balas, que a outro que não fora o Bartolomeu teria feito perder a tramontana. Mas eu peguei na cana-do-leme da Borboleta e fiz com ela tais cortes e recortes por cima das ondas que nem uma tainha seria capaz de a ganhar. Eram balas de uma banda e da outra, pela popa e pela proa; mas dentro só o que caia eram as escumas dos mares que ela atravessava como jangadinha do alto.

Pois bem, Bartolomeu, disse Coelho a cabo de alguns minutos de silencio em que, ao parecer, estivera meditando sobre grave assunto. Fica assentado que dormirás hoje a bordo da Borboleta, e de lá não virás à terra senão por ordem minha. Vai ver tua mulher e teus filhos, que deves estar impaciente por abraçá-los. Às nove horas recolhe-te à embarcação. acharás já ai todas as provisões e munições necessárias para a viagem.

- Mal tinha o negociante terminado estas palavras quando se fez ouvir do lado de fora descomunal ruído de povo, retinir de armas, rumor de passos de cavalo. Quase no mesmo instante as portas da loja se fecharam com estrondo, e logo após os caixeiros de Coelho corriam pelas escadas acima amedrontados e confusos. Que é isto? Que quer dizer isto? Inquiriu o negociante, vencendo sua surpresa, ao que primeiro penetrou na sala.

- A casa está cercada, e ai vem o juiz ordinário com ordenanças e oficiais do seu juízo.

No mesmo instante uma voz que soou aos ouvidos de Coelho como eco das gemonias infernais, fez ouvir a seguinte intimação:

- Da parte d’el-rei, componde a casa, que vimos fazer uma diligencia.

A esse tempo Cosme Bezerra assomava na porta da sala.

Trajava calções e casaca preta, meias de seda amarela, sapatos com fivelas douro. Trazia chapéu com pluma branca, e espada pendente do talim.

XXIV

Coelho foi ao encontro de Cosme Bezerra, e com irritante altivez que as circunstâncias atuais até certo ponto justificavam, rompeu o silencio que se seguira à intimação:

Da parte d’el-rei, que quereis em minha casa ao lusco-fusco e com este aparato de força, senhor juiz?

Usais de um direito que pertence à justiça - o de interrogar - respondeu Cosme Bezerra com afetada serenidade que lhe era muito custosa de manter. Mandais distribuir armas e dinheiro pelo povo a fim de derrubar as autoridades legais, e vos admirais de ter a justiça em vossa porta.

- O que se diz é o contrario, retorquiu Coelho, sem diminuir sua arrogância. Diz-se que nós os portugueses, e os que nos acompanham, nós os fiéis súditos d’el-rei nosso senhor, não temos nem dinheiro nem armas com que rebater a rebelião da nobreza.

- Pouco importa às justiças saberem se tendes dinheiro. Falei-vos em dinheiro, porque em dinheiro se fala pelas ruas da vila, Sr. negociante.

- Chamai-me mascate, já que não quereis chamar-me sargento-mór, título que não podeis tirar-me.

- Título que a nós deveis.

- Devo-o a el-rei, não a vós.

Não vim a praticar convosco. Vim a saber se de feito tendes armas defesas que destinais aos populares por vós comprados para executores ostensivos de vossos tenebrosos desígnios.

Se tenho armas! Exclamou Coelho. Se eu armas tivesse, não as deixaria passar senão depois de morto, das minhas para as vossas mãos. De armas precisamos nós para defender a verdadeira autoridade, vilamente ultrajada por uma nobreza que na rebeldia supõe consistir a sua maior força e o seu primeiro brasão.

Em nome da lei, mascate! Gritou Cosme em tom de quem impunha silencio. Sois apontado como perturbador da ordem, protetor de rebeldes, e um deles. À frente de todos os motins que há dois meses perturbam o sossego desta vila, todos vos vêem comprando os venais, desencabeçando os ignorantes, encaminhando para o mal, que é o vosso alvo, os desordeiros por habito e condição. Os homens bons estão já cansados de aturar as vossas provocações, a autoridade de ser desrespeitada, as famílias fracas de receber insultos e violências dos malfeitores a que estendeis a mão cheia de ouro. É tempo de espezinhar a cascavel que tanta peçonha mortal tem vazado de sua boca imunda; e como o melhor meio de aniquilar a cobra é atacá-la em seu próprio covil, pareceu à autoridade competente que a vossa casa seja corrida, e de vosso crime se tire a devassa, se chegar à certeza de que sois criminoso.

