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O Sacrifício

Franklin Távora

V

Albuquerque, senhor de engenho com quem Maurícia contratara os seus serviços, pertencia, segundo o está atestando o próprio apelido, a uma das primeiras famílias de Pernambuco. Em muitos pontos adiantado pela natural influência das idéias modernas, mostrava-se sumamente aquém do seu tempo no tocante às antigas regalias de sangue. Revia-se com vaidade que para assim dizermos trouxera do berço, nos pergaminhos da família. Esta vaidade era nele uma como intuição inata e irresistível. A educação, que se ajustara a esse molde tosco, dera-lhe novos acrescentamentos.

De seu natural, era brando e benévolo, não obstante serem rudes os sentimentos e algum tanto carregadas as tradições que herdara dos seus maiores.

Quando se sentia pisado na dignidade por pé, movido pela audácia, elevava-se a toda à altura do passado, e no vasto arsenal da família encontrava, senão armas de aço fino e cortante com que rebater o agressor, as armas da soberba, do desdém, da altivez, e, às vezes, até as da ameaça e da hostilidade moral.

Estações desfavoráveis e contratempos privados tiveram-no por alguns anos em embaraços e atribulações que o assoberbaram.

Chegou a ver quase todos os seus bens arriscados. Mas os tempos melhoraram e pode desempenhar-se dos seus compromissos. A paz e a fortuna vieram ocupar de novo no lar, onde um eclipse se demorara não sem grande desânimos e desgostos, o lugar que lhes pertencia antes das adversidades agora de todo desaparecidas.

Foi por esse tempo que o serviços de Maurícia foram aceitos. Alice, última filha de Albuquerque, entrava no seu décimo ano de idade; urgia ter educação. Quanto ao primogênito, por nome de Paulo, este não inspirava cuidados a Albuquerque; tinha dezessete para dezoito anos e não dava mostras de vocação para letras. Muito cedo deixara a escola, para dedicar-se de corpo e alma à agricultura, que era a carreira de sua predileção. Fosse que a vocação o inclinasse fortemente para a vida do campo, onde o contato com a natureza despertava em seu espírito novas simpatias pelos prazeres inocentes que aí encontram; fosse que os eu gesto procedesse dos hábitos a que desde a primeira idade se entregara de coração, certo é que Paulo era, ao tempo desta narrativa, o tipo do agricultor, e nele tinha seu pai as melhores esperanças. A capacidade do rapaz em regular o serviço de engenho; a sua discrição em tratar com os trabalhadores e os interesses da grande propriedade o haviam tornado objeto de tão larga confiança que Albuquerque só tinha olhos para o que constituía a administração exterior; das porteiras para dentro, Paulo superintendia em tudo. Quando alguém procurava o senhor do engenho, a fim de lhe pedir qualquer favor, ou colocação, Albuquerque dizia:
- Entenda-se com o Sr. Paulo, que é quem sabe o que precisa, ou o que se pode fazer. O que ele decidir está decidido.

Paulo experimentava precisamente por aquele tempo a necessidade de completar-se. As cenas da Natureza, seus painéis, suas belezas, suas maravilhas, provocavam-lhe o espírito de risonhas visões; mas no fundo dessas visões o que suas mãos encontravam, quando ele buscava verificar se aí havia o que a imaginação gerava e coloria, era a ausência da realidade; as proporções desta mediam-se pelas terras do engenho.

Quando voltava do serviço diário, tinha bom apetite, e depois da última refeição o corpo, que requeria repouso, achava na cama novas forças, trazidas pelo sono para recomeçar no dia seguinte a tarefa interrompida na véspera. mas esta fase de apetite, que se satisfazia com os alimentos, e de fadiga que desaparecia com o sono reparador, tinha de ser profundamente alterada; o coração devia dar sinais do termo de seu repouso e da aproximação do seu despertar; a imaginação devia exigir visões e sonhos diferentes dos que inspirava o espetáculo dos campos, dos rios, das matas.

Paulo sentira nos últimos tempos acender-se no intrínseco do seu peito fogo desconhecido, que, por ser tal, não deixava de o abrasar. Sentiu anelos teimosos, prazer e tristeza, crença e dúvida, que não sabia explicar e mal conhecia, porque a essência de sua vida assentava na inocência, que o campo alenta. Um mestre particular ensinara-lhe as primeiras letras. Não se tendo achado em contato com a meninice trêfega, ou com a juventude viciosa de certos colégios, quase todas as pequenas corrupções que se devem a tais centos, e que são, muitas vezes, a origem de grandes corrupções sociais, lhe eram inteiramente desconhecidas. O seu espírito podia considerar-se estreme, o seu coração podia reputar-se de um modelo digno de ser estudado e seguido.

Quando de volta do trabalho, Paulo achou uma tarde em casa a menina de fisionomia triste, olhar meigo mas, melancólico, adivinhou por lúcida previsão, que a sorte lhe trouxera, enfim, aquela delicada forma do espírito, da bondade, da dedicação, do amor que ele, apenas, conhecia como deliciosas abstrações ou vagas fantasias.

Virgínia era tão fraca de compleição que, à primeira vista, todos sentiam apreensões pela sua existência.

