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O Sacrifício

Franklin Távora

Com pouco, concluído o ensaio do coro, Maurícia e as outras senhoras passaram à sala de jantar, onde se serviu o chá. Ângelo não falou mais com Maurícia esta noite. Às dez horas, despediu-se, tomou com sua mãe o caminho da casa.

Nessa mesma note, Maurícia soube que tinham cessado as relações de Ângelo e Júlia. Martins referiu com demonstrações de satisfação a parte essencial da entrevista no escritório. Já era meio caminho andado. Esta revelação veio mudar os seus planos de luta para tirar o bacharel do poder da atriz. Tinha vindo mais para entrar nessa luta do que para praticar devoção, visto que tomara à sua conta o futuro de Sinhazinha. Mas sendo outras as circunstâncias, julgou conveniente aproveitar-se das facilidades que elas ofereciam. A luta agora deveria travar-se exclusivamente com o bacharel. Maurícia esperou pela primeira ocasião.

Esta ofereceu-se na noite seguinte, depois da conversa. Havia luar. A temperatura estava fresca e saudável. Maurícia propôs um passeio pela estrada, e a sua proposta foi aceita. Dividiu-se o juntamento deste modo: Alfredo e Iaiá rompiam a marcha; duas senhoras do Recife, que tinham ficado por instâncias de Martins e Eugênia, seguiram com estes após aqueles; Sinhazinha e D. Matilde seguiram, após o segundo grupo; Maurícia e Ângelo iam atrás de todos.

- Está zangado comigo? - perguntou Maurícia ao advogado.

- Queria que eu não ficasse magoado com os seus cruéis desenganos?
- Mas o que lhe posso dizer, Sr. Dr. Ângelo? Que quer o senhor que eu lhe diga?
- Quero que me diga que corresponde e corresponderá ao meu afeto com a veemência que é o primeiro sinal, ou antes, a essência do meu. Não lhe mereço este sentimento? Não tenho mais nada com mulher nenhuma. Deixe que eu seja franco. Durante alguns dias, senti certa simpatia, inclinação por Sinhazinha; ela não é feia; é até elegante e tem muito boas qualidades espirituais. Percebi essa inclinação e cheguei a alimentar, por palavras e obras, no espírito da Sinhazinha a esperança de vir a ser, no futuro, seu marido. Eu estava por esse tempo inteiramente desenganado do seu amor, D. Maurícia. A senhora tinha voltado à vida conjugal; sua filha tinha casado; tive por certo que nunca mais se mudassem estas circunstâncias, que excluíam qualquer possibilidade de reatarmos as nossas relações violentamente despedaçadas pela sua ilusória reconciliação. Descrente, descontente, sentindo dentro em minha alma dobrado vácuo deixado pela morte do seu amor e pela morte de meu pai, era fácil ser atraído por essa gentil menina e ficar algum tempo enleado. Eu achara graça na sua modéstia, na sua timidez e, sobretudo, nas suas idealidades, porque eu estava sem ideal. Depois, conheci outra mulher, que, por seus sentimentos arrebatados, seus talentos artísticos me teve preso por poucos meses junto dela, numa ilusão confusa e atordoada, humaníssima, no estado em que eu vivia. Quando esse astro desapareceu dos meus olhos, tinha já fugido antes dele do meu pensamento a imagem da jovem singela, que fora o meu santelmo nos mares cruzados da vida e - coisa singular! na imensidade do meu espírito, assim desocupado, ressurgiu a sua forma, a sua pessoa, que eu julgava de todo morta. Eis a verdade. Pois bem: quando eu esperava que as suas primeiras palavras para mim fossem poemas de consolação e idílios de esperança; quando eu supunha que, estando a senhora livre como está - e para sempre, porque seu marido não há de tornar mais nunca - não teria para mim a expansão franca e expontânea do amor imenso que é compatível com o seu imenso coração, o que cai dos seus lábios, no entanto, são sentenças cruéis, que vêm aumentar a aridez de minha alma, já queimada pelo fogo de tantos desenganos.

- A sua ilusão, Sr. Dr. Ângelo, tem um falso fundamento. Pensa o senhor que eu estou livre, quando eu sinto ainda pungir-me o pulso a cadeia de ferro, que me prende a meu marido, e não se partirá senão com a morte de um de nós dois. Eu não estou livre, continuo a ser a escrava infeliz, que, embora na ausência de seu senhor, sente, ao pensar na sua mísera condição, a ponta do azorrague machucar-lhe as carnes. Hoje, é muito mais melindrosa a minha situação do que antes do casamento de Virgínia; o senhor compreende sem dificuldade que a uma filha casada tem sua mãe muito mais rigoroso dever de dar exemplos de honestidade, do que a uma solteira, do que a uma donzela, que traz em sua condição parte de sua defesa. Não é certo que a corrupção chega muito mais facilmente, porque chega sem deixar vestígios, ao seio da consorte do que ao seio da virgem? Não tenha mais nenhuma ilusão a meu respeito. Estou morta para o amor, a não ser para o amor maternal.

Estas palavras levaram o gelo à alma do bacharel, que estava em fogo um momento antes. Ele parou. O luar cobria-os de suave claridade, que ajudou Maurícia a distinguir no semblante de Ângelo indícios de íntimo desespero.

