Depois de mais de uma semana de incertezas, todos os setores diretamente envolvidos na crise verificaram que a solução do impasse teria de ser de natureza política e não militar. Com o desenvolvimento das negociações, foi apresentada a proposta de uma emenda constitucional que convertia o regime presidencia-lista em parlamentarista, reduzindo bastante os poderes do presidente da República. Esta fórmula foi considerada satisfatória pelos ministros militares. Em seguida, Tancredo Neves viajou para Montevidéu a fim de obter a concordância de Goulart, retornando a Brasília no dia 1º de setembro com a missão cumprida. A emenda foi aprovada pelo Congresso no dia 2, abrindo o caminho para a volta de Goulart, que assumiu a presidência em 7 de setembro.
No dia seguinte, o novo presidente enviou mensagem ao Congresso, aprovada imediatamente por 259 contra 22 votos, indicando Tancredo Neves para primeiro-ministro. O primeiro gabinete parlamentarista, buscando construir uma base política ampla, capaz de reconstruir o diálogo entre os principais partidos do país, era composto por Antônio de Oliveira Brito (Educação), Armando Montei-ro Filho (Agricultura) e Ulisses Guimarães (Indústria e Comércio), do PSD; Francisco Clementino de San Tiago Dantas (Relações Exteriores) e Estácio Souto Maior (Saúde), do PTB; Virgílio Távora (Viação e Obras Públicas) e Gabriel Passos (Minas e Energia), da UDN; André Franco Montoro (Trabalho e Previdência Social), do PDC; Válter Moreira Sales (Fazenda), sem partido; general João de Segadas Viana (Guerra), almirante Ângelo Nolasco (Marinha) e brigadeiro Clóvis Travassos (Aeronáutica). De 8 de setembro a 13 de outubro, Tancredo ocupou interinamente a pasta da Justiça, aguardando que o Partido Social Progressista (PSP), presidido pelo ex-governador paulista Ademar de Barros, indicasse um nome para concretizar seu apoio ao gabinete. Ademar sugeriu o deputado goiano Alfredo Nasser, que tomou posse em seguida.
O programa do gabinete, submetido à Câmara em 28 de setembro e aprovado no mesmo dia, foi relativamente genérico na formulação dos seus temas. Sua apresentação teve mais a finalidade de cumprir uma formalidade indissociável da natureza do novo regime do que propriamente de determinar uma política de governo. Defendia a prática de reajustes salariais periódicos compatíveis com os índices de expansão inflacionária, acolhia a tese da "política externa independente", elogiava a Operação Pan-Americana e a pastoral pontifícia Mater et magistra e reiterava o apoio ao recurso da mediação como forma de solução de conflitos internacionais. Apontava a reforma agrária "como passo inicial e precípuo para a integração do homem do campo em nossa vida econômica" e proclamava sua identificação com uma política de portas abertas ao capital estrangeiro, frisando: "O Brasil reclama capitais alienígenas para consolidar e ampliar sua estrutura econômica." O novo governo defen-dia ainda a existência de uma lei de controle de remessa de lucros, desde que não desencorajasse os investimentos estrangeiros -considerados indispensáveis ao custeio do desenvolvimento econômico nacional.
Surgido em meio a uma grave crise político-militar, o primeiro gabinete parlamentarista conseguiu diminuir as rivalidades entre as principais correntes políticas do país. Entretanto, a insatisfação social crescia, com a multiplicação de protestos contra a inflação e por maiores reajustes salariais. A crise decorrente da renúncia de Jânio Quadros havia paralisado o país durante 13 dias, contribuindo para o agravamento da crise econômica, e os repetidos impasses nas negociações trabalhistas levaram à deflagração de sucessivas greves. Várias unidades de produção da Petrobras estiveram paradas nessa época durante 40 dias, enquanto o ministro Gabriel Passos enfrentava dificuldades dentro do próprio governo para promover a substituição do presidente e de um diretor dessa empresa.
Segundo Tancredo, o gabinete parlamentarista considerou a reforma agrária "item de prioridade absoluta na agenda do governo" e orientou o ministro da Agricultura para criar uma comissão encarregada de levantar e apre-ciar os estudos e propostas existentes sobre o tema. Em janeiro de 1962, o governo recebeu um projeto de autoria do senador mineiro Mílton Campos, da UDN, e no mês seguinte o Ministério da Agricultura apresentou também o seu. No dia 15 de fevereiro, o governo criou o Conselho Nacional de Reforma Agrária, composto por dom Hélder Câmara (bispo-auxiliar do Rio de Janeiro), Pompeu Acióli Borges, Paulo Schilling e Edgar Teixeira Leite, encarregado de fixar as áreas prioritárias para efeito de reforma agrária. Enquanto isso, a tensão social crescia no campo, especialmente na região Nordeste. Em abril, o assassinato do presidente da Liga Camponesa de Sapé (PB), João Pedro Teixeira, provocou manifestações de protesto logo proibidas pelo comandante do IV Exército, general Artur da Costa e Silva. Tancredo Neves atribuiu a movimentação camponesa à existência de "uma estrutura rural arcaica" e tomou a iniciativa de propor medidas políticas para enfrentar o problema, especialmente o Plano de Sindicalização Rural, aprovado em seguida pelo conselho de ministros, abrangendo potencialmente um contingente de 16 milhões de trabalhadores agrícolas, inclusive analfabetos.
