Do que êste azeite render
comprarei ovos de pata,
que é a coisa mais barata
que eu de lá posso trazer;
e êstes ovos chocarão;
cada ovo dará um pato,
e cada pato um tostão,
que passará de um milhão
e meio, a vender barato.
Casarei rica e honrada
por êstes ovos de pata,
e o dia que fôr casada
sairei ataviada
com um brial de escarlata,
e diante o desposado,
que me estará namorando:
virei de dentro bailando
assim dest'arte bailado,
esta cantiga cantando.
Estas cousas diz Molina Mendes com o pote de azeite à cabeça
e, andando enlevada no baile, cai-lhe, e diz:
Pai. Agora posso eu dizer,
e jurar, e apostar,
que és Mofina Mendes tôda.
Pes. E s'ela bailava na boda,
qu'está ainda por sonhar,
e os patos por nascer,
e o azeite por vender,
e o noivo por achar,
e a Mofina a bailar;
que menos podia ser?
Vai-se Molina Mendes, cantando.
Mol. Por mais que a dita me enjeite,
pastôres, não me deis guerra;
que todo o humano deleite,
como o meu pote de azeite,
há-de dar consigo em terra?
Entram outros pastôres, cujos nomes são: Braz Carrasco, Barba Triste e Tibaldinho; e diz:
Bra. O Pessival meu vizinho!
Pes. João Carrasco, dize, - viste
a burra dêsse outeirinho?
Bra. Pergunta tu a Tibaldinho,
ou pergunta a Barba Triste,
ou pergunta a João Calveiro.
Joã. O fato trago eu aqui,
e a burra eu a meti
na côrte do Rabileiro.
Nós deitemo-nos por ai.
Andamos todos cansados,
O gado seguro está:
e nós aqui abrigados
durmamos senhos bocados,
que a meia-noite vem já.
Neste passo se deitam a dormir os pastôres; e logo se segue a segunda parte, que é uma breve contemplação sôbre o Nascimento.
O cordeiro divinal,
precioso verbo profundo,
vem-se a hora
em que teu corpo humanal
quer caminhar pelo mundo.
Desde agora
sairás ao campo mundano
a dar crua e nova guerra
aos imigos,
e glória a Deus soberano
In excelsis et in terra
pax hominibus.
Sairá o nobre Leão,
rei da tribo de Judá,
Radix David;
o duque da promissão
como espôso sairá
do seu jardim.
E o Deus dos anjos servido,
sanctus, sanctus, sem cessar
lhe cantando,
vereis em palhas nascido
suspirando.
E porque a noite é quase meia,
e são horas que esperemos
seu nascer,
ide, Fé, por essa aldeia
acender esta candeia,
pois outras tochas não temos
que acender; e sem serdes perguntada,
nem lhes vir pela memória,
direis em cada pousada
qu'esta é a vela da glória.
Neste passo José e a Fé vão acender a candeia, e a Virgem com as Virtudes, de joelhos, a versos rezam êste
SALMO
Vir. Ó devotas almas félis,
para sempre sem cessar
Laudate Dominum de coelis,
Laudate eum in excelsis,
quanto se pode louvar.
Pru. Louvai, anjos do Senhor,
ao Senhor das altezas,
e tôdalas profundezas,
louvai vosso criador com tôdas suas grandezas.
Hum. Lauda te eum, Sol et Luna,
laudate eum, stella et lumen,
et lauda Hierusalem,
ao Senhor que te enfuna
neste portal de Belém.
Vir. Louvai o Senhor dos céus,
louvai-o, água das águas,
que sôbre os céus sois firmadas;
e louvai o Senhor Deus,
relâmpagos e trovoadas.
Pru. Laudate Dominum de terra,
dracones et onnes abyssi,
e tôdas adversidades
de névoas e serra,
ventos, nuvens et eclipsi,
e louvai-o, tempestades.
Hum. Bestiae et universa
pecara, volucres, serpentes,
louvai-o, tôdalas gentes,
e tôda a cousa diversa
que no mundo sois presentes.
Vem a Fé com a vela sem lume, e diz:
Jos. Não vos anojeis, Senhora,
pois estais em terra alheia,
ser o parto sem candeia,
porque as gentes d'agora
são de mui perversa veia.
Todos dormem a prazer,
sem lhes vir pela memória
que por fôrça hão-de morrer;
e não querem acender
a santa vela da glória.
Huni. Deviam ter piedade
da Senhora peregrina,
romeira da Cristandade,
que está nesta escuridade,
sendo Princesa divina,
para exemplo dos senhores,
para lição dos tiranos,
para espelho dos mundanos,
para lei aos pecadores,
e memória dos enganos.
Fé. Não fica por lho pregar,
não fica por lho dizer,
não fica por Ibo rogar;
mas não querem acordar
com pressa de adormecer.
Dêles fazem que não ouvem,
e ôles ouvem muito bem;
dêles fazem que não vêem,
e dêles que não entendem
o que vai nem o que vem.
