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Gravidez na adolescência

Adolescente e grávida

Ser adolescente é viver um período de transição entre criança e adulto, é vivenciar novas experiências, reformular a idéia que tem a respeito de si mesmo e transformar sua auto-imagem infantil. Ser adolescente é viver entre o "ser e não ser". É um período confuso, de contradições, doloroso, caracterizado muitas vezes por atritos de família, na escola, no ambiente em que vive. É quando o adolescente deve deixar de ser criança para entrar no mundo adulto, mundo este tão desejado, mas tão temido.

A adolescência é a fase da vida em que o indivíduo é criança em seus jogos, brincadeiras, e é adulto com seu corpo, com seus novos sentimentos e suas expectativas de futuro.

E é nesse turbilhão de emoções que normalmente a adolescente começa a entrar em contato com sua sexualidade. Portanto, a gestação na adolescência ocorre por falta de informação, por desconhecer os métodos anticoncepcionais, por não acreditar que realmente pode ficar grávida , por necessidade de agredir a família, por carência afetiva, por ansiar ter algo somente seu ou como penitência (inconsciente) por ter mantido relações proibidas.

E essa gravidez é de um modo geral enfrentada com muita dificuldade. É preciso entender que a adolescente não pode assumir o risco social de uma gravidez não planejada.
Já que a gravidez significa uma rápida passagem da situação de filha para mãe, do "querer colo" para o "dar colo". Nesta transição abrupta do seu papel de mulher ainda em formação para o de mulher-mãe, vive uma situação conflitiva e, em grande parte dos casos, penosa.

Normalmente, as adolescentes não identificam com facilidade os sintomas da gravidez e, muitas vezes, não a associam ao relacionamento sexual.

Nega a gravidez, espera a menstruação, vai ao banheiro toda hora achando que menstruou, acorda e pensa: hoje vai descer...e os dias passam.

O medo e a repressão social também fazem com que a adolescente esconda a gravidez e a barriga por causa desse medo, durante os primeiros três meses (os mais importantes da gestação) a adolescente não toma os cuidados básicos, o que pode ser um problema para ela e seu bebê. Ela não quer notar que seu corpo está diferente...toma chás, faz simpatias, promessas...e o tempo continua passando...

Passada a fase da negação, finalmente ela se dá conta de que um bebê está a caminho e normalmente está sozinha , já que o companheiro foge assustado, e a família a recrimina.

A cobrança dos pais e irmãos, abalará sua auto-estima, aumentando o seu sentimento de culpa, e ela, acuada, pode deixar de estudar e até de trabalhar.

Seu emocional é fortemente abalado, a gravidez é vivida como um momento de muitas perdas. É um corte em seu desenvolvimento, a perda da identidade, a interrupção nos estudos, a perda da confiabilidade da família, muitas vezes a perda do namorado que não quis assumir a gestação, perda de expectativa de futuro, e por fim, a perda da proteção familiar.

As adolescentes devem ser amparadas e cuidadas por todas as pessoas que as cercam (família, amigos, professores, médicos), e devem ser preparadas fisicamente e psicologicamente no pré-natal, tanto para o parto quanto para o puerpério e amamentação.

É importante que as pessoas que lidam com adolescentes tenham sensibilidade para perceber o adolescente em sua totalidade física e psicológica, respeitando suas origens, seu preconceitos e tabus.

Após o parto, é necessário que ela seja acolhida e amparada para que possa continuar sua vida e tomar conta desse filho que depende dela.

É importante que a adolescente tenha a oportunidade de juntar seus pedaços e de retomar seu papel de mulher, de adolescente e de cidadã. Precisa experimentar seu papel de mãe, e de se permitir ou não ter outros relacionamentos. Planejar sua atividade sexual, repensar sua vida escolar e profissional e desenvolver sua auto-estima para poder viver plenamente.

Clarice Skalkowicz Jreissati

Fonte: www.nutricaosadia.com.br

Gravidez na adolescência

CAMINHOS, DIÁLOGOS E TRAJETÓRIAS NUMA PESQUISA EM EDUCAÇÃO

No Brasil, cerca de um milhão de adolescentes ficam grávidas anualmente e seus filhos representam algo em torno de 20% do total de nascidos vivos. Isso sem levarmos em consideração o número de gestações entre mulheres com idade entre 10 e 19 anos, que foram interrompidas. O trabalho de pesquisa em questão é fruto do impacto gerado pela divulgação dos resultados sobre fecundidade e mortalidade infantil no Brasil (2002), que alertava a sociedade brasileira para o aumento da gravidez precoce.

Os números do Censo de 2000 (IBGE) apontam que a taxa de fecundidade da mulher brasileira (número de filhos por mulher) vem decrescendo no Brasil e em todos os estados da federação. Uma redução de 60% em 40 anos. A taxa de crescimento populacional no país aumentou 1,63%, demonstrando uma tendência a estabilização. No entanto, ouve um aumento na taxa de fecundidade no grupo de 15 a 19 anos. Segundo os números do IBGE, para cada grupo de 1000 mulheres neta faixa etária, mais de 90 tinham tido pelo menos 1 filho, sendo que na faixa de 17 a 19 anos estão os maiores índices.