Nesse período, ao lado do aprofundamento da crise econômica, crescia a radicalização da luta política entre as correntes defensoras das chamadas reformas de base (constitucional, agrária, urbana, bancária e tributária) e as forças conservadoras que se opunham a elas e acusavam o governo de patrocinar a agitação social. No dia 1º de maio de 1962, Goulart pronunciou um discurso em Volta Redonda (RJ) defendendo o caráter inadiável das reformas e pregando o retorno ao regime presidencialista para garantir a ação de um poder executivo forte e mais estável. Cresceu então a desconfiança dos setores conservadores em relação às intenções do governo. Nesse contexto, o gabinete de Tancredo Neves - que se caracterizava por uma política de compromisso para obter um amplo consenso nacional - começou a perder sua razão de existir. No dia 6 de junho seguinte, o gabinete se demitiu em bloco, inclusive o primeiro-ministro, e seus membros ficaram em condições de concorrer às eleições parlamentares de outubro seguinte. Na sua prestação de contas ao Congresso, Tancredo salientou que a previsão do déficit orçamentário girava em torno de duzentos bilhões de cruzeiros, mas o aumento previsto dos vencimentos do funcionalismo público federal elevaria esse montante a 330 bilhões.
Nas eleições de outubro de 1962, Tancredo foi o segundo mais votado da bancada mineira do PSD, com 58.090 votos. Em 6 de janeiro de 1963, antes do início da nova legislatura, o regime presidencialista foi reinstaurado através de um plebiscito convocado pelo Congresso, devolvendo a João Goulart os poderes definidos na Constituição de 1946.
Depois de oito anos de afastamento do Legislativo, Tancredo retornou à Câmara Federal em 1º de fevereiro de 1963, sendo escolhido líder da maioria formada pelo PSD e o PTB. O período seguinte foi marcado por grandes convulsões políticas e sociais, tornando-se crescente a influência do movimento sindical em decisões administrativas do governo, como a nomeação de presidentes e diretores de empresas públicas. A oposição usou alguns exemplos dessa influência para denunciar as supostas intenções de Goulart de violar a ordem constitucional e instituir uma "república sindicalista" no país. Com isso, setores do empresariado, círculos políticos liberais e algumas importantes chefias militares começaram a se articular para depor pela força o governo federal.
Tancredo procurava, nos limites de sua formação pessedista, suavizar os impactos causados pelo envolvimento de Goulart com o movimento sindical. Em 30 de março de 1964, quando o clima de confronto atingiu o ápice, tentou evitar que o presidente comparecesse a um ato público promovido pelos sargentos no Automóvel Clube, no Rio, argumentando que sua presença iria inflamar a animosidade militar contra o governo. Não obteve êxito, mas suas ponderações revelaram-se fundadas. No dia seguinte foi deflagrado o movimento político-militar que depôs Goulart e levou o general Humberto Castelo Branco ao poder. Tancredo afastou-se então da liderança parlamentar, mas continuou exercendo o mandato.
O novo regime inaugurou em 9 de abril de 1964, através do Ato Institucional nº 1 (AI-1), punições extralegais aos seus adversários, como a suspensão de direitos políticos e a cassação de mandatos parlamentares. Ameaçado de ser incluído em várias listas de punições, Tancredo se manteve em posição de reser-va, embora sem se distanciar dos acontecimentos políticos. Como membro do PSD, apoiou em 1965 a candidatura vitoriosa de Israel Pinheiro à sucessão de Magalhães Pinto no governo de Minas Gerais. No entanto, após a dissolução dos partidos decretada pelo AI-2 em 27 de outubro desse ano, Tancredo não acompanhou a quase totalidade de seus correligionários mineiros, que ingressaram no bloco parlamentar da maioria e, nessa condição, ajudaram a fundar em seguida a Aliança Renovadora Nacional (Arena), novo partido situacionista. Ingressando no bloco parlamentar da oposição, o ex-primeiro-ministro filiou-se depois ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
Nas eleições de 15 de novembro de 1966, já concorrendo na nova legenda, foi reeleito deputado federal com 55.209 votos, a segunda maior votação da bancada oposicionista mineira. Apesar de indicado para presidente do diretório do MDB em Minas e para líder da minoria na Câmara Federal, Tancredo não aceitou nenhuma posição de relevo nessa legislatura. Em 1968 representou a Câmara na XXIII Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Nova Iorque.
Em 15 de novembro de 1970 renovou seu mandato com a maior votação do MDB em seu estado: 57.094 votos. No ano seguinte foi designado presidente da comissão executiva estadual do seu partido e da Comissão de Economia da Câmara dos Deputados. Adversário da política econômica em vigor, numa época em que a censura à imprensa impedia a divulgação dos discursos de parlamentares da oposição, Tancredo adotou como norma convidar ministros da área para prestar depoimentos à comissão sobre as principais medidas governamentais. Na maioria das vezes os ministros não compareciam, enviando assessores para cumprir essa função.
Nesta legislatura, Tancredo participou como conselheiro das delegações brasileiras às conferências interparlamentares de Caracas (1971), Paris (1971), Abidjan (1973), Genebra (1973) e Bucareste (1974).
Em fins de 1973, juntamente com o secretário-geral do MDB, Tales Ramalho, velho companheiro do PDS, lançou a "anticandidatura" do deputado Ulisses Guimarães à sucessão do presidente Emílio Garrastazzu Médici no pleito indireto de 15 de janeiro de 1974. Embora sem ilusão de vitória no Colégio Eleitoral, onde Ulisses disputaria com o general Ernesto Geisel, candidato do partido do gover-no, a campanha emedebista, sob o lema "Navegar é preciso", procurou levar ao país uma mensagem de resistência e, segundo muitos analistas, teria sido a mola-mestra da vitória eleitoral alcançada pelo MDB em novembro, quando o partido conquistou 16 das 22 cadeiras em jogo no Senado.
