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Angústia

Graciliano Ramos

Agarrava-me ao livro, compreendia vagamente o que , estava escrito, mas ficava-me a certeza de que havia ali vários trabalhos, feitos por muitos indivíduos. Chineses.

Uns chineses brigões, revoltados. Lembrava-me dos chi- neses que lavam roupa, fabricam ventarolas, vendem ' bagatelas, juntam-se às caboclas. Muitos livros arruma- dos, formando um livro incompreensivel. Fernando In- guitaf andava pela Rua do Comércio, o braço carregado de voltas de contas, o cigarro babado no beiço que se arregaçava, descobrindo os dentes enormes num sorriso parado. O som da vitrola ia quase desaparecendo, a la- gartixa subia a parede. Amaro vaqueiro, agitando o laço, mastigava o cigarro de palha e mostrava os dentes pretos num sorriso parado. A cadeira suja de poeira, a mala suja de poeira. A roupa havia desaparecido.

Seria bom levantar-me, procurar qualquer coisa para ¡ me vestir. Pouco tempo antes a roupa estava ali, no ! encosto da cadeira e em cima da mala. De repente um sumiço. Quem me tinha dito aquele nome estranho? ; Fernando Inguitai, a lagartixa, a réstia, Amaro va- queiro. A vitrola cantava baixinho: - "Fernando In- guitai." Tentava sentar-me. Se isto me fosse poss.ível, procuraria roupa. Virava-me com dificuldade. Porque nâo entrava logo a pessoa que estava na sala? - "Obri- gado, Vitória. Não quero comer. Traga um copo de água." Vitória afastava-se arrastando os pés, levando a bandeja com a comida que me dava engulhos. Minutos depois, lá vinha, chap, chap, resmungando, a cara fe- chada, e entreava-me o copo. Eu bebia, molhando as cobertas. - "Obrigado, Rosenda." Ficava suando e ar- quejando, a vista escurecia, estirava-me na prensa de farinha, junto ao muro. O barulho do descaroçador de algodâo nâo me deixava dormir, os passos de Vitória morriam no corredor. Meu pai estava deitado, muito comprido, envolto num pano que se dobrava entre as pernas e tinha no lugar da cara uma nódoa vermelha cheia de moscas. As moscas não se mexiam, mas faziam um zumbido horrivel de carapanã.s. O olho de vidro de padre Iná.cio estava parado, suspenso no ar, fora do corpo. A batina de padre Inácio, o capote do velho ' Acrfsio, a farda de cabo José da Luz e o vestido ver- f ¡ melho de Rosenda estavam parados, suspensos no ar, 221 sem corpos. As carapanâs zumbiam. Os pés de Camilo Pereira da Silva, escuros, ossudos, safam por uma das pontas do marquesão, medonhos Eu atravessava o cor- redor, ia à sala, voltava a deitar-me na prensa, abria o livro que tinha chineses revolta,rlns. Mas as pálpebras a cerravam-se, as carapanãs e o descaroçador enchiam-me a cabeça. Que motivo tinha Fernando Inguitai para rir-se? Empurrava os travesseiros e tentava abrir os olhos. Se pudesse levantar-me, tudo aquilo desapare- ceria. Iria conversar com o homem que me esperava na sala. - "Não há chinês chamado Fernando." Onde ' tinha ouvido aquele nome de Inguftaf? Se Vitória me trouxesse um copo de água. .. Ali com sede, morrendo, sem um diabo que me desse uma xicara de café, um copo de água! Embalava-me com isto: - "Sozinho, sozinho, morrendo à mingua, com sede." Era bom que todos estivessem longe. O continuo da repartição, tão magro, tão velho, tão triste, movia-se trôpego. D. Ad- lia dançara como carrapeta, e agora era aquilo que se vfa, mole, acabada, uma lástima. Albertina de tal, par- teira diplomada. Quando eu entrava na repartição, apressado e fora da hora, o contínuo velho tinha um sorriso doce e alguma informação útil. Os meus olhos abriam-se, fechavam-se, tornavam a abrir-se. Os caibros engrossavam, torciam-se, alvacentos e repugnantes como cobras descascadas. "Greve no caso de reação." Alguns letreiros estavam raspados, outros desapareciam sob as manchas que as águas da chuva tinham produzido. Mas havia letreiros novos. As crianças das escolas olhavam ara eles. O homem cabeludo que vendia aguardente pó cuidava da sua vida. Albertina de tal, parteira diplo- mada. Onde estava a minha roupa? Queria vestir-me, sair pela rua, ler os jornais. Que diziam os jornais? Subir o morro do Farol, entrar nas bodegas, beber ca- chaça. Seu Ivo me visitara, acocorara-se junto à parede.

