- Mas, se o juízo do mundo lhe causa estes medos, como é que a senhora fala em recusar a convivência com o seu marido? Não se engane, minha senhora. Veja que está colocada entre as duas pontas de um dilema terrível. Cuida que há de poder evitar a língua do mundo e ao mesmo tempo a companhia daquele de quem vive fugindo horrorizada? Isto é impossível. Urge escolher um destes dois princípios extremos, já que não é possível ambos. É questão de preferência. Pensará acaso que vindo a Pernambuco aquele a quem a fatalidade a ligou, e procurando a casa de sua irmã, tem outro intento que não seja o de chamar a senhora aos eu poder? Cuidará que ele fez de propósito esta viagem somente para lhe dizer com o sorriso nos lábios, e brando fulgor dos olhos: "Vim ver-te, porque tinha grandes saudades de ti; porque tuas lindas feições estavam quase todas apagadas de minha imaginação, e eu queria avivá-las para as levar comigo ao túmulo como o derradeiro penhor do nosso afeto?" Se tem essa crença, D. Maurícia, permita-me disser-lhe que ela é enganosa. Os homens, especialmente aqueles a quem o contato com o mundo destruiu todas as brandas pudicícias da honra, não alimentam o coração com estas delicadas iguarias. Desse homem, que já foi o seu algoz, não espere carícias, senão as severidades de uma vingança longamente estudada. Mas, se não lhe parece acertado o que digo, então, voltemos. Bezerra ainda lá está.
Ângelo foi desapiedado. No seu amor, na sua paixão, tornou-se cáustico, mordaz, quase descortês.
São cruéis estas armas quando têm por alvo a mulher adorada; ordinariamente, saem vencedores. Foi o que sucedeu então. Maurícia, que tinha aliás fortíssimos ânimos, não pode resistir a estas considerações. que se pareciam com invectivas, mas vinham saturadas do imenso amor, que inflamava a alma do bacharel. Viu neste uma organização superior, e sentiu prazer em deixar-se vencer por ele. Foi com certa impressão de volúpia deliciosa, posto que triste, que ela respondeu:
- Tem razão, tem razão! Escolherei, e escolha é fácil. Já uma vez afrontei o mundo, e não sai triunfante? Por que tomaria agora o lado oposto? Fugirei de meu algoz enquanto tiver forças para o fazer.
- Mas então, atalhou Ângelo, lembre-se, D. Maurícia, de que há nesta vida um homem de coração puro que estremece de amor pela senhora, e que para lhe poupar o menor desgosto será capaz de toda a sorte de sacrifícios. Por que não assentamos logo o que devemos fazer? Rogo-lhe que não me poupe na obra de sua tranqüilidade. Estou pronto a fazer tudo o que ordenar. Quer a prova? Ordene.
Nesse momento, viram eles ao longe na estrada uns vultos vagos, e logo ouviram o rumor de vozes.
- Estou ouvindo Virgínia falar, disse Maurícia. Vamos ao seu encontro. Quero faze-la voltar. Esperaremos no sítio de D. Rosa pela carruagem do engenho, que não deve tardar. Eu deixei dito que nos mandassem buscar logo que anoitecesse. demais, tenho ainda de escrever a Eugênia. Meu Deus! que será de mim? Tenho a cabeça em fogo.
- Mas... o que resolve? inquiriu Ângelo com insistência.
Maurícia pareceu refletir um momento, durante o qual o bacharel mal pode suster a sua impaciência.
- Se precisar dos seus serviços, respondeu Maurícia, escrever-lhe-ei.
Ângelo, agradecido, tomou-lhe uma das mãos, e beijou-a com frenesi de louco.
- Obrigado, obrigado, disse como quem acabava de entrar em um mundo de delícias, longamente esperadas. Lembre-se de mim. Não sou de todo inútil.
- Olhe, tornou Maurícia. Não me enganei. Aí vem Virgínia com Sinhazinha.
- Para onde vai, mamãe? perguntou Virgínia, tanto que por entre árvores e sombras reconheceu Maurícia.
- Eu ia a tua procura. Voltemos, voltemos.
- Que é que diz, D. Maurícia? interrogou Sinhazinha admirada. Voltar para onde?
- Peço-lhe um obséquio, Sr. Dr. Ângelo, disse Maurícia, dirigindo-se ao bacharel. Dê o braço a Sinhazinha, e diga a Eugênia que um súbito mal- estar nos obriga a voltarmos inopinadamente. Eu estou realmente em termos de cair. Não, não lhe diga nada - acudiu logo. Vou já escrever-lhe.
Sinhazinha não sabia o que pensar do que via e ouvia: e quando ia fazer novas interrogações, Maurícia abraçou-a, e, dando o braço a Virgínia, arrastou esta como quem fugia a um flagelo iminente.
- Tornemos à casa de Martins, disse Ângelo à filha de D. Sofia.
- Mas o que é isto? Que foi que houve?
Ângelo nada respondeu. O que fez foi volver sobre seus passos sem demora.
Maurícia e Virgínia tinham já desaparecido nas sombras da estrada.