Olhando-se para aquele corpo franzino, delicado, posto que não desgracioso, antes cheio e modesta elegância, pensava-se que não há formas que não resistem senão por muito pouco tempo ao trabalho das intempéries e dos climas. Tinha-se pena de pegar em sua mão, porque parecia que com qualquer movimento menos brando poderiam sentir-se os dedos finos, a palminha delicada, o bracinho delgado da encantadora menina.

À Maurícia atribui-se este conceito a respeito da filha:
- Virgínia parece ter nascido de um respiro, e estar destinada a morrer de um sopro!
Uma vez, conversando com D. Carolina, mulher de Albuquerque, sobre a fraca organização da menina, dissera Maurícia:
- Quando da minha janela vejo Virgínia passeando ao sol posto, pelo cercado, e trazendo soltos sobre o roupãzinho branco os cabelos louros, só se me afigura ter diante dos olhos uma nuvenzinha que caiu das alturas sobre a terra.

A natureza caprichosa na distribuição dos seus favores dera a Virgínia, como se fizera para resgatar a fragilidade do corpo, o mais vigoroso espírito que já se viu em tão verdes anos.

Em casa, quando a viam vencer ao piano algumas das grandes dificuldades que as óperas oferecem, diziam:
- Não nega que é filha de quem é!
Não andava longe da verdade a gente do engenho, quando se exprimia a respeito de Virgínia, nesse desataviado modo porque o povo traduz os seus conceitos. A verdade, porém, a verdade completa, era que a menina trouxera do berço, com o talento, outros muitos tesouros, a saber, juízo, porque, cada uma destas virtudes é uma grandeza, capaz por si só de caracterizar, não dizemos tudo, de encher uma existência.

Quando Maurícia chegou ao engenho, Virgínia, com ser muito nova, tinha já quase completa sua educação. As qualidades insignes que brilhavam em sua mãe, por uma como reprodução mágica, se tinham continuado nela porventura mais vivas e adoráveis.

Paulo ficou extasiado diante daquela criaturinha que escrevia e falava corretamente o francês, tocava graciosamente piano, entendia de geografia e desenho, cosia, bordava; Virgínia pagou igual tributo de admiração: achou em Paulo tamanha candura, tanta conveniência nas ações, tanta compostura no dizer, no olhar, no falar, no sorrir, que não pode deixar de comunicar a Maurícia sua impressão; e o fez nestes termos:
- Que bonitos modos tem o filho do Sr. Albuquerque, mamãe!
Estas duas admirações tão irmãs, tão naturais, tão espontâneas, de duas organizações virgens, de diferente sexo, só podiam trazer um resultado - a enamoração mútua, o que queria indicar um sentimento comum - o amor. Mas este amor nasceu sem fogo, sem veemência, sem estridor; nasceu límpido e brando, como nasce no deserto, por sob a folhagem, cristalina fonte, cujas águas o sol não queima e a tempestade não revolve. Foi um relâmpago que fulgiu ao longe; todos viram o seu clarão, mas ele não deslumbrou ninguém, e não foi seguido de medonho estrondo.

Testemunhemos uma das manifestações desse amor.

Uma tarde, Albuquerque, de passagem para o cercado, ouviu o rumor das vozes dos dois jovens em colóquio no oitão da casa. Estavam sentados sobre uma viga de sucupira, que ali esperava, ao tempo, o verão para ir substituir uma trave podre da coberta.

Era longe deles o pensamento de ocultar-se às vistas da família. Encontraram-se por ali casualmente. Paulo por ocasião de ir verificar quantas formas havia na casa de purgar. Virgínia de caminho para a choupana de uma moradora a quem devia encomendar umas varas de rendas de que precisava Maurícia. Sentaram-se um momento, e entraram a conversar, sem lhes ocorrer nenhum pensamento de que semelhante passo poderia dar causa a reparos.

A tarde estaca deliciosa. Namorados de outra esfera, namorados da cidade, trocariam ente si, apartados como estavam eles do centro da família, frases de sentido duvidoso, e talvez amplexos e beijos, que arriscassem as canduras que velam as primeiras paixões, como as neblinas ocultam os abismos . Aqueles dois pintassilgos, porém, meigos e inocentes, tinham suaves confidências que eram mais gorjeios do que palavras.

Eis o que eles diziam:
- Caiu? E por meu respeito! Quem o mandou à árvore?
- Queria trazer-lhe estes ingás. O galho, onde pus os pés, estava podre, e vim ao chão antes e tirar as frutas.

- Podia ter-lhe sucedido alguma coisa pior, Paulo. Para que faz isso?
- Como não tinha uma lembrança que lhe trazer, corri às frutas logo que as vi. Eu quero que você saiba, Virgínia, que não me esqueço nunca de você.

- Eu bem sei que você me quer bem. Não é preciso que se exponha a perigos. Não caia em outra, Paulo.

Outra vez foi D. Carolina que deu com eles conversando depois do almoço.

- Volte cedo hoje - dizia Virgínia. Quando você chega já estou cansada de esperar; tenho curtido uma saudade imensa. Assim que me parecem horas, subo ao quarto de mamãe, e da janela olho ao longe; nada de você aparecer! Vejo somente as árvores, os canaviais, os caminhos sem gente. As horas custam a passar. O sol fica preso no céu, e não anda.