Outro dado relevante, diz respeito à gravidez no grupo de 10 a 14 anos. As estatísticas do Registro Civil revelam que nos últimos anos, o número absoluto e relativo de gestações nesta faixa também vem aumentando. O que nos remete a necessidade de se considerar o fator idade no estabelecimento de diferenças entre a gravidez de meninas de 10 a 14 anos e de adolescentes de 15 a 19.

Nascidos vivos ocorridos e registrados no ano, idade da mãe na ocasião do parto = menos de 15 anos / 15-19 anos e local do nascimento - Brasil / Sexo = Total

Idade Ano
90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 2000 2001 2002
Menos de 15 nos 0,34 0,36 0,39 0,41 0,46 0,52 0,60 0,65 0,68 0,64 0,69 0,69 0,71
15 a 19 anos 1,70 16,01 16,56 16,88 17,57 18,25 19,30 19,74 20,71 20,47 20,64 20,54 20,03
Fonte: IBGE - Estatísticas do Registro Civil

Tais dados por si já sinalizam a importância de estudos sobre o tema. Seja por gênero ou classe social, o critério etário, por si só, não dá conta de sua multiplicidade, mas orienta os primeiros passos na escolha do grupo focal e na coleta de dados.

O texto é resultado de uma pesquisa (estudo de caso etnográfico) desenvolvida entre os anos de 2002 e 2004, numa escola da Rede Estadual de Ensino do município do Rio de Janeiro (Escola Compromisso1 - EC), cuja finalidade é fornecer subsídios para o campo de estudos sobre tema, bem como para intervenções mais qualificadas no cotidiano escolar.

Neste sentido, busquei em CAVASAIN e ARRUDA (1998) as reflexões necessárias sobre os motivos que levam uma adolescente a engravidar; em VILAR e GASPAR (1998) a ruptura necessária com relação às teorias das etiquetagens e da estigmatização, pois a desatenção dirigida às situações e condutas de risco dos adolescentes, tem levado a uma não consideração dos seus traços de vida; e em CAMARANO (1998), FERRAZ e FERREIRA (1998), a constatação de que a fecundidade precoce traz uma série de resultados indesejados para as mães adolescentes e para seus filhos. Sendo o abandono da escola, um dos seus efeitos.

O objetivo da investigação foi recuperar a partir das falas de seus atores2 (captar algo de suas experiências), as muitas faces desse fenômeno. Como instrumento de coleta dos dados, fiz uso de entrevistas semi-estruturadas feitas com as alunas e com os professores, separadamente, todas gravadas com o consentimento dos participantes e posteriormente transcritas na íntegra, omitindo situações que pudessem identificá-las.

Assim, autores como MINAYO (2000), SILVA (2000), e GASKELL (2002) foram fundamentais, não só como técnica e fonte de informação, mas também, como construção de um diálogo etnográfico com os atores da pesquisa. São histórias criadas, biografias e narrativas de um viver único que, verdadeiramente, possuíam um sentido singular. São suas vidas traçadas, suas angústias, verdadeiras ou não, que no momento das entrevistas, refletiam o passado, o presente e a possibilidade de futuro.

A etnografia na coleta de dados

Na etnografia, alunas e professores/as são atores diferentes, mas vistos de um determinado ângulo, essa diferença só se tornará inteligível quando levarmos em consideração a relação entre ambos, relação esta que se dará num determinado contexto social. Aqui, especificamente, no contexto da escola. A preocupação da pesquisa passa pela compreensão das imprevisíveis situações cotidianas que, a cada momento, trazem novos elementos para serem entendidos e interpretados. Uma ação de reunir fragmentos cujo objetivo é registrar o que para o leigo seria o “inútil”, é para o olhar do observador é o cerne da observação.

GEERTZ (1978) nos chama a atenção para o fato de que os etnólogos não estudam aldeias, mas em aldeias. Ou seja, é no campo que o repertório das ciências sociais, seus conceitos e suas categorias, se entrelaçam no corpo do trabalho, mantendo-se uma interlocução teórica, um diálogo com o que está constituído. YIN (1994), afirma que bom relato começa a ser composto antes da coleta dos dados. Pois, as várias decisões envolvendo a redação devem ser tomadas nas fases anteriores da pesquisa, para que se aumente a chance de produção de um estudo de qualidade. PEIRANO (1995) observa que a pesquisa etnográfica nos dias atuais transpôs os sensos, as genealogias, as coletas de histórias de vida, as anotações em um diário, escrever mitos e seguir à risca os manuais. Isso porque a ilusão de que a roteirização da pesquisa de campo em busca do nativo-ideal e a descoberta de sua não-existência, hoje não causa mais desesperança.

