Ingleses derrotam Alemanha Ocidental na final | Ricardo Acampora
Depois de duas conquistas consecutivas, era impossível controlar o otimismo dos brasileiros. A torcida passou a acreditar que a seleção "canarinho" era imbatível e que a conquista do tricampeonato era certa. A presunção contagiou os dirigentes que negligenciaram a organização dos preparativos.
A Copa de 66 teve novo recorde de inscrições, com 70 países disputando as 14 vagas para as finais.
O Brasil, classificado por antecipação, descuidou-se na fase preparatória. Paulo Machado de Carvalho, apelidado de "Marechal da Vitória", pelo sucesso das campanhas que liderou em 58 e 62, foi afastado da chefia da delegação.
No seu lugar, assumiu o próprio presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange.
O comando técnico foi entregue novamente a Vicente Feola, que, indeciso, acabou convocando 44 jogadores para a fase inicial. A seleção de Feola treinava com um time branco, um amarelo, um verde e outro azul. Ou seja, um time para cada cor da bandeira nacional.
Feola era acusado pela imprensa de ultrapassado, por não perceber a evolução do futebol europeu. O técnico optou por levar à Inglaterra uma seleção que mesclava oito craques veteranos de 1958 e 1962 com 13 estreantes.
O goleiro Gilmar, um dos convocados, comentou a desorganização que imperou naquela seleção: "A vaidade superou a razão. Todos queriam chegar ao Brasil com a taça do tri. O time não tinha uma base. Fizemos 23 partidas sem repetirmos a equipe uma só vez."
Sem time ou esquema tático definidos, o Brasil estreou em Liverpool contra a Bulgária. Dois gols de falta, um de Pelé outro de Garrincha garantiram a vitória.
Mas era evidente que o time era fraco. O zagueiro Belini comentou que os jogadores se sentiram abandonados em Liverpool: "O doutor Havelange nunca aparecia na concentração. Ele ficou o tempo todo em Londres, cuidando da sua candidatura para a presidência da Fifa."
No segundo jogo, contra a Hungria, o desentrosamento do time mostrava que a seleção brasileira não iria longe. A Hungria venceu por 3 a 1, sendo o gol brasileiro marcado pelo jovem Tostão, do Cruzeiro de Belo Horizonte.
Com a derrota, o Brasil teria que partir para o tudo ou nada contra Portugal, onde brilhava o talento do moçambicano Eusébio, um jogador forte, veloz, ágil e habilidoso.
Eusébio comandou a equipe portuguesa nas vitórias de 3 a 1 contra a Hungria e de 3 a 0 contra a Bulgária.
O time português era rápido e objetivo, praticava um futebol moderno. A seleção, que usava como base o time do Benfica, aliava a técnica do meio-de-campo composto por Jaime Graça e Coluna com a força e a velocidade de um ataque que tinha José Augusto, Eusébio, Torres e Simões.
Para assegurar a vitória contra o Brasil, os portugueses bateram impiedosamente em Pelé. O zagueiro Vicente derrubava Pelé toda vez que o brasileiro tocava na bola. No segundo tempo, Pelé mancava em campo, sem a mínima condição de jogo.
Sem Pelé e sem entrosamento, o Brasil foi presa fácil. Dois gols de Eusébio e um de Simões, contra um do lateral Rildo, despacharam o Brasil de volta para casa, adiando o sonho do tri.
Na confusão da seleção de 66, o técnico Vicente Feola utilizou 20 jogadores em apenas três jogos. Somente o meio-de-campo Zito e o ponta-esquerda Edu, de apenas 16 anos, não jogaram.
A Itália foi outro bicampeão a não passar das oitavas-de-final em 66. Os italianos foram surpreendentemente eliminados pela Coréia do Norte.
Os norte-coreanos enfrentaram Portugal nas quartas-de-final e, para surpresa geral, fizeram 3 a 0 no primeiro tempo. Os portugueses reagiram e acabaram virando o jogo, vencendo por 5 a 3, com 4 gols de Eusébio.