Nestas eleições, não obstante o convite para candidatar-se ao Senado por Minas na legenda emedebista, Tancredo preferiu concorrer novamente à Câmara Federal, sendo reeleito com 71.950 votos, a terceira maior votação da representação mi-neira do seu partido. Eleito em 21 de setembro de 1975 terceiro-vice-presidente nacional do MDB, desempenhou papel conciliador em meio aos conflitos entre as correntes "autêntica" e "moderada" que lutavam pela hegemonia na agremiação.
Em 22 de dezembro de 1976, pronunciou violento discurso a propósito da divulgação da correspondência mantida entre o Departamento de Estado do governo norte-americano e sua embaixada no Brasil durante o governo de Lyndon Johnson. Depositados na cidade de Austin, no Texas, esses documentos incluíam as mensagens trocadas durante a crise que precedeu a queda de Goulart e traçavam o perfil de vários políticos brasileiros segundo seu grau de devotamento ou antagonismo às posições internacionais dos Estados Unidos. Entre outras informações, foi revelado que a esquadra norte-americana baseada no canal do Panamá havia sido colocada em estado de alerta em seguida à deflagração do movimento político-militar de 31 de março de 1964 para assegurar o abastecimento de combustível aos revoltosos na hipótese de luta prolongada pelo poder, o que não se verificou. Tancredo protestou de forma veemente contra a interferência do serviço secreto do governo norte-americano (a Central Intelligence Agency, CIA) na vida política brasileira e qualificou de irresponsável a insinuação contra sua honestidade contida em um dos documentos revelados.
Nesta legislatura, foi conselheiro das delegações brasileiras às conferências interparlamentares de Bogotá (1975), Londres (1975), Madri (1976) e Sófia (1977). Apesar de sua postura nitidamente oposicionista, Tancredo condenava os setores do MDB que se negavam a dialogar com o governo em questões consideradas básicas, afirmando-se como liderança da ala moderada do partido e como interlocutor do regime na discussão do projeto de distensão "lenta, gradual e segura" do presidente Geisel. Em julho de 1977, declarou-se a favor da convocação de uma assembléia nacional constituinte e, em março do ano seguinte, foi eleito -líder da bancada emedebista na Câmara, derrotando o deputado paulista José Freitas Nobre, representante dos "autênticos", pela diferença de dois votos. Em seu primeiro discurso como líder, criticou duramente a estreiteza de visão política dos governantes, que resistiam às pressões da nação pela volta do estado de direito.
Em 30 de julho de 1978, a convenção es-tadual- do MDB mineiro, reunida em Belo Ho--rizonte, lançou a candidatura de Tancredo -Neves ao Senado. No curso da campanha eleitoral, o candidato defendeu a adoção de eleições diretas em todos os níveis como fundamento para a pacificação nacional e ressaltou a necessidade de uma anistia ampla, geral e irrestrita para os perseguidos políticos desde 1964. Defendeu a iniciativa privada como fundamento da atividade econômica nacional, embora considerasse imprescindível o controle do Estado sobre os setores vinculados à segurança nacional, e declarou aceitar a implantação de multinacionais no Brasil, desde que elas não adotassem políticas de esmagamento das em-presas nacionais.
Em 15 de novembro de 1978 elegeu-se senador por Minas Gerais com 1.267.500 votos, derrotando os candidatos arenistas Israel Pinheiro Filho, outro pessedista histórico, e o ex-udenista Fernando Fagundes Neto. Em fevereiro de 1979 assumiu sua cadeira no Senado, onde integraria as comissões de Finanças e de Relações Exteriores. Como senador, Tancredo reforçou sua autoridade como interlocutor no projeto de transição pacífica, "sem revanchismos e sem radicalismos", para a democracia articulado pelo senador Petrônio Portela, ministro da Justiça de Geisel e intérprete, junto aos parlamentares, do projeto de reforma política do governo. Neste debate, manifestou-se contrário à adoção do voto distrital, por acreditar que este sistema enseja maior influência do poder econômico.
Apesar de sua lealdade ao MDB, Tancredo sempre esteve convencido da artificialidade do sistema bipartidário autoritariamente imposto ao Brasil pelo AI-2, que segundo ele ignorava uma divisão real das forças políticas nacionais. Por um lado, condenava a invasão do partido, após a anistia de 1979, por oposicio-nistas dos mais variados matizes, inflando para a esquerda a ampla frente construída em torno do MDB. "O meu MDB não é o MDB do ex-governador Miguel Arrais", teria afirmado na época. Por outro lado, julgava que as antigas bases do PSD poderiam dar origem a um novo partido que não fosse mera repetição do modelo da antiga agremiação.
Com a extinção do bipartidarismo em novembro de 1979, aproximou-se do deputado Magalhães Pinto, seu antigo adversário na política mineira, visando à formação de um partido de centro, liberal, tendo Minas Gerais como base, com o papel de equilibrar a balança na passagem do poder aos civis e de fornecer o candidato à sucessão do presidente Figueiredo. A decisão de Tancredo de não integrar o partido sucedâneo de MDB foi consolidada depois do veto dos não-alinhados e autênticos do MDB ao ingressso no novo partido do governador do Rio de Janeiro, Chagas Freitas, e do ex-governador do Rio Grande do Norte, Aluísio Alves e seus correligionários.
Ainda em fins de novembro foi selada a aliança entre os dois grupos mineiros - os moderados do ex-MDB, representados por Tancredo, e os dissidentes da antiga Arena, liderados por Magalhães Pinto - para a formação do "partido independente", que de início foi chamado de Partido Democrático Brasileiro (PDB) e em dezembro firmou-se com a denominação de Partido Popular (PP). Na opinião de Tancredo, "teria de ser um PSD de centro-esquerda, um partido sintonizado com as realidades sociais, com conotação social-democrata mais acentuada, em busca da justiça social, sem radicalismo e sem compromissos ideológicos". Para ele, o que caracterizaria o radical é que ele "se desinteressa do governo e critica o regime, a ordem social [...] Faço uma política de oposição que visa o governo".