Sem memória nem cuidado
dormem em cama de flôres,
feita de prazer sonhado:
seu fogo tão apagado
como em choça de pastôres;
e vossa divina vela,
vossa eternal candeia,
feita da cera mais bela,
em cidade nem aldeia
não há aí lume pra ela.
Todo mundo está mortal,
pôsto em tão escuro porto
de uma cegueira geral,
que nem fogo, nem sinal,
nem vontade: tudo é morto.
Vir. Prudência, i vós com ela,
que nas horas há aí mudança:
e acendei essoutra vela,
que se chama da esperança,
e lhes convém acendê-la.
E dizei-lhe que o pavio
desta vela é a salvação,
e a cera o poderio
que tem o livre alvedrio,
e o lume a perfeição.
Jos. Senhora, não monta mais
semear milho nos rios,
que queremos por sinais
meter coisas divinais
nas cabeças dos bugios.
Mandai-lhe acender candeias,
que chamem ouro e fazenda,
e vereis bailar baleias,
porque irão tirar das veias
o lume com que se acenda.
E à gente religiosa
manda-lhes velas bispais;
a cera, de renda grossa;
os pavios, de casais;
e logo não porão grosa.
Pru. Senhora, a meu parecer,
para esta escuridade
candeia não há mister;
que o Senhor que há-de nascer
é a mesma claridade:
lumem ad revelationem gentium
é profetizado a nós,
e agora se há-de cumprir,
pois para que é ir e vir
buscar lume para vós,
pois lume haveis de parir?
Nem deveis de estar aflita,
para lhe guisar manjar,
porque é fartura infinita,
chamado Panis vita,
não tendes que desejar.
E se para seu nascer
tão pobre casa escolheu,
não vos deveis de doer,
porque onde êle estiver
está a côrte do Céu.
Se cueiros vos dão guerra,
que os não tendes porventura,
não faltará cobertura
a quem os céus e a terra
vestiu de tal formosura.
Neste passo chora o Menino, pôsto num berço: as Virtudes cantando
o embalam, e o Anjo vai aos pastôres e diz cantando:
Anj. "Recordai, pastôres !"
And. Ou de lá, que nos quereis?
Anj. "Que vos levanteis."
And. Para que, ou que vai lá?
Anj. "Nasceu em terra de Judá
um Deus só, que vos salvará."
And. E dou-lhe que fôssem três:
eu não sei que nos quereis.
Anj. "Que vos levanteis."
And. Quero-m'eu erguer, entanto
veremos que isto quer ser.
Sempre me esquece o benzer
cada vez que me levanto.
(Os Anjos cantando)
Anj. "Ah pastor! Ah pastor !"
And. Que nos quereis, escudeiros?
Anj. Chama todos teus parceiros,
vereis vosso Redentor."
And. Não durmais mais, Paio Vaz,
ouvireis cantar aquilo.
Pai. Ora tu não vês que é grilo?
Vai-te daí, aramá vás,
que eu não hei mister ouvi-lo.
And. Pessival, acorda já.
Pes. Acorda tu a João Carrasco.
Joã. Não creio eu em São Vasco,
se me tu acolhes lá.
And. Levanta-te, Barba Triste.
Bar. Tu que hás, ou que me queres?
And. Que vamos ver os prazeres,
que eu nem tu nunca viste.
Bar. Pardeus, vai tu se quiseres,
salvo se na refestela
me dessem bem de comer;
senão, deixa-me jazer,
que não hei-de bailar nela;
vai tu lá embora ter.
Acorda a Tibaldinho,
e ao Calveiro e outros três,
e a mim cobre-me os pés;
então vai-te teu caminho,
que eu hei-de dormir um mês.
Anj. Pastôres, ide a Belém.
And. Tibaldinho, não te digo
que nos chama não sei quem?
Tib. Bem no ouço eu, porém
que tem Deus de ver comigo?
And. Isso é parvoejar:
levantai-vos, companheiros,
que por vales e outeiros
não fazem nego chamar
por pastôres e vaqueiros.
Anj. Para a festa do Senhor
poucos pastôres estais.
Pai. Vós bacêlo quereis pôr,
ou fazer algum favor,
que tanta gente ajuntais?
Anj. Vós não sois oficiais
senão de guardardes gado.
Joã. Dizei, Senhor, sois casado?
Ou quando embora casais?
And. Oh como és desentoado!
Anj. Quisera que fôreis vós
vinte ou trinta pegureiros.
Pai. Antes que vós deis três vôos,
bem aqjuntaremos nós
nesta serra cem vaqueiros.
Anj. Ora trazei-os aqui,
e esperai naquela estrada,
que logo a Virgem sagrada
a Hierusalém vai por i
ao templo endereçada.
Tocam os Anjos seus instrumentos, e as Virtudes, cantando, e o pastôres, bailando, se vão.
LAUS DEO
Fonte: Virtual Books Terra