O primeiro ano do governo Médici caracterizou-se por uma intensa radicalização dos movimentos de esquerda que haviam optado pela luta armada contra o regime instituído em 1964. Após o primeiro seqüestro de um diplomata estrangeiro - o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick -, a polícia e as forças armadas redobraram suas atividades, concentrando os esforços no combate às organizações armadas.
A partir de 1969, o comando das operações repressivas foi assumido em São Paulo pela Operação Bandeirantes (Oban), oficialmente lançada em 19 de julho por iniciativa do general José Canavarro Pereira, comandante do II Exército, com a função exclusiva de prender "terroristas e subversivos".
Nos primeiros meses do governo Médici, a Oban foi institucionalizada através de uma circular secreta intitulada "Instruções sobre segurança interna", passando a se chamar Centro de Operações para a Defesa Interna (CODI). Outros CODIs foram também criados no I, III, e IV exércitos. Tal como a Oban, os CODIs tinham a função de "coordenar as atividades dos diversos órgãos encarregados da repressão à subversão e ao terrorismo". Comandado por um oficial superior até o posto de coronel e oficialmente subordinado ao comando militar da área em que atuava, através da 2ª Seção do Estado-Maior, o CODI podia coordenar as atividades de um (ou de vários) Departamento de Operações Internas (DOI), seu braço executivo. Apesar de as duas siglas terem se notabilizado conjugadas como DOI-CODI, o CODI exercia o trabalho burocrático-administrativo do organismo, a análise das informações e o planejamento estratégico do combate à subverção, enquanto o DOI se ocupava da parte operacional. Segundo a revista IstoÉ, o CODI coordenava inclusive a atuação dos três centros de informação das forças armadas - Centro de Informações da Marinha (Cenimar), Centro de Informações do Exército (Ciex) e o CISA -, mantendo vínculos com todos os demais organismos policiais e militares. De acordo com Veja, entretanto, a Oban, apesar de seu caráter quase autônomo, recebia grande quantidade de informações, da Guanabara, onde se localizava o cérebro das ações antiterroristas representadas pelo Ciex e o Cenimar. Uma participação menos ativa nesse núcleo seria a do CISA, que teria colaborado apenas com o fornecimento de transporte aéreo. O SNI surgiria como suporte de todos esses órgãos.
Ainda em 1969, quando o clima era de "guerra revolucionária" e a imprensa, fortemente censurada, desencadeava uma verdadeira ofensiva contra a "subversão", os órgãos policiais, preparando-se para a luta aberta, tiveram seus equipamentos modernizados e seus efetivos aumentados. Segundo fontes militares, qualquer guerrilha descoberta em qualquer ponto do país poderia ser atacada maciçamente em 48 horas. O então chefe do EME, general Antônio Carlos Murici, revelava: "As forças armadas já escolheram o caminho da antiguerrilha muito antes daqueles que se propõem a deflagrar a luta armada para a tomada do poder". No entanto, apesar de os círculos oficiais divulgarem a desarticulação de diversos grupos vinculados às organizações armadas, os assaltos a bancos e os seqüestros de aviões continuariam a ocorrer.
No dia 4 de novembro de 1969, Carlos Marighella - um dos fundadores da Aliança Libertadora Nacional (ALN), líder da luta armada e antigo militante comunista - foi morto em São Paulo em conseqüência de uma ação policial comandada pelo delegado Sérgio Fleury. Alguns dias depois a imprensa alertava a nação para os excessos da ação repressiva governamental, que atingia indiscriminadamente estudantes, padres, artistas e jornalistas. Na primeira página da Tribuna da Imprensa, o jornalista Hélio Fernandes chegou a dirigir uma carta ao presidente Médici pedindo o esvaziamento das prisões e o fim da tortura.
Durante todo o governo Médici, as relações entre a Igreja e o Estado atravessaram um dos períodos mais críticos de sua história. Conforme afirmaria mais tarde o jornalista Marcel Niedergang, numa série de reportagens sobre o Brasil publicadas em outubro de 1972 no jornal francês Le Monde, a Igreja foi o único setor social do país, fora dos quadros institucionais, que se arrogou o direito de opinar sobre o regime então vigente de uma maneira "flexível e com uma firmeza engrandecedora". O papel da Igreja nas questões referentes aos direitos humanos, justiça social e execução de reformas foi relevante, apesar da ação cautelosa de sua ala liberal-reformista, que se esforçou para evitar uma ruptura definitiva com o governo.
Em meados de novembro de 1969, vários religiosos, entre eles o frei Beto - Carlos Alberto Libânio Cristo -, foram presos, acusados de apoiar Marighella e de hospedar militantes da luta armada, ocultando-os da polícia. Pouco depois, no Rio Grande do Sul, onde ocorrera a maior parte dessas prisões, uma assembléia de 150 padres da arquidiocese de Porto Alegre elaborou uma nota de protesto. No mesmo dia, 29 delegados de polícia paulistas "católicos, apostólicos, romanos", assinaram uma moção de solidariedade a dois colegas, segundo eles "arbitrária e despoticamente excomungados pelo arcebispo de Ribeirão Preto" (SP). Os policiais em questão haviam participado de uma ação policial denominada "Operação integração", destinada a desarticular grupos supostamente subversivos na região, e foram acusados de uso de violência contra elementos do clero local, inclusive contra a irmã Maurina Borges Silveira.
