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FRANÇA (1938)

NA FRANÇA, BRASIL FICA EM TERCEIRO

Itália conquisou seu segundo título consecutivo | Ricardo Acampora

A Copa de 1938 foi disputada em meio à crescente tensão política que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.

A FIFA decidiu que a França seria a sede do Mundial em detrimento da candidatura da Argentina, alegando que o torneio seria uma excelente oportunidade para dissipar a tensão e mostrar que havia unidade no continente europeu.

A Espanha, mergulhada numa sangrenta guerra civil, resolveu não enviar sua seleção à França. A Áustria, anexada pela Alemanha de Adolf Hitler, também não foi à Copa e ainda teve seus melhores jogadores utilizados na equipe alemã.

O Uruguai, ainda magoado pelo desinteresse dos europeus pela Copa de 30, disse que só voltaria a participar do torneio quando o Mundial fosse disputado de novo na América do Sul. A Argentina, que teve sua candidatura como anfitriã rejeitada pela FIFA, também ficou de fora da Copa da França.

Mudança

Pela primeira vez, o país anfitrião e o vencedor da Copa anterior estavam automaticamente classificados, inaugurando o critério que prevalece até a copa da Coréia e do Japão.

Inicialmente, foram inscritos 36 países para as eliminatórias. O Brasil se classificou com a desistência da Bolívia. Entre os estreantes, Cuba e as Índias Holandesas, além das poderosas equipes da Alemanha e da Polônia.

No Brasil, a paz tinha voltado a reinar no futebol, e tanto clubes quanto federações se abrigavam pacificamente sob o manto da Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Pela primeira vez na história dos Mundiais, a seleção brasileira seria representada pelos melhores jogadores do país.

No gol, o time comandado pelo técnico Ademar Pimenta contaria com os excelentes Batatais e Valter. Na defesa, sobressaia a classe de Domingos da Guia, "O Divino" - o craque do Flamengo que muitos consideram até hoje o melhor zagueiro que o Brasil já teve.

No meio-campo Martim e Afonsinho, e no ataque Romeu, Perácio, Hércules, Patesco e o fenomenal Leônidas da Silva - conhecido como "O Diamante Negro" ou "O Homem Borracha" -, criador da bicicleta e de outros malabarismos infernais.

Campanha

O Brasil estreou no dia 5 de junho em Estrasburgo, contra a Polônia. No primeiro tempo, prevaleceu a classe e o futebol refinado dos brasileiros e, ao final dos 45 minutos, o Brasil vencia por 3 a 1.

Mas no intervalo do jogo desabou um fortíssimo temporal que elameou o gramado, dificultando o toque de bola dos brasileiros. Os poloneses se aproveitaram e o jogo terminou empatado em 4 a 4.

Na prorrogação o Brasil fez mais dois gols vencendo a partida por 6 a 5. Leônidas e o polonês Willinowski marcaram 4 gols cada um.

Um dos gols de Leônidas foi marcado com o atacante descalço. Leônidas se preparava para trocar de chuteiras perto da área polonesa quando recebeu um presente do goleiro polonês, que escorregara ao tentar cobrar um tiro de meta. O atacante brasileiro completou para o gol de primeira, ainda com a chuteira na mão.

Surpresa

A grande surpresa da primeira fase foi a desclassificação da poderosa Alemanha pela modesta equipe da Suíça.

Cuba fez uma excelente estréia vencendo a Romênia por 2 a 1. Mas o sonho dos cubanos terminaria nas quartas-de-final com a goleada de 8 a 0, aplicada pela Suécia.

Nas quartas-de-final, o Brasil teve que cruzar o território francês de norte a sul numa longa viagem de trem para enfrentar a Tchecoslováquia em Bordeaux.

O jogo terminou empatado em 1 a 1, com mais um gol de Leônidas. A seleção brasileira venceria por 2 a 1 a partida de desempate, que foi jogada no dia seguinte. Os gols brasileiros foram marcados por Leônidas e Roberto.

Pela primeira vez, o Brasil disputaria a semifinal de uma Copa do Mundo. A seleção brasileira iria enfrentar, em Paris, a Itália, então campeã mundial. Os italianos tinham confirmado o favoritismo ao eliminar a França, dona da casa.