O direito, que vos arrogais, de violar o meu asilo domestico, nem o achais na lei, nem eu o reconheço senão como filho do vosso violento natural, de todos conhecido. O testemunho de que não sou criminoso está em sujeitar-me ao vosso desatino. Outro fora eu, que já me teríeis pago a vossa ousada. Correi, correi à minha casa. Este procedimento condiz com a fidalguia de que rezam os vossos encardidos pergaminhos. Quanto a dizerdes que sou rebelde e amotinador, cego seja para sempre aquele que ousar afirmar que primeiro se insurgiram contra a legalidade os mascates que os nobres. Cosme voltou as costas ao negociante, como quem não levava em conta suas acerbas ironias e rudes exprobrações.

A verdade, porém, é que elas o feriam, como pontas de punhais acerados no coração. Os beleguins cumpriram o seu dever, e o próprio juiz, não podendo vencer o despeito hostil e apaixonado, encaminhou-se ao interior da habitação.

A esse tempo Bartolomeu, que ainda não pudera descer, chegou-se a Coelho e lhe disse à puridade:

- Quer sair, patrão? Atiro-me daqui ao soldado, que ali está de guarda na porta, e quando ele menos esperar, estará sufocado entre as minhas mãos. Então vosmecê poderá descer com seus caixeiros, ganhar a rua e desaparecer por trás dessas moitas de jerobebas que cobrem os fundos da igreja. Eu lhe guardarei as costas. Pode ir descansado.

Pensas que eu poderia realizar o que estás indicando? Olha. A rua está cheia de gente. A casa está cercada. Ali embaixo vários soldados espreitam quem entra e quem sai. Mas porque me ausentaria eu? Que crimes cometi para fugir?

- É que as armas, que estão lá embaixo... tornou o barcaceiro a meia voz.

Duvido que as encontres tu mesmo que comigo as viste, quanto mais ele. e se queres ter a prova do que te digo, vai à escada por onde há pouco descemos ao subterrâneo.

Sem dizer palavra, o barcaceiro encaminhou-se ao gabinete, atravessou-o e chegou ao ponto indicado.

Desciam o juiz, beleguins e soldados. Verificou então por seus próprios olhos o que lhe dissera o negociante. A escada fazia uma volta para a direita e ia dar na loja, não no esconderijo. Bartolomeu ficou um instante confuso. Lembrava-se que por ali descera para o subterrâneo, por uma volta que a escada fazia à esquerda: mas, essa tinha desaparecido como por encanto, sem deixar o menor vestígio por onde se pudesse descobrir o segredo.

Quando Cosme volveu à sala, Coelho foi a seu encontro, e com expressão de mal disfarçado ódio, lhe disse:

Não achastes nem uma adaga, nem um arcabuz no meu armazém. Voltastes em branco. Pois bem. eu vos asseguro, senhor Cosme Cavalcanti, que dentro em pouco tempo a nobreza de Goiana há de saber para quanto prestam as armas dos mascates, que as têm e de fina tempera.

- Ah! Eles as têm?

- Eles as têm, e tenho-as eu próprio a meu alcance.

Melhor, melhor. Servirão para atravessar ou degolar os mesmos que as guardam em seus esconderijos.

- Veremos qual de nós se engana, respondeu Coelho.

- Veremos, veremos, mascate - disse Cosme descendo com seu séquito.

Os olhos de Coelho despediam insólito brilho. Na face que a ira fazia subitamente contrair-se e dilatar-se, havia certos tons de ferocidade felina.

Miseráveis! Exclamou ele quando ainda o juiz não tinha descido de todo a escada. São ineptos na própria hostilidade com que pretendem impor seu ridículo poderio.

