PATKULL NAMRY UM PADRE SOLDADOS
O mesmo cárcere – e mesmo arranjo de cena.
PATKULL – Meu pobre coração?! Eu, mesmo eu, te desconheço – o que viste tão coitado não são lágrimas – é fel é sangue! – Meus amores tão lindos, que são deles?! Que é da amizade tão grande que encerravas?! De tão nobre sentir o que te resta, meu pobre coração?! Eu amava!! Amava o meu amigo, a minha amante – e ele vendeu-me – e ela, meu Deus – e ela?! Era dela meu sangue, meu coração – minha alma – era dela o pensamento – o prazer – a tristeza – tudo – só por ela vivia – só por ela e para ela. – Que lhes fiz eu?! Paikel?! Quê de vezes me chamaste teu amigo – mentias tu então?! Por que me traíste, meu Paikel – por quê? Que se me dessem um reino – e agora mesmo, se me dessem a liberdade – se alguém no mundo me pudesse dar o engano de outros tempos – a ilusão e brilhantismo do primeiro amor... para que te eu traísse – talvez – talvez que o não fizera – e tu?! Mas eu me calarei sobre ti – pobre amigo que te perdeste e me perdeste contigo. Não inquietarei tua sombra, Paikel. Os homens te mandaram para Deus – morreste. – Não, não serei eu que porei na balança da justiça eterna traição tão feia e má.
Não serei eu – bem que tudo me roubaste – o amor e a vida – o amor que era o meu paraíso – que era meu tesouro – tesouro de avarento – tesouro inesgotável de venturas que ela enfeitava. – E a vida só para a gastar com ela – só com ela – aos pés dela – para a ver sempre com um sorriso nos lábios, ou com lágrimas nos olhos – Namry – bela estrela – farol tão meigo de esperanças – belo anjo de luz – também tu me pudeste trair – Namry! A mim que te amava tanto. Oh! Que só por ti me pesa deixar a vida – que serás tu sem mim? Agora que eu já sinto a morte esvoaçando sobre a minha cabeça – não me pesa deixar a vida – mas pesa-me deixar-te a ti que eras meus amores.
– Mas por que choro assim? Não – não saberá ela que a chorei no agonizar da vida – não saberá que talvez de mim se rira orgulhosa! Ela a escarnecer-me – a rir-se sobre o meu sepulcro – a insultar-me no cadafalso – no cavalete, quando me ralo com dores! Que mais me poderás tu fazer!! Dir-me-ás talvez que me não amavas. – Demais o sei! Meu Deus! Meu Deus! (Cai sobre a cadeira) Por que me esqueci eu de meus pais? Certo que a morte seria então bela, chorada por todo um povo. – E que me importa um povo!! Loucuras que eu afaguei no entrar da vida – quimeras que se me esvaem no entrar da morte.
Louco o homem neste mundo que diz na sua consciência: eu salvarei tal povo.
Louco o homem que diz: eu tenho um amigo – que é meu sangue – meu corpo.
Louco o homem que diz: eu tenho uma amante pura e bela como um anjo – uma mulher que é minha alma – louco porque o povo está embriagado na sua vilania – porque o amigo é falso – porque a mulher é víbora. – Oh! Não ter alguns dias mais para assistir tranqüilo ao espetáculo de tanta baixeza – queria me rir do que se julga um libertador – do que conta com a fé do amigo – e com o amor da amante. – E que mais merecemos nós do que desprezo ou riso – crédulos como somos? Não – mais vale morrer. Depois de tantas esperanças só nos resta a morte em última recompensa. – Quem me dera morrer – morrer com dores que me façam esquecer o muito do que eu sofro! Morrer, que talvez debaixo da lousa fria de um sepulcro não pulse o coração.
Abre-se a porta. Aparece um padre.
O PADRE – Senhor.
PATKULL – Benvindo sejas, meu padre.
O PADRE – Como ides?! PATKULL – Mal – muito mal – porém sinto que serei melhor quando me houverdes falado – porque se para outro podiam ser fatais palavras – serão para mim de contentamento.
O PADRE – Presunções do que vive sempre falham, meu filho, as esperanças mentem, quando se não espera a morte.
PATKULL – Eu a espero, meu padre.
O PADRE – Que esperais? PATKULL – Sim, meu Padre – espero a morte – espero-a breve – desejo-a como se poderia desejar a vida. – E que Deus me perdoe esta esperança se resume um pecado.
