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Governo Jânio Quadros

Durante 12 dias, metade deles ocorridos em agosto e outra metade em setembro de 1961, o Brasil se viu às portas de uma guerra civil. De um lado o poder estava em mãos de uma junta militar cujos integrantes haviam sido indicados por Jânio Quadros, o presidente que governara apenas por sete meses e que renunciara à faixa presidencial em 25 de agosto. Do outro, ergueu-se o governador Leonel Brizola do Rio Grande do Sul, que mobilizou a força pública e a população civil contra o intento da junta militar de não dar posse ao vice-presidente legítimo, o seu cunhado João Goulart. No cabo-de-força que então se instalou, o País por bem pouco não mergulhou numa contenta de sangue que poderia estender-se pelo território nacional por inteiro.

Governo Jânio Quadros

Moreno, magro, de óculos de grau e quase sempre despenteado, Jânio da Silva Quadros parecia-se um tanto com o comediante americano Groucho Marx. Ao seu aspecto inusual acrescentava-se o fato de quase sempre andar em mangas de camisa, manifestando o seu horror à gravata e ao paletó, o que ele abertamente expressava num português muito seu, muito próprio, num tom veemente cômico-pedante, carregado de próclises e ênclises, o que fazia dele um tipo original ainda mais popular.

Jânio Quadros
Jânio Quadros

O homem era um fenômeno. Fez uma carreira política completa sem jamais ter perdido nenhuma eleição: foi vereador, deputado, prefeito, governador do Estado de São Paulo, e, desde 1959, fortíssimo candidato à presidência da república. E tudo isso fora do quadro dos grandes partidos que dominavam o cenário político brasileiro desde 1945 (Jânio costumava-se lançar-se pelo minúsculo PDC, Partido Democrático-Cristão). Ninguém o detinha, ninguém o deteve. O Movimento Janista, (oficialmente chamado Movimento Popular Jânio Quadros, ou MPJQ) massa de gente que espontaneamente, por todo o País, se formou em torno da sua postulação, exultava pelas ruas gritando: "Jânio vem aí!" Tratou-se de um verdadeiro rolo compressor. Apoiado por um coligação de partidários antigetulistas, a candidatura de Jânio Quadros recebeu 48% dos votos de um total de 11,6 milhões de eleitores nas eleições presidenciais de 1960.

Carlos Lacerda na convenção da UDN

Apesar do presidente Getúlio Vargas ter-se suicidado em 24 de agosto de 1954, sua sombra política ainda se fazia sentir. Partidariamente, o Brasil dividia-se entre os getulistas (os partidos PSD e PTB) e os antigetulistas (a UDN e uma constelação de partidos que iam da direita golpista à esquerda comunista). Pareciam-se, os partidos, a três grandes feudos, conduzidos cada um deles por um grêmio partidário. O que estava sempre no poder era o bloco formado pela coligação PSD-PTB, ambos fundados em 1945, ao tempo em que Getúlio Vargas ainda era ditador, cabendo à UDN o papel de uma oposição crescentemente desesperada por suas sucessivas derrotas nas urnas (em 1946, 1950 e 1955). Situação esta que fez com que ela se aproximasse de militares golpistas para tentar chegar ao poder por meio das armas. Quando o nome de Jânio Quadros surgiu no cenário eleitoral nacional, um político desvinculado dos partidos, um líder messiânico, um "salvador do Brasil", a UDN teve esperanças de, por fim, alçar-se ao executivo federal sem precisar dos tanques. Na convenção de 1959, por insistência de Carlos Lacerda, o mais expressivo tribuno do partido, ela concordou em apoiar Jânio Quadros.

Caricaturas de Jânio
Caricaturas de Jânio

Revelando-se admirável administrador, cioso da verba pública, puritano e moralizador, e, por conseguinte, sem máculas de corrupção, Jânio Quadros, logo após ter sido prefeito de São Paulo (1953-4), o primeiro a ser eleito desde 1930, conseguiu o feito de praticamente sozinho bater, em 1955, a máquina eleitoral do PSP (Partido Social Popular) de Ademar de Barros, um ex-cacique varguista que controlava politicamente o Estado de São Paulo. O povo paulista o adorava, mesmo com suas costumeiras esquisitices e o seu jeito de falar estrambólico. Ideologicamente, Jânio Quadros era um poço de ambigüidades, oscilando entre os getulistas e os antigetulistas, fazendo sempre questão de aparecer como um homem que estava acima dos partidos, fora da intrigalha que alimenta a rotina de um político convencional. Não era de direita, muito menos de esquerda.

O carisma e a vassoura

O símbolo da sua campanha era a vassoura, com a qual ele pretendia varrer a corrupção e a desordem instalada no País. A isso somou-se o seu inquestionável carisma, o que fez dele o mais prestigiado tribuno popular desde o desaparecimento de Getúlio Vargas. Logo, não foi difícil para ele bater o general Henrique Teixeira Lott, o seu principal adversário da coligação PSD-PTB, no pleito de 3 de outubro de 1960.

A esquizofrenia janista

Empossado em 31 de janeiro de 1961, em meio a um mar de esperanças, sucedendo o governo bastante desgastado de Jucelino Kubitschek, que legou-lhe uma expressiva inflação, os sete meses de governo de Jânio Quadros revelaram-se uma autêntica esquizofrenia política. No plano econômico interno, ele aplicou as severas medidas de contenção determinadas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), do qual obteve um empréstimo, removendo subsídios aos combustível e ao trigo, o que encareceu o transporte público e o pão. No plano internacional, porém, advogou uma "política externa independente". Em plena guerra fria, decidiu-se reatar as relações com a URSS e a China comunista (enviando João Goulart em visita oficial a Pequim), apoiou Fidel Castro contra os norte-americanos na questão do desembarque da Baía dos Porcos e, para profunda irritação dos militares anticomunistas e próceres da UDN como Carlos Lacerda, condecorou Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, símbolo da luta antiamericana no continente.

Governo Jânio Quadros

Esta confusa mistura de medidas conservadoras, seguindo a cartilha do FMI, com a ação afirmativa na política externa, identificada com o Movimento dos Não-Alinhados, distante dos Estados Unidos, não poderia durar muito.

Além disso, esperava-se muito mais dele. Jânio, num surto de idiotice, proibiu o uso de biquínis nas praias brasileiras e suspendeu as brigas de galo em todo o País. A impressão que o país passou a ter é de que a montanha parira um rato, tamanho o despropósito entre as esperanças estimuladas e o resultado obtido até aquele momento. Foi então que deu-se o pior: Jânio Quadros renunciou!

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