Os acontecimentos que levaram à candidatura de Hermes da Fonseca, foram antes o resultado de um "trapalhada" aprontado pelo próprio presidente Afonso Pena, ao apresentar o nome de seu jovem ministro, Davi Moretzson Campista como candidato oficial do governo, sem fazer antes qualquer sondagem às forças que lhe davam sustentação. Maior prudência seria necessária, não apenas em atenção aos seus aliados, mas porque Campista era egresso do Jardim de Infância e tal indicação ia bater de frente contra a bancada controlada pelo seu opositor, Pinheiro Machado, provocando um terremoto no Congresso.
Ainda em tempo de recuar, Afonso Pena insistiu em manter essa indicação, e não foi por falta de aviso. Consultado, Rui Barbosa expôs sua opinião com franqueza e clareza, alertando o Presidente sobre a imaturidade do candidato, além do que este não tinha tradição para conseguir se impor às correntes políticas nos vários Estados. Tentou o chefe do governo obter apoio de São Paulo e Minas mas só recebeu evasivas. Consultando Rio Branco, este escusou-se diplomaticamente a se envolver no assunto. Que mais faltava, a guisa de sinalização, para indicar ao Presidente que o caminho escolhido era incerto e perigoso, e deveria ser abandonado? Pois o recuo, lamentavelmente, não estava em seus planos, e aconteceu o previsível.
No Congresso, Pinheiro Machado, que era militar, começou, então, a articular a candidatura do Ministro da Guerra, marechal Hermes da Fonseca, o que levou Carlos Peixoto Filho a renunciar à presidência da Câmara, perdendo o Presidente a sua já precária base parlamentar. No Exército, militares saudosos do florianismo, lançaram a candidatura do marechal como representativa das Forças Armadas, dando-lhe, pois, um caráter militarista, mal disfarçado com o nome do civil Venceslau Brás, apontado para vice.
Forma-se, então, um movimento oposicionista, com a candidatura civil de Rui Barbosa, tendo como vice o ex-governador de São Paulo, Albuquerque Lins, ambos sustentados, em sua campanha, com o dinheiro dos cafeicultores paulistas e, portanto, sujeitos a um esquema político pré definido. Viajando pelo Brasil, Rui Barbosa se atirou à sua pregação com um fervor missionário, levantando multidões, ao denunciar a máquina política montada desde os primórdios da República, que impunha nomes, controlava a votação e, como se não bastasse, fraudava as atas, para garantir a eleição de seu escolhido.
Procurando isentar-se de qualquer preconceito contra o Exército, Rui Barbosa, em carta a Hermes da Fonseca, deixa claro que "...a farda de que veste [o marechal] não constitui objeção ao exercício dessa magistratura suprema. Nada exclui, entre nós, o militar, de servir ao país nesse posto, uma vez que ele se não confira ao militar, mas ao cidadão. (...) Assim, se o honrado marechal saísse do Congresso, do seio de um partido, ou de um passado político para a situação de chefe do Poder Executivo, o fato seria natural e a sua candidatura teria sido acolhida com o meu imediato assentimento".
Posta nestes termos, a campanha deixava de ser um embate entre dois candidatos à presidência, transformando-se claramente em confronto entre o civilismo, representado por Rui Barbosa, e o militarismo, na pessoa do marechal Hermes da Fonseca. Assim se desenvolveu a propaganda, e a pregação de Rui deu origem ao chamado Movimento Civilista, que levantou o país durante todo o ano de 1909, até as eleições de 1910.
Um dos pontos positivos da candidatura Hermes foi a reação do Movimento Civilista que, pela primeira vez, na História da República, levou o povo às ruas, pelo país afora, ouvindo e aplaudindo a oratória brilhante de Rui Barbosa e criando um divisor de águas na política nacional. Como o voto era facultativo e sabidamente fraudado, o alistamento da classe média era insignificante, já que ninguém se propunha a entrar num jogo de cartas marcadas, referendando um processo inválido.
