No dia 21 desse mês, os altos comandos das três forças
armadas reuniram-se no Rio e em Brasília para analisar o desenvolvimento
da campanha sucessória, da qual a opinião pública vinha
participando com surpreendente intensidade. Desses encontros resultaram a
divulgação de notas oficiais das três forças. As
do Exército e da Aeronáutica eram semelhantes em suas conclusões:
relacionavam "a crescente e preocupante radicalização política
com o apoio ostensivo das organizações clandestinas de esquerda",
"a utilização, na campanha presidencial, de calúnias,
difamações e ofensas pessoais de toda natureza", "a
campanha de descrédito contra as autoridades civis e militares, conduzidas
com o objetivo de desacreditá-las perante a sociedade e dividi-las"
e "a evidência dos riscos que a radicalização pode
representar para a estabilidade do processo sucessório e para o próprio
êxito do projeto de abertura política do governo". A Marinha,
ao contrário, limitou-se a comunicar que a Armada se sentia "no
dever de reafirmar junto à opinião pública sua posição
de fiel cumprimento das atribuições constitucionais".
Os pronunciamentos das chefias militares, que demonstravam dissensões,
deixaram o meio político inseguro quanto a possíveis tentativas
de intimidação da campanha oposicionista e de falta de legitimidade
do processo sucessório. Com efeito, esta deve ter sido a intenção
dos responsáveis pela explosão que destruiu inteiramente as
dependências de um comitê de arregimentação política
da Aliança Democrática em Porto Alegre no dia 21 de outubro.
Contudo, em discurso pronunciado no dia seguinte, Tancredo procurou desencorajar
as aspirações revanchistas, isentando as forças armadas
de cumplicidade em atos que pudessem impedir a reconciliação
do país com a democracia.
O pronunciamento de Tancredo, no entanto, não amenizou as precauções da oposição. No dia 26 de outubro, a Folha de S. Paulo publicou matéria relatando as providências do governo para a execução de medidas de emergência previstas para vigorar a partir de 2 ou 3 de janeiro do ano seguinte. Falava em prontidão na unidade de fuzileiros navais em Brasília, onde haviam sido observados exercícios de adestramento que faziam prever o desencadeamento de ações repressivas.
No mesmo dia, nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) denunciou a existência de "bolsões militares e civis desconfiados de possíveis forças subversivas", argüindo a necessidade de esclarecimento dessas suspeitas "à luz do dia, sem conchavos, sem reuniões secretas, sem conspirações", porque "uma nação que se pretende civilizada não pode aceitar golpes".
O tenente-brigadeiro Valdir Vasconcelos, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), também prestou declarações à imprensa procurando aquietar os círculos políticos com a reafirmação de que as instituições militares não entrariam em qualquer espécie de articulação que pudesse desviar a sucessão presidencial de seu trajeto normal. Em longa entrevista publicada na Folha de S. Paulo de 6 de novembro, o titular do EMFA afirmou que as notícias de golpe não passavam de "especulações que só servem para intranqüilizar o povo", assegurando que o país vivia "num regime democrático constitucional".
Segundo notícia veiculada pela revista Veja, em 23 de novembro o ministro do Exército, general Válter Pires, teria mantido um encontro secreto com o candidato da Aliança Demo-crática, assegurando-lhe que as forças armadas não interviriam no processo sucessório e expondo-lhe as medidas que vinha implementando com vistas ao reequipamento e à modernização do Exército. Em contrapartida, ob-ti-vera de Tancredo o compromisso de que seu futuro governo não tomaria atitudes revanchistas contra os militares comprometidos com o regime autoritário.
No mesmo dia do suposto encontro, o ministro do Exército voltou a se pronunciar em nota oficial liberada à imprensa: "O Exército mantém-se na firme disposição de apoiar o projeto de abertura do presidente João Figueiredo, que deverá se consolidar com a eleição do futuro presidente da República, pelo Colégio Eleitoral, na forma da lei. A nação, que sempre contou com as forças armadas nos momentos decisivos de sua história, pode confiar que serão plenamente atendidos seus anseios de preservação das instituições democráticas."
Com as sucessivas declarações militares e a decisão do presidente Figueiredo de retirar o general Newton Cruz da chefia do Comando Militar do Planalto e da 11ª Região Militar os ânimos começaram a serenar. O incêndio de parte do escritório da Aliança Democrática em Brasília, na madrugada do dia 26 de novembro, porém, novamente veio abalar a confiança da opinião pública quanto ao destino da aber-tura no país. Tancredo Neves buscou ame-nizar a crise, desqualificando a ação como um "fator acidental destituído de conotações de origem política".