Portugal iria enfrentar os donos da casa na semifinal. Os ingleses vinham fazendo uma campanha apenas razoável.
Na primeira fase, a Inglaterra havia empatado sem gols com o Uruguai e em seguida venceu o México e a França pelo mesmo placar de 2 a 0, classificando-se em primeiro lugar no grupo 1.
Nas quartas-de-final, os ingleses conseguiram uma vitória apertada contra a Argentina, que teve o meio-de-campo Ratin, um de seus melhores jogadores, expulso, para muitos injustamente.
Para o jogo contra Portugal, os ingleses conseguiram que a Fifa alterasse regulamento para levar para Londres a partida, originalmente marcada para Liverpool.
Num jogo duríssimo, presenciado por quase 100 mil pessoas, a Inglaterra, comandada por Bobby Charlton, venceu Portugal por 2 a 1, classificando-se para fazer a grande final contra a Alemanha Ocidental, do jovem Beckembauer, que tinha derrotado a URSS também por 2 a 1.
Alemanha e Inglaterra fizeram um jogo equilibrado, que terminou com dois gols para cada lado, levando a final a ser decidida numa prorrogação.
Na etapa inicial do tempo extra, o centroavante inglês, Geoff Hurst, acertou uma bola no travessão do goleiro Tilkowski. A bola quicou no chão e saiu.
Depois de consultar o bandeirinha russo, o juiz suíço Gotffried Dieust confirmou o gol da Inglaterra, para desespero do time alemão. Até hoje a jogada gera polêmica.
O gol obrigou a Alemanha a partir para o ataque e a Inglaterra soube explorar o contra-ataque. No finalzinho da partida, novamente Geoff Hurst arrancou desde o meio do campo com a bola dominada e, da entrada da área, chutou para marcar o gol do título. Placar: Inglaterra 4, Alemanha 2, com três gols de Geoff Hurst.
Para delírio da torcida presente no estádio de Wembley, o capitão do time inglês, Bobby Moore, recebeu a taça Jules Rimet das mãos da rainha Elizabeth II.
A Inglaterra foi campeã, mas o rei da Europa foi Eusébio. A ótima campanha de Portugal garantiu a Eusébio a artilharia do mundial, com 9 gols.
Gilmar, Manga, Fidélis, Djalma Santos, Belini, Brito, Orlando, Altair, Rildo, Paulo Henrique, Denilson, Zito, Lima, Gerson, Jairzinho, Garrincha, Alcindo, Tostão, Pelé, Silva, Edu e Paraná
Inglaterra 0 X 0 Uruguai
França 1 X 1 México
Uruguai 2 X 1 França
Inglaterra 2 X 0 México
Uruguai 0 X 0 México
Inglaterra 2 X 0 França
Alemanha Ocidental 5 X 0 Suíça
Argentina 2 X 1 Espanha
Espanha 2 X 1 Suíça
Alemanha Ocidental 0 X 0 Argentina
Argentina 2 X 0 Suíça
Alemanha Ocidental 2 X 1 Espanha
Brasil 2 X 0 Bulgária
Portugal 3 X 1 Hungria
Hungria 3 X 1 Brasil
Portugal 3 X 0 Bulgária
Portugal 3 X 1 Brasil
Hungria 3 X 1 Bulgária
URSS 3 X 0 Coréia do Norte
Itália 2 X 0 Chile
Coréia do Norte 1 X 1 Chile
URSS 1 X 0 Itália
Coréia do Norte 1 X 0 Itália
URSS 2 X 1 Chile
Portugal 5 X 3 Coréia do Norte
Inglaterra 1 X 0 Argentina
Alemanha Ocidental 4 X 0 Uruguai
URSS 2 X 1 Hungria
Alemanha Ocidental 2 X 1 URSS
Inglaterra 2 X 1 Portugal
Portugal 2 X 1 URSS
Inglaterra 4 X 2 Alemanha Ocidental
Fonte: www.joaozinho10.com.br