Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Angústia Graciliano Ramos - Página 9  Voltar

Angústia

Graciliano Ramos

Como conseqüência da investigação, descobri afi- nal a nova amante de Julião Tavares. Era uma criatu- rinha sardenta e engraçada que trabalhava numa loja de miudezas. Dentro de alguns meses estaria de barri ga, visita,ndo clandestinamente d. Albertina. Venderia as jóias baratas, furtarfa dinheiro na caixa para d.

Albertina. Ou então haveria um espalhafato. Julião Tavares daria à mocinha sardenta quinhentos mil-réis para ela calar-se e passaria uns tempos aborrecido, ouvindo os sermões de Tavares pai.

* * * A casa era em Bebedouro, pequena, isolada. Julião Tavares chegava alta noite, entrava, demorava-se duas horas. Afastava-me, para não despertar suspeitas, mas 'à safda andava por ali e distinguia um vulto que tinha a gola do paletó erguida e evitava os pontos ilu- minados. Havia raros transeuntes, e a ligaçâo durou pouco, não chegou a dar nas vistas.

Julião Tavares seguia pela rodagem, rente aos jar- dins dos palacetes adormecidos. Ou acompanhava a es- trada de ferro, que atravessa a rua, ganha os fundos das casas. Ali era o silncio, uma sombra que algumas lâmpadas muito distanciadas e os becog por onde es- pirra um pouco de luz interrompiam. A água do man- gue apresentava manchas brancas entre as árvores.

Aproximando-me, ouvia perfeitamente os passos do ho- mem nas folhas secas. Porque era que aquele sem-ver- gonha caminhava como se estivesse em casa, pisando no chão pago? Em toda a parte era assim. Derramava-se no bon- de. e se alguém lhe tocava as pernas, desenroscava-se com lentidão e lançava ao importuno um olhar duro.

181 Eu encolhia-me, reduzia-me e, em caso de necessidade sentava-me com uma das nádegas. As viagens se torna vam horrivelmente inc8modas, mas havia-me habituadc a elas, e ainda que o carro estivesse deserto, não pode ria espalhar-me como Julião Tavares: receava que m viessem empurrar e tomar, sem pedir licença, algumaa polegadas da tábua estreita.

Aqueles modos davam-me a impressão de que tudc em roda era dele. Os passeios públicos eram dele. Certa mente ninguém me proibia andar nos jardins, sen tar-me, ver as mulheres. Mas as mulheres não repara vam em mim, pessoas conhecidas olhavam-me distraida mente. Demais, enquanto me achava ali, perseguia-mE a recordação da vida ordinária, e isto me estragava a hora mesquinha de folga. Os canteiros, o coreto, os glo- bos opalinos, não me serviam para nada. Estimaria que os fios da Nordeste encrencassem e a cidade ficasse à escuras. Mover-me-ia como um cego, esqueceria as mu lheres pintadas que imitam d. Mercedes, esqueceria Julião Tavares, que estava em todos os bancos. A treva apagaria aquela exposição desagradável. Mas dar-me-ia a recordação de coisas mais desagradáveis ainda.

A gravata enrolava-se como uma corda sobre a ca m;sa raseada e suja, das bainhas das calças e dos coto- velos puídos saíam fiapos, manchas de poeira alastra vam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se enevoavam por causa da fome e desco- briam entre as árvores cenas irreais.

Agora Julião Tavares marchava no escuro, depois de ter abraçado a mocinha sardenta. Ia deitar-se, arru- mar talvez uns versos indecentes a respeito de segredos de alcova. Aquela hora não tinha com quem desabafar.

O café estava fechado, na praça deserta as luzes cochi- lavam. Derramaria a vaidade no papel, imprimi-la-ia no dia seguinte, os amigos lhe dariam parabéns e ele andar ria como um pavão. Julião Tavares julgava-se superior aos outros homens porque tinha deflorado várias meni- nas pobres. Pelos modos, imaginava-se dono delas. Con- tra-senso. Então Marina era dele? Tolice. Era a mesma que eu tinha conhecido um ano antes, vermelha, com os cabelos pegando fogo, entre as roseiras maltratadas.

Evidentemente.

I82 Lembrava-me de sinha Germana, de Quitéria, das negras da fazenda. Sinha Germana só tinha conhecido um homem. As pretas não se envergonhavam de conhe cer muitos homens. Que diferença! Descendo de sinha Germana, que dormiu meio século numa cama dura e nunca teve desejos. Adquiro idéias novas, mas estas idéias brigam com sentimentos que não me deixam.

Sinha Germana dormia no couro de boi com o velho Trajano, e se dormisse de outra forma, não dava certo.

Os costumes de sinha Germana eram superiores aos de Quitéria. Porquê? Não havia porquê, e isto me enrai- vecia. Um sujeito capaz de escrever sobre muitos assun tos entendendo-os mal, ou sem entendê-los, aceitar as opiniões de Camilo Pereira da Silva, de padre Inácio, de d. Rosália! Essas opiniões não tinham pé nem ca- beça. Marina valia o que tinha valido antes de engros- sar a barriga e procurar d. Albertina. As mesmas per nas bem feitas, os mesmos braços que mexiam as ro- seiras do quintal pobre, os mesmos cabelos que pare- ciam oxigenados, os mesmos olhos traquinas. Mas as pernas não se curvavam para mostrar as nádegas aper- tadas na saia estreita, os braços moviam-se vagarosa- mente, pesados, os cabelos amarelos caíam sobre a tes- ta enrugada, os olhos baixavam-se, cheios de culpa, des- viando-se dos outros olhos. Esta consciência de inferio- ridade era contagiosa. Marina tinha descido. Logo me revoltava. Absurdo.

- Como as outras, como as outras. Mais bonita que a maioria das outras.

Repetições inúteis. Não podia evitar a idéia de uma queda. De qualquer forma ela havia diminufdo e habi- tuava-se a esgueirar-se, a pedir desculpa a toda a gente.