Então, voltando-se para um dos caixeiros:

- Vai já, já, em procura de Jeronimo Paes - disse. É preciso que ele me fale sem perda de tempo.

- Patrão, precisa de mim? perguntou-lhe Bartolomeu.

- Hoje não, amanhã, talvez. Podes sair. Espera. Quando passares pela porta do Lauriano, dize-lhe que venha falar-me agora mesmo.

Coelho deu alguns passos pela sala, penetrou no gabinete, voltou e logo após tornou a tomar para o interior. Antes de transpor a porta que dava para o quarto secreto, parou e perguntou ao segundo dos seus caixeiros se havia ainda soldados pela rua. Quando o rapaz tomava para a sacada, entrava na sala Luiz de Gouveia, mulatinho musico, de violento e desvairado patriotismo. Vinha acompanhado por diferentes homens do povo, trazia as feições demudadas, os cabelos revoltos.

Que novos ultrajes e atentados nos vens anunciar, Luiz? Inquiriu o negociante, antes que o musico falasse.

Um atentado nefando. Seu Jeronimo Paes acaba de ser ferido de um tiro de pistola, que lhe dispararam da rua, quando estava falando.

Eu esparava por isso, tornou o negociante. É natural que ao ultraje se seguisse o assassinato. Mas enganam-se. supondo aniquilar-nos, não fazem mais do que apressar a sua própria queda.

- Mas que mais esperamos, Sr. Coelho? Interrogou Luiz. Não será ainda tempo de armar o povo e atirá-lo contra os fidalgotes? Havemos de morrer às mãos deles, e só então nos meterão nas mãos as armas? Vamos com isso, senhor, vamos com isso. O povo não pede senão armas, não quer senão ir contra os nobres. E há muito povo pelas ruas?

A vila inteira está nas ruas. O tiro desfechado irritou todos os ânimos. Homens e mulheres correram à botica a saber o que tinha sucedido. Se apanham o assassino, fazem-no em postas. Dizem que é um escravo de João da Cunha.

- Há de ser, há de ser. Não tem ele mandado fazer tantas mortes? Não é useiro e vezeiro nesse oficio? Não é ele o gran senhor desta herdade, e não somos nós seus servos? Mas que a façam bem feita, porque se assim a não fizerem, com seu sangue serão lavados os insultos e agravos com que todo o dia nos batem às faces.

Coelho foi interrompido neste ponto por uma voz rouca e tremula, que partia do meio da rua.

- É a voz de Jeronimo - disse ele.

Todos correram à sacada.

- Ali vem ele - disse o musico.

Querem a perturbação, o sangue, a morte? Dizia o marchante. Pois hão de ter todas estas calamidades. Sou o procurados do povo de Goiana. Ainda há pouco vos dizia eu que da nobreza só tínhamos que esperar desdens e despotismos. Agora já posso acrescentar que temos também que esperar o assassinato às escurinhas e traiçoeiramente. Não me mataram; apenas feriram-me no ombro; mas a morte dos que defendem os direitos do povo e a autoridade real, essa eles a têm decretado como meio de consolidarem o seu poder, filho da violência e do artificio. São réus de crime de primeira cabeça. Ah! o que nos fazem - tenham certeza - não o botam em saco roto.

Antes de ser ferido pelo tiro que lhe foi disparado por mão até hoje desconhecida, Jeronimo Paes tinha já encaminhado parte do povo para o movimento insurrecional.

Quando chegou à botica, ainda estava ai o Ricardo perorando em favor da nobreza. Ricardo era um rapaz de condição obscura, que à proteção de um nobre devia certo emprego de que vivia. Não tendo podido completar a carreira sacerdotal, que encetara em vida do pai, viu-se obrigado, por morte deste, a voltar à Goiana onde esperava por ele a família acéfala.

Jeronimo não teve para ele a menor cortesia na linguagem, e muito menos no gesto.

- Tuas palavras são suspeitas, rufião - disse ele ao rapaz, rudemente, mostrando-lhe um punho cerrado. Cada uma delas representa uma das migalhas com que teu protetor te matou a fome, dando-te o emprego que tens. Disseste há pouco que não temos nem armas nem dinheiro. Enganas-te, vilão. Em nossos armazéns temos armas para levantar a vila inteira contra a nobreza sem freio que jurou aniquilar-nos. Quanto a dinheiro, olha daí, e dize lá se já viste rosas tão bonitas como estas que me caíram das alturas.