- Mas, então, disse ele como quem não achava palavras para exprimir com precisão as suas idéias, por que de lá mesmo onde estava, não cortou com decisivo e rude golpe esse amor parasita que me corrói o coração? Por que me escreveu a senhora? Por que teve para mim nessa carta expressões que se parecem com saudáveis confortos e promessas de prazer eterno? Tenho aqui comigo a sua carta. Muitos e ardentes beijos têm meus lábios imprimido nela.

Ângelo tirou do bolso a carta que Maurícia lhe enviara com a tradução do romance de George Sand, e o acompanhamento da poesia dele; e sem poder suster o seu destino, beijou várias vezes o papel.

- Meu Deus! - exclamou Maurícia a modo de assustada. Peço-lhe perdão, mil perdões. Não cuidei que alentaria assim o fogo do seu coração. Deus é testemunha de que, escrevendo-lhe essas letras, a minha intenção foi outra. Julgava todo o seu afeto por mim extinto, inteiramente aniquilado; e tinha razão para pensar assim. Mas, se as minhas palavras foram sementes fatais que vieram viver entre as chamas como as salamandras, não me recuse o seu perdão, porque cometi esse crime sem intenção, antes pensando em praticar ação lícita e boa.

E tomando novamente o braço do bacharel, compeliu-o a andar. Pouco adiante, estavam parados os outros.

- Tenho uma coisa que lhe dizer, D. Maurícia, acudiu Sinhazinha, tanto que pode ser ouvida pela mãe de Virgínia.

E correu para ela, gentilmente. Ângelo, deixando então as duas amigas juntas, foi dar o braço a D. Matilde. Daí, voltaram.

O que Sinhazinha queria dizer à Maurícia é fácil adivinhar. Ela soubera naquele momento da ausência da rival. D. Matilde, que votava grandes simpatias à filha de D. Sofia, revelara-lhe a sua satisfação por ver o filho livre do perigo. É fácil compreender o efeito de tal revelação no espírito, para assim dizermos, no coração da menina. Ela andava triste. Aquelas aventuras tinham-lhe dado muito fel a beber. Durante os dois meses que se seguiram à sua chegada do engenho o seu desgosto, o seu amargor íntimo tinha ido em aumento. Quando Maurícia chegou, mas pode conhecê-la, porque as carnes pareciam ter fugido do corpo dela e a palidez cobria-lhe o rosto. Era inda este o seu estado. A notícia dada por D. Matilde mudou subitamente as condições do seu espírito. Ordinariamente, tímida e modesta, Sinhazinha não guardou desta vez coerência com sua índole e seus hábitos. Tomando o braço de Maurícia, não a deixou mais senão em casa de Martins. Tornara-se outra. Estava alegre. Mais de uma vez aproximou-se de Ângelo e dirigiu-lhe a palavra; o bacharel notou esta diferença, porque nos encontros que tivera com a moça durante as duas noites últimas, vira-a apenas corresponder aos seus cumprimentos e, em vez de aproximar-se, não perder ocasião de se distanciar dele. O prazer de Sinhazinha, porém, durou pouco, porque dentro em breve ela teve a certeza de que Ângelo estava a todo momento a manifestar-lhe esquivança. As impressões de Sinhazinha foram a modo de comunicativas: Maurícia, à proporção que os dias se adiantavam, caía também em funda melancolia.

Uma vez, perguntou-lhe Eugênia:
- Que tem você, Maurícia? Todos notam que você anda descontente e preocupada. Parece-me que não há razão para semelhante tédio à vida.

Virgínia, que já tinha chegado, aproximou-se de Maurícia e disse-lhe.

- Ora, mamãe, deixe-se de tristeza. Vamos tocar, ou antes, venha cantar. Venha, mamãe.

Por satisfazer à filha, Maurícia pôs-se ao piano. Quando terminou a harmonia de Schubert, que era a sua predileta, estava banhada de lágrimas.

Interrogada sobre a causa do seu pranto, dissera que não podia ser outra senão a sua pouca sorte. Todos foram levados a achar a razão desse pranto no procedimento de Bezerra. Maurícia não disse sim, nem não, a semelhante respeito. Mas os eu coração e a sua consciência protestaram em silêncio contra o juízo geral.

XVIII

O sino da capela deu sinal que ia entrar a festa. As novenas tinham terminado na véspera com grandes elogios às cantoras; mas o concurso de gente que elas haviam atraído não cessara, antes, na última noite, mostrava-se ainda maior. Muito de indústria, o juiz fizera correr fama que os versos seriam cantados pelas primeiras vozes do Recife e que entre estas se faria ouvir pela primeira vez a mais gentil das de que ali se poderiam jactar até então nas festas das igrejas. Alguns jornais publicaram esta notícia, e não foi preciso mais para que da rede de arrabaldes, que cerca a estrada, chegassem milhares de pessoas dentre as quais, se muitas eram arrastadas pela devoção, a maioria não tinha outro fim que o de divertir-se como é de costume.

A popularíssima festa de Nossa Senhora da Saúde que se celebra no Poço da Panela; a de Nossa Senhora dos Prazeres de Guararapes, que se celebra na freguesia do Cabo; a de Nossa Senhora do Monte, em Olinda, tiveram aquele ano digna êmula na da Conceiçãozinha da estrada João de Barros. Nunca festa de arraial foi mais brilhantemente concorrida.

E o espetáculo sob muitos aspectos importantes, pagava a curiosidade das visitas.