- Que hei de fazer? disse Paulo em resposta. Não sabe que sem mim os negros não trabalham?
- Se mamãe não se agastasse, eu era capaz de ir fazer-lhe companhia no serviço. Que é que tinha? Levava a minha costura, e tendo-o por junto de mim, sentiria grande prazer no meu trabalho.

Para este rasgo de amor singelo e inocente, Paulo teve uma resposta muda: passou o braço pela cintura de Virgínia e apertou-a contra o peito. A menina inclinou os olhos ao chão e pela primeira vez, sentiu, por um gesto de Paulo, o sangue subir-lhe as faces.

D. Carolina julgou prudente referir o que vira ao marido acrescentando algumas reflexões.

- Já uma vez - disse Albuquerque - achei-os conversando ao lado do alpendre. Sua conversação era inocentes, mas indicava que eles se amam.

- Não será tempo e atalhar este sentimento? Paulo, se as coisas continuarem como vão, virá a perder o casamento com Iaiazinha, e isto seria muito desagradável porque há toda uma conveniência em que se case com a prima.

- E é verdade - tornou Albuquerque; são parentes muito chegados; o sangue é o mesmo. Quanto à fortuna de Iaiazinha pode calcular-se em cem contos de réis. Mas qual o meio de impedir, sem risco de desagradar a D. Maurícia o desenvolvimento destas inclinações? Se Alice não precisasse hoje, mais do que nunca, dos serviços de D. Maurícia, a dispensa destes serviços remediava o mal, e podia realizar-se sem o indício do seu principal motivo; mas devemos acaso arriscar-nos com alguma providência de rigor e perder tão boa mestra? Demais, o que não sucederia nesta casa com semelhante separação? Alice, como você sabe, tem para D. Maurícia afeição de filha; Paulo pelo mesmo. Por aí, calcule quanta tristeza não entraria aqui com a ausência dela. D. Maurícia é muito digna, é até responsável; e se não fosse viver separada do marido, estou quase a dizer-lhe que não haveria desdouro em Paulo casar-se com Virgínia, porque o que verdadeiramente se deve exigir na união conjugal - o amor, este os liga e promete ser indissolúvel. Ora, eu quero a felicidade de meus filhos, e não estou ainda deliberado a aprovar o casamento de Paulo com a prima, cuja educação não me parece boa. Esta é a verdade.

Esta linguagem na boca de Albuquerque era a maior das contradições, e só indicava que os merecimentos de Maurícia e Virgínia tinham dado golpe profundo no preconceito que fora até então a primeira lei moral do senhor do engenho.

- Eu também não estou longe de pensar com você neste ponto. Mas então, vejo lá aonde isso irá ter, porque a afeição deles, com a docilidade que há, irá aumentando de dia em dia, e D. Maurícia não cessa de dizer que nunca mais voltará para a companhia do marido. Veja, então, o que se há de fazer, concluiu D. Carolina.

Assim como aos olhos dos pais de Paulo os colóquios entre este e Virgínia pareceram depressa adverti-los que deviam velar sobre o futuro do filho, assim também aos de Maurícia eles indicaram os perigos que cercavam sua filha, não obstante a pureza e a grandeza do grande afeto dos dois jovens. Desde que conheceu a inclinação de Virgínia, começou a ter cuidados, vigilância, estremecimentos e apreensões pela menina. "Hoje são puros, ingênuos, infantis" dizia consigo no fundo do aposento, que se lhe havia destinado no sobrado da casa da vivenda. Mas quem me assegura que há de ser sempre um inocente égloga o amor deles? E se Virgínia, ainda quando seja sempre digna do seu nome, viesse Paulo a preferir outra mulher, sua prima por exemplo, quem lhe resgataria o dano que, depois de conhecidas as relações deles dois atualmente, semelhante acontecimento deveria trazer? Que imputações cruéis as línguas viperinas não se julgariam com o direito de irrogar a minha querida filha? Isso não pode continuar assim".

Maurícia tomou uma resolução súbita, e desceu à sala de visitas, onde Albuquerque estava lendo os jornais daquele dia.

- Sr. Albuquerque - disse ela, não sem rápidos toques de palidez nas faces, e ligeiro tremor na voz - desculpe que ainda tão cedo venha tomar-lhe o tempo.

- Alguma novidade D. Maurícia? - inquiriu quase sobressaltado o senhor do engenho.

- Tenho por grave e por da maior conta para mim o assunto desta entrevista.

- Sente-se ao pé de mim.

E Albuquerque ofereceu-lhe uma cadeira.

Maurícia não se demorou em falar-lhe nos termos seguintes:
- O Sr. já deve ter conhecido que Paulo e Virgínia se amam, e que seu amor, ao que parece, é puro e desinteressado.

- A senhora faz-me justiça quando diz que eu já devia conhecer a afeição comum ente meu filho e sua filha. De fato, essa afeição de há muito me preocupa.

- Tenho perdido noites de sono somente em cuidar nisso. Vivendo eu e minha filha a bem dizer às suas expensas...

- Não, senhora; em minha casa a senhora tem vivido do seu trabalho.

-... esse amor - prosseguiu Maurícia - poderá parecer a muitos um cálculo para eu melhorar de sorte, ou uma baixa retribuição da hospitalidade que recebemos.