Em 20 de dezembro foi divulgado oficialmente o manifesto de lançamento do PP, onde eram definidos os seguintes pontos programáticos básicos: voto livre, geral e direto para todos os cargos eletivos, abrangendo o Distrito Federal; reforma constitucional que restaure as prerrogativas do Congresso na iniciativa das leis, elimine todos os resíduos do arbítrio, afirme em toda a sua plenitude a soberania nacional e proíba as sublegendas; restabelecimento efetivo do sistema federativo de governo e conseqüente correção dos desequilíbrios setoriais e regionais; plena liberdade de imprensa e de expressão; competência exclusiva da Justiça sobre excessos cometidos e supressão do controle governamental das fontes de informação; revisão da Lei de Segurança Nacional (LSN) e recomposição do Conselho de Segurança a Nacional, visando a compatibilizá-lo com o Estado democrático; julgamento por tribunais civis de todos os crimes não militares. Ao novo partido alinhavam-se, além do grupo mineiro, o governador do Rio de Janeiro, Chagas Freitas, os ex-governadores Jaime Canet (PR), Paulo Egídio Martins (SP), Aluísio Alves (RN) e Roberto Santos (BA), o ex-prefeito de São Paulo e ex-arenista Olavo Setúbal, os deputados Tales Ramalho (PE) e Miro Teixeira (RJ), do antigo MDB, dentre muitos outros. Os deputados "autênticos" e os "não-alinhados" do ex-MDB uniram-se no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), liderado por Ulisses Guimarães.
Por contar em seus quadros com Magalhães Pinto, Olavo Setúbal e Herbert Levy, o PP foi denominado depreciativamente pela imprensa de "partido dos banqueiros". Foi chamado também de "Partido do Petrônio", por supostamente seguir os termos de um acordo tácito firmado entre Tancredo, o deputado Tales Ramalho e o ministro Petrônio Portela, grande incentivador da criação de um partido de centro, e como tal visto não como um partido de oposição, mas como uma agremiação auxiliar do PDS.
O PP realizou sua sessão inaugural no palácio do Congresso, em Brasília, no dia 10 de janeiro de 1980, sob a presidência conjunta de Tancredo Neves e Magalhães Pinto. Foi formada, na ocasião, uma comissão organizadora provisória e aprovado um programa mínimo defendendo a convocação de uma assembléia constituinte, eleições diretas, revisão da LSN e proteção aos pequenos e médios proprietários rurais. Em 15 de março de 1981 os deputados do PP apoiaram a candidatura de Djalma Marinho, dissidente do Partido Democrático Social (PDS), à presidência da Câmara Federal, em oposição ao candidato oficial do partido situacionista, Nélson Marchezan, finalmente eleito.
Em 7 de junho, em convenção nacional rea-lizada em Brasília, Tancredo foi eleito presidente do PP, cabendo a Magalhães Pinto a presidência de honra da agremiação. Na ocasião, o senador mineiro afirmou que a nação estava amordaçada por uma pequena minoria que usurpou o poder pela força e dele não queria sair senão pela força. A partir daí, todas as suas manifestações públicas foram ardentemente oposicionistas.
Em julho de 1981 Tancredo foi lançado em Montes Claros (MG) como candidato ao governo de Minas Gerais pelo PP e em outubro tiveram início as negociações com o senador Itamar Franco, do PMDB, visando uma possível aliança estadual para enfrentar o PDS. Em novembro, reuniu-se com o ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel em busca de um acordo que agilizasse a aprovação dos projetos de reforma eleitoral em tramitação no Congresso.
Quando o governo, em 25 de novembro de 1981, enviou à Câmara projeto de proibição das coligações partidárias e estabelecimento do voto vinculado para as eleições de 1992 - uma inesperada alteração no curso da abertura -,- Tancredo decidiu enterrar o sonho do PP e passou a defender a fusão de todas as correntes oposicionistas em uma só legenda. A tese foi rechaçada pelo PTB, o PDT e o PT, mas teve aco-lhida favorável da maioria dos membros do PMDB e do PP. Para o senador, não havia divergência radical de programa entre o PMDB e o PP: "A divergência está na metodologia da ação política. O PMDB é muito mais agressivo em busca de suas metas e o PP um partido de ação mais moderada, mais serena, que tenta buscar os seus objetivos em clima de compreensão, de entendimento e de conciliação."
A fusão do PP com o PMDB foi oficializada em convenção realizada em 14 de fevereiro de 1982, quando Tancredo foi eleito vice-presidente nacional do novo PMDB. A decisão não teve o apoio de importantes lideranças pepistas, como Herbert Levy, Magalhães Pinto e Tales Ramalho, que após tentarem impugnar a incorporação, acabaram indo para o PDS. No novo partido, Tancredo continuou liderando a ala moderada, organizada no grupo Unidade.
No pleito de novembro de 1982, elegeu-se governador do estado de Minas Gerais, o primeiro por voto direto desde 1965, com 2.667.597 votos, contra 2.424.197 obtidos por Eliseu Resende, candidato do PDS.
Ao ser diplomado pelo presidente do TRE regional em 28 de dezembro, o futuro governador centrou seu discurso na crítica à legislação eleitoral imposta pelo regime autoritário, repleta, em sua opinião, de "ca-suísmos impertinentes" que dificultavam a ação dos partidos e dos candidatos. Destacou a necessidade de torná-la compatível com o novo ciclo político que se iniciava, no sentido de fortalecer e consolidar as instituições democráticas.
