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Novos Cantos

Gonçalves Dias

O HOMEM FORTE

Pensa e medita nas lições dos sábios
E nos caminhos da justiça eterna
Gradua firme os passos.
O brilho da sua lama não mareia
A luz do sol, nem do carvão se tisna;
Morre pelo dever, austero e crente,
Confessando a virtude.
Pode a calúnia denegrir seus feitos,
Negar-lhe a inveja o mérito subido;
Pode em seu dano conspirar-se o mundo
E renegá-lo a pátria!
Tão modesto no paço de Lóculo
Como encerrado no tonel do Grego,
Nem o transtorna a aragem da ventura,
Nem a desgraça o abate.
A tiranos preceitos não se humilha,
Ante o ferro do algoz não curva a fronte,
Não faz calar da consciência o grito,
Não nega os seus princípios.
Antes, seguro e firme e confiado
No tempo, vingador das injustiças,
Co’s pés no cadafalso e a vista erguida
Se mostra imperturbável.
Sofre mártir e expira! A pátria em torno
Do seu sepulcro o chora, onde a virtude,
Afeita ao luto e à dor, de novo carpe
Do justo a flébil morte!

DIES IRAE

Jaz o mundo corrupto! – a terra ingrata
Frutos de maldição produz somente;
E em quanto os homens ao mercado afluem,
Vazio o templo do Senhor se enluta,
Empoeira-se o altar, e pelas naves,
Gretadas, rotas pela mão do tempo,
De cânticos e preces deslembradas,
A voz de Deus já não reboa imensa!
Tudo porém conserva o mesmo aspecto:
O sol girando, e na aparência o mesmo,
Do ano as quadras compassado alterna;
E os astros, seus irmãos, gravitam sempre
D’abóbada celeste. A terra é a mesma;
As aguas pelos vales se deslizam,
Ou d’alpestres montanhas se despenham
Co’os mesmos sons, co’a mesma queda: as brisas
Inda conversam nos soturnos bosques;
A mulher, a mais bela criatura,
Nas suas próprias perfeições compraz-se,
Como quando, noEden, as pulcras formas
Pasmou de ver representadas n’agua,
E de as ver se ufanou. Inda conserva
O mesmo orgulho e inteligência o homem,
O rei da criação, o deus criado,
De quando vinham, por pedir-lhe os nomes,
Cetáceos, aves e os répteis e aquelas
Criaturas-montanhas, que passaram
Entre Adão e Noé à flor da terra!
Tudo o mesmo se mostra; mas a alma,
Esse mundo interior, esse outro templo,
Onde gravara o próprio Deus seu nome,
Como os templos de pedra, jaz em lume,
Jaz como o prédio a desfazer-se em ruínas.
Onde um guarda solícito não mora,
E entregue as aves más, que em chilros pregam,
Que ali, na ausência do senhor imperam.
Da divina bondade cheio o vaso
Já transborda de cólera i justiça
E o largo rio do perdão saudável,
Que mais não corra, impece: Santas águas
Por cuja causa os séculos já viram,
Sem justa punição, ofensas graves;
Que o Senhor consentisse persistirem
Os maus no mal, à espera d’emendá-los;
Que triunfasse a malvadeza; e o crime,
Vexando os bons, senhoreasse a terra.
Mas Deus, que fora outrora pai clemente,
Dando começo ao reino da justiça,
Eu austero juiz se há convertido.
Como um carro, que vai d’encontro ao abismo,
Perfaz o sol precipite o seu giro,
Indo a tocar a temerosa meta
Prevista dos profetas. Um arcanjo
Com mão robusta inda retém os elos
Da cadeia do tempo, em quanto a outra
Da vida o livro volumoso sela
Com sete brônzeos selos. Deus ofeso
Tira os olhos do mundo, e o mundo há sido!
Quem podera pintar as discordâncias
Em que labora a natureza! Crescem
Da terra ígneos vapores, sufocando
O que respira, o que tem vida; os montes
Em crateras se rasgam, que vomitam
Rumo e lava incessante; o mar s’empola
E em fúria ardendo, arroja aos altos cimos
Cruzados vagalhões, qual se tentara
Sovertê-los; os ventos se contrastam!
Novos prodígios, novos monstros surgem!
O mar se torna em sangue, o sol em fogo,
O Universo em mansão d’aflitas fores,
O homem sofre, blasfema e desespera,
E vendo ou mundos desabar precipiteis,
Um grito solta d’horroroso transe,
Como de nau, quem alto mar s’afunda
E rola os restos n’amplidão das águas.
Satisfez-se o Senhor. Que resta? – O caos,
O horror, a confusão, o vulto enorme
Do tempo, que escurece o fundo abismo,
Onde por todo o sempre jaz cativo;
E da morte o cadáver gigantesco
Quase ocupando a superfície inteira
Dum mar de chumbo, escuro e sem rumores.
Da glória do Senhor um raio apenas,
Lá dos confins do espaço despedido,
Fere da morte o rosto macilento
De tudo quanto foi, e quanto existe!

