"Antes de ficar grávida, pensava em estudar. Não quer dizer que eu parei de pensar assim. (...) Mas tem que pensar de uma forma diferente, agora tem que pensar mais nele (filho), pensar no que vai ser para ele, pensar menos em mim.”
No ano passado foram realizados 689 mil partos de adolescentes no Brasil, o equivalente a 30% do total. O número é um golpe contra as várias iniciativas voltadas para a prevenção da gravidez na adolescência.
O depoimento acima foi coletado durante a realização de uma pesquisa com adolescentes grávidas. Os resultados do estudo revelam a necessidade de repensar o enfoque e os instrumentos normalmente usados contra essa problemática.
Eles mostram que a prevenção não deve ficar restrita à informação sobre métodos contraceptivos. Abordar questões relacionadas à formação da identidade das jovens – incluindo, por exemplo, a descoberta de habilidades profissionais – pode tornar essas iniciativas mais eficientes.
Intrigada com o aumento dos índices de gravidez entre adolescentes – apesar de haver uma maior difusão de informações sobre métodos contraceptivos – a psicóloga Raquel Foresti resolveu investigar as causas da falta de cuidados preventivos entre as meninas.
Foram entrevistadas 16 grávidas, de 14 a 19 anos, logo depois da segunda consulta do exame pré-natal. Todas foram atendidas no Ambulatório de Tocoginecologia da Unifesp.
Raquel Foresti procurou compreender esse fenômeno por meio de uma análise detalhada do conteúdo dos discursos dessas jovens. Para isso, utilizou a psicanálise e a sociologia como referenciais teóricos.
“Na segunda visita do pré-natal, elas geralmente já tomaram consciência da importância da gravidez nas suas vidas. Por isso, considerei esse o momento ideal para uma reflexão mais consistente”, avalia a psicóloga.
Crise de identidade – Os temas que se repetiram em todos os depoimentos mostram que as adolescentes apresentam um ponto em comum: a fragilidade no processo de formação de sua identidade. Algumas delas não conseguiram criar vínculos com o mundo do trabalho e tiveram vários empregos em um curto período de tempo. Outras não enxergam perspectivas nos estudos.
“Muitas vezes elas demonstram um comportamento mais infantil do que o esperado para sua idade e não aceitam as responsabilidades. Por isso, sentem que não encontram seu espaço no mundo”, analisa a psicóloga.
Para essas meninas, a gravidez tem uma dupla função. “Além de servir como justificativa para a inadequação, a barriga traz um certo poder e até status dentro da família. Preenche o vazio que elas sentem por causa da crise de identidade”, afirma Raquel.
Outro depoimento colhido pela psicóloga reflete esse quadro.
“Agora eu estou aprendendo a cuidar de mim. Entendeu? A reparar em mim, a ver eu mesma para ver se estou errada. Sei agora admitir que eu estou errada. Estou aprendendo a me conhecer. Antes não, antes tudo que eu falava tinha que estar certo, não podia estar errada”.
Contexto social – Além de terem passado pela entrevista, as participantes da amostra responderam um questionário socioeconômico diferente. Baseado no capital simbólico (que inclui não só a renda familiar mas também aspectos como valores culturais), esse levantamento revelou uma discreta divisão entre as adolescentes.
“Aquelas mais próximas da classe média, em que o grau de escolaridade da família é maior, encontraram mais problemas para comunicar aos pais a gravidez. No grupo de menor capital simbólico, elas tinham laços mais frágeis com a escola, e a gravidez parecia ser mais familiar”, conta Raquel.
Ajudar as adolescentes na construção da sua identidade é, na opinião da psicóloga, o melhor caminho para que elas conquistem autonomia e possam escolher o papel que vão desempenhar – o que muitas vezes pode até incluir o papel de mãe.
A sugestão também vale para aqueles que lidam com meninas que já estão grávidas. “Se as questões emocionais que as afligem não forem resolvidas, elas vão continuar sentindo um grande vazio e poderão tentar resolver o problema com uma nova gravidez”, alerta a pesquisadora.
Existem várias formas de trabalhar as dificuldades despertadas durante o processo de formação da identidade:
“Na escola, essas meninas podem ser estimuladas a descobrir aptidões e preferências até mesmo com atividades lúdicas. A família também pode ser envolvida e servir como suporte. As que já estão esperando bebê devem aprender a utilizar a gravidez de forma positiva para o seu desenvolvimento”, observa Raquel.
