Dentro de pouco mais de um mês, começou Maurícia a notar a frieza do marido, acompanhada de circunstância que parecia terem com ela a maior ligação. A filha de Januária. que quase nunca passara além da meia-água, atravessava agora o restante do pátio do engenho várias vezes, durante a semana e passava pela porta da casa, onde ela morava. Um dia, chegou a perguntar a um moleque do serviço doméstico, se Bezerra estava em casa. Mais de uma vez, saindo mais cedo do que costumava para ir tomar a lição de Alice, não encontrou Maurícia na casa-grande o marido, que para aí lhe dissera ir. Maurícia não deu mostras e ciúme, e não o sentia. Não se casara como Bezerra por amor, mas por fazer as vontades dos pais. Tinha, então, Bezerra catorze anos menos; dispunha de meios que lhe permitiam aparecer com mais decência na sociedade; não trazia consigo um passado odioso. Mas, não obstante reunir semelhantes condições favoráveis, não lhe havia inspirado afeto especial; tinha para ele olhos simplesmente benévolos, palavras corteses e respeitosas. Agora, as circunstâncias o favoreciam ainda menos. Estava pobre, alquebrado e carregava ás costas um saco de mazelas. Procurava de novo a sua companhia para ter segura a vida que era sumamente custosa de manter. Quase dependia dela. Perdera grandes partes da antiga arrogância e cultivava a conveniência. Era um homem de corpo aberto. Mas não obstante, mostrava-se magoada, e uma vez chegou a revelar-lhe a cena que um mês antes o tinha visto representar com a mestiça entre a meia-água e a porteira. Bezerra deu pouca importância, ou nenhuma, aos ressentimentos da mulher, e não alterou o seu hábito de fazer ausência de noite e de dia.
Por esse tempo, adoecendo a escrava que Albuquerque encarregara do serviço em casa de Bezerra, veio preencher-lhe a falta uma crioula nova, por nome de Brígida, que D. Carolina tinha em grande estimação. Com esta rapariga, entraram na casa novos desgostos para Maurícia. Bezerra dirigia-lhe gracejos a furto, e lançava-lhe olhares de ternura ignóbil. Um tarde, em que Maurícia voltara mais cedo do engenho, surpreendeu o marido em prática familiar com a cativa. Deu-se por ofendida, e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Teve ímpetos de ir imediatamente contar à D. Carolina o que vira; mas a vergonha de revelar a vileza reteve-a silenciosa. Ela, porém, não pode acabar consigo que não desse grande demonstração da sua profunda mágoa àquele que era desta causador.
- Senhor - disse - daquela porta para fora, poderemos continuar a ser dois consortes que, depois de várias e cruéis vicissitudes, convieram em encurtar a distância que os trazia afastados, e emendar o roto laço do combatido afeto, mas, das portas adentro, espero que estejamos de hoje em diante tão distantes como se entre nós se interpusessem, como já se interpuseram, dezenas de léguas de oceano.
Bezerra teve para esse assomo de justo e elevado agravo risos mofadores. Saiu e voltou tarde. A porta da alcova estava trancada por dentro. Bezerra ficou alguns momentos em pé junto dessa porta, que o ameaçava com ares de sentença de desquite.
- Eu podia por no chão esta porta e entrar; mas era dar muita importância ao que merece pouca.
Encaminhou-se para o gabinete fronteiro, onde havia uma cama de solteiro, algumas cadeiras, uma mesa e um toucador.
Ao lado da cama, viu os baús que mandara conduzir do Recife no dia da sua mudança para o engenho. Dos ganchos de um cabide de faia, pendiam os seus paletós e calças. Aos pés da cama, estava o seu par de chinelas.
- É um mandado de despejo. Por tão pouco!...
Maurícia praticara este ato de energia não tanto por ciúme, como por ferida em seus melindres; e estava no ânimo de não retroceder, ainda diante das mais graves conseqüências.
- Depois disto - dissera ela - só se deve seguir ou a completa emenda dele, ou a saída de um de nós dois.
Bezerra, que, ao princípio, tomara esta resolução em ar de mofa, caindo em si depois, julgou-se na obrigação de refletir mais maduramente. Tinham mudado muito as suas condições. No Pará, três anos antes, as coisas eram outras, e ainda assim Maurícia triunfara da sua tirania, quanto mais em Pernambuco, estando ela no seio de uma família respeitável, que da sua honra e discrição tinham o melhor documento em vê-la praticar o sacrifício de voltar à companhia dele. Outras considerações de não inferior tomo lhe ocorreram. Se, por qualquer modo, viesse a desgostar Albuquerque, de que iria viver? No engenho estava incumbido de fazer a escrituração relativa à venda dos açucares, do mel, da aguardente e dos demais produtos da grande propriedade. Por este trabalho, que Paulo costumava fazer aos domingos, arbitrara-lhe Albuquerque módico vencimento; mas lhe dava de graça casa para morar, carne e farinha para a mesa, escravos para o servirem. Se lhe faltassem tudo isto, de repente, a que ficaria reduzido? A não ter um lugar onde cair morto. Faltava-lhe coragem para tentar novos meios de vida. O cabelo, que começava a alvejar-lhe a testa que mostrava cortada de grandes rugas; os olhos fundos, as faces murchas indicavam que as forças começavam a desampará-lo.