Seria para o futuro um trapo como d. Adélia: - A senhora tem razão, d. Rosália. isso mesmo.

d. Rosália.

Os sapatos vermelhos com o verniz rachado e os saltos gastos, roupas ordinárias, as unhas estragadas, a voz esmorecendo numa cantilena de aprovação.

- Como as outras. Estúpido, absolutamente estú- pido.

183 Furores perdidos. Marina permaneceria de vists baixa, esconder-se-ia como um rato e falaria gemendo concordando com d. Rosália.

* * * Fuí até o fim da linha de bonde e parei, como se me tivesse faltado a corda de repente. Aquelas dua, extremidades de trilhos roubaram-me os movimentos e deram-me impressão desagradável. Esfreguei os olhos senti-me eansado. Até ali não havia experimentadc nenhum cansaço. Teria andado léguas se os trilho; avançassem para o interior, mover-me-ia regularmente como um bonde. Apenas não rre deteria diante do; postes cintados de branco. Nessas marchas comprida; a que me habituei - um, dois, um, dois - a fadiga adormece e quase não penso. Exatamente como se uma vontade estranha me dirigisse, um sargento invisíve: que se descuidasse do exercício e fosse pelo campo, em brutecido pela cadência - um, dois, um, dois - esque cido da voz de comando, pensando nos versos de ur Julião Tavares ou nos bilhetes de outra Marina. Andc meio adormecido. Se alguém me gritasse: - "A direita à esquerda", volveria à direita, volveria à esquerda, sen procurar saber donde partia a ordem. Porque à direita' Porque à esquerda? Poderia ser meia-volta. Mas nin guém fala, e vou para a frente, sem perceber que possc voltar, libertar-me da autoridade de um sargento invi sível e caminhar naturalmente, parando, observandc as casas e as pessoas. De repente os trilhos desapare cem e relaxa-se a corda do boneco. Está bem. Em quE ia pensando? A verdade é que estava com as pernas bambas Caminhada tão extensa! Mais de uma hora. O mesmc tempo para voltar - um, dois, um, dois - exatamentE o mesmo número de minutos gastos na vinda.

- Está bem.

Deviam ser duas horas da madrugada.

- Sem dúvida.

Julião Tavares não tardaria em deixar a casinh que se trepa no morro, junto a uma barreira vermelha 184 Seguiria pela rodagem? Pela estrada de ferro? Só vendo.

Esta necessidade de ver encolerizou-me: - Bestal Farejando imundícies como um cachorro.

Procurei um cigarro para acalmar-me. Não encon- trei ciga,rras. O .que achei foi a corda que seu Ivo me havia oferecidó. Desleixado. Conservar no bolso aquele traste e esquecer os cigarros! Olhei os quatro cantos.

Nenhuma bodega. Esperei a passagem de alguém que me desse um cigarro. Ninguém. Idiota! Que estava fa- zendo ali, pisando a ponta do trilho? Farejando imun- dícies como um cachorro, como um urubu. Que horas seriam? Duas, aproximadamente. Aguardei as pancadas de um relógfo. Com certeza Julia`.o Tavares tinha dei- xado a cama da mocinha sa,rdenta e recolhia-se, leve como um balão, saciado, fumando, a brasa do cigarro esmorecendo e avivando-se. O certo era que eu não podia ficar ali subordinado a um relógio duvidoso ou a um transeunte que talvez nã,o tivesse cigarros. Julião Ta- vares deixara a mocinha sardenta. Seria a mocinha sar denta a amante dele? Na casa havia outras mulheres.

Porque imaginei que havia de ser a mocinha sardenta? Uma garoa que se adensava ia toldando as luzes ca- piongas. Um, dois - impossfvel contar os postes de iluminaçãó, que a neblina ocultava. Senti frio. Enquan- to marchava, não tinha frio, nem cansaço, nem desejo de fumar. Agora a falta de cigarros me afligia. Levantei a gola, apertou-me a necessidade urgente de voltar.

Tinha certeza de que na, volta me apareceriam ciga.rros.

Virei-me, pus-me a caminhar desordenadamente. De quando em quando parava, as pernas bamba,s. Não ha- veria uma bodega, um transeunte? A marcha regular era impossível. Estava irritado como um bicho e levava a mão ao bolso, num gesto maquinal. Encontrava os anéis da corda. Provavelmente Julião Tavares ia de vol- ta, fumando. Que me importava Julião Tavares? A f?gu- ra de Cirilo de Engrácia passou-me diante dos olhos, mas desapareceu logo. Porque me achava àquela hora da noite em Bebedouro, andando à toa como uma bara- ta, parando, correndo? Soprava, enxugava o rosto com a manga. Cansado.

Quando me aproximava da casinha encostada ao monte, u vulto pulou na estra,da a alguns passos de 185 mim e ganhou os trilhos da reat Western. Adiantei-me para não perdê-lo de vista. A escuridão esbranquiçada feita pela neblina aumentava, escuridã.o pegajosa em que os postes espaçados abriam clareiras de luz escassa.

Passei o lenço no rosto molhado. Um suor frio, as ore lhas frias e insensíveis. Nem sabia se aquilo era suor ou orvalho caído dos ramos das árvores.

Uma hora antes caminhava com animação, mo- via-me executando ordens, tinha os membros amarra- dos a cordões. Agora podia desviar-me para um lado e para outro, avançar, recuar. Alargaria os passos, en- contraria Julião Tavares, pa,ssaria por ele, o chapéu em- bicado. Não me reconheceria na poeira de água. Um su- jeito que vinha de uma aventura noturna e tinha pres- sa de recolher-se. A mocinha ficara num fundo de quin- tal, em camisa, ao pé do morro. Julião Tavares estre- meceria. Um concorrente. Não presumiria que o con- corrente era um inimigo aperreado e cheio de veneno.

A necessida.de de fumar atrapalhava-me os movimentos.

Julião Tavares flutuava para a cidade, no ar denso e leitoso. Estaria longe ou perto? Aparecia vagamente nos pontos iluminados, em seguida o nevoeiro engolia-o, e eu tinha a impressão de que ele ia voar, sumir-se.