Além de produzir frentes de atrito com a Igreja e com os setores culturais em geral, a política repressiva desenvolvida nesse período contribuiu para a formação de uma imagem negativa do governo no exterior. Jornais como o New York Times, o Washington Post, o Times, de Londres, Le Monde e Le Figaro, de Paris, e o Osservatore Romano, do -Vaticano, publicaram extensas matérias sobre o assunto, detalhando as violências cometidas contra os presos políticos no Brasil. Assim, constrangido pela crescente insatisfação nacional e por pressões internacionais, em 23 de novembro de 1969 Médici afirmou que havia dado ordens aos órgãos responsáveis "pela segurança pública e pelo combate à subversão" para que reformulassem inteiramente seus esquemas de repressão, com a finalidade de coibir o uso de métodos violentos. No dia 3 de dezembro, Veja expôs em sua matéria de capa o seguinte título: "O presidente Médici não admitirá torturas em seu governo."
Ainda no início de dezembro, o líder do MDB na Câmara, deputado Humberto Lucena, sustentou na Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana a necessidade de ser restaurado o habeas-corpus como primeira medida efetiva de segurança contra o emprego da tortura nas prisões políticas. Presente ao debate, o ministro da Justiça Alfredo Buzaid afirmou que a supressão do habeas-corpus se constituía em medida política incluída no corpo do AI-5, portanto "insuscetível de exame", a não ser no escalão competente. Em janeiro de 1970, o arcebispo de Olinda e Recife, dom Hélder Câmara, em visita ao Vaticano, relatou ao papa Paulo VI a situação da Igreja Católica no Brasil, esclarecendo a denúncia sobre tortura de presos políticos feita por um grupo de prelados franceses e italianos. Proibido de se expressar no Brasil por sua posição contestatória, contrária ao regime de exceção, à perda das liberdades públicas e em defesa dos pobres e oprimidos, dom Hélder foi convidado a visitar diversos países estrangeiros para falar sobre as injustiças so-ciais em seu país. No final de janeiro de 1970, o II Exército anunciou que uma unidade especial da Polícia Militar paulista havia encerrado uma "campanha antiterrorismo de cinco meses que resultou na prisão de 320 pessoas, na descoberta de 66 aparelhos subversivos e na apreensão de grande quantidade de armas". Os responsáveis pela campanha afirmaram que a ALN e a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares) haviam sido quase totalmente desmanteladas. Em 13 de março, contudo, o cônsul-geral do Japão em São Paulo, Noburo Okuchi, foi seqüestrado, e a condição imposta para sua libertação, logo atendida pelo governo, foi o envio de cinco prisioneiros, políticos para o México. Assim, em dois dias o cônsul estava solto, e pouco tempo depois os responsáveis pelo seqüestro eram presos.
Em discurso comemorativo ao sexto aniversário do movimento político-militar de 31 de março de 1964, Médici afirmou que o regime era bastante forte "para não se deixar intimidar pelo terrorismo" e advertiu ainda que na luta contra a subversão será incansável e sem quartel". Em abril, o cônsul norte-americano em Porto Alegre reagiu a uma tentativa de seqüestro, e todo o esquema utilizado na ação foi desmantelado. No final do mês, a ação repressiva debelou a guerrilha implantada por Carlos Lamarca no vale da Ribeira, em São Paulo.
No início de maio, o líder do MDB na Câmara, deputado Pedroso Horta, que, segundo Carlos Castelo Branco, deixara recentemente de pronunciar um discurso sobre a violência do regime devido à pressão política exercida por seus correligionários, encaminhou ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana uma série de denúncias relativas à prática de tortura nos órgãos encarregados da repressão. No final do mês, em declaração prestada aos participantes da XI Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada em Brasília, o ministro da Justiça negou mais uma vez a existência de tortura em presos políticos. Apesar dessa contestação, a assembléia elaborou um documento afirmando que a "incidência em casos de tortura" no país era relevante, solicitando ao governo a investigação das denúncias em nome da "consciência nacional" e condenando ainda os assaltos e seqüestros praticados pelos grupos de esquerda como forma de tortura ao povo. Logo após o encontro, Buzaid expediu uma nota afirmando que existia uma campanha difamatória contra o governo brasileiro, e que competia à Igreja colaborar com seus ensinamentos para o aprimoramento das instituições vigentes e a realização de uma política de paz e harmonia.
O segundo seqüestro do ano de 1970 foi realizado no dia 11 de junho por integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que aprisionaram o embaixador da República Federal da Alemanha no Brasil, Ehrenfried von Holleben, e exigiram em troca a liberdade de 40 presos políticos. Cinco dias depois os presos seguiram para a Argélia e o embaixador foi libertado.