Sendo o boqueirão, por onde meses antes Ângelo passeara com Maurícia, o ponto do sítio que ficava mais perto da capela, mandou Martins decotar as árvores próximas e conduzir para ali cadeiras, a fim de que as senhoras pudessem, sem risco, ver desse recanto ameno o espetáculo festivo. As sete horas, via-se ali reunida a luzida sociedade, que privava com Martins; e ao lado das jovens elegantes, mostravam-se moços de talento e nomeada que ele tinha a fortuna de saber chamar à sua amizade por seus modos francos e obsequiosos. Dos freqüentadores do sítio, só um faltava: era Ângelo. A ausência deste era sentida por todos, mas especialmente por Maurícia, posto que sua discrição não lhe permitisse revelá-lo. Durante toda a semana, Maurícia queixara-se de calafrios e rápidas pontas de febre. Dizia sentir dores pelo corpo e peito, mas a sua enfermidade era moral. Ângelo ausentara-se da casa de Martins desde a primeira noite de novena, aquela em que tivera de Maurícia o mais formal desengano e nisso estava a origem do mal dela. Que fizera durante este tempo? Não podendo vencer a contrariedade e o desgosto, achou um meio de sair desse penoso estado, e de vingar-se ao mesmo tempo da mãe de Virgínia fazendo que ela viesse a ter também o seu quinhão de sofrimento. Demais, ele estava triste e descontente da cidade que meses antes tomara por uma mansão celestial. Não podia ir ao teatro na ausência de Júlia; não podia freqüentar Martins, depois do que se passara com a cunhada deste. Acudiu-lhe, então, o pensamento de deixar o Recife. Em conseqüência, procurou um amigo político de grande importância para o Presidente da Província, que prometeu nomeá-lo para um dos lugares de promotor que estavam vagos. Inteiramente absorto na promessa, Ângelo, enquanto ela se realizava, fugia da sociedade que costumava freqüentar antes. No dia da festa, meteu-se em um dos carros da linha de ferro do Recife a Apicucos, e, chegando a este povoado, começou a matar o tempo andando de um lugar para outro, visitando antigos conhecidos, passando horas no hotel entregue à mais cruel monotonia.

Antes de começar a festa, havia ainda em alguns dos hóspedes de Martins a esperança de que Ângelo repararia a longa ausência durante toda a semana, comparecendo agora. Maurícia, posto que, mais competentemente do que ninguém, ajuizasse do despeito e contrariedade de Ângelo, não podia capacitar-se de que ele tivesse ânimo para fugir de assistir a sua despedida. Dentro em breve, porém, teve a prova do quanto se enganava; e, quando terminado o Te-Deum , sem que o jovem advogado houvesse ainda aparecido, a sua tristeza aumentou de intensidade e crueldade. Muitas lágrimas silenciosas recebeu em segredo o seu lenço perfumado, muitos suspiros ela os abafou cuidadosamente, a fim de que não fossem suscitar desconfianças que lhe seriam desairosas.

Concluída a cerimônia, não houve instâncias de Martins, não houve rogativas de Eugênia e Sinhazinha que dissuadissem Maurícia de seguir àquela mesma hora para o Caxangá. A todos os pedidos, respondeu dizendo que lhe estavam fazendo mal os ares da estrada, e que deveria ter pressa em fugir deles; os ares nunca tinham sido mais saudáveis; os aromas das flores dos cajueiros e das mangueiras saturavam a atmosfera de átomos balsâmicos e gratos. Não houve nada que a retivesse no sítio. Às onze horas, a porteira do engenho batia sobre a carruagem que entrara conduzindo Maurícia, Virgínia e Martins.

O afastamento de Ângelo e a tristeza de Maurícia lançaram no espírito de Sinhazinha grandes suspeitas, Aquela retirara-se sem lhe dizer uma só palavra sobre a sua prometida intervenção. Somente uma vez dizendo-lhe a filha de D. Sofia que lhe parecia não ter diminuído a indiferença do advogado, visto que nunca mais ele tornara ao sítio, ela lhe respondera:
- Não perca as esperanças. O tempo acabará tudo.

Parte destas suspeitas fora insuflada por D. Sofia, a quem a filha revelava todas as ocorrências que lhe diziam respeito.

- Tens tanta confiança em D. Maurícia, Sinhazinha, como se ela fosse tua mãe ou tua irmã. Se pensas que há de fazer mais por ti do que por ela, está enganada.

- Não diga isso, minha mãe. D. Maurícia tem muito boa alma.

- Tola! Não passas de uma tola! Eu tudo estou vendo e pelos domingos vou tirando os dias santos. Já observaste que o Dr. Ângelo só se senta ao pé dela, e que só com ela tira conversa?
- Quem é que não gosta de conversar com D. Maurícia, que é tão instruída e bem educada?
- Não seja simplória, minha filha. Eles aproximam-se um do outro porque alguma coisa existe entre eles dois. Que quer dizer D. Maurícia compor um acompanhamento para uma poesia do Dr. Ângelo, mandar-lhe traduções feitas por ela, conversar com ele horas inteiras? Não te iludas, Sinhazinha!
A menina começou atentar nestas traiçoeiras sagacidades do amor maternal e achou que havia fundamento. As suas suspeitas redobraram com a intensidade da moléstia espiritual de Maurícia, que lhe parecia ocasionada pelo amuo do bacharel.

Uma manhã, Martins, passando os olhos por uma das folhas diárias do Recife, teve grande surpresa. Acabara de ler a nomeação de Ângelo para o lugar de promotor de uma comarca do interior. Mas a surpresa não lhe foi inteiramente desagradável; e dando a notícia a Eugênia, acrescentou estas palavras:
- Já era tempo de procurar um emprego e entrar numa carreira séria e decente. está apodrecendo no Recife.