ESPERA

Quem há no mundo que aflições não passe,
Que dores não suporte?
Mais ou menos d’angústias cabe a todos,
A todos cabe a morte.
A vida é um fio negro d’amarguras
E de longo sofrer;
Simelha a noite; mas fagueiros sonhos
Podem de noite haver.
Por que então maldiremos este mundo
E a vida que vivemos,
Se nos tornamos do Senhor mais dignos,
Quanto mais dor sofremos?
Quantos cabelos temos, ele o sabe;
Ele pode contar
As folhas que há no bosque, os grãos d’areia
Que sustentam o mar.
Como pois não será ele conosco
No dia da aflição:
Como não há de computar as dores
Do nosso coração?
Como há de ver-nos, sem piedade, o rosto
Coberto d’amargura;
Ele, senhor e pai, conforto e guia
Da humana criatura?
Se o vento sopra, se se move a terra
Se iroso o mar flutua;
Se o sol rutila, se as estrelas brilha,
Se gira a branca lua;
Deus o quis, Deus que mede a intensidade
Da dor e da alegria,
Que cada ser comporta – num momento
D’arroubo ou d’agonia!
Embora pois a nossa vida corra
Alheia da ventura!
Além da terra há céus, e Deus protege
A toda criatura!
Viajor perdido na floresta à noite,
Assim vago na vida;
Mas sinto a voz que me convida.

A SAUDADE

Saudade, ó bela flor, quando te faltem
Coração ou jardim, onde tu cresças;
Vem, vem ter comigo;
Deixa os que te não seguem,
Terás em peito amigo
Lágrimas, que te reguem,
Espaços, em que floresças.
Das pegadas da ausência tu despontas,
Entre as memórias cresces do passado,
Quando um objeto amado,
Quando um lugar distante,
Noite e dia,
Nos enluta e apouquenta a fantasia.
Vem, ó Saudade, vem
A mim também
Consolar de gemidos suspirosos
E de partidos ais!
Oh! seja a punição dos insensíveis
Não te sentir jamais!
Propícia Deusa, e se não fosse a esperança,
Deusa melhor da vida; qu’insensato,
A quem mitigas túrbidos pesares
Haverá tão ingrato
Que te não queime incenso em teus altares?
O presente o que é? – Breve momento
D’incômodo ou desgraça
Ou de prazer, que passa
Mais veloz que o ligeiro pensamento.
Véu escuro,
Que nem sempre a ilusão nos adelgaça,
Nos encobre os caminhos do futuro.
O que nos resta pois? – Resta a saudade,
Que dos passados dias
De mágoas e alegrias
Bálsamo santo extrai consolador!
Resta a saudade, que alimenta a vida
À luz do facho qu adormenta a dor!
Hera do coração, memória dele,
Ò Saudade, ó rainha do passado,
Simelhas a romântica donzela
De roupas alvejantes
Nas ruínas de castelo levantado:
Grinaldas flutuantes,
Que das fendas brotaram,
Movem-se do nordeste
Ao sopro agudo e frio;
Em quanto vendo-o ao longe o senhorio,
De posses decaído,
D’invernos alquebrado,
Recorda triste os anos que passaram!
Em que plagas inóspitas e duras
Não me tens sido companheira e amiga?
Em que hora, em que instante
De folga ou de fadiga
Já deixei de sentir o penetrante
Espinho teu, a repassar-me todo
Dum prazer melancólico e suave?
Pois nasces nos desertos da tristeza,
Ó Saudade, ó rainha do passado!
Quando te falte gleba, onde tu cresças,
Vem, vem ter comigo;
Deixa os que te não seguem,
Terás em peito amigo
Lágrimas, que te reguem,
Espaço, em que floresças!
Entra em meu coração, ocupa-o todo,
Fibra por fibra enlaça-te com ele,
Desce com ele à sepultura; e quando
Jazer eu na eternidade,
Minha flor, minha saudade,
Tu procura a aura celeste,
Rompe a terra, transforma-te em cipreste.
Qu’enlute o meu jazigo;
E ao meneio das ramas funerárias,
Meu derradeiro amigo,
Descanse morto quem viveu contigo.