Da sua cogitação veio tirá-lo o relógio que do alto, entre as duas janelas, parecia fitá-lo impassível como a fatalidade. Foram doze pancadas que deu.
Ele então levantou-se da cama, onde estivera a pensar, e encaminhando-se para a alcova, disse:
- Façamos as pazes, ainda que para isso seja preciso pedir mil perdões.
Bateu na porta devagarinho, depois mais fortemente, chamando por Maurícia, que não lhe deu uma só palavra em resposta. Esteve alguns instantes de pé, a olhar para dentro através da fechadura. De uma das vezes, abalou a porta com toda força, quase deliberado a dar com ela em terra por maior que fosse o ruído que produzisse tal violência; mas julgou prudente variar de conselho, ouvindo ruído de vozes da banda de fora; dois negros do engenho tinham-se sentado no batente da casa, e aí conversavam em sua algaravia ininteligível. Ocorreu-lhe, então, escalar a parede, e este pensamento veio seguido de outro. Ainda estava encostada ao pé da parede do oitão da casa uma escada do engenho, de que se tinham servido os pedreiros por ocasião das novas obras. Bezerra tomou pela porta que ia dar no interior, e voltou pouco depois com a escada que colocou de manso na parede. Subiu. Entre a parede e a telha vã, havia o espaço da altura de um homem; fácil, portanto, se afigurou a Bezerra a sua descida para dentro do quarto com o auxílio do mesmo instrumento por onde subira. Maurícia dormia. A vela de uma manga de vidro, colocada sobre uma mesa do lado da cabeceira, tinha chegado ao papel que lhe servia de calço, e ardendo com ele derramava no âmbito do aposento clarão amarelado, que trazia à imaginação o começo de um incêndio.
Bezerra, equilibrando-se conforme pode, pegou da escada e levantou-a; mas quando já a travessava sobre o frechal, que corria ao longo d parede, ela, escorregando, caiu quase para o lado da sala e ele para não cair teve de a soltar.
Despertada pelo estrondo, Maurícia sentou-se trêmula, atemorizada, e dando com os olhos no marido, tudo compreendeu.
- Ainda me persegue? - disse saltando envolta na longa colcha.
- Maurícia, por que foge de mim? - perguntou Bezerra.
Maurícia tinha de feito corrido à porta do aposento e desdado à volta da chave. Bezerra viu-a dirigir-se ao quarto, onde ele estivera e trancar-se outra vez pior dentro.
- Hei de vencê-la, hei de vencê-la, hoje mesmo - disse ele.
Mas como havia de descer? Faltava-lhe ânimo para saltar. A parede tinha talvez cinco metros de alto. Era uma altura suficiente para guardar uma mulher, mas excessiva para a descida de um homem sem outro auxílio que as mãos e os pés. E contudo urgia descer. Na sala de visitas e no aposento onde Maurícia se refugiara estava tudo às escuras. dentro em pouco tempo, na alcova, fariam invasão as trevas. Não deixava de ser em certo modo aflitivo o momento.
Quase desesperado, Bezerra, calculando que poderia ser vítima de risos mofadores, decidiu-se a saltar, deliberado a deitar por terra a porta que se interpunha entre ele e a mulher. Pôs as mãos sobre o frechal, onde tinha os pés, e com as pontas destes tentou descer ao longo da parede. Mas depressa as mãos fugiram do alto, e ele julgou que ia quebrar-se de encontro ao ladrilho da sala. Quando já se considerava vítima do desastre, sentiu-se com surpresa cair entre uns braços robustos, que o apararam com firmeza descomunal.
Então, ainda aturdido, ouviu à meia voz estas palavras:
- O Sr. queria morrer? Se não fosse eu, podia estar quebrado.
- Brígida! - exclamou Bezerra, sentindo-se apertado ente os braços e os seios resistentes da negrota.
Não tinha dormido ainda, e, sabendo o que se passara entre Maurícia e Bezerra, quase previra o que acabara de dar-se. Vendo-o entrar com a escada fora de horas. viera pé ante pé, e colocara-se à porta da sala de visitas, que abria a comunicação para o corredor. Dali, testemunhara a ascensão de Bezerra, a saída violenta de Maurícia e os embaraços dele para descer. Enfim, vendo-o tentar a descida, correra a tempo de o aparar entre os braços.
- Estava aqui há muito tempo? - perguntou-lhe Bezerra;
- Eu vi tudo - respondeu Brígida. O que admiro é a pachorra de vosmecê. Tanta mulher que há no mundo.
- É verdade - retorquiu Bezerra.
E em vez de atirar-se contra a porta fronteira, entrou na alcova, onde a vela agonizante despediu o último clarão e apagou-se.