Igual, senão maior surpresa teve D. Matilde, quando o filho lhe indicou o seu despacho na folha, Por pouco ela não teve uma síncope. Não havia para ela sacrifício maior do que viver separada do filho.

- Que resolução foi esta, Ângelo? E por que não me ouviste antes, meu filho?
- Eu sabia que as suas lágrimas haviam de ter força para dissuadir-me de um pensamento, e um propósito que não pode, aliás, deixar de redundar em benefício de minha mãe e meus irmãos.

D. Matilde começou a chorar.

- Muito me há de custar a separação, minha mãe, mas a lei fatal da necessidade pode mais que as leis do coração. Tenha paciência. Preciso de meios para sustentar a família, e o escritório não os proporciona. Devo ir buscá-lo onde eles se me oferecem, ainda que seja distante daqui.

Dois dias depois, Ângelo seguiu para a comarca. Ia com ele imensa dor. A imagem de Maurícia, impressa no pensamento, não o deixava um instante, no meio das suas fundas cogitações; e ao lado dela, aparecia D. Matilde, chorosa e triste como no momento da despedida. Nunca as saudades tiveram tamanha força em seu coração. Também as longas e desertas solidões, que ele atravessava muito deveriam concorrer para semelhantes impressões.

- Talvez - dizia ele consigo - talvez que, tendo conhecimento deste meu passo, Maurícia ainda venha a retribuir o meu afeto. Mas quem sabe se eu não ando iludido? Maurícia pensará ainda em mim? Pense ou não, é ela o único objeto do meu afeto.

Maurícia pensava nele, e não podia esquecer-se dele. Quando Virgínia lhe disse que lera no jornal a nomeação de Ângelo, ela correu como louca para verificar com seus olhos esta fatal notícia. Sentiu todas as amarguras, todos os tormentos que sofrem de perto os namorados com tudo o que pode prolongar a ausência do objeto das suas afeições.

Estava ela ocupando de novo o antigo aposento, na casa-grande, para onde se mudara depois da fugida de Bezerra. Concentrou-se aí com a grande dor. Poucas vezes, descia à sala, onde costumava reunir-se com D. Carolina, Virgínia e outras senhoras. Deu em tocar e cantar músicas tristes. Perdia as noites em longas abstrações.

- Foi a fatalidade que pôs em minha alma esta paixão! - dizia algumas vezes.

E as lágrimas deslizavam-se-lhe pelas faces.

Outras vezes, advertia:
- Se eu fosse livre, se eu pudesse dizer-lhe: "posso dar-lhe o meu amor, posso retribuir o seu afeto, podemos viver juntos até a morte" não haveria quem fosse mais ditosa do que eu!
Mas logo recaía em sua habitual melancolia. E então acrescentava:
- Ai de mim! Esta paixão leva-me à sepultura.

Maurícia tinha-se esquecido quase inteiramente de Sinhazinha. Também esta não lhe aparecera, nem escrevera mais. Quando alguma vez aquele se lembrava da promessa que fizera, acudia como defesa de si própria.

- Fiz por ela o que me foi possível; mas ele não esteve pelas minhas súplicas.

Uma tarde, Virgínia subiu banhada em lágrimas ao aposento de Maurícia. Esta foi ao seu encontro sobressaltada e aflita. A menina trazia na mão um jornal, onde vinha publicado, entre as notícias no Norte, a de ter sido assassinado Bezerra na Paraíba, num ajuntamento de povo, por ocasião de uma festa de arraial. Dera lugar ao homicídio a represália de Bezerra a uma provocação de um valentão afamado que bulira com Janoca. Não era duvidosa a notícia. O fato estava narrado pelo miúdo, e os nomes não deixavam a menor incerteza. No fim de um mês, a dor de Virgínia estava curada e para Maurícia começaram a raiar os alegres dias. Quando pela primeira vez depois da lúgubre notícia, elas pôs as mãos ao piano para tocar, foi uma música de escolhidas harmonias, que rebentou em notas animadas, daquele gigante cofre de suas predileções.

Estava neste momento presente uma senhora de sua amizade que lhe pediu cantasse. Maurícia cantou um dos mais belos pedaços do seu repertório. A felicidade voltara ao seu espírito; astro risonho começara a surgir acima do horizonte de seu coração, onde tinha reinado até então merencórias sombras. "Eu vos agradeço, meu Deus, a misericórdia que tivestes para mim", dizia ela consigo nos longos solilóquios a que costumava entregar-se no aposento. Mas a felicidade não devera ficar somente na liberdade. Ela possuía certamente, o amor que lhe consagrava Ângelo. O pensamento de ser venturosa com ele rebentou pujante. Fora contrariado por suas declarações, que ele tomara a resolução de exilar-se para o centro da província. Tudo, pois, a levava a acreditar no sentimento do bacharel a seu respeito. Por isso, não podendo mais resistir ao mais natural desejo de ser feliz, assentou de escrever-lhe para que voltasse ao Recife, onde poderiam realizar o seu sonho de tantos meses.

Estava já com a pena na mão, quando vieram dizer-lhe que duas senhoras queriam falar-lhe. Maurícia desceu. e qual não foi a sua surpresa deparando-se Sinhazinha e D. Sofia, que vinham dar-lhe condolências pela morte de Bezerra.