- Em minha casa, Sra. D. Maurícia, não há ninguém, nem os meus escravos, que seja capaz de semelhante aleivosia.

- Eu assim penso, Sr. Albuquerque; mas fora da casa e até fora do engenho não há de faltar quem, por maldade, inveja, ou gosto diabólico se apresse a atirar a lama sobre o véu cândido de uma menina inocente que é digna da melhor sorte.

- Não tenha este receio. Os tempos dos falsos testemunhos já passaram, e a virtude resiste a todas as agressões da maledicência e de todas triunfa.

- Seja como for, tenho como mãe um dever imperioso a preencher neste grave assunto. Venho declarar-lhe positivamente, Sr. Albuquerque, que não há cálculo nem baixeza por parte da minha filha. Se Paulo tem brasões ilustres, sangue limpo corre pelas veias de Virgínia; se Virgínia é pobre, Paulo não é rico; se hoje eu e ela nos sentamos à mesa do Sr. Albuquerque, hoje mesmo podemos deixar vagos os nossos lugares para quem queira prestar os mesmos serviços que estou prestando.

- Conclua, D. Maurícia.

- Concluo, dizendo que preciso saber do Sr. Albuquerque a sua opinião a respeito das relações que entretém seu filho e minha filha.

Albuquerque tinha Maurícia em grande conta, e consagrava-lhe particular estima, que era compartida por todos os da casa. Ao princípio, tivera para ela a maior reserva. Terminadas as lições de Alice, Maurícia subia aos seus aposentos e a família recolhia-se aos que lhe pertencia,. Ficavam as comunicações interrompidas até a hora da refeição, em que Maurícia, descendo com Virgínia, vinha encontrar os donos da casa e sua discípula silenciosos à mesa, esperando por elas. Estas cerimônias duraram por algum tempo. Albuquerque e D. Carolina estudavam os costumes, os sentimentos, o caráter da mulher a quem tinham dado entrada, por necessidade, no seio da família. Tanto, porém, que reconheceram os largos merecimentos de Maurícia, cortaram o cordão sanitário que os separavam, e foram os primeiros que atraíram à intimidade a hóspede que ainda queria continuar as suas reservas. Então, Maurícia e Virgínia vieram a ser consideradas os primeiros encantos da casa e quase a fazer parte da família. Albuquerque apresentou-as com certo orgulho ás pessoas de representação que vinham passar dias no engenho. Neste, começou a reinar outra ordem de alegrias. Dantes, havia aí lautos jantares, mas sem grande animação; agora, já não era assim; com sua voz divina , Maurícia dava às reuniões o tom de verdadeiros saraus. Com ela, entrara ali a musa da harmonia, que deixava extasiados e saudosos os que iam passar os domingos com Albuquerque.

A brilhante sociedade que já concorria semanalmente ao engenho tornou-se mais freqüente, e aumentou e brilho e número. Um presidente de província foi passar um domingo em Caxangá somente para ouvi-la cantar.

Ouvindo as suas palavras Albuquerque não se deu por ofendido, antes acudiu a dar-lhes o maior apoio, procurando tranqüilizá-la.

- Não tenho sobre este objeto intenção hostil a Virgínia, que eu considero no caso de dar a Paulo a felicidade que ele deseja. Mas o casamento não se realizará senão depois e preenchida uma condição, uma condição única.

- Qual, Sr. Albuquerque? inquiriu a inquieta mãe, sentindo lavar-se no seu espírito, até aquele momento carregado de dúvidas e temores, no mais suave contentamento.

- Estão bem moços ainda; são duas crianças - prosseguiu Albuquerque. No governo da vida, Paulo é um homem perfeito; eu não sei se poderia em caso algum dirigir tão discretamente as minhas ações, e trazer tão bem velados os meus interesses. Mas Paulo, segundo a senhora reconhece, não tem fortuna; agora é que trata de formar pecúlio. Ele desmentiria seu conhecido juízo, se tomasse família sem os meios de a manter decente e dignamente. Talvez que já tenha estes meios, quando se preencher a condição de que lhe falei. Então, sim, D. Maurícia; o casamento, que nós e eles desejamos, se realizará com satisfação de todos.

- Mas não poderei saber qual é a condição a que o Sr. se refere?
- Permita que por ora não a revele. Em ocasião oportuna, a senhora será sabedora; mas dependendo a condição da sua vontade, ou do tempo, não há razão para supor que prometo o que é impossível. Está satisfeita, minha senhora?
- Estou tranqüila; satisfeita, ainda não, respondeu Maurícia, graciosamente.

- Esperemos pelo tempo - disse Albuquerque.

E levantou-se.

Maurícia imitou-o, e subiu. Levava um demônio no espírito.

- Que condição será esta? perguntava inquieta a si mesma, e não achava reposta que lançasse um raio de luz sobre este mistério impenetrável.

Neste mesmo dia, Albuquerque, dando parte a sua mulher do que se passara entre ele e Maurícia, disse estas palavras:
- Daqui até que Alice esteja de todo educada, hei de ter conseguido conciliar D. Maurícia com o marido, e então darei a Paulo a felicidade que mais deseja. Talvez, não seja preciso promover-se esta conciliação, à vista das circunstâncias em que ficava o marido de D. Maurícia por ocasião das últimas indagações a que mandei proceder no Pará. Estava pobre e enfermo. Conjeturo que a esta hora o infeliz já não mais existe.