Toda a noite Maurícia passou em claro, vendo sombras gigantescas atravessar a escuridão do quarto, onde se refugiara. Por extremo excitada, pareceu-lhe mais de uma vez ouvir na sala rumor de passos, e na alcova, que abandonara, ruído de vozes abafadas. De uma vez, levantou-se da cama, abriu devagarinho a porta, e deu alguns passos em direitura da alcova. Foi de encontra ao piano, que com o estremeção teve uma harmonia surda - voz confusa de todas as cordas abaladas. No mesmo instante, afigurou-se-lhe que um vulto se afastara da porta da alcova em procura do corredor. Pelas formas, esse vulto parecia-se com Faustino. O medo de encontrar-se com o moleque fê-la voltar e trancar novamente.
Muito cedo ainda Bezerra deixou o aposento. Maurícia ouviu-o dizer algumas palavras a Faustino, que lhe dera não sei que recado; ouviu o rumor das pisadas do lado de fora. Então, levantou-se cautelosamente. A sala estava deserta. Do lado da cozinha, o moleque conversava animadamente com Brígida. Entrou no quarto. A cama indicava, pelo desarranjo, que Bezerra se servira dela. Sentou-se do lado da cabeceira.
- Não pode vencer-me - disse; nem me vencerá jamais. Dissuadido de realizar o seu intento, repousou só.
E repetiu logo este monossílabo:
- Só!
Depois acudiu:
- Mas terei eu o direito de separar-me dele assim?
Havia nesta interrogação a ponta de uma dúvida.
Irresistivelmente, Maurícia entrou a pensar. A cabeça pesava-lhe, mas seu espírito buscava solução para aquele terrível problema. Não era possível que continuassem a viver assim unidos de direito e divorciados de fato, Maurícia julgou esta primeira prova cruel.
- Ele é meu marido - disse. Quando me sujeitei a viver de novo com ele, não me obriguei acaso a padecer todos os tormentos, sem o direito de lhe resistir? Uma das primeiras virtudes da mulher casada não será porventura, ocultar, ainda com o sacrifício da sua tranqüilidade, as fraquezas e as misérias do marido? Que devia eu esperar de Bezerra? Não fui testemunha do que ele praticou com a filha de Januária, antes da minha última declaração de vivermos juntos? Que me obrigou a sujeitar-me a esta provação? Ninguém me obrigou a isto; fui eu mesma que aceitei a situação que ora me traz vexame e dor. Qual é, porém, o meu dever? Estar por tudo. Pois bem: estarei de ora em diante. Que hei de fazer, meu Deus? Nem haveria merecimento no passo que dei, se eu não curtisse com silenciosa resignação as cruas dores do martírio.
Maurícia estava arrependida do que praticara na véspera.
- Uma mulher casada não pode ter destas opiniões. Ela não se pertence; pertence ao marido, ou antes à fatalidade do dever, sempre mais cruel para a mulher do que para o homem.
Assim falando, Maurícia tomou as última roupas, deliberada a estudar o meio mais natural eficaz de reconciliar-se, sem evidente humilhação, com Bezerra. Chegou-se ao espelho para arranjar o cabelo que se lhe espalhava pelas espáduas nuas. Tinha o rosto demudado. As cores começavam a fugir-lhe das faces. A cútis, outrora tão limpa, emurchecia agora, e mostrava-se sem a frescura de três meses atrás. Aos primeiros raios de sol, ela com espanto viu no fim da testa um cabelo que embranquecia. Era o primeiro indício do seu outono, a primeira folha, que ameaçava cair da árvore da sua mocidade. Ao cabo de mais um ano de padecimentos, não restaria dessa árvore senão o arcabouço. Duas lágrimas deslizaram-se-lhe pelas faces ameaçadas de terem para sempre perdido o lustre que lhe dava o sossego.
- Estou ficando velha - disse com amargura. O sofrimento encurta a minha viagem, e, dentro em breve, terei diante dos olhos a sepultura; eu não poderei resistir por muito tempo a semelhantes tormentos. Também o meu papel no teatro do mundo parece tocar o seu termo. Virgínia está casada e amparada, e o meu coração está morto.
Estas últimas palavras trouxeram-lhe à lembrança Ângelo, e não foi preciso mais para que em seu interior se derramasse a impressão de bálsamo suavíssimo.
- Não! O meu coração não está morto! - disse ela de si para si. Por desgraça minha, não posso esquecer-me desse homem, ainda quando a descrença invade a minha alma, como agora, e vejo diante dos olhos o espectro da morte. Ao lado dele, a mocidade me voltaria, e com ela todos os meus sorrisos que se mudaram em lágrimas em companhia do meu cruel marido. Meu Deus, meu Deus, não há maior tormento do que este - sofrer assim, amar assim, sofrer sem tréguas e amar sem tréguas ao mesmo tempo, sofrer daquele a que se aborrece, e amar aquele de quem não se possui senão a efígie querida no seio da fantasia, e cujo nome nem ao menos é lícito proferir de modo que os ouvidos o ouçam!
Maurícia sentou-se a modo de desalentada ao pé do espelho. Após as primeiras, vieram novas lágrimas porventura mais abrasadoras. Dava pena daquela silenciosa aflição.
Uma discórdia entre Faustino e Brígida, cujas vozes, alteando-se gradativamente, vieram ressoar, no ambiente da alcova, arrancou Maurícia da prostração mental em que a tinham deixado os encontrados pensamentos do seu último solilóquio.