Um balão colorido em noite de Sâo João, boiando n céu escuro.

As meninas de Teotoninho Sabiá cantavam, à porta da nossa casa estalava uma grande fogueira que meu pai alimentava com tábuas de ca.ixões e aduelas, Ro- senda fazia adivinhações consultando uma bacia de água, na sala de seu Batista as moças brincavam de sortes, busca-pés estouravam na Rua da Cruz e no Ca valo-Morto. Debaixo de um mamoeiro de folhas tor- radas, Carcará assava milho verde na fogueira e largava risa.das enormes. Meu pai dizia: - "Hi! parece um papa-lagartas." Eu não sabia que espécie de bicho era o papa-lagartas nem porque meu pai se lembrava dele ouvindo as gargalhadas de Carcará. Tudo tão simplest As moças desdobrando os papelinhos das sortes, Rosen- da estudando a bacia de água, Teresa e d. Maria can- tando para o balão cair. Apenas o estouro dos busca- pés e as risadas de Carcará me incomodavam. Teresa 186 era boa, chupava o dedo mindinho e chorava quando chegavam as redes e os homens amarrados de cordas.

Julião Tavares ia afastar-se, dissipar-se, wirar ne- blina. Apresséi-me, pus-me quase a correr. Bem. Conti- nuava invisível, mas as pisadas ouviam-se distinta- mente.

- Bem.

Dizia isto, e sentia que tudo ia mal, aporrinhava-me por estar perdendo tempo a acompa,nhar Julião Ta- vares. Afligia-me pensar que dentro em pouco ele en- traria na cidade e dormiria tranqüilo. Cirilo de Engrá- cia, morto, em pé, amarrado a uma árvore, coberto de cartucheiras e punhais, tinha os cabelos compridos e era medonho. Eu não poderia dormir. O caminho en- curtava-se. Mas então? Para que seguir o homem odio so que tinha tudo, mulheres, cigarros? Agora estáva- mos perto um do outro, mas a cidade se aproximava, e em breve estaríamos afastados, ele chupando um ci- garro, eu agüentando os roncos do marido de d. Ro- sália, que tinha chegado na véspera. Pelo resto da noite ouviria os gemidos e os roncos dos vizinhos. O cansaço deaaparecera. Desejaria caminhar léguas, até fatigar-me novamente e adormecer. Quantos metros faltariam para desembocarmos na Levada? Quantas horas faltariam para se abrirem os cafés e as bodegas? A idéia de que nos íamos separar me desesperava. Ali era como se ele dependesse de mim. Distinguiam-se perfeitamente os pasos; nas luzes que espirravam das travessas a figura surgia, escura e bojuda, com o chapéu desabado e a gola do paletó erguida. De repente senti uma piedade inexplicável, e qualquer coisa me esfriou mais as mãos.

Julião Tavares era fraco e andava desprevenido, como uma criança, naquele ermo, sob ramos de árvores dos quintais mudos. Uma hora, meia hora depois, passaria pelo guarda adormecido junto a um poste, seria forte, mas ali, debaixo das árvores, era um ser mesquinho e abandonado. Contraí as mãos frias e molhadas de suor, meti-as nos bolsos para aquecê-las. Para aquecê-las ou levado pelo hábito. A aspereza da corda aumen- tou-me a frieza das mãos e fez-me parar na estrada, mas a necessidade de fumar deu-me raiva e atirou-me para a frente. Entrei a caminhar depressa, receando 18? que Julião Tavares escapasse. Novamente os passos leves no chão coberto de folhas secas. Distinguia-se agora muito bem a sombra escura na garoa peganhenta.

A garoa me entrava no bolso e gelava os dedos, que esfregavam a corda. Porque andava com segurança o homem gordo? Olhos atentos procuravam enxergá-lo, dedos crispados moviam-se em direção a ele. - "Matos têm olhos, paredes têm ouvidos", dizia Quitéria sentada na prensa do quintal. Pareceu-me que as árvores em redor estavam vivas e espiavam Julião Tavares, que os galhos iam enlaçar-lhe o pescoço. E ele andava sosse- gado como se ali houvesse guardas-civis.

Muitos anos antes os cabras de Cabo Preto ha- viam-se escondido na capueira para não assustar sinha Germana. Sinha Germana passara escanchada na sela de campo, e os cabras se amoitavam por detrás dos mandacarus e dos alastrados que vestiam mal a cam- pina. Os cangaceiros eram amigos de Trajano, sinha Germana esquipava no caminho iluminado pelo sol cru.

Nenhum ódio. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tinha umas reses que definhavam e entendia-se perfeitamente com os emissários de Cabo Preto.

O desejo de fumar levava-me ao desespero. O acesso de piedade sumiu-se, o ódio voltou. Se me acha,sse diante de Julião Tavares, à luz do dia, talvez o ódiu nâo fosse tão grande. Sentir-me-ia miúdo e perturbado, os músculos se relaxariam, a coluna, vertebral se incli- naria para a frente, ocupar-me-ia em meter nas calças a camisa entufada na barriga. Afastar-me-ia precipita- damente, como um bicho inferior. Agora tudo mudava.

Julião Tavares era uma sombra, sem olhos, sem boca, sem roupa, sombra que se dissipava na poeira de água.

A minha raiva crescia, raiva de cangaceiro emboscado.

Porque esta comparação? Será que os cangaceiros expe- rimentam a cólera que eu experimentava? José Bafa vinha contar-me histórias no copiar, can- tava mostrando os dentes tortos muito brancos. Era bom e ria sempre. Dava-me explicações a respeito de visagens, mencionava as orações mais fortes. Não me ensinou as orações, para não quebrar a virtude delas, mas ofereceu-me conselhos, que esqueci. Tão bom José Bafa! O clavinote dele tinha vários riscos na coronha.

