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A Virgem

Gonçalves Dias

Linda virgem simelha a linda rosa,
Que se abre ao romper d’alva;
Encapelam-se as pétalas mimosas,
Lacreadas de pudor com rubro selo:
Cego mortal só lhe respira o incenso;
Mas dela a abelha extrai seu mel mais puro.

Seu nobre coração é como um templo,
Onde só Deus habita;
Ali reina o mistério involto em sombras,
E maga placidez involta em cantos:
Só vê isto o profano; mas o antiste
De Deus a sombra vê, e a voz lhe escuta.

É como um lago de marmóreo leito
Sua alma ingênua e bela:
No fundo não se enxerga o verde limo,
E a lisa face nos amostra os astros.
E onde o humilde pastor só vê luzeiros,
Os anjos lá dos céus contemplam mudos.

E se eu a vejo nos saraus ruidosos,
C’roada de beleza,
E a sombra da tristeza irresistível
Tingir-lhe o rosto, e desbotar-lhe o riso;
Na mulher, que outros vêm, descubro o anjo,
que as asas d’oiro, que perdeu, lamenta!

Então como que sinto arrebatar-me
Simpática atração!
Quisera doces carmes de ternura
Nas mais delgadas cordas da minha Harpa
Cantar-lhe, e assim dizer-lhe: “Um canto ao menos
O acerbo exílio teu torne mais brando!”

Baldado empenho! Começado apenas,
Afrouxa-se-me o canto;
Debaixo dos meus dedos mal palpita
A corda melindrosa da minha Harpa;
E como em espaço, que até d’ar carece,
Tangida, o extremo som morre sem eco!

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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