Assim falando, Jeronimo Paes fez saltar as dobras ao ar e as aparou com o açafate.

Ao sonido das moedas, um sem-número de mãos se estendem para sua banda, e diferentes vozes dizem à porfia:

- Dê-me uma rosa.

Uma ao menos dessas rosinhas amarelas, seu Jeronimo Paes. Cosme Cavalcanti, a quem foram logo levar a declaração, imprudentemente feita por Jeronimo, de que havia armamento nos armazéns dos mascates, corre a cercar a casa de Coelho que vareja, segundo vimos.

Entretanto Jeronimo, no ardor da exaltação e calculando o efeito da sua generosidade, distribui, pelos que lhe parecem mais dignos do presente, uma por uma, as dobras tentadoras.

E ao mesmo tempo que com a mão as distribui, segreda com os lábios quase à puridade, ao que as recebe:

Quando sair daqui vá a casa de Coelho, José. Não deixes de ir, Antonio. Vê lá o que fazes, Martinho. Ele tem que falar a vocês acerca de uma diligencia importante e rendosa. Não faltes, Justino, nem tu, Jacinto; nem tu Sebastião.

Todos estes sujeitos respondiam afirmativamente e embolsavam a moeda.

O ouro dá calor e eloquência; dos tímidos faz audazes, dos prudentes temerários. A corrupção é feia, mas eficaz no momento; que tem que depois semelhe chaga podre, nojenta, mortal? Quando o tiro feriu o marchante, todos aqueles que tinham na algibeira uma rosa, tomaram imediatamente parte pelo ofendido e em altas vozes pediram armas para o desagravarem. Era mais o cheiro da flor do que o impulso da indignação natural o que lhes dava esta animação.

- Armas, armas, meu amigo, eis as primeiras palavras de Jeronimo quando entrou em casa de Antonio Coelho. Armas ao povo! Ele as pede; ele as quer. A vila é por nós.

Em menos de meia hora Goiana estava nos braços da anarquia. As paixões populares, exacerbadas e açuladas por Jeronimo Paes, por seus filhos, que correram em seu favor tanto que souberam do acontecido, por Belchior - o rabula, Manoel Gaudencio - o alfaiate, Romão da Silva - o meirinho, Manoel Rodrigues - o taverneiro, e por outros conhecidos e desconhecidos parciais, desafogavam em gritos, ameaças, insultos.

O sinos e os tambores deram logo sinal de rebate.

Dos moradores, uns, manifestado o motim, correram a tomar parte nele; outros, já escarmentados das violências praticadas por ocasião dos motins anteriores, fugiam, como podiam, com suas famílias, para fora da vila; outros, não tendo para onde ir, ou receando por pé na rua com tanto povo revolto, se deixavam ficar em suas casas, resolutos a defender-se ou a resistir se acaso fossem atacados pelas turbas. Dos que se atiravam na vertigem muitos não o faziam tendo a mira em outro alvo que o de ser sua casa respeitada pelo saque - epilogo negro de quase todos os motins populares.

Gritos contrários começaram a ressoar de pontos diferentes.

Daqui se ouvia este:

- Vivam os mascates! Morram os nobres!

D’acolá já era est’outro:

- Viva a nobreza de Goiana! Viva a nobreza de Pernambuco! Morra pé-de-chumbo.

Os adjuntos donde partiam estes últimos gritos, eram menos numerosos e menos densos. Dir-se-ia que estavam ainda em formação ou que tinham medo de formar-se. ressoavam à porta de fidalgos conhecidos e daí não se alongavam muito.

Quando algum forte bando se aproximava deles, as manifestações diminuíam ainda mais. Era medo, desdém, ou prudência?

- Silencio, escravos! Respondiam de cá os mais exaltados.

Os de lá não retorquiam.