- "Leve a roupa, seu Ivo." Seu Ivo tinha vestido a calça rasgada e o paletó sujo. Talvez nâo tivesse ves- tido aquela imundfcie, talvez fosse tudo um sonho. Um homem na sala esperava com paciência que me restabe- lecesse. Sair, entrar no café, viajar nos bondes. Onde estava a minha roupa? A cadeira perto da cama, o livro fechado sobre a palha. - "Leve isso daf, seu Ivo.

222 i I A calça está rasgada. Cosa o rasgão com uma corda." Albertina de tal, parteira diplomada. Escuridão. Um estremecimento, uma queda. Ia cair da cama, o chão se abriria, eu rolaria pelos séculos dos séculos fora disto. O espfrito de Deus boiava sobre as águas. Livra- va-me do susto, pouco a pouco ia resvalando no entor- pecimento. Os caibros faziam voltas, as telhas se equf- libravam por milagre. Algumas dobras daquelas coisas brancas e moles desciam, aproximavam-se da minha boca, davarrx-me náuseas. A vitrola dizia: - "Fernando Inguitai." Os reisados cantavam defronte da casa de seu Batista. Os mateus gritavam: - "Abra a porta, ioiô." E as figuras todas: "Aqui estou na vossa porta como um feixinho de lenha." Seu Batista não abria: espe- rava a cantiga que fazia as janelas se escancararem.

E as figuras, o embaixador, o rei, a burrinha, os ma- teus, ficavam na calçada como um feixinho de lenha, fedendo a suor, gemendo os versos, até que seu Batista, importante, abria a sala, surgia vistoso, baixinho, ves- tido em rcbe-de-chambre. O feixinho de lenha entrava e cantava, seu Batista recolhia os capacetes dos ma- teus, a coroa do rei, a espada do errbaixador, os lenços das figuras, punha uns níqueis em tudo isso. O zumbido das carapanãs era insuportável. - "Um copo de âgua, Vitória." Vitória não ouvia, e a leseira recomeçava. Não havia escuridão, a réstia subia a parede. - "Leve a roupa, seu Ivo." Seu Ivo se acocorara a um canto, silencioso, babando-se. Pimentel não aparecia. Devia ter aparecido, mas nâo me lembrava dele. Com certeza vie- ra num momento em que a febre era muito forte. Que doidices teria eu dito na presença de Pimentel? Um, dois, um, dois. Marchava - e não podia levantar-me da cama. Quatro paredes. As quatro paredes da re- partiçâo esmagavam-me. Algumas horas depois da fun- ção, o feixinho de lenha, composto de mateus, figuras, burrinha, rei, embaixador, suaria arrastando a enxada no eito. - "Parem essa vitrola." Fernando Inguitai, o braço carregado de voltas de contas, andava pela Rua do Comércio, fumando, sorrindo. Haveria alguém neste mundo que se chamasse Inguitai? As cascavéis e as jararacas tomavam banho com a gente no poço da Pedra. Uma delas se enroscara no pescoço de meu avô.

223 Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva sapar teava no chão de terra batida, uma alpercata salta- va-lhe do pé. Instituto Iistórico e C+eográfico do Espí- rito Santo, Instituto I4istórico e Cleográfico do Rio Gfrande do Sul. Ria-me como um idiota. Provavelmente havia institutos históricos e geográficos por esses lu- gares. Certas pessoas empurravam outras nas escadas e diziam: - "Desculpe:' O cego dos bilhetes de loteria cantava o número, batendo cam o cajado no cimento do café. Virava-me para o espelho. Por detrás das letras brancas, rostos medonhos arreganhavam os dentes e piscavam os olhos. As letra,s torciam-se, os caibros tor- ciam-se, baixavam, brancos, moles, como cobras descas- cadas, 1e.384. O cajado batendo no cimento, avançando , para mim, ameaçando-me com uma tira de papel, que ? engrossava e queria morder-me. Moisés aproximava-se, ' comprava a tira de papel, que se enrolava nos dedoa dele, e lia em voz alta uma infinidade de vezes: - "16.384." Eu ia fugir, mas Fernando Inguitai estava na calçada, esperando-me para vender uma volta de contas.