Mas foi com o pronunciamento do presidente Figueiredo no dia 5 de dezembro, perante mais de 70 oficiais-generais das três forças - sem dúvida, o mais importante pronunciamento produzido em todo o ciclo da abertura política - que o meio político e os diversos segmentos da sociedade interessados na consolidação do processo democrático tiveram a certeza de que a sucessão presidencial chegaria a seu desfecho sem os tropeços do veto militar. Estabelecendo íntima conexão entre a lealdade individual aos poderes do Estado e a coexistência democrática dos agrupamentos sociais diversificados, Figueiredo conclamava a oficialidade: "na disputa pelo poder, pela hegemonia econômica ou social, dentro dos limites da sã convivência, os homens reforçarão os laços que viabilizam a sociedade, fortalecerão sua personalidade e consolidarão seus valores."
Com o desenrolar da campanha, o partido governista também se empenhou na construção de obstáculos para interceptar a vitória do candidato da Aliança Democrática. No dia 22 de outubro, o senador pedessista Moacir Dalla, presidente da mesa diretora do Senado, responsável pela regulamentação e organização do pleito, baixou instruções tornando secreta a eleição dos seis delegados de cada assembléia legislativa estadual que, juntamente com a totalidade dos membros do Senado e da Câmara, integrariam o Colégio Eleitoral em janeiro de 1985. A oposição imediatamente denunciou o casuísmo da medida, que desconsiderava o acordo firmado entre as lideranças partidárias facultando aos legislativos estaduais a deliberação sobre a forma de votação, se aberta ou secreta, não conseguindo, porém, mudá-la.
O cerco à oposição levou também a que tropas do Comando Militar da Amazônia fossem deslocadas para São Luís para dar cobertura à ocupação pela Polícia Federal da Assembléia Legislativa do Maranhão por ocasião da escolha dos delegados desta casa ao Colégio Eleitoral. Neste clima de pressão, após uma sessão agitada e pontilhada de sucessivos incidentes, os deputados maranhenses acabaram indicando seis repesentantes malufistas. A decisão, contudo, foi contestada pelo presidente estadual do PDS, deputado Jaime Santana, ligado ao senador José Sarney e já integrado na dissidência liberal, que impetrou recurso na Justiça Eleitoral denunciando a visível coação exercida pela Polícia Federal e a prática de fraudes: 16 deputados estaduais favoráveis a Tancredo não haviam recebido cédulas para votar. O recurso, julgado pelo TSE em 24 de dezembro, daria provimento à reclamação e anularia a decisão da Assembléia. Realizada nova eleição, seriam indicados outros representantes, dessa vez vinculados ao candidato oposicionista.
Em 26 de outubro, os jornais noticiaram que a mesa do Senado preparava-se para impugnar a eleição dos representantes pedessitas das assembléias abertamente comprometidos com o candidato oposicionista. Para tanto, pretendia se utilizar de dispositivo estatutário, investindo-se da prerrogativa de acolher ou não as indicações dos legislativos estaduais. No dia 6 de novembro, porém, em resposta à consulta -formulada pelo deputado Gerardo Renault (PDS-MG), o TSE decidiu que os membros do Colégio Eleitoral ficariam desobrigados do compromisso de fidelidade partidária. Discordando da posição do TSE, sob a alegação de que os mandatos parlamentares pertenciam aos partidos, o diretório nacional do PDS reuniu-se em 21 de novembro e fechou questão em torno da fidelidade, encaminhando ao TSE pedido de registro da ata da reunião, precavendo-se assim contra possíveis conflitos na Justiça. Foram também lançadas ameaças de expulsão do partido, com a conseqüente perda de mandato parlamentar, àqueles que não acatassem as diretrizes baixadas pela direção partidária. A imposição foi endossada pelo general Golberi do Couto e Silva, partidário de Maluf, que em entrevista publicada na Folha de S. Paulo no dia seguinte afirmou textualmente: "Só assim os dissidentes votam com o partido."
No dia 23, o PMDB e a Frente Liberal encaminharam ao TSE pedido de impugnação da medida. Quatro dias depois este Tribunal ratificou a resolução adotada em 6 de novembro sobre a questão da fidelidade partidária e, finalmente, em 4 de dezembro, rejeitou o pedido do PDS de arquivamento da ata, liquidando as aspirações de Maluf de sair vitorioso no Colégio Eleitoral.
Desde então, os vestígios da crise sucessória começaram a empalidecer no cenário nacional. Os órgãos de comunicação passaram a dar maior ênfase a notícias relacionadas com os programas de governo, discutindo as possibilidades de composição do novo ministério. O candidato Paulo Maluf ainda tentou, sem sucesso, reverter o processo eleitoral com uma proposta de efeito, reabrindo no Congresso o debate em torno do pleito direto, que ele combatera com energia por ocasião da votação da emenda Dante de Oliveira, mas a oposição logo denunciou o caráter oportunista da proposta.
