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A FARSA OU AUTO DE INÊS PEREIRA

Gil Vicente

VIDAL

Assi diz Rabi Zarão.

MÃE

Inês, guar'-te de rascão!

Escudeiro queres tu?

INÊS

Jesu, nome de Jesu!

Quão fora sois de feição!

Já minha mãe adivinha...

Folgastes vós na verdade

Casar à vossa vontade?

Eu quero casar à minha.

MÃE

Casa, filha, muit'embora.

ESCUDEIRO

Dai-me essa mão, senhora.

INÊS

Senhor de mui boa mente.

ESCUDEIRO

Per palavras de presente

Vos recebo desd'agora.

Nome de Deus, assi seja!

Eu, Brás da Mata, Escudeiro,

Recebo a vós, Inês Pereira

Por mulher e por parceira

Como manda a Santa Igreja.

INÊS Eu, aqui diante Deus,

Inês Pereira, recebo a vós,

Brás da Mata, sem demanda,

Como a Santa Igreja manda.

LATÃO

Juro al Deu! Aí somos nós!

Os Judeus ambos

Alça manim, ó dona, ha!

Arreia espeçulá.

Bento o Deu de Jacob,

Bento o Deu que a Faraó

MÃE Espantou e espantará.

Bento o Deu de Abraão,

Benta a terra de Canão.

Para bem sejais casados!

Dai-nos cá senhos ducados.

MÃE Amenhã vo-los darão.

Pois assi é, bem será

Que não passe isto assi.

Eu quero chegar ali

Chamar meus amigos cá,

E cantarão de terreiro.

ESCUDEIRO

Oh! quem me fora solteiro!

INÊS

Já vós vos arrependeis?

ESCUDEIRO

Ó esposa, não faleis,

Que casar é cativeiro.

Aqui vem a Mãe com certas moças e mancebos pera fazerem a festa, e diz uma delas, per nome Luzia:

Luz. Inês, por teu bem te seja!

Oh! que esposo e que alegria!

INÊS

Venhas embora, Luzia,

E cedo t'eu assi veja.

MÃE

Ora vae tu ali, Inês,

E bailareis três por três.

FERNANDO

Tu connosco, Luzia, aqui,

E a desposada ali,

Ora vede qual direis.

Cantam todos a cantiga que se segue:

«Mal herida va la garça

Enamorada,

Sola va y gritos dava.

A las orillas de um rio

La garça tenia el nido;

Ballestero la ha herido

En el alma;

Sola va y gritos dava.»

E, acabando de cantar e bailar diz Fernando:

FERNANDO

Ora, senhores honrados,

Ficai com vossa mercê,

E nosso Senhor vos dê

Com que vivais descansados.

Isto foi assi agora,

Mas melhor será outr'hora.

Perdoai pelo presente:

Foi pouco e de boa mente.

Com vossa mercê, Senhora...

Luz. Ficai com Deus, desposados,

Com prazer e com saúde,

E sempre Ele vos ajude

Com que sejais bem logrados.

MÃE

Ficai com Deus, filha minha,

Não virei cá tão asinha.

A minha bênção hajais.

Esta casa em que ficais

Vos dou, e vou-me à casinha.

Senhor filho e senhor meu,

Pois que já Inês é vossa,

Vossa mulher e esposa,

Encomendo-vo-la eu.

E, pois que des que naceu

A outrem não conheceu,

Senão a vós, por senhor

Que lhe tenhais muito amor

Que amado sejais no céu.

Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o Escudeiro. E senta-se Inês Pereira a lavrar e canta esta cantiga:

INÊS

Si no os huviera mirado

No penara,

Pero tampoco os mirara.

O Escudeiro, vendo cantar Inês Pereira, mui agastado lhe diz:

ESCUDEIRO

Vós cantais, Inês Pereira?

Em vodas m'andáveis vós?

Juro ao corpo de Deus

Que esta seja a derradeira!

Se vos eu vejo cantar

Eu vos farei assoviar..

INÊS

Bofé, senhor meu marido,

Se vós disso sois servido,

Bem o posso eu escusar.

ESCUDEIRO

Mas é bem que o escuseis,

E outras cousas que não digo!

INÊS

Porque bradais vós comigo?

ESCUDEIRO

Será bem que vos caleis.

E mais, sereis avisada

Que não me respondais nada,

Em que ponha fogo a tudo,

Porque o homem sesudo

Traz a mulher sopeada.