Não chegou a contar-se uma semana que Albuquerque teve a prova de que era mentirosa a sua conjetura.

VI

Na mesma sala em que Albuquerque e Maurícia tinham conferenciado sobre o grave assunto que vimos, foi introduzido, seriam noves horas da manhã, no dia da festa em honra de Eugênia, um homem que poderia ter quarenta anos de idade. Era alto, magro, pálido. Tinha a fisionomia desfigurada. Trajava de peto. Trazia os cabelos e a barba crescidos, a camisa enxovalhada.

- Queira ter a bondade de dizer o que o trouxe a esta casa, disse-lhe Albuquerque.

- Senhor, disse o sujeito, estava eu no leito de morte, quando um amigo, com o intento de reanimar-me, deu-me a ler uma carta em que uma pessoa desta cidade recomendava a outra, moradora na em que eu agonizava, que lhe desse informações minuciosas acerca do meu estado moral, sobre os meus meios de vida, etc.

- Estou falando com o Sr. Bezerra? - inquiriu Albuquerque.

- Sim, senhor; tornou o sujeito.

- Sente-se.

Depois de um minuto e silêncio, Bezerra prosseguiu:
- V.S. terá bem presente tudo o que disse nessa carta?
- Lembra-me por alto o que escrevi.

- Falo-lhe nestes termos porque eu a tenho de cor, o que não deve causar espanto, visto ser ela a minha salvação. Posso assegurar a V.S. que as suas letras me arrancaram das garras da morte.

- Eu tudo ignoro a seu respeito, porque a pessoa a quem pedi informações nenhuma me deu ainda.

- Essa pessoa julgou-se dispensada de o fazer, quando soube que eu vinha a Pernambuco. Procurou-me para me pedir que entregasse a V.S. a presente carta.

Assim falando Bezerra punha nas mãos de Albuquerque a carta a que se referira.

- É uma carta de apresentação.

Albuquerque, depois de lê-la, disse a Bezerra:
- Antes de passarmos adiante, julgo no meu dever declarar-lhe que nenhuma parte teve no passo que dei para obter as informações a seu respeito a Sra. D. Maurícia.

- Minha mulher... disse Bezerra.

- Andei nisso por exclusiva inspiração minha, e até a este momento ela tudo ignora a semelhante respeito.

A estas palavras, Bezerra tornou-se mais pálido do que era.

- Ah! disse. Eu cuidava que tudo se havia feito por indicação dela.

- Não, senhor.

- Sei, prosseguiu Bezerra, que minha mulher não encontrou em V.S. somente um cavalheiro, encontrou também um irmão.

- Não lhe tenho feito senão aquilo a que tem direito, pelas suas qualidades pessoais.

- V.S. diz a verdade nestas últimas palavras, minha mulher é uma adorável criatura; e só a cegueira em que vivi nos primeiros anos depois do meu casamento poderia dar origem a cenas fatais que hoje eu recordo com pejo. Mas, senhor, posso assegurar-lhe que a cegueira está agora de todo extinta; e que, ensinado pela experiência, castigado pela sorte, trago para minha mulher o primeiro dos meus afetos, e para a minha querida Virgínia todos os extremos de que é capaz o mais terno dos pais.

Albuquerque tinha os olhos fixos em Bezerra, que parecia exprimir-se não com os lábios, mas com a alma.

Bezerra não fora destituído de graça nas suas feições, de vivacidade no olhar. Conhecia-se pelas ruínas ainda notáveis destes dotes que eles tinham sido pingues. O senhor de engenho ouvia-o com toda atenção, e não sem prazer.

Bem depressa, Bezerra conheceu que da parte do seu interlocutor havia toda a benevolência para ele. Considerou, então, ganha a sua causa.

Continuou:
- Apanhei muito na cabeça, senhor, apanhei muito mesmo. Fui negociante, fazendeiro, advogado, jornalista. Tudo o que era meu se foi pela água abaixo; mas o meu primeiro tesouro, a minha única fortuna, que eu julgava para sempre perdido, a Deus aprouve que tivessem em V.S. um defensor, um protetor, um depositário venerável. Obrigado, senhor, brigado. Vendido e revendido eu não poderia pagar-lhe este serviço, esta honra, esta esmola, esta felicidade.

- Sr. Bezerra, atalhou Albuquerque, o senhor está laborando em verdadeira equivocação informando-me do estado da sua vida. Não foi meu intento chamá-lo a Pernambuco para restituir-lhe a família que o senhor deixou sair pela porta afora em pranto e desespero. Não tinha e não tenho autoridade para isso. Informei-me por mera curiosidade. Eu queria saber se a mulher que eu recebera no seio de minha família tinha razão de estar separada do marido, até certo ponto pareceu-me até dever meu ter disso conhecimento para minha direção. Se, pelas minhas informações, eu chegasse a convencer-me de que a Sra. D. Maurícia não era digna de viver à minha sombra, retirar-lhe-ia imediatamente toda a confiança, e sobre as suas costas fecharia para sempre as portas de minha casa. Felizmente, senhor, parece-me que não foi ela quem mais concorreu para a separação que lastimo.