Portanto, o processo de descoberta na pesquisa - transformar o “familiar” no “exótico” como resultado do estranhamento da realidade - resultou do diálogo entre teoria e observação do cotidiano que, a cada momento, trazia novos elementos para serem entendidos e interpretados.

O lócus como labirintos de tensões

O pesquisador quando escolhe a escola como lócus de seu estudo, percebe durante o desenvolvimento da pesquisa, que esta só existe enquanto relação entre seus diferentes grupos que interagem em dado contexto, e cujas relações são interdependentes e compartilham os mesmo valores, convicções e normas que regulam suas condutas. Seus membros são produtos de condições objetivas em que cada ator experimenta e conhece o fato social de forma peculiar, refletindo as especificidades de suas relações históricas, políticas e sociais.

STOCKING Jr. (1974) e CICOUREL (1975) observam que a pesquisa etnográfica, pressupõe a existência de ritos de aproximação com o seu objeto, que se não observados podem acarretar problemas no contato inicial do pesquisador com o campo. É uma hierarquia: ou ela é aceita pelos nativos, ou não há pesquisa.

Faço essas observações, no sentido de situar a aproximação com a EC, um misto de informalidade e ato consentido. Pois, a facilidade de acesso físico é um critério importante, sendo fundamental que a direção e o conjunto de seus atores concordassem com a realização da mesma, permitindo o acesso a suas falas, seus espaços, e principalmente entender minha presença como uma parceria e não como alguém que vinha "vigiar seu trabalho".

Então, qual seria a melhor maneira de me aproximar da escola? Existe uma receita, uma maneira ou alguma forma específica de fazê-lo? Acredito que não. E o campo assim demonstrou. Do espaço da sala de aula ao pátio, passando pelos seus corredores, os contatos aconteciam de forma singular. Pois, cada momento vivenciado no seu cotidiano exigia uma postura, uma ação diferenciada da minha parte. Na verdade, até os dias da semana influenciavam os comportamentos e humores. No meu e no deles (atores).

A gravidez na adolescência e suas faces

Os adolescentes são lúdicos na sua essência e quando podem, demonstram uma concepção alegre e prazerosa da vida, procurando viver intensamente cada nova experiência, num fluir constante de mudanças onde ele é o principal personagem. Quando não podem agir desta maneira, são as faces cínicas de uma sociedade que nega sua existência, onde o que lhes cabe é o aniquilamento do seu espírito dionisíaco. Os dados da Organização Mundial da Saúde demonstram que as adolescentes estão engravidando mais e cada vez mais cedo O problema atinge países ricos como os Estados Unidos e tão pobres quanto os da África Meridional, e vêm preocupando profissionais da área de saúde, assistentes sociais, psicólogos, profissionais da educação e familiares.

Segundo HEILBORN (1998), o aumento da incidência da gravidez na adolescência vem incidindo para a importância de se desnaturalizar o problema e buscar outros aspectos para sua compreensão. Assim, tornasse necessário ter em mente que a noção de adolescência varia segundo a posição que os grupos ocupam na estrutura social - expressão concreta de determinações sócio-econômicas e culturais que pesam sobre suas existências. Neste contexto, o uso da etnografia como ferramenta metodológica, surgiu da necessidade de dialogar com as muitas faces desse fenômeno. Faces de uma exclusão social que se configura em desigualdades sociais que geram, no contexto da escola, desigualdades educacionais.

A seguir, o texto apresentará três categorias3, que no trilhar da pesquisa se apresentaram como fatos geradores das tensões cotidianas existentes no contexto da escola. São elas: a primeira menstruação e a primeira relação; o pensamento mágico; e a díade informação versus conhecimento. Estas categorias imbricavam constantemente, tanto na análise das entrevistas, como nas observações de campo, e formavam a dialética necessária ao desenvolvimento de propostas como a observada na EC.

A primeira menstruação e a primeira relação

Entende-se como menarca o momento de aparição da primeira menstruação. Este fato ocorre normalmente entre os 11 e 15 anos, durante o período da puberdade. Os primeiros ciclos menstruais podem apresentar-se de forma irregular; geralmente os períodos só se normalizam depois de 2 anos da primeira menstruação. Porém, segundo TANNER (1962) e COLLI (1985), a idade média da menarca vem apresentando uma tendência de queda, diminuindo cerca de 4 meses a cada década, encontrando-se, atualmente, na faixa de 12,5 a 13 anos.

Segundo DESSER (1993), para abordar o significado da menarca na construção da identidade feminina, torna-se necessário mencionar alguns aspectos fisiológico-médico-sociais:

Embora a menarca tenha sempre se constituído num evento importante tanto dentro da vida das mulheres quanto ao nível social, sua ocorrência precoce tem levado a interrogar seu papel nas fases da vida e sua relação com a gravidez e maternidade precoce (Desser, 1993, p. 72-73).