Eugênia, vendo Sinhazinha entrar, levantou-se, foi ao seu encontro e, tomando-lhe o braço, encaminhou-se com ela para junto do salgueiro.
Aí estavam a conversar à meia voz, quando uma escrava de D. Rosa lhe entregou um papel. Era a carta de Maurícia.
Eugênia, na porta da casa, leu à luz que da sala se projetava até o pátio, as palavras seguintes:
"Minha querida irmã,
Mal sabia eu que no meio da maior ventura que ainda encontrei na terra, reapareceu o dragão que já devorou os meus últimos bens e agora se propõe a devorar a minha existência.
Fujo dele como quem foge de um mal mortífero. Não te canses em comunicar-me sua chegada. Eu já sei que ele está na terra. Fui eu a primeira que o vi; não; foi meu coração atemorizado, que adivinhou.
Mas defende a minha causa como se fosse tua.
Estas palavras vão ser-te entregues agora mesmo. Naturalmente, hás de lê-las, tendo o meu algoz a olhar para ti.
Rogo-lhe que digas que eu o detesto hoje mais do que nunca.
Tem coragem, minha irmã e amiga, para arrostar com o espectro que me persegue, ameaçando empolgar-me com suas garras que já uma vez me puseram as carnes em sangue.
Não lhe digas onde eu moro, e seja teu particular empenho em dissuadi-lo de se aproximar de mim e tentar uma reconciliação, que tenho por impossível.
Falta-me tempo e espaço para dizer-te tudo o que meu coração sente há um quarto de hora.
Virgínia manda-te um beijo em despedida; eu mando-te lágrimas.
Tua irmã e amiga Maurícia.
Quando Eugênia terminou a leitura destas linhas, Bezerra acabava de contar o que se passara entre ele e Albuquerque no engenho.
Martins ouvira-o atento. silencioso, sem mudar a vista. Não o conhecia. Era aquela a primeira vez que lhe falava. Quando recebera o seu retrato, enviado do Pará por Maurícia alguns dias depois do casamento, Martins dissera como fisionomista experiente: "Esta cara não é a de um homem de bem". Agora, ouvindo o original falar com ares de contrito, vendo-lhe no rosto estampado certa expressão de quem sentia mágoa íntima, disse consigo: "Neste homem, há, pelo menos, um grande arrependido".
Ângelo sentara-se em uma cadeira de balanço que ficava afastada da mesa, ao lado da qual estavam os dois homens conferenciando. Estava pálido, comovido. Ouvira as últimas palavras de Bezerra, tocantes à sua entrevista com Albuquerque, e conheceu que corria risco o sossego de Maurícia. Isto o consternou por extremo. Mas, que fazer?
- O que mais me está custando é não ver minha mulher e minha filha, observou Bezerra.
Martins ia falar, quando Eugênia, penetrando na sala, disse:
- Maurícia, não sabendo que o senhor estava aqui, retirou-se com Virgínia.
- Retirou-se! - exclamou Bezerra com espanto.
E acrescentou logo:
- É singular. Eu tinha que a má fortuna já me havia deixado de mão; mas, enganei-me; vejo agora que ainda conspira contra mim.
Martins interveio:
- Minha cunhada há de voltar. Veio passar com a irmã o dia dos seus anos, e não é natural que se retire, antes de terminado o dia, sem se despedir de nós.
- Maurícia não volta, acudiu Eugênia. Escreveu-me, dizendo que um súbito mal-estar de Virgínia a obrigara a tornar ao engenho.
Ouvindo estas palavras, não pode Bezerra ocultar o seu desgosto.
- Vejo, Sr. Martins, que minha mulher foge de mim. Mas... perdão! disse, moderando a voz, ao dar com os olhos em Ângelo e Sinhazinha que entrara. Parece que tudo isso se deve antes atribuir a ser inoportuno o momento de apresentar-me do que à recusa formal de um dever. Eu procurarei ocasião oportuna. A casa está em festa, e eu sou de mais entre os que devem tomar parte nela.
- Não é de mais. Fique, disse Martins.
Volvendo os olhos a Eugênia, que se conservava silenciosa, Bezerra respondeu:
- Preciso falar-lhe, Sr. Martins, quando estivermos desacompanhados de qualquer testemunhas. Voltarei, amanhã, e rogo-lhe que indique a hora que lhe parecer mais conveniente para a nossa conferência.
- Venha jantar conosco. Depois do jantar, conversaremos.
No dia seguinte, por ocasião de Martins sentar-se à mesa para almoçar, vieram trazer-lhe uma carta. Era de Maurícia. Dizia:
Sr. Martins,
Passei a noite em claro.
Não sei como ainda tenho forças para lhe escrever, tal é a prostração em que estou.
Mas a desgraça não tem piedade, não se condói de suas vítimas.
Estou resolvida a divorciar-me por justiça.
Venho por isso pedir-lhe que se entenda com algum advogado de sua confiança para defender os meus interesses.
Todas as economias que durante estes três últimos anos pude realizar ficam à sua disposição para qualquer despesa com a causa.
Eugênia que não se esqueça de mim.
Sua cunhada e amiga Maurícia
Martins, passando a carta à mulher que estava sentada a seu lado, disse, não sem desgosto.
- Isto não pode ir assim.
Eugênia leu a carta, e não quis almoçar. A tristeza estendia sobre o seu rosto a sombra que a acompanha, destruidora de todo o viço e brilho com que a tranqüilidade, que é quase felicidade, esmalta os semblantes, ainda os menos frescos.
Bezerra não faltou ao prazo dado.
Às quatro horas, sentaram-se ele e Martins ao pé do salgueiro.
- Minha cunhada recusa voltar à vida conjugal, disse Martins, sem mais preâmbulos.
- O senhor tem fundamento para dizer-me isto? - perguntou Bezerra.
- Ela escreveu-me.
- Eu não podia esperar que ela estivesse em outro ânimo; mas nesta importante questão, Sr. Martins, o que deve merece maior peso não é a fantasia de minha mulher, são certos interesses, que não podem ficar expostos a graves prejuízos. Eu desejo, antes de tudo, saber qual é a sua opinião sobre este assunto.
- Não tenho ainda juízo formado a semelhante respeito. Meu desejo é o mais natural possível; é, por isso, trivial. Eu quisera que cessasse todo o motivo de repugnância, que traz o senhor e minha cunhada separados; quisera que voltassem a viver como cônjuges de condição distinta. Mas sua mulher insiste em não querer tornar à sua companhia, e dá razões em que assenta a recusa. Foi antes sua vítima do que sua mulher; antes escrava do que vítima, o que quer dizer que foi vítima duas vezes.
- Não foi tanto assim;
- Ela o diz; eu de nada sei, a não ser o que ela conta.
- O que ela sofreu muitas pessoas que moravam no Pará poderão atestar em qualquer tempo que seja preciso.
Estas palavras foram ditas por Eugênia, que viera tomar parte na conferência.
Em seu rosto, ordinariamente banhado em franca expressão de jovialidade, não se via impressa somente a tristeza que de manhã trazia, mas também certos tons de desgosto, que eqüivaliam às primeiras manifestações do ódio incipiente. Que coração, por grande que seja, não será capaz de acender-se em paixões hostis diante do sacrifício de um dos seus primeiros afetos?
Bezerra não se demorou em confutar aquele pensamento.
- Há muitos difamadores e intrigantes por toda a parte. Eu não nego o que na família de minha mulher ninguém ignora; Não fui mau nos primeiros tempos depois do meu casamento; o que tive foi pouco juízo. Maurícia era por esse tempo muito moça, e não tinha mais juízo do que eu.
- Minha irmã - acudiu Eugênia, atalhando a proposição de Bezerra - sempre foi muito ajuizada.
- Em minha companhia - prosseguiu Bezerra - deu provas de caprichosa e tenaz. Contrariou por diversas vezes minhas determinações; alimentou, em lugar de apagar, o incêndio que as minhas pequeninas loucuras acenderam entre nós. Mas depois e uma separação de três anos, depois do que eu e ela temos sofrido, depois de sua resignação e do meu arrependimento, que razão poderá justificar a sua tenacidade em permanecer fora da única companhia digna da mulher casada - a do seu marido?
- Quem é que pode assegurar que a antiga desarmonia não se renove?
- Estou pobre, e já passei da metade da vida. Sinto em mim moderadas, senão extintas, todas as paixões que me exaltavam a imaginação, e me incitavam outro do que fui. Demais, tenho uma filha moça, e o dever de tratar do seu futuro.
A vida, que passara nos últimos tempos, cheia de peripécias, variada em episódios, atravessada de dificuldades, curtida de desgostos, desenvolvera em Bezerra o espírito, apurara as suas faculdades, e do que era uma habilidade comum fizera quase um talento.
Bezerra não se apartou mais da conferência. Aduziu várias e abundantes considerações para provar a alta conveniência que o termo do escândalo devia trazer. Falou com tanta fecúndia que chegou a comover Eugênia, e a abalar a opinião que tinha dele Martins. Foi fatal aquela tarde para Maurícia. No mesmo dia recebeu ela esta carta que Martins ditara e Eugênia escrevera.
Minha irmã do coração
Acaba de sair daqui teu marido, que jantou conosco.
Depois do jantar, sentou-se com Martins junto do salgueiro, e começou a contar a sua história.
Quanto tem sofrido aquele pobre homem! Não o avalias.
Não nos ocultou a menor circunstância da sua vida... As faltas, os erros, as culpas tudo nos referiu, pedindo perdões. Coitado! É digno de compaixão.
Eu, que estava muito prevenida contra ele, e que entrei na conversação, sem que ele o esperasse, inteiramente resolvida a combater tudo o que ele dissesse, não pude deixar de mudar de opinião quando lhe ouvi a relação dos seus infortúnios.
Não te agastes comigo, minha querida irmã, pelo que vou dizer.
A minha opinião é que teu marido tem padecido muito mais que tu, Tem padecido doenças, desamparos, desprezos, e até prisões; e, pelo que diz, está inteiramente arrependido dos males que te deu a sofrer, e deliberado a não ter dora em diante senão extremos de amor para ti e tua filha.
Não sou suspeita neste assunto. Bem sabes quanto eu detestava o homem que foi a causa dos maiores desgostos que temos curtido na família, depois da morte de nossos pais.
Mas ele mostrou-se tão contrito, que só merece que o acolhas de novo ao teu coração.
Por que não hás de viver com o teu marido, quando é ele que te procura?
Eu sei que tu estás muito bem aí; que na casa onde estás todos te estimam; mas lá diz o ditado - Casa alheia, brasa no seio.
Tem paciência, Maurícia. Sou mais velha do que tu, posso aconselhar-te.
Torna de novo a ter casa.
Não irás para longe; por isso há de ter-nos sempre a teu lado para velarmos pela tua segurança e pelo teu sossego.
Se não me sentisse um pouco adoentada desde a noite dos meus anos, metia-me num carro e ia abraçar-te.
Adeus. Até breve.
Recebe afagos e saudades de
Tua irmã e amiga
Eugênia
Ainda bem Maurícia não tinha concluído a leitura destas linhas, quando um moleque lhe anunciava, por parte de Albuquerque a visita de Bezerra.
Maurícia levantou-se quase louca.
- Dize-lhe que não lhe falo, que não lhe quero falar - disse pálida, trêmula, sentindo-se próxima do desespero.
E trancando-se por dentro, recomeçou a leitura mal concluída da carta que lhe dava tanto que sofrer.
Depois de algum tempo, um pensamento sinistro atravessou-lhe o espírito, já combatido por tantos sopros da tormenta que se desencadeara sobre a sua cabeça.
E Virgínia?! - exclamou sobressaltada, ligando este nome querido à ordem de idéias que lhe tumultuavam em confusão e tropel no entendimento. Se ele lembrar de roubar-me Virgínia, o que será de mim? Nem quero pensar nisso.
Incontinente correu à porta, abriu-a violentamente, e atirou-se à escada, que ia ter na sala de jantar. Ainda não tinha descido os primeiros degraus, quando ouviu soluçar uma pessoa que subia. Era Virgínia.
- Mamãe! Mamãe! - dizia por entre lágrimas a menina.
Diante deste inopinado espetáculo, aflição íntima da desventurada mãe teve tréguas. Maurícia esqueceu tudo o que se referia especialmente a si, para só inquirir a causa ainda ignorada do pranto da filha.
- Que te aconteceu, Virgínia, que te aconteceu? - repetiu uma, duas e mais vezes, como em delírio.
- Está tudo acabado, mamãe! Meu Deus, meu Deus, como poderei viver sem Paulo?
- Sem Paulo? perguntou Maurícia cada vez mais dolorosamente surpreendida. Mas o que foi? Aconteceu-lhe algum desastre? Morreu? Casaram-no com outra?
- Querem privar-me de Paulo?
- Quem? Quem? Oh, meu Deus, se alguém se atrevesse a tentar contra a tua felicidade, eu teria para quem o tentasse, fosse homem ou mulher, todas as armas que o meu esforço e condição podem forjar. Como foi isso, Virgínia! Conta-me tudo.
- Mamãe! Mamãe! Oh, como me custa dizer o que ouvi.
- E que foi que ouviste? Quero saber o que foi. Não sei o que se passou, mas quase adivinho. Não esteve aí um homem, que diz ser teu pai? Foi ele que te ameaçou com a desgraça, não é verdade? Cedo começa o monstro.
A menina soluçava e as lágrimas teimosas e abundantes embargavam-lhe a voz.
Todavia, pode, dominando a sua impressão, referir o que se passara na sala de visitas.
- Meu pai abraçou-me, e deu-me um beijo na face. Então, o Sr. Albuquerque lhe disse que ele voltasse em outro dia, que havia de ser mais feliz na sua visita. Tanto que meu pai saiu, o Sr. Albuquerque dirigiu-me estas palavras: "Virgínia, se sua mãe não voltar para a companhia de sua pai, Paulo não casará com você. Eu não tenho meu filho para a filha de uma mulher que teima em viver separada do marido e lhe dá as costas quando ele a procura. Suba, e diga à sua mãe que a sua felicidade, Virgínia, está dependendo dela. Sem o preenchimento desta condição - a de restabelecer a união conjugal, poderá ser ainda por algum tempo a mestra de minha filha, mas nunca há de ser a sogra do meu filho." Ele entrou no gabinete, e eu subi, mamãe, para lhe pedir, pela alma dos meus avós, que não seja a causadora da minha desgraça.
Maurícia esteve um instante sem dizer palavra. Era cruel a colisão que se apresentava ao seu espírito - ou a felicidade de sua filha ou a sua felicidade.
- Não tenho ninguém por mim, disse com amargura. Todos conspiram contra o meu sossego. Meu cunhado, meu protetor, minha própria irmã, minha própria filha, parecem dizer-me nas palavras que me dirigem: "exigimos o teu sacrifício!" Oh, como são cruéis os grilhões que impõem o casamento! Fatal sociedade, em que um há de ser inevitavelmente a vítima do outro!
Ouvindo estas acerbas palavras , que Maurícia proferia entre lágrimas, Virgínia, abraçando-se com ela, disse-lhe ternamente:
- Perdoe-me mamãe. Não chore por meu respeito.
Maurícia soluçava com o rosto entre as mãos.
Passados alguns momentos, Maurícia enxugou as lágrimas, ergueu a cabeça e volveu à roda de si um olhar a modo de desvairada; era simplesmente perscrutador. Meiga e triste como sempre, tinha Virgínia agora os olhos postos em sua mãe. Esta compreendeu imediatamente o pensamento daquela. Era uma súplica que ela lhe fazia mudamente, mas do íntimo da alma. A tímida menina não se animava a repetir com os lábios as palavras de há pouco, que tinham suscitada à aflita mãe as acerbas expressões indicativas de sua grande pena.
Mas Maurícia, contra o seu costume, teve bastante ânimo para lhe não deferir a súplica.
- O que quer o Sr. Albuquerque é impossível, Virgínia - disse ela resolutamente. Se a tua felicidade depende de ajuntar-me novamente àquele de quem me separei, sentindo nas faces a impressão de uma ameaça e no coração os espinhos de inumeráveis afrontas, então serás infeliz, pobre filha, porque semelhante sacrifício é superior às minhas forças. Não me separei de teu pai por leviana, caprichosa ou desonesta; separei-me por ter conhecido que maior desgraça seria para mim e talvez para ele, continuarmos unidos do que separados. O muito que então padeci está constantemente a pôr-me diante dos olhos o muito que deverei padecer se tornar à sua companhia, na qual não tive uma impressão de verdadeiro prazer que resgatasse as humilhações, as contrariedades, os vexames, os desgostos que me causou, sem dar mostras do menor pesar, antes revelando que se comprazia em ver-me representar o papel de vítima. Tem paciência, minha filha. Deixaremos em poucos dias esta casa. Outra há de ter aberta para nós as suas portas. Não tenho vivido até hoje do meu trabalho? Ele não me há de faltar fora daqui. Tenhamos confiança em nós.
Virgínia, como se acabasse de ouvir a sua sentença de morte, mostrou no rosto dobrada expressão de mágoa íntima. Levantou-se e pegou uma das mãos de sua mãe, que levou aos lábios por certo requinte de ternura.
- E Paulo, mamãe? - interrogou com voz chorosa e comovida.
Nesse momento, bateram à porta do quarto. Virgínia desdeu a volta da chave, e a luz da vela que ardia sobre a mesa a um dos ângulos do aposento esclareceu a face de um homem. Era Albuquerque.
Maurícia foi ao seu encontro. Ele pegou-lhe da mão e conduziu-a para junto da mesa. Sentaram-se aí, tendo ambos nos rostos os tons sombrios do pesar que traziam no espírito. Foi Albuquerque o primeiro que falou.
- Não quis deixar para amanhã o que eu devia dizer-lhe já.
- Estimo muito saber que o senhor dá a devida importância a um acontecimento que parece destinado a influir diretamente na minha vida.
- Que é isto, D. Maurícia? - interrogou o senhor de engenho com ares de quem estranhava o procedimento dela, que dera causa à sua visita. O que foi que tão inesperadamente a compeliu a praticar um ato contrário a todo o seu passado de há três anos? Todos notamos que a senhora, que sempre deu provas de ajuizada, se recusasse a aparecer a seu marido, cuja volta à minha casa fora assentada por mim no pressuposto de que lhe mereceria, quando não a satisfação do seu dever logo que eu chamasse para ele a sua atenção, a prática ao menos de uma delicadeza.
- Neste ponto, o senhor tem razão, e eu peço-lhe desculpa, disse Maurícia. Fui descortês para o senhor, mas não podia deixar de ter semelhante descortesia quando o meu sossego exigia que destruísse imediatamente no espírito do meu marido qualquer esperança de reconciliação que ele alentasse. Eu devia ser cruel para esse homem, embora hoje se considere honrado com o título de meu marido, outrora puro objeto de desprezo. Eu precisava dar uma demonstração decisiva da minha eterna esquivança a quem só esquivança me merece.
Albuquerque não esperava de sua hóspede palavras tão positivas.
- Quanto me parece extraordinário o que acabo de ouvir! - disse. É então certo que a Sra. D. Maurícia insiste na sua recusa? É então certo que a senhora de educação distinta, de moralidade até hoje inatacada, que recebi em minha casa, quando as casas dos seus parentes se lhe mostravam fechadas, umas por não querem eles recebê-la, outras porque não o podiam, está resolvida a deixar-me ficar mal em um empenho em que entrei com a minha honra? Por mais que o diga, não acredito nas suas palavras. Mas não é isto o essencial nesta ponderosa questão. Não é a descortesia, não é o desamor, não é a ingratidão...
- Senhor, atalhou Maurícia, mereço-lhe mais consideração e mais justiça. Sou sua hóspeda, é verdade; devo-lhe atenções e gratidão, é certo; mas não pratiquei antes do ato que ainda se discute, nenhum outro que lhe dê o direito de magoar-me gratuitamente, quando já não tenho no meu coração espaço para novas mágoas.
Albuquerque sobresteve durante um momento a esta justa e elevada represália.
- Não se ofenda, observou com moderação; não vim aqui para ofendê-la. Voto-lhe particular estima. Quero vê-la superior a qualquer juízo menos digno. Mas ponhamos de parte estas circunstâncias. Quer a senhora saber ao que dou a primeira importância neste assunto? Não é às relações próximas ou remotas que porventura me liguem a ele; não é a parte com que entre nele a sua pessoa; é ao futuro desta inocente e infeliz menina para quem tenho hoje os sentimentos de pai.
Assim falando, o senhor do engenho apontava para Virgínia, que, sem proferir uma só palavra, mas sem perder nenhuma das que se proferiam, tinha os seus lindos e meigos olhos a relancearem inquietos e observadores, ora para Albuquerque, ora para Maurícia; e no que dizia cada um dos dois buscava penetrar o segredo de sua duvidosa sorte.
- Agradeço-lhe o interesse que revela por esta menina que eu considero órfã de pai, tornou Maurícia; mas se o Sr. Albuquerque sente o que diz (e eu não tenho razão para pensar que não sente), por que prolonga uma situação que lhe deve trazer dissabor, e que está em suas mãos extinguir neste momento?
- Em minhas mãos! - exclamou o senhor do engenho com manifesta estranheza. O que está em minhas mãos ou eu já fiz, ou o farei oportunamente. Põe em dúvida o empenho que tenho empregado em trazer a harmonia onde ainda reina contra a minha vontade a desinteligência mantida por uma das duas partes? Queira a senhora renunciar ao seu capricho, que verá amanhã mudada toda esta situação desagradável. Queira-o, que terá em poucos dias casa para morar com seu marido, e ele terá meio de vida pouco rendoso, mas decente. Queira-o, que sua filha dentro em pouco estará amparada e verá o seu futuro inteiramente livre das incertezas que atualmente o escravizam.
- Permita-me fraqueza?
- Pode dizer o que quiser.
- Não vejo razão, Sr. Albuquerque, em fazer depender de um passo que me repugna, porque nele adivinho o meu acabamento, a sorte de minha filha a quem vota sentimentos paternais de que tem dado manifestos testemunhos.
- Não vê razão!
- Que é que tem, senhor, que eu continue separada do meu marido, para que Virgínia não seja digna de Paulo?
Ouvindo tais palavras, Albuquerque franziu os sobrolhos com evidente mostras de desagrado. Neste franzir subira-lhe à face o preconceito de muitos anos. O passado orgulho da família estava ali expresso.
- A senhora teve coragem de me dizer isto? - perguntou ele, inteiramente mudado. Repugna à senhora renunciar a uma opinião pouco justificável e muito prejudicial à sua reputação de discreta e ajuizada; a mim, porém, não deve repugnar, no seu entender, a ligação de meu filho com uma família que, se a alguns pode parecer simplesmente infeliz, pode parecer a outros, por esta mesma infelicidade, inferior a uma aliança sem nota! Vejo que não nos entendemos. Proceda como quiser, minha senhora. Tenha, porém, uma certeza, que Deus queira não lhe seja fatal: se sua filha vier a ser infeliz, não serei eu vítima do remorso que esta eventualidade deve ocasionar.
Albuquerque saiu sem dizer mais uma palavra. Maurícia e Virgínia, também, nada disseram, mas, enquanto a primeira parecia absorta em ocultos e imperscrutáveis pensamentos, a última desafogava em lágrimas e soluços a sua desventura.
Seriam oito horas da noite quando um novo personagem foi introduzido no aposento de Maurícia. De todos era o que mais temia. Era Paulo.
Trazia no gesto a expressão de indescritível tormento interior.
Tanto que ele entrou, Virgínia correu a encontrá-lo; abraçou-se com ele; e confundiu com as lágrimas dele as suas lágrimas.
- É seu pai que quer esta desgraça, Paulo - disse-lhe Maurícia.
- Como tudo se mudou num instante! - respondeu o rapaz. Éramos tão felizes, e de repente a desgraça veio sentar-se entre nós. Meu Deus, eu não hei de ter ânimo para ver esta separação.
- Não havemos de separar-nos, não havemos de separar-nos! - exclamou Virgínia. Paulo, Paulo, eu não posso viver um momento sem você.
- Nem eu sem você, Virgínia.
- Mas se o Sr. Albuquerque assim o quer... - acrescentou Maurícia.
- A senhora não há de sair daqui, D. Maurícia. Não haverá forças humanas que possam tirá-la da casa de meu pai. Seria preciso que eu morresse primeiro. Antes disso, não. Virgínia não sairá daqui!
Estes e outros juramentos, estas e outras exclamações, repetiram-se várias vezes, por entre lágrimas, que confundiam os três personagens de tão comovedora cena.
Às nove horas, vieram chamar Paulo da parte de Albuquerque. Ele começava a condenar aquelas demonstrações.
Querendo D. Carolina repetir com Alice pela quarta ou quinta vez a sua visita ao aposento de Maurícia, a fim de tentar novamente resolvê-la a realizar o que ela recusava por considerar tal realização a prática do seu suicídio, Albuquerque proibiu positivamente que levasse a efeito esta nova tentativa.
- Já não é digno de nós, nem decente qualquer esforço neste sentido.
No outro dia, ainda muito cedo, Paulo subiu ao quarto de Maurícia.
Ele tinha passado a noite em claro. Trazia as feições demudadas da longa insônia e das lágrimas choradas.
De fora, disse a Maurícia que lhe queria revelar uma coisa antes de ir para o serviço. Tinha natural explicação esta visita matinal. Ao descer na véspera para o seu dormitório, Faustino, moleque de serviço da casa, muito pegado com Paulo, da sua mesma idade, lhe revelara em segredo uma suspeita que tinha. Parecia-lhe que Maurícia deixaria o engenho naquele dia, depois que Paulo partisse para as lavouras e Albuquerque para a cidade. A suspeita de Faustino tinha racional fundamento. No dia anterior, Maurícia mandara uma carta por ele a certa senhora, que morava na cidade, a qual, ao entregar a resposta, lhe dissera: - "Diga a D. Maurícia que pode vir amanhã sem susto. Há de achar-me com as portas e os braços abertos para recebê-la." Essa senhora - D. Joaquina Vilares - era mãe de uma condiscípula de Maurícia, com a qual tivera boas relações no colégio. A amiga de Maurícia falecera, quando ainda ela estava no Pará; mas, ultimamente, por ocasião de uma reunião familiar em casa de uma amiga comum, Maurícia e D. Joaquina se tinham dado a conhecer. D. Joaquina era viúva, não tinha filhos, e vivia pobremente de fazer doces de carregação. No engenho, ninguém conhecia essas relações.
Paulo, achando jeito no que Faustino lhe dissera, quis voltar imediatamente ao pavimento superior, mas a vontade de seu pai era para ele a mais sagrada das leis. Pôs-se, então, a pensar no que havia de sobrevir-lhe depois da ausência de Virgínia. O pensamento que lhe ocorreu foi o de que não teria forças para sobreviver a semelhante desgraça. Dócil, brando, terno como era, em vão procurou em si espíritos em que se elevar até à altura das circunstâncias. -"Hei de morrer, hei de morrer de desgostos, de saudades" - dissera ele. Para acrescentar o vulto do fantasma que encheu a sua imaginação, antes povoada de risonhas formas em que se refletiam todas as luzes do primeiro amor e se desenhavam todos os sorrisos dos vinte anos inocentes que ainda passaram sobre uma cândida existência, acudiu-lhe à lembrança um fato que muito o impressionara alguns anos antes. O seu professor, talvez para lisonjear o amor-próprio de Albuquerque, se não foi por natural prazer de proporcionar ao discípulo uma lição sã e edificante, escolhera a história de "Paulo e Virgínia" para um livro de leitura. Paulo nunca mais se esqueceu de tão sublime história, e o que nela mais o impressionara fora a morte do seu homônimo - e a morte pelas saudades, pela perda daquela a quem dedicava o seu insigne afeto. Agora todo o poema de Saint-Pierre surgiu-lhe na imaginação como uma ameaça, como um estranho agouro. Mais de uma coincidência aumentou não sem razão os seus supersticiosos pavores. Seu nome, o da menina, a ausência desta eram reais; por que razão não havia de realizar-se e também o de seu acabamento, como o do Paulo da história, que ele julgava tão verdadeira como a sua própria história?
Entrando no quarto de Maurícia, as palavras que proferiu foram estas:
- Virgínia, Virgínia, eu sei que não nos havemos de ver mais.
- Quem lhe disse isto, Paulo? - atalhou Maurícia.
- Quem me disse? Ninguém, mas eu sei que há de ser assim. Eu sei que a senhora deixará hoje o engenho e me levará Virgínia. Não tenho forças para impedir esta separação; quem tem não a quer impedir; o que me resta pois?
- O que lhe resta? Crer no futuro. trabalhar e esperar.
- Então a senhora cuida que sem Virgínia eu poderia trabalhar e esperar? Eu não quero a vida sem Virgínia, não quero viver um momento sem ela.
- Que está dizendo, Paulo? - interrogou Maurícia com sobressalto, que não pode disfarçar.
- E porque não hei de viver muito tempo sem Virgínia, aqui lhe trago o que eu estava ajuntando para lhe dar no dia do meu casamento.
Paulo tendo dito tais palavras, apresentou a Maurícia, para que a recebesse, uma caixinha preta sem entalhes e sem relevos.
- Mas o que vem a ser isto?
- Há de achar aqui o dinheiro que há três anos eu guardo. Ele pertence à Virgínia. Para que o quero, se ela me é arrebatada, e eu fico só e triste? Receba este penhor da minha infeliz afeição. Eu não quero nada para mim desde que perco Virgínia para sempre.
- Para sempre! - exclamou banhada de lágrimas a inocente menina. Paulo, Paulo, não diga isto. Não repita estas palavras que não terei forças para as ouvir sem morrer.
Paulo e Virgínia estavam abraçados, e as suas lágrimas pareciam-se com dias fontes que deviam não secar nunca mais.
A luz risonha do sol que nesse momento penetrou no quarto, através dos vidros da janela, veio tirar o rapaz do longo e desalentado amplexo. Em baixo, já se ouviu a voz de Albuquerque. Os negros tinham partido para o serviço.
Era tempo de deixar o aposento.
Paulo pode separar-se de Virgínia, mas não pode ainda suster o pranto. Deu o andar para a porta, procurando encobrir o rosto aos olhos de Maurícia. esta chorava como ele, e tinha como ele, na alma a maior das angústias.
Quando Paulo ia já a desaparecer, Maurícia percorreu com um olhar o âmbito do aposento. Virgínia estava caída com a cabeça entre as mãos sobre a cama, onde curtira durante a noite a sua imensa dor. Seus soluços abafados repercutiram no coração de Maurícia como os ecos de fúnebre surdina. Em presença desta cena angustiosa, ela - a comovida mãe - não pode senhorear o seu sentimento.
Chamou Paulo.
- Paulo, venha cá. Não se entristeça. A tristeza não quadra bem a vocês, meigas crianças. Sua felicidade triunfou. A vencida sou eu. O meu sossego, a minha liberdade, estes imensos bens da vida, este, sim, acabo de perdê-los neste momento. Sobre as suas ruínas levantam vocês o edifício de sua ventura, que Deus há de abençoar. Sustenham as lágrimas. Seja eu a única pessoa que nunca as tenha estanques senão na sepultura. Leve consigo as suas economias, e diga a seu pai que estou resolvida a reconciliar-me com o pai de Virgínia. Não posso mais resistir.
Paulo e Virgínia, por impulso simultâneo, difícil de explicar-se, mas fácil de compreender-se, correram a abraçar aquela que tinha o poder de os fazer chorar e de os fazer sorrir como se fora uma divindade misteriosa e fatal.
Em vão, esperou Ângelo que Maurícia lhe escrevesse, pedindo-lhe o auxílio dos seus serviços, segundo ajustado entre eles. Decorrera já uma semana depois da festa que os reunira em casa de Martins. Era tempo bastante para uma resolução. Mas o silêncio de Maurícia sobre o prometido era absoluto.
Indo no domingo à casa do amigo, foi sabedor dos meios empregados por ele, Albuquerque e Eugênia para induzirem a mãe de Virgínia a dar o passo que ela condenava. Eugênia contou-lhe as coisas pelo miúdo; repetiu-lhe trechos da carta que escrevera à irmã; os mais decisivos ela os tinha de memória, e fácil por isso lhe foi reproduzi-los. Não era, porém, ainda conhecida a última resolução de Maurícia, e os parentes desta mostravam-se inquietos e apreensivos. Em sua opinião ela havia de usar a maior tenacidade, antes de decidir-se pela solução que eles indicavam e tinham por justa e conveniente.
Ângelo não pode ocultar o seu espanto ao vê-los assim mudados. Pediram o seu parecer sobre o ponderoso objeto que os trazia preocupados; ele habilmente fugiu de se declarar a semelhante respeito.
Voltou à casa inteiramente entregue ao seu violento afeto, mau conselheiro, mas absoluto senhor das suas ações. D. Rosalina conheceu-lhe a diferença, e atribuindo o estado da excitação moral, que notou no sobrinho, a uma paixão passageira tão comum na mocidade, dirigiu-lhe gracejos para os quais ele só teve em resposta o silêncio.
Ângelo inclinou-se sobre a chaise-longue , que tinha no seu quarto, ao pé da janela que dava para o jardim. Seus olhos azulados volveram-se para o arvoredo contíguo em demanda de uma idéia decisiva. Os raios de sol ajudados da viração brincavam coma folhagem dos cajueiros e das mangueiras, vertendo sobre a solidão os vivos tons da sua luz. Havia aí serenidade e paz, que contrastavam com o desvairado da vista e o revolto dos pensamentos do bacharel. Este contraste foi uma como advertência para que no fogo do seu cérebro, e não na suave tepidez da Natureza buscasse ele caminho por onde devia dirigir-se a próximo e inevitável abismo.
De feito, o caminho, para não dizer os desvios, por onde a razão se perde em demanda do desconhecido, depressa se lhe mostrou, não coberto de puas traiçoeiras e mortais, mas juncado de rosas esquisitas, que a sua imaginação tingia com as cores afogueadas da sua exaltação.
Passados alguns instantes, Ângelo levantou-se. Tinha tomado uma resolução. Ao pé da estante, que olhava para o jardim, estava o baú onde era guardada a sua roupa branca. Ângelo abriu-o, tirou de dentro uma caixinha de pau-cetim, e de dentro vários bilhetes de banco. Eram as suas economias. Contou-os um por um. "É pouco, disse consigo, mas basta para as despesas urgentes". Tirou alguns desses bilhetes, que meteu na carteira, e guardou o restante no lugar onde estavam antes.
Sentou-se depois à mesa de estudo, e escreveu uma longa carta à Maurícia. A pena correra no papel nervosamente. Nessa carta, havia um poema ou antes um corpo de delito; mas os seus olhos não viram nela o delito, senão a poesia, que o coração em febre vertia como revelação de altos intuitos.