- "Vai-te embora, Moisés." Não queria voltas de con- tas nem queria ouvir a leitura daquele número. Não era número: eram palavras incompreensiveis, histórias da China. Moisés virava a página, que ficava mexen- do-se. A cadeira mexia-se. Afastava-me, com medo da cadeira. No dia seguinte, quando viesse varrer o quarto, , Vitória a poria no lugar do costume, junto à mala, mas durante uma noite inteira o móvel caprichoso não me deixaria descansar. Eu tremia e receava que Moisés se losse embora. Voltaria o silêncio, a cadeira se chegara mais à cama. - "Continue, Moisés. E isso mesmo." Não o entendia, mas aprovava-o com a cabeça e com pala- vras assim. A voz rolava, lenta e monótona, o dedo comprido virava a página e gesticulava diante da mi nha cara. Passavam chineses armados. E o dedo enro, la,va-se, dava um nó. A leitura era um zumbido, un enxae de carapanãs lia o livro dificil. Estava a ba lançar-se numa rede, ia acima e vinha abaixo. E quan- do subia, abria os olhos, via o dedo perto das minhas ventas; quando descia, ouvia o arranhar da vitrola. Os ratos do armário dos livros roiam o disco da vitrola, e a vitrola dizia baixinho: - "Fernando Inguitai." 224 i A réstia sumia-se, Moisés levantava-se, puxa.va a cor rentinha da lâmpada, tornava a sentar-se. - "Obrigar do, Moisés." Ali perdendo tempo, lendo para me distrair.

Excelente camarada. - 'E preciso que dr. Ciouveia man de limpar estas paredes." Cafa em mim, arrepen- dia-me de ter falado. Certamente as paredes necessita vam limpeza, zangar-me-fa se alguém me dissesse que não, mas a necessidade exigia explicação, e não me poderia fazer compreender. Ao mesmo tempo temia que o judeu mangasse de mim por eu haver interrompido a leitura com uma frase besta tamos discutir. fteceava encolerizar-me e ser grosseiro com um visitante. Se ele concordasse comigo, seria por eu estar doente. Não me conformava com isto. Preciso da condescendência dos outros? Sou alguma criança? Porque tinha ele suspen- dido a leitura e esbugalhava para mim aqueles olhos de mal-assombrado? Seria melhor destampar logo e de clarar francamente que as paredes não necessitavam limpeza. De qualquer modo seria fácil um rompimento entre nós. Cada qual para o seu lado, cada qual com as suas idéias. Moisés levantava-se, despedia-se. Eu es- condia as mãos nas cobertas, enrolava o pano debaixo do queixo e tremia, pedia-lhe com os olhos que não me deixasse só entre aquelas paredes horrfveis. Agora Moisés me havia abandonado, e eu batia os dentes como um caititu. As paredes cobriam-se de letreiros incendiá- rios, de lágrimas pretas de piche. As letras moviam-se deixavam espaços que eram preenchidos. Estava ali um tipógrafo emendando composição. E o piche corria, der- ramava-se no tijolo. Ameaças de greves, pedaços da Internacional. Um, dois... Impossivel contar a,s legen- das subversivas. Havia umas enormes, que iam de um ao outro lado do quarto; uma,z pequeninas, que se tor- ciam como cobras, arregadavam os olhinhos de cobras mostravam a lingua e chocalhavam a cauda. As letras tinham cara de gente e arregaçavam os beiços com fero- cidade. A mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas agitavam-se na parede como borboletas espetadas e formavam letreiros com outras pessoas que lavavam garrafas, enchiam dornas e faziam coisas dife- rentes. A datilógrafa dos olhos agateados tossia, as filhas de Lobisomem encolhiam-se por detrás das ou- 225 tras letras, AntBnia arrastava as pernas grossas cober tas de marcas de feridas, a mulher da Rua da Lama ''' cruzava as mãos sobre o joelho magro e curvava-se para esconder as pelancas da barriga escura. Um choro longo subia e descia: - "Que será de mim? Valha-me Nossa Senhora." Um moleque morria devagar, mutila.

do, porque havia arrancado os tampos da filha do patrão. Fazia um gorgolejo medonho e vertia piche das chagas. 16.384. O cego dos bilhetes batia com o cajado , na parede. - "Afastem esta cadeira." Seu Ivo estava de cócoras, misturado às outras letras. A calça rasgada ' e o paletó sujo eram cor de piche. Cirilo de Engrácia, carregado de cartucheiras e punhais, encostava-se a uma árvore, amarrado, os cabelos cobrindo o rosto, os pés com os dedos para baixo. A sentinela cochilava no por- tão do palácio. Um ventre enorme crescia na parede , uma criatura mal vestida passava arrastando a filha ,; pequena, um brilho de ódio no olho único. Sinha Terta gemia: - "Minha santa Margarida.. " O dono da bo- dega, triste, fincava os cotovelos no. balcão engordu- rado. As crianças faziam voltas em redor da barca de terra e varas. A rapariga pintada de vermelho espalhava um cheiro esquisito. O engraxate escutava histórias de capueiras. O homem acaboclado cruzava os braços, moa- trando bfceps enormes. O mendigo estirava a perna entrapada e ensangüentada. As mosc:.s dormiam, e o mendigo, com a muleta esquecida, bebia cachaça e ria.