Em fins de fevereiro de 1983, Tancredo anunciou a composição de seu secretariado, que buscava representar, na exata medida de suas forças, as correntes políticas que o levaram ao poder. Na Secretaria de Governo e Coordenação Política colocou o amigo Renato Azeredo, substituído ao falecer meses depois por outro pessedista, o deputado Carlos Cotta. Para a Secretaria do Interior e Justiça escolheu Sílvio Abreu Filho. Para as pastas da área econômica chamou Ronaldo Costa Couto (Planejamento) e Luís Rogério Mitraud (Fazenda), que, se não contavam com as simpatias da esquerda e do PMDB ortodoxo, tinham largo trânsito em Brasília, onde pode-ria-m buscar financiamentos importantes para o governo. Atendendo os fazendeiros da região do Triângulo Mineiro, Tancredo indicou o conservador Arnaldo Rosa Prata para a Secretaria da Agricultura; para o grupo do extinto PP reservou a Secretaria dos Transportes, entregue ao deputado estadual Álvaro Antônio (ex-Arena), e a da Cultura, que coube ao deputado José Aparecido de Oliveira. A área social ficou com o PMDB ortodoxo: Otávio Elísio Alves de Brito na Educação, Ronan Tito no Trabalho e Dario Tavares na Saúde. Tancredo ainda aplacou a esquerda ao abrir vaga na Câmara para o deputado Luís Guedes, eleito com o apoio do PCdoB, que amargava uma suplência. Para a prefeitura de Belo Horizonte nomeou o vice-governador Hélio Garcia.
No dia 10 de março Tancredo Neves despediu-se de seu mandato legislativo no Senado. Em seu discurso, ressaltou os perigos da recessão econômica, cujo prolongamento, disse, "terminará por destruir o nosso sistema produtivo, explodirá o nosso parque industrial, enfraquecerá nosso mercado, levará o desânimo às atividades agropecuárias". O tema da crise foi, igualmente, o fundamento de seu discurso de posse no palácio da Liberdade, cinco dias depois: "Sabemos, porque sentimos em nossa carne, que as atividades rurais estão imersas no desânimo do esforço sem resposta satisfatória e na angústia de intolerável endividamento. Desativam-se as empresas industriais, com o cortejo sinistro do desemprego, que amplia a área da miséria, da dor e do desespero em tantos e tantos lares de Minas. O comércio sucumbe ao peso de fortes encargos sociais e financeiros, e os empresários assistem, confrangidos, à inflação corroer seu patrimônio, somado, tantas vezes, pelo persistente esforço de várias gerações. A máquina administrativa, cara e obsoleta, cada vez se distancia de sua finalidade, tornando-se lenta e desumana. O crédito, escasso e oneroso para os pequenos e médios empreendedores, faz a opulência dos grandes e poderosos. A casa própria, sonho de todo trabalhador, é hoje seu flagelo."
Tancredo recebera um estado endividado. As grandes obras, exceto as administradas pela Prefeitura de Belo Horizonte, foram logo postas fora de cogitação. Com a arrecadação comple-tamente comprometida pelo pagamento de quatrocentos mil funcionários públicos, o governador estabeleceu como prioridade a recomposição do perfil da dívida. Já no início de abril encontrou-se com o presidente João Figueiredo em Brasília para chamar a atenção para a preocupante situação econômica que havia encontrado no estado: uma dívida de 1,2 bilhão de dólares, com o agravante de que um sexto desse montante deveria ser resgatado até o fi-nal do ano. Ressaltou que só em 1981 dez grandes empresas haviam encerrado suas atividades em Minas por força do processo recessivo a que o país vinha sendo submetido, ocasionando a formação de contingentes de desempregados numa extensão capaz de agravar os confrontos sociais, cujos efeitos seriam negativos para a reconquista da democracia. Desse encontro resultaria a rolagem da dívida externa de Minas, o que permitiu ao governo lançar-se na realização de empreendimentos de infra-estrutura visando à ocupação de uma parcela considerável da mão-de-obra ociosa e, deste modo, evitar a repetição em Minas dos distúrbios e saques que vinham então ocorrendo, em conseqüência da crise econômica, nas grandes capitais como São Paulo e Rio.
O governo também recorreu ao financiamento externo, sobretudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). Segundo o secretário do Planejamento do estado, Ronaldo Costa Couto, mais de 60% do dinheiro investido em Minas em sua gestão vieram desse esforço de captação externa. Dentro de casa, Tancredo impôs novo ritmo à arrecadação de impostos, estimulando os contribuintes através de campanhas publicitárias e de facilidades aos que cumpriam suas obrigações em dia ou desejavam regularizá-las.
Não obstante sua postura conciliadora, o governador não transigiu em seu apego à legalidade. A polícia de Tancredo reprimiu piquetes e greves, embora o governador tenha recebido delegações de sindicalistas para conver-sar; o governo intermediou conflitos trabalhistas, mas fez cumprir a Lei de Greve e impediu manifestações públicas fora dos recintos permitidos pela Secretaria de Segurança.
Paralelamente às tarefas administrativas, Tancredo desempenhou um papel de destaque na política nacional, participando ativamente dos debates e articulações organizadas pela oposição com vistas à redemocratização do país e ao reordenamento do sistema representativo. No decorrer de 1983, proferiu várias conferências e discursos exortando o povo brasileiro a persistir na luta pela convocação de uma assembléia nacional constituinte que substituísse a Carta em vigor, que "nos enche de vergonha perante os outros povos". Associa-va o futuro das instituições políticas ao comportamento da economia, cuja estabilidade, segundo ele, não poderia suportar a incidência de uma pressão inflacionária da ordem de 150% ao ano. Defendia a conciliação nacional como a fórmula mais adequada de encaminhamento da transição política, desde que conduzida sob a responsabilidade das agremiações partidárias legitimamente representadas no Congresso. Pregava também a renegociação da dívida externa sem a interferência de fatores que pudessem afetar a soberania nacional ou importar maiores sacrifícios aos segmentos sociais mais atingidos pela recessão, pelo desemprego e pelo achatamento salarial.