Um dos mais importantes discursos de Tancredo Neves ainda na condição de candidato foi pronunciado em 30 de novembro, no encerramento do I Encontro Nacional da Indústria, realizado no Rio de Janeiro. Defendeu a necessidade imperativa de constituição de um pacto social entre governo, empresários e trabalhadores para que a democracia, em vez de um empreendimento de risco, se constituísse em um sistema de apaziguamento e de solução de conflitos sociais agravados e reprimidos por anos de arbítrio. Para garantir esse retorno à legalidade e assegurar a sua permanência, pregou a convocação de uma assembléia nacional constituinte para substituir um estatuto autoritário, emanado de poder revolucionário, por uma Carta que resulte da concepção de representantes eleitos pela nação.
Em 8 de janeiro de 1985, reunido com dirigentes do PMDB na Câmara dos Deputados, o candidato recebeu um volume de seiscentas páginas, intitulado A Nova República, termo por ele cunhado em dezembro de 1984, contendo as sugestões do partido para um próximo programa de governo. Em seu discurso de agradecimento, Tancredo ressaltou o peso político nacional do PMDB, um "partido moderno, atuante e criador", e enfatizou a importância das agremiações político-partidárias na formulação de projetos, compartilhando as responsabilidades administrativas dos governos que ajudaram a instituir.
Em 15 de janeiro, os membros do Colégio Eleitoral deram 480 votos a Tancredo Neves e apenas 180 a Paulo Maluf, tendo sido registradas 17 abstenções e nove ausências. Os cinco estados que mais contribuíram para a vitória da Aliança Democrática foram Minas Gerais (57 votos), São Paulo (50), Rio de Janeiro (42), Paraná (37) e Bahia (35). Além dos aliancistas, Tancredo recebeu os votos dos convencionais do PDT e de dissidentes do PDS e do PT.
Proclamados os resultados eleitorais pela mesa do Congresso, Tancredo declarou que a primeira tarefa de seu governo seria a de promover a organização institucional do Estado. Ressaltou a importância da conciliação, que "não exclui o confronto de idéias, a defesa de doutrinas divergentes", e concitou o país ao "grande mutirão nacional" para o qual "não há um de vós que possa ser dispensado".
Na primeira entrevista concedida após o pleito, o candidato eleito criticou os desequilíbrios decorrentes da expansão inflacionária, observando que as medidas de combate à deterioração da moeda e à elevação dos preços não deveriam se incompatibilizar com a aceleração do crescimento econômico, mas sim proporcionar a criação de novos empregos, melhor remuneração à força de trabalho e uma distribuição mais justa da renda nacional. Afirmou que o reconhecimento da plena soberania do Congresso, associado a uma oposição permanente e livre, são atributos fundamentais para o êxito do grande projeto nacional de recuperação democrática e assegurou: "Vamos realizar uma obra que faça o homem brasileiro acreditar na sua nação, confiar nela e confiar no seu governo."
Entre fins de janeiro e princípios de fevereiro de 1985, Tancredo visitou os Estados Unidos e vários países da Europa, numa viagem que, para analistas políticos, visava mostrar ao Ocidente que as elites políticas brasileiras estavam suficientemente amadurecidas para conduzir, sem dramas e precipitações intempestivas, a substituição de um regime autoritário por uma organização democrática estável e conciliadora. Essa organização seria capaz de agregar não apenas as forças conserva-doras como também as correntes representativas daquelas áreas- mais agredidas pela inquietação, pelo inconformismo e pela marginalidade. O presidente eleito procuraria demonstrar, paralelamente, que a participação política produzida pela convivência dos antagonismos teria como indispensável corolário a reativação da economia, dando amparo à redução dos atritos sociais em estado latente de fermentação. O Brasil havia mudado e as mudanças deveriam se fazer sentir inclusive nas modalidades de negociações, desde o estabelecimento de acordos comerciais até a fixação de compromissos mútuos em suas alianças de cunho político e militar.
Na Itália, a base das conversações com o presidente Sandro Pertini e o premier Bettino Craxi fixou-se em torno de um programa de comércio externo que vinha sendo examinado pela direção do Partido Socialista Italiano. Na França, a atenção do presidente eleito voltou-se para as negociações com os associados do Clube de Paris relativas à dívida externa brasileira. Na visita a Portugal, Tancredo avistou-se com o presidente Ramalho Eanes e com o primeiro-ministro socialista Mário Soares, recebeu o título de doutor honoris causa na Universidade de Coimbra e discursou na Assembléia da República, onde evocou a influência da civilização lusa na formação da nacionalidade brasileira. Dos entendimentos mantidos com o governo português ficou prevista a colocação de produtos brasileiros no Mercado Comum, no qual Portugal e Espanha haviam ingressado recentemente. Neste último país, foi recebido pelo rei Juan Carlos I e o premier Felipe González como se já estivesse no exercício do mandato, com as honras de chefe de Estado. Tancredo interessou-se particularmente pelo funcionamento do Pacto de Moncloa, através do qual todas as facções da sociedade espanhola se comprometeram a desenvolver uma forma de atuação política que não transgredisse os fundamentos do propósito nacional de construção da democracia, implantada depois de mais de 40 anos de do-mí-nio franquista sobre as ruínas de uma guerra civil prolongada e catastrófica.