Passos na calçada. Quem ia entrar? Quem tinha negó- cio comigo àquela hora? Necessário Vitória fechar as portas e despedir o hóspede incômodo que não se arre- dava da sala. Mas Vitória contava moedas, na parede, resmungava a entrada e a saída dos navios. A placa azul de d. Albertina escondia-se a um canto, suja de piche.

Todo aquele pessoal entendia-se perfeitamente. O ho- mem cabeludo que só cuidava da sua vida, a mulher que trazia uma garrafa pendurada ao dedo por um cordão, Rosenda, cabo José da Luz, Amaro vaqueiro, as figuras do reisado, um vagabundo que dormia nos bancos dos jardins, outro vagabundo que dormia de- baixo das árvores, tudo estava na parede, fazendo um zumbido de carapanãs, um burburinho que ia crescendo e se transformava em grande clamor. José Baía acenar 226 varme de longe, sorrindo, mostrando as gengivas ba guelas e agitando os cabelos brancos. - "José Bafa, meu irmão, estás também aí?" José Baía, tr8pego, rom pia a archa. Um, dois, um, dois. . A multidão que fervilhava na parede acompanhava José Baía e vinha deitar se na minha cama. Quitéria, sfnha Terta, o cego dos bilhetes, o contínuo da repartição, os cangaceiros e os vagabundos, vinham deitar-se na minha c,ama.

Cfrilo de Engrácia, esticado, amarrado, marchando nas pontas dos pés mortos que não tocavam o châo, vinha deitar-se na minha cama. Fernando Inguitai, com o braço carregado de voltas de contas, vinha deitar se na minha cama. As riscas de piche cruzavam-se, forma- vam grades. - "José Baia, meu irmão, há que tempo!" As crianças corriam em torno da barca. - "José Baía,, meu irmão, estamos tão velhos! " Acomodavam-se todos.

16.384. Um colchâo de paina. Milhares de figurinhas insignificantes. Eu era uma figurinha insignificante e mexia-me com cuidado gara não molestar as outras.

16.384. famos descansar. Um colchão de pain& . s 22? T Visão de Graciliano Ramos oTTo cBux A mestrio singular do romancista Graciliano Ramo,t reside no seu estilo. Para salvar esta frase da apreciação como "lugar-comum" í preciso definir o que é estilo: escolha de palavras, escolha de construções sintáticas, escolha de rit- mos dos fatos, escolha dos próprios fatos, para conseguir uma composição perfeitamente pessoal: pessoal, no caso, "d ma neira de Graciliano Ramos". Estilo í escolha entre o que deve f icar na página escrita e o que deve ser omitido; entre o que deve perecer e o que deve sobrevlver. Vamos ver o que Graciliano Ramos escolhe.

B muito meticuloso. Quer eliminar tudo o que não á essencial, as descrições pitorescas, o lugar-comum das frases- feitas, a eloqüência tendenciosa. Seria capaz de eliminar ain- da páginas lnteiras, capttulos inteiros, eliminar os seus roman- ce inteiros, eliminar o próprio mundo: para guardar apenaJ aquilo que é essencial, isto í, conforme o conceito de Bene- detto Croce, o elemento "lfrico". O lirismo de Graciliano Ramos, porém, í bem estranho. Não tem nada de musical, nada do desejo de dissolver em canto o mundo das coisas; acredito-o incapaz de escrever o última página de Moleque Ricardo, de losí Lins do Rógo, talvez a mais comovente página de prosa da literatura brasileira. O lirismo de Graci liano Ramos é amusical, adinâmico; í estático, sóbrio, clbssi- co, classicista, traindo d,i vezes, num oculto passado parna- siano do escritor. Não quer dissolver o mundo agitado, quer fixá-lo, estabilizá-lo. Elimina implacavelmente tudo o qus não se presta a tal obra de escultor, dissolve.o em ridicula- rias, para dar lugar aos seus monumentos de baixeur.

Com efeito, o material desse classicista á bem estranho: é o mundo in f erior; às maiJ das vezes, o mundo inf ernal. Lá, 231 as almas são caçadas por um turbilhão demoníaco de angüs- tias, como as almas no átrio do Inferno de Dante: "Quivi sospiri, pianti ed altl guai Risonavan per !'aer senza stelle...