Em fins de 1983, o deputado Dante de Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, apresentou na Câmara um projeto de emenda constitucio-nal restabelecendo as eleições diretas para presidente da República, prática extinta em outubro de 1965 pelo Ato Institucional nº 2, editado pelo marechal Castelo Branco. A emenda Dante de Oliveira, como ficou conhecida, mobilizou a opinião pública e as lideranças parlamentares de oposição, produzindo também grande impacto no partido governista, em que crescia o descontentamento com o governo do general João Batista Figueiredo. A partir de então, começou a ganhar corpo a proposta de estabelecimento de um pacto político entre as correntes oposicionistas e os descontentes do PDS comprometidos com a retomada da legalidade com vistas a lançar um candidato de consenso à presidência da República, em pleito direto a ser realizado em novembro de 1984. Desde o início, Tancredo Neves foi cogitado para cumprir esse papel, devido principalmente à sua habilidade conciliatória e à sua visão moderada acerca do processo de transição democrática.
De janeiro a abril de 1984, os comícios em favor das eleições diretas em todos os níveis reuniram multidões surpreendentes nas praças das capitais e principais cidades do país (no conjunto, mais de 30 milhões de brasileiros, segundo estimativa de seus articuladores), convertendo-se em um movimento nacional de rejeição à continuidade do arbítrio.
Tancredo Neves participou com grande destaque de todas as manifestações. No entanto, acreditando que o regime militar, mesmo combalido pelo crescente desgaste nas áreas política e econômica, não deixaria de mobilizar todos os instrumentos de pressão de que dispunha para neutralizar a perspectiva de uma derrota no Congresso, não afastava a possibilidade de o PMDB disputar o pleito presidencial indireto na hipótese de se tornar inviável a obtenção de maioria absoluta para a aprovação da emenda Dante de Oliveira.
Com efeito, a amplitude nacional da campanha das Diretas Já e a crescente projeção de seus líderes levaram o governo a endurecer. No dia 24 de abril, véspera da votação da emenda na Câmara, o presidente Figueiredo decretou estado de emergência em Brasília e designou para seu executor o general Newton Cruz, chefe do Comando Militar do Planalto, conhecido como "linha dura". A justificativa oficial para a mobilização da força policial no cerco ao Congresso e contra as manifestações pró-diretas programadas foi a necessidade de defender os parlamentares do que foi denominado de "coação popular". Na realidade, os dispositivos repressivos foram acionados não apenas com o objetivo de intimidar os congressistas, mas especialmente para evitar que as manifestações populares encontrassem eco junto aos parlamentares do PDS menos submissos em seus compromissos de fidelidade ao governo.
A emenda Dante de Oliveira foi votada na Câmara dos Deputados no dia 25 de abril de 1984, em sessão que durou 16 horas e na qual o PDS, cumprindo determinações do palácio do Planalto, retirou do plenário 113 parlamentares de sua bancada. Mesmo assim, 298 congressistas votaram a favor, 65 contra e três se abstiveram. Faltaram, portanto, apenas 22 votos favoráveis para que fosse atingido o total de 320 votos, dois terços da composição da Câmara, necessário à aprovação da emenda, condição prévia para o seu posterior envio ao Senado.
Desde 1968, quando parlamentares da Arena se aliaram ao MDB e negaram a solicitação do governo para processar o deputado emedebista Márcio Moreira Alves, o que motivou, em represália, a edição do AI-5, esta fora a primeira vez em que o instituto da fidelidade partidária entrara em colapso sem suscitar reações punitivas do regime. Apesar de a desobediência do PDS não ter sido suficiente para garantir a aprovação da emenda, o episódio certamente selou a divisão no seio da agremia-ção governista, fortalecendo os prognósticos em torno do êxito de uma eventual candidatura Tancredo Neves no Colégio Eleitoral.
Prevalecendo a opção autoritária (indireta) para a escolha do sucessor de Figueiredo em 1985, quatro candidatos se apresentaram para disputar a indicação pelo PDS: o vice-presidente Aureliano Chaves, o senador por Pernambuco Marco Maciel, o general Mário Andreazza, ministro do Interior, e o deputado Paulo Maluf (SP). Para resolver o impasse, o presidente na-cional do partido, senador José Sarney, com o apoio do presidente Figueiredo, propôs em junho desse ano a realização de eleições prévias entre todos os filiados que ocupassem postos eletivos ou cargos em diretórios, desde os municipais, de modo a se definir um candidato de consenso a ser levado à convenção partidária marcada para setembro, numa versão brasileira das eleições primárias americanas. Contudo, a recusa de Maluf em participar deste tipo de consulta, que considerou um casuísmo de seus adversários para deter sua candidatura, fundamentada num trabalho dirigido diretamente aos 686 convencionais, levou Figueiredo a retirar seu apoio à proposta. Tal recuo permitiu a Maluf arregimentar forças para derrotar a proposta de realização de prévias na reunião da diretório nacional do partido convocada justamente para planejar a sua realização. O episódio culminaria com a renúncia de José Sarney da presidência do PDS, concretizando a ruptura da unidade da agremiação governista.