Durante o desenvolvimento da pesquisa, a primeira menstruação, esse rito de passagem, hoje tão importante para as nossas adolescentes, aparece na forma de uma ansiedade pelo momento. Um momento que ante ao grupo delimita possibilidades, desejos e sonhos, como expresso na resposta da aluna Ana ao ser perguntada sobre sua primeira menstruação:

Eu ficava assim para minha mãe. - Quando é que eu vou ficar? E a minha mãe falou, - não sei minha filha, como é que eu vou te dizer o dia... Não sei né? Dizia como ia ser. Ai eu ficava assim [cara de dúvidas]. Tanto que no dia em que eu fiquei, eu não estava pensando nisso. Quando eu fiquei, eu fiquei um tempão pensando que tinha acontecido, mais ai eu fui lembrar que era isso... Entendeu? Uma coisa que eu estava esperando tanto que na época que aconteceu, eu não liguei as coisas. [...] Foi com 11 anos. [E depois, passou a ser normal, ou demorou e se acostumar?] Não. Passou a ser normal para mim, porque a minha mãe conversou direitinho, assim entendeu? Minha tia comigo... Assim passou a ser normal (Aluna Ana).

A família, principalmente na figura dos pais, poderia discutir e orientar seus filhos com relação às dúvidas, angústias, tabus e preconceitos tão freqüentes nessa etapa da vida. A maioria das alunas relata que seus pais têm dificuldade de discutir esses temas em casa.

A minha mãe… ela não conversa comigo e com o meu irmão. Ela conversa agora com o meu irmão que tem 21 anos, mas comigo mesmo ela nunca conversou, ela nunca chegou pra me dizer que ia acontecer, que eu ia menstruar, que meus seios iriam crescer, que eu ia começar a ser cobiçada pelos meninos, que eu iria ter certos impulsos. Nunca, nunca houve um diálogo na minha casa, e isso pra mim... Não foi mais difícil porque eu sou uma pessoa muito espontânea. Então, eu me dava com as pessoas, às meninas que estavam entrando na floração junto comigo. Então as dúvidas que a gente tinha, a gente tirava entre nós mesmas. Porque realmente na minha casa eu não tinha nenhum esclarecimento. Então isso pra mim foi muito difícil (Aluna Lílian).

Mas esse fato não se constitui regra geral, pois existem casos onde esse diálogo existe e é fator de cumplicidade entre mãe e filha:

Assim, como eu vou te explicar? Foi bem assim porque era só eu… sabe, assim. Eu e minha mãe somos muito amigas, a gente conversa muito, sabe. Muito mesmo! Qualquer problema que ela tenha, ela chega pra mim e se expõe, eu a mesma coisa pra ela, entendeu? [...] Porque a minha mãe nunca escondeu nada de mim, sabe? Ela sempre me contou tudo. O que é a vida, o que aconteceu comigo, ela sempre me falou. Então eu acho que pra mim, não foi uma surpresa quando eu fiquei mocinha. Eu acho que não foi… eu já sabia o que ia acontecer realmente (Aluna Priscila).

E outros onde esse diálogo se limita a uma questão orgânica e não social. Você vai menstruar, é assim e ponto.

Com a minha mãe eu conversava assim, quando eu menstruei pela primeira vez, eu tava na casa de praia da minha tia. A primeira a ver foi minha tia, mas eu conversei com a minha mãe, isso eu conversei (Aluna Cristina).

Ao lado da ocorrência de queda na idade média da menarca, as adolescentes têm tido sua iniciação sexual cada vez mais novas. Segundo SANTOS (2004), os dados da pesquisa domiciliar, realizada em 1989, pela Fundação Pathfinder, em cinco capitais brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Curitiba), indicam que a idade média da primeira relação das jovens entrevistados foi de 16,9 anos para as mulheres e 15,0 anos para os homens, para um total de 9.066 jovens, entre 15 e 24 anos. Os números da pesquisa indicam que essa evolução tem sido apontada, na medida em que ela passa a ser associada à mudança do comportamento sexual dos jovens, tendo como principal conseqüência o aumento da fecundidade no grupo de 10 a 19 anos.

Como poderemos observar a seguir, as falas das alunas Lílian e Ana são elucidativas nesse sentido:

Sua primeira relação sexual, aconteceu como e quando?

Quando? Eu tinha 12 anos, e como... Como assim você quer dizer como?

foi com o seu namorado, foi com alguém que você ficou?

É... Ele é meu primo e... Ele namorava uma menina... Então eu comecei a sair com ele, ele namorando e a gente ficou saindo um tempinho, e... ele continuou namorando, e eu também comecei a namorar. E aconteceu. Depois de uns seis meses que a gente tava junto. A gente começou a sair no início do ano, no final do aconteceu a minha primeira relação sexual. Ele ainda estava namorando a menina e eu continuei namorando o menino. E depois a gente continuou, e até hoje ele foi o único. Mas a vida dele continuou sendo a vida dele e a minha continuou sendo a minha.

Quantos anos ele tinha?