O PADRE – Muito me apraz encontrar-vos neste estado – o que sofre encontra a graça do Senhor que só consola àqueles que o mundo não pode consolar. – Porém se não tendes apego à vida, também a não aborreceis, que o aborrecimento é mau conselheiro – como vós, também sofri, também vaguei no mundo às tontas, e em bem que o conheci – são mil caminhos enganosos, orlados de flores – banhados de perfumes – onde contudo crescem cardos e os espinhos brotam; e a ovelha mansa que se desgarra do rebanho do Senhor – deixa nos cardos e nos espinhos a maior porção de lã tão alva e fina, e não encontra o pasto que deseja. – Somos todos nós como a ovelha imprudente – e porque não trilhamos a senda da verdade – aborrecemos tudo, bem que de tudo não tenhamos ciência.
Que merece a vida – sonho mais ou menos longo – alegre ou triste – é como o fumo que um leve sopro do vento espalha nos ares.
PATKULL – Como falais bem, meu Padre.
O PADRE – Talvez vos pese deixar a vida pelo que deixais com ela! Quem não sente o amor da vida? Quem não sente a amizade? – E o amor e a amizade são ouropéis quando não manam do Senhor. Bem felizes aqueles que morrem enganados! – Talvez amastes – mas o que não sabeis é que a humanidade é frágil, e os afetos, movediços como a grimpa do campanário.
PATKULL – Tendes razão.
O PADRE – De tudo vos deveis esquecer, para que o Senhor seja convosco. – Em breve tereis de aparecer na presença de Deus – segundo o crer dos homens. – Trabalhai pois para que a morte vos não encontre desprevenido – porque lhe não podeis dizer pára. – Preparai-vos.
PATKULL – Preparado me achais.
O PADRE – Talvez não tanto como será mister; dir-vos-ei, por que não fraquieis quando carecerdes de toda a vossa coragem – vossa morte tem de ser horrível.
PATKULL – Como quiserem.
O PADRE – Cheia de ignomínia PATKULL – Seja.
O PADRE – E de tormentos.
PATKULL – Seja também.
O PADRE – Serão vossos escritos queimados.
PATKULL – Já o foram.
O PADRE – Vosso brasão espedaçado pelo carrasco.
PATKULL – O mais nobre talvez que ele terá espedaçado.
O PADRE – Sereis depois rodado.
PATKULL – Que seja breve.
O PADRE – Não! Querem-vos paciente por muito tempo – ainda em vida tereis a cabeça despedaçada.
PATKULL – Em bem! Que eu já desesperava de morrer.
O PADRE – Sereis depois esquartejado e vossos membros pendurados nos quatro pontos da cidade. – Tal é a sentença de Carlos XII.
PATKULL – Calos XII – Carlos XII. – Oh! Por que me falais nesse homem? Já que tanto me tenho esquecido ao menos me podereis deixar morrer sem ouvir pronunciar o seu nome.
O PADRE – Tal ódio às bordas do sepulcro!! PATKULL – Meu padre, dizei-me: não é verdade que o filho tem dever de defender a vida do pai? O PADRE – É um dever recíproco de um para com outro, e do homem para o homem.
PATKULL – Não terá ele direito de vingar sua morte? O PADRE – Não – que a vingança é do que nega a Providência.
PATKULL – Crede-o vós? Oh! É porque não sabeis como acreditais que ele me perdoará nos céus de o ter esquecido por tanto tempo? O PADRE – Por que não? PATKULL – Oh! Sim, por que não? Um pai não se esquece de seu filho – e de mais tenho sofrido para impetrar o seu perdão – sofri muito talvez, porque de tudo me esqueci para me lembrar só da glória e do amor. – Oh! Meu padre, que se a vida é fonte de venturas, não o foi para mim – que só achei tropeços e calamidades. – E hoje, quando me lanço na história do passado – não encontro um quadro feliz em toda a existência – que não tenha o acre do desengano. – Busquei o amor e a glória. – E o amor traiu-me e enegreceu os últimos instantes da vida que a glória me faz perder no cadafalso e na vergonha.
O PADRE – Consolai-vos que o sofrer é dos homens – não se vos dê do passado – melhor para vós se ele foi áspero e terrível, porque o não chorareis no passar da inquietação da vida para o sossego do túmulo.
PATKULL – Não serei eu quem a chore! O PADRE – Estais preparado? PATKULL – Já vô-lo disse.
O PADRE – Então – adeus, meu filho.
PATKULL – Adeus, meu Padre.
O PADRE (Pega-lhe nas mãos) – Bem me custa separar-me de vós – muito – mas não quis Deus que o homem visse a dor do seu semelhante sem que despontasse em seus olhos uma lágrima de simpatia.
PATKULL (Abraçando-o) – Bom padre.
O PADRE – Adeus, meu filho. (Vai-se)
PATKULL – Bom padre – como se compadeceu de mim? E se ele soubesse o que encerra este meu peito, se ele o soubesse? Oh! Não derramaria lágrimas – não – porque lágrimas não bastam para o que sofro!! E eu morro sozinho e abandonado na morte, como na vida – Namry!! Sempre este nome; ao menos praza a Deus que dela não me recorde noutra vida. – Oh! Se ainda a pudesse ver uma vez?! Bem sei que foi falsa, que me enganou: não virá, não. – Que lhe importa Patkull que morre, e se alguém chora, certo que não é por mim.