E o dragão popular passava revolto, espumante, vertiginoso, cuspindo injurias e obscenidades contra os que considerava seus adversários, e pensando no desforço pessoal e no roubo publico.

XXV

Cosme Bezerra voltou a esquina, acompanhado de ordenanças e parciais, entrou na Rua-da-matriz e foi descavalgar no Pátio-do Carmo, à porta de João da Cunha.

- Ufa! Ufa! O ladrão do mascate é insolente, mas não tem armas, por mais que diga que tem. E onde as teria ele que me escapassem? Não houve escaninho que não batessemos.

Tais foram as palavras que dirigiu às pessoas que se achavam reunidas na sala de visitas do senhor-de-engenho, onde fez a sua entrada já com luzes acesas.

Então contou miudamente tudo o que acabava de acontecer, e de que ai já tinha chegado vaga e confusa noticia.

Estavam presentes os principais nobres do lugar, que para esse ponto se haviam encaminhado às primeiras manifestações da desordem, como para a casa de Coelho haviam corrido os principais negociantes. E cumpre notar antes de tudo que Coelho interiormente estava satisfeito com as circunstancias que pareciam colocá-lo no mesmo plano do senhor-de-engenho e fronteiro a ele. ‘Se ele é sargento-mór, também eu o sou - dizia o negociante em sua mente escaldada pelo ódio e pelo despeito. Se o cercam seus amigos, a mim também me cercam os meus no momento difícil. Se projeta aniquilar-me, eu de há muito jurei reduzi-lo a cinzas. O futuro há de decidir qual dos dois ficará com a vitoria de seu lado.’ Por onde se vê que o alvo em que o português tinha as vistas era singular, único - João da Cunha.

Já não eram os mesmos os intuitos deste - abrangiam o mais vasto teatro. Esquecido inteiramente da origem principal do ódio com que o distinguia o mercador, ele explicava a oposição dos mascates atribuindo-lhes ambições de mando e fortuna. Nunca lhe passou pela imaginação que pudesse o amor contrariado dar inspiração e impulso àquele movimento.

A seus olhos Coelho era mais um instrumento dos mascates do Recife, instrumento cego e habilmente manejado por eles, do que uma mola importante, uma força de seu natural independente e vivaz do estranho artefato que perturbava a sociedade goianista. A verdade entretanto era justamente o contrario do que julgava o fidalgo. A ação de Coelho no movimento hostil à nobreza partia de se mesmo. A não ser esse amor contrariado, o moço português estaria ao lado dos nobres, como estiveram durante a guerra vários portugueses, por exemplo Martinho de Bulhões, genro de Matias Vidal.

Em verdade, seus sentimentos casavam-se mais com os daqueles contra os quais movia seus recursos, do que com os sentimentos daqueles com quem aparecia identificado tanto para a ofensa como para a defesa. A nobreza semelhava ainda então uma arvore de extensas raízes que penetrava profundamente no solo das sociedades, e cuja folhagem tinha a majestade das grandes alturas e das vastas sombras; a democracia era planta rasteira, sem raízes, sem ramas; era vegetação de vida duvidosa, incipiente; prometia, mas não assegurava assumir as proporções gigantes, com que um século depois sombreou o solo da pátria e abrigou as instituições a que este império deve a sua grandeza e o seu renome. Mas Coelho não tinha melhor motivo. O senhor-de-engenho julgava indigno e ingrato aquele que aliás fora atirado na luta pelo amor imenso e pelo despeito feroz.

Em casa de João da Cunha estavam sobressaltados não sem razão os espíritos. As noticias aterradoras que de momento a momento chegavam; os gritos dos magotes de povo que passavam, vociferando pela frente do sobrado ao principio desordenadamente, logo após organizados para o acometimento e a pilhagem; o rebate dado pelos sinos e pelos tambores; as famílias que fugiam amedrontadas e como sem saberem caminho nem carreira; os soldados que corriam, acudindo aos toques dos clarins; enfim, todo o medonho cortejo de circunstancias que se prende ao furor e à anarquia das turbas, e que são como o colear, o sibilar, o bote, a dentada e a peçonha de enorme reptil, solto, mas assanhado em espaço estreito, não podiam gerar no animo de quem se via, como os que ali se achavam, ameaçados de ser o alvo único da ferocidade da insurreição, impressões diferentes dessas.