Segundo Carlos Castelo Branco, o governo brasileiro começou a se preocupar com sua imagem no exterior porque a política repressiva implementada nesse período estaria gerando dificuldades às negociações com os governos de alguns países, sobretudo da Alemanha e da Holanda, onde a pressão da opinião pública se fazia sentir com maior força. Em 24 de julho de 1970, a Comissão Internacional de Juristas, reunida em Genebra, na Suíça, denunciou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) a violação de direitos humanos em presos políticos no Brasil. No final de setembro, essa comissão solicitaria autorização do governo brasileiro para fazer um exame local e de acordo com Carlos Castelo Branco, a Cruz Vermelha Internacional teria feito também uma tentativa frustrada nesse sentido. Reagindo energicamente ao pedido da OEA, o ministro Alfredo Buzaid afirmaria que o governo brasileiro considerava uma ameaça à sua soberania qualquer tentativa de ingerência de organizações internacionais ou de pessoas estrangeiras nos assuntos internos do país.
Impotente diante das críticas que lhe eram feitas no exterior contra as restrições às liberdades públicas, o governo preferiu, mais do que se defender objetivamente, atribuir essas críticas a uma campanha organizada para desmoralizá-lo e, em contrapartida, compensá-las internamente, apelando para o sentimento coletivo de patriotismo. A AERP orientou essa campanha interna, ora com slogans ufanistas do tipo "Brasil grande", "Ninguém segura esse país", ora com frases como "Brasil, ame-o ou deixe-o", uma adaptação do dístico conservador norte-americano Love it or leave it. A propaganda maciça pelos órgãos de comunicação, conjugada com uma censura implacável, procurou perpetuar uma imagem favorável do governo, o que, de certa forma, foi obtido, graças a essa estratégia política, de compensar as insatisfações populares com a divulgação de planos grandiosos e de "projetos-impacto". Entretanto, segundo o dossiê dos exilados, citado por IstoÉ em 1978, no período de 1969 a 1973 registraram-se 77 casos de mortes de presos políticos por tortura. Da extensa lista de desaparecidos - aqueles cuja prisão ou morte não foram reconhecidas pelas autoridades - elaborada pelo Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA) e relativa ao período, constavam, entre os casos mais conhecidos, o do jornalista Mário Alves, preso no Rio em janeiro de 1970, e o do ex-deputado Rubens Paiva, também preso no Rio em janeiro em 1971.
No dia 31 de julho de 1970, guerrilheiros tupanaros seqüestraram no Uruguai o cônsul brasileiro Aluísio Gomide e o agente norte-americano da Central Intelligence Agency (CIA), Dan Mitrione. O governo uruguaio recusou-se a negociar com os tupamaros sob pretexto jurídico e, após algum tempo, o agente norte-americano foi morto por seus captores. O diplomata brasileiro seria mantido preso durante 205 dias, obtendo sua libertação mediante o pagamento de um milhão de dólares arrecadados através de uma ampla campanha desenvolvida no Brasil, já que o governo brasileiro recusara-se a negociar sua libertação com o governo uruguaio.
Em 30 de outubro, algumas horas depois do pronunciamento do presidente nas comemorações do primeiro aniversário de seu governo, foi desencadeada uma "blitz antiterrorista" de grandes proporções, que atingiu escritores, jornalistas, advogados, artistas e políticos da oposição. Entre os pretextos apresentados pelos órgãos de segurança para a ação desenvolvida em todas as principais cidades do país, incluíam--se os fatos de que muitos dos detidos haviam sido simpatizantes do governo João Goulart e de que estaria sendo organizada, a partir de 4 de novembro, uma semana de agitações políticas em comemoração ao primeiro aniversário da morte de Carlos Marighella.
No dia 7 de dezembro ocorreu a última operação espetacular dos diversos grupos de ação armada que vinham atuando no país: o seqüestro do embaixador suíço Giovani Enrico Bucher. A ação resultou na morte de um agente federal, e o governo brasileiro, que nas ocasiões anteriores atendera de imediato às exigências dos seqüestradores, decidiu mudar de tática. Recusou-se a aceitar certas imposições complementares como a leitura e a publicação de manifestos e a gratuidade nas passagens dos trens suburbanos, mantendo, porém, a disposição de atender à exigência básica: libertar 70 prisioneiros em troca da vida do embaixador. Enquanto as negociações se arrastavam propositadamente por parte das autoridades e se dava uma grande publicidade às manifestações de indignação contra a morte do agente federal, noticiava-se freqüentemente a ocorrência de operações policiais de perseguição e cerco a "agentes subversivos". Em 16 de janeiro de 1971, dois dias após a viagem dos 70 prisioneiros políticos para o Chile, o embaixador foi libertado.