A situação não mudou e o próprio Rui antecipava isso nas campanhas, deixando claro que a possibilidade de ganhar nas urnas e ser validado pelo pela Comissão Verificadora era praticamente nula, mas, a voz que não se conseguia ouvir nas urnas, tinha agora a possibilidade de se fazer ouvir nas ruas. Os eternos ausentes, desta vez, se alistaram e incentivaram outros a fazê-lo. A classe média começou a exercer sua função na política nacional, como formadora de opiniões e multiplicadora de idéias. E Rui Barbosa lançou o seu Credo Político, como base de sustentação ao governo, que vale à pena ler:
"Creio na Liberdade onipotente, criadora das nações robustas; creio na Lei, a primeira das suas necessidades; creio que, neste regime, soberano é só o Direito, interpretado pelos tribunais; creio que a República decai porque se deixou estragar, confiando-se às usurpações das forças; creio que a Federação perecerá se continuar a não acatar a justiça; creio no Governo do povo pelo povo; creio, porém, que o Governo Popular tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional, pelo desenvolvimento nacional do ensino, para a qual as maiores liberdades do erário constituirão sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza comum; creio na Tribuna sem fúrias, e na Imprensa sem restrições; porque acredito no poder da razão e da verdade; Creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição; no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades." [as letras capitais e os grifos foram acrescentados.]
Tudo aconteceu direitinho como Rui antecipara em sua campanha. Em 1º de março de 1910 um novo eleitorado foi às urnas para registrar a sua vontade e, mais uma vez, a escolha popular foi fraudada, deste o sufrágio até a confirmação pela Comissão Verificadora.
A principal concentração eleitoral do país estava nas capitais e foi nelas que Rui conseguiu arregimentar a maior quantidade de novos eleitores. No interior, o voto de cabresto e o poder sem fim dos coronéis impediam maior avanço da oposição. Pois foi nas capitais que as sessões eleitorais, na sua maioria, não se abriram, seja pela falta de mesários, ou por conflitos que impediram seu funcionamento. O próprio Rui Barbosa e seus assessores passaram o dia procurando por uma sessão que estivesse aberta e na qual pudessem votar.
Durante a apuração, as fraudes ocorreram de um lado e do outro. Partidários da oposição, tal qual seus adversários, souberam bem manipular as atas, falseando-as em proveito próprio. O jornal O País fez vazar uma circular endereçada aos chefes civilistas, na qual se recomendava que, ao preencher as atas nas sessões eleitorais sob seu controle, fizessem diminuir 20 por cento no total de votos de Hermes, acrescentando-os ao total de votos de Rui.
Rui Barbosa ganhou, com pequena vantagem, no Distrito Federal, em sua terra natal, a Bahia, e nos Estados sob o controle da oligarquia que o apoiou, como em São Paulo e Minas Gerais. No restante do país, o resultado a favor de Hermes da Fonseca foi acachapante. Por exemplo, no bloco de Estados formado por Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte, 95 por cento dos votos válidos foram para Hermes da Fonseca.
A luta de Rui Barbosa prosseguiu no Congresso Nacional, junto à Comissão Verificadora e, mais tarde, na Justiça, procurando provar a inelegibilidade do vencedor, já que ele era um candidato sem título de eleitor, não estando, pois, no gozo de seus plenos direitos políticos, conforme determinava a lei. O marechal era alistável (tinha direitos) mas não se alistou (perdeu esse direitos).
Toda retórica foi nula. O nome de Hermes foi homologado e, em 15 de novembro de 1910, era o marechal empossado na presidência da Republica, em substituição a Nilo Peçanha.
Hermes Rodrigues da Fonseca nasceu em 1855 na cidade de São Gabriel, Rio Grande do Sul, 300 quilômetros a sudoeste de Porto Alegre. Era sobrinho do marechal Deodoro e, bem cedo, abraçou a carreira militar. Mantendo-se afastado da política, seu nome não alcançou, durante o Império e no início da República, a notoriedade do tio. Em 1906, foi ministro da Guerra do governo Afonso Pena e só então, obteve o posto de marechal do Exército.
Foi eleito Presidente em março de 1910, e como ainda faltavam mais de oito meses para a posse, aproveitou esse lapso para fazer uma tumultuada viagem à Europa. Nessa ocasião, foi convidado pelo Kaiser Guilherme 2º para visitar a Alemanha e teve oportunidade de assistir a manobras militares. Esse ato provocou protestos de seus adversários, e uma reação negativa por parte da França, pois o treinamento de nosso pessoal de Exército e Marinha era feito pela missão militar francesa, surgindo, então, a desconfiança de que o interesse de Hermes era romper o contrato vigente e assinar um acordo com a Alemanha para prosseguir na tarefa. Já em Portugal, sua visita trouxe uma infeliz coincidência, pois, quando era recepcionado pelo rei, chega a notícia de que se iniciara a revolução republicana que pôs fim ao Império.