João da Cunha e Cosme Bezerra, compreendendo a gravidade do momento, trataram logo de assentar nos meios de conjurar o cataclismo, que ameaçava engolir fortunas e vidas preciosas.

- O melhor meio - disse Cosme - é reunir as ordenanças e mandar varrer as ruas a panos de espada e a tiros de arcabuz.

- Não, não - disse Filipe Cavalcanti. Nem todos os que enchem as ruas são desordeiros. Procedendo assim, a força publica arrisca-se a ferir famílias inofensivas que fogem da anarquia, e até muitos que são por nós.

- Entendeis então que de outro modo tereis restabelecido o sossego publico? Enganai-vos. Em momentos semelhantes ao presente, quem se deixa guiar pelo coração corre o perigo de morrer às unhas inimigas. O raciocínio, a justiça, o sentimento de humanidade devem estar na ponta da espada, na boca do clavinote, nas patas dos cavalos. Que dizeis, Luiz? perguntou Cosme voltando-se para seu irmão Luiz Vidal, que, de pé, olhava, com mostras de quem tinha o espirito ocupado em acertar com o verdadeiro caminho, ora para o capitão de ordenanças, ora para o sargento-mór.

- - Em verdade não vejo outro meio de combater a insurreição, respondeu Luiz Vidal. Entendo, porém, que não há necessidade de levar-se a repressão ao extremo que vós indicais. A força publica deve apresentar-se imediatamente nos pontos em que a perturbação se mostrar mais veemente e ameaçadora; mas deve haver particular empenho em que sua presença sirva antes para serenar os espíritos do que exaltá-los ainda mais, e muito menos para proceder a excessos que possam trazer o sangue e a morte.

- - Com quem estou metido! exclamou Cosme. Que dois filósofos humanitários! Observasse eu estes preceitos de refinada brandura, que amanhã Goiana em peso estaria nas garras de Antonio Coelho e de Jeronimo Paes, e cada um de nós teria o seu gasnete entre as unhas do Lauriano, do Bartolomeu ou de outros vis instrumentos do ódio português. Basta, meus amigos; dispenso os vossos conselhos. Olá, Matias? Gritou ele a um soldado, que da porta da sala assistia, sem tugir nem mugir, como era seu dever, à conversação dos nobres senhores. Corre já à casa, e dize ao alferes Maciel que espere por mim com toda a força que lá tem sob suas ordens. Põe nova carga nas minhas pistolas e mete-as nos meus coldres.

- Luiz Vidal, tendo ouvido estas ordens do irmão, deu o andar pela sala e voltou ao ponto em que se achava um minuto antes. Faço-vos companhia, Cosme, disse ele.

- Muito folgo de o saber. Eu também vou, disse João da Cunha, encaminhando-se para a porta. Pois não hei de acompanhá-los? Não é o lugar dos cavalheiros o seio quente da família quando a pátria está em perigo.

Chegando à porta que dava para a escada, o sargento-mór chamou:

- Ó debaixo? Venha cá um de vocês.

Um negro apareceu logo após.

- Onde está Germano?

- Foi chamar Moçambique e Benedicto.

- E vocês estão todos aí?

- Estamos todos, sim senhor.

- Sela o meu cavalo.

Entretanto, d. Damiana chegara-se para onde estavam Cosme, Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti e com eles conversava sobre os sucessos vistos e previstos.

- - Ides também percorrer as ruas, Sr. João da Cunha? Perguntou ela ao marido que, dada a ordem, tornara a seu lugar. Meu dever impõe-me este procedimento.

- Não sei se seria mais prudente não vos expordes às iras dos vossos inimigos. Penso, ao contrário, que devo ir ao encontro deles a fim de os castigar. Mas é que em vossa ausência podem vir atacar o sobrado, observou Filipe Cavalcanti.

- Meus escravos estão aí para defendê-lo. Não nos há de faltar nem pólvora nem bala.