Vós não haveis de falar

Com homem nem mulher que seja;

Nem somente ir à igreja

Não vos quero eu leixar

Já vos preguei as janelas,

Por que não vos ponhais nelas.

Estareis aqui encerrada

Nesta casa, tão fechada

Como freira d'Oudivelas.

INÊS

Que pecado foi o meu?

Porque me dais tal prisão?

ESCUDEIRO

Vós buscastes discrição,

Que culpa vos tenho eu?

Pode ser maior aviso,

Maior discrição e siso

Que guardar o meu tisouro?

Não sois vós, mulher meu ouro?

Que mal faço em guardar isso?

Vós não haveis de mandar

Em casa somente um pêlo.

Se eu disser: - isto é novelo -

Havei-lo de confirmar

E mais quando eu vier

De fora, haveis de tremer;

E cousa que vós digais

Não vos há-de valer mais

Que aquilo que eu quiser.

(para o criado)

Moço, às Partes d'Além

Me vou fazer cavaleiro.

MOÇO

(Se vós tivésseis dinheiro

Não seria senão bem...)

ESCUDEIRO

Tu hás-de ficar aqui.

Olha, por amor de mi,

O que faz tua senhora:

Fechá-la-ás sempre de fora.

(para Inês)

Vós lavrai, ficai per i.

MOÇO

Co dinheiro que leixais

Não comerei eu galinhas...

ESCUDEIRO

Vae-te tu por essas vinhas,

Que diabo queres mais?

MOÇO

Olhai, olhai, como rima!

E depois de ida a vindima?

ESCUDEIRO

Apanha desse rabisco.

MOÇO Pesar ora de São Pisco!

Convidarei minha prima...

E o rabisco acabado,

Ir me-ei espojar às eiras?

ESCUDEIRO Vai-te per essas figueiras,

E farta-te, desmazelado!

MOÇO Assi?

ESCUDEIRO

Pois que cuidavas?

E depois virão as favas.

Conheces túbaras da terra?

MOÇO

I-vos vós, embora, à guerra,

Que eu vos guardarei oitavas...

Ido o Escudeiro, diz o Moço:

MOÇO

Senhora, o que ele mandou

Não posso menos fazer.

INÊS

Pois que te dá de comer

Faze o que t'encomendou.

MOÇO

Vós fartai-vos de lavrar

Eu me vou desenfadar

Com essas moças lá fora:

Vós perdoai-me, senhora,

Porque vos hei-de fechar.

Aqui fica Inês Pereira só, fechada, lavrando e cantando esta cantiga:

INÊS

«Quem bem tem e mal escolhe

Por mal que lhe venha não s'anoje.»

Renego da discrição

Comendo ò demo o aviso,

Que sempre cuidei que nisso

Estava a boa condição.

Cuidei que fossem cavaleiros

Fidalgos e escudeiros,

Não cheios de desvarios,

E em suas casas macios,

E na guerra lastimeiros.

Vede que cavalarias,

Vede que já mouros mata

Quem sua mulher maltrata

Sem lhe dar de paz um dia!

Sempre eu ouvi dizer

Que o homem que isto fizer

Nunca mata drago em vale

Nem mouro que chamem Ale:

E assi deve de ser.

Juro em todo meu sentido

Que se solteira me vejo,

Assi como eu desejo,

Que eu saiba escolher marido,

À boa fé, sem mau engano,

Pacífico todo o ano,

E que ande a meu mandar

Havia m'eu de vingar

Deste mal e deste dano!

Entra o Moço com uma carta de Arzila, e diz:

MOÇO

Esta carta vem d'Além

Creio que é de meu senhor.

INÊS

Mostrai cá, meu guarda-mor

E veremos o que i vem.

Lê o sobrescrito.

«À mui prezada senhora

Inês Pereira da Grã,

À senhora minha irmã.»

De meu irmão...Venha embora!

MOÇO

Vosso irmão está em Arzila?

Eu apostarei que i vem

Nova de meu senhor também.

INÊS

Já ele partiu de Tavila?

MOÇO

Há três meses que é passado.

INÊS

Aqui virá logo recado

Se lhe vai bem, ou que faz.

MOÇO

Bem pequena é a carta assaz!

INÊS

Carta de homem avisado.

Lê Inês Pereira a carta, a qual diz:

«Muito honrada irmã,

Esforçai o coração

E tomai por devação

De querer o que Deus quiser.»