188 Ninguém ialava alto a José Baía, ninguém lhe mos- trava cara feia. E ele ria, exibindo os dentes acavalar dos, e quando avistava o vfgário ou outro hóspede im- portante, a aba do chapéu de couro varria o pátio da fazenda. Não me seria possivel imaginar José Baía ata- cado de uma crise de ódio como a que me fazia pregar as unhas nas 'palinas. Provavelmente ele ficava sosse- gado na capueira, tirando um trago do cigarro de palha, que apagava logo com saliva e guardava atrás da orelha, para a fumaça não denunciar a emboscada. O ouvido atento a qualquer rumor que viesse do caminho estreito, o joelho no ch.o, em cima do chapéu de couro, o olho na mira, a arma escorada a uma forquilha, com cer- teza não pensava, não sentia. Estava ali forçado pela necessidade. No dia seguinte faria com a faca de ponta novo risco na coronha do clavfnote e contaria no al- pendre histórias de onças.

- Que fim levou, José Baía? - Por aí, caminhando.

Nenhum remorso. Fora a necessidade. Nenhum pen- samento. O patrâo, que dera a ordem, devia ter lá as suas razões. As histórias do alpendre eram simples: as onças que armavam ciladas aos bodes não tinham ferocidade. José Baía, bom tipo. Quando passasse pela cruzinha de pau que ia apodrecer numa volta do cami- nho, rezaria um padre-nosso e uma ave-maria pelo de- funto. A fraqueza estirou-me os dedos e retardou-me a caminhada. Tive saudade de José Baia e das conver- sas infantis do copiar.

- José Bafa, meu irmão, onde estarás a esta hora? Terás morrido em tocaia ou mofarás numa cadeia no- jenta de grades pretas e gordurosas? Entraste um dia na vila, amarrado de cordas, negro de suor e poeira, cercado por uma tropa de cachimbos. Os teus olhos claros se arregalavam num espanto verdadeiro. Enve- lheceste e és outro, uma inutilidade feita pela justiça.

Os teus ouvidos e a tua vista se estragaram, as tuas mãos tremem, estás sério e esqueceste a criança a quem dizias as virtudes da oração da cabra preta.

Quanto tempo duraram as recordações e o enfra- quecunento? Um minuto, ou menos. Novamente as mãos se contrafram e as pernas se estiraram no caminho 189 extenso. Desejei que Julião Tavares fugisse e me livras- se daquele tormento. Se ele corresse pela estrada de- serta, estaria tudo acabado. Eu tentaria alcançá-lo.

Inutilmente. Pensei em gritar, avisá-lo de que havia perigo, mas o grito morreu-me na garganta. Não grito: habituei-me a falar baixinho na presença dos chefes.

Era preciso que alguma coisa prevenisse Julião Tavares e o afastasse dali. Ao mesmo tempo encolerizei-me por ele estar pejando o caminho, a desafiar-me. Então eu não era nada? Não bastavam as humilhações recebidas em público? No relógio oficial, nas ruas, nos cafés, vira- va-me as costas. Eu era um cachorro, um ninguém.

- "E-me conveniente escrever um artigo, seu Luís." Eu escrevia. E pronto, nem muito obrigado. Um Julião Tavares me voltava as costas e me ignorava. Nas reda- ções, na repartição, no bonde, eu era um trouxa, um infehz, amarrado. Mas ali, na estrada deserta, voltar-me as costas como a um cachorro sem dentes! Não. Donde vinha aquela grandeza? Porque aquela segurança? Eu era um homem. Ali era um homem.

- Um homem, percebe? Um homem.

Julião Tavares não ouviu e continuou a andar tzan- qüilamente.

- Corre, peste.

Porque era que o miserável não corria, não se livrava dos meus instintos ruins? Estaria recordando as carícias da mocinha sardenta? - Isso não vale nada, Julfão Tavares. Marina, a mocinha sardenta, a datilógrafa dos olhos de gato, não valem nada. O que vale é a tua vida. Foge.

Julião Tavares parou e acendeu um cigarro. Porque parou naquele momento? Eu queria que ele se afastasse de mim. Pelo menos que seguisse o seu caminho sem ofender-me. Mas assim . . . Faltavam-me os cigarros, e aquela parada repentina, a luz do fósforo, a brasa esmo- recendo e avivando-se na escuridão, endoidecia-me. Fiz um esforço desesperado para readquirir sentimentos hu- manos : - José Bafa, meu irmão . . .

José Bafa não era meu irmã.o: era um estranho de cabelos brancos que apodrecia numa cadeia imunda, cumprindo sentença por homicfdio. - "Recebeu cópfa 190 do libelo?" José Bafa nâo soubera responder. Tinha re- cebido e não tinha. Que resposta devfa dar àquela per- gunta incompreensível? O presidente se contentaria se ele dissesse que sim? Ou seria melhor dizer que não? E José Baía balançava a cabeça, indeciso: tinha rece- bido e não tinha. Afinal que me importava José Bafa, estirado numa esteira por detrás das grades negras e pegajosas? Que me importavam as grades negras e pe- gajosas? Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silen- ciosos como os das onças de José Bafa, estava ao pé de Julião Tavares. Tudo isto b absurdo, é incrfvel, mas realizou-se natúralmente. A corda enlaçou o pescoço do homem, e as minhas mãos apertadas afastaram-se. Hou- ve uma luta rápida, um gorgolejo, braços a debater-se.

