Onde essa voz ardente e sonorosa,
Essa voz que escutamos tantas vezes,
Polida como a lâmina dum gládio,
Essa voz onde está?
No rostro popular severa e forte,
No púlpito serena, amiga e branda,
Pelas naves do templo reboava,
Como oração piedosa!
E a mão segura, e a fronte audaciosa,
Onde um vulcão de idéias borbulhava
E o generoso ardor de uma alma nobre
- Onde param tão bem?
Novo Colombo audaz por novos marés,
A sonda em punho, os olhos nas estrelas,
Co’as brônzeas quilhas retalhado as vagas
Do inóspito elemento;
Porfioso e tenaz no duro empenho,
No manto do porvir bordava ufano,
Sob os troféus da liberdade sacra,
Os destinos da Pátria!
Noturno viajor que andou vagando
A noite inteira, a revolver-se em trevas,
Onde te foste, quando o sol roxeia
Nevem de um céu mais puro?
Secou-se a voz nas fauces ressequidas
Parou sem força o coração no peito,
Quando somente um pé firmava a custo
Na terra prometida!
E a mão cansada fraquejou... pendeu-lhe.
Inda a vejo pendente, sobre as páginas
Da pátria história, onde gravou seu nome
Tarjado em letras d’oiro.
Pendeu-lhe... quando a mente escandecida
Talvez quadro maior lhe afigurava
Eu a luta acerba do Titã brioso,
Última prole de Saturno.
Inveja Claudiano pincel válido,
Que nos retrata o cataclismo horrendo,
Que ele – poeta – não achou nos combros
Da ignívoma Tessália!
Inveja... mas às formas do Gigante
Sorri-se o grande Homero; - e o cego Bardo
Da verde Erin, entre os heróis famosos
Prazenteiro o recebe!
Dorme, ó lutador, que assaz lutastes!
Dorme agora no gélido sudário;
Foi duro o afã, aspérrima a contenda,
Será fundo o descanso.
Dorme, ó lutador, teu sono eterno;
Mas sobre a lousa do sepulcro humilde,
Como na vida foi, surja o teu busto
Austero e glorioso.
Coluna inteira em combros derrocados,
Rolo encerado, que já beija as praias
Do remoto porvir, - seguro e salbo
Dos naufrágios dum século;
Dorme! – não serei eu quem te desperte,
Meus versos... não serão: - palmas em graça,
Ou pobre rama d’árvore funérea,
Piramidal cipreste.
São flores que desfolha sobe um túmulo
Singelo, entre um rosal, quase fagueiro,
Piedosa mão de peregrino estranho,
Que ali passou acaso!
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br