Levantando-se, disse:
- Deus há de ajudar-me a levar sem covardia ao Calvário a minha cruz. Façamos de conta uma vez por todas que está para sempre acabado tudo que se passou entre mim e esse homem. Sejamos de ora em diante exclusivamente a mulher casada, escrava de seu dever.
Aproximando-se de uma cadeira para apanhar um lenço que aí deixara, suas vistas caíram casualmente na parte da cama, que ficava do lado da parede. Sobre o alvo lençol, neste ponto não revolvido, viam-se marcas de pés grosseiros, que indicavam pelos traços negros, terem andado em chão imundo.
Maurícia mal pode descobrir esta indigna visão, sem cair ferida de vergonha e dor. Compreendeu toda a infâmia de Bezerra. Diante de tal testemunho de insólita baixeza, nenhuma mulher se conservaria dentro dos limites da discrição. Abriu a porta arrebatadamente e correu para a cozinha. Que ia fazer? Ela mesma não podia saber. A verdade, porém, é que ela estava desvairada.
Chegando ali encontrou Faustino.
- Vosmecê vem ralhar comigo, sinhá Dona Maurícia, por eu estar brigando com Brígida? - perguntou o moleque tanto que reconheceu pelo semblante de Maurícia a cólera que lhe ia na alma.
Maurícia nada disse. Não podia falar. Tinha a voz presa por oculta garra.
- Vosmecê me perdoe - continuou o moleque em tom de humildade despeitosa. Eu queria muito bem a essa negra, mas ele me fez ontem uma só me deu a vontade de a matar. Vosmecê sabe que minha senhora prometeu que Brígida havia de casar comigo. Mas de que serviu esta promessa? A negra botou as mangas de fora, e tem andado solta como as bestas do engenho, Ontem de noite, quando eu cheguei do Recife, onde tinha ido de tarde, por mandado de meu senhor, não achei Brígida aqui. A porta do corredor, que vosmecê costuma fechar todas as noites, estava aberta, Há muitos dias que eu andava suspeitando uma coisa muito feira. Por isso, deixei-me ficar na sala. De uma vez, ouvi abrir a porta do gabinete e apontar um vulto branco; fugi para o corredor para esperar por ele, supondo que era Brígida; mas assim que fugi, o vulto foi outra vez meter-se no gabinete. Não pude ter-me e corri até lá a ver se dava com a negra; mas achei a porta trancada. Não pude sair da sala. Estive aí até amanhecer. Quando seu Bezerra abriu a porta da rua e saiu, eu, que estava detrás da porta do corredor, via negra tomar da sala para a cozinha. É por isso que eu estava ralhando com Brígida.
- E onde está ela? - perguntou Maurícia
- Fugiu com medo de mim para a casa-grande.
Não havia que duvidar. Os indícios acabavam de ter a mais cabal confirmação. O torpe segredo estava já nos domínios da cozinha. Se houvesse encontrado a negra, Maurícia teria talvez praticado um desatino que não se compadecia com a sua índole e educação; mas, na ausência do objeto do seu ódio, do seu desprezo e da sua vingança, ela não pode suster o pranto. Nunca se vira tão aviltada aos seus olhos.
- Vosmecê não chore, que aquela negra não há de voltar mais aqui - disse o moleque.
- E que tem que ela volte ou não, se já aqui deixou a sua infâmia? - respondeu Maurícia. Não te entristeças, Faustino. Vou contar tudo a D. Carolina, a fim de ver se ela põe cobro à ousadia de Brígida.
- Vosmecê pode contar à minha senhora o que se passou, mas eu nada tenho com isso, porque eu não quero mais saber de Brígida. Ela para mim está cortada.
- Que está dizendo?
- É o que digo a vosmecê. Deus me livre de casar com uma negra tão ruim. Não faltam negras boas no engenho de meu senhor. Eu para mim não a quero nem de graça.
Maurícia encaminhou-se imediatamente para a casa-grande. Antecipando-se, Brígida inutilizara toda a obra que a infeliz senhora devera levantar, sobre verdadeiros fundamentos, no espírito da senhora do engenho. Não acreditou esta nas palavras de Maurícia. Atribuiu tudo a ciúme, desculpando a negra, que, em seu conceito, segundo disse, era incapaz de tal procedimento; Sucedeu, então, o que não é raro em tal caso, Maurícia, que antes do casamento de Paulo com Virgínia, era objeto de particulares atenções, tanto que por tal casamento entrou nos laços da família, já não merecia a mesma urbanidade. Descontente, procurou Albuquerque para desaforar no seio dele as novas aflições e pedir-lhe providências e conselhos. Que outros passos poderia dar, sentindo-se quase fora de si pela dor que lhe deixara o golpe inesperado e nefando?
Albuquerque, depois de ouvir a sua narrativa sem lhe fazer a menor observação, disse simplesmente em resposta.
- Não direi que a senhora não tem razão, D. Maurícia, mas devo observar-lhe que as minhas crias de casa são muito moralizadas; e que até agora nada me constou ainda de seu marido, que o fizesse descer do conceito que formo dele. A senhora pede-me providências, mas que providências posso dar, a não ser a de não consentir mais na continuação de minha escrava em sua casa? Essa providência tenha por certa, ainda que me pese privá-la de quem lhe preste serviços domésticos, que a senhora não está acostumada a praticar. Pelo que respeita aos conselhos, só tenho uma judiciosa sentença que lhe lembrar; é a seguinte: a mulher, que dá o devido valor à sua honra, longe de por em praça pública as fraquezas da sua casa, é a primeira que as encobre, ainda que daí resultem danos e desgraças.