Durante seu governo, falece-lhe a esposa, e Hermes vem a contrair núpcias com a jornalista e caricaturista Nair de Teffé, que não perdoava, na ironia de seus traços, as figuras mais representativas da política (diz uma piada que Hermes se casou com ela só para se livrar dela...) Foi uma das mais avançadas figuras femininas da primeira República. Introduziu nos salões a música popular brasileira, numa época em que nossas modinhas eram consideradas música de taverna. E não teve dúvidas em apoiar a vilipendiada compositora Chiquinha Gonzaga, levando-a para tocar e cantar no palácio. Pelos anos sessenta, já viúva, e com a parca aposentadoria que recebia dos cofres públicos, dedicou-se a criar algumas crianças que adotara. E, presente a um programa de TV, não hesitou em fazer uma caricatura do então presidente Costa e Silva.
O novo ministério ficou assim constituído: Relações Exteriores, José Maria da Silva Paranhos, Barão do Rio Branco; Justiça, Interior e Instrução Pública, Rivadávia da Cunha Corrêa; Fazenda, Francisco Antônio de Sales; Viação e Obras Públicas, J.J.Seabra; Agricultura, Pedro de Toledo; Guerra, general Emilio Dantas Barreto; Marinha, Almirante Joaquim Marques Batista de Leão.
No dia 22 de novembro de 1910, sete dias após a posse, quando se verificava uma recepção a bordo do navio português Adamastor, com a presença do novo Presidente e de todo o ministério, ouve-se um sonoro troar de canhão, vindo de uma das peças da esquadra brasileira, causando preocupação e alarme entre os presentes.
A mudança de governo não se fazia em clima de absoluta tranqüilidade. O Presidente , se contava com ampla cobertura das Forças Armadas, não era unanimidade entre os militares e, como já se viu, tinha uma oposição consistente, vinda de interesses contrariados e momentaneamente fora do poder. Além do mais, na formação de seu Ministério, foi afastado o nome do anterior ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar, despertando animosidade nos meios castristas.
Tudo isso passava instantaneamente pela cabeça daqueles que participavam da festividade, menos a verdadeira razão daquele tiro inusitado, que nada tinha de saudação ao novo governo. Não era a Marinha, como arma, que se revoltava, mas sim os marinheiros da esquadra, sob a chefia de João Cândido, marinheiro de primeira classe. A sedição envolvia os navios Minas Gerais (sede da revolta), São Paulo, Deodoro e Bahia, ameaçando se alastrar pelos demais vasos de guerra. Em radiograma ao presidente da República, transmitiram suas reivindicações: queriam a abolição do castigo da chibata, humilhante, doloroso e mutilador.
O castigo pela chibata (chicote com pregos) não era coisa nova e vinha, já, desde os tempos do Império. Abolido pelo Governo Provisório, foi reintroduzido por um decreto, ainda no mesmo governo, dado que os oficiais da Marinha consideravam impossível manter a ordem dentro da corporação, se não tivessem um meio eficaz de coerção à indisciplina dos marinheiros.
E não era para menos. À falta de voluntários, os marinheiros eram recrutados pelos processos mais variados e, muito à revelia dos escolhidos, para um período de serviço de quinze anos. Entre eles havia tanto gente da pior espécie, recolhida a bordo, como até meninos de doze ou treze anos, expulsos de casa pelos pais, e que iniciavam o aprendizado da profissão como grumetes. A disciplina se fazia rígida até para os padrões militares, com trabalho pesado e prolongado, e com raríssimas folgas para pisar em terra firme. Era a escravidão, abolida no fim do Império, mas que permanecia com todos os seus horrores a bordo dos navios, recebendo a chancela da lei.
Qualquer marinheiro faltoso, dependendo da gravidade de sua falta, recebia desde uma pena leve, como prisão numa solitária, por três dias, até a pena de 25 chibatadas, limite raramente respeitado, podendo a violência ser estendida até a inconsciência e a morte do infeliz. A aplicação da chibata era tão frequente que havia até mesmo carrascos designados dentro de cada navio, para a aplicação do castigo.
Os protestos dos marinheiros já vinham sendo feitos veladamente, por bilhetes anônimos, que, se descobriu, eram redigidos por um marinheiro intelectual, Francisco Dias Martins, conhecido como mão negra. Não sensibilizando os oficiais, agora, a revolta estoura com toda sua fúria, ficando o mão negra encarregado da comunicação escrita. O comando permaneceu nas mãos de João Cândido, rude marinheiro, incapaz de medir as conseqüências de cada ato e de deter as mãos assassinas que, com seus atos de barbárie, iam criando uma situação irreversível e tornando impossível a conciliação.