Em 17 de setembro desse ano, o ex-capitão Carlos Lamarca foi morto durante urna operação conjunta de efetivos das três armas e da Polícia Federal, realizada em Ipupiara, localidade do interior da Bahia. Com a prisão, morte ou exílio da maioria das lideranças das organizações de oposição armada e seu conseqüente desmantelamento, o movimento arrefeceu, ressurgindo apenas com alguma intensidade em 1972, quando o Exército desencadeou as operações contra a guerrilha do Araguaia. Esse movimento, organizado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), localizou-se na região limítrofe dos estados do Pará, Maranhão e Goiás às margens do rio Araguaia, próximo às cidades de Xambioá (GO), Marabá (PA) e São Geraldo (PA), reunindo cerca de 70 guerrilheiros, dos quais a maior parte chegara à região por volta de 1970.
As operações antiguerrilha foram cercadas do mais absoluto sigilo: Médici jamais falou publicamente sobre o assunto e o presidente Ernesto Geisel o mencionaria uma vez na mensagem que enviou ao Congresso em 1975. Foram mobilizados cerca de cinco mil soldados, comandados pelo general Antônio Bandeira, que mandou construir na região uma rodovia de 30km para o deslocamento das tropas. Além de Bandeira também os generais Olavo Viana Moog e Hugo Abreu comandaram ações contra o movimento, que resistiria ao cerco militar de 1972 até janeiro de 1975, quando as operações seriam oficialmente encerradas com a morte ou prisão da maioria dos guerrilheiros.
Além dos recursos mencionados, o governo utilizou outras táticas de combate à "guerra revolucionária", tais como cartazes espalhados nos principais pontos das cidades (aeroportos, terminais rodoviários, bancos, entre outros), com retratos dos oposicionistas procurados, pertencentes, em sua grande maioria, aos grupos de ação armada. Médici editou também decretos secretos que se supõe versarem sobre a segurança nacional, cujos textos, entretanto, jamais se tornaram conhecidos.
Entre 1968 e 1974, a economia brasileira sofreria uma notável expansão, refletida no crescimento acelerado do Produto Interno Bruto (PIB). O período, que ficou conhecido como do "milagre brasileiro" em alusão aos "milagres" alemão e japonês das décadas de 1950 e 1960, seria marcado por taxas de crescimento excepcionalmente elevadas, que foram mantidas, enquanto a inflação, "controlada e institucionalizada", declinava, estabilizando-se em torno de 20 a 25% ao ano.
A permanência do ministro Delfim Neto na pasta da Fazenda durante o governo Médici deveu-se sobretudo à pressão exercida por várias entidades de classe do empresariado nacional. Satisfeitos com os resultados obtidos pela gestão anterior do ministro, principalmente no tocante à contenção da inflação, os empresários pediram a manutenção da política econômica.
Em setembro de 1970, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro bateu o recorde de volume de transações em toda a sua história, negociando 24 milhões de cruzeiros num só dia, fato que se repetiria no ano seguinte, quando novos recordes seriam estabelecidos em todos os setores. Em outubro de 1970, o Brasil obteve o maior empréstimo concedido até então pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) a algum país da América Latina: 66,5 milhões de dólares para o complexo hidrelétrico de ilha Solteira. Ainda nesse ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) informou que o Brasil havia sido o primeiro país latino-americano a ultrapassar a cifra de um bilhão de dólares em suas reservas de moedas fortes naquele organismo, conseguindo superar em apenas um mês em 105 milhões de dólares as reservas da Venezuela, até aquele momento o país latino-americano mais forte dentro do FMI.
Na exposição final do primeiro ano da gestão Médici, os ministros da Fazenda e do Planejamento afirmaram que, em relação ao setor econômico-financeiro, "o Brasil realizou, em 1970, todas as suas principais metas", enumeradas como "recorde absoluto da década": taxa de crescimento do PIB de 9% (a mesma de 1969); taxa de inflação abaixo de 20%; receita de exportações totais de mercadorias de 2,7 bilhões de dólares; exportações de manufaturados de 430 milhões de dólares; nível de reservas cambiais de 1,2 bilhão de dólares; nível do déficit de 820 milhões de cruzeiros em termos reais (preços constantes) e 0,5% como percentagem do PIB; nível de emissões de 22% em relação ao total emitido até 31 de dezembro de 1969.
No ano de 1971, o Banco Mundial aprovou mais dois empréstimos ao Brasil, num total de 96 milhões de dolares, para exploração de jazidas de minério de ferro. Com a aprovação desses dois créditos, o Brasil tornou-se o maior cliente do banco, atingindo um montante de compromissos no valor de 1,014 bilhão de dólares. No final do ano, foram também divulgados os resultados numéricos da economia referentes a 1971: crescimento do PIB de 11,3% ao ano, perfazendo um crescimento médio de 8,8% para o período de 1967 a 1971, "níveis jamais atingidos anteriormente no país".
Logo no início de 1972, Delfim Neto anunciava que o balanço de pagamentos do Brasil acusara um superávit de 536 milhões de dólares em 1971, e que as reservas totais haviam alcançado 1,721 bilhão de dólares, constituindo-se em novo recorde econômico. Outros empréstimos foram feitos nesse período, perfazendo um total de 560 milhões de cruzeiros, concedidos pelo Eximbank e pelo Banco Mundial, em Washington.