Diverse lingue, orribili /avelle Parole di dolore, accenli d'iro...

uma fortuna sem fim; o próprio Dante apiedou-se dos que . nor hanno speranzn di morte, E ta lor creca vita é tanto bo.ssa, Che invidiosi son d'agni altra sorle." São aqueles dos quais o romancista Graciliano RamoJ também se apieda: pois esse homem aparentemente tão duro está cheio de misericórdia. Procura-Ihes a "altra sorte", esta- bilizando, classicamente, o turbilhão, eliminarulo tudo o que não é essencial; erigindo-os em monumentos dt baixeza, como criaturas petrijicodas dum maligno Demiurgo, restos fósJeiJ duma criação malograda, redimidos, enfim, pela criação mor- tífera da arte. Graciliano Ramos é o clássico deste mundo da mortc.

E' um clássico. Mas - contradição enigmática - é urn clbssico experimentedor. A estréia excepcionalmente tardia, com mais de quarenta anos de idade, deve ter sido precedida de vagarosos preparativos dum experimentador; e mesmo depois continuou sempre experimentado. O nosso amigo co- mum Aurélio Buarque de Holanda chamou-me a atenção para a circunstância de representar cada uma das obras de Graciliano Ramos um tipo dijerente de romance. Com ejeito: Caetés é dum Eça brasileiro; São Bernardo tem algo de um Balzac rural; Angústia antecipa o "nouveau roman" e Vidas Secas lembra certos contistas russos, Babel por exemplo. Gra- ciliano Ramos faz experimentos com a sua arte; mas como esse mestre singular não precisa disso, temos af um indício certo de que está buscando a solução dum problema vital.

Eu não disse nada para comparar. Comparações são fáceis e inúteis, produzem apenas apreciações de clichã. Não chegam a penetrar no coração da criação pessoal; e justamen- te isto é a minha mui modesta ambição. Para tentá-lo, vou 232 escolher um processo estranho, estranho como o meu assun- to. Vou construir uma teoria para apanhar a minha víüma, vou construí-la de pedaços de outras criações, alheias, com as quai:: Graciliano Ramos não tem nada que ver, vou colher esses pedaços, entregando-me ao jogo livre das associações.

"Gastei meses construindo esta Marina que vive dentro de mim, que é di f erente da outra, mas que se con f unde com ela." Vou construir o meu Graciliano Ramos.

"Meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palhas de milho para cigarros, lendo o Car- los Magno, sonhando... ' Logo me lembro do pintor incom- parável da vida estática, imóvel, inconsciente, nos "engenhos" escravocratas da Rússia tzarista, daquele Gontcharov de quem me Iembrei quando já Ii comparações do Brasil escravocrata com a Rússia servil. Os romances de Gontcharov pintam classicamente um mundo primitivo, amoral, "a-trabalhador", preguiçoso demais para trabalhar, amar, viver. Parecem idí- lios de pura "art pour 1'art"; são acusações terríveis contra o regime, contra o Estado russo, que quis rnovimentar esse mundo imóvel por pretensas reformas econ6micas e sociais.

O primeiro romance de Gontcharov chama-se: Uma História Simples; o último: A Queda.

O satírico malicioso dagueles movimentos é outro russo que me ocorre, Saltykov-Chtchedrin, também partidário da imoóifidade conservadora, contra os experimentos liberais dos tzares de então, e gue a todos pareceu um revolucionário, menos à censura, d qual e1e sabia enganar pela sua mestria singular de estilista. Saltykov escreveu uma maravilhosa His- tória da Rússia, romanceada, começando com a chamada, pelo povo russo, dos três irmãos Ruriks, fundadores da dincts- tia, para "sistematizar e codificar a desordem e a violência".

À boa maneira das epopéias, os irmãos sonham, na noite ante- rior d coroação, a futura história russa, e o sonho é tão ter- rfvel que dois dos irmãos logo se suicidam. Ao terceiro, po- rém, diz o povo: "Que te Importam as mentiras que os nossos descendentes vão aprender na escola?" E ele funda o império russo, "o maior império da história, maior do que Roma; pois em Roma brilhava o paganismo, e entre nós brilha do mesmo mvdo o cristianismo; em Roma raivava a plebe, e entre ru5s raiavam do mesmo modo as autoridades". Assim, tudo ficava bem. Até que, um dia, um tzar teve a idéia desgraçadca de 233 reformar o Bstado e a civilização. Fundou uma Academia de Letras e promulgou uma legislação social, em virtude da qual "foi proibido cozer pão de cimento ou argamassa". O povo, agradecido, povoou a cidade de monumentos dos seus prfncipes, na esperança de fazer petrificar, parar, assim, as atividades deles. Mas, pelos beneffcios do governo, os homens transformaram-se em lobos famintos, como numa fábula de Saltykov, O Pobre Lobo, o monstro que não é maligno, mas que não pode viver sem carne e que, por isso, deve matar, e invoca a morte salvadora para as vftimas e para si mesmo.