Exatamente o que eu havia imaginado. O corpo de Julião Tavares ora tombava para a frente e ameaçava arrastar-me, ora se inclinava para trás e queria cair em cima de mim. A obsessão ia desaparecer. Tive um deslumbramento. O homenzinho da repartição e do jornal não era eu. Esta convicção afastou qualquer receio de perigo. Uma alegria enorme encheu-me. Pes- soas que aparecessem ali seriam figurinhas insignificar- tes, todos os moradores da cidade eram figurinhas in- significantes. Tinham-me enganado. Em trinta e cinco anos haviam-me convencido de que só me podia mexer pela vontade dos outros. Os mergulhos que meu pai me dava no poço dá Pedra, a palmatória de mestre Antônio Justino, os berros do sargento, a grosseria do chefe da revisão, a impertinência macia do diretor, tudo virou fumaça. Julião Tavares estrebuchava. Tanta em- páfia, tanta lorota, tanto adjetivo besta em discurso - e estava ali, amunhecando, vencido pelo próprio peso, esmorecendo, escorregando para o chão coberto de fo- Ihas secas, amortalhado na neblina. Ao ser alcançado pela corda, tivera um arranco de bicho brabo. Aquieta va-se, inclinava-se para a frente, os joelhos dobra vam-se, o corpo amolecia. Eu tinha os braços doídos e as mãos cortadas. Enquanto Julião Tavares estivesse com a cabeça erguida, a minha responsabilidade não seria tão grande como depois da queda. Quando bebia demais, seu Ivo tinha aquele jeito de arriar, não havfa 191 conversa que o levantasse. A lembrança de seu Ivo en- fureceu-me.

-- Com os diabos! E larguei o corpo, que foi bater numa cerca, por baixo de uns galhos de árvore que aumentavam a escuridão.

- Com os diabos! Sentei-me ao pé da cerca, enxuguei o suor que me corria pela testa. Cansado. A mão direita doía-me horri- velmente, mas continuei a apertar com ela a corda que a circulava. A mão esquerda estava livre. Levei-a ao bolso à procura de cigarros, mas retirei-a logo. A figura de seu Ivo, bêbedo, encostado à parede, voltou. Que horas seriam? As estacas da cerca magoavam-me as costas. Páreceu-me inconveniente permanecer ali, mas não me veio a idéia de que houvesse perigo. Necessário continuar a marcha. Continuar a marcha, evidente- mente: Fiquei sentado e mudei de posição, porque as estacas da cerca me feriam os ombros. Como conduzir Julião Tavares, tão pesado? Não compreendi que devia deixá-lo apodrecendo nas folhas, debaixo da árvore. Pre- cisava transportá-lo, isto não me saía da cabeça. Trans- portá-lo, sem dúvida. Apesar de não. sentir medo, perce- bia que era urgente retirar-me. Agucei o ouvido. Apenas o zunzum dos mosquitos. A lagoa próxima fervilhava de carapanãs. Como estaria Julião Tavares? Procurei dis- tingui-lo, avancei a cabeça para o lugar onde supünha ter ele ficado. Um vulto quase imperceptível na escuri- dáo leitosa. O rosto encostado à terra, naturalmente.

Como estariam os olhos dele? Os de seu Evaristo, que vi de longe, esbugalhavam-se. E a boca se escancarava, mostrando a lingua escura e grossa. Provavelmente Ju- lião Tavares tinha também os olhos muito abertos e o queixo desgovernado.

- Mas que diabo estou fazendo aqui? Necessitava levantar-me, afastar-me depressa, entrar em casa, dormir. Aquela hora o marido de d. Rosália resfolegava, arranhava com a barba o couro a.marelo de d. Rosália. O marido de d. Rosália resfolegava como um bicho. E Julião Tavares parado. Minutos antes an- dava na maciota, o cigarro aceso, o pensamento na cama da mocinha sardenta. Agora ali junto da cerca, 192 estirado. Inconveniente ficar ao lado dele. Inconve- niente. As carapanãs zumbiam, voavam perto da minha cara, picavam-me as orelhas e as mãos escalavradas.

Inconveniente.

Matos têm olhos, paredes têm ouvidos.

Quitéria, Rosenda e a prensa velha vieram-me à memória. Olhei os arredores, tentei varar a escuridão.

Tudo invisível. A lagoa, povoada de carapanãs, inW - sível. Uma grande fraqueza abateu-me, suor abundante ensopou-me a camisa. Passei a mão na cara molhada, senti na pele a dureza da corda. Se viesse alguém? - Recebeu cópia do libelo? Os amigos de Julião Tavares iriam julgar-me. Pi- mentel e Moisés não eram jurados. Que diriam os jor- nais? De seu Evaristo não tinham dito nada, dos ho- mens que apareciam mortos nos caminhos não diziam nada. Mas agora falariam muito. Quem foi? Porque foi? Pimentel escreveria artigos horrfveis. Pus-me a discutir com Pimentel, gesticulei, uma das mãos bateu no corpo de Julião Tavares. Encolhi-me, o suor aumentou na fria- gem da noite.

José Baía, velho e manso, dormia na esteira de pipiri, por baixo das cortinas de pucumã. Seu Evaristo balançava, pendurado num galho de carrapateira. Seu Evaristo era tão magro, tão cheio de fome, que um galho de carrapateira podia sustentá-lo. Cirilo de En- grácia, morto, em pé, amarrado a uma árvore, parecla vivo. Os cabelos compridos, caídos para a frente, es- cureciam-lhe o rosto feroz. Só os nés estavam bem mortos, suspensos, os dedos para baixo. O frio aumen- tava, comecei a bater os queixos como um caititu. Se alóuém surgisse na estrada, eu não teria coragem de fugir. Haveria pessoas ali perto? Julguei perceber mn ruído esquisito, mas provavelmente era apenas o eco das pancadas dos meus dentes, que não descansavam. Tive a impressão de que os meus dentes estavam longe, fa- zendo um barulho que se misturava ao zumbido irri- tante das carapanãs. Apertei os queixos, mas as casta- nholas permaneceram, e veio-me a certeza de que ms havia tornado velho e impotente.

- Inútil, tudo inútil.