Ele tinha 23 e eu tinha 12. (Aluna Lílian)

Por que com 14 anos eu conheci um cara. Eu já namorava outros meninos, mas assim bobeira! Namoro bobo, sair, ficar, essas coisas. Ai eu com 13 anos para fazer 14, eu conheci um rapaz... Um homem, por que com 30 anos é um homem [risos] com certeza. Esse rapaz, ai a gente começou a ficar junto, ai depois dos quatorze anos, e foi com ele à primeira experiência sexual que eu tive. Foi tanto tempo que eu namorei ele, foi quase um ano, e meu pai não sabia, por que realmente eu não ia contar (Aluna Ana).

Como observamos, o início das relações sexuais se tornou cada vez mais precoce e na maioria dos casos com um parceiro muito mais velho. No entanto, o debate acerca da sexualidade dentro das famílias e das escolas não acompanhou essas mudanças. Nessa perspectiva, a escola como coletivo político, como uma prática coletiva deveria construir sentidos e valores de uma sociedade livre de preconceitos.

Romper com esses limites é resgatar e construir cidadania, a partir de uma nova relação entre a Escola e a aluna grávida. Significa criar uma cidadã que não seja de segunda classe, superando a moral que nega sua existência. Nega, porque historicamente ceifou das mulheres das classes populares a possibilidade de construir seu mundo segundo outras leis, "crear un nuevo eidos ontológico, otro si-mismo diferente em outro mundo" (Castoriadis. 1998).

O pensamento mágico

O pensamento mágico é inerente ao desenvolvimento psicológico e social do adolescente. Corresponde à idéia preconcebida de que nada de ruim poderá acontecer com ele, independente das ações praticadas. Na realidade, é uma exposição ao risco que parte do pressuposto da sua não existência. Segundo DOMINGUES (1997), vivenciar situações de perigo não é só um grande desafio, mas pode ser o determinante da condição de adolescente, porque tais situações abrem a possibilidade de descobrir o novo, de testar os próprios limites e de experimentar emoções inusitadas. Também devemos considerar o fato de que para os adolescentes, mesmo que eles tenham informação sobre os riscos, qualquer planejamento pode tirar o encanto do sexo, o que os leva a praticar o ato sem pensar nas conseqüências4. Esse agir por impulso, quando somado à vulnerabilidade da adolescência resulta, quase que invariavelmente, em um dano.

Esse dado foi verificado no cotidiano da EC, que apesar do fato de ter um projeto de orientação sexual, pude observar nas conversas com as alunas, que na sua grande maioria a iniciação sexual não fora planejada. “Aconteceu, foi um momento”. É como se a adolescente ouvisse falar que há um momento em que pode escolher iniciar sua vida sexual de forma segura, mas ao mesmo tempo, ela se vê fora dessa possibilidade.

Como veremos na fala abaixo, esse processo se potencializa pelas atuais condições de precariedade de suas estratégias de socialização inclusivas e de imersão no mundo adulto.

Eu os vejo completamente sem rumo, completamente sem rumo. Se quando suas famílias, elas tinham... Elas davam assim oportunidade pra eles, eles falam assim da imaturidade, do quanto eles são desinteressados pelo estudo, do quanto eles são irresponsáveis. Mas, na verdade, ser irresponsável não é uma opção. Ele não escolhe ser irresponsável, ele não escolhe ser imaturo, mas não são dadas oportunidades para que ele vivencie aquela adolescência saudável, com as dúvidas todas, mas com uma vida cheia de desafios. O que a gente percebe hoje é que não são dadas as oportunidades seja no campo social, seja no campo educacional. [...] Eu os vejo realmente sem rumo, sem muita perspectiva de vida social, de vida cultural de educação, de lazer (Profa. Tânia).

Esse agir por impulso, quando somado à falta de maturidade do adolescente, à curiosidade de experimentar o novo e à perspectiva do desafio, resulta quase que invariavelmente num dano. Com relação à possibilidade de engravidar, de ter uma relação sexual desprotegida, a maioria dos adolescentes, mesmo conhecendo algum método contraceptivo, deixa de utilizá-lo. Isso foi verificado durante a pesquisa e a fala da aluna Ana é elucidativa:

Assim tipo de remédio eu nunca tomei. Também não dá, assim com minha mãe que tomava conta das coisas, então eu usava camisinha. [E no caso do pai. Vocês usavam camisinha?] Usava, mas no dia não usou. [Mas porque no dia não usou?] Por que tem esse dia [rindo de forma acanhada] [Nesse dia não tinha camisinha e a vontade falou mais forte?] Não, não é que não tinha, não sei por que nesse dia eu não usei. Sei lá, mas ai foi que aconteceu justamente nesse dia que não usei. (Aluna Ana).

Isso é um “acidente” que está propício a acontecer com os outros, mas ele não se vê nesta situação de perigo. Então, dentro desse contexto, precisamos observar todos os problemas, que vão da orientação sexual as falhas na educação. Segundo as professoras, só a informação pode mudar esse quadro. E esse é um dado a ser observado: o problema está na informação ou no modo como isso está sendo trabalhado? Como podemos observar na fala da aluna Priscila, não basta apenas “informar”, é preciso educar.