Não obstante, o aumento progressivo da desigualdade na distribuição de renda tornou-se o ponto central da crítica à "política nacional de desenvolvimento" seguida pelo governo Médici e amplamente justificada pelos adeptos do modelo. O próprio presidente da República declarara em relação ao sucesso obtido pela política econômica de seu governo que "a economia vai bem, mas o povo vai mal". Essa asserção foi reinterpretada pelo ministro do Planejamento com a afirmação de que "a renda per capita entre quatrocentos e 450 dólares prova que a renda nacional ainda não tem condições de ser redistribuída para melhorar o padrão de vida". Os economistas da linha oficial procuravam explicar o problema da concentração de renda como conseqüência do crescimento da economia, ao contrário de seus opositores, que a identificavam como causa. Entre os primeiros, destacou-se a teoria do "crescimento do bolo", ou seja, a tese de que era necessário assegurar o aumento da riqueza nacional antes de repartir os benefícios do desenvolvimento.
Em conferência pronunciada na ESG em julho de 1972, o ministro Delfim Neto admitiu que "a distribuição de renda no Brasil não é boa", acrescentando todavia que isso já vinha ocorrendo há muitos anos. Justificou o fato pela crescente complexidade da economia brasileira, afirmando que a estrutura produtiva encontrava-se alterada pelo desenvolvimento, o que resultava numa melhoria para todos, "embora alguns melhorem mais que outros".
Em agosto de 1972, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro registrou sua maior valorização dos últimos anos, com uma alta de 9,4%. Logo em seguida, entretanto, as cotações caí-ram vertiginosamente, causando prejuízos a muitos investidores.
Em seu discurso de final de ano em 1972, Médici enumerou os resultados do ano, definidos como êxitos do governo no campo econômico-financeiro: crescimento do PIB em 10,4%; aumento de apenas 14% no índice de custo de vida na Guanabara; superávit de 2,4 bilhões de dólares no balanço de pagamentos, quatro bilhões de dólares de reservas internacionais (mais do que o dobro das reservas do ano anterior); 3,9 bilhões de dólares de exportações, nas quais os produtos manufaturados contribuíram com mais de um bilhão; 4,2 bilhões de dólares de importações.
Em 1973, a eficiência do modelo econômico tornou a ser elogiada por observadores internacionais, que indicaram seis pontos básicos como os responsáveis pelos excelentes resultados obtidos pelo governo brasileiro: a neutralização da inflação, através de medidas de controle monetário e estruturais; o estímulo às exportações, sobretudo de artigos manufaturados; a promoção de investimentos privados nas áreas menos desenvolvidas do país, através de incentivos fiscais; o incremento das poupanças privadas, impulsionadas pelo dispositivo da correção monetária; a contínua importação de capitais, e grandes investimentos em infra-estrutura, como indústrias de base, usinas hidrelétricas, construção de estradas e melhoramentos dos portos.
Em seu último pronunciamento do ano, Médici anunciou um crescimento de 11,4% do PIB e avaliou em "63% o crescimento do qüinqüênio que agora se encerra, colocando-se o Brasil, por essa forma, ao lado dos países que conseguiram, na ordem econômica, o crescimento mais rápido que a história moderna conhece".
Ao contrário do que o governo insistia em afirmar, a taxa de inflação não foi contida no limite dos 12% pretendidos, embora não houvesse superado a de 1972. O Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Sócio-Econômicas (DIEESE) comprovou sua subestimação e contestou os índices que serviram de base, entre outros cálculos, para a correção salarial.
As exportações elevaram-se a 6,1 bilhões de dólares (50% a mais do que em 1972), e as importações, a 5,9 bilhões de dólares, sendo que as reservas cambiais brasileiras ascenderam a 6,3 bilhões. A dívida externa, entretanto, já então atingirá o montante de cerca de dez bilhões de dólares.
Em novembro de 1969, logo no início do governo Médici, o presidente norte-americano Richard Nixon fez um pronunciamento dirigido aos países latino-americanos, inclusive o Brasil, cujos governos vinham desenvolvendo medidas contrárias à política econômica dos EUA em relação ao continente. Anunciou a reformulação de algumas diretrizes de seu governo, como por exemplo a política de empréstimos fornecidos pela Agência Internacional de Desenvolvimento (AID), da qual foi eliminada a obrigatoriedade de aplicação exclusiva na compra de equipamentos nos Estados Unidos. Manifestando-se a respeito dos regimes políticos do continente, afirmou que, apesar de adepto da democracia, em "nível diplomático devemos lidar realisticamente com os governos dentro do sistema interamericano, tais como são". Sua declaração foi interpretada como um sinal aberto aos governos autoritários e acolhida com entusiasmo por Médici.
No ano seguinte, a política brasileira permaneceu fiel à tradicional linha de solidariedade ao sistema pan-americano, embora a adoção de algumas medidas, como a ampliação do mar territorial para duzentas milhas, por decreto de 25 de março de 1970, tenha desagradado profundamente ao governo norte-americano. Durante a XXV Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a delegação brasileira votou contra a condenação do colonialismo e pronunciou-se também contrária ao ingresso da República Popular da China naquele organismo. Na ocasião, o ministro Gibson Barbosa, buscando instrumentos de combate aos seqüestros, propôs que fossem utilizados dispositivos efetivos de garantia à segurança de diplomatas e de vôos internacionais.