Maurícia não pode dizer uma palavra diante desse procedimento tão cru, e voltou decidida a não por mais os seus pés na casa-grande. Reconheceu, então, que estava só em frente do seu infortúnio; só como não se vira jamais! Muito cara lhe ia saindo a felicidade de sua filha. Teve por instantes o pensamento de acabar com os seus dias, mas faltou-lhe o ânimo que requer este passo extremo. Quando o funesto pensamento passou de todo, outro veio ocupar o seu lugar na imaginação escaldada na infeliz vítima - o de fugir para a companhia de Ângelo; mas duas razões se opuseram a que tão grava idéia chegasse a realizar-se; em primeiro lugar, Ângelo havia de votar-lhe agora, em vez do amor de outrora, ódio e desprezo, únicos sentimentos, que o procedimento dela, resolvendo-se a voltar à vida conjugal, devera inspirar-lhe; em segundo lugar, repugnava ao seu caráter e ao seu imenso amor procurar o bacharel como quem fugia covardemente de um grave passo na vida. A ocasião de levar a efeito a fugida tinha passado, Se esta se houvesse realizado no tempo próprio, ela teria chegado à casa de Ângelo, como a primavera chega aos campos desolados, por entre flores e graças; seria objeto de adoração espontânea e grata; pequena, se fosse aferida pelo dever, mostrar-se-ia de grandeza descomunal na medida da paixão de que ela era ídolo sobrenatural, a quem o jovem bacharel queimaria, então, o melhor incenso do seu afeto. Agora, porém, era tudo muito diferente. Ela própria já não tinha no rosto as graças que tanto havia imposto a Ângelo o culto da beleza. Os olhos estavam amortecidos, as faces estavam crestadas do continuado pranto. Não eram já os mesmos encantos que davam a sua conservação particular valor. A sua voz desaprendera grande parte dos delicados segredos que traziam o bacharel rendido aos seus pés; havia quase dois meses que ela não vivia para o mundo da arte, que, aliás, tanto a cativara nos tempos da sua maior liberdade. O piano mudo; as músicas debaixo de uma crosta de pó sobre uma mesa ao canto da sala; os livros trancados na pequena estante, e nenhum ao seu lado, ou ao alcance da sua mão, testemunhavam que lhe entrara na vida outro sistema, outro regime inteiramente oposto ao que dera conveniente educação aos seus dotes naturais, e criara nela o gosto pelas coisas do espírito, que a suas inclinações tornaram de fácil aquisição.
Maurícia sentou-se numa poltrona no gabinete, onde passara a noite. Combalida de tantas impressões, o cansaço e a luta interior puderam vence-la, quando ela mais se preparava para refletir sobre a gravidade da conjuntura atual. Adormeceu ali mesmo.
Uma cena curiosa representava-se nesse momento à beira do rio, que banha a povoação de Caxangá, e Paulo era dela espectador mudo e abalado.
Deixando os negros no serviço, fora ele tomar banho à sombra de umas árvores copadas, juntos das quais passava o rio. O ponto era inteiramente ermo. À direita, morriam os canaviais e à esquerda estendia-se um capinzal vasto. Corriam pelo meio as águas, deixando do lado do engenho, entre elas e as últimas touceiras de cana, uma pano de área descoberto; lambiam as raízes salientes do arvoredo; e desapareciam obra de cem passos adiante por baixo de uma vegetação aquática muito cruzada e basta, que se confundia no capinzal.
Antes de descobrir a natural banheira formada pelo rio, Paulo ouviu o ruído de vozes e o ressoar de risos esganiçados, que não lhe pareceram de todo estranhos. A natural curiosidade o fez cauteloso. Abaixou-se algum tanto, e por entre as folhas das canas descobriu o ponto donde vinham tais rumores. Eis o que viu. Estavam dentro da água um homem e uma mulher. Brincavam, riam-se, mergulhavam e davam cambapés estrepitosos. Quando a mulher gritava com mais força, ou fazia nas águas mais barulhos, o homem recomendava-lhe moderação e silêncio; mas não tinham essas recomendações a menor importância para ela, que prosseguia com os seus movimentos agitados e aumentava o diapasão das suas vozes.