Para se ter idéia da violência, nenhum oficial a bordo, do mais graduado, ao mais simples, ficou vivo. Foram todos mortos e colocados em câmara-ardente. Depois, os marinheiros, em radiogramas enviados à terra exigiam além da eliminação da chibata, também a anistia geral pelos crimes cometidos. Exigiam mais - pasmem! - a presença, a bordo, do próprio presidente da República, para completar as negociações, ameaçando destruir a cidade, se não fossem atendidos em seus desejos.
A situação era tensa. Com o poder de fogo que tinham, os rebelados podiam, de fato, destruir qualquer alvo à sua volta, dentro da baía da Guanabara. Uma reação pelas forças de terra não ajudaria muito, na medida em que muitas vidas seriam perdidas, além do que estaríamos destruindo o melhor do nosso patrimônio naval. O deputado José Carlos de Carvalho, oficial da Marinha, com autorização do Congresso, vai a bordo e constata a gravidade da situação. De lá traz para a terra o último marinheiro chicoteado, que foi estopim da revolta, deixando-o em estado grave num hospital. No depoimento do próprio deputado, "...as costas desse marinheiro assemelham-se a uma tainha lanhada para ser salgada".
Era o dia 25 de novembro de 1910. No palácio do Governo, reúnem-se o Presidente, os ministros e gente experiente da política, analisando a situação. Foi o conselheiro Rodrigues Alves que, perguntado, deu a palavra final. Se não havia outro caminho, que então se concedesse a anistia, não porque a merecessem, mas para não mergulhar o país em tragédia ainda maior. O Congresso, a contragosto, e sob protestos de muitos, votou favoravelmente. Ao cair da tarde, o Presidente assinou a anistia, coadjuvado pelo ministro da Marinha, pelo chefe de Polícia e pelo deputado José Carlos de Carvalho.
Ainda nesse dia, a anistia foi aceita a bordo, contrariando a muitos, pois o objetivo central, que era a eliminação da chibata, não havia sido atingido. Mesmo assim, uma mensagem enviada ao oficial da Marinha e deputado José Carlos de Carvalho, transmitia a concordância, anunciava a entrega da esquadra e fazia uma ameaça: "Entraremos amanhã ao meio-dia. Agradecemos os seus bons ofícios em favor da nossa causa. Se houver qualquer falsidade, o senhor sofrerá as conseqüências. Estamos dispostos a vender caro as nossas vidas - Os revoltosos."
Passaram-se poucos dias e nova rebelião estoura, pela mesma razão, mas esta de menores proporções, envolvendo pessoal de base na ilha das Cobras e mais os marinheiros de um vaso de guerra. Calcularam mal, os marinheiros, os efeitos de seu movimento, pois desta vez, não envolvendo a população da cidade, o Governo sentiu-se seguro para ordenar o bombardeio contra a ilha, morrendo quase todos, dentre os seiscentos revoltosos.
Para o Governo, esta nova revolta resultou em lucro. Alarmado com a reincidência e com o temor de que a situação saísse do controle, o Congresso não teve dúvidas em aprovar o Estado de Sítio. A trágica ironia era que os mesmos que antes defendiam a anistia, incluindo Rui Barbosa, agora clamavam pela necessidade de medidas excepcionais para o controle absoluto da situação. E, suprema das ironias, no bombardeio contra ilha das Cobras, foram utilizados os navios Minas Gerais, São Paulo e Deodoro, os mesmos que, dias antes, haviam bombardeado a cidade do Rio, pondo em xeque as instituições.
Amparadas pela suspensão de parte das garantias constitucionais, as forças policiais foram às ruas fazendo uma operação de varredura, na qual prenderam indiscriminadamente marinheiros e civis, criminosos ou não. Muitos dos marinheiros presos estavam garantidos pela anistia concedida anteriormente, entre eles o chefe da revolta, João Cândido. Entre os civis se achavam desocupados inconseqüentes e um punhado de prostitutas.