Sinhazinha estava pálida, e quase disforme. A dor moral fizera da sua juventude uma ruína. Abraçando-se com Maurícia, a menina não pode suster as lágrimas.

- Oh! a amizade na terra é uma ilusão! Não há amizade verdadeira. O que se apresenta com este nome não passa de vã cortesia que praticam pessoas de educação.

- Não é tanto assim, Sinhazinha.

D. Sofia deu força ao pensamento da filha, acrescentando algumas palavras acerbas.

Foi curta a visita. Ao sair, Sinhazinha, por palavras impregnadas de ressentimento, deu a entender que suspeitava o amor de Maurícia, e que esse amor era o inimigo do seu. Maurícia, sem saber a princípio o que responder, pode, enfim, defender-se, dizendo que Sinhazinha estava enganada; que ela já não era para isso; que só na prosperidade de Virgínia fazia consistir a sua, nem queria outra ainda que lhe fosse fácil alcançá-la.

Maurícia subiu ao seu aposento, levando inesperadas amarguras na alma. Tinha passado alguns dias nos braços de uma ilusão inefável; algumas manhãs haviam surgido cheias de luzes e visões feiticeiras aos seus olhos; algumas noites tinha levado em claro, enamorada dos castelos, que a esperança lhe levantara na imaginação. Mas tudo caía por terra. A presença da filha de D. Sofia, seu emagrecimento, sua tristeza, seu desânimo, suas queixas, suas lágrimas, tinham destruído, como se fossem vendavais, as flores que estas manhãs se mostraram toucadas, como as jovens de Anacreonte. Por uma singular generosidade de sua alma, Sinhazinha se lhe afigurou uma segunda filha. O sentimento maternal que lograra alcançar a felicidade para Virgínia, ela o sentiu despertar no coração para favorecer aquela desconsolada menina, cujas qualidades morais tinha na melhor conta. Doeu-lhe que fosse ela que concorresse de qualquer modo para destruir o futuro da meiga criatura e aos seus próprios olhos envergonhou-se de pensar em ser feliz à custa do amor dessa mulher que no mais apertado transe procurara a sua proteção. Pareceu-lhe que, se levasse por diante a resolução, nenhuma senhora de sua amizade, ninguém que a conhecesse teria para ela outro epíteto que o de - pérfida! Esta ordem de idéias acovardou Maurícia. Há, ainda, posto que sejam raros, como era o dela, caracteres que rejeitam riqueza, brilho, prazeres da vida, se para a aquisição de tais bens se exigir que eles sujeitem a uma imputação menos digna, que seria o seu perpétuo tormento, a sua túnica de Nesso.

Quando as suas vistas caíram sobre o papel, que ainda estava aberto na mesa, ela sentiu que os olhos se lhe arrasavam de lágrimas. Se a visita de Sinhazinha se realizasse no dia seguinte, ou talvez algumas horas depois, a carta teria seguido já os eu destino, e ela lograria, talvez, o que sonhava; mas a fatalidade, que a perseguia de há muito nãos e esquecera dela ainda esta vez.

Maurícia sentou-se defronte do papel
- Que devo fazer? - perguntou a si mesma. Devo escrever, ou devo, ao contrário, renunciar para sempre a esperança de ter completa na terra a mais nobre ambição de minha alma?
Passou alguns momentos em aflitiva hesitações, muda, o olhar gelado sobre a página branca. Sinhazinha não lhe saía da pensamento.

Quando estava nesta perplexidade, Virgínia entrou e começou a falar-lhe sobre o depauperamento e a tristeza da amiga.

- Mamãe, sabe por que é que Sinhazinha está assim?
- Por que é? - interrogou Maurícia por demais.

- São saudades do Dr. Ângelo. Ela tem-lhe muito amor. Não se pode esquecer dele. Coitada de Sinhazinha!
- Tens pena de Sinhazinha, Virgínia?
- E por que não hei de ter? Mamãe bem sabe que eu gosto muito Sinhazinha; ela é uma das minhas melhores amigas. Se estivesse em minhas mãos dar-lhe o que mais deseja, eu não hesitaria um momento. Ela é tão boa, tão meiga, tão sincera.

- Acreditas na sua amizade?
- Acredito, sim. Quantas vezes ela me consolou nas minhas tristezas, antes do meu casamento, quando me parecia que ele não havia de realizar-se! Quantas vezes me disse, vendo-me chorar: "Não chore, Virgínia. Tenha confiança em Deus. O Sr. Paulo há de ser seu marido. Que tem que Iaiazinha tenha muitos contos de réis, seja prima do Sr. Paulo, e D. Carolina mostre desejo que eles se casem? Tudo isto não lhe há de fazer mal nenhum. Não desanime." Quem fazia isto comigo, quem me dava tanta coragem, quando eu sentia meu espírito abatido, quem queria do meu coração a minha felicidade não me deve merecer muito, muito?
Estas palavras foram agudos punhais desferidos contra o coração de Maurícia, que se sentiu depois disso ainda menos forte pata levar a efeito a sua resolução.

- Não escreverei - disse, levantando-se. Custar-me-á, talvez, a vida este passo, mas hei de ter forças para dá-lo.

Sem compreender o que dissera sua mãe, Virgínia olhou para ela atônita e confusa; e no seu rosto, por onde lhe corria em bagas o pranto, buscou em vão ler o natural sentido daquelas palavras.