Polêmica

No dia 12 de junho, o Brasil entrou em campo para a batalha que poderia levar a seleção a sua primeira final da Copa. Mas o técnico Ademar Pimenta resolveu dar um descanso para Tim e o artilheiro Leônidas da Silva.

Depois de um primeiro tempo sem gols, os italianos abriram o placar. Em seguida, Giuseppe Meazza aumentava a vantagem com um pênalti. Romeu ainda descontou para o Brasil no finalzinho, mas não impediu a eliminação da seleção brasileira.

O jogo Brasil e Itália causou muita polêmica e, até recentemente, foi objeto de análises e discussões. Há quem diga que o Brasil perdeu pelo cansaço dos jogos e viagens anteriores. Outros, lamentam a ausência de Tim e de Leônidas. Há também aqueles que garantem que o pênalti que deu origem ao segundo gol italiano não existiu.

Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, o falecido jornalista João Saldanha, que viu o jogo em Paris, disse que os italianos foram superiores, mantiveram o controle do jogo durante toda a partida e mereceram a vitória.

"Os italianos poderiam ter vencido de goleada. Eu estava sentado atrás do gol do Brasil e vi nosso goleiro defender até pensamento. Fomos bombardeados."

O pênalti foi confirmado pelo próprio Domingos da Guia, em entrevista à BBC: "O atacante italiano parou a bola e me olhou. Eu o desarmei, ele me deu um pontapé e eu revidei imediatamente. Esse foi meu erro. O juiz viu e marcou o pênalti."

O Brasil, comandado por Leônidas, garantiu o terceiro lugar vencendo, de virada, a Suécia por 4 a 2.

A seleção brasileira voltava para casa de cabeça erguida. Afinal, tinha disputado cinco jogos em 11 dias com duas prorrogações. Durante o Mundial o time teve que viajar mais de 4 mil quilômetros em território francês. E, além do terceiro lugar, o time voltava também com o artilheiro da Copa, Leônidas, com os 8 gols marcados na competição.

Falta de público

Na final, os italianos enfrentaram a Hungria, que na semifinal tinha vencido a Suécia com uma goleada de 5 a 1.

Mas os húngaros não foram páreo para os campeões do mundo. No final do primeiro tempo a Itália já vencia por 3 a 1. No segundo tempo, um gol para cada lado e o jogo terminou com a vitória da Itália por 4 a 2 e a consagração do bicampeonato dos italianos.

O Mundial da França registrou a pior média de público até hoje. Pouco mais de 21 mil torcedores por partida. Talvez o clima de guerra tenha estimulado o desinteresse do público.

Pouco mais de um após o término do Mundial o exército alemão invadiria a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial.

A guerra interromperia o torneio por 12 anos. A Copa do Mundo só voltaria a ser disputada em 1950, no Brasil.

Seleção brasileira

Batatais, Valter, Domingos da Guia, Machado, Nariz, Jabu, Zezé Procópio, Brito, Afonsinho, Argemiro, Martim, Brandão, Lopes, Romeu, Leônidas, Perácio, Hércules, Roberto, Luisinho, Niginho, Tim e Patesco.

Resultados

(Devido ao número reduzido de times, a Copa já começou nas oitavas-de-final)

Suíça 1 X 1 Alemanha

Brasil 6 X 5 Polônia

França 3 X 1 Bélgica

Tchecoslováquia 3 X 0 Holanda

Cuba 3 X 3 Romênia

Hungria 6 X 0 Antilhas Holandesas

Itália 2 X 1 Noruega

Cuba 2 X 1 Romênia

Suíça 4 X 2 Alemanha

Quartas-de-final

Hungria 2 X 0 Suíça

Brasil 1 X 1 Tchecoslováquia

Itália 3 X 1 França

Suécia 8 X 0 Cuba

Jogo de desempate

Brasil 2 X 1 Tchecoslováquia

Semifinais

Hungria 5 X 1 Suécia

Itália 2 X 1 Brasil

Disputa de terceiro lugar

Brasil 4 X 2 Suécia

Final

Itália 4 X 2 Hungria

Fonte: www.joaozinho10.com.br

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