E isto que quer dizer?

«E não vos maravilheis

De cousa que o mundo faça,

Que sempre nos embaraça

Com cousas. Sabei que indo

Vosso marido fugindo

Da batalha pera a vila,

A meia légua de Arzila,

O matou um mouro pastor.»

MOÇO

Ó meu amo e meu senhor!

INÊS

Dai-me vós cá essa chave

E i buscar vossa vida.

MOÇO

Oh que triste despedida!

INÊS

Mas que nova tão suave!

Desatado é o nó.

Se eu por ele ponho dó,

O Diabo me arrebente!

Pera mim era valente,

E matou-o um mouro só!

Guardar de cavaleirão,

Barbudo, repetenado,

Que em figura de avisado

É malino e sotrancão.

Agora quero tomar

Pera boa vida gozar,

Um muito manso marido.

Não no quero já sabido,

Pois tão caro há de custar.

Aqui vem Lianor Vaz, e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz:

LIANOR

Como estais, Inês Pereira?

INÊS

Muito triste, Lianor Vaz.

LIANOR

Que fareis ao que Deus faz?

INÊS

Casei por minha canseira.

LIANOR

Se ficaste prenhe basta.

INÊS

Bem quisera eu dele casta,

Mas não quis minha ventura.

LIANOR

Filha, não tomeis tristura,

Que a morte a todos gasta.

O que havedes de fazer?

Casade-vos, filha minha.

Inês Jesu! Jesu! Tão asinha!

Isso me haveis de dizer?

Quem perdeu um tal marido,

Tão discreto e tão sabido,

E tão amigo de minha vida?

LIANOR

Dai isso por esquecido,

E buscai outra guarida.

Pêro Marques tem, que herdou,

Fazenda de mil cruzados.

Mas vós quereis avisados...

INÊS

Não! já esse tempo passou.

Sobre quantos mestres são

Experiência dá lição.

LIANOR

Pois tendes esse saber

Querei ora a quem vos quer

Dai ò demo a opinião.

Vai Lianor Vaz por Pêro Marques, e fica Inês Pereira só, dizendo:

INÊS

Andar! Pêro Marques seja.

Quero tomar por esposo

Quem se tenha por ditoso

De cada vez que me veja.

Por usar de siso mero,

Asno que me leve quero,

E não cavalo folão.

Antes lebre que leão,

Antes lavrador que Nero.

Vem Lionor Vaz com Pêro Marquez e diz Lianor Vaz:

LIANOR

Nô mais cerimónias agora;

Abraçai Inês Pereira

Por mulher e por parceira.

PÊRO

Há homem empacho, má-hora,

Cant'a dizer abraçar..

Depois que a eu usar

Entonces poderá ser:

INÊS

(Não lhe quero mais saber

Já me quero contentar..).

LIANOR

Ora dai-me essa mão cá.

Sabeis as palavras, si?

PÊRO

Ensinaram-mas a mi,

Porém esquecem-me já...

LIANOR

Ora dizei como digo.

PÊRO

E tendes vós aqui trigo

Pera nos jeitar or riba?

LIANOR

Inda é cedo... Como rima!

PÊRO

Soma, vós casais comigo,

E eu com vosco, pardelhas!

Não cumpre aqui mais falar

E quando vos eu negar

Que me cortem as orelhas.

LIANOR

Vou-me, ficai-vos embora.

INÊS

Marido, sairei eu agora,

Que há muito que não saí?

PÊRO

Si, mulher saí-vos i,

Qu'eu me irei pera fora.

INÊS

Marido, não digo isso.

PÊRO

Pois que dizeis vós, mulher?

INÊS

Ir folgar onde eu quiser

PÊRO

I onde quiserdes ir,

Vinde quando quiserdes vir

Estai onde quiserdes estar.

Com que podeis vós folgar

Qu'eu não deva consentir?

Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz:

Señores, por caridad

Dad limosna al dolorido

Ermitaño de Cupido

Para siempre en soledad.

Pues su siervo soy nacido.

Por ejemplo,

Me meti en su santo templo

Ermitaño en pobre ermita,

Fabricada de infinita

Tristeza en que contemplo,

Adonde rezo mis horas

Y mis dias y mis años,

Mis servicios y mis daños,

Donde tu, mi alma, Iloras

El fin de tantos engaños.

Y acabando

Las horas, todas llorando,

Tomo las cuentas una y una,

Con que tomo a la fortuna

Cuenta del mal en que ando,

Sin esperar paga alguna.