Até esse momento, Tancredo alimentara e apoiara ostensivamente a candidatura
de Aureliano Chaves, posição que decerto foi fundamental para
garantir a adesão do vice-presidente à candidatura oposicionista
quando este se viu sem chances de concorrer ao palácio do Planalto.
A costura deste apoio, conhecido como o "acordo de Minas", foi iniciada
ainda na noite da renúncia de Sarney, quando este recebeu a visita
do deputado Ulisses Guimarães e do senador peemedebista Fernando Henrique
Cardoso e, confessando-se traído pelo presidente, deu o sinal de que
ele e seu grupo se dispunham a apoiar um candidato da oposição.
Em meio a essa crise político-institucional, o governo enviou mensagem
ao Congresso em fins de junho concedendo a prerrogativa da es-colha universal
para 1988. Insatisfeita, porém, com a contemporização
governamental, a oposição contra-atacou com uma subemenda antecipando
a data da realização do pleito direto. Foi o bastante para que
os comícios públicos, esvaziados depois de 25 de abril, voltassem
a agitar as praças das principais capitais brasileiras. Ainda em junho,
às vésperas da votação da emenda Figueiredo, que
regulamentava as eleições presidenciais no Colégio Eleitoral,
o PMDB e os partidos aliados, inclusive os descontentes do PDS aglutinados
em torno de Sarney, Aureliano e Maciel, obtiveram destaque para a subemenda
das diretas, o que levou o go-verno, temeroso de nova derrota no Congresso,
a retirar sua emenda, produzindo novos impasses nas negociações.
Com o intuito de deter o retrocesso da redemocratização, os governadores do PMDB, sob a presidência do deputado Ulisses Guimarães, reuniram-se em Brasília no dia 29 de junho e decidiram lançar o nome de Tancredo Neves à disputa no Colégio Eleitoral. Quatro dias depois a Frente Liberal do PDS rompeu definitivamente com o governo federal, passando a atuar- no Congresso e nas assembléias legislativas estaduais como bloco parlamentar independente e dando início às negociações com a oposição em torno do lançamento da candidatura do governador de Minas à presidência. A formação da Frente Liberal implicou, automaticamente, as desistências de Aureliano Chaves e Marco Maciel da disputa pela indicação do PDS na convenção partidária, ficando esta restrita aos candidatos Andreazza e Maluf.
No dia 14 de julho, no palácio Jaburu, sede da vice-presidência da República, foi firmado o pacto da Aliança Democrática para enfrentar a caminhada de Paulo Maluf, o mais cotado dos pré-candidatos pedessitas, rumo ao palácio do Planalto. Participaram do encontro, pelo PMDB, os senadores Pedro Simon, Afonso Camargo e Humberto Lucena, além dos deputados Ulisses Guimarães e Freitas Nobre; pela Frente Liberal, o vice-presidente Aureliano Chaves, os senadores José Sarney, João Calmon, Jorge Bornhausen, Marco Maciel e Guilherme Palmeira, e os deputados José Lourenço, Fernando Bastos, Saulo Queirós, França Teixeira e Volnei Siqueira; e pela dissidência do PDS, o presidente do diretório regional do Rio de Janeiro, Wellington Moreira Franco.
O pacto foi consolidado em encontro realizado em Brasília no dia 7 de agosto, quando foram abordados os itens essenciais do programa do candidato aliancista: constituinte, problemas sociais, eleições diretas, dívida externa, casa própria, pleno emprego, previdência social, liberdade sindical e estado de direito. Na ocasião, ficou decidido que a Frente Liberal faria a indicação do candidato à vice-presidência da República, recaindo a escolha no senador José Sarney. A coordenação da campanha ficou a cargo de Ulisses Guimarães.
Convencida de que os partidários de An-dreaz-za, que recebera o apoio oficial dos governadores pedessistas da Bahia, Maranhão, Rio Grande do Sul, Paraíba, Piauí, Rio de Grande do Norte, Alagoas e Rondônia não absorveriam a candidatura Maluf caso ela triunfasse na convenção do PDS, a Aliança Democrática procurou ampliar suas bases onde o ministro do Interior buscava reforçar seus redutos (no Nordeste), mediante, entre outros recursos, a participação assídua de Tancredo nas reuniões da Sudene.
Conforme o esperado, a vitória de Maluf sobre Andreazza na convenção do PDS, antecipada para 11 de agosto de 1984, veio somar forças à campanha oposicionista, a que aderiu grande parte dos partidários do candidato pedessista derrotado. No dia seguinte foi realizada a convenção do PMDB que homologou a chapa da Aliança Democrática para concorrer à presidência da República. Dos 791 delegados com direito a voto, 103 não compareceram, ocasionando os seguintes resultados: Tancredo obteve 656 votos, contra 32 votos brancos ou nulos, e José Sarney, que, para atender às exigências da legislação eleitoral, filiara-se provisoriamente ao PMDB, já que a Frente Liberal não era um partido, obteve 543 votos contra 143 votos brancos e nulos.
Em seu discurso de agradecimento pela indicação, o candidato defendeu a conciliação e a concórdia como meios de edificação e permanência da ordem democrática; prometeu a recuperação do regime federativo como forma indissociável das práticas republicanas, e afirmou sua crença no potencial do Brasil para desenvolver uma economia pujante, tendo defendido o fortalecimento das pequenas e médias empresas e a reformulação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), desfigurada pelo arbítrio.
No dia 14 de agosto, Tancredo reuniu seus assessores no palácio da Liberdade e anunciou sua renúncia ao governo de Minas Gerais. Assumiu o cargo o vice-governador Hélio Garcia, que remanejou o secretariado, nele incluindo elementos da Frente Liberal. Com esta estratégia, denominada de "união mineira", foram isolados os poucos remanescentes do PDS no estado que permaneciam ao lado de Maluf.