O monstro lembrcme, por sua vez, o terrfvel Leviatã, de lulien Green, que vive no coração de inofensivos mestres- escolas, filhas de famflia, rendeiros abastados, para revol- tar-se de súbito, um dia, arremessar-se insaciavelmente, o monstro, por quartos de assassínios, escadas funestas, becos escuros, até descansar, esgotado, à margem do rio noturno, que corre lento, sujo, pela cidade, único resto da paisagem primitiva que existia antes desse mundo artificial e miserável de instituições públicas, jornais públicos, mulheres públicas, e que ainda existirá quando tudo isto houver acabado. E o monstro desgraçado curva-se nostalgicamente sobre a água escura, suja, que Ihe oferece a última possibilidade de salva- ção: o próprio rosto, refletido lá no fundo, é o da moste.

Todos os personagens de Graciliano Ramos são tais monstros, revoltedos, caçados, nostálgicos da morte, com os quais o Demiurgo. o "presidente dos imorta.'s", brinca. A ex- pressão "the president of the immortats" é de Thomas Har- dy, intelectual pequeno-burguês, perdido no "sertão" inglês de Wessex, a paisagem mais agrária, mais atrasada, mais pri- mitiva da Inglaterra, onde se passam todos os seus romances, t para onde o velho Hardy enfim se retirou, a viver a vida arcaica e imóvel dos rochedos e pdntanos, abandonando, enfim, o romance para fazer só os seus pequenos poemas endurecidos como monumentos pré-históricos, e cujas rimas jielmente tradicionais anunciam a reconciliação resignada do poeta com o mundo morto: 'Btaek lJ ntght's eope; But death xrill not appat One who, past dgubtingJ all.

Waita !n tmhopr.' O crftico espanhol losé Bergamin gostaria dessas assv- ciações. Confirmam a sua teoria do romance: o leitor perde- se no romance para esquecer o seu mundo, mas reeneontra-se Iá, reconhecendo que o seu próprio mundo está chamado a desaparecer: "Perderse para encontrarse, para perderse." O romance seria um processo de economia mental para apressar o fim do mundo: "Cada novela es la manifestación de um mundo llamado a desaparecer, y que antes de desaparecer quiere aparecer, comparecer: y aparece, comparece em efecto, solicitando, esperando ser juzgado." B a teoria dum espanhol, dum cristão, dum pessimista.

A teoria dum espanhol, isto é, dum homem que toma radi- calmente a sério o cristianismo. A teoria dum cristão, isto é, dum homem que sabe que esta vida não presta. ,É uma teoria de estética pessimista.

Toda literaturcr pessimista eneontra uma resistência faná- tica; Ieitores e críticos não gostam disso. Sentem vagamente que arte e pessimismo se contradizem. Mas em vez de estu- darem esteticamente a possível contradição, entrincheiram-s em regires fora da arte, nn filosofia, na ética, para bombar- dear o romancista com as censuras de "pouca generosidade" ou de nülismo ïnsaudável. Não admito preconceitos. O pes- simismo não é uma moral nem uma filosofia. um estado de crlma. B preciso esboçar uma psicologia do pessimismo.

Penso em Schopenhauer. Não é um sistema filosófico.

L um caso psicológico. Pretendeu ser filósofo, ensinar uma filosofia da salvaão do mundo do sofrimento universal. Mas a sua personalidade o desmentiu. Ao desprezo filosófico do mundo uniu um instinto ardente de propriedade e de prazer.

Dinheiro e mulheres signi ficavam-!he al,quma coisa. Quis uti- lizar os homens profundamente desdenhados como meros ins- trumentos dos seus desejos, e quanto mais eles se recusaram, tanto mais os desdenhou. Sofria de hipocondria, de graves ata- ques de pavor noturno, de angústia. Teve uma misericórdia ilimitada para consi,go mesmo. Como psicólogo, reconheceu que toda misericórdia para com outros é secreta miscricórdia para consigo mesmo: e salvou-se moralmente pela ide.ntifica- ão pantefsta do seu eu angustiado com o mundo sof redor, pela fórmula budista: "Tat twam asi", "Isto, és tu". O seu supremo egocentrismo chegou até a negar a realidade do mun- do exterior; considerou a vida um sonho, sonho horrfvel do qual existe apencu uma possibilidade de acordar: em outro 235 conho, na arte. Na arte, o turóilhão angustiado encontra a calma; a estabilidade do estado primitivo antes da criação é restabelecida. (Como as palavras rimarn, enjim.) A arte é uma astúcia do espírito humano, para f raudar o mau Demiur- go das suas vítimas, para ironizar a criação malograda.