Finalmente, em Washington, no auditório do National Press Club, o presidente eleito pronunciou o discurso mais importante de sua viagem, no qual focalizou o povo brasileiro como principal protagonista da redemocratização. Declarou ainda ser a recessão um fator de desestímulo aos investimentos, afirmando a determinação de seu futuro governo no sentido de obter níveis significativos de crescimento e de implementar uma política externa fruto de "consenso pluripartidário".
Com o regresso de Tancredo Neves ao Brasil nos primeiros dias de fevereiro, tiveram início as negociações políticas visando à constituição do primeiro ministério da República civil. Embora os meios de comunicação tenham veiculado as mais variadas versões a respeito dos nomes que se julgavam mais credenciados na preferência do presidente, Tancredo não se sentiu induzido a discuti-las. Entregou a coordenação do setor econômico ao seu sobrinho Francisco Dornelles, já indicado para o Ministério da Fazenda, e assumiu, juntamente com Ulisses Guimarães, presidente nacional do PMDB, o comando da articulação política que conduziria à escolha dos titulares dos cargos relativos às áreas social, diplomática e militar.
No dia 12 de março Tancredo concedeu a última entrevista coletiva como presidente eleito, que seria, na verdade, o último pronuncia-mento político de sua vida. Na ocasião, defendeu a contenção dos gastos públicos, o combate à inflação sem prejuízo da expectativa de altas taxas de crescimento econômico, a injeção de recursos suplementares para o incremento da produção agrícola e a reformulação da Lei de Greve.
No mesmo dia foi anunciado o primeiro ministério da Nova República, constituído dos seguintes nomes, oriundos dos partidos que formaram a Aliança Democrática: Gabinete Civil, José Hugo Castelo Branco (MG); Justiça, Fernando Lira (PE); Relações Exteriores, Olavo Setúbal (SP); Trabalho, Almir Pazzianotto (SP); Indústria e Comércio, Roberto Gusmão (MG); Agricultura, Pedro Simon (RS); Minas e Energia, Aureliano Chaves (MG); Previdência Social, Valdir Pires (BA); Saúde, Carlos Santana (BA); Educação, Marco Maciel (PE); Assuntos Fundiários, Nélson Ribeiro (PA); Administração, Aluísio Alves (RN); Habitação e Saneamento, Flávio Peixoto (GO); Desenvolvimento Regional, Ronaldo Costa Couto (MG); Cultura, José Aparecido de Oliveira (MG); Transportes, Afonso Camargo (PR); Ciência e Tecnologia, Renato Archer (MA); Desburocratização, Paulo Lustosa (CE); Gabinete Militar, general Rubem Bayma Denis; Exército, general Leônidas Pires Gonçalves; Marinha, almirante Henrique Sabóia; Aeronáutica, brigadeiro Júlio Otávio Moreira Lima; EMFA, almirante José Maria Amaral. Com a nomeação de José Aparecido para o governo de Brasília foi indicado para o Ministério da Cultura o professor Aluísio Pimenta, de Minas Gerais.
Foram criados, portanto, sete novos ministérios: Assuntos Fundiários, Administração, Habitação e Saneamento, Desenvolvimento Regional, Cultura, Ciência e Tecnologia e Desburocratização. Quatro dos novos ministros escolhidos haviam sido cassados por atos institucionais editados entre 1964 e 1968 pelo regime militar: Valdir Pires, José Aparecido, Aluísio Alves e Renato Archer.
O chefe do Gabinete Militar, que comandara a 4ª Divisão de Infantaria, em Belo Horizonte, no período em que Tancredo governava Minas Gerais, era filho do marechal Odílio Denis, que intercedeu pessoalmente junto ao presidente eleito em favor de sua nomeação. A escolha dos ministros da Marinha e do EMFA, almirantes com lideranças marcantes entre a oficialidade naval, decorreu da pressuposição de que a solução eliminaria constrangimentos que pudessem estremecer os objetivos de pacificação da Armada. Na Aeronáutica não houve maiores contradições para a escolha do titular da pasta, uma vez que os índices de politização do passado já se encontravam reduzidos há algum tempo. No Exército, os complicadores que porventura poderiam se manifestar foram aliviados pela liderança do ex-presidente Ernesto Geisel. Nesta força, os principais articuladores da reabertura política à base da candidatura Tancredo Neves eram os generais Reinaldo Melo de Almeida e Gustavo Morais Rego, que se orientavam pela chamada linha geiselista. Da órbita de influência de Geisel saíram, portanto, o ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, e o ministro-chefe do SNI, general Ivan de Sousa Mendes.
