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Sonho

Gonçalves Dias

Sonhava esta noite, Donzela formosa,
Já quando as estrelas tombavam no mar,
Que eu via a meu lado uma esbelta figura
Divina e mimosa...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!

Divina e mimosa, co’um véu se cobria
D’estrêlas fulgentes de brilho sem par;
O rosto era vosso, era vossa a estatura,
E o anjo dizia...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!

E o anjo dizia co’um jeito celeste:
“Afetos que em outro não pude encontrar
“Por fim me renderam, - paixão lisa e pura - ,
Que tanto sofreste...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!

“Pois tanto sofreste, não devo impiedosa
“Fineza tão grande por fim mal pagar!”
Eis sinto um abraço estreitar-me a cintura,
E uns lábios de rosa...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!

E uns lábios de rosa cobrirem-me a fronte
Com tépidos beijos de fervido amar!
Prazer tão subido após tanta amargura,
Não sei como o conte!...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!

Não sei como o conte! – nos lábios de rosa
Vivi encantado sem ver, nem pensar,
Em quanto apertava a ligeira cintura,
Cintura mimosa...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!

Cintura mimosa! - depois vos tecia
Grinalda que a fronte vos fosse adornar,
E um cinto de amores com broche esmaltado
De meiga poesia!...
Quem tão bem fadado Vivera a sonhar!

De meiga poesia, meu bem minha amada,
Já pago de quanto me fazeis penar,
Então vos tangia descantes na lira,
Na lira afinada!
O sonho é mentira;
Não quero sonhar!

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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