Quando você teve sua primeira relação sexual, você estava na 8ª série. A escola não se preocupava em informar?

Tinha até uns cartazes, mas isso chegado pelo professor e comentado não. Era difícil. [...] A gente tinha uma aula. É… Orientação Sexual na Adolescência, a gente tinha um tempo de aula. Era até uma senhora que dava… tipo uma palestra pra gente, era 20 minutos, mas era toda quinta-feira.

E o efeito disso?

Oi? Pra mim assim não tinha nada. (Aluna Priscila).

A EC transpôs a “barreira dos 20 minutos”. O resultado positivo dessa atitude, foi uma postura não estigmatizante em relação às alunas que possuem vida sexual. Nesse contexto, as alunas mães se constituíram num dos elementos facilitadores para que a informação se transforme em conhecimento. Uma conversa entre pares, que pelo fato de terem vivenciado o problema, de ter sentido na pele a falsa ludicidade da gravidez precoce, lhes conferiam autoridade diante das colegas.

É super importante, é importante, é importante. [...] Elas tem curiosidade de saber o que é ser mãe, que elas são loucas para serem mãe. Assim, loucas não, elas falam: - Eu sou doida pra ter um filho. Ai eu falo: - Gente um filho não é um boneco não hein… vocês ficam pensando que: - ah que é bonitinho, nhenhenhem. Compra uma boneca e brinca de boneca que é a melhor coisa. Ai eu fico falando pra elas, pra elas não fazerem isso […] O colégio fala toda hora, os professores falam de pílula, falam de cada doença mesmo, eles explicam. Então não tem necessidade de elas terem um filho agora, vai atrapalhar a vida delas, porque atrapalha. Querendo ou não atrapalha, e se ela não tiver uma mãe, um pai, um parente, pra dar apoio, elas nem continuar estudando, estudam. Dá uma reviravolta, tem umas que param mesmo e acabou! (Aluna Cristina).

Mas existe um outro lado a ser observado. Conversando com Carol, essa característica "diferente" da EC nem sempre se traduz na perspectiva anterior. Indagada sobre se ela conversava com as suas colegas sobre a possibilidade de uma gravidez, a resposta nos desnuda uma outra face.

Sobre a possibilidade de uma gravidez, ninguém conversa! O pessoal acha que… todas elas acham que são as boas entendeu? Que vai fazer, fazer, fazer, e não vai acontecer. Eu também achava, também achava. Então aqui… eu não sei se é porque eu nunca estudei com tantas alunas juntas, mas aqui eu descobri que cada vez mais, as meninas estão transando! Cada vez mais e cada vez mais cedo. Então muita menina junta, essa conversa é cotidiana, entendeu? - Eu conheci o garoto ontem, eu sai com ele… Ah ele é bom, que não sei o que… Só que ninguém acha que vai ficar grávida, nenhuma delas acham! Então acham que vai fazer, vai fazer, vai fazer, e não vai acontecer. Então a gente só conversava sobre as relações, sobre o que poderia acontecer, não! (Aluna Carol).

A fala dessas alunas que só foi possível porque elas continuaram a estudar. A escola não as tratou como um ser que apresenta perigo para as suas colegas, pois as manifestações de simpatia ou de aproximação não se constituíam uma ameaça.

Como resultado desse processo, as discussões sobre o sexo saíram do gueto, do banheiro, para transitar pelos seus corredores, pelas salas e pelo pátio. Pois nesse caso, seus traços de vida tecem as formas de resistência, formas de lidar com os riscos e obstáculos. São na verdade, as rotas de um complexo campo de investigação, em que as trajetórias dessas adolescentes se constituem no processo de construção e de busca de suas identidades. Assim, a situação de vulnerabilidade social vivida por essas adolescentes, se constitui ao longo desse processo em vulnerabilidade positiva.

O uso do conceito de vulnerabilidade serviu no desenvolvimento da pesquisa, como sinalizador das reflexões necessárias sobre os caminhos que devemos trilhar no sentido de uma prática cotidiana, onde a informação trabalhada no contexto do sistema e da escola (a díade informação versus conhecimento) possa produzir um resultado, onde as intervenções no cotidiano escolar alcancem um resultado positivo.

A díade informação versus conhecimento

Fala-se muito que os adolescentes nos dias atuais tem acesso à informação. Porém, deixamos de observar a dificuldade de se traduzir informações em conhecimentos e este em mudança de comportamento. Se a adolescente possui informações sobre sexo e sexualidade e suas conseqüências, por que esta não surte efeito?

Hoje os adolescentes possuem essa possibilidade, uma vez que o acesso às informações sobre o DST/AIDS e métodos contraceptivos são bastante amplos. A pesquisa observou que a informação é necessária para as ações preventivas, mas ela por si só não é suficiente para levá-los à adoção de práticas sexuais seguras. No entendimento da pesquisa, esse fato é motivado por uma característica, que não é própria da adolescência, mas que se vê potencializada pela "péssima" qualidade das informações que lhe são transmitidas. Essa característica é ocasionada pela vulnerabilidade dessas adolescentes.