- Toda a responsabilidade deste deplorável acontecimento me pertence. Minha mulher foi mártir das minhas loucuras. Quero pedir-lhe que me perdoe, e que venha d'ora em diante proporcionar-me a felicidade, a que eu não soube dar o devido valor.

- Neste particular, senhor, tudo correrá por sua conta.

- Mas V.S. há de auxiliar-me na extinção do escândalo e da desgraça que há três anos trazem apartados de mim dois entes que hoje constituem a minha única riqueza.

- Tenho os melhores desejos de que cessem este escândalo e desgraça; e prometo-lhe que tudo farei para que o senhor e ela voltem a viver em harmonia, respeitados e estimados dos homens de bem. Antes, porém, de chegarmos a qualquer resultado, exijo do senhor um serviço, a que me considero com direito.

- Tenha V.S. a bondade de declara que serviço é.

- Exijo que o Sr. Bezerra faça ver a sua mulher, em termos que metam fé, que a sua vinda a Pernambuco é o resultado de deliberação sua na qual não tive a menor parte. Há três anos que D. Maurícia vive em minha casa, em tão estreita cordialidade que só nos tem proporcionado horas de contentamento. Todos a têm aqui na maior conta. Eu voto-lhe particular estima, porque não vejo nela somente uma mulher de qualidades distintas, vejo principalmente a educadora carinhosa, a quem minha filha deve prendas de grande preço que constituem o melhor do seu dote. O senhor compreende que em condições tais muito desagradável me seria que, sem fundamento, aliás, tivesse sua mulher motivo para de qualquer modo atribuir-me neste negócio solução que não fosse de seu agrado.

- A minha defesa e a minha glória estão principalmente na espontaneidade com que resolvi procurá-la. Sem essa espontaneidade, nenhuma segurança daria eu de ser no futuro o reverso do que fui no passado.

Quando Bezerra soube que a mulher a e filha não estavam no engenho, grande foi a sua contrariedade. Compreende-se que ele tivesse pressa em ver decidida tão importante questão.

Bezerra dissera, não a verdade inteira, mas só meia verdade a Albuquerque relativamente às diferentes fases de sua vida. Ele, no Pará, fora quase tudo o que pode ser um homem que se deixa resvalar no plano escorregadio do desmando, principiando o escorrego pelo lar doméstico. Vendera tudo o que lhe restava dos poucos bens que a mulher lhe levara em dote, para consumir seu valor na dissipação, no jogo, na malandragem. Tivera várias aventuras, e por uma delas chegara a ir à prisão pública. Quando ficou livre, meteu-se a rábula. Ele não era inteiramente inábil, e porque as necessidades urgiam, chegou, pelo esforço, fazer aquisição dos conhecimentos que no foro se exigem. Por algum tempo se manteve nesta carreira; mas tendo-se sumido dos autos de uma questão importante o documento em que a parte contrária fundava o seu direito, jurou ela vingar-se extrajudicialmente. De feito, uma noite em que Bezerra, ao lado de uma das últimas companheiras lia uma novela, quatro sujeitos mascarados tomaram-lhe as portas da entrada e saída, e dentro de sua própria casa deram-lhe tamanha surra que por morto o deixaram. A companheira desamparou-o nesta hora de suprema agonia, e se não fosse um caridoso vizinho, que dele se condoeu, não sairia da cama senão para a sepultura. Estava ele neste estado, quando a carta de Albuquerque chegou ao Pará. A pessoa mostra-lha; ele cria alma nova. Lembra-se da mulher e da filha, e em voltar à vida conjugal, por tanto tempo desamparada, julga estar a sua salvação; considera-se arrependido; pede a Deus que lhe conserve a vida para que ele tenha, ao menos, ensejo de dar até aos fins dela prova pública de sua emenda. Seus desejos foram cumpridos.

Mas era tamanho o empenho em ver Maurícia, que não se resignou a esperar que ela voltasse a Caxangá. Tendo ficado de voltar no dia seguinte, depois de jantar no Engenho, regressa a Recife e encaminha-se para a casa de Martins.

Entretanto, Albuquerque dava-se os parabéns do desfecho feliz que o triste drama parecia ter.

Ficara toda a tarde no aterrado do engenho com sua mulher. Alice tinha ido passar o domingo em casa de uma parenta; e como se a sorte julgasse necessário todo o tempo a Albuquerque para refletir sobre a nova situação que se desenhava a seus olhos, nesse dia não apareceu nenhum dos habituais freqüentadores da casa.

- Eles ficarão aqui ao pé de nós - dizia Albuquerque a D. Carolina, referindo-se a Bezerra e Maurícia. A casa onde faleceu minha irmã será para eles. É uma boa casa, em que poderão morar o tempo que lhes parecer. Como não tem esse homem nenhum meio de vida por ora, verei o que se há de fazer para que fique arranjado. Se proceder bem, como espero, Paulo casar-se-á, e restar-me-á o prazer de ter chamado ao bom caminho um casal que andava desnorteado, e de ter realizado a felicidade do meu filho.