Ainda no primeiro semestre de 1970, após seis meses de governo, Médici deixou pela primeira vez o Brasil para encontrar-se com um chefe de nação estrangeira. Reuniu-se com o presidente uruguaio, Jorge Pacheco Areco, na fortaleza de Santa Teresa, no Uruguai, quase fronteira com o Brasil, para inaugurar o último trecho da rodovia Curitiba-Chuí-Montevidéu. Os dois países reafirmaram sua so-berania sobre o mar territorial de duzentas -milhas, reivindicando o reconhecimento internacional. Entretanto, em 1971 os direitos brasileiros ao "mar de duzentas milhas" continuaram a ser contestados por vários países, sobretudo pelos Estados Unidos, que, através de seu Departamento de Estado, sugeriam aos pesqueiros norte-americanos que ignorassem os novos limites, considerando o decreto brasileiro contrário ao direito internacional. Além disso, em represália, a Câmara dos Deputados norte-americana tomou a posição de excluir seu país do Acordo Internacional do Café, provocando enérgica reação do governo brasileiro, que classificou a decisão de "intolerável pressão econômica". A partir de então, o Brasil tentaria por inúmeras vezes negociar com os Estados Unidos a discussão em separado das duas questões: o acordo do café e a ampliação do mar brasileiro.
Em meados de agosto de 1970, Brasil e Paraguai assinam acordo para a construção de uma hidrelétrica - a maior do mundo a ser localizada em Sete Quedas, no Rio Paraná, na divisa entre os dois países. O acordo, assinado pelo presidente da Eletrobrás, Mário Bhering, e autoridades paraguaias, previa um custo de cerca de um bilhão de dólares para a execução da obra. A capacidade da hidrelétrica foi estimada em dez milhões de quilowatts, que seriam suficientes para cobrir a demanda de vasta região brasileira e garantir o abastecimento do Paraguai durante cerca de 50 anos.
No início de fevereiro de 1971, a OEA promoveu em Washington uma reunião para debater um projeto de convenção sobre crimes políticos. Liderando um grupo constituído pela Argentina, Uruguai e Guatemala, o Brasil defendeu uma tese descaracterizando o crime político e propondo que o culpado de atos terroristas fosse considerado um criminoso comum, sem direito a asilo político. Embora endossada meses antes pela própria OEA e depois pela Comissão Jurídica Interamericana, a proposta não obteve a aprovação do plenário, levando a delegação brasileira a retirar-se em protesto, acusando aquele organismo de falhar na missão de estabelecer uma fórmula concreta e eficaz para combater o terrorismo nas Américas. A sessão foi suspensa, após a retirada do Brasil, e, ao ser reaberta, Argentina, Guatemala, Equador, Paraguai e Haiti adotaram a mesma atitude. Em seguida, o projeto apresentado pela Venezuela com o apoio dos Estados Unidos, caracterizando como crimes terroristas apenas aqueles praticados contra diplomatas e representantes de organismos internacionais, foi aprovado por oito votos contra cinco abstenções e três vetos, esses do Chile, México e do Peru.
Em julho, Médici encontrou-se com o chefe do governo do Paraguai, general Alfredo Stroessner, na fronteira entre os dois países, para inaugurarem a ponte internacional sobre o rio Apa, ocasião em que assinaram um documento condenando as "pressões econômicas entre as nações". Em agosto reuniu-se com o presidente da Colômbia, Misael Pasúana Borrero, na cidade colombiana de Letícia, para debaterem a realização de programas conjuntos para o desenvolvimento da área da floresta amazônica e a integração industrial dos dois países. Reiteraram também seu apoio ao Acordo Internacional do Café, desafiando a decisão norte-americana de excluir-se dessa convenção. Ainda em 1971, o Brasil firmou com Portugal o acordo denominado Convenção de Reciprocidade, concedendo prerrogativas no âmbito dos direitos políticos aos cidadãos brasileiros residentes em Portugal, e aos portugueses residentes no Brasil.
No mês de dezembro, durante a visita de Médici aos Estados Unidos a convite do governo daquele país, o presidente Nixon declarou publicamente que "para onde o Brasil for, irá toda a América Latina", colocando o governo brasileiro em situação embaraçosa diante dos demais países sul-americanos. Médici fez então um pronunciamento condenando as zonas de influência e a "política de poder efêmera e mutável por sua própria natureza, além de injusta e discriminatória". Contestou também a velha "política de interdependência" adotada pelo Brasil em governos anteriores, argumentando que a interdependência poderia existir apenas entre aqueles países que já haviam atingido "os estágios prévios de soberania política e de emancipação econômica". Mesmo assim, alguns governos reagiram energicamente ao discurso de Nixon. Em Caracas, o presidente venezuelano Rafael Caldera contrapôs: "Seria um erro muito grave dos Estados Unidos estruturar sua política hemisférica sob a concepção de uma determinada hegemonia de um determinado país dentro da grande família latino-americana". Pouco mais tarde, os presidentes Stroessner, do Paraguai, e Alejandro Lanusse, da Argentina, manifestaram-se em conjunto contra qualquer "tendência hegemônica na América Latina", em clara alusão ao discurso de Nixon.