Nos últimos anos, este conceito vem sendo muito usado nas reflexões sobre a gravidez na adolescência e seus efeitos. AYRES (1996), observa que a noção de vulnerabilidade busca estabelecer uma síntese conceitual e prática das dimensões sociais, políticos institucionais e comportamentais, associadas às diferentes suscetibilidades de indivíduos e grupos. Soma-se a isso, a falta de oportunidades no mundo do trabalho, no lazer e na cultura. Faltas estas, decorrentes das grandes desigualdades sociais existentes na sociedade brasileira, o que se configura em situações de vulnerabilidade extrema, que poderíamos definir como o resultado negativo das relações entre a disponibilidade dos recursos materiais ou simbólicos desses atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais, econômicas, culturais que provêm da sociedade, do mercado e do Estado.

Para ABRAMOVAY (2002), a vulnerabilidade se traduz em profundas desvantagens para os adolescentes, que no plano subjetivo se caracteriza pelo desenvolvimento de sentimentos de incerteza e insegurança. Assim, a conformação das situações de vulnerabilidade implica, necessariamente, na interação entre objetividade e subjetividade, entre a realidade concreta e os atores nela inseridos.

O conceito de vulnerabilidade, que além de sua característica dinâmica e mutante, deixa em evidência a preocupação com o contexto social em que vive a adolescente, tornado-se uma categoria de análise que considera não apenas a posse limitada de informações (que influenciam de fato no grau de vulnerabilidade dos meus atores), mas ao mesmo tempo, permite fazer uma avaliação mais abrangente dos seus aspectos negativos e positivos. Neste sentido, devemos compreender seus elementos simbólicos, suas estratégias individuais e grupais para lidar com o enorme volume de informações oferecidas por uma sociedade extremamente competitiva e individualista.

Na prática, significa que não podemos mais pensar a prevenção a partir de um único referencial. É preciso desvendar essa questão para se tentar compreendê-la, até porque a inexistência da idéia de futuro, torna a prevenção algo muitas vezes “inalcançável”.

Viviane Castelo Branco (Gerente do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria Municipal de Saúde - RJ) observou em Audiência Pública sobre Gravidez na Adolescência, ocorrida no segundo semestre de 2002 na ALERJ, que é preciso entender e respeitar o adolescente como sujeito de direitos. E apresentou, como questão fundamental, o papel da escola na sua formação, não só quanto a sua sexualidade, mas também na formação de seus valores, e na percepção de que eles podem construir seu próprio futuro.

No entendimento da pesquisa, a escola pode sim, a partir de determinadas condições, se constituir no lugar para se discutir sobre a superexposição do corpo e da sexualidade humana, da erotização precoce, e das relações de gênero. Porém, devemos fugir dos esquemas preestabelecidos de uma sexualidade “normal”. Nesta perspectiva, a escola ao se constituir ambiente educacional interativo, se afirma como um espaço de construção da cidadania, podendo desenvolver com seus alunos/as, uma atitude crítico-reflexiva em relação às suas sexualidades.

Na fala da direção da EC, esses momentos de interação são vistos como um passo em busca da informação e da prevenção.

Todos são convidados a participar [...] Há presença de obstetras, há presença de enfermeiras que trabalham com planejamento familiar, e inclusive, nessa parceria, os alunos têm a chance de buscar os métodos contraceptivos, de ir ao posto de saúde e passar por consulta médica, para que seja descoberto o método contraceptivo mais adequado. E então, ele passa a receber recebendo gratuitamente, a partir da escolha feita, o método contraceptivo.[…] Na verdade, se recusar a falar sobre o assunto, não vai impedir de maneira alguma que ele decida, que ele inicie. Então, já que ele vai fazê-lo, que faça com responsabilidade. (Profa. Angela).

Em tese, as escolas vêm discutindo esse assunto (orientação sexual). Mas só a informação ou o modo como esta informação está sendo trabalhada não está dando conta de que a adolescente faça a opção de iniciar a vida sexual com alguma responsabilidade e com alguns cuidados.

Segundo a professora Rosângela essa informação é trabalhada cotidianamente, tanto dentro da sala de aula, como no contexto do sistema:

As escolas, os sistemas educacionais, eles têm investido muito nessa questão de informação, investem bastante, eles não são desinformados. Eles fazem conscientes. Eu acho que há consciência do que eles estão fazendo. Há um outro fator que a gente não tenha atentado para ele, mas com certeza não é desinformação. Essa informação, ela tem sido trabalhada no ensino fundamental de forma sistemática (Profa. Rosângela).

Na fala da professora fica claro que a informação ajuda muito, mas ela não foi suficiente para mudar o comportamento dessas alunas. Por que? Porque não se vê discutido o limite do indivíduo. Então o que falta na visão de alguns dos professores (principalmente na fala da professora Cássia) não é a falta de informação, é a falta de diálogo entre parceiros - o que ela chama de "cumplicidade daquele momento" e "conhecimento sobre suas causas" - que não se resume só a gravidez, mas pode ter conseqüências ligadas a uma DST.