- Meu Deus! - exclamou a menina ao cabo de um momento, em que lobrigava muito ao longe nuvem cheia de tempestades no horizonte, por ora sem fogos e sem vulcões destruidores, da vida de Maurícia. - A quem ia escrever, mamãe? Se minhas palavras concorreram para que a senhora mudasse de uma resolução que lhe era agradável, não se importe com elas. Faça o que for melhor.

Era tarde. Estava resolvido o sacrifício.

XIX

Longe do Recife, numa vila de costumes primitivos, de vida quase rudimentar no alto sertão, o amor de Ângelo por Maurícia requintara. Dia e noite, o bacharel trazia na lembrança a bela imagem dessa mulher, umas vezes a modo assustada, outras mostrando rápidos ciúmes, outras indiferentes às suas exaltações. Maurícia de feito passara por todos estes estados espirituais, que se alternavam e sucediam ao sabor das circunstâncias ou dos acontecimentos de sua vida agitada por forças diferentes, contraditórias ou reciprocamente hostis. Qualquer que fosse, porém, a face dessa imagem que se reproduzisse no pensamento do jovem bacharel, tinha sempre ele para ela as mais distintas preferencias.

Nos primeiros tempos, Ângelo sentiu-se inteiramente arrependido do passo que dera; esteve ainda para pedir demissão, tamanho foi o seu descontentamento, e tão incompatíveis se lhe afiguraram com sua índole e educação costumes e sentimentos tão primários de mistura com sentimentos e costumes inocentes e singelos; mas, dominando os receios de desgostos e sobretudo, desanimado ante o pensamento de continuar a sofrer no Recife os tormentos silenciosos de sua paixão contrariada, logrou perder a idéia de voltar. Todo o seu espírito começou a revoar em torno dessa imagem imperecedoura, dessa ideal criação, que distante do original, se tornava cada vez mais espiritual, mais fantástica, mais poética, e por isso mais rica de atração pelos eu prestígio quase divino. Enfim, a idéia fixa de Ângelo era esta: que Bezerra havia de morrer primeiro que ele e Maurícia, e que, esta lhe pertenceria. Imagine-se, por isso, com que mostras de satisfação interior não leu ele no jornal a notícia da morte daquele infeliz homem. Quanto o amor é perverso!
Não leu uma vez só, releu muitas vezes a notícia de cuja veracidade ao princípio pareceu duvidar, mas em que acreditou, por último, visto que era irrecusável a evidência. Ocorreu-lhe, então, o pensamento de voltar ao Recife, procurar Maurícia e dizer-lhe: "Eis-me aqui, belo anjo. Cessaram todos os obstáculos que cavavam entre nós abismo intransponível." E a sua imaginação de poeta concluía este como cântico de ressurreição com um verso de Martins, que andava muito em voga e se repetia entre moças e rapazes no retiro literário da estrada:

"Sejamos, meu anjo, sejamos um só"

O primeiro correio que partira da vila, depois da chegada da notícia consoladora, trouxe a um amigo de Ângelo que o era também do presidente da província - o mesmo que obtivera a nomeação - um pedido de licença para vir tratar de sua saúde na capital. Por essa ocasião o bacharel escreveu também a D. Matilde e a Martins, mas nada lhe disse a respeito do passo que dera.

O seu empenho em fazer surpresa a Maurícia era tamanho que ele recomendou àquele amigo toda a reserva. A licença não foi publicada.

Ângelo pôs-se a caminho, logo depois que recebeu o despacho oficial, e depois de longa jornada a cavalo, alcançou uma das últimas estações da estrada de ferro Recife a São Francisco. Chegou àquela cidade na mesma tarde. Entre o pedido de licença e a chegada, haviam decorrido cerca e três meses.

Quanto lhe custou o trajeto da estação das Cinco Pontas à estrada João de Barros! Tinha o coração em aflitiva e doce ansiedade. A carruagem não rodava, voava por ordem sua, o plaustro das ninfas antigas não era mais veloz. E ele tinha razão de querer vencer a distância com a rapidez do pensamento; estava quase alucinado. Havia perto de seis meses que não sabia notícia de Maurícia, que durante esse tempo tivera quase exclusivo domínio em suas idéias. Enfim, ao escurecer, o carro parou à porta do sítio de D. Rosalina. Ângelo, tendo na mão a bolsa de viagem, saltou, quando o carro ainda não estava parado, e transpôs correndo a soleira do portão. Arbustos, que ele deixara pequenos, estavam grandes. Madressilvas novas, resedás, jasmins-laranjas, que haviam sido plantados em sua ausência, formavam latadas sombrias e muitas espessas nas proximidades da porta da entrada. Os cajueiros ostentando os primeiros frutos daquele ano, recendiam aromas agradáveis.

- Reconheço os aromas do cajueiro - disse ele - entrando. Como são gratos os perfumes da casa paterna!
Uma afilhada de D. Matilde, por nome Joana, que ao pé de uma das janelas, se aproveitava das últimas claridades do dia para concluir a sua tarefa em uma almofada de renda, correu como louca pelo corredor a dentro, gritando:
- Dindinha, Dindinha, aqui está seu Ângelo!
Foi um reboliço, uma revolução, um deus-nos-acuda na casa de D. Rosalina. Por alguns momentos, pareceu que o mundo vinha abaixo. mas não estava longe do prazer o desgosto, da esperança o desespero para o infeliz homem de letras.

- Dá-me notícias de D. Maurícia, minha mãe? - perguntou Ângelo.