Em 14 de março, véspera da posse, Tancredo Neves, ao lado de seus familiares, assistiu à missa em ação de graças celebrada em sua homenagem no Santuário Dom Bosco, em Brasília, pelo arcebispo de Belo Horizonte, dom João Resende Costa. No mesmo dia à noite, o chefe do serviço médico da Câmara, doutor Renault Matos Ribeiro, foi chamado às pressas para atender o presidente eleito, acometido de fortes dores abdominais. Diagnosticado de apendicite, Tancredo foi operado no Hospital de Base de Brasília pelos médicos Renault Matos Ribeiro e Pinheiro da Rocha aos 37 minutos do dia 15, dia em deveriam ocorrrer a posse e transmissão do cargo. Segundo informações transmitidas após a cirurgia, Tancredo padecia de diverticulite, doença que gera um quadro agudo, provocando dores semelhantes às crises de apendicite.
De acordo com depoimentos apurados pela imprensa, Tancredo vinha sentindo dores no abdome desde o dia 8. No dia 13, como o sofrimento aumentava, o doutor Renault recomendou que o presidente se operasse, mas ele se recusou. Tancredo teria pedido a seu médico que o sustentasse até o momento da posse, para que o processo da sucessão não fosse interrompido por qualquer acidente que propiciasse questionamentos políticos ou impasses de interpretação técnica. A seu pedido, também, os jornalistas teriam sido informados por Renault de que o presidente sofria meramente de uma faringite.
Ainda na madrugada do dia 15, enquanto o paciente era mantido isolado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital de Base, o meio político se mobilizava para tentar solucionar o impasse surgido a respeito de quem assumiria a presidência em exercício: o vice-presidente José Sarney ou o presidente da Câmara, Ulisses Guimarães. Para os grupos mais radicais do PMDB, o deputado peemedebista seria a segunda pessoa na escala hierárquica da sucessão, mas o próprio Ulisses entendeu que vetar a posse de Sarney, ignorando sua condição de companheiro de chapa de Tancredo, seria o mesmo que invalidar a legitimidade da eleição verificada no Colégio Eleitoral. O argumento do presidente nacional do PMDB, escudado na opinião de constitucionalistas qualificados, acabou derrubando todas as dúvidas e versões levantadas.
Segundo o jornal O Globo, um segundo passo das negociações foi convencer o presidente Figueiredo a passar a presidência a Sarney, com quem estava rompido. Para tanto, Ulisses Guimarães se ter-ia comprometido com o ministro-chefe do Gabinete Civil de Figueiredo, general Leitão de Abreu, partidário até então da posse do presidente da Câmara, de que não haveria solenidade de transmissão do cargo, contornando-se assim o impasse.
José Sarney tomou posse como presidente da República perante o Congresso às dez horas da manhã do mesmo dia 15, pronunciando o discurso elaborado pela assessoria de Tancredo e por ele aprovado, cuja essência fixava-se na determinação das prioridades dos gastos públicos. O ministério escolhido por Tancredo três dias antes foi mantido.
Não obstante o êxito da cirurgia, as con-se-qüê-ncias pós-operatórias não foram tranqüilizadoras: uma obstrução intestinal alarmou a equipe médica, que sugeriu então uma segunda intervenção cirúrgica. Nove médicos, de diferentes especialidades, foram convocados para emitir parecer a respeito do quadro que se apresentava e, por unanimidade, concluíram pela necessidade de uma segunda operação.
Tal possibilidade inquietou de novo a área política. O governo preocupava-se em não dei-xar a população perceber algum indício mais grave de anormalidade. A esquerda parecia propensa a iniciar nova campanha pelas diretas, o que determinaria uma contestação da decisão do Colégio Eleitoral, enquanto a direita possivelmente aguardava repercussões dramáticas do episódio para provocar a regressão das conquistas que impulsionaram o advento da República civil.
A segunda operação foi efetuada no próprio dia 20 pelos
médicos Henrique Válter Pinotti, Francisco Pinheiro da Rocha
e João Batista Alves. Os resultados anunciados provocaram manifestações
de euforia por parte de políticos, familiares e assessores diretos
de Tancredo. Cogitou-se então de uma nova data para a posse que, segundo
os noticiários, vinha sendo reclamada pelo próprio presidente
eleito. Não obstante, esse momento de otimismo foi conturbado por divergências
no interior- da equipe médica relativas à avaliação
das reações do paciente, tendo sido registradas trocas de acusações
nos jornais e na televisão. A controvérsia provocou constrangimentos
à família do presidente eleito e suscitou temores no meio político.
Enquanto isso, a recuperação de Tancredo entrava em retrocesso.
Uma crise circulatória levou à sua remoção para
o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São
Paulo, na capital paulista, onde foi submetido, em 26 de março, a uma
terceira cirurgia, realizada pela equipe do doutor Henrique Pinotti. Nesse
momento o país começou a tomar ciência da gravidade do
quadro. Numerosas igrejas, cultos e seitas religiosas realizaram ritos ecumênicos
em favor do restabelecimento da saúde de Tancredo, tendo sido registradas
manifestações populares de apreço e estímulo em
diversos estados.