Y ansi sin esperanza

De cobrar lo merecido,

Sirvo alli mis dias Cupido

Con tanto amor sin mudanza,

Que soy su santo escogido.

Ó señores,

Los que bien os va d'amores,

Dad limosna al sin holgura,

Que habita en sierra oscura,

Uno de los amadores

Que tuvo menos ventura.

Y rogaré al Dios de mi,

En quien mis sentìdos traigo,

Que recibais mejor pago

De lo que yo recebi

En esta vida que hago.

Y rezaré

Com gran devocion y fé,

Que Dios os libre d'engaño,

Que esso me hizo ermitaño,

Y pera siempre seré,

Pues pera siempre es mi daño.

INÊS

Olhai cá, marido amigo,

Eu tenho por devação

Dar esmola a um ermitão.

E não vades vós comigo

PÊRO

I-vos embora, mulher

Não tenho lá que fazer

(Inês fala a sós com o Ermitão):

INÊS

Tomai a esmola, padre, lá,

Pois que Deus vos trouxe aqui.

ERMITÃO

Sea por amor de mi

Vuesa buena caridad.

Deo gratias, mi señora!

La limosna mata el pecado,

Pero vos teneis cuidado

De matar-me cada hora.

Deveis saber

Para merced me hacer

Que por vos soy ermitaño.

Y aun más os desengaño:

Que esperanças de os ver

Me hizieron vestir tal paño.

INÊS

Jesu, Jesu! manas minhas!

Sois vós aquele que um dia

Em casa de minha tia

Me mandastes camarinhas,

E quando aprendia a lavrar

Mandáveis-me tanta cousinha?

Eu era ainda Inesinha,

Não vos queria falar.

ERMITÃO

Señora, tengo-os servido

Y vos a mi despreciado;

Haced que el tiempo pasado

No se cuente por perdido.

INÊS

Padre, mui bem vos entendo

Ó demo vos encomendo,

Que bem sabeis vós pedir!

Eu determino lá d'ir

À ermida, Deus querendo.

ERMITÃO

E quando?

INÊS

I-vos, meu santo,

Que eu irei um dia destes

Muito cedo, muito prestes.

ERMITÃO

Señora, yo me voy en tanto.

(Inês torna para Pêro Marques):

INÊS

Em tudo é boa a concrusão.

Marido, aquele ermitão

É um anjinho de Deus...

PÊRO

Corregê vós esses véus

E ponde-vos em feição.

INÊS

Sabeis vós o que eu queria?

PÊRO

Que quereis, minha mulher?

INÊS

Que houvésseis por prazer

De irmos lá em romaria.

PÊRO

Seja logo, sem deter

INÊS

Este caminho é comprido...

Contai uma história, marido.

PÊRO

Bofá que me praz, mulher

INÊS

Passemos primeiro o rio.

Descalçai-vos.

PÊRO

E pois como?

INÊS

E levar me-eis no ombro,

Não me corte a madre o frio.

Põe-se Inês Pereira às costas do marido, e diz:

INÊS

Marido, assi me levade.

PÊRO

Ides à vossa vontade?

INÊS

Como estar no Paraíso!

PÊRO

Muito folgo eu com isso.

INÊS

Esperade ora, esperade!

Olhai que lousas aquelas,

Pera poer as talhas nelas!

PÊRO

Quereis que as leve?

INÊS

Si.

Uma aqui e outra aqui.

Oh como folgo com elas!

Cantemos, marido, quereis?

PÊRO

Eu não saberei entoar..

INÊS

Pois eu hei só de cantar

E vós me respondereis

Cada vez que eu acabar:

«Pois assi se fazem as cousas».

Canta Inês Pereira:

INÊS

«Marido cuco me levades

E mais duas lousas.»

PÊRO

«Pois assi se fazem as cousas.»

INÊS

«Bem sabedes vós, marido,

Quanto vos amo.

Sempre fostes percebido

Pera gamo.

Carregado ides, noss'amo,

Com duas lousas.»

PÊRO

«Pois assi se fazem as cousas»

INÊS

«Bem sabedes vós, marido,

Quanto vos quero.

Sempre fostes percebido

Pera cervo.

Agora vos tomou o demo

Com duas lousas.»

PÊRO

«Pois assi se fazem as cousas.»

E assi se vão, e se acaba o dito Auto.

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