Novamente em 1971, a delegação brasileira votou na ONU contra a admissão da República Popular da China e a conseqüente expulsão de Formosa, onde o Brasil tinha fortes interesses comerciais. Gibson Barbosa afirmou em seu discurso que o Brasil repudiava "a formação de zonas de influência" e não admitia que fosse "posto em dúvida o princípio da igualdade soberana dos Estados-membros da ONU".
Em 1972, a política externa brasileira seguiu duas diretrizes: a primeira, de aproximação com os países vizinhos, e a segunda, voltada para a conquista de mercados para a expansão da exportação de produtos manufaturados. Em fevereiro, o chanceler boliviano Mario Gutiérrez visitou o Brasil, e, ao longo do ano, diversos chefes de Estado e diplomatas sul-americanos fizeram o mesmo, proporcionando a Médici a oportunidade de apagar a impressão deixada pelo discurso de Nixon.
Ainda em fevereiro, a Câmara dos Deputados norte-americana aprovou uma emenda determinando que os Estados Unidos votassem contra a concessão de créditos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) a qualquer país que aprisionasse barcos pesqueiros norte-americanos em águas que o governo não considerasse territoriais. No mês seguinte, Brasil e Estados Unidos firmaram um termo de princípios segundo o qual os barcos de nacionalidade norte-americana não voltariam a ser apreendidos no mar territorial brasileiro, não reconhecido pelos Estados Unidos. Posteriormente, ainda nesse ano, os dois países firmariam um acordo autorizando 325 barcos camaroneiros norte-americanos a pescarem no mar territorial brasileiro contra o pagamento da taxa anual de duzentos mil dólares. Com o Japão foi assinado um acordo aumentando o volume do intercâmbio comercial entre os dois países de 350 milhões de dólares para um bilhão, em 1975.
Em março, o presidente da Argentina, Alejandro Lanusse, visitou o Brasil, estabilizando a tensão entre os dois países, deflagrada por divergências sobre a utilização do rio Paraná. Os argentinos eram contrários ao projeto brasileiro de construção da hidrelétrica de Sete Quedas - mais tarde denominada Itaipu -, sob a alegação de que o mesmo era prejudicial a seu país, que não fora sequer consultado a respeito por ocasião do acordo Brasil-Paraguai.
Em abril, o presidente da Bolívia Hugo Banzer visitou o Brasil. Até outubro o país conseguiria conduzir com equilíbrio sua política externa. Nessa ocasião, as forças de oposição na Argentina pressionaram seu governo para que este adotasse uma postura mais agressiva diante da questão de Itaipu. O assunto, debatido na sessão de abertura da Assembléia Geral da ONU, seria aparentemente solucionado com a assinatura de um acordo, em Nova Iorque, pelos ministros das Relações Exteriores dos dois países, reafirmando o direito brasileiro de construir a hidrelétrica. O Brasil comprometia-se a oferecer publicamente detalhes técnicos das obras realizadas nos cursos dos rios internacionais, recebendo em troca a garantia de que essas informações não seriam utilizadas para retardar ou impedir o andamento do projeto.
O acontecimento mais importante do ano de 1972 no setor das relações internacionais seria, entretanto, a viagem do ministro Mário Gibson Barbosa à África Ocidental. A missão teve como objetivo firmar acordos de cooperação econômica em diversos setores com os países africanos: assistência técnica, trocas comerciais e coordenação de medidas tendentes à fixação de preços mundiais de café e cacau, além de reivindicações de águas territoriais. O ministro visitou a Costa do Marfim, Gana, Togo, Daomé, Zaire, Camarões, Nigéria, Senegal e Gabão. Assinou ainda uma declaração com o governo do Senegal condenando o colonialismo, mas recusou o encargo de promover a mediação entre Portugal e os movimentos guerrilheiros de libertação das chamadas "províncias ultramarinas" - Guiné, Angola e Moçambique.
A intensificação do comércio exterior em 1973 acarretou um aumento das atividades brasileiras na área diplomática. Em fevereiro, o presidente Médici encontrou-se com o presidente venezuelano Rafael Caldera, na fronteira entre os dois países, firmando declaração conjunta contra o estabelecimento de zonas de influência no mundo. O empreendimento de maior vulto do governo brasileiro nesse ano seria a concretização do acordo entre o Brasil e o Paraguai para a construção da hidrelétrica de Itaipu. Por outro lado, segundo Osni Duarte Pereira, o resultado das eleições de 14 de março de 1973 na Argentina, que deu a vitória aos peronistas, mudou os rumos políticos do país. O governo brasileiro passou então a considerar imprescindível precipitar a elaboração de um tratado com o Paraguai, prendendo-o ao compromisso de construir a hidrelétrica sem participação argentina. Ao mesmo tempo em que se insistia na iniciativa, erguia-se na Argentina uma onda de protestos, com base em laudos técnicos, inclusive de brasileiros, que sustentavam que o local escolhido impediria a Argentina de aproveitar os saltos de Corpus, em seu território, de forma integral.