Do lugar onde estava, não pode Paulo saber quem eram os desconhecidos. As árvores cobriam com sombras todo o âmbito das águas onde eles procediam àqueles violentos exercícios, e a distância não era pequena. Paulo, entretanto, começou a sentir maior curiosidade em reconhecê-los. Por ali perto, não se apontavam moradores, e até lhe pareceu digno de nota que tais pessoas, não sendo da redondeza, soubessem que havia essa banheira só conhecida da gente do engenho ou de quem tinha a liberdade de atravessar os canaviais e as lavouras. Mas ao mesmo tempo que desejava conhecer os folgazões, o seu natural pudor vedava-lhe empregar os meios mais prontos para chegar a este conhecimento. Pensava já em voltar, quando um ruído mais forte e uma gargalhada mais vibrante chamaram novamente a sua atenção para a banheira. Fora o caso que a mulher correra de destro das águas para fora em busca do pano de areia, que vinha morrer poucos passos diante do ponto onde ele estava oculto. A mulher, correndo, parando, tornando a correr e olhando para trás, atravessou todo o espaço que havia descoberto. Paulo viu-a, em toda a nudez natural, de frente para ele; e logo que, saindo da sombra, a luz do sol pode cair em cheio em cima dela, reconheceu a Janoca. O espanto, a que esta visão deu lugar em seu espírito, subiu de ponto, quando ele ouviu a homem chamar por ela em voz mais elevada. Era a voz de Bezerra.
- Sai daí; volta - disse Bezerra. Olha que pode vir gente.
- Que é que tem? - retorquiu a mestiça com disfarce impudente.
- Não quero; não quero que alguém te veja.
- Quero eu.
- Volta, Janoca.
- Venha você buscar-me. Tenho já frio e o sol está muito bom.
E a mestiça estendeu-se a fio comprido na areia.
Paulo teve, então, ocasião de observar as formas que ele nem sequer imaginara nunca. A sua primeira impressão, vendo a rapariga correr para a banda dele, fora fugir, desaparecer; mas a novidade e o escândalo puderam mais que o escrúpulo do rapaz, posto que educado nas lições de sã moralidade.
- Se não vier buscar-me, não voltarei tão cedo - prosseguiu a mestiça.
- Deixa-te disso; vem. Se eu for lá, hei de trazer-te arrastada pelos cabelos.
- Não vê! Os meus cabelos são as suas prisões. Sua mulher há de ter inveja deles. Não tem?
- Vem, diabo! - tornou Bezerra contrariado.
- Que é isto? Está com raiva porque falei na sua mulher? Bonito que você é! A sua mulher sou eu.
- Pois sim, és tu mesma; mas o que eu quero é que saias daí.
- Eu não. Está com ciúmes? Cuidarás que alguém, vendo-me nua, vai tirar-me do seu poder?
- Deixa-te de asneiras, e não me metas raiva.
Dizendo estas palavras, Bezerra correu da água para a margem, onde a rapariga se espojava, ora encolhendo, ora estirando as pernas. Vinha resoluto a levá-la por força, mas quando entre ele e ela não se interpunham mais de dez passos, Janoca, por diabrura, encheu a mão de areia e atirou-lhe sobre a cara, acompanhando este movimento de cínica e estrepitosa risada. Bezerra deu um grito, sobresteve um momento com as mãos no rosto, e depois voltou ao rio. A areia caíra-lhe nos olhos.
Então, Janoca levantou-se rapidamente e correu após ele.
- Caiu-lhe nos olhos a areia, meu benzinho? - perguntou com voz sentida. Coitado do meu marido!
E foi ela que arrastou Bezerra para dentro da água, onde, abraçando-o e dando-lhe beijos, começou a banhar-lhe o rosto e a pedir-lhe perdões ao mesmo tempo.
Paulo aproveitou-se deste acidente para retirar-se do lugar, onde o acaso acabava de dar-lhe tão nojento e infame espetáculo. Estava maravilhado. A impudência e a nudez haviam deixado em seu espírito estranha impressão de assombro. Pensou logo em Maurícia, que ele tinha em conta de sua segunda mãe. "Quanto não deve ter ela padecido? - disse ele consigo. Agora acredito em todas as suas palavras; quem pratica o que acaba de praticar esse homem é capaz de todas as vilezas". Paulo sentiu tamanha pena que, dados alguns passos, parou de novo e pôs-se a pensar no que testemunhara. A estranha visão apresentou-se-lhe outra vez diante dos olhos escandalizados, em tintas tão vivas como a realidade. "Oh, nunca supus que ele tivesse coragem para semelhante procedimento!"
Voltou esse dia mais cedo do serviço. Tinha pressa de ver Maurícia. Quanto mais reconhecia a sua desgraça, mais se sentia na obrigação de ir em socorro da infeliz senhora. Nada lhe revelaria do que vira, mas trataria de cortar as relações criminosas que Bezerra e a mestiça mantinham. "Ela se sacrificou por mim; eu tenho o dever de lhe tornar o mais suave que puder o sacrifício. Essa infame rapariga não pode continuar nesse lugar. Há de sair daqui dentro do mais breve tempo que for possível.! E formou logo sua resolução.
Chegando ao engenho, antes da hora costumada, Virgínia fez-lhe mil indagações para saber a causa desta alteração; Paulo respondeu-lhe que se sentira indisposto. Deixando a mulher em seu aposento, dirigiu-se à sala onde D. Carolina se demorava a maior parte do dia. Queria contar o que vira à sua mãe e pedir-lhe que o aconselhasse; mas antes de fazer qualquer revelação, D. Carolina começou a relatar-lhe o que se passara naquela manhã entre ela e Maurícia. Em sua opinião, Maurícia criava fantasmas para desacreditar o marido, que não era tão mau como dizia. Então, Paulo referiu tudo: Maurícia tinha carradas de razão. Ele próprio fora testemunha da cena mais aviltante que se pode imaginar para um homem casado. D. Carolina ouvindo estas atrozes revelações, mostrou-se ao princípio incrédula; mas, depois, forçoso foi ter por certas as palavras do filho. Paulo estava triste e indignado e os seus sentimentos eram comunicativos. Sabendo que Maurícia voltara desgostosa, convidou sua mãe para ir com ele e Virgínia aquela tarde buscá-la para tomar chá no engenho. Conhecia quanto Maurícia era melindrosa. "Se minha mãe não for lá, D. Maurícia nunca mais tornará a esta casa".