O navio cargueiro "Satélite" partiu, então, para a Amazônia, levando, segundo relato de bordo, uma carga de "105 marinheiros, 292 vagabundos (sic), 44 mulheres e 50 praças do Exército". Seguindo instruções, a maior parte dos homens foi entregue à "Comissão Rondon" para trabalhos forçados. Os restantes, inaptos para o serviço, foram simplesmente abandonados na floresta, distantes um do outro, para não haver possibilidade de se reorganizarem. Os prisioneiros que ficaram no Rio de Janeiro foram, posteriormente, encerrados em uma cela solitária no presídio da ilha das Cobras, sendo que apenas dois sobreviveram, um deles, o próprio João Cândido que, mais tarde, fez a narrativa de toda a tragédia. Mas este já é um assunto que não cabe neste espaço.
Apenas um comentário final. Não se pode nem de longe inculpar Hermes da Fonseca pelos excessos cometidos. Os que conheceram o marechal, apontam-no como brando, pacífico e bondoso, voltado para sua atividade militar e pouco afeito à política e às ações repressivas. Por outro lado, João Cândido, e os demais líderes da primeira sedição, não tinham a exata noção de proporções, quando chacinaram todos os oficiais dos navios rebelados, criando uma situação de todo irreversível. Daí para diante, o espírito corporativo no seio militar esperava apenas uma oportunidade para a desforra, e esta apareceu com a suspensão das garantias constitucionais, pela decretação do Estado de Sítio. O resto, já se sabe.
Os problemas políticos nos Estados da Federação vinham de longe, desde as últimas eleições estaduais, ocorridas há três anos, nas quais os ganhadores jubilavam e os perdedores, sentindo-se esbulhados, esperavam a hora oportuna para uma revanche. Não eram forças populares em ação, mas oligarquias que lutavam com unhas e dentes para aumentar a sua fatia de poder.
O início do Hermes da Fonseca era um complicado tabuleiro de xadrez. No Congresso, permanecia o poder de Pinheiro Machado, que se estendia aos governadores em sua órbita de influência. Havia também a presença do deputado Fonseca Hermes e do deputado capitão Mário Hermes. O primeiro era irmão do marechal e líder da maioria na Câmara. O segundo era filho de Hermes e líder da bancada da Bahia.
Dentro do Ministério, ponteavam, pelo menos, duas forças contrárias a Pinheiro Machado e com pretensões políticas em seus respectivos Estados. Eram o Ministro da Viação, José Joaquim Seabra, baiano, e o Ministro da Guerra, general Emilio Dantas Barreto, pernambucano. Ambos representavam correntes atuantes na capital federal, mas estavam vivendo seus momentos de ostracismo nos próprios Estados de origem.
Junte-se a tudo isso o fato de que, 1911, renovavam-se as Câmara Municipais e 1912 era o ano de eleições para renovação dos governos estaduais, assembléias legislativas e, em alguns Estados, também, do senado estadual. Envolvendo-se na política regional, o governo central interveio o quanto pôde, mudando os governos e alterando a composição de forças. Essas intervenções, referendadas pelo Congresso, receberam oficialmente o nome de re-saneamento político, mas a opinião pública, sarcasticamente, as chamou de "políticas de salvação".
A primeira salvação envolveu o Estado do Rio de Janeiro, onde a presença do governador Alfredo Backer era contestada pela oposição, surgindo em conseqüência duas Assembléias Legislativas, uma de apoio ao governador empossado e outra apoiando o governador em litígio. Alfredo Backer consegue um habeas-corpus, legitimando-o no poder, mas o Ministro da Justiça envia tropas federais àquele Estado sob a alegação de que era necessário garantir o patrimônio público e o bom funcionamento das repartições. Desta forma, impôs-se pela força, e alterou o governo local, dando posse ao candidato de preferência do governo central.
A política salvacionista em Pernambuco foi uma das mais complicadas, mas era também a mais compensadora, pela força que este Estado possuía no cenário nacional. O controle do Estado se achava com a família Rosa e Silva, mais particularmente nas mãos de Francisco Assis Rosa e Silva, nome de tradição e projeção, pois já fora conselheiro do Império e, na República, elegeu-se vice-presidente, junto com Campos Sales.
Político hábil, não criou dificuldades a Campos Sales em seu governo. Diplomata, era adversário de Pinheiro Machado, mas foi favorável à candidatura de Hermes da Fonseca. E, desta maneira, ficou bem com ambas as forças dominantes, tanto no Congresso como na Presidência. Sabia avançar, mas tinha o bom senso de recuar, quando a situação assim o aconselhasse. Tal flexibilidade garantia a família na proeminência da política pernambucana.