PATKULL E NAMRY
(PATKULL sentado com as mãos na cabeça. NAMRY entra e vai correndo para ele. PATKULL desperta, encara-a – fica assentado – e ela pára.) NAMRY – Sou eu – não me conheces, Patkull – eles me concederam este momento, para que te eu visse antes da tua morte!! Não me conheces?! PATKULL – Namry (Abraça-a, beija-a muitas vezes), tardaste tanto! NAMRY – Quis ver se te salvava.
PATKULL – E eles disseram que tu não me amavas – Namry – e eu acreditei-os – sim – tu mo perdoarás – tão boa que tu és – tu te lembraste do pobre homem que morria, Namry – Oh! Bendita sejas tu – e possas ter na hora da tua morte a felicidade que me fazes experimentar – meu anjo.
NAMRY – Por que te não pude eu apreciar de mais tempo? PATKULL – Tu me amas.
NAMRY – Não mereço o teu amor.
PATKULL – Oh! Dizes bem – não respondas – Namry – não me respondas, que me seria cruel tua resposta: Deixa-me acreditar que vieste aqui por amor e não por piedade. – Deixa-me acreditar que foi mentira o que me disseram de ti – deixa-me acreditar – para que morra consolado.
NAMRY – Por que te matam tão cedo! PATKULL – Não é cedo, é tarde. – Eu quisera morrer aqui nos teus braços deixando no teu peito meu último suspiro, e gravando na memória o teu nome intercortado, que acabar não poderia.
NAMRY – Por que morres agora – ah! Se pudesses viver – se pudesses viver – Patkull, se o pudesses – então talvez que eu fizesse esquecer a minha ingratidão doutros tempos e o faria; dár-te-ia amor – não como o teu que não pudera – mas alma e coração – eu tos daria e o que fosse em meu poder fazer-te – para te alegrar a vida e o pensamento – eu o faria por gratidão, por amor e por mim mesma, Patkull! PATKULL – Não vês que eu choro?! NAMRY – Choras a vida que é tanto para ser chorada – quando como a tua se empregou em obras de merecimento e de virtude.
PATKULL – Não – não choro a vida. – Muitas vezes me vi no campo da batalha – vi a morte pairar sobre mim em nuvens de fumo e de pó, calquei meus companheiros ainda quentes – e não chorei – não choraria a vida – não – mas choro por te deixar – e conheço todavia que o devo fazer porque a minha Namry de hoje talvez que amanhã a não encontre.
NAMRY – Sempre eu – sempre a tua Namry – Patkull. – Tua Namry – desgraçada – que eternamente será viúva sem nunca ter sido esposa. Também me não pesa de ficar só – que te não merecera – mas pesa-me deixar-te, Patkull.
PATKULL – Namry.
NAMRY – Meu Patkull! PATKULL – Namry – vive feliz e venturosa – que eu morro – morro com saudades tuas – e serei feliz se depois da morte acudirem lembranças do passado por saber que me choravas depois de morto – por ter visto que choravas a minha morte.
NAMRY – Meu bom Patkull.
PATKULL – Namry – olha, eu tenho um pajem – tu o conheces, talvez que há pouco com palavras mal pensadas ofendesse o meu pobre pajem. – Toma-o para te servir – Namry – que é fiel e honrado – muito me amava e é uma dívida que pagarás por mim. (NAMRY nos braços dele chora)
SOLDADOS e os mesmos
SOLDADO – Temos ordem de vos levar daqui.
NAMRY – Já! Já! Meu Patkull.
PATKULL – Coragem, Namry! NAMRY – Oh! Eu teria coragem – mas que ao menos por um momento mais me deixassem contigo.
PATKULL – Tem de ser já.
NAMRY – Oh! Como sois cruel – Patkull! – meu Patkull – meu amigo, tu não me deixarás, não – eu morreria sem ti.
PATKULL – Namry – meu amor! – meu anjo – deixa-me partir. (Abraçando-a e beijando-a) O SOLDADO – Diziam-nos que éreis valente! PATKULL – Não vos mentiram.
O SOLDADO – E chorais! PATKULL – São lágrimas nascidas de um coração que ama – nunca as derramei no travado das pelejas, nem ora me oprime – e acabrunha o aspecto da morte!...
O SOLDADO – Apressai-vos. O tempo urge! PATKULL (Abraçando Namry) – Adeus! Narnry! (Arrancando-se dos braços dela) NAMRY– Meu Patkull! Ah! (Cai, Patkull retira-se entre os soldados)
(Cai o pano)
Fonte: www.dominiopublico.gov.br