D. Matilde hesitou. Seu rosto, por onde discorria a aurora boreal de uma satisfação inesperada e inefável, seu rosto, que, sem falar, parecia dizer mil prazeres interiores, vestiu repentinamente a sombra do luto íntimo. A boca, que estava dizendo miríada de emoções, emudeceu.

A mudança súbita, que Ângelo notou imediatamente, aguçou a sua curiosidade, redobrou a sua angústia.

- Por que se cala, minha mãe? - inquiriu ele, mal disfarçando a contrariedade. Não me oculte nada. Li no jornal que o marido tinha morrido. Antes de tudo, diga-me se o jornal falou a verdade ou mentiu.

- Falou a verdade, Ângelo - respondeu D. Matilde. Assim não tivesse D. Maurícia...

- Não tivesse o quê, minha mãe?
-... morrido também, Ângelo!
- O quê? O que, minha mãe? - exclamou o bacharel.

- Meu Deus, meu Deus! - acudiu D. Matilde. Não te impressiones com a vontade de Deus, meu filho, por mais dolorosa que te pareça.

Durante alguns momentos, Ângelo não pode dizer uma palavra sequer. Véu de profunda noite descera como mortalha negra sobre o seu espírito, onde alvejavam antes roupas de noivado querido. Pôs as mãos na cabeça e, cravados os cotovelos na mesa, que tinha diante de si, no quarto, entregou-se à acerba dor que o tomara no meio do mais intenso prazer que sonhara. Era a segunda vez que se lhe deparava na vida o espetáculo da morte de uma pessoa cara. As lágrimas em borbotões começaram a cair-lhe pelas faces e a formar uma poça cristalina, onde se refletia a luz já então acesa.

Vendo-o chorar, D. Matilde entrou a chorar, também. E por esta forma se trocaram sorrisos em lágrimas, doces comoções por aflições pungentes.

Horas depois, Ângelo deitado no sofazinho de vime do seu aposento, tendo a cabeça sobre as pernas de D. Matilde, ouviu desta a narração dos últimos dias de vida de Maurícia. O que a mãe contou ao filho pode resumir-se no seguinte:
Certa manhã, Maurícia sentira-se sem forças para levantar-se da cama. Passara a noite prostrada e febril. Nas faces, lívida cor substituíra as mimosas tintas esparzidas aí meses antes pelo pincel do artista insigne que se chama saúde , ou antes tranqüilidade espiritual . O vigor, e com ele a vida fugiam espavoridos.

A doença trouxe grandes sustos à família. Em conversação com a mulher, Albuquerque, que já tinha notado dias atrás os progressos da decadência física dessa criatura robusta, que os sofrimentos mais cruéis nunca tinham podido vencer, e que, ao contrário, de todos triunfara.

Virgínia muitas vezes surpreendera a mãe chorando em silêncio. Empregara todo o esforço para saber a origem dessas lágrimas, que levavam dor mortal diretamente ao seu coração; mas nem de longe Maurícia dera a entender a verdadeira causa delas. Uma vez disse à filha, depois de fugir por muitos modos às suas indagações.

- Não te assustes com o meu pranto, Virgínia. Não és tu feliz? A tua felicidade não vai aumentar com o nascimento do primeiro fruto do teu amor? Deixa-me chorar em silêncio; choro sem causa; as minhas lágrimas provêm de uma melancolia que eu não compreendo e não posso explicar.

Naquele dia, Maurícia pedira Albuquerque que mandasse por os cavalos na carruagem; queria ir à estrada de João de Barros; tinha muitas saudades de Eugênia; queria vê-la. À noitinha a mãe e a filha entraram em casa de Martins.

- Venho vê-los - disse aquela, entrando; e creio que daqui não sairei mais, senão para o cemitério. Procuro uma região aprazível para exalar o meu último suspiro.

Martins e Eugênia, que não sabiam da doença da parenta, sentiram uma impressão dolorosa, vendo-a naquela abatimento geral, que indicava próximo acabamento, e ouvindo palavras que pareciam anunciá-lo já.

Nessa mesma noite, Maurícia mandou dizer a Sinhazinha que a viesse ver, e ela não se fez esperar. Aquelas duas mulheres, que estavam padecendo do mesmo mal, abraçaram-se com ternura.

- Ainda está muito descrente, Sinhazinha? - perguntou-lhe Maurícia.

- Cada vez estou mais. A sinceridade fugiu do mundo.

- Você não tem razão para dizer isso. Deixe-se de descrença. Seu futuro está clareando. A tempestade cessará brevemente, e surgirá depois um dia risonho e esplêndido, que há de acompanhá-la por toda a vida sem nuvens e sem ventanias.

- Qual, D. Maurícia! A senhora diz-me estas coisas tão bonitas para consolar-me. Ninguém melhor do que a senhora sabe que as minhas ilusões murcharam e secaram.

- Para que metes pontas de remoques nas tuas palavras? Não me queira mal, Sinhazinha. Faço votos sinceros para que você logre o que mais deseja.

Aparecendo Eugênia e Virgínia, as duas senhoras mudaram de assunto.

Eugênia disse que o mal de Maurícia desapareceria com o leite tomado todas as manhãs ao pé da vaca, banhos frios, e passeios pela estrada. Virgínia aprovou este tratamento, e Sinhazinha prometeu fazer companhia a Maurícia. Esta, porém, mostrava-se no todo desanimada. Tinha por certo o seu aniquilamento. Estava resignada, e dizia que não havia de chegar ao fim do ano.