Após cumprir um mandato de 17 meses, Tancredo deixou um saldo positivo de oitocentos bilhões de cruzeiros na arrecadação fiscal. A dívida externa do estado foi rolada em 70% e a economia mineira, depois de três anos com resultados negativos, encerrou o primeiro semestre de 1984 com um crescimento de 2,6% do produto interno. De acordo com relatório apresentado pela Secretaria de Indústria e Comércio de Minas Gerais relativo ao período final do governo de Tancredo Neves, de janeiro a agosto de 1984, comparativamente a igual período do ano anterior, o setor manufatureiro mineiro obteve um crescimento de 13,84% e a expansão da produção de aço foi de 27%, tendo sido implantadas 21 novas destilarias de álcool no estado. O volume de divisas obtidas com a exportação elevou-se em 18,5% e a receita alcançada com a arrecadação do ICM totalizou 1,7 trilhão de cruzeiros, reconduzindo Minas à sua posição de terceira maior unidade da Federação no recolhimento daquele tributo.
A sucessão presidencial não transcorreu sem reiteradas ameaças destinadas a intranqüilizar o encaminhamento do processo eleitoral. A crise fazia-se sentir no interior das forças armadas e entre o poder constituído e o meio político e decorria de projetos que visavam contrariar a mais provável decisão do Colégio Eleitoral em favor do candidato da Aliança Democrática, que iniciava sua campanha com sucessivas declarações de adesão por parte de governadores nordestinos e de figuras significativas do empresariado. Apesar dos esforços de Figueiredo, que passou a incluir a presença de Maluf em atos oficiais do governo federal, numa tentativa de vencer as resistências contra o ex-governador paulista que ainda persistiam no partido e em setores importantes do regime, o candidato oficial não parecia capaz de se afirmar como uma real opção para o governo.
Os antecedentes da crise militar, que chegou a fomentar alguns indícios de ameaças à consolidação da candidatura Tancredo Neves, ocorreram entre fins de fevereiro e meados de março de 1984, quando o almirante Maximia-no da Fonseca pediu demissão do Ministério da Marinha e foi recebido apoteoticamente no Rio de Janeiro pela oficialidade incorporada da Armada. De acordo com entrevista concedida pelo ministro ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) em 1985, os motivos de sua exoneração foram inspirados por objeções do general Otávio Medeiros, chefe do SNI, a uma solução civil para a sucessão do presidente Figueiredo, por entender que a afirmação de uma nova candidatura militar, oriunda da chamada comunidade de informações, constituía a única forma capaz de dar sustentação ao conceito de segurança nacional que embasava os objetivos básicos do movimento de 31 de março de 1964.
Segundo a revista Veja de 28 de março de 1984, a principal razão da queda de Maximiano teria sido o compromisso que ele assumira com a reposição do país nos limites da legalidade constitucional. No dia 16 de março, indagado a respeito de sua posição diante da campanha popular em favor das eleições diretas, o ministro teria afirmado que "enquanto não houver barulho ou baderna, está bem que o povo se manifeste". À noite, recebera um telefonema do general Rubem Ludwig, ministro-chefe do Gabinete Militar, pedindo, em nome de Figueiredo, confirmação da entrevista. Maximiano não só confirmaria sua declaração como solicitaria a Ludwig que marcasse o dia da entrega de sua carta de demissão ao presidente da República.
A declaração do ministro, porém, por maior- irritação que tivesse causado nos meios militares, certamente não teria sido suficiente para ocasionar a saída do titular de uma pasta militar. Razão mais forte parece ter sido a entrevista publicada na época pela revista Playboy, na qual Maximiano informava sobre a existência de um plano, por ele elaborado, proporcionando à Marinha condições de bloquear quaisquer tentativas de reversão do projeto de abertura política. O ministro não fazia revelações a respeito de um possível gol-pe em curso; afirmava apenas que sua iniciativa tivera um caráter preventivo, no sentido de evitar que a Marinha fosse surpreendida por acontecimentos adversos.
Meses mais tarde, no dia 10 de agosto, às vésperas da convenção do PMDB, agentes da 1ª Delegacia Policial de Brasília prenderam quatro pessoas que colavam cartazes de propaganda do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) apoiando Tancredo Neves. De madrugada, o titular da delegacia recebeu a visita do tenente-coronel Arídio Mário de Sousa Filho exigindo a soltura imediata dos presos, que eram na realidade um major, um capitão e dois sargentos a serviço do Centro de Informações do Exército (Ciex), órgão chefiado pelo general Íris Lustosa e diretamente vinculado ao gabinete do ministro do Exército.
A partir de então, novos boatos foram disseminados em Brasília sugerindo que um poderoso setor das forças armadas ameaçava intervir no processo eleitoral. Surgiram também notí-cias- a respeito de um projeto de resistência ao suposto golpe em preparação, envolvendo inclusive a composição de um esquema defensivo com vistas a garantir a se-gu-rança física do candidato oposicionista em sua movimentação pelos estados, apoiado em promessas de mobilização das polícias militares em Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Goiás. Mas esse apoio não era suficiente. Era preciso buscar sólida sustentação militar no Exército.
Assim, no início de setembro, por iniciativa dos generais Reinaldo Melo de Almeida e Gus-tavo Morais Rego, Tancredo avistou-se com o ex-presidente Ernesto Geisel em seu escritório na Norquisa, no Rio de Janeiro. Dele recebeu a garantia de que o Exército se manteria distante do problema sucessório, cuja solução o país havia transferido à sociedade civil através dos partidos políticos representados no Congresso Nacional.