Sua superioridade passou a ser contestada, entretanto, na formação do Gabinete, quando foi nomeado para o Ministério da Guerra o general Emilio Dantas Barreto, engrandecendo Pernambuco, mas diminuindo o campo de manobra dos Rosa e Silva. Candidatando-se a governador pela oposição, com o apoio do Barão de Lucena e José Mariano, o general Dantas Barreto desequilibrou as forças, provocando o embate das duas facções, nos moldes do coronelismo, com ocorrência de arruaças e lutas de emboscada. O Ministério da Guerra passou, então, para as mãos do general Vespasiano Gonçalves de Albuquerque e Silva, e Dantas Barreto seguiu para Recife, passando ele próprio a comandar a campanha.
As eleições em Pernambuco, dentro do sistema fraudulento em voga, deram vitória a Rosa e Silva, enquanto a oposição se declarava vitoriosa com Dantas Barreto. As lutas nas ruas se intensificaram, a policia estadual se rebelou, com apoio dos praças do Exército. O governador interino, Estácio Coimbra, não tendo condições de resistir, renunciou ao governo, deixando sem base política o seu padrinho Rosa e Silva.
Foi o momento para o bote final. O Congresso Estadual (Assembléia e Senado) considerou vitorioso o general Dantas Barreto, homologando seu nome. Trocado o comando militar, assumiu o coronel Abílio de Noronha, partidário do ex-ministro da Guerra e permaneceu nesse posto até garantir a posse do general Dantas Barreto no governo do Estado. Estava, pois, concluída a segunda operação salvadora.
A salvação na Bahia envolvia os interesses do ministro J.J.Seabra, a quem interessava reassumir o controle total da política estadual, contando com o apoio aberto do presidente da República, o qual chegou a fazer uma visita à Bahia, acompanhado de seu ministro da Viação. A reação veio por José Marcelino e Severino Vieira, que controlavam o Congresso estadual (assembléia e senado) e o governo do Estado.
Pronto para a reação, o governo do Estado aumentou seu efetivo policial, recrutando jagunços, trazidos dos sertões e até retirados da cadeia, onde cumpriam penas pelos crimes cometidos. Ou seja, gente descompromissada com a vida e disposta ao que der e vier. Eram já 4.500 militares, e mais de seiscentos policiais civis, todos de alta periculosidade.
Ocorridas as eleições municipais, em 1911, houve como de costume, divergência de resultados. Para garantir sua posição, o governo em exercício sitiou a cidade, interditando inclusive o Congresso e impedindo os parlamentares de exercer sua função. A justiça lhes concedeu o "habeas-corpus" e o governador Aurélio Viana recusou-se a cumprir a ordem judicial.
Estava aí o pretexto para a intervenção. O Governo federal ordenou que o general Sotero de Menezes pusesse suas tropas na garantia da lei, o que não aconteceu, pois o efetivo do Exército era menos de um terço do efetivo da polícia estadual. Dado que o governador insistisse em descumprir o mandado judicial, Sotero preferiu bombardear a capital, pelos fortes de São Marcelo e Barbalho, criando pânico na cidade e obrigando o governador Aurélio Viana a renunciar. No Rio de Janeiro, renunciava, também, o ministro da Marinha, em protesto pelo bombardeio. Reposto no governo, Aurélio Viana volta a renunciar, dias depois.
Realizaram-se, por último, as eleições para Governador e, contrariando a rotina, o nome do vencedor, J.J.Seabra, não foi contestado, sendo ele empossado, pacificamente, como governador da Bahia. A terceira salvação estava consumada.
No Ceará, de há muito, a política era controlada pela família Accioly. Pressentindo que seu Estado seria o próximo a ser contemplado com a salvação, o governador Antônio Nogueira Accioly, que aspirava pela reeleição, cuidou de aumentar seu efetivo policial, nos mesmos moldes e pelo mesmo processo utilizado na Bahia. Em dezembro de 1911, desistiu da reeleição, mas impôs como candidato José Joaquim Domingues Carneiro, que lhe era obediente e continuaria a zelar pelos interesses da oligarquia que controlava o poder.
A oposição, apoiando-se no militarismo, apresentou um candidato saído dos quartéis, o coronel Marcos Franco Rabelo. A este candidato reuniram-se, também, todas as forças políticas que, por mais de vinte anos, se achavam afastadas do poder. Choques entre a polícia e a oposição passaram a ser freqüentes. Em 21 de janeiro de 1912, um domingo, a polícia dissolveu com extrema violência uma passeata de crianças e mulheres, que promoviam a campanha do coronel Rabelo.