- E não há de ser só a escravatura que o defenda. Eu também sei pegar de uma espingarda e dispará-la, disse graciosamente a jovem senhora-de-engenho.

- Bonito, prima! exclamou Cosme Bezerra, sorrindo. Quisera estar de parte a ver a galhardia desta valente amazona.

Não façais pouco em mim, Sr. Cosme, respondeu d. Damiana. Bem me conheceis. Se entrardes na sala das mulheres, ficareis admirado do armamento que lá existe. Há mais de uma semana não tinha eu no engenho outra ocupação que fazer cartuchame. Podeis pois levar tranqüilo vosso espirito. Na casa de João da Cunha só penetrará mascate depois que Damiana da Cunha tiver exalado o ultimo suspiro.

A gentileza com que a senhora-de-engenho dizia estas palavras não se descreve, nem se imagina sequer. Outros fossem aqueles a quem ela se dirigia nesse momento, que teriam por vã e ridícula bravata essa afirmação a que a autorizava o conhecimento intimo do quanto valia o seu animo. D. Damiana era de feito perita em atirar desde os quatorze para os quinze anos. Manhãs inteiras levava ela por junto das capoeiras próximas do cercado do engenho a passarinhar por distração. Mais de uma aposta ganhou a parentes seus com quem atirara ao alvo. As detonações das armas de fogo, longe de amedrontá-la, levantavam seus espíritos. Sentia nelas certa voluptuaria harmonia que lhe trazia deleite. Naquela forma juvenil, graciosa e fresca havia ânimos viris, que se impunham à vontade e condição feminil como leis fatais e impreteríveis. Enfim, era tradicional esta qualidade da mulher do sargento-mór, e lhe acarretara entre o povo certa alcunha, com que as más línguas supunham injuriá-la. Chamavam-na - a Escopeteira. Longe, porém, de se dar por ofendida, a mulher de João da Cunha não perdia ocasião de mostrar praticamente que esta alcunha lhe era agradável e que a ela tinha indisputável direito.

- Bem sei quanto valeis, senhora prima, tornou Cosme. Mas é que difere muito atirar em rolinhas e sanhassús de atirar em salteadores afeitos a torcer o corpo às balas e aos mais mortais golpes.

- Seja como for, Sr. Cosme. Guardem os negros o baixo da casa, que eu guardarei o alto. Mas receio por meu marido, porque sei quanto o odeiam os mascates e a plebe.

- Nada o há de ofender. Demais, vamos apenas dar uma volta pelas ruas mais agitadas, disse Luiz Vidal.

E estaremos dentro em pouco tempo de volta, acrescentou João da Cunha. Como a esse tempo estavam já prontos os cavalos, desceram a montá-los os cavaleiros presentes. Antes de sair, João da Cunha entrou no armazém.

- Todos estão ai, Roberto? Perguntou ele, Roberto era o feitor. Todos, menos Germano, que ainda não voltou do engenho.

- Tem cuidado, Roberto, enquanto volto.

Senhor sim. Não há de acontecer nada. Nesse momento, de um bando que passava pela frente do sobrado, partiu um grito insultuoso, que veio ferir o senhor-de-engenho no coração:

- Morra o assassino! Morra a escopeteira !

João da Cunha, a modo de gelado de cólera, mal pode ir ter com os amigos que à porta da casa punham os pés nos estribos.

- - Conhecestes aquela voz, Sr. João? Perguntou-lhe, já montado Cosme Bezerra, mal podendo conter a raiva que o assaltara. Há de ser de algum vendido ao dinheiro de Coelho ou de Paes.

- É a voz desse rábula infame que imagina fundar em Goiana uma republica ateniense.

- Quem? O Belchior?

Ele mesmo, esse velhaco, essa pústula do foro, que vive especialmente de promover a alforria dos negros dos engenhos para passar as unhas no magro cobre deles e fazer pirraça aos senhores. ninguém ainda se inculcou tão amante da liberdade, tão independente, tão probo como ele: a verdade, porém, é que ele não passa de um saltimbanco audaz, um charlatão formado em tretas e torpezas que despertam nojo. Mal acabadas estas palavras, novo bando que vinha nas pisadas do primeiro, parou diante da casa e repetiu o pregão, que ainda soava aos ouvidos dos fidalgos:

- Morra o assassino! Morra a escopeteira!