Após a terceira intervenção, as preocupações da equipe médica convergiram para uma nova constatação: a existência de infecção hospitalar contraída pelo paciente durante o período de internamento no Hospital de Base de Brasília. Para o combate à infecção foi utilizado um novo tipo de antibiótico ainda não comercializado, mas nem assim o organismo do presidente apresentou sinais de reação.
No dia 2 de abril Tancredo enfrentou no Ins-tituto do Coração a sua quarta intervenção cirúrgica, com a finalidade de corrigir uma "hérnia inguinal encarcerada no lado esquerdo do abdome" e deter um foco infeccioso, con-forme atestaram os boletins médicos. A par-tir de então a opinião pública passou a duvidar da fidelidade dos comunicados oficiais- que anunciavam ausência de perigo vital no estado geral do presidente.
Nesse contexto, o ministro da Justiça, Fernando Lira, afirmou aos jornais que o quadro assumira uma maior gravidade e que a área política se preparava para fortalecer o governo Sarney, procurando eliminar gradualmente seu caráter transitório.
Uma quinta operação, destinada a drenar um foco infeccioso no local da incisão, foi realizada pouco depois das 13 horas do mesmo dia 2. As esperanças e o otimismo foram substituídos por evasivas e pelo silêncio. Políticos e familiares passaram a evitar tecer comentários sobre a situação criada pela necessidade da nova cirurgia.
No dia 9 de abril Tancredo foi submetido a uma sexta operação. Segundo os médicos, uma traqueostomia destinada a evitar o desconforto originado pela presença de um tubo oro-traqueal que, se fosse usado por muito tempo, poderia provocar lesão no local. A equipe médica ainda imporia ao presidente uma sétima cirurgia, três dias depois, com o objetivo de "exploração e limpeza da cavidade abdominal", ao final da qual foi constatado o esgotamento das possibilidades de preservar a vida de Tancredo. Pela primeira vez o porta-voz presidencial, jornalista Antônio Brito, falou em agravamento do quadro. Os médicos consideravam que todos os recursos existentes já haviam sido empregados, mas a resistência física do presidente, desde então mantido sob sedativos e com o auxílio de máquinas substituindo os pulmões e os rins, vez por outra surpreendia as pessoas diretamente envolvidas no drama, revitalizando os ânimos abatidos e fazendo renascer expectativas amortecidas.
A partir de 15 de abril, no entanto, o meio político começou a tomar as primeiras providências com o objetivo de sustentar a permanência da transição democrática no caso da morte de Tancredo. Encontros entre Ulisses, Sarney e líderes do PFL passaram a se suceder com freqüência, enquanto a imprensa internacional destacava em seus comentários ser o momento uma prova para a consolidação das mudanças geradas pela finalização do ciclo de dominação militar.
Não obstante os esforços da equipe médica, tornou-se impossível controlar tanto o edema resultante da inflamação entre as artérias e os alvéolos pulmonares quanto a proliferação dos focos infecciosos que não cediam à pressão dos antibióticos. O organismo de Tancredo não esboçava quaisquer sintomas de reativação. Como recurso final foi chamado ao Brasil o especialista norte-americano Warren Mayron Zapol, que no dia 20 de abril deu o seu diagnóstico definitivo: não havia mais o que fazer para salvar a vida do presidente.
Na noite de 21 de abril, dia consagrado à descoberta do Brasil, ao martírio de Tiradentes e à transferência da capital para Brasília, Tancredo Neves faleceu, depois de cumprir um calvário de 34 dias. Após ser embalsamado, seu corpo foi velado por toda a madrugada na capela do Instituto do Coração, na presença de parentes e amigos. Na manhã do dia seguinte, atendendo à solicitação do senador José Fragel-li, o Congresso se reuniu extraordinariamente para anunciar a vacância do cargo e o seu preenchimento automático pelo vice-presidente José Sarney. Em pronunciamento em cadeia de rádio e televisão, Sarney decretou feriado nacional e luto oficial por oito dias e garantiu que o seu programa seria o mesmo de Tancredo.
Ainda na manhã do dia 22, após a missa de corpo presente celebrada por dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo metropolitano de São Paulo, no Instituto do Coração, o esquife presidencial, sobre um carro do corpo de bombeiros e coberto pela bandeira nacional, saiu em direção ao aeroporto de Congonhas, rumo a Brasília, acompanhado por dois milhões de pessoas. No caminho, no obelisco do Parque do Ibirapue-ra, o presidente eleito recebeu homenagem oficial do governo de São Paulo, do prefeito Má-rio Covas, do comando do II Exército e demais autoridades militares. Como homengem póstuma a Tancredo, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo determinou a suspensão da greve da categoria em curso. Ao longo de todo o trajeto pendiam das janelas das casas bandeiras brasileiras com tarjas negras.
Na capital da República, após um cortejo fúnebre que durou quatro horas, seguido por imensa multidão, o corpo de Tancredo foi velado e exposto à visitação pública no palácio do Planalto, onde o arcebispo da cidade, dom José Freire Falcão, oficiou outra missa de corpo presente.