193 Mordi a manga do paletb. Os dentes continuavam a entrechocar-se, mas produziam um som abafado. Mas- tiguei o pano, desejei recolher-me. Beberia um copo de cachaça, os dentes se calariam. Os relógfos da vizinhan- ça não me deixariam dormir. Certamente Julião Tava- res devia ficar ali deitado. Pensei em ocultá-lo, en- terrá-lo debaixo de uma camada de folhas. A idéia absurda de levá-lo comigo para a cidade tinha desapa- recido. Bem. Pus-me a afastar as folhas e a cavar a terra com as unhas. A tentativa de fazer com os dedos uma cova para enterrar um homem era tão dispara- tada que me levantei, receoso de tornar-me idiota. Como estaria a cara de Julião Tavares? A figura que me veio ao espírito foi a de Cirilo de Engrácia, terrível, amar- rado a um tronco, os cabelos compridos ensombrando o rosto, os pés suspensos, mortos. Pensei também em seu Evaristo, curvado sob a carrapateira, como se pre- parasse um salto. Recuei precipitadamente e bati com os ombros na cerca. Julião Tavares podia ficar assim, pendurado a um galho, como um suicida. Acreditariam que ele fosse um suicida? Acreditariam. Não acredita- riam. Os jornais fariam escândalo, publicariam o retra- to da mocinha sardenta. Um rapaz desvairado, perfeita- mente, rapaz desvairado. Desembaracef a mão direita e numa das extremidads da corda fiz um laço. Vi- nha-me afinal uma resolução. Entrei a mexer-me, com medo de perdê-la. Se os pensamentos se sumissem? Se voltasse aquele marasmo? - Tudo inútil.

Os dentes já não batiam. Curvei-me, procurando a cabeça de Julião Tavares. Encontrei o chapéu caído, um braço, que soltei arrepiado porque nunca havfa tocado em cadáveres. A idéia de que Julião Tavares era um cadáver estarreceu-me. Não tinha pensado nisto.

Horrfvel o corpo imóvel, esfriando. Lá estava a cabeça anda morna. Enjoado, cuspindo muitas vezes, erguia-a, passei o laço no pescoço. Prendi nos dentes a outra ponta da corda, subi à cerca, trepei-me num galho da árvore. E comecei o trabalho de guindar o morto. A mão direita puxava a corda, que se movia lenta por cima do ramo; do outro lado a mão esquerda agüentava o peso do corpo. Moço desvairado. Duas tarjas grossas, 194 uma no princfpio, outra no fim da página. Qualidades, Julião Tavares tinha muitas qualidades. A literatura delA reproduzida nas folhas, em tipo graúdo. Comen- tários. Porque foi? Como foi? Enterro complicado, au- tomóveis, todos os automóveis da praça, bondes espe- ciais. O discurso no cemitério, discurso empolado. E o túmulo com uma coluna partida. Muitos túmulos com colunas partidas. Colunas de mármore, colunas de cimento. Moço desvairado. Todos os mortos importa,n- tes eram colunas partidas. Julião Tavares era uma co- luna de mármore, partida. O capitel no chão, esverdi- nhando-se.

O corpo subia. No princípio o esforço não era gran- de demais. A cada movimento passavam no galho algu- mas polegadas da corda. Mas quando a massa obesa se elevou, as dificuldades foram enormes para correrem uns centímetros.

- Mais um pouco, mais um pouco.

Estas palavras não me deixavam. O corpo devia estar todo erguido, e os meus ossos estalavam. O galho curvava-se. Ia quebrar-se, atirar-nos ao chão. Tudo per dido. A polícia, a cadeia. Denunciar-me-ia no primeiro interrogatório. Segurei-me à corda, com o intuito de amarrá-la. Desceria. Livre do meu peso, o galho se ele- varia, os pés de Julião ficariam suspensos como os de Cirilo de Engrácia.

- Bem.

Apareceram vozes na estrada. Vozes? Ou seria que eu estava tresvariando? Alucinação. Não queria acredi- tar que pessoas normais se avizinhassem de mim sosse- gadamente. Agarrava-me com desesnero à corda.

- Trinta anos de prisão, trinta anos de prisão.

As grades que a gente não pode tocar, tão nojentas são elas, as esteiras, as cortinas de pucumã, os muros grossos, fome, sede, caldo de bacalhau, e nesta miséria José Baía fabricando piteiras, pentes de tartaruga, objetos miúdos de casca de coco.

- Vão-se embora. Vâo-se embora. Não venham, que se desgraçam. Um homem perdido não respeita nada.

O homem perdido ofegava apavorado. As vozes cada vez mais distintas, grossas, finas. Machos e fêmeas. Cer- tamente iam para a farra. Mentira. tudo mentira. Eu 195 não tinha trinta e cinco anos: tinha dez e estudava a lição dificil na sala de nossa. casa na vila. A sala enchia se de ruxnores estranhos que vinham de fora e saíam das paredes. Provavelmente eram os sapos do açude da Penha. Não eram sapos: eram homens e mu- lheres que se aproximavam. As palavras tornaram-se claras. Alguém dizia: - Deixa de luxo, minha filha. Será o que Deus quiser.

Não me lembro de outra frase. Risos, falas trun- cadas. O grupo foi-se chegando, passou por baixo da árvore. Uma pessoa bateu em Julião Tavares e res- mungou : - "Desculpe." A corda resvalou, recuou uns dez centímetros, com certeza Julião Tavares curvou-se um pouco na escuridão. Eú repetia baixinho: - Será o que Deus quiser.

Os meus dedos se imobilizavam, feridos, a corda molhada de suor ameaçava correr sobre o galho, em- borcar no chão úmido o corpo de Julião Tavares. Não o poderia levantar outra vez, a policia encontrá-lo-ia deitado nas folhas e iria farejar-me.

- Trinta anos de prisão. Trinta anos de prisão.

O riso de uma das mulheres que tinham passado sob a árvore estalou a alguns metros de distância. Es- taria mangando de mim? llãangando dos esforços que eu fazia para recuperar os dez centimetros de corda? Sentia que ia fraquejar, que a corda continuaria a es- corregar na madeira. Julião Tavares, inclinado para a irente, balançava. Seu Ivo andava assim, zambeta, ba- lançando, os olhos vidrados, sem ver ninguém. Outras gargalhadas, longe. Seria a mulher que tinha rido? Ou viriam outras pessoas falar debaixo da árvore, bater no ombro de Julião Tavares, pedir-lhe desculpa? Não havia perigo, não havia perigo, entrei a repetir baixinho que não havia perigo. Estava em segurança, escondido na folhagem, enrolado no nevoeiro. Podiam passar, parar, tocar em Julião Tavares, que se afastaria duro como uma marionete pesada demais.