- Quereis saber, Sr. Cosme? disse subitamente o sargento-mór. Ide vós a vosso destino, que eu fico. Há de vir terceiro grupo parar em frente de minha casa, e é preciso que eu esteja presente para dar-lhe a resposta que merecem. Roberto, Roberto? Gritou João da Cunha da porta que punha em comunicação o armazém com a entrada. Carreguem as armas e venham colocar-se todos vocês em seus postos. Ao terceiro insulto quero ouvir soar o fogo.

- Os cavaleiros partiram, enquanto o sargento-mór, quase fora de si, subia para junto de sua mulher. Por seu gosto estaria nas ruas, promovendo a reação ou a contrarevolta. Mas compreendia que naquele momento não lhe era licito arredar-se de casa. Preste atenção, Sr. João da Cunha, disse-lhe d. Damiana, chegando a uma das janelas da sacada onde estava o marido. Não ouvis ruído de pancadas contra as portas na Rua-direita?

- Estou ouvindo. Quem sabe se já não é o saque?

- O saque!

- Quando a plebe se solta, é aí que vai parar. Mas onde está e o que tem feito desde a tarde Antonio Rabelo com sua força? Oh não poder eu sair!

Enquanto assim falava o senhor-de-engenho, Cosme corria à Rua-do-meio a tomar o comando da pequena força que se achava sob as ordens do alferes Maciel. Seus grandes espíritos não se compadeciam com a reação morna e frouxa. De caminho, ele descavalgava aqui para dar uma ordem, ou combinar uma providencia; arrojava-se acolá temerariamente sobre os adjuntos e impunha-lhes que se desfizessem. Se era atendido, passava; se não era, empregava meios indiretos de o ser. Esses meios eram a brandura, a persuasão, a ameaça. Faltava-lhe gente para desempenhar satisfatoriamente o papel que teve nesse, como nos principais motins de Goiana; mas todas as faltas supria admiravelmente sua intrepidez por todos reconhecida de há muito e glorificada depois pelo historiador.

Logo que tomou o comando da força, encaminhou-se com ela à cadeia, para onde tinham ido Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti a reunir-se com Antonio Rabelo, receosos de que os amotinados tentassem soltar os presos.

Antonio Rabelo foi de parecer que se não procurasse dissolver os ajuntamentos.

- Onde temos nós gente suficiente para dissolver essas multidões numerosas, Sr. Capitão? Perguntou ele a Cosme. Guarnecem a cadeia dezesseis praças unicamente. Se daqui arredarem o pé, o povo levantado virá abrir as prisões, e aumentará com os criminosos o seu numero e a sua ferocidade. Vós não tendes ai convosco mais de vinte ordenanças. Julgais que com tão pequena força poderemos bater os rebeldes e ficar senhores do campo?

- Basta uma corrida forte e violenta sobre os inimigos, para que, cobrando medo, se dispersem.

- Estais enganado. Eles são muitos e não lhes faltam armas. Armas? Não as têm.

Têm-nas, Sr. capitão., têm-nas. Reparai nos que passam. Haveis de ver cada um com seu arcabuz. Os mascates fizeram e fazem larga distribuição delas por seus asseclas. O que me espanta é que ainda não se tenham lembrado de vir atacar este posto, tão fraco quão arriscado.

Mal tinha Antonio Rabelo acabado estas palavras, quando uma massa negra começou a aparecer no principio da rua.

Deus queira que eu me engane. Mas, ao que parece, vem ali gente para nos dar que fazer toda esta noite - disse Antonio Rabelo.

E logo mandou dobrar as guardas, e à frente da cadeia estendeu o restante da força.

- Quereis ir ao encontro do bando, Sr. capitão? perguntou Diogo Maciel, impaciente por atirar-se ao tumulto onde mais tarde praticou atos de distinta bravura. - Não; agora não enfraquecerei este ponto com a minha ausência. Os rebeldes vêm direitinhos para cá.

De feito, não tomaram eles outra direção.

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