D. Carolina, depois de algumas reflexões, ou objeções, que Albuquerque destruiu, achou tudo o mais muito bom, e já desejava que todo esse castelo fosse levado a efeito quando uma carruagem do engenho, que voltava, trouxe Maurícia e Virgínia.

Albuquerque e D. Carolina foram ao encontro das duas senhoras.

Pegando da mão de Maurícia, o senhor do engenho, com o sorriso nos lábios, disse-lhe:
- Tenho uma feliz nova que lhe comunicar, D. Maurícia.

- Uma feliz nova! Eu também tenho uma novidade que lhe referir. Mas esta, Sr. Albuquerque, é triste: É a minha desgraça.

Então Maurícia deu alguns passos para D. Carolina.

- Ah! minha boa amiga. A minha tranqüilidade, o meu sossego, acabaram. Foram-se os dia felizes. Ai de mim!
Assim falando, Maurícia lançou-se nos braços da senhora do engenho, e umedeceu-lhe o seio com lágrimas.

VII

Não se pode descrever o assombro de Maurícia ao dar com as vistas em Bezerra na sala do sítio. A medonha visão, que lhe aparecera no boqueirão e se desvanecera quase inteiramente no trajeto para a casa de Martins, surgia agora novamente, envenenando-lhe o espírito e repassando-lhe de fel a malfadada existência. Terríveis ameaças vinham com esta visão merencória e truculenta. O passado de que Maurícia desenterrara a página, que lera a Ângelo, ressurgiu a seus olhos com todos os episódios, dando-lhe a feição de uma tragédia.

- Eu logo vi que não havia de enganar-me - disse ela tristemente.

E acrescentou no mesmo instante:
- Que será de mim, se esse homem me jungir outra vez ao carro de sua tirania?
E porque a esse tempo tinha passado a primeira impressão do assombro, Maurícia volveu imediatamente sobre seus passos. Ângelo, que tinha ainda preso ao seu braço o dela, deixou-se arrastar irresistivelmente. O acaso os unira, e a fatalidade parecia não querer soltá-los. O abismo, em que um esteve perto de cair, ameaçou o outro. O pensamento de escapar a esse abismo era comum a ambos.

- Fujamos daqui, Sr. Dr. Ângelo. Deus me livre de ser vista por meu carrasco. Parece-me que para afugentar-se espavorida a minha liberdade, bastaria que ele me cobrisse com seu olhar sinistro.

Foi profundamente abalada que Maurícia disse estas palavras, arrancos de seu ânimo quase exausto. Sentia-se presa da febre e do frio ao mesmo tempo. Em sua alma, havia fogo e gelo - o fogo do desespero; o gelo do terror.

Deram a andar em demanda do portão, protegidos pelas sombras das árvores a que as da noite aumentavam o vulto e a densidão.

- Há talvez excesso nos seus receios, D. Maurícia - disse Ângelo, depois de um momento de silêncio. Quem a poderá obrigar a viver com este homem? A senhora não pertence ao acaso! Não é dona das suas ações?
- Pertenço-me e sou senhora das minhas ações - respondeu ela. Mas a verdade é que ele me aterra como se fora um duende. Não está em mim deixar de temê-lo. Contra esse homem só fui forte em um momento da vida - o da minha separação.

- Recobre os ânimos - prosseguiu o bacharel. Voltar à companhia dele, ou ficar livre como até hoje, são coisas que dependem exclusivamente da sua vontade. Não tem vivido longe dele durante três anos? Por que o teme? Demais, a senhora não está só. Ao seu lado pulsa um coração virgem e amigo, onde predominam dois sentimentos intensos - o amor e a dedicação. Exija qualquer prova destes sentimentos que ela não será recusada, nem retardada.

Ângelo tinha na voz estranhas vibrações. Seu corpo estremecia nervosamente. Fulgiam-lhe no espírito clarões sinistros. Era a terceira vez que o seu amor se revelava. Maurícia, que se considerava de fato ameaçada no que tinha mais caro de seu, não pode fazer-se desentendida como das outras vezes. Os perigos que se levantaram contra a sua tranqüilidade eram maiores do que os que ameaçavam a sua honra.

- Eu preciso realmente de proteção, Sr. Dr. Ângelo. Dentre os parentes que tenho só confio em Eugênia e no marido; mas a moral severa em que foram educados talvez não lhes consinta fazerem comigo uma barreira contra as pretensões do meu perseguidor. Não lhe farão a menor resistência, quando ele declarar que pretende restabelecer a moralidade no seu lar, não obstante saberem que ele foi o único perturbador da nossa harmonia, a causa da nossa separação.

- Desculpe-me D. Maurícia. Isto que prevê parece-me impossível de realizar-se. Não somente uma, mas muitas vezes, tenho ouvido Martins e D. Eugênia terem para o Bezerra acerbas censuras.

- É verdade, mas logo que se trate de reconciliar-nos, hão de mudar de parecer, e serão os primeiros a promover o nosso congraçamento. Não é isto o que sucede a todas as famílias em casos análogos?
O desânimo entrara no espírito da infeliz senhora.

- Considero-me desamparada. Por que motivo hei de ocultar a minha fraqueza? Se meu marido pretender chamar-me para a sua companhia, terei necessidade de bater à porta de alguém para pedir que me livre das garras do monstro.