Bruna Marla de Carvalho, 18 anos, grávida de oito meses, conta que, passado o susto, está muito feliz com a chegada da primeira filha. “Parei de estudar porque sentia muito enjôo no início. Mas pretendo voltar aos estudos e ao trabalho para garantir o futuro da minha filha. Vejo a gravidez como um presente. No fim das contas, me sinto muito mais amadurecida.”
Fonte: www.unifesp.br
A adolescência caracteriza-se por ser um período de descoberta do mundo, dos grupos de amigos, de uma vida social mais ampla. Assim, a gravidez pode vir a interromper, na adolescente, esse processo de desenvolvimento próprio da idade, fazendo-a assumir responsabilidades e papéis de adulta antes da hora, já que dentro em pouco se verá obrigada a dedicar-se aos cuidados maternos.
nem adolescente plena, nem adulta inteiramente capaz. A adolescência é também uma fase em que a personalidade da jovem está se formando e, por isso mesmo, é naturalmente instável. Hoje, os meninos e meninas entram na adolescência cada vez mais cedo. O início da ejaculação e da menstruação indicam que eles estão começando a sua vida fértil, isto é, que chegaram àquela fase da vida em que são capazes de procriar.
Ao engravidar, a jovem tem de enfrentar, paralelamente, tanto os processos de transformação da adolescência como os da gestação. Isto, nesta fase, representa uma sobrecarga de esforços físicos e psicológicos tão grande que para ser bem suportada necessitaria apoiar-se num claro desejo de tornar-se mãe. Porém, geralmente não é o que acontece: as jovens se assustam e angustiam-se ao constatar que lhes aconteceu algo imprevisto e indesejado. Só este fato torna necessário que seja alvo de cuidados materiais e médicos apropriados, de solidariedade humana e amparo afetivo especiais. A questão é que, na maioria dos casos, essas condições também não existem. Muitas vezes, a dificuldade de contar o fato para a família ou até mesmo constatar a gravidez faz com que as adolescentes iniciem tardiamente o pré-natal – o que possibilita a ocorrência de complicações e aumento do risco de terem bebês prematuros e de baixo peso. Além disso, não é raro acontecer, em seqüência, uma segunda gravidez indesejada na jovem mãe. Daí a importância adicional do pré-natal como fonte segura de orientação.
Viver ao mesmo tempo a própria adolescência, cuidar da gestação e, mais tarde, do bebê, não é tarefa fácil. E a vida torna-se ainda mais difícil para a adolescente grávida que estuda e trabalha. Igualmente, essa situação não difere com relação ao jovem adolescente que se torna pai: ele se vê envolvido na dupla tarefa de lidar com as transformações próprias da adolescência e as da paternidade, que requerem trabalho, estudo, educação do filho e cuidados com a esposa ou companheira.
Os programas de educação sexual transmitidos pelas escolas vêm cumprindo papel fundamental, já que permitem o diálogo e a circulação de informações sobre a sexualidade. Os meios de comunicação e as campanhas publicitárias também têm abordado com freqüência esse assunto, particularmente visando a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis e AIDS.
É função dos serviços de saúde implantar
programas especiais à disposição dos jovens, para informá-los
e cuidar deles, se necessário. Os adolescentes não precisam
sentir vergonha. Além de ser um direito, os profissionais de saúde
têm prazer em recebê-los e, através dos serviços
oferecidos, possibilitar-lhes informação a respeito dos vários
métodos anticoncepcionais existentes. É bom lembrar que, desde
a primeira relação, será necessário se proteger.
Quem transa sem os cuidados devidos, pode engravidar.
Mas, atenção:
dar apenas informações técnicas aos jovens não basta. É muito importante que também sejam orientados em casa, na família. É essencial que possam fazer perguntas, conversar com amigos e parentes mais velhos e se aconselhar quanto à escolha do melhor método anticonceptivo. O importante é que falem e sejam ouvidos. Esse cretal de comunicação precisa ser criado e mantido, tanto com a filha, desde sua primeira menstruação, quanto com o filho.
A superação das dificuldades de comunicação e diálogo entre os pais e os filhos pode ajudar em muito a diminuir a ocorrência da gravidez indesejada entre adolescentes. Os pais precisam esforçar-se para deixar de lado o medo de ser taxados de caretas, autoritários, ou de serem acusados de estar invadindo a vida pessoal de seus filhos. Conversando e orientando-os não apenas sobre reprodução e sexualidade humana mas também sobre valores como afeto, amizade, amor, intimidade e respeito ao corpo e à vida, permitirão que se sintam mais preparados para assumir as alegrias e responsabilidades inerentes à vida sexual.
Fonte: bvsms.saude.gov.br