- Não há perigo, nenhum perlgo.

Não havia outra coisa. E pareceu-me falta de senso comum alguém rir naquele lugar amaldiçoado. Porque amaldiçoado? Tanta import9ncia! Eu e Julião Tavares 196 Í éramos umas excrescências miseráveis. As risadas zom- beteiras extinguiam-se, distantes.

; - Lufs da Silva, Julião Tavares, isso não vale nada.

8ujeitos úteis morrem de morte violenta ou acabam-se nas prisões. Não faz mal que vocês desapareçam. Pro- priamente, vocês nunca viveram.

Ia adormecer entre as folhas, com os braços esti- rados, afastando-me da árvore para fazer contrapeso ao ; corpo de Julião Tavares. Apoia,va-me à curva da perna direita, presa ao galho. De quando em quando soltava a corda e ia pegá-la mais abaixo. A mão esquerda agüentava o peso, os dedos estavam a ponto de que- brar-se. Julião Tavares teria subido, ou a corda mergu- lhara no pescoço balofo? Qualquer movimento à-toa me faria perder o equilibrio. Abria os olhos desmedidar mente, mas tinha medo de virar a cabeça para ver o ' o corpo que se alongava e emagrecia.

- Sobe, Julfão Tavares. Para que serve essa resis- tência atrasada? Uma lentidão de lesma. Subitamente notei que o corpo subia e balançava. Passei rápido a corda pelo galho. Outra volta, outras voltas, um nó que me levou o resto da energia, e fiquei ali arquejando, desmanchan- do-me em suor. Desejaria achatar-me, confundir-me com as coisas moles e úmidas que os meus dedos tinham esmagado sobre a casca da árvore. Agora os dedos se- guravam mal aquele suporte incômodo e oscilante. Enor me preguiça e enorme sono prendiam-me ao galho. Creio que dormi uns munutos. Seria bom cair: talvez a queda sa,cudisse o torpor e me restituísse a vontade necessá- ria para entrar em casa e embriagar-me. Embriagar-me, naturalmente. Teria dormido? Meus parentes sertanejos dormiam montados, viajavam assim. Equilibrava-me não sei como. - "Currupaco, papaco. A mulher do ma- caco . . . " Vitória sonhava com as moedas escondidas em qualquer parte, depois que os canteiros tinham sido descobertos. Como me seria possfvel alcançar outm ramo? Pa,ssando a outro ramo, estaria em segurança.

8e pudesse retirar-me dali . . . Tive a idéia extravagan- te de chegar à cidade andando sobre as árvores.

- Em segurança, em segurança.

197 Evidentemente era preciso descer, mas isto me apa- vorava. Iá embaixo numerosos inimigos iam perse- guir-me. Necessário descer. Soltar-me-ia, tombaria como um macaco ferido. Os dedos inteiriçavam-se. Escanca- rei os olhos. O que vi foi o corpo de Julião Tavares deformado pela escuridão. Balancei a cabeça, enco- lhi-me com um arrepio, o receio de na queda tocar o corpo de Julião Tavares. Não caí. Escorreguei na ma- deira molhada, abracei-me a ela. Uma pancada no joe- lho, as pernas estrepando-se na cercã de pau-a-pique, um rasgão nas calças. Dei um salto para trás e caí sentado nas folhas secas. A idéia do perigo assaltou-me com tanta intensidade que me pus a soluçar. Tentei levantar-me, as pernas vergaram. Arrastei-me chorando, apalpando o chão, a procurar qualquer coisa. Procura- va o chapéu, caido na luta, mas não sabia o que pro curava. As carapanãs esvoaçavam-me em torno da ca- beça e picavam-me a carne moida. Encontrei um cha- péu, que não dava para mim, era pequeno demais. Atirei para longe, cheio de repugnã.ncia, o chapéu de Julião Tavares. Continuei a engatinhar, já agora sabendo per- feitamente que procurava o meu chapéu. Achei-o, ma,s ftcou-me a dúvida de que fosse o mesmo experimentado minutos antes. Não se acomodava bem na minha ca- beça. Rastejei ao longo da cerca. Alguns metros que me afastasse representavam uma conquista. Estava aborrecido com Moisés. Que me havia feito Moisés? Não me lembrava de nada, mas era certo que o judeu me pregara uma peça. Pareceu-me que ele rondava por ali, mangando de mim. Rastejando como as cobras! Nova tentativa e consegui levantar-me, lá fui caminhan- do lentamente, amparado à cerca. Faltou-me de repen- te o amparo, andei como uma criança que ensaia os primeiros passos. Se pudesse correr... Evidentemente o perigo crescia. Quantos metros teria percorrido? Es- tava certo de que homens e mulheres me acompanha- vam. Tinham passado por baixo da árvore, visto o ho- mem enforcado, iam encontrar-me e denunciar-me.

A gargalhada e a frase da mulher ufnazavam-me.

- Será o que Deus quiser, sem dúvida.

Um, dois, um, dois. Inútil. Não podia marchar. Um aleijado, um velho. Mais cem metros, e talvez fosse ir até a salvação. Horrivel atravessar os espaços iluminados.

Se alguém desembocasse de uma travessa e me reco- nhecesse? Desejava olhar para trás. Impossfvel. Conse- gui reunir uns restos de força e correr. Uma carreira bamba e trôpega, a boca aberta, contrações na carne enregelada. Corria e chorava, certo de que o esforço era perdido, porque o meu chapéu tinha ficado à beira do caminho, sobre as moitas. No dia seguinte passa- ria de mão em mâo e chegaria à minha cabeça.

- Trinta anos de cadeia.