NÃO ME DEIXES

Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
A corrente, onde bela se mirava...
“Ai, não me deixes, não!
“Comigo fica ou leva-me contigo”
“Dos mares à amplidão,
“Límpido ou turvo, te amarei constante
“Mas não me deixes, não!”

E a corrente passava, novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
“Ai, não me deixes, não!”

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
“Ai, não me deixes, não!”
Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
“Não me deixaste, não!”

ZULMIRA

Sonhara-te eu na veiga de Granada,
Tapetada de flores e verdura,
Onde o Darro e Xenil no lento giro
Volvem a linfa pura.

Ali te vejo em leda comitiva
Dos gentis cavaleiros do oriente,
Quando, deposta a malha do combate,
Vestem da paz a seda reluzente.
Ali te vejo num balcão sentada,
Grande preço da maura arquitetura,
Pejando as asas das noturnas brisas
Dum canto de ternura.

Ali te vejo, sim; mas mais me agrada
O que se m’afigura noutro instante,
Ver-te em vistosa tenda d’ouro e sedas,
Levantada no dorso do elefante.

E em roda, ao largo, o séqüito pomposo
D’enucos a teu gesto vacilantes
Em cujas fontes negras se destacam
Alvíssimos turbantes.

E pergunto quem és? – Então me dizem
Ciosos de guardar o seu tesouro,
Nome tão doce aos lábios, que parece
Escever-se em cetim com letras d’ouro.

A UMA POETISA

- Donde vens, viajor?
- De longe venho.
- Que viste?
- Muitas terras.
- E qual delas
Mais te soube agradar?
- São todas belas;
Fundas recordações de todas tenho.
- E admiraste o que?
- Ah! onde as flores
Cada vez a manhã tornam mais linda,
Onde gemeu Paraguaçu de amores
E os ecos falam de Moema ainda;
Ali, Safo cristã, vigem formosa,
A vida aos sons da lira dulcifica:
D’escutar a sereia harmoniosa
O de vê-la, a vontade presa fica!

ANGELINA

É gentil e linda e bela,
E eu sei que m’arrouba o vê-la
Tão divina:
A lira seus cantos cesse;
Mas minha alma não s’esquece
D’Angelina!
Outro louve os seus cabelos,
Cante a luz dos olhos belos
Que fascina;
E o leve sorrir donoso
Que irradia o rosto airoso
D’Angelina!

Os dotes diga que apura,
Quando em lânguida postura
Se reclina;
Que s’ergue, se acaso passa,
Sussurro que aplaude a graça
D’Angelina!

Que de amor quando suspira
O bardo quebrara a lira,
De mofina;
Que jamais poderam cantos
Pintar no vivo os encantos
D’Angelina!

Que da sua alma a pureza
Equipara-se à beleza
Peregrina;
Que amor seu trono tem posto
N’alma, no talhe e no rosto
D’Angelina!

Eu que não sei descrevê-la,
Só sei que me arrouba o vê-la
Tão divina;
A lira seus cantos cesse,
Mas minha alma não s’esquece
D’Angelina!

RÔLA

Desque amor me deu que eu lesse
Nos teus olhos minha sina,
Ando, como a peregrina
Rola, que o esposo perdeu!
Seja noite ou seja dia,
Eu te procuro constante:
Vem, oh! vem, ó meu amante,
Tua sou e tu és meu!
Vem, oh vem, que por ti clamo;
Vem contentar meus desejos,
Vem fartar-me com teus beijos,
Vem saciar-me de amor!

Amo-te, quero-te, adoro-te,
Abraso-me quando em ti penso,
E em fogo voraz, intenso,
Anseio louca de amor!

Vem, que te chamo e te aguardo,
Vem apertar-me em teus braços,
Estreitar-me em doces laços,
Vem pousar no peito meu!
Que, se amor me deu que eu lesse
Nos teus olhos minha sina,
Ando, como a peregrina
Rola, que o esposo perdeu.

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