No dia 23 o corpo de Tancredo Neves chegou ao aeroporto de Pampulha, em Belo Horizonte, para receber no palácio da Liberdade as homenagens de uma multidão calculada em torno de 1,8 milhão de pessoas. As cenas registradas na capital mineira foram impressionantes. Tumultos na praça da Liberdade, provocados pela ansiedade popular em romper os cordões de isolamento, resultaram em quatro mortos e 271 feridos.
Finalmente, no dia seguinte, 24 de abril, na presença de 50 mil pessoas, incluindo cinco presidentes estrangeiros e representantes de governos de vários países, Tancredo Neves foi enterrado com honras militares no cemitério da Igreja de São Francisco, em São João del Rei, sua terra natal. Homem profundamente religioso, Tancredo era ministro vitalício-jubilado da venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, na qual ingressou aos 16 anos. No cemitério discursaram o presidente José Sarney e o deputado Ulisses Guimarães. O presidente da Câmara emocionou os presentes ao afirmar: "Tancredo Neves, você foi duas vezes mais do que eleito, plebiscitado. Vivo, plebiscitado pela esperança para governar esta grande nação. Morto, plebiscitado pelas lágrimas, pelas preces, pela amargura e pelo pranto dos governantes que restaram neste grande país." O discurso de Sarney foi condensado na frase: "Seu sonho será o nosso sonho".
Quase um ano após a morte de Tancredo, as divergências verificadas entre os membros da equipe médica que assistiu o presidente, e que teriam influído na orientação do tratamento aplicado, voltaram a ocupar espaço nos órgãos de comunicação com a decisão do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal de submeter a julgamento ético os responsáveis pelas sete cirurgias efetuadas.
Além de reportagens que escreveu na juventude para o jornal Estado de Minas e O Correio, diário de São João del Rei, Tancredo foi autor de "O regime parlamentar e a realidade brasileira", publicado na Revista Brasileira de Estudos Políticos (Belo Horizonte, UFMG, 1962), O panorama mundial e a segurança nacional (Rio de Janeiro, ESG, 1962), e de numerosos discursos e pareceres publicados em jornais, revistas e anais parlamentares. Em 24 de fevereiro de 1983 tomou posse, sucedendo a Alberto Deodato, na cadeira nº 12 da Academia Mineira de Letras, patrocinada por Alvarenga Peixoto.
Sobre a vida de Tancredo Neves foram produzidos o filme de longa-metragem A céu aberto, de João Batista de Andrade, e a biografia Tancredo Neves - a trajetória de um liberal (1985), escrita por sua sobrinha Lucília de Almeida Neves Delgado e Vera Alice Cardoso a partir de depoimento dado pelo tio.
Tancredo Neves era casado com Risoleta Tolentino Neves, com quem teve três filhos. Sua filha Inês Maria foi casada com Aécio Cunha, deputado federal por Minas entre 1963 e 1967 e membro, sucessivamente, do Partido Republicano, da Arena e do PDS. Seu neto Aécio Neves foi constituinte em 1987 e 1988 e deputado federal por Minas desde 1987. Seu sobrinho Francisco Osvaldo Neves Dornelles foi ministro da Fazenda do governo de José Sarney em 1985, constituinte em 1987-1988. Exercendo mandato de deputado federal pelo Rio de Janeiro desde 1987, ao longo desses anos foi também ministro da Indústria e Comércio entre 1996 e 1998 e ministro do Trabalho e Emprego a partir de 1999.
O arquivo de Tancredo Neves encontra-se depositado no Cpdoc da Fundação Getulio Vargas.
Fonte: www.cpdoc.fgv.br

TANCREDO NEVES
Tancredo de Almeida Neves (São João del-Rei, 4 de março de 1910 — São Paulo, 21 de abril de 1985) foi um político brasileiro. Foi eleito presidente do Brasil por um colégio eleitoral em 1985, mas não chegou a tomar posse no cargo.
Tancredo Neves, formou-se em Direito, tendo exercido o cargo de promotor-público, foi casado com Risoleta Guimarães Tolentino, com quem teve três filhos. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra.
Aécio Neves, governador de Minas Gerais eleito em 2002, é seu neto.
Iniciou a carreira política em 1933, ao filiar-se ao Partido Progressista; em 1934, foi eleito vereador e prefeito interino em São João del-Rei.
Em 10 de novembro de 1937 presidia a câmara municipal de São João del-Rei quando Getúlio Vargas fechou o poder legislativo do Brasil.
Durante o Estado Novo foi preso duas vezes, em (1937 e 1939). Com o fim do Estado Novo voltou à política, eleito deputado estadual em 1947, deputado federal em 1950 e 1953, sempre pelo PSD mineiro.
Durante o governo constitucional de Getúlio Vargas foi Ministro da Justiça e Negócios Interiores.