Ficou assentado que haviam de ir depois do jantar.
Maurícia despertou, seriam cinco horas da tarde, ao estrondo produzido por fortes pancadas na porta do gabinete. Olhando por aí, viu Bezerra, que arrancava a fechadura, tendo em uma das mãos um escopro e na outra um martelo. Lançando as vistas à alcova fronteira, viu mais que à porta se substituíra um reposteiro de pano verde, em cujo centro se mostrava a palavra - Toilette - feita de letras amarelas.
- Que quer dizer isso? - inquiriu espantada, apontando de pé para a alcova.
- Quer dizer, Maurícia, que eu resolvi dar à minha casa o tom de uma casa de baile. Isto não lhe pode ser desagradável, visto que ninguém ainda teve mais do que a senhora o gosto delicado, que se aprende em Paris.
Passada a primeira impressão que lhe deixava o remoque do marido, Maurícia sentou-se e disse-lhe:
- O senhor fez isso para se vingar do que eu pratiquei ontem?
Bezerra aproximou-se da mulher, e tornou-lhe em resposta:
- E julga a senhora ter praticado uma bonita ação para o seu marido?
- Ao homem que fosse verdadeiramente meu marido eu certo não faria o que fiz; mas o senhor, não obstante dizer-se tal, pode acaso julgar-se com direito a procedimento diverso?
- Maurícia, você anda iludida. Supõe que os homens se devem equiparar às mulheres. Entende que os deveres e os direitos da mulher são idênticos aos do marido. Ignora que o pecado mortal para a mulher não é senão culpa venial para o homem. Estranha que os maridos tenham liberdade ampla em suas ações, e as mulheres só a tenham muito reduzida. Ora, tudo isto são erros, Maurícia! Aceite a sociedade, Maurícia, como é. Se não lhe agrada esta constituição social, tenha paciência, resigne-se. Nenhuma outra será possível, senão passados muitos tempos, e revolvida a atual sociedade desde as suas raízes. Que prejuízo lhe causo com os meus pequeninos passatempos?
- A mim não me causa nenhum prejuízo, senhor, o que me causa é vergonha. Este sentimento é inseparável de toda mulher que, posto educada em Paris, de pequena se afez a ver a maior moralidade no lar dos seus pais, e receber dos seus mestres lições inspiradas em tal sentimento, base da família nos tempos felizes, e o seu esteio, que a impede de vir à terra, quando sopra o furacão dos contratempos. A vergonha é inseparável dos meus olhos, porque eu nunca vi na casa paterna, nunca vi na casa do meu protetor as lastimosas e indignas cenas que o senhor representou em minha casa nos primeiros anos do meu casamento, e agora reproduz depois de empregar os maiores esforços a fim de que eu voltasse para a sua companhia. Priva-me da porta do meu quarto, único meio, que me restava, de cobrir-me contra os seus insultos grosseiros, de resguardar os meus melindres ofendidos por seus ignominiosos amores de palhoça e de cozinha!
Espantado, senão atemorizado desta rápida síntese de suas vilezas, que Maurícia fizera com a mesma mobilidade meridional, onde a sua linguagem afetiva deparava raros atavios e encantos, Bezerra, que, ao princípio julgara esmagá-la com sua hostilidade cínica, sobresteve entre o receio de perder a vasa e a dificuldade de a não fazer brava. Quis interromper Maurícia com algumas palavras de dureza, mas ela, ou porque estava cheia de razão, ou porque a sua exaltação lhe não dava lugar a atender senão à sua grande dor, prosseguiu com a mesma veemência que tivera até aí:
- Cumpre absolutamente que de uma vez nos entendamos sobre o melhor modo de carregar a pesada cruz de um casamento desigual. Estou por tudo, menos pelo aviltamento. Por que procede tão vilmente comigo?
Bezerra sorriu cinicamente, e respondeu em termos ignóbeis.
Então, Maurícia ergueu-se arrebatadamente, mostrando no gesto indício de entranhada indignação.
- Se o senhor tem este direito, igual devo ter eu. Mas não! - acudiu imediatamente. Ainda que mo assegurassem...
Maurícia não pode concluir a frase. Bezerra, de pé ao lado dela, ameaçava despedaçar-lhe a cabeça com o martelo que tinha na mão.
- A senhora não sabe o que disse. Quer fazer de mim um assassino?
Maurícia retorquiu sem se acovardar:
- Assassino já é o senhor, assassino do meu modesto e inofensivo sossego; pode bem assassinar-me agora.
As lágrimas saltaram com veemência dos olhos de Maurícia que se sentara novamente.