A ironia é uma arma suprema. "C'est 1'ironie" - diz Max lacob - "qui 1ui fournit chaque jour une c1é pour sor- tir de sa prison". É um método para anular a obra do De- miurgo. '"Revogam-se as disposições em contrário". E tor- nam-se inúteiJ todas as revoluções. Em comparação corn aguela ironia supra-realista, todas as revoluções, intimamente ligadas a este mundo de maldição por meio dum otimismo crédulo nas transformações exteriores, parecem ridiculamente ineptas, impotentes contra "the ingenious machinery contrived by the Gods for reducing human possibilities of amelioralion to a minimum". Acredito que Graciliann Ramos pode con- formar-se com esta frase de Thomas Hardy. Suas convicções são as de um revolucionário. Graciliano tem o direito e o dever de manter suas convicções revolucionárias. Mas es.ar não seriam transformáveis em arte, o não ser passando pela fase transicional da eloqüência, que Graciliano detesta. Real- mente, para Graciliano não são transformáveis em arte; e isto é significativo. Luís Padilha e o judeu Moisés não são heróis revolucionárioJ. Cada vez que o romancista cede d tentação de formular programas de reformas sociais - c profe.ssora Madalena fala assim - cai logo na armadilha do seu inimigo mais detestado: 0 lugc,.r-comum; no caso o lugar-comum hu- manitário, da "generosidade", que o seu crítico mais incom- preensivo lhe aconselhou. Certamente, a alma deste roman- cista seco não é seca; é cheia de misericórdia e de simpatia para com todas as criaturas, é muito mais vasta do que um mestre-eseola filantrópico pode imaginar: abrange até o mudo assassino Casimiro Lopes, até a cachorrinha Baleia, cuja mor te me comoveu intensamente: "Tat twan asi". A misericórdia do pessimista para consigo mesrno é tão compreensiva que medita todos oJ meios de salvação, para deter-se apena.s na última: a destruição deste rnundo, para libertar todas as crio- turas. "Un mundo, llamado a desaparecer." R preciso destruir o mundo exterior para salvar a alma.

A realidade, nos romances de Graciliano Ramos, não é deJte mundo. É uma realidade diferente. Apó,r ter lido Angústia até o fim, é preciso reler as primeiras páginas, para Z36 compreendã"las. B um mundo jechado em si mesmo. Que mundo éT "Ná ncu minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram- se coisas insigni f icantes. Depois um esquecimento quase com- pleto" - confessa Luú da Silva em Angústia. E depois: "Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente. Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento." E confessa: "Não sei se com os outros se dá o mesmo. Comigo í assim." É assim com todos nós outros, quando entramos no mundo empastado e nevoen- to, noturno, onde os romances de Graciliano Ramos se pas- sam: no sonho. Os hiatos rias recordações, a carga de .acon- tecimentos insignificantes com fortes aJetos inexplicáveis, eis a própria "tícnica do sonho", no dizer de Freud. Ilvaro Lins, no melhor artigo que se escreveu sobre Graciliano Ramos, observa agudamente a abstração do tempo - "Mas no tempo, não havia horas", cita o crítico - e acrescenta: "As outr,r personagens são projeões da personagern principal. 7ulião Tavares e Marina só existem para que Luís da Silva se ator mente e rometa o seu crime. Tudo vem ao encontro da per sonagem principal - inclusive o instrumento do crime." Esta,t palavras do crítico constituem a chave da obra do roman- cista: descrevem perfeitamente a nossa situação no sonho, em qut tudo é criação do nosso próprio tspFrito. Explica-se aJ- sim o extremo egofsmo dos heróis de Graciliano Ramos: é o egotsmo daquele que sonha e para o qual, prisioneiro durn mundo irreal, só ele mesmo existe realmente. A mentalidade inteiramente amoral do sonho exclui, decerto, toda "generosi- dade"; mas a substitui por um sentimento mais vasto de iden- tificação quase mfstica com as criaturas da própria imagina- Ção, até a cachorrinha Baleia: "Tat twan asl." O extremo egotsmo do sonho engendra o motivo prln- cipal do romancista: cobiça de propriedade. Propriedade de ttrra, de mulher, em São &rnardo; oqui e em Angústia, a forma extrema de.rta cobiça, o ciúme. Por isso, nos romances de Graciliano Ramos, esses aftto,r ultrapassam toda rrfedida; sugerem, ao lado doJ afetos análogos na vida real, a impres- são de sentimentos patológicos. E quando o autor coruidera os monstros da sua angústia de sonho, lança o seu grito mais elementar: "Dinheiro e propriedade dão,me Jempre de- sejos violentos de mortandade e outraJ destrulçõe.t." São palo.

