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ESTUDANTE DE MEDICINA

Em janeiro de 1922, com dezenove anos de idade, Juscelino entrou na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, que cinco anos mais tarde viria a formar, com outras faculdades, a Universidade de Minas Gerais.

Trabalhando à noite como telegrafista, ele saía da estação ferroviária com dia claro, a tempo de pegar a primeira aula, às oito horas da manhã. De sua turma, com vinte alunos, fazia parte o futuro escritor Pedro Nava, que evocará o colega numa bela página de um de seus livros de memórias, Beira-mar.

Curiosamente, o futuro presidente não se preocupava com a política. Tinha olhos apenas para a carreira em preparo. A partir do quinto ano, entrou como interno na terceira enfermaria da Santa Casa de Misericórdia, a convite de um colega mais velho, Júlio Soares, que se casou com sua irmã, Maria da Conceição, a Naná. Foi viver em casa deles.

Mais tarde, também a convite do cunhado, tornou-se sócio de seu consultório. Em 1923, saiu pela primeira vez de Minas Gerais, numa viagem ao Rio de Janeiro. Dois anos depois, um congresso de estudantes de medicina o levou a São Paulo, com direito a uma esticada em Santos.

Sua paixão, porém, era Belo Horizonte, uma cidade que, inaugurada havia menos de trinta anos, atravessava então um dos momentos mais fascinantes de sua existência.

CAPITÃO-MÉDICO

Difícil imaginar o que teria sido a vida de Juscelino Kubitschek se ele não tivesse ingressado, em março de 1931, na Força Pública de Minas Gerais, para trabalhar no Hospital Militar.

Era capitão-médico quando, a 9 de julho de 1932, eclodiu em São Paulo a Revolução Constitucionalista. Estava casado havia seis meses – desde o dia 30 de dezembro de 1931 – com Sarah Lemos. De uma hora para outra, foi enviado para o front, na região do túnel da Mantiqueira, divisa com São Paulo, que os revoltosos paulistas haviam atravessado.

Ficou baseado em Passa Quatro, como responsável por um hospital. Mas acabou tendo um papel muito mais importante no conflito, conta o biógrafo Francisco de Assis Barbosa: JK "seria de fato o cirurgião da campanha, infatigável no seu posto, indo e vindo do front para o hospital de sangue, sem conhecer cansaço".

O que mudou sua vida, no entanto, não foi o desempenho como médico, mas as relações que fez em Passa Quatro. Conheceu, entre outros, o então coronel Eurico Dutra, futuro ministro da Guerra e presidente da República.

Mais decisiva ainda seria a amizade com o obscuro prefeito de Pará de Minas, Benedito Valadares, chefe de polícia na região conflagrada. Nomeado por Getúlio Vargas interventor em Minas, no ano seguinte, Benedito arrastaria para um destino político o capitão-médico que conhecera em Passa Quatro.

Nas palavras de Francisco de Assis Barbosa, "Juscelino receberia, com a campanha de 1932, além do batismo de fogo, o batismo da política".

Dr. Kubitschek, urologista

Formado em medicina em dezembro de 1927, Juscelino Kubitschek andou pensando em se mudar para Uberaba, no Triângulo Mineiro, mas foi dissuadido pelo cunhado, colega e sócio de consultório Júlio Soares.

Na decisão de permanecer em Belo Horizonte pesou também o namoro com aquela que viria a ser sua mulher, Sarah Gomes de Lemos. Ligando-se a ela, Juscelino de certa forma punha os pés na política, pois a moça era filha de um falecido deputado federal, Jaime Gomes de Souza Lemos.

Por parte da mãe, Luísa Negrão, a namorada tinha dois primos que viriam a se destacar na vida pública: Francisco Negrão de Lima, futuro ministro, embaixador e governador do estado da Guanabara, e Otacílio Negrão de Lima, futuro prefeito de Belo Horizonte. Uma irmã de Sarah, Amélia, vai se casar com Gabriel Passos, que em 1950 perderá para JK a disputa pelo governo de Minas.

Naquela altura, porém, o jovem médico ainda não dava sinais de querer enveredar pela política. Dividia seu tempo entre a Santa Casa de Misericórdia, o consultório e a Faculdade de Medicina, onde era assistente nas cadeiras de clínica cirúrgica e física médica. Logo arranjaria mais trabalho, na Caixa Beneficente da Imprensa Oficial, nomeado por intercessão do amigo José Maria Alkmin, vice-diretor da casa.

Já sem aflições financeiras, o filho da professora Júlia Kubitschek logo pôde comprar seu primeiro carro, um valente Ford que o levava de um emprego a outro.

RUMO A PARIS

Com exceção da irmã, Naná, toda a família achou que Juscelino ia dar um mau passo quando, em 1930, decidiu interromper uma carreira que ia tão bem e buscar especialização na Europa. Ele teria que abrir um parêntese, também, em seu namoro com Sarah Lemos. Mas estava mesmo decidido. Rapou as economias, vendeu o carro, levantou um empréstimo – e, no final de abril, embarcou para a França.

Em Paris, matriculou-se no curso do professor Maurice Chevassu, renomado urologista, que incluía treinamento no Hospital Cochin. (Quase três décadas depois, em 1956, visitando a cidade como presidente eleito, o ex-aluno foi ver o velho mestre, que dele se lembrava.)

Terminado o curso, Juscelino fez uma longa viagem de navio pelo Mediterrâneo. Conheceu o Egito, Síria, Turquia, Grécia, Terra Santa e Líbano. Esticou por terra até Milão, Veneza, Viena, Budapeste. Emocionou-se ao conhecer Praga, a capital da Checoslováquia que o bisavô Jan Nepomuscký Kubitschek trocara pelo Brasil um século antes.

Estava em Berlim quando, a 3 de outubro, irrompeu no Brasil a Revolução de 1930. Em Paris, teve a confirmação da vitória, que comemorou em companhia de dois brasileiros de quem se tornara amigo na Europa: o pintor Cândido Portinari e o ator Leopoldo Fróis.

De volta ao Rio de Janeiro, a 21 de novembro, por pouco não cruzou no porto com o presidente deposto, Washington Luís, que na véspera tomara o rumo do exílio.

Fonte: www.projetomemoria.art.br

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