No governo de Juscelino Kubitschek foi presidente do Banco do Brasil.
Em 1960 foi derrotado por Magalhães Pinto quando se candidatou ao governo de Minas Gerais.
Após a renúncia do presidente Jânio Quadros, articulou uma solução de compromisso com a instalação do parlamentarismo (1961), evitando que João Goulart fosse impedido de assumir a presidência por golpe militar. Foi primeiro-ministro, cargo em que exerceu por dez meses.
Voltou à Câmara dos Deputados em 1963, lá permanecendo até 1979.
Apoiou o Governo de João Goulart até o final em março de 1964. Fez oposição à Revolução de 1964 desde seu início e foi um dos fundadores do Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
Em 1978 foi eleito senador, e, a seguir, Governador do Estado de Minas Gerais, eleito por voto direto em 15 de novembro de 1982.
Com o fim de ARENA e MDB, Dr. Tancredo fundou, junto com Magalhães Pinto, o Partido Popular (PP), de curta duração, em 1981 e ingressou no novo PMDB.
Em 1984 participu do movimento das diretas-já que visava reestabelecer eleições diretas para a presidência da república.
Derrotada a emenda das diretas-já, torna-se candidato do PMDB à presidência da república, pelo colégio eleitoral.
Tancredo Neves foi indicado por uma coligação de partidos, com apoio de Ulysses Guimarães (a figura mais importante no período de redemocratização do país). Tendo como candidato a vice na mesma chapa José Sarney, venceu o pleito em 15 de janeiro de 1985, por 480 votos contra 180 de Paulo Maluf.
A articulação que elegeu a dupla Tancredo e Sarney é tida ainda hoje como uma das mais complexas e bem-sucedidas na história política do país.
Conta-se que Tancredo vinha silenciosamente trabalhando pela sua candidatura desde 1983. No ano seguinte, com a derrota da emenda das Diretas Já, rejeitada pelo Congresso Nacional, ele foi granjeando simpatias.
Convenceu Ulysses Guimarães a não concorrer no Colégio Eleitoral, conquistou o apoio de Antônio Carlos Magalhães e montou a Aliança Democrática, que possibilitou a união do PMDB com dissidentes do PDS (sucessor da Arena) e deu corpo ao PFL. Com Sarney como vice, derrotou Paulo Maluf na última eleição indireta do país.
Tancredo havia se submetido a uma agenda de campanha bastante extenuante e vinha sofrendo fortes dores no estômago, durante os dias que antecederam a posse. Aconselhado por médicos a procurar tratamento, teria dito: Façam de mim o que quiserem - depois da posse. Tancredo temia que os militares mais reacionários se recusassem a passar o poder ao vice-presidente. Porém, a sua saúde não resistiu e, na véspera da posse (14 de março de 1985), foi internado em Brasília com fortes dores abdominais.
José Sarney assumiu a presidência aguardando o reestabelecimento de Tancredo, que a partir de então, já em São Paulo, sofreu sete cirurgias. No entanto, em 21 de abril (na mesma data e hora da morte do mártir nacional Tiradentes), os aparelhos de circulação e respiração artificial que o mantinham em estado vegetativo são desligados e Tancredo falece vítima de infecção generalizada, aos 75 anos. A morte de Tancredo foi anunciada pelo seu porta-voz, Antônio Britto.
Houve grande comoção nacional, especialmente por que Tancredo Neves seria o primeiro presidente civil após o Golpe de 1964. O Brasil, que acompanhara tenso e comovido a agonia do político mineiro, promoveu um dos maiores funerais da história nacional. Calculou-se na época que, entre São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e São João del-Rei, mais de dois milhões de pessoas viram passar o esquife. Coração de Estudante, uma música do cantor mineiro Milton Nascimento, marcou o episódio na memória nacional.
O epitáfio que o presidente eleito previra certa vez numa roda de amigos, em conversa no Senado, não chegou a ser gravado na lápide, em São João del-Rei: Aqui jaz, muito a contragosto, Tancredo de Almeida Neves.
Vinte anos após, o corpo médico revelou que não divulgou o laudo correto da doença à época, que não teria sido diverticulite porém um tumor. Embora benigno o anúncio de um tumor poderia ser interpretado como câncer, causando efeitos imprevisíveis no andamento político no momento.
Em seu lugar, assumiu a presidência da República seu vice José Sarney, encerrando o período de governos militares, apelidado Anos de chumbo, iniciado com o Golpe de 1964.
Mesmo sem nunca ter tomado posse, Tancredo Neves é, por força de lei, elencado entre os ex-presidentes do Brasil. Pela lei 7.465 de 21 de Abril de 1986, o cidadão Tancredo de Almeida Neves, eleito e não empossado, por motivo de seu falecimento, figurará na galeria dos que foram ungidos pela Nação brasileira para a Suprema Magistratura, para todos os efeitos legais.
Fonte: pt.wikipedia.org