Se não houver essa consciência sobre o ato, nem que seja só no beijo, é fisicamente inviável. Então quando você começa a reconhecer a sua limitação, e principalmente como nesse caso, a afetiva. Quando você reconhece que naquele momento vai rolar uma situação, que você já não tem mais controle. Você tem que usar a informação antes disso. E a gente não vê isso ser falado. Todo mundo fala do teórico, mas da emoção ninguém fala. Por que será? Porque é difícil, porque o emocional na informação ainda não está bem trabalhado. Explicar a usar os métodos anticoncepcionais é uma coisa, agora sinalizar a emoção nisso é outra (Profa. Cássia).

Como observamos, não basta simplesmente freqüentar a escola e receber as informações. É preciso compreendê-las. Assim, devemos destacar que o conhecimento é uma relação indissociável entre sujeito, objeto e processo de observação, e sua compreensão depende do que ocorre dentro do sujeito, de seus processos internos. Conseqüentemente, cada indivíduo aprende de uma maneira que lhe é específica. O conhecimento é uma forma de estar no mundo (HESSEN, 1987).

Partindo dessa premissa, na a entrevista com a aluna Carol, formulei uma pergunta tendo como base o relato da professora Angela: Mesmo a escola trazendo pessoas para dar palestra, ninguém comenta sobre gravidez e DST/AIDS?

Ninguém comenta! Eu não sei se é porque esse tema já está muito difundido. Porque não adianta alguém dizer que não sabe, que todo mundo sabe. Acontece e é irresponsabilidade mesmo. Mas eu não sei se é mais interessante falar da relação, do que falar sobre os métodos. Os métodos ficam meio de lado. Em toda conversa que você participa é assim. [...] Mas você quer saber, as doenças sexualmente transmissíveis são menos comentadas que a gravidez, menos ainda! Ninguém está nem ai pra nada! Parece que é assim, não tem nada a ver, entendeu? É o principal meio que você pega, quer dizer tem pessoas que passam por transfusão de sangue, etc. Mas sendo o principal meio, é preocupante o modo como a gente ignora esse tipo de assunto (Aluna Carol).

Então, como fazer para que nossas intervenções realmente possam contribuir para que ocorra uma redução de danos, para que os adolescentes consigam cuidar-se e prevenir-se de situações que coloquem em risco sua integridade e sua perspectiva de futuro? E ainda, por que alguns adolescentes, mesmo participando de grupos e tendo acesso às informações sobre prevenção, não conseguem se cuidar e acabam tendo de enfrentar situações como a gravidez?

Entre as causas levantadas pela pesquisa sobre o não uso de métodos contraceptivos estão: (i) o pouco conhecimento a respeito da contracepção e da reprodução, bem como o uso correto desses métodos; (ii) a falta ou incapacidade de dialogar com os seus familiares sobre sexualidade, bem como com seus parceiros sobre contracepção.

As faces da mesma moeda: visibilidade ou exclusão

Durante o desenvolvimento da pesquisa, observamos que não pode haver regras pré-estabelecidas sobre o fenômeno da gravidez na adolescência. Na escola em que a pesquisa se desenvolveu encontramos manifestações de resistências, mas também vínculos de sociabilidade e de integração das alunas adolescentes grávidas. O que demonstrou que embora não seja sua função específica, a escola pode se constituir um espaço privilegiado para o seu enfrentamento.

Os resultados indicaram que existem diferentes vivências da maternidade na adolescência e o material coletado possibilitou entender o fenômeno a partir do seu interior, da complexidade de suas relações. Na EC, a associação da sexualidade ao prazer e ao desejo é deslocada em favor da prevenção a gravidez e ao DST?AIDS. Sua atitude, de estruturar junto às alunas, noções de liberdade e responsabilidade, de cuidado com o seu corpo e com sua sexualidade, passa pela noção de que estas escolhas terão conseqüências futuras, podendo ser boas ou más, podendo gerar um falso entendimento da existência de uma liberdade individual, que na verdade, só possuiria caráter universal, a partir do momento em que ela seja entendida como uma liberdade coletiva.

Assim, a escola ao acenar para aluna com essa possibilidade de escolha, tem que ter feito, de forma consciente o seu trabalho de casa, que se constitui no ato de transformar todo seu conjunto de relações, da qual ela (escola) é o ponto central. Em outras palavras, as condições de mundo e os paradigmas teóricos só são passíveis de mudança se houver condições favoráveis para sua transformação, e a escola não está fora desse plano de construção e de transformação da realidade. No entender da pesquisa, a EC ao dar visibilidade às alunas adolescentes grávidas, e a partir desse fato, pôr em prática propostas de acolhimento a estas alunas e seus filhos, caminha nesse sentido. Um sentido de dar dignidade e, principalmente, de afirmação dos direitos dessas alunas.

Fonte: www.anped.org.br

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