Recusando-se, o governador, a entregar ao Exército o policiamento das ruas, foram convocados Tiros de Guerra de outras cidades para virem à capital, para participar da luta. No dia 23, se concretizava a intervenção, com as tropas federais nas ruas. O governador tentou, então outra manobra. Renunciou, entregando o governo ao sucessor legal, Mauricio Gracho Cardoso, que era seu genro. A transferência foi impugnada e, no cargo, foi investido o dr. José Boaventura Bastos, em 24 de janeiro de 1912.
Em 12 de fevereiro, contrapondo-se à candidatura oposicionista do coronel Marcos Franco Rabelo, o grupo Accioly lançou, então, outro militar, o general Bezerril Fontenelle. Não ficou nem para um, nem para outro. Marcos Franco Rabello, da oposição, ganhou, tomou posse, mas não conseguiu maioria na Assembléia. Resultado: o grupo contrário obteve um "habeas-corpus", instalou outra Assembléia paralela em Juazeiro e deu posse a Floro Bartolomeu, representante do Padre Cícero, que começava a despontar no cenário político. Reinou a paz no Ceará.
Era a família Malta que detinha o poder no Estado de Alagoas, protegida também por Pinheiro Machado e com uma solidez de concreto, que nenhuma política salvadora, aparentemente poderia derrubar. Embora o presidente da República fosse do Rio Grande do Sul, é bom que se lembre que sua família tem origem em Alagoas, onde nasceu o tio, marechal Deodoro, e onde vivia toda a sua parentela.
Foi assim que, contra a vontade de Hermes, o grupo de salvadores, que representava a oposição, à procura de um nome para governador, resolveu lançar a candidatura do general Clodoaldo da Fonseca, um primo-irmão do Presidente, pouco afeito às lides políticas, mas que não resistiu ao convite para galgar tão alto cargo.
Os Maltas não deixaram por menos, e apresentaram a candidatura do general Olímpio da Fonseca, também parente do Presidente. Ficou então uma situação curiosa, que seria divertida, se não fosse trágica. Tínhamos agora dois candidatos, os dois militares, e os dois parentes do chefe da Nação que, a esta altura, ainda que quisesse, não teria mais condições para apoiar o candidato dos salvadores.
Não durou muito a divisão. O próprio general Olímpio refletiu melhor e desistiu da candidatura, ficando a vaga em aberto. Enquanto se procurava um novo nome para substitui-lo, aconteceu que o governador Euclides Malta mandou reprimir uma manifestação de adeptos do general Clodoaldo, que se realizava na praça principal da cidade, com mortos e feridos de um e outro lado.
A reação popular a esse acontecimento foi grande e fortaleceu os oposicionistas. A essa altura, a vitória da oposição era tida como certa e ninguém queria queimar seu futuro político aceitando apresentar-se como candidato do governo, pelo que, à falta de um opositor, Clodoaldo da Fonseca foi eleito e empossado. Estava consumada outra salvação, e esta com sabor especial, por implodir a estrutura de concreto representada pela oligarquia dos Maltas.
Vencida a força da inércia, o mecanismo das salvações passa a funcionar quase que automaticamente, e as oligarquias que dominavam os outros Estados foram caindo, uma a uma, sem grandes dificuldades. São Paulo livrou-se da ação salvadora, indicando para a sucessão do governador Albuquerque Lins, o respeitável nome do conselheiro Rodrigues Alves, ex-governador e ex-Presidente, contra o qual ninguém teria coragem de levantar a voz.
No Rio Grande do Sul, a presença de Borges de Medeiros, herdeiro político de Julio de Castilhos, não recomendava qualquer espécie de intervenção. Borges de Medeiros, através de sucessivas reeleições, vinha dominando o governo do Estado desde 1898 e, vamos adiantar, ainda ficará no poder até o ano de 1926, quando "blancos" e "colorados" se ajustam para um nome de consenso, o de Getúlio Dorneles Vargas. Mas isso é futuro. O importante é saber que, no Rio Grande do Sul, o status foi mantido.
O gaúcho Pinheiro Machado garantiu o prestígio no Estado natal, mas foi o grande perdedor na Política de Salvação Nacional, pois teve seu caminho cortado, passo a passo, em quase todos os Estados do país, tornando-se um gigante de pés de barro, imenso ainda, mas sem condições de se sustentar na nova ordem da política nacional.