Que utilidade tinha aquela carreira desengonçada e trêmula? Se me vissem correndo e chorando ali nos fundos dos quintais? Precisava pa,rar, mas as pernas, levadas pelo medo, não quiserarrt obedecer. Insuportá- veis os zumbidos e as ferroadas das carapanãs. Um chapéu muito pequeno. Dei um tropeção e estaquei.

Para que lado me dirigia? Ia para a cidade ou voltava para Beredouro? Inteiramente desorientado. Teria de passar outra vez pela árvore onde Julião Tavares se balançava? Vagar a noite inteira, como um judeu er- rante! Continuei a andar. Bem. Se me encaminhasse a Bebedouro, voltaria pela rodagem, entraria em casa antes do amanhecer. Apareceram luzes, as carolinas que enfeitam o canal, os eucaliptos da Levada. Avancei len- tamente até o bueiro, sentei-me. Estava ali um vagabun- do, que acordou com a minha chegada. Eu ia perse- guido por criaturas inexistentes, mas a presença da- quele vagabundo não me produziu medo.

- Boa noite.

A voz saiu-me abafada e incerta. Julião Tavares estava longe. Sacudi a cabeça para esquecê-lo e para afugentar as carapanãs. Exausto. Descansaria, entraria em casa dentro de alguns minutos, beberia aguardente, dormiria. A garrafa tinha ficado quase cheia. Embria- gar-me, dormir. Tentei cruzar as mãos sobre os joelhos mas os dedos feridos endureciam e qualquer contato era extremamente doloroso. Sem nenhum receio, dava as costas ao maloqueiro, escondia a cara instintiva- mente. As mãos grossas esquecidas nos joelhos pesavam em demasia. Levei-as aos bolsos, senti a ausência dos cigarros e a ausência da corda.

- Faz favor de me dar um cigarro? 200 O homem remexeu-se : - Hum! - Há muitas horas que não fumo. Para quem tem vicio . . . Desculpe. E a peste do cigarro que me faz falta. O senhor terá um por acaso? Olhei-o com um olho por cima do ombro, vi-o levantar a cabeça e bulir nos molambos.

- Realmente. .. E isso mesmo. Eu estava dor- mindo.

Depois de uma busca. derrorada, grunhiu: - Ah! Tome lá.

Estirei a mão ensangüentada e recebi o cigarro de fumo picado que se desmanchaoa: - Muito obrigado.

Encontrei a caixa dA fósforos, comecei a fumar.

A cabeça pesada parecia ter creseido. Tlrei o chapéu, examinei-o. Tive um susptro de alfvio: era o meu, todo machucado e sujo de lama. Pus-me a esfregá-lo com a aba do paletó.

- Muito obrigado. Sinto muito dar-lhe incômodo.

- Hem? Esta exclamação mostrou-me que o homem havia percebido em mim um animal diferente dele. As luzes da Nordeste cochilavam. Olhei a minha mupa. Estava imunda, com um rasgão no joelho, desarranjado. Mas usava palavras de gente bem vestida. - "8into muito dar-lhe incômodo." Para que tapeação? Queria fuma,r.

Bem. Voltariam as forças.

- Dorme aqui sempre? O homem virou-se e enrolou-se mais nos molambos.

Arrependi-me de ter feito a pergunta. Horriveis aqueles modos. Devia muito ao vagabundo. Chegaria a casa fa- cilmente, beberia, dormiria,, esqueceria, Julião Tavares.

- Não tive intenção de ofendê-lo. Foi uma pala- vra à-toa. O senhor me desculpa. Fazia horas que não iumava. Um grande favor, entende? Muito obrigado.

As minhas frases eram convencionais e não valiam o cigarro que se apagava a cada instante.

- estava dormindo, respondeu o maloqueiro.

Não tem de quê. Foi incômodo não. Boa noite.

801 Remoeu umas coisas guturais e começou a roncar.

Impossível qualquer aproxim.ação. O isolamento em companhia de uma pessoa era mais opressivo que a so- lidão completa. Parecia-me que aquele homem estava morto. Esta idéia afligiu-me tanto que desejei sacudi-lo, conversar com ele, explicar-me, convencê-lo de que es- tava agradecido.

- Diabo! murmurei. Eu também fui vagabundo, dormi nos bancos dos jardins e curti fome, mas nunca fui assim grosseiro.

Esqueci o benefício recebido, e novamente me sur- giu a idéia de que o homem estava morto. Levantei-me, entr ei na Rua do Apolo. O rasgão mostrava-me a ca- beça do joelho, o colarinho tinha-se desprendido da camisa, a roupa estava preta de limo e terra, as mãos estavam pretas de limo, terra e sangue. Se alguém me visse em semelhante desordem... O cigarro de fumo picado findava, a ponta colava-se aos beiços e quef- mava-os. Precisava entrar em casa. Aproximava-me, e não tinha certeza disto. As distâncias desapareciam.

O galho que sustentava Julião Tavares balançava por cima do bueiro, e Julião Tavares confundfa-se com o homem qu me havia oferecido o cfgarro. Um, dois, um, dois. Agora podia marchar. Com algumas pernadas es- taria em casa, mas a casa se afastava sempre. Veio-me um desânimo extraordinário. Quase a chegar, depois de esforços imensos, ia ser descoberto e agarrado. Um transeunte notaria o desarranjo da roupa, a gravata fora do lugar, o rasgão no joelho.

- Onde passou a noite de tal dia? - Em casa, na redação.

Perceberfam logo a mentira. Em seguida viriam perguntas insignificantes em tom mfsterioso, e eu me cansaria fnutilmente para desviar-me delas. Quando estivesse distrafdo, jogariam de novo a cofsa perversa: - Mas onde foi que o senhor passou a noite de tal dia? A testemunha, que me havfa encontrado com um tasgão no joelho e o colarinho desabotoado, arruma- ria o seu depoimento de cabeça bafxa, em poucas pala- vras para não cafr em contradição. Quem seria o advo- 202 gado? o dr. Fulano, o dr. Sicrano... Esses falavam de papo e tinham recursos para inutilizar o depoimento: - Que horas eram quando o senhor viu o acusado?

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal