Ao sair, disse a D. Rosalina que não esperasse por ele para jantar. Disse mais que devia voltar de noite; que tinha saudades dos pais; que talvez, muito breve, realizasse uma viagem à povoação, onde moravam. Três horas depois, tinha contratado com um barcaceiro da sua confiança uma viagem àquela povoação para qualquer dos próximos dias.
Ângelo delirava. O seu talento enfraquecia e deixava se vencer na luta com o seu amor. Não podia ser diferente o resultado dessa luta, visto que ele tinha o coração virgem, e aquele amor era o primeiro que aí despertava. Posto que poeta, nenhuma das belezas humildes da povoação o apaixonara no meio dos passados dissabores. Alguma vez em que os seus afetos, quase afogados nas ondas do infortúnio, sobrenadavam como náufragos, e demandavam região hospitaleira, onde aportarem, esse região não era o amor; a mulher não era o fanal que surdia diante dos olhos do desnorteado, prestes a submergir-se no iroso pélago; o seu fanal era a Natureza, para qual o náufrago se voltava com confiança que não se divide, antes se concentra em um ponto único.
Ângelo fora do Recife, onde se acostumara a ver mulheres de sedutora beleza, que ostentavam, com suas graças naturais, os ouropéis do luxo e as galas com que a vaidade se alimenta.
Em lugar dessa divindade rutilante, que devesse à arte do toucador a metade dos seus primores e milagres , ele fora achar na praia longínqua e pobre a filha do pescador com seu vestidinho curto e estreito, as chinelas grosseiras, o cabelo desleixadamente atado, uma flor entre as tranças, uma fita na cinta. Convivendo com os pescadores, ouvira referir-se ás novenas na capela, aos fandangos , aos bois , tradicionais brinquedos com que se costumam celebrar o Natal por aquelas praias, onde ainda se observam muitos dos hábitos do tempo do rei velho. Nenhuma dessas belezas rústicas lhe falara, como as jovens praianas das representações teatrais, dos bailes ruidosos, das festas esplêndidas, que ele, mau grado seu, não podia esquecer no meio dos seus desgostos, e cuja lembrança, avivando-lhe a dor de as haver perdido, mais aumentava a intensidade deles. Então, quase descrente, o espírito fatigado de procurar em vão ídolo para seu culto, o coração ermo de amor e só povoado de sombras que aí projetavam as asas negras do infortúnio, voltava-se aos painéis da Natureza, e em contemplá-los achava força e alentos afim de não morrer de todo. Eis porque tornado ao Recife, trouxera a alma desacompanhada, sincera e impressionável.
Às cinco horas da tarde, Ângelo entrou na Estrada Nova. Alugara um cavalo na melhor cocheira do Recife e seguira amparado das primeiras sombras da noite, manto protetor dos namorados.
Era levado ali pela intenção de encontrar-se com Maurícia; mas, podendo acontecer que tal encontro se não realizasse, conduzia a carta que sabemos, e que ele esperava ter meios seguros de fazer que fosse entregue. Não são difíceis nos engenhos mensageiros dos que este serviço requeira.
O engenho ficava antes da povoação; mas Ângelo, ou porque havia ainda muito ar de dia ou porque imaginasse que podia encontrar Maurícia no povoado, passou pelo engenho, e foi parar à porta de uma cocheira, onde devia deixar o cavalo, a fim de ser menos ruidosa a sua excursão.
Ainda nenhum namorado foi melhor favorecido pelo acaso do que o bacharel neste arriscado passo. Mal descavalgava, um vulto simpático, em que ele imediatamente reconheceu Maurícia, passava pelo outro lado da estrada. A cocheira estava na última casa da rua, e entre ela e o engenho metia-se uma centena de braças. Este espaço era despovoado, e ordinariamente deserto. De certo ponto em diante, começava o cercado. Passadas obras de cinqüenta braças, era a pesada porteira. Os espaços que ficavam desta para o Recife e para Caxangá eram numa parte descobertos, mas em outras apresentavam-se protegidos por árvores sombrias.
Maurícia tinha saído a visitar uma discípula que morava no povoado. Era sempre acompanhada de Virgínia que ela se dirigia ao Caxangá para tomar lição a várias alunas que ali tinha; mas Virgínia saíra a passeio com Alice e Paulo para as bandas de Apicucos, quando lhe vieram dizer que aquela discípula estava doente. Os dias que se tinham passado depois das cenas representadas nos aposentos de Maurícia, esta os vivera na mais acerba tristeza. Comunicada a sua heróica resolução a Albuquerque, ela não descera mais do sobrado senão para as refeições. Não tinha olhos, não tinha alma, senão para ver interiormente a sua desventura, e pensar na incerteza do seu destino. Quando uma semana antes voltara de estrada de João de Barros, o pensamento que prevalecia entre outros muitos que lhe tumultuavam no entendimento era o de sacrificar todas as conveniências à manutenção da sua independência. Evidentemente, esta criatura estava fora do seu natural, quando não se dirigia por si mesma, quando era obrigada a aceitar o governo estranho para seus atos. Conhecendo o que valia, viera resoluta a defender a sua liberdade. Seu amor incipiente, mas já grande, fortificara-a neste intento e chegara a inspirar-lhe a carta que escreveu a Martins. Mas as circunstâncias tinham sido mais poderosas do que a sua vontade, tinham imposto cruelmente ao seu espírito a solução que ela mais temia, e que considerava a mais contrária ao seu futuro sossego.
Este golpe enfraqueceu as suas faculdades. Sobreviera o desânimo, e em conseqüência o isolamento. O piano, termômetro do estado dos seu afetos, tornara-se silencioso. Enfim, Maurícia caíra nessa atonia moral, que parece indicar um estado mórbido do espírito, quando não passa de uma lenta consunção do coração. Mas aquela tarde uma como reação, proveniente talvez da impressão que produzia nela a notícia de estar enferma aquela amiga para quem tinha grandes preferências, viera dar-lhe novos alentos.
Se tal não foi a razão do seu procedimento, teve este por origem motivo diverso, mas correlativo. Bezerra, depois da última visita, por ocasião da qual Maurícia se negara a aparecer-lhe, não tornara ao engenho. Maurícia suspeitou que ele viria aquela tarde; e, pois não tinha ainda as forças que semelhante recepção exigia, aproveitou-se da aludida circunstância, no pressuposto, talvez falso, de diminuir uma dor que o espaçamento antes aumentava. O capricho natural da mulher, achou, então, ocasião para exercitar seu predomínio. Maurícia escolheu um dos seus melhores vestidos. Ao cabelo, que há três dias andava quase despenteado, deu ela forma graciosa que, ostentando a sua opulência, lhe deixou livre a ampla fronte, e descoberto o pescoço claro e esbelto. Maurícia estava encantadora.
Ângelo alcançou-a tanto que ela entrou na quadra deserta do caminho.
- Não podendo esquecer-me da senhora, vim pessoalmente receber suas ordens.
Maurícia não soube a princípio o que dizer. A sua surpresa fora grande. Confusão de prazer e descontentamento, de confiança e temor foi a primeira impressão do seu gesto, que ela não pode ocultar.
- Como eu estava longe de esperá-lo por aqui! - disse revelando com franqueza toda a sua violenta impressão.
A esse tempo Ângelo tinha-lhe oferecido o braço, e caminhavam juntos.
- Sabendo que todos aqueles de quem a senhora devia esperar auxílio tinha tomado o partido de seu marido, julguei do meu dever vir oferecer-lhe os meus serviços. Está tudo pronto. A viagem já está contratada. Nada nos há de faltar. Embarcaremos hoje mesmo, se o quiser. Tenha confiança em mim. Meu coração está com a senhora. Defendê-la-ei em toda parte. Sacrificar-me-ei, se tanto for preciso, por lhe ser agradável. Oh! nada me agradeça, nada me agradeça. Nada me deve. Eu, sim, tudo lhe devo. Não obstante as apreensões, as preocupações que me dominaram durante esta semana. tenho vivido mais nestes últimos dias do que vivi em todos os meus vinte e dois anos. Não percamos tempo. A senhora não tem uma pessoa por si, a não ser eu. Se se demorar mais um dia no engenho, já não lhe será possível, talvez, escapar, às garras de seu marido.
Para que Maurícia ajuizasse do estado moral do bacharel não era preciso mais do que acabava de ouvir. Estas palavra veementes e desconexas acusavam tal excitação em seu amigo que produziam nela certa impressão de pavor. Conheceu que a paixão que inspirara a Ângelo tinha nascido com força descomunal como a criança mitológica que sufocava no berço as serpentes. Esta grandeza lisonjeou o seu amor próprio, e, ao mesmo tempo, assustou-a. A lembrança da sua última resolução, ela ainda a trazia na memória como sombra agoureira, e foi motivo para que os seus temores aumentasse ainda mais. Procurou em si forças para revelar-lhe esta decisão, e não as encontrou. Que não faria Ângelo, quando fosse sabedor de semelhante desenlace, que importava o aniquilamento da fé imensa que enchia os eu espírito e dava ao seu afeto as proporções de um poder sobrenatural?
Maurícia não teve coragem para derruir com algumas palavras o risonho castelo que o poeta levantara no coração.
"Não serei eu, disse ela consigo, repassada em amargura, não serei eu quem destrua este grande amor, esplêndida ilusão, que é obra minha; que eu própria gerei."
Obedecendo a esta ordem de idéias, julgou prudente ocultar a verdade; e o fez, dando nova direção ao pensamento capital da prática encetada por Ângelo.
- Senhor, eu não posso deixar de agradecer-lhe tanta solicitude.
- Por que não dá o devido nome ao que chama de solicitude? Por que não lhe chama antes de amor?
- Tem razão. Posso eu ser indiferente a estas demonstrações do amor, que me vota? Este amor me cativa. Dá-me prazer e orgulho. Nunca tive quem manifestasse tão afervorado afeto por mim. Encontro, enfim, a felicidade no meio da maior desventura. Não o duvide: a desventura é o meu estado atual, não obstante a grandeza que seu coração me oferece, e que é um tesouro que não tem preço. Mas o que o senhor propõe é atualmente impossível. Para escapar a companhia do meu marido há meios mais convenientes do que a fuga. Martins não lhe disse que eu lhe falara de divorciar-me por justiça.
- Neste sentido, nada me disse; mas para que há de pedir a senhora aos tribunais a separação que já uma vez levou a efeito, e se pode realizar agora mesmo sem intervenção de ninguém?
- Não concorramos para um resultado que a precipitação pode tornar fatal.
- Não há precipitação. Uma carruagem poderá vir em menos de meia hora receber a senhora e D. Virgínia, e conduzi-las para o lugar do embarque. Ao amanhecer, estaremos longe, e dentro de trinta horas poderemos aportar no cantinho feliz, onde tenho meus pais que hão de receber-nos com o mais vivo contentamento, como se todos fôssemos seus filhos.
Tinham chegado a certo ponto, onde a estrada formava um ângulo. Havia aí uma grande árvore. A estrada estava deserta. As sombras da noite estendiam-se rapidamente. A paisagem parecia lançar nos espíritos vagas confianças, misturadas de pavores - contradição gerada pela luz que fugia e pelas sombras que adiantavam.
Diante dessa natureza, que era uma incitação muda, posto que irresistível, ao que as paixões oferecem veemente e embriagante, Ângelo parou tomado de delicioso sentir.
Pegando as mãos de Maurícia, pousou nela os olhos que despediam grandes brilhos azulados como as estrelas. Maurícia estava pálida e abalada. Nada disse. Recebeu, não sem prazer, na face o fulgor dessa inspeção, que o bacharel parecia querer levar-lhe no íntimo da alma.
- Por que não aceita os meus serviços? Que pretextos são estes? Enquanto eu me sinto capaz de levar a efeito impossíveis para tê-la comigo, a senhora levanta escusas frívolas. É manifesta a causa de tais escusas. Cuidei que lhe merecia um afeto, mas o que a senhora sente por mim é simples curiosidade. Quer ver talvez, até onde irá o delírio de uma alma que teve a desgraça de se deixar vencer pelo esplendor de sua beleza.
Maurícia demorou-se um momento a dar-lhe a resposta. Parecia ter a voz presa e a respiração opressa.
- Como é injusto! o disse enfim. Não são escusas frívolas que levanto, são justas razões que aconselham a sermos prudentes; Que idéia daríamos de nós, se fugíssemos assim? E por que havemos de fugir? O senhor já refletiu maduramente na grave situação em que ficaria Virgínia, se realizássemos semelhante loucura?
- Chama a isso de loucura? - inquiriu Ângelo, sentindo as mãos geladas e trêmulas.
- E que nome se deve dar a tão arriscado plano?
- Diz a verdade - tornou o bacharel. Que sou, eu, senão um louco? Sinto que a razão se me desvaira; mas é à senhora que devo tal desvairamento; devo-o aos seus olhares magnéticos, à majestade das suas graças, ao brilho do seu talento. A senhora escravizou-me, e agora quer cortar o vôo da paixão que é obra sua, e que de suas mãos recebeu o impulso, que me atira para o imprevisto! Seja cordata e justa. A senhora deve acompanhar-me nesta vertigem, que pôs em minha alma, e cuja responsabilidade lhe pertence em sua maior parte.
- Acompanhá-lo-ei oportunamente. Agora, não. É impossível. Não vejo nisto indício de desamor. Como eu seria feliz, se pudesse ser desamorosa! Não duvide do meu amor; duvide da oportunidade das circunstâncias; duvide da conveniência deste modo de resolver uma dificuldade que é um laço de ferro, que me prende por toda a vida àquele que a fatalidade pôs no meu caminho para apavorar os meus sorrisos, e afugentar a chuva de flores em que se banhava a minha mocidade. Não duvide de mim. Escute. As minhas circunstâncias são melindrosas. Quem sabe o que neste momento não se estará pensando a meu respeito ao notar-se a minha ausência? Faço um apelo ao seu critério. Entreguemos ao futuro os nossos destinos. Terá coragem o senhor para proceder de modo diferente. Não há de ter. Volte à sua casa. Teremos ocasião de nos entendermos sobre este assunto.
- Poderei levar pelo menos a certeza que lhe mereço o seu afeto? - perguntou Ângelo, compreendendo tardiamente que urgia sair de tão arriscada situação.
Maurícia fitou-o com os seus grandes olhos deslumbrantes. O ardente colóquio com o bacharel tinha-lhe trazido um resultado não isento de perigos; as paixões que repousavam silenciosas no fundo da sua alma, ela as sentiu erguerem-se vivazes como nos primeiros anos da mocidade.
- Pode - respondeu com voz tímida.
Ângelo apertou-a contra si e deu-lhe um longo beijo a que ela não opôs nenhuma resistência.
As paixões de Maurícia tinham de feito despertado.
Separaram-se alguns passos antes da porteira. Ângelo para volver à povoação imersa no seu habitual silêncio, Maurícia para ocultar no fundo do aposento, tão cuidadosamente que ninguém o suspeitasse, a deleitosa revolução que lhe deixava na alma o beijo do bacharel.
- Meu Deus, que será de mim? - disse ela como quem sentia à roda de si, ameaçando perdê-la, todos os perigos que cercam os amores ilícitos. Como é violenta a sua paixão por mim! E como eu ao amo! Oh! que desgraça, que desgraça, meu Deus!
Maurícia mal podia dominar o esto das suas paixões, acesas de repente, quando elas as julgava cinzas.
- Meu coração ainda vice, por infelicidade minha! E devo eu matá-lo?
Devo, sim, a felicidade de Virgínia exige-o. Devo asfixiá-lo com as duas mãos para que depressa expire. Mas qual será o meu estado depois da morte deste sentimento, que veio revelar-me tesouros de delícia íntima que me eram inteiramente desconhecidos? Que infortúnio não foi para mim ver esse homem!
Deste solilóquio, meio racional, meio desvairado, despertou-a o estrondo produzido pelo bater da porteira.
Havia já um minuto que ela andava dentro do cercado. Neste momento, confrontava com uma palhoça abandonada que pertencera a certo negro velho do engenho, e que ficava entre dois cajueiros ramalhudos à beira do caminho.
Maurícia, voltando-se, reconheceu Bezerra num homem que transpusera a porteira e se encaminhava para a casa-grande. Ainda assustada, ainda comovida, ela não hesitou um momento. Entrou na palhoça com medo de ser alcançada por ele.
No mesmo instante, uma mulher que saíra de sob uma meia água coberta de palha cerca de cem passos antes da casa-grande, encaminhou-se para a porteira. Essa meia água estava algum tanto afastada do caminho e quase oculta por uma renque de laranjeiras idosas, que iam terminar na casa de purgar. Cobria a cacimba, onde se lavava a roupa do engenho e dos moradores circunvizinhos. Ordinariamente, havia gente ali; quando não eram escravas, eram mulheres livres dos arredores, que, com permissão de Albuquerque, iam exercer ali, por ser mais fácil, a sua indústria. Às vezes, entre elas, apareciam rapariguinhas novas, algumas bem parecidas e gentis, a cujo número pertencia uma cachopa cor de canela, de cabelos cacheados ao longe, olhos rasgados, boca grande, mas engraçada, formas grosseiras e fornidas. O rapazio do povoado andava caído por ela. Falava-se entre o povo na filha da cabocla Januária - a formosa Janoca - como nos salões de Recife se falava da filha do comendador M..., na sobrinha do Barão de L..., ou na irmão do D. F..., a saber, com admiração e elogios. Januária morava perto do engenho, mas do lado de fora do cercado. Passava a vida desregrada, dando maus exemplos para a filha, para a qual não tinha cuidados de que ela precisava pelos seus verdes anos. Muitas vezes, ia ao Recife, deixando a rapariga a lavar roupa na palhoça, entregue a Deus e à aventura. Nesse dia, com ser domingo, Janoca voltava ao lusco-fusco da meia água para casa; Sobraçava uma trouxa der roupa lavada. Vinha distraída, ou pensando em oculto objeto. Nem ela, nem Bezerra viram Maurícia, porque encontrando-se bem defronte a choupana arruinada, alimentaram curiosos diálogo, que Bezerra certamente não quisera fosse ouvido por sua mulher.
A rapariga, com certo disfarce cínico, foi a primeira que o tirou a terreiro.
- Vosmecê bem me podia dar um vestido para o Espírito Santo.
- Não é a primeira vez que me dizes isto, diabrete! Por que achas de te meter comigo, quando há por aí tanto rapaz que pode corresponder às tuas poucas vergonhas?
- Aqui só há dois rapazes que me caíram em graça; mas um, que podia, não quer e até parece não entender disto; vive somente para a sua noiva; é o Sr. Paulo. O outro quer, mas não pode. É o caixeiro da venda do canto da rua.
- Pois procura outros, que hás de achar. Não vês que sou velho, que já tenho cabelos brancos?
Assim falando, Bezerra volveu os olhos à roda de si como quem queria certificar-se de que ninguém o via a conversar com a cachopa.
- Não se assuste. As moças do engenho saíram a passear com seu Paulo; os negros andam vadiando na povoação. Até mamãe foi ao Recife e me deixou só.
- E eu também te deixo aí.
Bezerra deu o andar para o engenho. Janoca, que ficara de pé, defronte da palhoça abandonada, disse com voz lamuriosa: - Por que não me dá o vestido que peço? É uma coisa tão pequena para o senhor!
A estas vozes, Bezerra voltou-se. Janoca tinha um pé firma no chão e o outro posto sobre o cotovelo de um dos cajueiros, o qual ficava na altura dos joelhos de uma pessoa. A saia, já de si curta, lhe descobria, pela atitude em que estava a rapariga, o princípio de uma perna alentada sobre a qual ela se derreava sobraçando a trouxa. A cabeça guarnecida de cachos, os seios salientes, o corpo, que parecia não caber no cabeção e na saia escassa, levemente encurvado sobre o dorso, davam-lhe certos jeitos e certa nudez de ninfa, que o lugar ermo e a hora crepuscular armavam com mil perigos.
- Que diabo irritante! - disse Bezerra.
E não pode vencer a provocação. Voltou.
- O senhor sabe onde moro? É ali embaixo. Se não quiser ir mesmo, pode mandar para lá o vestido que mamãe recebe. Olhe, a casa é ali à mão direita depois e passar a porteira.
Janoca deu o andar.
- Se quer ver a casa, venha comigo. Não tenha medo, que ninguém há de nos ver.
- Sempre quero saber onde é que tens o teu inferno, demônio! - disse Bezerra, seguindo atrás da rapariga.
Bezerra tinha a infelicidade de sentir particular predileção por esta espécie de gente. Uma mestiça, quase da mesma idade de Janoca, levara-o a praticar loucuras no Pará alguns meses antes; uma fora causadora de grandes desastres em sua vida.
Testemunhando essas trivialidades indignas, Maurícia passou da suprema satisfação à suprema pena. A transição foi rápida e cruel. A exaltação em que estava favoreceu este resultado. Ódio e asco sentia ela pelo marido, que nunca se mostrara digno de sua companhia; mas, nesse momento, pungiu-lhe o coração, além de tais sentimentos, outro que nunca lhe parecera pudesse inspirar-lhe o objeto deles - um ciúme inexplicável, incompreensível, paixão nova que pela primeira vez penetrou nas carnes do seu coração as aceradas garras.
Através da palha da casa e por entre as sombras do crepúsculo, Maurícia viu o marido usar adiante um gesto que cada vez aguçou mais a ponta do espinho que já a lacerava. Bezerra, olhando, como quem espreitava, a um e a outro lado, passou o braço direito à roda da cintura da mestiça, e cosido com ela lhe segredou ao ouvido palavras que a mulher não pode ouvir, mas supôs adivinhar.
- É o mesmo homem! - disse Maurícia com entranhável dor no coração. mas se é o mesmo que dantes, deverei acaso voltar à sua companhia para ser espectadora de mais uma cena destas?
Desejara ouvir tudo; desejara ir atrás dele, pé ante pé, ainda que isto lhe parecesse pouco digno de si, para não perder uma só palavra dessa conversação indecente; mas semelhante intento era irrealizável; demais urgia deixar o esconderijo. Saiu cautelosamente. Estava quase fora de si.
Tanto que se viu do lado de fora, correu tão velozmente como pode, até alcançar o laranjal. Protegida por este e estugando sempre os passos, chegou a dentro em pouco tempo à casa do engenho.
Estava pálida, fria e trêmula. O seu coração tinha servido aquela tarde de campo de muitas batalhas que ela saíra já vencedora, já vencida.
Pesar e prazer, amor e ódio, ciúme e desconhecido desejo de vingança, grandes surpresas, grandes esperanças e grandes desesperos - eis as encontradas forças que a traziam suspensa entre mil incertezas e mil desvarios.
Entrando no aposento, Maurícia tinha inteiramente resolvida a sua vingança. A suave imagem de Ângelo, que enchia o seu entendimento, incitava-a a pô-la por obra. Era terrível o que concebera o seu espírito. Eis pouco mais ou menos no que consistia. Ela desceria à sala de visitas e, quando Bezerra entrasse, declararia, em presença de todos, que, posto tivesse resolvido voltar para sua companhia, adotara opinião contrária. Albuquerque havia de inquirir-lhe a razão desta súbita mudança; então ela referiria o que acabava de ver o marido praticar; fulminaria este com a vergonhosa revelação; impossível seria que não tomasse todos os seu partido. Ficaria vingada e salva.
A imagem de Ângelo, que trazia no seu pensamento como luz benfazeja e consoladora, tinha ficado superior a este plano; não fora o amor que lho inspirara. fora o ódio, o desprezo, a raiva, o despeito, que nas mulheres assume não raras vezes proporções brutais.
Estava para descer, quando Virgínia entrou no quarto. A menina subira as escadas, correndo satisfeita e feliz. Passara toda a tarde em companhia de Paulo, e ao entrar no engenho, alcançara Bezerra.
- Meu pai está aí, mamãe. Venho pedir-lhe que não deixe de aparecer hoje.
- Aparecer-lhe hoje? - inquiriu Maurícia. Sim, hei de aparecer-lhe para lhe dizer que é impossível a minha volta.
- Meu Deus! - exclamou a menina. Para que quer fazer isso? Ou não lhe meta mais raiva. Ele já vem tão triste, tão pálido, que me parece estar sofrendo alguma dor.
- Enganas-te, Virgínia. É a hipocrisia em pessoa. A vileza inspira-lhe o disfarce para ocultar-se. Vi-o há pouco risonho e ... prazenteiro.
- Mas, então, alguma coisa lhe aconteceu depois. Verdade é que ele tinha na mão uma carta, que acabara de ler. E quer saber, mamãe? Ele perguntou se a senhora estava no engenho, se tinha saído, se alguém a procurara.
- Que carta era essa? - disse Maurícia, empalidecendo.
E instintivamente levou a mão ao seio mais morta do que viva. Não achou aí a carta que lhe dera Ângelo, debaixo da árvore. Pulara-lhe do seio na carreira da palhoça abandonada para o laranjal.
Pode-se compreender, mas não dizer, o tropel de pensamentos que passaram pela cabeça de Maurícia naquele momento. Que lhe teria escrito Ângelo? Ela não leu a carta; trazia-a fechada ainda; mas calculava que devia ser largo documento contra eles dois. Devia tratar da fugida, dos meios de realizá-la. Bezerra não podia dever ao acaso mais forte arma para atravessar-lhe o coração do que esse malfadado. Se o mostrasse a Albuquerque, talvez fosse o bastante para que este retirasse a sua promessa de consentir no casamento de Paulo com Virgínia; se o mostrasse à Martins, este e a mulher talvez a considerassem indigna de entrar dali por diante em sua casa.
- Oh! que infelicidade! - exclamou Maurícia.
O seu desejo de vingança, há pouco tão cru e exaltado, esfriou inopinadamente; foi substituído pelo terror. Os papéis trocaram-se. Era ela que estava agora nas mãos do marido. Ainda quando Maurícia referisse o que vira, ninguém acreditaria em suas palavras; Bezerra já não estava no mesmo caso; tinha consigo uma prova material da sua culpa; podia esmagá-la, atirando simplesmente o papel sobre a mesma, como se esmaga uma cobra, atirando-se-lhe uma pedra sobre a cabeça.
Passados alguns instantes, disse consigo:
- Mas, quem sabe se não está nisto a minha salvação? Quero crer que esteja; não é possível que Bezerra, lendo semelhantes revelações de um coração altamente apaixonado, queira ainda que eu vá viver com ele. Virá, talvez, à terra, o formoso castelo que acabo de erigir para Virgínia; mas o meu infortúnio terá encontrado o seu termo. Entre mim e o meu indigno marido, ter-se-á levantado uma barreira eterna, que ele não transporá nunca mais. Estarei livre, embora com uma nota, que o tempo há de apagar.
Como se tais idéias lhe ocorressem por intuição sobrenatural, Maurícia sentia-se reanimada. Onde um momentos antes estivera a sombra da morte, estava agora suavíssimo bálsamo de consolação tão grande que apagou toda a sua mágoa.
Chegou ao espelho, alisou o cabelo e encaminhou-se com Virgínia para a porta.
Já a vinham chamar por parte de Albuquerque.
Não foi sem pronunciada palidez que entrou na sala. Estavam aí, sentados ao lado de D. Carolina, perto do sofá, Albuquerque e Bezerra, e ao pé de Alice, junto da porta que dava para o terraço, Paulo e Martins. Este havia chegado um minuto antes de Maurícia entrar.
Quando ela apontou na porta, Bezerra levantou-se e foi pressuroso ao seu encontro. Fazia três anos que a não via. Abraçou-a respeitosamente diante de todos. Maurícia sentiu-se, então, enfraquecer novamente. Conheceu que estava ameaçada de dobrada desgraça; A sua prevenção fora enganosa. O seu tirano não se deu por achado. Isto queria significar que aos seus olhos ela havia de ser inevitavelmente vítima de dúplice vingança.
Bezerra estava pálido, mas mostrava-se satisfeito. Tinha risos que à sua mulher se afiguraram infernais. Raras vezes a hipocrisia representou melhor o seu papel.
Maurícia, entretanto, no meio do turbilhão de idéias contrárias que lhe enchiam a imaginação, não podia esquecer-se de Ângelo. Quando seu marido a abraçou, entre expansivo e reservado, ela teve desejos de lhe fugir. Pareceu-lhe que o direito de aconchegá-la ao seio já não lhe pertencia, e tinha passado ao homem que se mostrava louco de amor por ela. Aquele era indigno de seu corpo; estava ao nível da Janoca da Januária, perdia-se abaixo dos seus pés.
Compreendendo que Bezerra premeditaria contra o seu rival desapiedada vingança, começou a sentir por este tormentos imaginários. Jurou morrer ao lado de Ângelo, caro objeto de seu exclusivo amor. A presença do marido, longe de a prender na sala, apartou-a em espírito para fora desse estreito âmbito onde mal cabia as paixões despertas. Ela ia em busca do bacharel, nas asas de uma saudade imensa. Parando no ponto onde uma hora antes se tinham separado, perguntou a si mesma, no deserto, que testemunhara o seu colóquio: "Onde estará ele? Que pensamentos terá agora?"
Ângelo, entretanto, volvera ao Recife, levando em sua alma a vaga impressão da felicidade, que o embriagara com alguns momentos, e que era o resultado das palavras que ouvira de Maurícia, do amplexo que parecia tê-la ainda aconchegado ao corpo, do beijo que ele sentia perfumar-lhe os lábios.
Chegara cedo à estrada, e não saíra mais.
Estava entregue à sua embriaguez, pensando na felicidade que devia trazer-lhe a vida com essa mulher adorável. Este pensamento não era constante. Em seu espírito, davam-se mutações rápidas; Tão depressa passavam aí cenas felizes, como dramas desgraçados. Bezerra não lhe saía da cabeça. Mais de uma vez, afigurou-se-lhe seu sonho despedaçado entre os dedos dele, como as nuvens cor de rosa se despedaçam não raro entre as pontas dos altos picos.
Num desses momentos, um carro parou à porta do sítio, e logo depois Martins entrou no aposento do advogado.
- Sabes donde venho?
- Julgava-te em casa.
- Fui ao Caxangá. Tinha ajustado com Bezerra encontramo-nos no engenho.
Ângelo empalideceu.
- Parece que não gostas do Bezerra. Pois olha, deves mudar de opinião, como eu mudei. Andava prevenido, mas convenci-me da minha sem-razão.
- Estiveste com ele lá?
- Estive; Virgínia casa-se no sábado, e Maurícia manda convidar-te para o casamento.
Ângelo mal pode acreditar nestas palavras.
- Pois não é o melhor. Queres saber o melhor? Maurícia vai viver outra vez com o marido. A separação era uma coisa que me trazia descontente. Eugênia vivia desgostosa e envergonhada. Mas que tens?
Ângelo sentira uma comoção mortal.
- Estás lívido - continuou Martins. Nunca te vi assim.
- É a tua vista que se engana; ou antes tu não contas a história verdadeira. Queres fazer a experiência in anima amici . Perdes o tempo;
- Afirmo-te que te estou dizendo a verdade.
- Não é possível.
- Palavra de honra. Ângelo. Mas nisso não há nada de singular. Há quase uma semana, segundo te disse, não usado esforço senão para chegar a este resultado. Maurícia voltou à razão.
- Mas quando foi que se deu isso?
- Quando? Agora mesmo.
Martins entrou numa longa série de particularidades para trazer a convicção ao espirito do amigo. Quando a verdade se tornou evidente, e não foi mais possível recusá-la, Ângelo deixou-se ficar em silêncio. Mais de uma vez, Martins dirigiu-lhe a palavra, mas não conseguiu arrancar-lhe a resposta. A sua concentração era incrível.
- Condenas uma ação tão bonita?
- Nada tenho com isso. Mas pode-se deixar de ficar espantado diante de tão rápida mudança?
- Ora, meu amigo; tem sempre curso tortuoso as coisas desta vida. E adeus! Tenho pressa. Quero levar a Eugênia esta agradável nova.
Passemos por cima do sofrimento de Ângelo durante os primeiros dias que se seguiram a esta revelação. Em vão, tentaríamos pintá-los; . A linguagem humana não tem tintas para por em tela as crises em que a insônia roça pela razão, e a morte, espectro medonho nos dias felizes, aparece no curto horizonte do pensamento como a mensageira da única consolação possível.
No dia em que Virgínia devia casar-se, Martins procurou Ângelo depois do almoço.
- Virgínia casa-se hoje. Vais?
- É impossível. Morreu meu pai. Às duas horas, embarco para ir buscar minha mãe e meus irmãos.
Ângelo dizia a verdade. Aquela semana fora fecunda em dores para ele.
Martins ficou estatelado. Ignorava esse acontecimento. Exprobrou ao amigo o seu egoísmo na dor.
À hora indicada, o bacharel deixou a estrada.
Seu coração parecia só pulsar pelos entes queridos que a trinta léguas tinham nele a única esperança.
Não quis Albuquerque que Virgínia saísse da casa-grande, depois de casada, não obstante chegar para duas famílias a casa que ele mandara preparar para os pais da menina. Muitas razões dava, quando queria justificar a resolução de ficar com os noivos em sua companhia; as más línguas, porém, diziam que a predominante, que ele ocultava sempre, era a de não lhe inspirar confiança a harmonia dos esposos reconciliados.
Não quis igualmente que a mudança de Maurícia com o marido para a nova habitação se realizasse, senão na mesma noite do casamento da filha. De feito, quando o último convidado se despediu, Maurícia abraçou Virgínia, abraçou Paulo e tomou o caminho da porta. Tinha nos olhos lágrimas nitentes. Bezerra deu-lhe o braço que ela aceitou sem hesitar. Depois de três anos, era aquela a primeira vez que estes corpos se tocavam.
Ao passar pela senzala dos pretos, um deles disse:
- Sinhá Maurícia também teve hoje o seu noivado.
Maurícia viu neste pensamento um epigrama que lhe dirigira a fatalidade.
Em silêncio, atravessaram o pátio do engenho e entraram na habitação, que lhes estava destinada. Ficava distante obra de cem passos da casa-grande. Para que oferecesse cômodos bastantes, mandara Albuquerque que se aumentassem quartos e salas. Noivos amorosos e felizes tinham achado ali modesto e perfumado ninho, onde aqueciam os seus anelos. Os novos habitadores, porém, estavam longe de achar na convivência mútua o contentamento que só o amor verdadeiro proporciona.
Duas conveniências os tinham levado a ajuntar-se novamente: Maurícia sacrificava-se pela filha; Bezerra, o que queria era um meio de vida e as perspectiva de um futuro melhor. Ao princípio, chegara a acreditar na possibilidade despertar no coração da mulher a afeição que, verdadeiramente falando, aí nunca existira. Mas as freqüentes recusas, objeções e lágrimas de Maurícia convenceram-no de que, se a primeira parte de sua esperança não estava longe de realizar-se, a última era de todo o ponto irrealizável. Esta convicção trouxe-lhe certo descontentamento, mas não o levou a considerar-se de todo infeliz. Tal momento houve em que pensou conseguir para o tempo adiante o que atualmente lhe parecia de difícil aquisição, a saber, a graça da mulher. Eram estas as idéias em que se deixava absorver, quando achou no caminho a carta escrita por Ângelo. Houve, então, uma revolução em seu interior, que ocasionou notável mudança no que ele trazia assentado no raciocínio. Nesse documento, viu não só a prova de um crime dela, mas, também, o testemunho irrefragável da desgraça dele. Teve ímpeto de meter uma bala na cabeça do homem, que armava ciladas à sua honra, e um punhal no coração da mulher que a não sabia guardar devidamente. O primeiro impulso foi considerar o dito por não dito, o feito por não feito, desaparecer dos olhos de Albuquerque e tratar de sua vingança, exclusivamente.
Pensava em tudo isto ao entrar na casa-grande. Deparando-se-lhe com Virgínia, que o fora receber com afabilidade carinhosa, sentiu-se mais fraco ainda de que estava. Havia de dar um passo que redundasse na desgraça de sua filha? - "Não!" - tal foi a resposta que encontrou em si mesmo como revelação do sentimento que atualmente predominava em seu coração.
A primeira demonstração de Bezerra para sua mulher tanto que se viu a sós com ela, não foi de amor, mas de rigor. Maurícia, entretanto, nunca se mostrara tão formosa, posto que a tristeza íntima a devesse trazer abatida no exterior. Quando ela fugira da companhia do marido, estava magra, angulosa e feia.
Mas não foi o mesmo esqueleto, a mesma múmia egípcia o que ele veio achar em Pernambuco; foi sim, uma beleza adorável, que, pelo completo desenvolvimento, parecia ter tocado a meta das proporções que devem ter, no ponto mas elevado das suas graças, as belezas plásticas. Naquela noite trazia ela vestido de escumilha azul cor de céu, apanhado de arregaços das cavas para as ombreiras com tranças e brilhantinas.
- Não sei se sabe - disse-lhe ele, pegando-lhe da mão com certas mostras de autoridade ameaçadora, não sei se sabe que tenho em meu poder um terrível documento contra a senhora.
Maurícia, julgando reconhecer no semblante do marido, até àquela hora risonho, a expressão de arrogância, que lhe era habitual nos tempos em que vivera com ela, sentiu coar-lhe pelos membros o frio da morte.
- Contra mim o senhor não pode ter nenhum documento, nenhuma prova que mereça fé.
- Talvez não houvesse chegado às suas mãos o que eu tenho nas minhas; mas que ele faz grande prova contra a senhora, não há que duvidá-lo.
- Sei que alude a uma carta. Eu a tive em minhas mãos, mas a não cheguei a abrir. Joguei-a fora, sem a ler. A sua asseveração é, portanto, inexata.
- A senhora tem um apaixonado. Tratava de fugir com ele, e se o não fez, não foi porque lhe repugnasse esse passo, mas porque talvez compreendesse quanto ele era falso e perigoso.
- O homem que escreveu tal carta poderá amar-me, mas não é nada meu. Vi-o uma vez em casa e meu cunhado, e outra na povoação. E que culpa tenho eu de que ele escrevesse essa carta? Que mulher pode estar livre de que alguém lhe escreva? Mas o que me espanta em suas palavras é que o senhor as tenha tão cruas e desamorosas para mim depois de três anos de separação, depois de mil esforços empregados ultimamente para que tal separação cessasse.
Dizendo estas palavras, Maurícia soluçava.
- Espanta-se de que eu procure tomar-lhe contas? Não terei este direito? Não me pertence fazer uma interrogação ao passado? Vindo novamente para minha companhia, julgaria a senhora que continuava sem um juiz para os seus atos?
- O que eu julguei, acedendo aos votos da minha filha, por bem da sua felicidade, foi coisa diferente, e sempre o disse, porque nunca, depois de separada do senhor, me iludi jamais acerca dos seus sentimentos; o que eu suspeitava encontrar no senhor, vim encontrar por desgraça minha. Eu quisera ter diante de mim o juiz, severo embora; o que tenho é o mesmo inimigo, o mesmo carrasco dos meus primeiros anos de casada.
Maurícia quis levantar-se, mas Bezerra por um gesto de violência a reteve na cadeira que ela ocupava ao lado dele.
- É cedo ainda para se levantar, Maurícia - disse-lhe. Tenho algumas palavras que lhe dizer. É minha vontade que a senhora nunca mais veja esse homem.
- Quer, então, que eu não ponha mais os pés em casa de minha irmã?
- Quero-o, se for isto necessário para que a minha vontade se cumpra.
- Pois eu o farei. Hei de levar ao fim sem pesar o meu sacrifício.
- Não sou tão mau, como já fui - tornou Bezerra, tirando de um dos bolsos da calças um papel dobrado. Olhe. Aqui está a carta que lhe foi dirigida. Vou queimá-la para lhe ser agradável. Isto quer dizer que aceito sua justificação. Certo, nenhuma mulher está isenta de que algum insolente lhe dirija epístolas desonestas. Dou pela sua defesa. É um indulto que lhe quero conceder no meu segundo noivado.
Bezerra chegou a carta à vela que ardia dentro de um candelabro sobre a mesa no meio da sala e atirou-a inflamada no chão.
- Havia nesse papel palavras tão infames que nunca a senhora as devera saber; tão infames são elas que, se outrem as pudesse vir a ler, talvez fosse isso motivo para que eu me atirasse no caminho do crime, a fim de desafrontar-me. Façamos agora as pazes. Maurícia.
Bezerra conchegou a mulher com ambos os braços ao seu peito, e deu-lhe um beijo na boca. Quando retirou os lábios, trazia-os úmidos de lágrimas da infeliz.