Bezerra ainda estava de pé em posição hostil, quando se ouviu na sala ruído de passos na banda de fora. Não passou um minuto que a voz de Virgínia ecoou na porta:
- Dá licença, mamãe? Aqui está Sinhazinha, que vem passar com a senhora esta semana.
Maurícia enxugou as lágrimas rapidamente, enquanto Bezerra, sentindo-se enfraquecer, não deu um passo, não disse uma palavra sequer.
Após Virgínia, entraram Sinhazinha, D. Carolina e Paulo. Sinhazinha correu para Maurícia, abraçou-a e cobriu-lhe as faces de beijos. Havia alguns meses que não a via, e estava muito saudosa.
Dando com os olhos no reposteiro, Virgínia não pode suster um gracejo?
- Bravo, mamãe! Em honra de quem é a partida?
- Em honra de Sinhazinha, Virgínia - respondeu Maurícia, tentando sorrir-se, mas em vão. Tinha a noite no espírito.
Entretanto, Paulo chegara-se a Bezerra, que se encaminhara para o quarto.
- Há que tempo não nos vemos, D. Maurícia! - disse Sinhazinha. E como está mudada a senhora!
- Acha-me muito mudada? Há de ser assim mesmo. Por que não veio ao casamento de Virgínia? - perguntou-lhe.
- Não pude, mas aqui estou para lhe dar os parabéns e mil beijos.
E as duas moças abraçaram-se e beijaram-se graciosa e ternamente.
- Passará comigo não uma semana, Sinhazinha, mas um mês, disse Maurícia.
E, como quem tivera um pensamento repentino, chamou Paulo.
- Eu estava mesmo precisando de você, Paulo. Olhe: pergunte a meu marido onde pôs a porta que ele tirou de meu quarto, e coloque-a outra vez no seu lugar. Fica o reposteiro assim como está. Quero que você trate disso sem demora, que Sinhazinha dormirá nessa alcova comigo.
Estava neste ponto a conversação, quando se apresentou um moleque que viera chamar Bezerra da parte de Albuquerque. Eis a causa do chamado.
Ouvindo grande vozerio na meia-água, Albuquerque pusera o chapéu de palha do Chile na cabeça, pegara do varapau de quiri, que nunca o desacompanhava em suas digressões pelas lavouras, e encaminhara-se para o lugar, onde se estava dando o barulho.
Fora este travado entre Brígida e Januária. Havia outras lavadeiras presentes, assim como escravas, como moradores do engenho; mas umas e outras continuaram a bater sua roupa sem volver vistas às briosas.
- Quero saber o motivo desta briga - inquiriu o senhor de engenho em tom senhoril e arrogante.
E porque o silêncio foi a única resposta que ainda teve desta vez, Albuquerque ameaçou Brígida de a mandar açoitar no carro, e Januária de expulsá-la das suas terras depois de lhe por a casa abaixo.
A esta voz, a cabocla aproximou-se de Albuquerque e contou-lhe tudo em poucas palavras, que a decência ordena que não sejam reproduzidas.
Albuquerque voltou possuído de estranha comoção. Os olhos se lhe encovaram dentro de poucos momentos, as cores fugiram-lhe da face que ordinariamente pareciam verter sangue.
No mesmo instante, mandou chamar Bezerra.
- Acabo de ter uma prova - disse Albuquerque logo que Bezerra penetrou na sala - de que o senhor é indigno, já não digo do interesse que tomei em melhorar as suas condições, mas de transpor aquela porta, a não ser para sair e não voltar mais. Arranquei-o do leito da morte, ou antes da enxerga da miséria. Restitui-lhe a família, que nunca mais o senhor havia de ter. Dei-lhe um emprego em minha casa. Enfim, fiz do senhor gente. Vejo agora que empreguei mal o meu tempo, os meus esforços e a minha proteção. D. Maurícia - acredito-o agora - foi uma vítima de suas baixezas. Está justificada aos meus olhos. Eu, porém, considero-me agora na obrigação de lhe dar plena satisfação, e de lhe provar que fazia do senhor juízo muito superior as suas qualidades. Por isso, exijo que se retire do meu engenho dentro de vinte e quatro horas. Tem aqui um dinheiro à sua disposição. Saia inesperadamente. como inesperadamente entrou por aqui adentro. Com este procedimento me dará plena quitação do que me deve.
Albuquerque tirou de uma gaveta algumas cédulas que pôs sobre a mesa do lado de Bezerra. Este não acusou ninguém. Longe de negar o que lhe fora imputado, pediu perdão a Albuquerque, que não lhe respondeu senão com desprezo. Então, Bezerra, passados alguns momentos, fez a Albuquerque um cumprimento e saiu. Grande preocupação o tomava. À noite, não apareceu para o chá. Virgínia, que tudo ignorava, estranhando a ausência do pai, mostrou-se muito sobressaltada. Pela manhã bem cedo, mandou saber se lhe acontecera algum desastre. Maurícia estava, de certo modo, aflita. Bezerra não foi encontrado em parte nenhuma. Seus baús tinham desaparecido. Dias depois, soube-se de tudo pelo menor. Ele fugira, levando em sua companhia a mestiça.