Uma tarde, Maurícia foi atacada de febre tão forte que dela não se levantou mais. Os médicos deram à moléstia fatal um nome acabado em ite : mas o que a levou à sepultura não foi senão o sacrifício que se impusera.

Três dias depois do ataque, a casa de Martins que durante tantos anos servira de estância de prazeres puros e alegres, oferecia um espetáculo altamente contristador. Ia emudecer a voz que fizera vibrar as harpas mais harmoniosas que ainda ressoavam na pitoresca estrada; iam tolher-se finos e gelados os dedos torneados e coloridos, que arrancaram das teclas mudas e frias as mais ardentes e apaixonadas inspirações dos grandes mestres da arte dos sons e das melodias; ia, enfim, morrer aquela beleza ainda fresca, ainda admirável, dando o grande exemplo de uma rara abnegação, depois dos maiores e mais eloqüentes testemunhos de respeito ao dever conjugal. Mulheres, mirai-vos nesse espelho de aço puro! Maurícia existiu. Foi, como aqui se pinta, uma mulher que honrou seu sexo e a família brasileira.

Albuquerque e Paulo, que tinham vindo do engenho na véspera, ora se sentavam, ora passeavam pela sala comovidos mas silenciosos. Na alcova, D. Eugênia, Sinhazinha, D. Carolina e D. Teodora, em pranto, rodeavam o leito da agonizante. D. Matilde, mais perto dela do que nenhuma outra, tinha quase sobre os joelhos a sua cabeça e pegava-lhe de uma das mãos. Virgínia, que não tivera coragem de arrostar a transição daquela que ia levar consigo parte de sua alma, soluçava inconsolável em um aposento vizinho.

- O Dr. Ângelo está tão distante daqui! - disse Maurícia. Mandem chamá-lo. Quero vê-lo antes de morrer.

- Ele vem aí - respondeu-lhe D. Matilde.

- Levo algumas saudades da vida - tornou a agonizante.

E depois disse:
- O meu sacrifício matou-me...

Foram estas as suas últimas palavras.

Depois da morte de Nunes Machado, não houve naquela estrada outro caso de morte que produzisse nos habitantes tão profunda impressão. Nem podia acontecer o contrário. Por vários anos, especialmente por ocasião das festas de São João, do Natal e da Conceição eles tinham visto passar de braço dado com alguma jovem das mais estimadas, ou algum cavalheiro de maior distinção, em grupos de famílias por baixo das árvores, colhendo flores, sorrindo feliz, gracejando e brincando, aquela senhora respeitável sem entono, esbelta sem afetação, formosa sem os esplendores da primeira juventude, sempre desejada, sempre querida e sempre digna do apreço e respeito dos que a conheciam.

No outro dia, a capelinha, onde fora depositado o cadáver parecia horto. Não houve rosas, perpétuas, saudades, murtas e alecrins em todos os sítios dos arredores, que não tivessem vindo adornar o penúltimo paço de tão preciosos restos mortais. Não houve matrona, ou moça, ainda que não pertencesse ao círculo de onde havia emigrado para nunca mais voltar aquela musa canora, apaixonada e honesta, que não mandasse levar à capelinha o seu ramalhete ou o seu açafate com flores - delicado tributo de estima, espontaneamente rendido em honra de quem deixava tão gentil memória na face da terra

CONCLUSÃO

Voltando do interior à capital de Pernambuco, o primeiro ponto para onde me encaminhei, depois de ter ido ao meu cabeleiro, foi o teatro. Havia cerca de oito meses que eu estava fora do Recife. A minha estada na remota povoação aonde me levara interesse particular, fora um longo e ininterrupto tédio. Cheguei ávido de distrações. Ora, a primeira que se me ofereceu foi um espetáculo anunciado para aquele dia. Esse espetáculo despertou logo em mim dobrada curiosidade: o drama, além de novo, era original de Ângelo.

No teatro, encontrei-me com Martins, que fora atraído pela mesma novidade que eu. Ângelo estava num camarote da segunda ordem. Notando eu a presença de duas senhoras que me pareceram estranhas à família do dramaturgo, Martins veio em socorro à minha lembrança:
- Não conheces mais Sinhazinha e a mãe?
- Ah! São elas?
- Ângelo está de casamento justo com Sinhazinha.

Nesse momento, o nosso amigo, que nos vira, fez sinal para que fossemos ter com ele. Subimos, e do camarote assistimos aos seus triunfos literários.

Quase não conheço Sinhazinha. Estava muito menos delgada do que antes, corada, bonita e parecia ter perdido parte dos modos tímidos, melhor direi, do acanhamento que um ano atrás era a sua feição dominante. Ângelo mostrava-se satisfeito, para não dizer feliz. Enfim, notei entre as duas famílias uma como benevolência recíproca e íntima, que me deu a medida da harmonia a coroar o laço ajustado entre os dois jovens.

Lembrei-me de Maurícia ao sair do teatro, e falei nela a Martins.

- Vai fazer um ano que a acompanhei à sepultura. Teve uma vida bem penosa e crua. Descansou.

Comoveram-me estas palavras.

Entrei em casa, revolvendo no pensamento aquela profunda sentença que Herculano pôs nas elegias do Presbítero de Cartéia:
"Haverá paz no túmulo? Deus sabe o destino de cada homem. Para o que aí repousa, sei eu que há na terra o esquecimento!"

Fonte: bib.futuro.usp.br

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