Aos tantos problemas que atribularam o Hermes da Fonseca, ao final de mandato, pode-se acrescentar mais um, de caráter internacional, mas que viria afetar diretamente o Brasil. Em 1912, com a derrocada do Império Turco-Otomano, rebelam-se os povos iugoslavos, iniciando uma guerra local contra os turcos, numa coalizão formada por Montenegro, Macedônia, Sérvia, Grécia, Bulgária e Albânia. Derrotados os turcos, começam as lutas internas, o prenúncio da Primeira Guerra Mundial, que, em 1914, começaria bem ali, em Serajevo (Bosnia-Herzegovina).
Com o aumento da tensão internacional, os capitais externos começam a escassear, balançando a já precária situação financeira do Brasil, que se vê obrigado a recorrer a outra moratória. Os problemas econômicos se agravam com a queda na exportação da borracha, que agora enfrenta a concorrência asiática. Cai a renda proveniente da exportação do café, provocando um déficit na balança comercial. Concorrendo com a dívida externa, aumentam também os déficits orçamentários. O festival com dinheiro alheio, que começou no governo de Afonso Pena, mais precisamente a partir do Convênio de Taubaté, acabou.
Nesse quadro sombrio, nem era possível fazer uma administração grandiosa. Hermes da Fonseca se limitou a prosseguir as obras projetadas por Afonso Pena e continuadas por Nilo Peçanha, ampliando a rede ferroviária e estendendo, tanto quanto possível, a rede telegráfica. Foi em seu governo que se construiram os fortes de Copacabana, que, anos mais tarde, em 1922, viriam a ser palco de outra revolta militar, em apoio ao próprio Hermes. Também esse é um assunto para o futuro.
Terminado o mandato, e passando o governo ao seu sucessor, Hermes envolve-se, pelo menos indiretamente, nas revoltas de 1922, é preso, depois é libertado, e retira-se para Petrópolis, onde morre, em 1923. Com o marechal Hermes, termina a participação da sua família na vida política nacional.
Fonte: www.pitoresco.com.br
Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca foi um militar e político brasileiro (São Gabriel, 12 de maio de 1855 – Petrópolis, 9 de setembro de 1923). Presidente do Brasil entre 1910 e 1914. Era sobrinho de Manoel Deodoro da Fonseca, sendo seus pais o capitão Hermes Ernesto da Fonseca e Rita Rodrigues Barbosa da Fonseca.

Hermes da Fonseca ingressou na Escola Militar aos 16 anos. Quando se formou serviu como ajudante de ordens do Conde D'Eu. Foi convidado pelo tio para ser ajudante-de-campo e secretário militar após a Proclamação da República. Desempenhou vários cargos governamentais até se tornar Ministro do Exército durante o governo de Campos Sales.
Quando Afonso Pena se elegeu manteve Hermes da Fonseca no ministério, até que esse pediu demissão devido à discussão na Câmara sobre a participição dos militares na vida política do país. Lançou sua candidatura em oposição a Rui Barbosa e pela primeira vez no regime republicano se instalou um clima de campanha eleitoral com a disputa entre civilistas e hermistas. Com o convite de Nilo Peçanha para que retornasse ao cargo no ministério, Hermes da Fonseca se fortaleceu e venceu as eleições de 1910.
Apesar de ser bastante popular quando eleito, ao ter de lidar com o primeiro problema grave de sua gestão, a Revolta da Chibata, sua imagem ficou abalada rapidamente. Para conter o movimento ordenou o bombardeio aos portos. Logo outra revolta veio conturbar o seu governo, a Guerra do Contestado, que não chegou a ser debelada até o final de seu governo. O mandato de Hermes da Fonseca, que terminou em 1914, caracterizou-se no quadro político principalmente pela política das salvações. Além disso, o governo teve que negociar outro "funding-loan" (negociado antes por Campos Sales), pois a situação financeira do Brasil não andava bem.
Depois do mandato presidencial elegeu-se senador pelo Rio Grande do Sul, mas renunciou antes de iniciar o mandato, partindo para a Europa e só retornando em 1920. Durante o governo de Epitácio Pessoa foi preso como presidente do Clube Militar devido a uma conspiração militar arquitetada contra o governo. Foi solto seis meses depois.
Fonte: pt.wikipedia.org
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