No final de março, o governo brasileiro anunciou ter informado à Argentina e ao Paraguai que em 1º de abril seriam iniciadas as operações de enchimento da barragem de ilha Solteira. Em abril, durante a visita oficial do presidente do Paraguai, general Alfredo Stroessner, ao Brasil, os dois países firmaram um tratado constituindo a empresa binacional Itaipu, destinada a construir e explorar a hidrelétrica. Formada pela Eletrobrás e a Administración Nacional de Electricidad (ANDE) do Paraguai, a empresa teria sede em Brasília e em Assunção. Em protesto, a Argentina, que desmentira ter sido avisada sobre a ilha Solteira e acusara o governo brasileiro de violar o acordo de Nova Iorque, retirou seu embaixador do Brasil. Em maio, o govemo brasileiro refutou oficialmente a acusação argentina, e nesse mesmo mês, a Capitania dos Portos do Rio Grande do Sul apressou um barco argentino em águas territoriais brasileiras, acirrando a crise entre os dois países, que foi amplamente divulgada pela imprensa.
O jornalista Hélio Fernandes afirmou na Tribuna da Imprensa que as negociações haviam sido uma vitória diplomática do Paraguai, o qual, ao excluir a Argentina e o Uruguai, garantira a divisão da energia de Sete Quedas apenas com o Brasil. Declarou também que o custo do projeto - cerca de três bilhões de dólares - seria assumido inteiramente pelo Brasil através de financiamentos que obteria e avalizaria sozinho. A parte do Paraguai seria saldada apenas mais tarde com a exportação de eletricidade para o Brasil. Além disso, como o Paraguai não tinha condições de integralizar seu capital na empresa, o Brasil - através das notas assinadas entre os chanceleres Gibson Barbosa e Raul Sapena Pastor - comprometeu-se a emprestar 50 milhões de dólares àquele país à taxa de 6% ao ano, no prazo de 50 anos, a serem pagos a partir do momento em que a usina começasse a funcionar.
Ainda em maio, Médici viajou oficialmente a Portugal e, embora tenha conferenciado longamente com o presidente Américo Tomás e o primeiro-ministro Marcelo Caetano sobre a questão das colônias ultramarinas portuguesas, o assunto não foi mencionado no comunicado final da visita. Em meio aos entendimentos, o Brasil opôs-se à criação de uma zona de livre comércio com Portugal, considerando-a prejudicial à sua política em relação à Aliança Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC).
O ministro Gibson Barbosa visitou, por sua vez, nos meses de junho e julho, a Colômbia, a Venezuela, a Bolívia, o Equador e o Peru, com o objetivo de reforçar contatos comerciais- com países-membros do Pacto Andino, referentes à exploração do carvão colombiano e à compra de petróleo e de produtos petroquímicos venezuelanos. Concluiu com a Bolívia negociações para a construção de um gasoduto entre Santa Cruz de la Sierra e Paulínia (SP). Em Lima, os governos do Brasil e do Peru comprometeram-se, através de uma declaração conjunta, a unir-se em defesa do mar territorial de duzentas milhas e a lutar por uma maior parcela do tráfego mundial de carga para as marinhas mercantes dos países em desenvolvimento. Além disso, os dois países criticaram "as políticas protecionistas de certas nações industrializadas", numa clara alusão aos Estados Unidos.
No mês de agosto, Brasil e Paraguai ratificaram em Assunção o tratado de Itaipu e anuncia-ram o início da construção da hidrelétrica. Ao longo de 1973, segundo Mário Bhering, encontrar-se-iam-se em andamento no Brasil as obras de 29 centrais com 1.600 megawatts de capacidade total, sendo 20 hidrelétricas, oito térmicas convencionais e uma central nuclear.
Na OEA, o Brasil manifestou-se contra a reintegração de Cuba a esse organismo internacional, com base na justificativa de que o regime cubano não mudara sua atitude em relação ao sistema interamericano. Na Assembléia Geral da OEA, o Brasil assumiu a liderança dos países latino-americanos que queriam- negociar uma fórmula intermediária para suavizar a proposta do Chile, Uruguai e Peru, de reestruturação do sistema interamericano sem a presença dos Estados Unidos.
Em 13 de setembro de 1973, dois dias após a deflagração do golpe de Estado no Chile, que causou a morte do presidente Salvador Allende, o Brasil reconheceu a junta militar chilena que tomou o poder. Segundo Veja, a posição brasileira teria sido uma decisão pessoal e direta de Médici. Nos primeiros meses após o golpe, um número incontável de militantes de esquerda e de lideranças sindicais foi executado. Entre os brasileiros que se encontravam exilados no Chile, alguns foram vítimas da violência policial, mas uma boa parte deles conseguiu evadir-se para outros países.