Estas revelações íntimas foram arrancadas pela gravidade das circunstâncias. Conhecendo tal gravidade, Maurícia não teve reservas, nem as podia ter. Demais, o afeto pelo bacharel, ao primeiro hesitante e tímido, ia ganhando de instante a instante proporções avultadas em sua alma, que até então fora uma vasta região desocupada. Os temores, os perigos vieram auxiliar em seu desenvolvimento as inclinações do seu coração. No seio da intensa sombra íntima em que nadava sua alma solitária e vacilante, surdira, como para lhe servir de companhia, pirilampo gentil e namorado, que devia ter em breve o luzeiro de um astro. Por que havia de fugir Maurícia à deleitosa impressão trazida pela primeira luz que rompia suavemente a noite do seu coração?
O amor nascia aí, como nasce semente fecunda em solo feracíssimo; e, com o amor, nascia a confiança inseparável deste sentimento, às vezes enganosa, mas quase sempre cega.

Suas últimas palavras adiantaram o jovem bacharel no caminho que sua paixão abrira; nem foram obstáculos ao avanço de Ângelo as cerimônias das relações recentes e o passado dessa mulher que ele conhecia havia poucas horas.

- Eu sempre lhe aconselharia, disse ele, que primeiro procurasse chamar a si o seu cunhado e a sua irmã, minha senhora: mas, se este recurso não surtir efeito, o outro há de surtir. Não tenho fortuna; obrigações, sim, conto-as em grande número; pobre de meios, sou rico de confiança no futuro, tenho grande espírito, alguns amigos e muito amor. Por que não lhe hei de dizer tudo o que a senhora me tem feito sentir?
- Esta linguagem aumenta cada vez mais o meu terror, disse Maurícia, sem reserva, trêmula, confusa, dominada de infantis pavores.

- Por quê? Por quê? - inquiriu o bacharel por extremo excitado.

- Porque tais palavras me advertem que, fugindo de um abismo insondável, aproximo-me de outro abismo tão insondável como o primeiro.

- Engana-se, minha senhora, retorquiu o bacharel. A senhora foge de uma região desolada, e penetra em um asilo de paz e concórdia. Ora, escute. Daqui a trinta léguas, existe uma povoação banhada a leste pelo Atlântico, e ao sul por um riacho de águas cristalinas e puras; ao norte e ao ocidente, essa região é cercada de vastas florestas, em sua maioria formadas por cajueirais imensos. Nesse povoação, moram meus pais. A vida ali é obscura, mas tranqüila. Dos enredos do mundo, poucos penetram neste asilo aberto às grandes afeições. A sociedade dos pescadores lembra o trato com a Graziela; quem ali ama não raras vezes sente em sua alma as grandezas desta concepção de Lamartine. Suponha que, partindo daqui, achasse aí no seio de uma família honesta, hospedeira e afetuosa todos os carinhos e desvelos que tinha no seu lar paterno; suponha que aí, a seu lado, uma alma ardente a acompanharia de manhã e de tarde pelas dunas da praia, ou pelos caminhos que cortam a floresta, sentindo ressoar entro de si a doce harmonia de sua voz; suponha que algumas economias levadas daqui poderiam assegurar-lhe uma existência não opulenta, mas decente e tranqüila; ora, diga-me: se este sonho pudesse realizar-se; se uma voz amiga chegasse aos seus ouvidos e lhe dissesse à puridade: "esta pintura não é mentirosa; esse canto feliz existe; essa vida imaginada, esse sossego longínquo, essa floresta cheia de perfumes, essas praias povoadas de jangadas, pertencentes a pescadores que hão de ser nossos amigos, esse rio de águas cristalinas, esse Atlântico imenso, essa família hospedeira, enfim , esse Éden existe, e podes tu existir no seio dele a senhora teria ânimo para dizer-lhe: "cala-te, que esse mundo, essa vida, é um abismo?"
Maurícia ouvira estas palavras em profundo silêncio. Enquanto Ângelo as proferia, ela absorta em ouvi-las, esquecera-se da triste realidade que a cercava. Seu espírito acompanhava a brilhante descrição, feita pelo poeta. Afigurava-se-lhe um paraíso este cantinho pequeno na terra, imenso em sua alma, infinito em sua imaginação.

- Se eu pudesse viver aí sem remorso, sem inquietações, sem saudades, como havia de ser feliz! - disse ela insensivelmente arrastada pelo fio de pensamentos íntimos que tinha a força de uma cadeia fatal e ominosa.

- E por que não há de poder? - perguntou o advogado, mais escravo de sua exaltação, do que senhor do seu afeto, na realidade difícil de dominar, porque era aquela vez a primeira que rebentava, tinha pujança, a impetuosidade das correntes nativas, que se atiram às pedras, se despedaçam contra elas, mas transpondo-as em fios cristalinos, adiante coligem os seus cristais espalhados e prosseguem a sua vertiginosa carreira.

- Não posso, respondeu Maurícia. Se eu desse esse semelhante passo o mundo cobrir-me-ia de baldões, e o futuro de minha filha correria iminente perigo.

Ângelo sobresteve, sentindo a força destas palavras. mas o seu repentino amor não lhe consentiu larga reflexão. Ele tornou logo:

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