vras que exprimern, de maneira perfeita, o duplo stntido do 837 pensamento de Graciliano Ramos: de um lado, seu socialis- mo revolucionário, Iigeiramente tingido de veleidades de anar- quista, das suas convicções sócio-polfticas; por outro lado, esse mesmo anarquismo, sublimado até a capacidade de cons- truir, em cima da terra arrasada, um mundo novo, o da cria- ção artística.

Todos os romances de Graciliano Ramos - e este é o sentido do seu experimentar - são tentativas de destrui- ção: tentativas de "acabar com a minha memória", tentativas de dissolver as recordações pelos "estranhos hiatos" dum sonho angustiado Trata-se de saber que mundo de recordações se dissolve assim. A resposta é bastante dif fcil. Surge o clichê de que Graciliano teria sido, na mocidade, um f rustrado sertanejo culto": e sugere aos críticos a idéia de que o romancista está furioso contra o ambiente selvagem do seu passado. Mas não é assim. Nâo é o sertão o culpado; Vidas Secas é o seu ro- mance relativamente mais sereno, relativamente mais otimista.

O culpado í - superficialmente visto numa primeira aproxi maçâo - a cidade. O herói de Graciliano Ramos é o serta nejo desarraigado, levado do mundo primitivo, imóvel, parc o mundo do movimento. E o vagabundo ("um pobre nordesti no. . . "); e explica-se o seu ódio balzaquiano ao mundo bur guês, que conseguiu a estabilidade relativa do comércio d secos e molhartos. Esta vagabundagem é o aspecto sociológi co do egofsmo do sonho quando se choca com a realidade. i o desejo violento do vagabundo de restaóelecer-se na terra "Como a cidade me afastara de meus avós." Mas é apena uma explicação em primeira aproximação: pois Paulo Honóri consegue o seu fim, e, contudo, é uma vida malograda. Po quê? Porque o seu criador quer mais do que terra, casa, di nheiro, mulher. Quer realmente voltar aos avós. Voltar imobilidade, à estabilidade do mundo primitivo. E para ctin gir este jim, deve antes destruir o mundo da agitação angu .tiada, na qual está pres.

Os romances de Graciliano Ramos são experimentos par acabar com o sonho de angústia que é esta vida. Uma lend budista conta dum homem que correu, ao sol do meio-du para fugir à sua sombra, que o angustiava; correu, corre sempre perseguido pelo companheiro sinistro, até que encor trou o grande Sábio, que Ihe disse: "Não continues a f ugi Assenta-te sob esta árvore." E como ele parou, a somb 238 desapareceu. A sombra sobre o mundo de Graciliano Ra- mos não é a sombra da árvore da salvação, mas do ediffcio da nossa civilização artificial - cultura e analfabetismo le- trados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades tem- porais e espirituais, que ele convida ironicamente - no come- ço de São Bernardo - a colaborar na sua obra de destruição.

Mas eles mostram-se incapazes de cometer o suicídio propos- to. Entrincheiram-se na "dura realidade", imposta a todas as criaturas do Demiurgo, e que se arroga todos os atributos da eternidade. O romancista, porém, não se conforma. Trans- forma esta vida real em sonho - pois ao sonho, enfim se acorda. Então, as disposições junestas do Demiurgo seriam revogadas, e o destruidor poderia dizer, com o Gide das Nouvelles Nourritures: "Table rase. I'ai tout balayé. C'en est jait. le me dresse nu sur la terre vièrge, derrière le ciel d repeupler." O fim é o estado primitivo do mundo - o céu repovoa- do. Então, a angústia já não assusta.

"Black is night's cope; But death will not appal One who. past doubtings atl, WaitJ in unhape." Foi a última sabedoria poética do romancista Thomas tlardy, versos duros populares e clássicos ao mesmo tempo, rimados em sinal da concordância resi,qnada com o mundo - teria sido possível gue o romc..ncista Graciliano Ràmos escrevesse também, um dia, tais versos. duros, populares e clássicos ao mesmo tempo, versos tradicionais, como os do velho Hardy. Mas não seriam rimados, seriam versos bran- cos. Pois a primeira rima de Graciliano Ramos já anuncica- ria o Fim do Mundo e - quem sabe - a salvação deste mundo.

Fonte: www.4shared.com

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